Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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— Por que você tem de fazer tudo o que Carson manda? Será que por uma única vez não pode agir por sua própria conta?

— Porque devo a ele duzentos e noventa mil dólares em empréstimos para construções! E se não fosse por ele, eu ainda seria um mero carpinteiro, construindo uma casa de cada vez. Agora, vá telefonar. — Ele foi até a porta, parou e virou-se novamente. — Não me importa o que diga a eles, contanto que marque o encontro.

— Para onde você está indo?

— Vou até lá em cima para ter uma conversinha com aquela sem-vergonha a quem chamamos de nossa filha. Se ela não me disser logo toda a verdade sobre o que aconteceu naquela noite, irei arrancá-la à força.

Arthur bateu a porta violentamente. Sally ouviu os passos firmes dele na escada, enquanto pegava o telefone. Começou a discar, mas parou no meio, ao ouvir a filha gritar de dor. Os dedos ficaram congelados. Não houve mais nenhum barulho lá em cima. Lentamente, ela recomeçou a discar.

Ao apertar a campainha, Arthur Daley automaticamen­te correu os olhos pela propriedade, avaliando-a. Era um imóvel na beira da praia. Valia pelo menos quarenta mil dólares o acre. E a própria casa valia pelo menos setenta mil dólares.

A porta foi aberta por um homem magro, de aparência cansada, em torno dos cinqüenta anos.

— Sou Walter Thornton. Entrem, por favor.

— Eu sou Arthur Daley — disse o visitante, esten­dendo a mão. — Essa é minha esposa, e ali está a minha filha Marian.

Thornton apertou a mão de Daley e meneou a cabeça para as duas mulheres.

— O Sr. e a Sra. Herron estão na biblioteca.

Depois de ser apresentado aos Herron, Daley começou a falar:

— Lamento vir até aqui desse jeito, mas acho que temos um problema muito importante para acertar. Diz respeito a todos os que estão nesta sala.

— Acho que já tomamos todas as providências neces­sárias — disse o Sr. Herron. — A polícia, inclusive, já pren­deu o rapaz que agrediu meu filho.

— Tenho a impressão de que todos nós agimos com um pouco de precipitação.

— Não tenho muita certeza se estou entendendo o que está dizendo, Sr. Daley — disse Thornton.

— Estou querendo dizer. . . — Daley hesitou um mo­mento, constrangido. Mas acabou falando: — Estou querendo dizer que não nos contaram a verdadeira história do que aconteceu naquela noite.

— Meu filho foi barbaramente espancado — disse a Sra. Herron. — Não preciso saber de mais nada além disso.

— Sra. Herron, talvez não goste do que lhe vou dizer. Mas por acaso já pensou que seu filho pode ter sido o cul­pado pela surra que levou? Já pensou que ele talvez esti­vesse fazendo alguma coisa errada?

A campainha da porta tocou neste momento. Thornton ficou surpreso.

— Devem ser o Juiz Winsted e John Randall — expli­cou Daley, rapidamente. — Tomei a liberdade de convidá-los a vir até aqui também. John talvez saiba mais sobre a história do que qualquer um de nós. E o juiz é um grande amigo meu. Talvez precisemos do conselho dele.

Thornton foi até a porta e voltou um momento depois com os dois homens.

— E agora, Sr. Daley, quer continuar, por favor? — disse o escritor.

— Pedi a John Randall que viesse até aqui porque a filha dele está envolvida nessa história.

A voz da Sra. Herron era muito fria:

— É claro que ela está! Foi o amiguinho dela que agrediu meu filho!

John levantou-se, bem devagar. A voz dele era calma, embora estivesse tremendo por dentro:

— Vou dizer só uma vez e não pretendo repetir. Seu filho, Sra. Herron, e o seu filho também, Sr. Thornton, tentaram violentar minha filha. Eles a espancaram de forma brutal e queimaram-na selvagemente, nos seios e pelo resto do corpo, com um cigarro aceso. E isso depois de terem-na trazido até aqui contra a vontade dela, fingindo que iam levá-la a casa. Fomos persuadidos por amigos a não apre­sentar queixa, tendo em vista o bem-estar da comunidade. Mas não podemos ficar de braços cruzados e deixar que o rapaz que salvou minha filha vá para a cadeia. Apesar de não querermos nenhum escândalo público, minha filha e eu estamos planejando apresentar queixa contra os filhos de ambos, amanhã de manhã.

Thornton foi o primeiro a romper o silêncio constran­gedor:

— Evidentemente, Daley, deve acreditar nessa histó­ria, porque trouxe o Sr. Randall até aqui. Mas não consigo compreender por que está tão convencido assim.

Arthur tossiu, embaraçado!

— Minha filha estava presente. E ela confirma a his­tória de JeriLee.

— As duas estão mentindo! — gritou a Sra. Herron. — O que ela estava fazendo, durante esse pretenso estupro? Estava de braços cruzados, assistindo à cena?

— Conte a ela, Marian — disse Arthur, asperamente.

Marian começou a chorar.

— Eu lhe disse para contar!

— Mike e eu estávamos tendo relações do outro lado da piscina, enquanto Joe e Walt estavam com JeriLee.

— E você não viu o que estava acontecendo? — per­guntou Thornton.

— Não podíamos ver muito bem no escuro. Além disso, pensamos que eles estavam apenas se divertindo com ela. Pouco antes, eles a tinham jogado dentro da piscina, toda vestida.

— Ainda não acredito — disse a Sra. Herron, rispidamente. — Nenhum dos meus rapazes jamais seria capaz de fazer uma coisa dessas.

— Sally, conte à Sra. Herron o que viu quando veio até aqui buscar, Marian, na manhã seguinte — disse Arthur.

— Os dois saíram de um quarto lá de cima — mur­murou Sally, num fio de voz. — E ambos estavam nus.

Thornton foi até a porta que dava para os fundos da casa.

— Walt, Mike está aí com você? — Ele não esperou pela resposta, acrescentando imediatamente: — Quero que os dois venham até aqui. Agora!

Um momento depois, os dois rapazes entraram na sala. Estacaram bruscamente, ao verem Marian e os outros. Numa voz sofrida, Thornton perguntou ao filho:

— Não me contou toda a história sobre o que tenta­ram fazer com JeriLee naquela noite, não é mesmo?

O rapaz olhou para o chão.

— Não queríamos machucá-la, papai. — Subitamente, ele estava quase em lágrimas, a voz trêmula: — Tudo co­meçou com uma brincadeira.

— Parece que um erro terrível foi cometido — disse Thornton. — O que poderemos fazer para endireitar as coisas?

