Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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Walt abaixou-se, apoiado sobre um dos joelhos, imo­bilizando os braços de JeriLee contra o chão.

Subitamente, ela sentiu uma dor intensa num dos seios. Soltou um grito. Joe levantou o cigarro aceso. Ele estava sorrindo.

— Não gostou, não é?

JeriLee limitou-se a fitá-lo, incapaz de falar. Ele mo­veu-se rapidamente. Ela sentiu a dor intensa da queimadura no outro seio. Gritou novamente.

— Pode gritar até estourar, sua cadela! Ninguém vai mesmo ouvi-la. — Joe levou o cigarro à boca e deu uma tragada.

— Walt, por favor, pare esse homem. . . — implo­rou ela.

— Talvez seja melhor. .. — Walt não pôde continuar, pois Joe interrompeu-o bruscamente:

— Não se meta nisto! O negócio é entre mim e ela! Quando eu acabar, essa desgraçada nunca mais vai querer provocar nenhum homem! — Joe escarranchou-se sobre as pernas dela e brutalmente apertou o púbis de JeriLee com uma das mãos. Abriu-a com os dedos. Um estranho sorriso estampou-se no rosto dele. — Não é uma belezinha?

Ele abaixou a cabeça e mordeu-a. JeriLee tentou me­xer-se, mas não conseguiu. Joe levantou a cabeça e soltou uma risada.

— Nada mal. . . Um pouco molhada, mas nada mal... — Lentamente, começou a baixar o cigarro na direção dela. — Agora você vai experimentar algo realmente quente.

Fascinada, como se estivesse observando uma cobra, JeriLee ficou olhando para a brasa do cigarro, descendo em sua direção. Subitamente, ela sentiu o calor chegando perto e fechou os olhos com toda a força.

Eles ouviram o grito no momento em que o carro parou diante da casa. Saíram correndo e atravessaram a casa, quase antes que o ruído do motor cessasse.

Bernie foi o primeiro a passar pelas portas corrediças. Ficou paralisado de horror por um momento, vendo os dois rapazes segurando JeriLee e a boca desta ainda aberta no grito de dor. Balbuciou:

— Mas o quê. . . ?

Fred reagiu com os reflexos de um lutador de rua. Avançou rapidamente e desferiu um chute violento do lado da cabeça de Joe, levantando-o do chão e jogando-o de cos­tas contra o piso de concreto. Walt estava tentando levan­tar-se, mas Fred não lhe deu chance. Desferiu um soco vio­lento, acertando Walt em cheio no nariz e na boca, sentindo os ossos e dentes se quebrarem. Walt caiu de costas, como se tivesse sido abatido por um machado.

Fred ajoelhou-se ao lado de JeriLee, aninhando a cabe­ça dela em seus braços. Ela estava chorando de dor.

Por favor, não me machuquem. . . Não me machu­quem. . . — Os olhos dela estavam firmemente fechados.

— Está tudo bem agora — disse Fred, suavemente. — Ninguém vai mais lhe fazer mal algum.

— Fred! — gritou Bernie, alertando-o.

Fred virou-se, a tempo de ver Mike avançando em sua direção. Ele começou a levantar-se. Mas Bernie deu um pulo e atacou Mike por trás. Os dois caíram no chão, rolando. Joe estava de pé agora e avançava para Fred com algo na mão, que parecia ser uma pedra.

Fred virou-se rapidamente, enfiando a mão no bolso de trás da calça. A faca surgiu em sua mão como que por encanto. Ele apertou um botão e a lâmina pulou. A mão que empunhava a faca estava estendida para a frente.

— Dê mais um passo, seu branco azedo, e eu lhe corto os bagos.

Joe ficou imóvel,-fitando-o, a mão ainda levantada. Não era uma pedra que ele tinha na mão, mas um rádio portátil. Fred deu um passo para trás, agilmente, a fim de poder ver a todos.

— Arrume alguma coisa para cobri-la — disse ele a Bernie. — E depois vamos embora daqui.

Ele ouviu um barulho do outro lado da piscina. Marian estava se aproximando, cambaleando de tão embriagada, com uma garrafa de rum na mão.

— Mas o que está acontecendo com a nossa festa? — balbuciou ela.

— A festa acabou, boneca — disse Fred, com a voz cheia de desprezo.

