Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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— Ele acreditará na verdade, se eu lhe contar. E acho que é melhor ir conversar com ele logo de uma vez, antes que a história se espalhe.

— Acho que deve procurar ficar fora disso, John.

— Não adianta. Já estou afundado até o pescoço. E não posso deixar que aquele rapaz sofra por ter salvo mi­nha filha de ser violentada.

John desligou e foi até os fundos do banco, batendo na porta de vidro do gabinete do Sr. Carson. A voz do pre­sidente do banco veio de trás da porta fechada:

— Entre.


John abriu a porta e deu meio passo para o interior do gabinete. Parado no limiar da porta, perguntou polida­mente:

— Sr. Carson, tem um momento disponível?

O Sr. Carson levantou os olhos e disse cordialmente:

— Claro, John. Minha porta está sempre aberta para você. Já lhe disse isso.

John assentiu, embora soubesse que não era verdade. Fechou a porta cuidadosamente.

— Trata-se de um problema pessoal, Sr. Carson.

— Não posso dar nenhum aumento agora, John. Você conhece a nossa política. Só fazemos a revisão salarial uma vez por ano.

— Eu sei, Sr. Carson. O problema não é esse. Estou satisfeito com minha remuneração.

— Fico contente em saber disso, John. — Carson sor­riu — As pessoas parecem que não ficam mais satisfeitas com coisa alguma. — Apontou para a cadeira em frente à mesa. — Vamos, John, sente-se. Sobre o que deseja falar-me?

— É um assunto confidencial, Sr. Carson.

— Não precisava dizer isso, John. Tudo o que me falar permanecerá entre estas quatro paredes.

— Obrigado, Sr. Carson. Quero falar-lhe sobre minha filha, JeriLee.

— Nem precisa falar, John. — Carson suspirou. — Também tenho filhos. Só nos dão problemas e mais pro­blemas.

John perdeu a paciência e explodiu:

— Ela foi espancada e quase violentada ontem à noite!

— Oh, meu Deus! — O choque de Carson era ge­nuíno. — E ela está bem?

— Está, sim. O Dr. Baker cuidou dela. Disse que vai ficar boa.

Carson tirou um lenço do bolso e enxugou a testa.

— Graças a Deus! É um homem afortunado, John. — Ele pôs o lenço em cima da mesa e acrescentou: — Não sei o que vai acontecer com este mundo, do jeito que as coisas estão indo. . . Espero que tenha apanhado o bandido responsável.

— É esse justamente o problema, Sr. Carson. Verô­nica acha que não devemos denunciar nada à polícia, pois isso só serviria para expor JeriLee à vergonha pública.

— Talvez ela tenha razão em parte, John. Mas não se pode deixar um homem assim escapar impune. Nunca se sabe quem poderá ser sua próxima vítima.

— É exatamente isso que eu sinto, Sr. Carson. Mas a situação agora está bem pior. Um dos rapazes que salvou JeriLee está prestes a perder o emprego, só porque tentou ajudá-la.

Carson não era totalmente estúpido e o instinto disse-lhe que devia procurar saber mais detalhes sobre o que acontecera.

— Não quer contar-me a história desde o início, John?

Ele ficou escutando em silêncio, enquanto John con­tava o que acontecera.

— Não entendo como Marian Daley pode estar envol­vida na história — disse ele, quando John terminou.

— Ao que parece, ela estava presente quando tudo aconteceu. JeriLee disse que ela continuou na casa, depois que eles foram embora.

— E eles fizeram alguma coisa com ela?

— Não sei.

— E como foi que a mãe dela soube da história?

John deu de ombros. O banqueiro ficou calado por um momento. Seria um problema dos mais simples, se John não fosse funcionário do banco.

— Já falou com a polícia, John?

— Era o que eu ia fazer, mas Verônica disse para esperar um pouco. Talvez seja melhor eu falar logo de uma vez.

— Não faça isso, John..Acho que será muito melhor se resolvermos as coisas particularmente.

— E como posso fazer isso? Não posso chegar para o Sr. Thornton e dizer-lhe: "Seu filho tentou violentar minha filha". E não posso procurar o Sr. Daley para declarar-lhe que a filha dele é uma mentirosa.

— Tem razão, John, não pode mesmo — comentou Carson, pensativo.