— Foi por isso que pedi ao juiz para vir também — disse Daley. — Ele nos poderá dizer o que devemos fazer.

Capítulo quinze

Jack e um homem já idoso, a quem Fred nunca vira antes, estavam no gabinete do xerife, quando o guarda o trouxe da cela.

— Você está sendo libertado, rapaz — disse o xerife. — As acusações contra você foram retiradas. — O xerife tirou um envelope pardo cheio de coisas de uma gaveta e empurrou-o na direção dele. — Suas coisas estão aqui den­tro. Quer verificar, por favor?

Fred abriu o envelope e tirou o conteúdo. Seu Timex de dez dólares estava ali, assim como o pequeno anel de ouro que a mãe lhe dera quando se formara na escola. se­cundária e o bracelete de prata, com seu nome gravado, que era um presente da irmã. Duas notas de um dólar, bem amassadas, e setenta cents em moedas completavam o resto do conteúdo do envelope. Ele pôs o relógio e o bracelete no pulso e guardou o dinheiro no bolso.

— Está tudo aí, rapaz? — perguntou o xerife.

— Está, sim.

O xerife estendeu-lhe um papel.

— Assine aqui, por favor. É um recibo de que tudo lhe foi devolvido.

Rapidamente, Fred pegou a caneta e assinou o recibo.

— Está tudo bem agora — disse o xerife. — Pode ir embora.

Jack apertou a mão de Fred, sacudindo-a entusiasticamente.

— Não sabe como estou contente por terem soltado você! Acabei de falar com o nosso agente e ele já nos arru­mou um contrato lá em Westport.

Jack percebeu que Fred estava olhando inquisitivamente para o homem idoso, de cabelos e bigodes brancos.

— Esse é o Juiz Winsted, Fred. Foi ele que endireitou as coisas para nós.

O juiz estendeu a mão.

— É um prazer conhecê-lo, Fred.

— Obrigado,, juiz.

O juiz virou-se para o xerife:

— Peck, você tem uma sala onde eu possa conversar com o meu cliente?

— Claro, juiz. Pode abrir aquela porta ali adiante. A sala está vazia.

Fred e Jack seguiram o juiz para a outra sala. O juiz puxou uma cadeira para junto da mesinha que havia na sala e sentou-se.

— Quanto mais velho fico, mais calor eu sinto. Às vezes me pergunto se isso não será sinal de alguma coisa. — O juiz fez um gesto para que os dois se sentassem tam­bém. — Caso estejam se perguntando o que estou fazendo aqui — disse ele —, quero informar-lhes que represento JeriLee e o pai dela.

Fred limitou-se a sacudir a cabeça.

— Quando eles foram procurar-me no início desta tar­de, percebi que talvez tivesse havido um tremendo erro judicial. E eu não podia permitir que tal coisa acontecesse.

— Sorte minha — comentou Fred. — Eles iam jogar-me no fundo de uma cela.

— Isso jamais aconteceria — declarou o juiz, convicto. — Devo admitir que as coisas de vez em quando podem complicar-se, mas, no final, a justiça sempre triunfa.

Fred não acreditava nisso e tinha quase certeza de que o juiz também não. Mas preferiu não fazer qualquer comen­tário. O juiz continuou:

— Tem uma amiga de verdade em JeriLee, rapaz. E acho que sabe disso. Apesar das conseqüências, ela estava disposta a comparecer ao tribunal, para testemunhar em sua defesa.

— JeriLee é uma moça muito especial.

— Tem toda a razão, rapaz. Ela tem muito mais juízo do que a maioria das moças de sua idade. Assim que ela me contou a história, fui procurar os pais do tal rapaz. Não precisei de muito tempo para convencê-los do erro que haviam cometido. Depois, fui até o clube, para conversar com Corcoran. Mas já era tarde demais para que ele tor­nasse a contratá-los. Ele já havia assinado contrato com outra orquestra. Não achei isso muito certo, pois vocês ficaram sem o dinheiro que teriam ganhado se continuassem trabalhando aqui. Não era a maneira justa de se recompensar um herói.

— Estou contente por ter saído da cadeia — disse Fred. — Não me importo com o trabalho. Nem com o dinheiro.

—- Mesmo assim, não está certo. Alguém devia pagar por toda a angústia que sofreu.

— É isso mesmo — disse Jack. — O pobre rapaz sofreu um bocado apenas por ter feito o que era certo.

— Foi exatamente isso o que pensei — declarou o juiz. — Por isso, tive outra conversa com todas as pessoas envolvidas e elas concordaram em reembolsá-los pela perda do emprego. Calculando que vocês perderam cinco semanas de trabalho no clube, a duzentos dólares por semana, mais casa e comida, o que devia valer outros duzentos dólares, chegamos a um total de dois mil dólares. — O juiz meteu a mão no bolso e tirou um envelope, do qual removeu um maço de notas, espalhando-as em leque sobre a mesa. Fred ficou olhando para as vinte notas de cem dólares, em silên­cio por um momento, antes de dizer asperamente:

— Não quero o maldito dinheiro de caridade deles!

— Não é caridade, filho. É apenas justiça.

— O juiz está certo, Fred — disse Jack. — Dá quatro­centos dólares para cada um de nós. Aceite logo, rapaz. É uma boa grana.

— Você sabia disso, Jack?

— Claro que eu sabia. Esse dinheiro é para todos nós. Afinal, também perdemos o emprego, junto com você.

— Aceite, filho. É a coisa mais certa que tem a fazer. Afinal de contas, não há razão para que seus amigos devam também sofrer, por causa do que aconteceu.

Fred pensou por um momento, depois assentiu.

— Está certo.

— Fez bem em aceitar, filho — disse o juiz com um sorriso. Tirou outro papel do bolso e colocou-o sobre a mesa, diante de Fred. — Esse papel é um acordo particular, pelo qual você e as pessoas que o acusaram concordam em não apresentar mais nenhuma queixa uns contra os outros. É apenas uma formalidade. Assim que assinar, o dinheiro será seu.

Fred assinou o documento, sem se dar ao trabalho de lê-lo.

— Tenho que voltar agora para Port Clare — disse o juiz, guardando o documento no bolso. — Foi um prazer conhecê-lo, rapaz. E fico contente por ter podido ajudá-lo.

Fred apertou a mão dele.

— Obrigado, juiz. Não fique pensando que não apre­cio o que fez por mim. Quero que saiba que me sinto imensamente grato.

Assim que a porta se fechou, depois da saída do juiz, Fred virou-se para Jack. O baterista estava sorrindo, de uma orelha a outra.