Eles cobriram JeriLee com o que restava das roupas dela e com uma toalha, levando-a para o carro. Ela sentou-se entre os dois, tremendo e chorando, gemendo de dor, com a cabeça recostada no peito de Fred, enquanto Bernie guiava. Ainda estava chorando quando o carro parou diante de sua casa.

Quando Fred tentou ajudá-la a saltar do carro, ela não quis mexer-se.

— Tenho medo. . .

— Não há nada de que ter medo agora, JeriLee — disse ele, suavemente. — Está segura agora. De volta à sua casa.

Mas um instinto dizia a JeriLee que aquilo era apenas o começo do seu horror. E ela estava certa.
Capítulo onze

As palavras estavam rabiscadas com creiom preto na cerca branca de madeira:


JERILEE TREPA. JERILEE CHUPA.
John ficou olhando em silêncio para as palavras. A seu lado, Bobby ainda estava segurando o lenço manchado de sangue contra o nariz, apesar de a hemorragia já ter parado.

— Eu os vi escrevendo isso quando dobrei a esquina, papai.

— E quem eram? — perguntou John, sentindo uma náusea invadir-lhe o estômago.

— Eram garotos grandes — disse Bobby. — Eu nunca os tinha visto antes. Quando tentei impedi-los, eles me ba­teram.

John virou-se para o filho de doze anos.

— Há uma lata de tinta branca na garagem. Vá buscá-la. Talvez possamos pintar a cerca antes que sua mãe e JeriLee voltem das compras.

— Está bem, papai. Mas por que eles dizem essas coisas da minha irmã?

— Algumas pessoas são muito doentes, Bobby. E são estúpidas demais.

— O que eles fizeram é uma coisa horrível. Tenho vontade de matá-los.

John olhou para o filho. O rosto do menino estava sombrio.

— Vá buscar a tinta, Bobby — disse ele, suavemente.

O rapaz correu pelo gramado até a garagem. John vi­rou-se e olhou para um lado e outro da rua. Não havia nin­guém à vista. Meteu a mão no bolso e tirou um cigarro. Já se havia passado um mês desde aquela noite. A noite em que ele abrira a porta e deparara com dois rapazes seguran­do uma JeriLee apavorada e terrivelmente espancada. . .

O show noturno estava quase acabando quando toca­ram a campainha da porta. John levantou-se da poltrona em frente da televisão, onde estivera cochilando, e olhou para o relógio. Era uma hora da madrugada.

— Deve ser JeriLee — disse ele. — Ela provavelmen­te esqueceu a chave.

Verônica estava absorvida na televisão.

— Diga a ela para não ser tão esquecida da próxima vez. Poderíamos estar dormindo.

John seguiu pelo pequeno corredor que levava à porta da frente. A campainha tocou novamente.

— Já estou indo, querida — disse ele, girando a chave.

A porta se abriu sem que ele a puxasse. Por um mo­mento, John ficou paralisado de horror com a cena. JeriLee estava entre dois rapazes, as roupas rasgadas, o sangue es­correndo por uma das faces, quase até o alto de um dos seios expostos. Bernie enlaçava-a pela cintura, para impedir que ela caísse.

Havia uma expressão de terror nos olhos de JeriLee, quando ela balbuciou "Papai..." e deu um passo trôpego na direção dele.

John segurou-a antes que ela caísse. Sentiu o bater des­compassado e apavorado do coração da filha.

— Oh, Deus! — exclamou ele. — Mas o que acon­teceu?

O rapaz preto, a quem ele nunca vira antes, foi o pri­meiro a falar:

— Nós lhe contaremos tudo o que aconteceu, Sr. Randall. Mas é melhor chamar logo um médico para JeriLee. Ela está bastante ferida.

A essa altura, Verônica já se levantara e estava atrás do marido. Ao ver o estado da filha, deixou escapar um grito:

— John!


JeriLee virou-se para a mãe.

— Mamãe, eu. . .

Um tom de medo e de raiva surgiu na voz de Verônica:

— Em que confusão se meteu desta vez, JeriLee?

— Cale-se, Ronnie! — gritou John, rispidamente. — Telefone para o Dr. Baker e diga-lhe para vir até aqui imediatamente. — Sem esperar por uma resposta, pegou Jeri­Lee nos braços e levou-a para o quarto dela, no segundo andar. Colocou-a na cama, gentilmente.

JeriLee gemeu, baixinho. O que restava do vestido caiu, deixando à mostra as queimaduras de cigarro nos seios.