— Enquanto isso, aquele pobre rapaz vai perder o em­prego.

— Normalmente, John, eu jamais diria tal coisa. Mas tendo em vista as circunstâncias, sou obrigado a concordar com a Sra. Randall em que a melhor atitude é deixar as coisas como estão e esperar que todos esqueçam. Como fun­cionário do banco, você sabe que o Sr. Thornton faz vul­tosos depósitos aqui e que o Sr. Daley, como construtor de casas, carreia para nós uma porção de excelentes negócios. Uma coisa dessas poderia levá-los a fazer transações com outros.

— Mas Isso seria uma estupidez!

— É claro que sim, John. Mas você sabe como são os clientes. Nós podemos perdê-los pelos motivos mais absur­dos e sem importância. E acontece que esses dois clientes são muito importantes para nós.

— E devo deixar então que o rapaz perca o emprego?

— Vou conversar com Corcoran e verei o que posso fazer. — Carson levantou-se e contornou a mesa, pondo a mão no ombro de John. — Sei como se sente, mas acredite em mim. Há certas coisas que é melhor não falar. De qualquer maneira, o rapaz só ia mesmo passar algumas se­manas aqui. E nós temos que continuar a viver nesta cidade.

John não respondeu. Carson retirou a mão do ombro dele e sua voz assumiu um tom mais profissional:

— Já ia me esquecendo, John. Ouvi dizer que as auto­ridades estaduais talvez nos façam uma visita de surpresa, para fiscalizar o banco. Gostaria que você revisasse todas as contas, só para certificar-se de que está tudo em ordem.

— Vou começar a trabalhar nisso agora mesmo, Sr. Carson — disse John, levantando-se.

— Ótimo. O importante é que sua filha esteja bem. Não se preocupe com mais nada. As coisas costumam resol­ver-se por si mesmas.

— Obrigado, Sr. Carson.

John voltou para sua mesa e sentou-se, dominado por uma estranha sensação de inutilidade. Carson nada faria. Tinha certeza disso. Ele o dissera bem claramente. Os negó­cios do banco vinham em primeiro lugar. Como sempre.

A Sra. Daley levou apenas quatro dias para conseguir fazer com que Fred fosse despedido.


Capítulo treze

JeriLee estava sentada na varanda quando o Dr. Baker chegou. Ao vê-la, ele constatou que a capacidade de recupe­ração dos jovens nunca deixava de surpreendê-lo. O inchaço ao redor do nariz já desaparecera quase completamente e as manchas.arroxeadas por baixo dos olhos já não existiam.

— Eu não esperava vê-la aqui fora, JeriLee.

— Estava cansada de ficar no quarto.

Ele subiu os degraus para a varanda.

— Como está se sentindo?

— Muito melhor. Vou ficar com cicatrizes no. . . ? — Ela não concluiu a pergunta.

— Não, JeriLee. Ficará por algum tempo com man­chas brancas nos lugares em que foi queimada, mas mesmo isso acabará desaparecendo.

— Que bom! — murmurou JeriLee, visivelmente aliviada. — Eu estava começando a ficar preocupada. O aspecto é horrível.

— Estou achando que está mesmo melhor, JeriLee. — O Dr. Baker soltou uma risada. Era bom ver que ela estava recuperando a vaidade. — Agora vamos entrar. Quero examiná-la.

Subiram para o quarto de JeriLee. Ela despiu-se sem o menor constrangimento e enrolou-se numa toalha. O Dr. Baker acendeu o seu pequeno refletor, embora realmente não precisasse dele. Mas achava que, assim, o seu exame parecia mais profissional. JeriLee estendeu-se na cama e ele removeu os curativos. Cuidadosamente, limpou o ungüento e examinou as queimaduras. Depois de um momento, assentiu, satisfeito.

— Está se recuperando muito bem, JeriLee. Acho que não precisa mais usar curativos. Procure apenas não usar roupas que possam irritar os locais queimados.

— Está se referindo ao sutiã?

O médico assentiu.

— Mas não posso fazer isso.

— E por que não? Ninguém pode ver nada por baixo

— Não é isso, Dr. Baker. É que balança demais. E fico constrangida.