— O que é, Jack?

— Aquele juiz é o cara mais nojento que já conheci. Ele ia tentar fazer com que você assinasse o acordo por umas poucas centenas de dólares. Mas eu sabia que você tinha todos eles na palma da mão. — Jack pegou o dinhei­ro e o juntou carinhosamente. — Não acha uma beleza? Foi o dia de trabalho mais fácil que todos nós já tivemos!

JeriLee estava esperando ao pé da escada, quando ele saiu do prédio. Subitamente, Fred compreendeu que estava esperando ansiosamente encontrá-la ali. Ele parou no último degrau e disse baixinho:

— JeriLee. . .

— Você está bem? — perguntou ela, olhando-o nos olhos.

— Estou ótimo. Eles foram muito delicados. Para dizer a verdade, foi a melhor cadeia em que já estive.

Uma expressão de surpresa se estampou no rosto de JeriLee.

— Já esteve antes na cadeia?

— Claro que não — disse Fred, rindo. — Estava ape­nas brincando. Mas você não precisava ter vindo até aqui. Eu ia telefonar-lhe.

JeriLee fitou-o com uma expressão cética.

— Estou falando a verdade. Eu tinha que lhe agradecer pelo que fez por mim.

Jack puxou-o pelo braço.

— Já são quase sete horas, Fred. Temos que ir agora, para conseguirmos pegar o último ônibus para Nova York.

— Tem condução para voltar a Port Clare, JeriLee?

— Tenho, sim. Bernie me emprestou o carro. Ele está trabalhando esta noite.

— Corcoran devolveu-lhe o emprego?

— Devolveu.

— E você, também vai voltar a trabalhar lá?

— Eu ia, mas agora já mudei de idéia.

— O que pretende fazer?

— Ainda não sei. Talvez pôr em dia as minhas leitu­ras, talvez terminar a história que eu estava escrevendo.

— É melhor a gente se apressar, Fred — interveio Jack.

— Vá na frente, Jack. Irei encontrar-me com você no ônibus.

— Sabe onde fica a estação?

— Pode deixar que a encontrarei.

— O ônibus parte às sete e meia.

— Chegarei lá antes disso.

Ficaram observando Jack afastar-se apressadamente.

— Onde é que deixou o carro, JeriLee? Eu a acompa­nharei até lá.

— Está perto daqui. Deixei-o no quarteirão seguinte. E você, Fred, o que pretende fazer?

— Jack já arrumou outro contrato para nós, em Westport.

— Fico contente por isso. Bernie pediu-me que lhe mandasse lembranças e lhe desejasse boa sorte por ele.

— Seu namorado é um bom sujeito.

— Ele não é meu namorado. Apenas crescemos juntos e somos muito amigos.

— É o que sempre acontece.

— Você tem namorada, Fred?

— Tenho — mentiu ele.

— Ela é bonita?

— Acho que sim.

— Mas que tipo de resposta é essa?

— É difícil para mim responder direito. É que nós também crescemos juntos.

JeriLee fitou-o zombeteiramente por um momento e disse em seguida, procurando fazer uma expressão muito séria:

— É o que sempre acontece.

Os dois riram alegremente.

— Ali está o carro. Vou deixá-lo na estação rodoviária.

Alguns minutos depois, ela parou o carro diante da estação. Olhou para Fred, sentado a seu lado, e disse:

— Eu gostaria que fôssemos amigos.

— E somos.

— Estou falando. . . gostaria que nos encontrássemos outra vez.

— Não, JeriLee — disse Fred, depois de um momento de silêncio. Ele abriu a porta e começou a sair do carro. JeriLee pôs a mão no braço dele e disse gentilmente:

— Obrigada, Fred. Por tudo.

— JeriLee. . .

— O que é, Fred?

— Eu menti, JeriLee. Não tenho nenhuma namorada.

— Não precisava dizer — falou ela; sorrindo. — Eu já sabia.

— Adeus, JeriLee.

Ele não esperou que ela respondesse, afastando-se rapi­damente e entrando no prédio da estação. Não se virou para olhar para trás até estar no meio do saguão. Quando final­mente o fez, JeriLee já tinha ido embora.


Capítulo dezesseis

JeriLee saltou do ônibus das cinco e dez, caminhou até a esquina e ficou esperando que o sinal abrisse. Um carro parou junto ao meio-fio.

— Quer uma carona, JeriLee?

Era o Dr. Baker. Assim que ela entrou no carro, ele disse:

— Pensei que tínhamos combinado que você iria ao meu consultório.

— Estou me sentindo muito bem. Não queria inco­modá-lo.

— Não é incômodo nenhum, JeriLee. Afinal, sou o seu médico. — Como ela ficasse calada, o Dr. Baker acres­centou: — Se bem me lembro, você disse que ia voltar a trabalhar.

— Mudei de idéia.

Ele parou o carro num sinal fechado e virou-se para ela:

— Qual é o problema, JeriLee?

— Nenhum.

O sinal abriu e o Dr. Baker arrancou. Ao parar diante da casa de JeriLee, ele tirou um maço de cigarros do bolso e estendeu-o para ela.

— Quer um cigarro?

Ela sacudiu a cabeça, mas não fez menção de saltar do carro.

— Pode falar tudo comigo — disse o Dr. Baker, acen­dendo um cigarro.

A moça virou o rosto para o outro lado. O Dr. Baker inclinou-se e tornou a virar o rosto dela, vendo as lágrimas em seus olhos.

— Pode falar tudo comigo, JeriLee — repetiu ele, gentilmente. — Também tenho ouvido histórias.

Ela desatou a chorar. Silenciosamente, apenas as lágrimas escorrendo pelas faces. O Dr. Baker abriu o porta-luvas, tirou uma caixa de lenços de papel e entregou-a a ela.

— Não imagina como todo mundo olha para mim, Dr. Baker...

Ele deu uma tragada no cigarro, sem dizer nada.

— Há vezes em que fico desejando ter deixado que aqueles rapazes fizessem o que bem quisessem comigo. Se isso acontecesse, ninguém estaria dizendo nada a meu respeito.

— Isso não é verdade e você sabe muito bem.

— Todo mundo acha que aconteceu alguma coisa. E pensam que fui eu quem quis.

— Ninguém que a conhece acredita nisso, JeriLee.

— Não acreditariam na verdade, mesmo que eu lhes contasse. — Ela riu, amargamente. — Não consigo enten­der, Dr. Baker. O que acha que devo fazer agora?

— Não dê importância. Isso passa. Amanhã, eles terão alguma outra coisa de que falar.

— Como eu gostaria de poder acreditar nisso!