— Estou com medo, papai. . .

— Não há nada de que ter medo agora. Você está em casa. E segura.

— Mas dói muito, papai. . .

— Você já vai ficar boa, querida. O Dr. Baker está a caminho. Ele dará um jeito de parar a dor.

— Ele já está vindo para cá — disse Verônica, en­trando no quarto e olhando para JeriLee. — O que acon­teceu?

— Walt disse que ia trazer-me para casa. . .

Verônica não esperou que ela terminasse, dizendo, fu­riosa:

— Walt? E quem é esse Walt? Aquele rapaz preto que está lá embaixo? Você sabe muito bem que não deve meter-se com gente como ele!

— Não, mamãe — murmurou JeriLee, sacudindo a cabeça, debilmente. — Ele não é Walt. É Fred. E veio jun­to com Bernie para me salvar.

Verônica tornou a interrompê-la:

— Para salvá-la? E onde diabo você estava? Pensei que estivesse no seu trabalho!

John viu o medo surgir novamente nos olhos da filha.

— Pare com isso, Ronnie! —- disse ele, rispidamente. — Chega de perguntas. Vamos procurar aliviar-lhe um pou­co as dores, até o médico chegar. Vá buscar uma toalha e um pouco de água quente.

— Está tudo bem, querida — disse ele para JeriLee, assim que Verônica saiu do quarto.

— Não quero acordar Bobby — sussurrou JeriLee. — Não quero que ele me veja neste estado. . .

— Não se preocupe, querida. Nem mesmo um terre­moto consegue acordar seu irmão. — A campainha da porta soou. — Deve ser o médico — murmurou John, afastando uma mecha de cabelos da testa de JeriLee. — Você já vai ficar boa.

— Mamãe vai ficar zangada comigo. . .

— Não vai, não. Ela está apenas um pouco trans­tornada.

O Dr. Baker já tinha visto de tudo. Depois de quarenta anos de exercício da medicina, ele não tinha mais que es­perar por explicações. Sem dizer uma só palavra, abriu a maleta negra. Rapidamente, aplicou uma injeção em JeriLee. — Isso vai acabar com a dor, JeriLee — disse o mé­dico, empertigando-se e virando-se para John e Verônica. — Vocês dois podem descer, enquanto cuido dela.

— Ela vai ficar boa? — perguntou John.

— Claro que vai.

Eles desceram e foram para a sala de estar, onde Fred e Bernie estavam esperando.

— Como está ela? — perguntou Bernie.

— O Dr. Baker disse que ela vai ficar boa — infor­mou John. — Agora, contem-me o que aconteceu.

— JeriLee estava cansada e queria voltar cedo para casa — disse Bernie. — Walt disse que a traria até aqui, a caminho da casa dele. Walt estava com alguns amigos. Quando o senhor telefonou e descobrimos que ela ainda não tinha voltado para casa, Fred achou que alguma coisa estava errada. Foi então que decidimos ir procurá-la.

— E o que o fez pensar que havia alguma coisa erra­da? — perguntou John a Fred.

— Walt e os amigos dele tinham bebido bastante. Achei que eles estavam se comportando de maneira muito esquisita.

— Quem é esse tal de Walt de quem estão falando? — perguntou Verônica. — Nunca ouvi JeriLee mencioná-lo.

— Walt Thornton — disse Bernie. — Ele mora na casa que fica no fim do promontório.

— O filho do escritor? — perguntou John.

— Esse mesmo.

— O que aconteceu quando chegaram lá?

Foi Fred quem respondeu:

— Walt estava segurando-a no chão, enquanto o outro rapaz fazia coisas com ela. JeriLee estava gritando tão alto que pudemos ouvi-la do outro lado da casa.

O rosto de John estava extremamente tenso. Ele pegou o telefone.

— O que vai fazer? — perguntou Verônica.

— Vou ligar para a polícia.

— Espere um instante — disse ela, tirando o fone da mão dele e voltando a pô-lo no gancho. — Ainda não sabe­mos se eles fizeram mesmo alguma coisa com ela.

John olhou-a com uma expressão espantada.

— Mas você viu o que eles fizeram! Comportaram-se como animais. Torturaram-na. Acha que isso não é sufi­ciente?

— Você os viu fazendo alguma coisa? — perguntou Verônica a Fred, a voz estranhamente calma.

— Não sei o que está querendo saber, senhora — disse Fred, com o rosto impassível.