— Pois passe a andar mais devagar e nada acontecerá — disse o médico, rindo. — Não preciso mais vir aqui, JeriLee. Apareça em meu consultório dentro de uma semana e veremos se está tudo bem.

— Sim — disse ela, sentando-se na cama. — Posso voltar ao trabalho?

— E você quer voltar?

— Quero.

— Pode encontrar-se novamente com aqueles rapazes.

— Não tenho medo deles. E tenho certeza de que não vão mais tentar coisa alguma. Além disso, não posso ficar o tempo todo trancada dentro de casa.

— Pode voltar ao trabalho, se é o que está querendo. Mas não se esforce demais. Ainda não recuperou totalmente suas forças.

— Pensei em esperar acabar o fim de semana e só voltar ao trabalho na segunda-feira. É mais calmo no início da semana.

— Está certo, JeriLee. Mas quero que não hesite em me telefonar, se precisar de alguma coisa.

— Obrigada, doutor.

A moça ficou olhando para a porta fechada, depois que o médico saiu. Só deixou a cama um minuto depois. Sen­tia-se ligeiramente perturbada. Bernie e Fred vinham tele­fonando todas as manhãs. Naquela manhã, porém, ela não recebera nenhum telefonema. Meteu-se num roupão, desceu a escada e, num pressentimento súbito, decidiu telefonar para a casa de Bernie. Ao atender, ele disse:

— Já ia telefonar para você, JeriLee.

Ela olhou para o relógio. Eram onze horas.

— Por que não está no trabalho, Bernie?

— Corcoran nos despediu.

— A você e Fred? — indagou JeriLee, alteando a voz, surpresa. — Mas por quê?

— Não sei. Mas a mãe de Marian andou falando o diabo. Só Deus sabe a história que Marian contou para ela.

— Onde está Fred?

— Está no clube, fazendo as malas. Eles despediram todo o conjunto.

— Tenho que ir vê-lo. Pode levar-me até lá, Bernie?

Ele hesitou por um momento.

— Fred está bastante perturbado com o que aconte­ceu, JeriLee.

— E eu também estou. Vai me levar ou não?

— Está certo. Quando?

— Agora mesmo. Estarei pronta dentro de dez mi­nutos.

— Fred! Fred! — A voz dela veio flutuando sobre as dunas.

JeriLee estava parada no alto da pequena elevação que separava a praia da sede do clube. Ele ergueu a mão e ace­nou, ficando à espera de que ela descesse até a praia. Tinha mesmo um jeito simples e animal de caminhar, pensou Fred, contemplando-a. O rapaz saiu da água e foi encontrar-se com ela na areia.

Sem dizer nada, JeriLee segurou-lhe a mão. Ele ficou imóvel por um momento, sentindo o calor dos dedos dela. Depois, ainda de mãos dadas, começaram a caminhar pela beira da água.

— Não é justo — disse ela, depois de algum tempo. Os olhos de Fred procuraram os dela. Sua voz era suave:

— Nada é justo, menina.

— Por que me chama assim?

— Porque é justamente isso o que você é. Uma garotinha, uma menina que está começando a crescer, está ten­tando ser mulher, por causa do seu tamanho.

— Talvez você esteja certo, Fred. É assim que às vezes me sinto.

Eles ficaram em silêncio por alguns minutos. Depois, JeriLee voltou a falar:

— Não podem fazer isso com você.

— Eles já fizeram — disse Fred, com um sorriso.

— Mas vão voltar atrás, se souberem da verdade. Não sei o que a mãe de Marian contou, mas tenho certeza de que o Sr. Corcoran irá contratá-los novamente, quando eu contar a ele o que realmente aconteceu. Você vai ver só!

— Não vai contar coisa alguma àquele desgraçado! — disse Fred, furioso.

Ela fitou-o, surpreendida com o tom. Fred não tivera intenção de assustá-la. Mas é que ela não ouvira as histórias que a Sra. Daley e o Sr. Corcoran haviam contado. Subita­mente JeriLee se transformara na vilã da história, enquanto Marian se revestira com um halo de santidade.

— Não se preocupe, JeriLee. Arrumarei outro emprego.

Ela estacou bruscamente.

— Mas, onde eu arrumarei outro amigo como você?

As palavras dela tocaram fundo no coração de Fred e subitamente os olhos dele ficaram cheios de lágrimas.