— Pois pode acreditar. Conheço esta cidade. E não tenho a menor dúvida de que será exatamente isso o que irá acontecer.

— Mamãe, disse que papai pode perder o emprego, se o Sr. Thornton tirar a conta dele do banco. Ela disse que foi por isso que não quis que eu fizesse qualquer coisa.

— O Sr. Thornton já disse alguma coisa sobre isso?

— Não sei. A única coisa que sei é que ele não apa­receu mais no banco.

— Isso nada significa.

— Papai está preocupado. É visível. Ele anda muito tenso, o rosto sempre franzido. E tem trabalhado até tarde da noite.

— Talvez haja outra razão. Você perguntou a ele?

— Não. Mas mesmo que eu perguntasse, ele não me diria.

— Não pense mais nisso por esta noite, JeriLee. E vá ao meu consultório amanhã. Quero dar uma olhada naquelas queimaduras. E poderemos conversar mais um pouco.

— Está bem — disse a moça, abrindo a porta do carro — E obrigada, Dr. Baker.

— Estarei esperando você amanhã — disse o médico com um sorriso. — Não se esqueça.

— Pode deixar que não vou esquecer

Ele ficou observando-a entrar em casa, antes de dar a partida no carro. Estava pensativo. A maldade e a estupidez das pessoas eram coisas que nunca cansavam de surpreendê-lo. Diante da alternativa de acreditar em coisas boas ou más a respeito dos outros, as pessoas sempre optavam pelas más.

— Vamos tomar uma soda? — convidou Martin, ao saírem do cinema.

— Não estou com vontade — disse JeriLee.

— Ora, JeriLee, vamos! Vai ser divertido. Toda a tur­ma estará presente.

— Não.


— Qual é o problema, JeriLee? Você anda tão di­ferente.

Ela não respondeu.

— Vamos tomar a soda. Desta vez, pode deixar que eu pago. Não vamos rachar a despesa.

Um sorriso relutante entreabriu os lábios de JeriLee.

— Tome cuidado, Martin. Está se transformando num tremendo gastador!

— Você não me conhece, JeriLee. — Ele riu. — Dez cents aqui, vinte cents ali...

Ele estalou os dedos. JeriLee ficou pensativa por um momento, depois acabou concordando.

— Está bem, Martin. Vamos até lá.

Martin estava certo. A sorveteria estava apinhada. A vitrola no canto tocava a todo o volume. Eles avistaram uma mesa vazia nos fundos. JeriLee passou pelo meio da multi­dão olhando para a frente.

Ao chegarem à mesa, viram que só havia uma cadeira. Martin estendeu a mão para uma cadeira vazia na mesa apinhada do lado.

— Alguém está usando esta cadeira?

— Não.


Os rapazes olharam para ele e depois para JeriLee. Houve um longo silêncio. Depois, um dos rapazes inclinou-se e sussurrou algo para os outros. Todos riram e viraram-se para olhar JeriLee.

Ela sentiu o rosto ficar vermelho e escondeu-o por trás do cardápio. O garçom aproximou-se. Era um rapaz com o rosto cheio de espinhas, que JeriLee conhecia da escola.

— O que vão querer? — perguntou ele, reconhecendo-a então. — Olá, JeriLee. Não tem aparecido ultimamente.

Ela ouviu uma explosão de risadas na mesa ao lado, e um dos rapazes disse em voz rouca:

— Só por aqui que ela não tem aparecido. . .

JeriLee olhou para Martin.

— Não estou realmente com vontade de tomar nada.

— Tome alguma coisa, JeriLee. O que me diz de um sundae de chocolate?

— Não, obrigada.

Houve outra explosão de risadas na mesa ao lado. JeriLee não ouviu o que eles diziam, mas sentiu os olhares fixos nela.

— É melhor eu ir embora — disse ela, levantando-se subitamente. — Não estou me sentindo bem.

Sem dar chance a Martin de responder, ela saiu quase correndo da sorveteria. O rapaz alcançou-a no meio do quar­teirão e foi seguindo a seu lado, em silêncio. Só depois de virarem a esquina é que ela falou:

— Desculpe, Martin.

— Não há problema. Mas acho que você não está en­frentando a situação da maneira certa.

— Eu... eu não sei o que está querendo dizer.

Martin parou debaixo de um lampião e virou-se para JeriLee.

— Posso não sabei muitas coisas. Mas sou o maior técnico do mundo em ser o alvo dos comentários dos outros. Cresci com isso.

JeriLee permaneceu calada.

— Com pais como os meus, as pessoas nunca param de falar. Não é fácil ser o filho dos bêbados da cidade — concluiu ele, com voz trêmula.

— Sinto muito, Marty.

Ele meneou a cabeça, piscando os olhos.

— Quando eu ainda era muito criança, aprendi como enfrentar o problema. A gente sabe o que vale e descobre que tem de manter a cabeça erguida, não importa o que os outros possam dizer. Foi o que sempre fiz. Depois de algum tempo, as pessoas cansam de comentar. E eu sabia que estava agindo da maneira certa.

— Mas é diferente quando se é mulher; Martin. Nin­guém nos diz nada diretamente. Não temos nenhuma chance de reagir.

— A mesma coisa aconteceu comigo. Acha por acaso que alguém chegou perto de mim e disse que meu pai era o bêbado da cidade? Nada disso. Limitavam-se a sussurrar e ficavam olhando. Eu ficava desejando que dissessem algu­ma coisa, para poder reagir, ao invés de continuar sentado em silêncio, fingindo que nada estava acontecendo.

JeriLee assentiu, recordando o que a mãe dissera a respeito de Martin ter a família errada.

— Acho que jamais conseguirei acostumar-me, Martin. Estou sempre com a impressão de que eles estão me olhando através das roupas. E sei exatamente o que estão pensando.

— Mas você também sabe o que fez e deixou de fazer. Isso é muito mais importante, JeriLee.

— Não fiz nada, Martin. E é justamente isso o que torna as coisas ainda mais difíceis.

— Está enganada, JeriLee — disse Martin, com uma sabedoria maior que seus anos. — É justamente isso o que faz você estar certa e todos os outros errados. E quando você tiver certeza disso, ninguém será capaz de fazer coisa alguma que possa tirar-lhe tal certeza.

JeriLee virou a esquina, chegando diante da drugstore. Os rapazes parados na porta ficaram subitamente em silên­cio, mas afastaram-se para deixá-la passar. Ela pôde sentir os olhos deles seguindo-a até o balcão. Doc Mayhew veio lá dos fundos.

— Boa tarde, JeriLee. Em que posso servi-la?