— Você os viu tendo relações com ela? — perguntou Verônica, corando.

— Não, senhora. E não creio que tenham chegado até esse ponto.

— Está vendo? — disse ela, virando-se para o marido. — Eles não fizeram nada!

— Eles fizeram até demais! — berrou John, furioso.

— Se telefonar para a polícia, todo mundo na cidade vai saber o que aconteceu — disse Verônica. — E não creio que o Sr. Carson vá gostar.

— Não me importo com o que o Sr. Carson possa gos­tar ou não!

— Além disso, não sabemos o que JeriLee pode ter feito para provocá-los.

— Acredita mesmo nisso?

— É a primeira coisa que os outros vão pensar. Co­nheço esta cidade e você também.

John ficou em silêncio por um momento.

— Está bem. Vou esperar até o médico descer. Vere­mos o que ele têm a dizer. — John virou-se para os rapazes.

— Não sei como lhes agradecer pelo que fizeram. Se não fosse por vocês...

Os rapazes ficaram embaraçados. Verônica pergun­tou-lhes:

— Gostariam de tomar um café ou alguma outra coisa?

Fred sacudiu, a cabeça.

— Não, obrigado, senhora. Tenho que voltar para o clube. Eles devem estar preocupados com a minha ausência. Só vou esperar mais um pouco, para saber o que o médico tem a dizer.

— Não precisam esperar — disse Verônica. Subita­mente, ela queria que os dois rapazes saíssem logo de sua casa. Se algo mais acontecera a JeriLee, ela não queria que eles soubessem. — Eu lhes telefonarei pela manhã.

Bernie hesitou. Olhou para Fred, depois assentiu.

— Está certo — disse ele finalmente.

Os dois se encaminharam para a porta. Verônica pigarreou.

— Eu agradeceria se não dissessem nada a ninguém. Esta é uma cidade pequena. Creio que sabem como as pes­soas costumam comentar essas coisas, já que não têm mais nada sobre o que falar.

— Não precisa ficar preocupada por nossa causa, Sra. Randall — assentiu Bernie. — Não vamos contar nada.

Assim que a porta se fechou, John aproximou-se da esposa.

— O Dr. Baker está lá em cima há bastante tempo, Ronnie.

— Ele subiu há apenas quinze minutos — disse ela, olhando para a escada e depois tornando a fitar o marido. — Não sei como JeriLee pôde meter-se numa situação dessas.

— Você ouviu o que os rapazes contaram, Ronnie. O tal de Walt tinha prometido trazê-la para casa.

— E acredita mesmo nisso?

— Acredito.

— Pois eu não acredito — disse Verônica. — Conhe­ço JeriLee. Ela é mais parecida com o pai do que eu gos­taria de pensar. Ele nunca atentou para as conseqüências de seus atos, assim como JeriLee. Creio que ela sabia exata­mente o que estava fazendo.

— Não está sendo justa para com ela — disse John, furioso. — JeriLee é uma boa menina.

Como ele era ingênuo, pensou Verônica.

— Vamos esperar para ver o que o médico nos diz, John. Enquanto isso, vou fazer um café.

Verônica tinha acabado de pôr o café na mesa, quando o Dr. Baker desceu.

— Ela está bem — informou ele. — Está dormindo agora. Apliquei-lhe uma injeção para isso.

— Aceita um café, doutor? — perguntou Verônica.

Ele assentiu, com uma expressão de cansaço.

— Obrigado.

Verônica encheu uma xícara e entregou-lhe. Depois serviu outra xícara para John e uma para si.

— Eles. . .? — perguntou ela.

— Não — respondeu o médico, fitando-a.

— Ela ainda é virgem?

— Se isso é tudo o que a preocupa, pode ficar tran­qüila que ela ainda é virgem — disse o médico, irritado.

— Então nada aconteceu — murmurou Verônica, aliviada.

— Nada aconteceu? — repetiu o médico, sarcasticamente. — Tem razão, nada aconteceu, se não levarmos em consideração a surra violenta e as queimaduras quase de terceiro grau nos seios e no púbis, além de um nariz que­brado e marcas de dentes, que parecem ter sido deixadas por um animal selvagem.

— Vou ligar para a polícia — disse John. — Eles não podem escapar impunes.

— Não faça isso! — disse Verônica, firmemente. — O melhor que temos a fazer é esquecer tudo. Ainda não sabemos o que ela fez para provocá-los. E mesmo que ela não tenha feito coisa alguma, você sabe o que as pessoas irão pensar. Sempre acham que a culpa é da moça.