— É uma garota maravilhosa, JeriLee. Pode estar cer­ta de que vai descobrir muitos amigos, ao longo de sua vida. — Ele virou-se e olhou para o mar. Receava que, se a fi­tasse, poderia tomá-la nos braços, perdendo assim uma coisa que realmente nunca tivera. — Este lugar é tão bonito. . . — murmurou. — Tão pacífico...

JeriLee hão disse nada.

— Acho que é disso que mais sentirei saudade, de andar sozinho pela praia, descalço, bem cedinho, antes de as pessoas acordarem, e virem para cá estragar tudo. . . Não há nada parecido com isso no Harlem.

— Nunca mais irá voltar para me visitar, Fred?

Ele largou a mão dela.

— Não tenho nada que fazer aqui, Além disso, estarei muito ocupado, trabalhando o verão inteiro e voltando para a escola em setembro.

— Mas você tem que ter um dia de folga, mais cedo ou mais tarde.

— JeriLee, pelo amor de Deus, deixe-me em paz!

Ele viu as lágrimas surgirem nos olhos dela, mas conteve-se e não chegou perto.

— Tenho de voltar e terminar de arrumar minhas coi­sas ou perderemos o ônibus para Nova York.

JeriLee assentiu, recuperando o autocontrole.

— Eu o acompanharei até o clube, Fred.

Eles só viram os guardas quando estavam no alto da duna. Eram dois guardas uniformizados e se dirigiram para eles. O mais alto olhou para Fred e perguntou:

— Você é Fred Lafayette?

Fred olhou para JeriLee, antes de responder:

— Sou, sim.

O guarda tirou um papel do bolso.

— Tenho um mandado de prisão contra você.

Fred pegou o mandado, sem olhá-lo.

— Sou acusado de quê?

— De agressão e ferimentos com uma arma letal con­tra a pessoa de um certo Joe Herron, na noite de 10 de julho. Virá conosco quietinho ou teremos que algemá-lo?

— Pode ficar tranqüilo que não criarei a menor con­fusão — disse Fred.

— Ótimo, rapaz — disse o guarda, relaxando. — Pois vamos indo.

JeriLee finalmente recuperou a voz.

— Para onde o estão levando?

— Para a cadeia do condado, em Jefferson.

— Conheço o chefe Roberts. Posso falar com ele?

— Pode falar com quem quiser, moça, mas não vai adiantar nada, neste caso. Estamos fora da jurisdição do xerife.

— Não se preocupe, Fred. Falarei com meu pai. Ele dará um jeito.

— Fique fora disso, JeriLee. Deixe que eu mesmo resol verei tudo sozinho.

— Como posso ficar de fora, Fred? Já estou metida nisto!


Capítulo catorze

O Juiz Winsted olhou para o relógio de bolso de ouro, muito antigo, que o pai lhe dera cinqüenta anos antes, quando ele se formara em direito.

— Quinze para uma — anunciou ele, fechando a tam­pa do relógio ruidosamente e tornando a guardá-lo no bolso. — É a primeira vez, desde a guerra, que Carson se atrasa.

— Deve ter acontecido algo muito importante para atrasá-lo desse jeito — assentiu Arthur Daley.

O almoço mensal dos três tornara-se mais que um sim­ples ritual. Na terceira sexta-feira de cada mês, eles se reu­niam e examinavam todos os problemas da cidade. Juntos, formavam o núcleo do poder que movimentava Port Clare. Nada podia ser realizado sem a aprovação deles. Embora nenhum dos três jamais tivesse concorrido ao cargo de pre­feito, todos sabiam, até mesmo os políticos, que a única maneira de realizar alguma coisa na cidade era por inter­médio deles.

— Quer tomar outro drinque? — perguntou o juiz.

— Não, obrigado. Tenho que ir dar uma olhada numa das minhas obras às duas horas. É preciso estar com a cabeça bem clara na ocasião.

— Pois eu vou tomar outro — disse o juiz, fazendo um sinal para o garçom. — Como estão indo as coisas?

— Muito bem. Devo ter as dez primeiras casas prontas em setembro.

— Isso é ótimo.

— Mas ainda estou esperando a aprovação do condado para os encanamentos de água e esgotos.

— A prefeitura já aprovou?