— Quero uma pasta de dentes, desodorante e sabonete.

Ele assentiu e pegou rapidamente os artigos pedidos.

— Temos uma oferta especial para os cosméticos Love-Glo. Compre um batom e leve o segundo por um cent.

— Não vou querer, obrigada — respondeu ela, sa­cudindo a cabeça.

— É um bom batom, JeriLee. Devia experimentar. Tão bom quanto o da Revlon ou o de Helena Rubinstein.

— Talvez da próxima vez — disse JeriLee, conferindo sua lista de compras. — Ah, vou querer aspirinas também.

Doc Mayhew pegou o vidro na prateleira atrás dele.

— Love-Glo também tem sombra para os olhos e es­malte de unhas. E estamos vendendo com a mesma oferta.

— Não, obrigada, Doc.

— A oferta está de pé até o final da semana.

— Falarei com minha mãe. Talvez haja alguma coisa de que ela esteja precisando.

— Está ótimo. Vai pagar ou ponho na conta?

— Ponha na conta, por favor.

JeriLee foi até o balcão de revistas, enquanto ele preenchia a nota. Ela pegou uma revista de Hollywood, com uma fotografia de Clark Gable na capa. Folheou a re­vista distraidamente. Pelo canto dos olhos, percebeu que os rapazes lá fora ainda estavam olhando para ela.

— Já está pronto, JeriLee.

A moça pôs a revista no lugar e foi pegar o embrulho em cima do balcão. Os rapazes novamente se afastaram para deixá-la passar. JeriLee agiu como se não os tivesse visto. Já estava quase na esquina quando eles a alcançaram.

— Ei, JeriLee!

Ela parou e olhou friamente para o rapaz que falara.

— Como tem passado, JeriLee?

— Muito bem, Carl.

— Não está mais trabalhando no clube?

— Não.

— Ótimo — disse ele, sorrindo. — Agora, talvez você tenha algum tempo para dar uma chance a um rapaz local.



JeriLee não retribuiu o sorriso.

— Nunca entendi por que as garotas daqui vivem correndo atrás dos rapazes da cidade grande.

— Não vejo ninguém correr atrás deles, Carl.

— Ora, JeriLee, deixe disso. Você sabe muito bem do que estou falando.

Os olhos dela estavam firmes, bem firmes.

— Não, Carl, não sei.

— Eles não são os únicos que sabem como se divertir. Nós também sabemos, não é mesmo, rapazes?

Houve um coro geral de concordância dos outros ra­pazes. Carl fitou-os, sorrindo. Estimulado pelo apoio deles, ele virou-se novamente para JeriLee:

— O que me diz, JeriLee? Não quer ir ao cinema co­migo uma noite dessas? Depois, poderemos ir até Point. Eu tenho carro.

— Não! — disse ela, secamente.

O rapaz fitou-a, subitamente desanimado.

— E por que não?

— Porque não gosto de você. — A voz de JeriLee era bastante fria, o que deixou o rapaz furioso.

— Qual é o problema, JeriLee? Gosta mais de negros?

A bofetada dela apanhou-o de surpresa. Carl segurou a mão dela e apertou-a com tanta força que JeriLee sentiu a dor subindo-lhe pelo braço.

— Não tem o direito de nos esnobar desse jeito, JeriLee. Nós sabemos de tudo a seu respeito.

Ela fitou-o nos olhos, o rosto muito pálido, murmuran­do por entre os lábios cerrados:

— Largue-me!

Ele largou a mão dela, abruptamente.

— Vai se arrepender, JeriLee.

Ela passou por eles e conseguiu manter a cabeça ergui­da até virar a esquina. Só depois é que sentiu que começava a tremer. Encostou a mão na parede de um prédio, para se equilibrar. Um momento depois, respirou fundo e recome­çou a andar. Mas mal conseguia ver para onde estava indo. Estava quase cega pelas lágrimas.

Foi no dia seguinte que a frase começou a aparecer nas cercas e muros perto da casa dela: JeriLee trepa. JeriLee Chupa.




Capítulo dezessete

JeriLee e a mãe entraram com o carro no caminho da garagem no momento em que John e Bobby estavam aca­bando de pintar a cerca. Elas saltaram do carro. Verônica olhou para o marido e disse:

— A cerca não estava precisando de uma mão de tinta.

— Alguns garotos pintaram uns palavrões na cerca, mamãe — explicou Bobby.

Verônica olhou para John. Ele não disse nada. A mu­lher semicerrou os olhos, por causa da claridade. Ao ouvir JeriLee se aproximar, disse rapidamente:

— Vamos entrar. Vou fazer um café.

— Guarde a tinta na garagem, Bobby — falou John, assentindo. — E não se esqueça de limpar o pincel.

— Está bem, papai. —- O menino pegou a lata de tinta e atravessou o gramado na direção da garagem.

— O que aconteceu? — perguntou JeriLee.

— Nada, minha filha.

Ela olhou para a cerca. A tinta ainda não secara e as letras ainda eram um pouco visíveis. O rosto dela ficou subitamente tenso.

— Vamos entrar, querida — disse a mãe.

JeriLee continuou olhando para a cerca.

— Viu quem fez isso, papai?

— Não. E foi muita sorte deles eu não ter visto. — John segurou-a pelo braço e acrescentou: — Vamos entrar, JeriLee. Um café não nos fará mal algum.

Em silêncio, JeriLee seguiu os pais para o interior da casa.

— Não estou com vontade de tomar café — disse ela. — Pode me emprestar o carro, papai?

John olhou para a esposa antes de responder:

— Claro.

— Deixei as chaves no contato — disse Verônica. — Mas tome cuidado, querida. Há uma porção de loucos à solta na estrada hoje.

— Pode ficar tranqüila, mamãe — disse JeriLee, encaminhando-se para a porta. — Quero apenas dar uma volta pela praia.

Eles ouviram o carro partir. John olhou para a esposa e comentou:

— Eles a estão crucificando.

Verônica não respondeu. Pôs o café em cima da mesa e sentou-se em frente ao marido.

— Não sei mais o que fazer, Ronnie.

— Não há nada que você possa fazer. Não há nada que ninguém possa fazer. Temos que esperar que tudo isso passe.

— Se conseguíssemos apanhá-los em flagrante uma única vez. . . Poderíamos então dar um exemplo para os outros.

— Qualquer coisa que você faça, John, só servirá para piorar as coisas. Temos apenas que ser pacientes.