— Acha que será isso mesmo, Dr. Baker? — pergun­tou John.

O médico hesitou. Sabia como John estava se sentindo. Ele se sentiria da mesma maneira, se ela fosse sua filha. Mas Verônica estava certa. A melhor coisa era tratar de esquecer.

— Receio que sua esposa esteja com a razão, John. As pessoas reagem de maneira muito estranha a essas coisas.

John contraiu os lábios, muito tenso.

— Quer dizer que deixaria os rapazes escaparem com­pletamente impunes?

— Talvez possa discutir o assunto com os pais deles, confidencialmente —- sugeriu o médico.

— E de que adiantaria isso? Tenho certeza de que os rapazes encontrariam uma maneira de atribuir toda a culpa a JeriLee.

— Foi exatamente isso o que eu quis dizer — inter­veio Verônica, rapidamente. — E qualquer que seja o resul­tado, a cidade toda tomará conhecimento do que aconteceu. Continuo a dizer que o melhor é esquecermos tudo.

John olhou para a esposa. Era como se a visse pela primeira vez. Verônica estava mais assustada e mais calculis­ta do que ele jamais imaginara. Quando ele falou, sua voz estava carregada de angústia:

— Talvez nós possamos esquecer. E JeriLee? Será que ela também conseguirá esquecer?



Capítulo doze

— Você e sua maldita mania de bancar o garoto bo­nito! — murmurou Jack, furioso, enquanto jogava suas rou­pas na valise de couro toda rachada.

Fred acendeu um cigarro, sem dizer nada.

— É melhor arrumar suas coisas, Fred. — Jack em­pertigou-se. — O homem nos deu até meio-dia para irmos embora.

— Vou dar uma volta, Jack — disse Fred, levantando-se.

Ele piscou, quando o sol da manhã bateu em cheio nos seus olhos. Não havia uma única nuvem no céu. Ia ser um dia escaldante. Atravessou o estacionamento e seguiu para a praia, contemplando o mar.

A água tremeluzia entre verde e azul, e pequenas ondas de crista branca se desmanchavam nas areias desertas. Fred tirou os sapatos e enrolou as pernas da calça até os joelhos. Segurando os sapatos com uma das mãos, começou a andar pela beira d'água. Respirou forte, sentindo o ar do mar pe­netrar-lhe até o fundo dos pulmões. Jack tinha razão. Era um mundo maravilhoso. . . desde que se fosse branco. Não havia nada parecido com aquilo lá no Harlem.

Menos de uma semana se havia passado desde aquela noite. O dia seguinte fora tranqüilo. JeriLee não fora tra­balhar e Walt e seus amigos também não tinham ido ao clube. Nem mesmo Marian Daley havia aparecido. E então, de tarde, os rumores começaram a se espalhar.

Um dos rapazes que viera visitar Walt Thornton es­tava ferido num hospital em Jefferson, a cerca de cinqüenta quilômetros de Port Clare. Tinha um molar quebrado, o queixo fraturado e diversas costelas deslocadas. Os ferimen­tos haviam sido declarados como conseqüência de um aci­dente, uma queda de mau jeito. Talvez a coisa passasse des­percebida, se Walt não tivesse também diversos cortes e escoriações. Era mais do que o suficiente para que come­çassem a fazer perguntas.

Enquanto isso, a mãe de Marian Daley estivera pro­curando por ela em toda a cidade, ligando para as amigas da filha. Marian não voltara para casa na noite anterior. Pela manhã, a mãe começou a ficar preocupada. Descobriu finalmente que a filha fora até a casa de Walt e telefonou. Como ninguém atendesse, resolveu ir de carro até lá.

Tocou a campainha da porta da frente, mas ninguém veio atender. Verificando que a porta não estava trancada, ela entrou. Não encontrou ninguém no andar térreo da casa e foi até as portas corrediças que davam para a piscina. Havia ali uma confusão total, com cadeiras viradas e garra­fas quebradas. Ficou parada ali por um momento, perplexa, depois voltou para a sala e pegou o telefone, a fim de ligar para a polícia. Nesse momento ouviu um barulho num dos quartos do segundo andar.