Daley assentiu.

— Então não há problema — garantiu o juiz. — Fala­rei com o pessoal de lá para resolver logo de uma vez.

— Isso será ótimo.

— E como vai ser o financiamento? — perguntou o juiz.

— Ainda não sei. Quero primeiro conversar com Car­son. Trinta mil dólares é um preço bastante elevado para financiamento. Mas se eu vender as casas mais barato, não teremos lá o tipo de pessoas que estamos querendo.

— Não podemos deixar que isso aconteça. Temos a responsabilidade, perante a comunidade, de não permitir que os nossos padrões sejam rebaixados.

— Tem toda a razão — disse Daley, secamente.

Os dois achavam que a melhor maneira de manter os indesejáveis longe de Port Clare era cobrar-lhes um preço exorbitante, além do alcance deles. O juiz levantou os olhos.

— Lá está Carson.

O banqueiro aproximava-se rapidamente. O rosto es­tava vermelho. Ele desabou numa cadeira, sem pedir des­culpas.

— Preciso de um drinque urgente — disse ele.

Os outros nada disseram, esperando que ele tomasse o primeiro gole do scotch. Só depois de pôr o copo em cima da mesa é que Carson voltou a falar.

— Temos problemas. — Não esperou que os outros dois fizessem qualquer pergunta, continuando imediatamente em tom irritado: — Foi sua esposa que começou tudo, Daley. Por que não me consultou antes de deixar que ela fizesse o que bem-queria?

Daley estava realmente surpreso.

— Mas não tenho a menor idéia do que você está falando!

— Estou falando sobre aquela coisa que aconteceu na casa de Thornton, na noite do último domingo.

— Mas que coisa?

— Quer dizer que não sabe?

Daley sacudiu a cabeça.

— Sua filha e JeriLee Randall saíram do clube e foram para lá. Ao que parece, dois rapazes tentaram violentar JeriLee. Estavam espancando-a quando apareceram dois ami­gos dela. Um era o garoto de Murphy e o outro um negro da orquestra do clube. O negro mandou um dos rapazes para o hospital de Jefferson.

— Não consigo entender o que minha esposa tem a ver com essa história.

— Ao que parece, sua esposa descobriu a história e resolveu acabar com a raça do negro. Ela não descansou enquanto Corcoran não despediu o garoto de Murphy e o negro. Se ela tivesse parado por aí a situação não estaria tão ruim assim. Eu ainda poderia controlar as coisas. Já tinha convencido Randall a não fazer nada. Mas depois sua esposa convenceu os pais do rapaz a apresentarem uma quei­xa de agressão contra o negro. Ele foi preso esta manhã pela polícia do condado. E agora JeriLee diz que vai ao tri­bunal para apresentar queixa contra o filho de Thornton e os dois amigos dele. E disse também que vai testemunhar a favor do negro. Se isso acontecer, Port Clare terá o tipo de publicidade que temos de evitar a qualquer custo. Não há nada como uma acusação de tentativa de estupro, contra o filho de um dos mais importantes escritores do país, para fazer as manchetes de todos os jornais.

— E não há um meio de convencê-la a não fazer isso? Talvez o pai. . .

Carson interrompeu o juiz:

— É impossível. Randall está tão transtornado quanto a filha. Ele teria apresentado a queixa de tentativa de estu­pro no dia seguinte, se eu não o tivesse convencido a desis­tir disso. Mas ele soube que estão comentando pela cidade que a filha não passa de uma vagabunda e está fervendo de raiva. — Carson fez uma pausa, olhando para Daley. — Não sabia mesmo que sua filha também estava presente?

— Não. Minha esposa não me disse nada.

— Então deve ser o único homem na cidade que ainda não sabia da história. — Carson virou-se para o juiz: — E você, já sabia?

— Ouvi falar alguma coisa.

— E o que vamos fazer agora?

O juiz pensou por um momento.

— Se as acusações forem retiradas, talvez consigamos abafar a historia. Mas alguém terá que conversar com os pais do rapaz e com Randall.

— Posso falar com Randall — disse Carson. — Mas alguém mais tem que falar com os pais do rapaz. — Virou-se para Daley. — Foi sua esposa quem nos meteu nesta encrenca. Talvez ela possa ajudar-nos a sair.