— Eu posso esperar, você pode esperar. Mas será que JeriLee também terá condições de esperar que isso passe? Quanto mais você acha que ela precisa sofrer, antes de desmoronar completamente? Ela já parou de ver os amigos. Não sai mais de casa, não quer fazer coisa alguma. Bernie disse que ela não quer nem mais acompanhá-lo a um cinema. As aulas recomeçam dentro de quatro semanas. O que acha que irá acontecer então?

— A essa altura, já estará tudo esquecido, John.

— E se não estiver?

A pergunta ficou sem resposta, enquanto ambos toma­vam o café, lentamente, em silêncio.

JeriLee parou o carro na extremidade de Point, de frente para o mar. Desceu para a praia. Era um trecho rochoso e deserto da praia, o mar muito forte para se nadar. Ela sentou-se numa pedra à beira da água e ficou olhando para o mar.

Um barco a vela estava navegando a favor do vento, a vela branca enfunada destacando-se no azul da água. Jeri­Lee ficou observando-o, até que desaparecesse do outro lado do promontório.

— Lindo, não acha?

O som da voz às suas costas fê-la levantar-se de um pulo. JeriLee virou-se rapidamente

— Eu não pretendia assustá-la — disse o homem. Fitou-a atentamente por um momento, perguntando em seguida: — Já não a conheço? Você me parece vagamente familiar.

— Já nos encontramos uma vez, Sr. Thornton. Num ônibus.

— Mas é claro! — disse ele, estalando os dedos, ao lembrar-se. — Você é a moça que queria ser escritora.

JeriLee sorriu. Ele ainda se lembrava.

— Ainda pega o mesmo ônibus? — perguntou ele. — Não a tenho visto ultimamente.

— A escola está fechada. Estamos em férias.

— Mas é claro! Tinha me esquecido. Continua escre­vendo?

— Quase nada.

— Também não tenho escrito muito. — Ele sorriu e olhou para o mar. — Vem aqui freqüentemente?

— Às vezes, quando estou querendo pensar.

— É um bom lugar para se pensar. Geralmente não há ninguém por aqui. — Ele tateou os bolsos à procura dos cigarros e tirou um, sem oferecer o maço a JeriLee. Acendeu o cigarro, aspirou fundo, depois tossiu e jogou-o fora. — Estou tentando deixar de fumar — falou, em tom de desculpas.

— É uma maneira estranha de tentar.

— Imaginei que, se acendesse um cigarro e desse uma tragada profunda, acabaria tossindo. Isso me faz pensar no que o cigarro está me causando e trato imediatamente de jogá-lo fora.

JeriLee não pôde deixar de rir.

— Tenho que me lembrar de dizer a papai para fazer essa tentativa.

— Ele fuma muito?

— Demais.

— O que ele faz?

—- Trabalha num banco.

Ele sacudiu a cabeça, distraidamente, olhando para o mar. JeriLee acompanhou o olhar dele. O barco a vela es­tava voltando.

— Walter!

A palavra veio flutuando no vento. Eles olharam para trás. Havia uma mulher parada na beira da estrada, no alto da elevação acima da praia. Ela acenou. Thornton retribuiu o aceno.

— Minha secretária — explicou ele para JeriLee. — O que é?

— Londres está no telefone. Vim de carro para buscá-lo.

— Está bem.— Ele virou-se para JeriLee. — Tenho de ir agora. Vai aparecer por aqui outro dia?

— Provavelmente.

— Talvez possamos nos encontrar novamente.

— Talvez.

Ele fitou-a por um momento, com uma expressão es­tranha, murmurando:

— Espero que sim. — Parou, hesitante, antes de acres­centar: — Tenho o pressentimento de que me intrometi em seus pensamentos, que você queria ficar sozinha.

— Não há problema. Estou contente por tê-lo encon­trado.

Ele sorriu e estendeu a mão.

— Até a vista.

O cumprimento dele foi firme e caloroso.

— Até a vista, Sr. Thornton.

Ele virou-se e começou a subir pela encosta, na direção da estrada. Parou no meio do caminho e olhou para trás.

— Não me disse seu nome.

— JeriLee, JeriLee Randall.

Ele ficou imóvel por um instante, registrando o nome, depois gritou para a secretária, na estrada:

— Diga-lhes que eu telefonarei mais tarde. — Tornou a descer para a praia, voltando para junto de JeriLee. Por que não me disse antes quem você era?

— Não me perguntou.

— Não sei o que dizer. . .

— Não precisa dizer nada.

— Não está zangada comigo?

— Não.

-— O que meu filho fez foi imperdoável. Lamento pro­fundamente.



JeriLee ficou calada.

— Se não quiser falar comigo, compreenderei.

— Não teve nada a ver com o que aconteceu, Sr. Thornton. Além disso, gosto de nossas conversas. Afinal, é o único escritor de verdade que conheço.

Ele tirou outro cigarro do bolso e acendeu-o.

— Quer realmente tornar-se escritora?

— Quero, sim — disse JeriLee, fitando-o atentamente. — Desta vez, não jogou o cigarro fora.

— Tem razão — disse ele, olhando para o cigarro. — Mas é que desta vez não tossi.

— Acho que não vai dar certo. Nunca vai conseguir deixar de fumar.

Ele sorriu, sentando-se na beira de uma pedra.

— Sei disso. Você falou que vinha até aqui para pen­sar. Sobre o quê?

— Sobre as coisas.

— Eu estava querendo saber sobre o que veio pensar hoje.

JeriLee demorou a responder:

— Eu estava pensando em ir embora.

— Para onde?

— Não sei — murmurou ela, olhando para o mar. — Qualquer lugar serviria. Quero apenas ir para bem longe daqui.

— Sempre se sentiu assim?

— Não.


— Só depois. . . que aconteceu tudo aquilo?

JeriLee pensou por um instante, fitando-o nos olhos.

— Exatamente. Port Clare é uma cidade engraçada. Não se pode conhecê-la, a menos que se tenha crescido aqui. Todo mundo vive inventando histórias.

— A seu respeito?

JeriLee assentiu.

— Pensam que eu...

Ela não terminou a frase. Walter Thornton ficou em silêncio por um minuto, antes de murmurar:

— Sinto muito...

JeriLee virou o rosto para o outro lado, mas ele notou as lágrimas escorrendo por suas faces. Pegou a mão dela.

— JeriLee...

Ela voltou a fitá-lo.

— Quero ser seu amigo. Pode falar tudo comigo.

— Não, não posso falar com ninguém. — As lágrimas agora escorriam livremente. — Não há nada que me digam que possa ajudar.

— Posso tentar, JeriLee. Devo-lhe pelo menos isso, depois do que meu filho fez.

— Não me deve nada.