Chegou ao alto da escada no momento em que Marian saía do quarto. A moça encontrava-se totalmente nua. Fi­caram paradas ali, fitando-se, inteiramente aturdidas pela surpresa, quando um rapaz que ela não conhecia apareceu na porta do quarto, por trás da filha. Ele também estava nu. A Sra. Daley foi a primeira a recuperar a voz.

— Vista-se, Marian, e venha comigo! — Depois, sem esperar resposta, ela se virou e desceu a escada, indo es­perar no carro lá fora.

Alguns minutos depois, Marian saiu da casa e sentou-se no carro, ao lado da mãe, em silêncio. Sem dizer uma palavra, a mãe ligou o carro e deu a partida. Só quando tinham chegado à rua é que a Sra. Daley falou.

— Desta vez, Marian, você se excedeu. Quando seu pai descobrir o que aconteceu, não sei o que ele poderá fazer.

Marian começou a chorar. Ela levou apenas dois mi­nutos para contar a sua versão dos acontecimentos. A mãe não a interrompeu. Ao final, lançou um olhar rápido para a filha e perguntou:

— Quer dizer que JeriLee veio com você?

— Veio, mamãe. íamos apenas nadar um pouco. Foi então que Bernie e Fred apareceram inesperadamente. Hou­ve uma briga terrível e eles levaram JeriLee.

— Onde é que estão Walt e o outro rapaz?

— O outro rapaz ficou tão ferido que Walt o levou para o hospital de Jefferson.

— Por que aquele negro foi até lá?

— Não sei, mamãe. Mas JeriLee é muito amiga dele. Estão sempre juntos lá no clube.

— Eu disse ao Sr. Corcoran, quando ele os contratou, que nunca se pode confiar em negros. Eles não têm o menor respeito pelas outras pessoas.

— O que vai contar a papai?

— Ainda não sei. Ele vai ficar furioso quando desco­brir que havia um negro, presente e que a viu sem roupas. Mas, primeiro, vou ter uma conversa com a mãe de JeriLee e descobrir se ela sabe o que a filha anda fazendo. Depois, vou ter uma conversinha com Corcoran. Se ele quiser man­ter os sócios do clube, é melhor encontrar um meio de se livrar daqueles negros.

O telefone da escrivaninha tocou no momento mesmo em que John Randall voltou do almoço. Ele atendeu.

— Randall falando.

— John?


A voz de Verônica estava claramente transtornada. John foi invadido por um medo súbito.

— JeriLee está bem?

— Está, sim. Mas acabei de receber um telefonema da Sra. Daley. Ela me disse que aquele rapaz está no hospital em Jefferson e que foi severamente espancado.

— Mas que pena! — disse John, sarcasticamente. — Se eu estivesse presente, tenha certeza de que o teria matado.

— O problema não é esse, John. Ela disse que Jeri­Lee era muito amiga daquele rapaz preto e que os dois an­davam saindo juntos. Foi por isso que ele foi até lá, porque estava com ciúmes de JeriLee.

— Mas isso é um absurdo!

— Ela disse que Marian estava presente. E que JeriLee quis fazer parte do grupo. Ninguém falou nada sobre levá-la para casa.

— Marian Daley é uma mentirosa descarada!

— Ela me perguntou se JeriLee chegou a casa direito.

— E o que foi que lhe disse?

— Eu disse que sim. Ela quis então saber quem a tinha trazido para casa. Eu contei. Ela disse que ia até o clube, para falar com o Sr. Corcoran e exigir-lhe que man­dasse embora a orquestra de pretos. E disse também que eu devia ser mais rigorosa com JeriLee e não a deixar relacio­nar-se com gente desse tipo.

— Não podemos deixar que façam um mau juízo do que aconteceu. O rapaz merece uma medalha pelo que fez. Ligue novamente para ela e conte-lhe exatamente o que aconteceu.

— Não posso fazer uma coisa dessas, John. Além do mais, ela não acreditaria em mim. Pensa que JeriLee foi até lá com a filha dela, porque assim o queria. E mesmo que ela acreditasse, a história iria espalhar-se pela cidade como fogo em capim seco.

— É melhor isso do que deixar que o rapaz perca o emprego por algo pelo qual não é responsável.

— Ninguém acreditaria, John. Todos vão pensar que a culpa é de JeriLee. Nunca mais conseguiríamos andar de cabeça levantada nesta cidade. E você sabe como o Sr. Carson é com relação aos empregados do banco. Só uma pala­vra desfavorável e estaremos liquidados.



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