— Não vejo como — protestou Daley. — Se o rapaz foi realmente ferido. . .

— É melhor você encontrar um meio. Não se esqueça de que sua filha também estava envolvida.

— Ela não teve nada a ver com isso.

— Como é que sabe?— perguntou Carson, com a voz fria e ríspida. — Ela e os rapazes estavam embriagados quando saíram do clube naquela noite. Sua esposa encon­trou-a com um dos rapazes, ambos nus, quando foi pro­curá-la na manhã seguinte.

— Oh, Deus! — gemeu Daley. — Vivo dizendo a Sally que está deixando a menina solta demais.

Carson fitou-o com uma expressão de frieza.

— Talvez você tenha tido muita sorte, no final das contas. Algo muito pior poderia ter acontecido.

— Acho melhor eu deixar o almoço de lado e ir direto para casa, conversar com Sally — disse Daley, levantando-se bruscamente.

Carson ficou observando o construtor sair do restau­rante. Depois, virou-se para o juiz e disse:

— Entre em contato com o promotor do condado lá em Jefferson e diga-lhe para suspender o caso. Fale que foi avisado de que as acusações serão retiradas.

— E se ele já tiver convocado um júri para tratar do caso?

— Diga-lhe para adiar qualquer procedimento.

— Está certo.

— Tenho certeza de que ele vai atender. Sem os votos de Port Clare, ele jamais teria sido eleito. Estou certo de que ele sabe disso muito bem.

— Por que diabo não me disse o que estava aconte­cendo? — berrou Arthur Daley para a esposa. — Eu me senti como um idiota. Era o único homem da cidade que não sabia de nada.

— Não queria incomodá-lo, Arthur — disse Sally, em tom apaziguador. — Você já tem problemas suficientes com a sua nova obra.

Mas que diabo, mulher! Quantas vezes já lhe disse para me consultar, sempre que houver algum problema? Algum dia me recusei a conversar com você?

Sally ficou calada.

— E agora temos uma encrenca dos diabos nas mãos. Já é horrível o bastante saber que nossa filha esteve dor­mindo com aqueles rapazes. E a coisa vai ficar pior ainda quando os jornais publicarem a história.

— Ninguém vai acreditar na história de JeriLee, Ar­thur. Quem é que pode aceitar a palavra de JeriLee e da­quele negro contra a de Marian e a dos três rapazes?

— Muitas pessoas. Especialmente depois que o Dr. Baker prestar depoimento e declarar o quão barbaramente JeriLee foi espancada.

— Eu não sabia disso até hoje.

— É claro que você não sabia! Devia ter juízo sufi­ciente para ficar quieta quando encontrou Marian pelada, na companhia do tal rapaz. Por que não ficou satisfeita em fazer com que o negro fosse despedido? Por que tinha de convencer os pais do rapaz a apresentarem uma queixa contra o negro?

— Não tentei convencê-los de nada, Arthur. Mas o que eu poderia dizer-lhes, quando me telefonaram para con­firmar a história que o filho contara? Eu não podia fazer nada, especialmente depois que exigi de Corcoran que des­pedisse o negro, pelo que ele tinha feito.

— Mas você disse que apoiaria a queixa deles!

— Eu não tinha alternativa. Ou fazia isso ou tinha que admitir que sabia o que Marian fizera. Eu não pensava que a situação chegasse a esse ponto.

— É esse o problema! Você não pensava! Nunca pensa em nada! É estúpida demais!

Ela começou a chorar.

— Pare de ganir! Isso não vai resolver coisa alguma! — Ele fez uma breve pausa, perguntando em seguida: — Onde é que eles estão agora?

— Eles quem?

— De quem pensa que estou falando? Os pais do tal rapaz! Onde é que eles estão?

— Estão hospedados, na casa de Thornton.

— Pois ligue para eles e diga-lhes que precisamos fa­lar-lhes, com toda a urgência.

— Não posso fazer isso, Arthur. Não tenho a menor intimidade com eles.

— Oh, Deus! — gemeu Arthur Daley, desesperado. — Pois diga-lhes que sua filha andou com um dos filhos deles, talvez até com ambos. Isso nos torna praticamente paren­tes por afinidade. Deve ser razão suficiente para o encontro.



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