— Fale comigo, JeriLee. Talvez isso a ajude.

Ela sacudiu a cabeça, em silêncio. Ainda segurando a mão dela, Walter levantou-se e puxou-a.

— Venha até aqui, menina. — Gentilmente, ele en­costou a cabeça de JeriLee em seu ombro, sentindo os so­luços sacudirem o corpo dela. Por muito tempo ficou imóvel, abraçando-a. Aos poucos, JeriLee foi parando de chorar. Finalmente, deu um passo para trás e fitou-o.

— É um homem muito bom, Sr. Thornton.

Sem responder, ele tirou novamente o maço de cigarros do bolso. Desta vez, ofereceu-o a JeriLee, que tirou um. Ele acendeu os dois cigarros. Deu uma tragada no seu, com um prazer visível.

— Gosto realmente de fumar. Acho que vou desistir de parar de fumar.

— É um homem engraçado, Sr. Thornton — falou ela, rindo.

— Nem tanto — disse ele, sorrindo. — Estou apenas sendo realista.

— Quer realmente me ajudar?

— Já disse que sim.

— Poderia ler uma coisa que eu escrevi?

— Claro.

— E vai dizer-me a verdade? Se não prestar, vai me dizer? Não quero que seja apenas delicado.

— Acho que escrever é algo tão importante que jamais sou insincero a respeito. Se não prestar, eu lhe direi. Mas se for bom, pode estar certa de que também lhe direi.

JeriLee ficou em silêncio por um momento.

— Há uma outra coisa que poderia fazer também.

— O que é?

— Se tiver tempo, é claro — disse ela, hesitante. — Seria ótimo se pudesse passar no banco e mostrar que não está zangado com eles, por causa de meu pai.

— É isso o que eles pensam? — perguntou ele, visi­velmente surpreso.

JeriLee assentiu.

— Mas isso é um absurdo!

— Eu disse que ninguém conhece direito esta cidade, a menos que tenha crescido aqui. É exatamente isso que eles estão pensando. Minha mãe está preocupada com a possibilidade de papai perder o emprego, caso o senhor tire sua conta do banco. Foi por isso que ela não quis que se fizesse nada a respeito do que me aconteceu. Papai ficou furioso. Ele queria apresentar queixa à polícia, mas mamãe convenceu-o a não fazê-lo.

— Então por que ele acabou falando?

— Não podíamos deixar que Fred fosse para a cadeia, por uma coisa de que não tinha sido culpado.

Walter assentiu, lentamente. Estava começando a com­preender o que JeriLee falara, que aquela era o tipo de cidade que não se podia conhecer, a menos que se tivesse crescido lá.

— Seu pai é daqui?

— Não — respondeu ela, sacudindo a cabeça.

Ele assentiu. Aquilo tinha sentido.

— Arrumarei um tempo para ir até o banco.

— Obrigada — falou JeriLee, com o rosto iluminado por um sorriso.

Subitamente, Walter sentiu vontade de encontrar-se novamente com o pai dela.

— Eu gostaria até de almoçar com seu pai, se não se incomodar.

— Por mim, não há problema. Mas ir ao banco já será suficiente.

— Gostaria de conhecer seu pai melhor, JeriLee. Ele me parece ser uma ótima pessoa.

JeriLee fitou-o nos olhos. E o que ela disse então saiu do fundo de seu coração:

— Ele é o homem mais bondoso e gentil que existe em todo o mundo.

Capítulo dezoito

Antes de o verão terminar, Port Clare tinha um novo tópico de conversas: JeriLee e Walter Thornton. A prin­cípio, eles se encontravam na praia, onde ficavam sentados, conversando por horas a fio. Ele estava fascinado pela curio­sidade de JeriLee e pelo extraordinário discernimento que a moça possuía das pessoas. O instinto de JeriLee levava-a a uma compreensão das motivações de cada um, muito além do que seria de se esperar em alguém tão jovem.

Quando o tempo esfriou demais para que fossem para a praia, JeriLee passou a ir de carro até a casa dele, uma ou duas vezes por semana. Ele leu o que JeriLee tinha es­crito e fez algumas sugestões. Ela reescreveu a história e Walter explicou-lhe o que era bom e o que não era. Um dia, ele entregou a JeriLee uma cópia da peça que estava escrevendo.

A moça perguntou se podia levar, para ler sozinha. Walter concordou. JeriLee não apareceu na casa dele por três dias consecutivos. No quarto dia, ao final da tarde, depois das aulas, ela foi visitá-lo, levando a cópia da peça.

Devolveu-a, sem fazer qualquer comentário.

— O que achou? — perguntou ele, descobrindo subi­tamente que a opinião de JeriLee era-lhe muito importante.

— Não sei direito — disse ela, lentamente. — Li duas vezes, mas não creio que tenha compreendido.

— Como assim?

— Não compreendi principalmente a moça. Acho que ela não tem muito sentido. Creio que tentou fazê-la como eu, mas acontece que ela não o é. Não sou tão esperta assim. E ela é esperta demais para ser tão ingênua.

Ao ouvir essas palavras, Walter sentiu um novo res­peito por ela. A única coisa que ele não imaginara fora que JeriLee pudesse ter consciência de sua própria inge­nuidade.

— Mas se ela não for capaz de manobrar as pessoas a seu redor, então não temos uma história, JeriLee.

— Talvez não haja nenhuma. Não vejo como um ho­mem tão inteligente quanto Jackson possa apaixonar-se por uma moça que tem apenas um terço de sua idade. Não há realmente nada que possa atraí-lo, além da juventude dela.

— E não acha que isso é suficiente?

— Não pode ser apenas uma atração física. E muito menos uma atração sexual. Pelo que ele é, isso certamen­te lhe causaria aversão. Teria que ser algo mais. Mas se ela fosse uma mulher, uma mulher de verdade, eu poderia compreender. Acontece que ela não é.

— E o que acha que seria preciso para torná-la uma mulher de verdade?

— Tempo. Tempo e experiência. É a única maneira de as pessoas amadurecerem. É assim que eu mesma irei amadurecer.

— Não acha que ele poderia ter-se apaixonado pelo que ela poderá ser?

— Eu não tinha considerado essa possibilidade. Dei­xe-me pensar um pouco.

JeriLee ficou em silêncio por alguns minutos, depois acabou assentindo.

— É possível. Mas teria que haver uma indicação do que ela poderá ser, algo que o público possa sentir que é muito mais do que está vendo.

— Acho que você tem razão, JeriLee. Vou fazer uma revisão na peça.

— Estou me sentindo extremamente tola, como uma criança tentando ensinar um adulto a andar.

— Podemos aprender muita coisa com as crianças, se soubermos escutá-las.

— Não está zangado comigo pelo que eu disse?

— Claro que não. Pelo contrário, tenho de agrade­cer-lhe. Fez-me perceber uma coisa que poderia tirar toda a validade da peça.

— Jura que ajudei? — indagou ela com um sorriso, subitamente feliz.

— Claro — disse ele, sorrindo também — Juro. — Pe­gou o maço de cigarros. — A cozinheira está de folga esta noite. Acha que seus pais iriam objetar, se eu a levasse para jantar fora?

JeriLee ficou calada, uma expressão preocupada sur­gindo em seu rosto.

— Qual é o problema?

— Não creio que meus pais façam qualquer objeção. Papai o aprecia e respeita bastante. Mas acha que isso seria sensato?

— Está querendo dizer. . . ?

— Ainda estamos em Port Clare. Todo mundo iria comentar.

— Você tem razão, JeriLee. Não quero causar-lhe mais nenhuma infelicidade.

-— Não é em mim mesma que estou pensando — falou ela, fitando-o nos olhos. — Estou preocupada por você. Pela maneira como eles pensam, só há uma razão para que um homem como você saia com uma garota como eu.

— Isso é muito lisonjeiro. — Ele sorriu. — Não sabia que eles pensavam assim a meu respeito.

— Você é um estranho aqui. É rico e divorciado. Vai a Hollywood e à Europa, convive com uma porção de pes­soas diferentes. Só Deus sabe o que acontece, por lá e as coisas que você faz.

— Eu gostaria apenas que eles descobrissem como é monótono — disse ele, rindo. — Vou a esses lugares ape­nas para trabalhar.

— Isso pode ser verdade, mas jamais conseguiria fazer com que eles acreditassem.

— Se você está disposta, JeriLee, não me incomodo de correr o risco.

Ela fitou-o em silêncio por um momento, depois aca­bou assentindo.

— Está bem. Mas, primeiro, vamos avisar meus pais.

Eles foram jantar no Port Clare Inn. Na manhã se­guinte, exatamente como JeriLee previra, a notícia já se espalhara por toda á cidade. E pela primeira vez, desde os tempos de criança, ela e Bernie tiveram uma briga violenta.

Era a noite de folga de Bernie, e os dois foram ao cinema. Depois, seguiram no carro dele até o estacionamento em Point.

Bernie ligou o rádio e a música inundou o carro. Ele virou-se, estendendo os braços para ela. JeriLee recuou, afas­tando as mãos dele.

— Não, Bernie. Não estou com vontade hoje.

Ele fitou-a. JeriLee estava olhando pela janela, para o mar, que tremeluzia ao luar. Ele pegou um cigarro e acen­deu-o. Continuaram calados. Finalmente, terminado o cigarro, Bernie jogou a ponta pela janela e ligou o carro. JeriLee olhou para ele, surpresa.

— Para onde estamos indo?

— Vou levá-la para casa — disse Bernie, com voz mal-humorada.

— Por quê?

— Você sabe por quê.

— Porque não estou com disposição de beijá-lo?

— Não é só isso.

— O que mais então?

Ele fitou-a sombriamente. Sua voz estava carregada de ressentimento:

— Ontem à noite, quando eu estava voltando para casa, depois do trabalho no clube, vi você com o Sr. Thornton. E você é que estava guiando.

— Mas é claro — falou JeriLee, sorrindo. — Ele não sabe guiar.

— Mas ele estava com o braço em cima do encosto, por trás de você. E você estava rindo. Nunca mais riu quando está comigo.

— Ele provavelmente estava dizendo alguma coisa en­graçada.

— Não foi só isso. Reparei na maneira como você es­tava olhando para ele. Tinha uma expressão muito sensual.

— Oh, Bernie! — JeriLee sentiu que estava corando. Torceu para que Bernie não reparasse, no escuro. Só na­quele momento é que ela estava compreendendo como fi­cara excitada. Sabia que não conseguiria dormir, ao chegar a casa, até aliviar a sensação que ameaçava explodir dentro dela. Mas não relacionara o seu excitamento com o Sr. Thornton.

— Não me venha com essa baboseira de "Oh, Bernie" — disse ele, bastante aborrecido.

— Você está com ciúmes. Mas não tem esse direito. Eu e o Sr. Thornton somos apenas bons amigos. Ele está me ajudando nos contos que escrevo.

— Claro, claro. . . Qualquer um pode compreender que um homem como ele queira perder tempo com uma garota metida a escritora.

— Mas é verdade, Bernie! Ele acha que escrevo mui­to bem. E até mesmo me fala sobre as coisas que escreve.

— Ele também lhe falou sobre as festas malucas de Hollywood?

— Ele jamais foi a qualquer festa dessas. Vai a Holly­wood simplesmente para trabalhar.

— É mesmo?

JeriLee não respondeu.

— Eu já devia ter imaginado — murmurou Bernie, amargurado. — Primeiro, você teve uma queda pelo filho, agora está querendo pegar o velho. Talvez fosse ele que você queria desde o início. Ainda me lembro daquele dia em que você o conheceu no ônibus. Ficou com a calcinha toda molhada.

— Não é nada disso, Bernie!

— Claro que é. Só acho uma pena que eu não sou­besse antes o que sei agora. Talvez, no final das contas, as pessoas não sejam tão estúpidas assim. Todo mundo na cidade vê a maneira como você fica provocando os homens, não usando sutiã e tudo o mais. De certa forma, não posso culpar Walt pelo que ele pensou.

Agora, JeriLee estava furiosa.

— É por isso que você sai comigo?

— Se é isso o que você pensa, então não quero mais vê-la.

— Pois está bem para mim — disse JeriLee, aspe­ramente.

— E está bem para mim também! — Ele parou o carro diante da casa dela. A moça saltou, sem dizer uma palavra, batendo a porta violentamente.

— JeriLee! — chamou Bernie.

Ela entrou em casa, sem olhar para trás. O pai tirou os olhos do aparelho de televisão.

— Era Bernie, JeriLee?

— Era, sim.

Ele notou a expressão transtornada da filha e per­guntou:

— Há algo errado?

— Não, papai. Bernie simplesmente bancou o estúpido, e eu não quero vê-lo nunca mais!

John ficou observando-a subir a escada, depois voltou a olhar para a televisão. Mas seus pensamentos não esta­vam realmente concentrados no programa. Ele tinha um problema terrível a resolver. Os peritos estaduais estavam para chegar a qualquer momento, a fim de examinar a contabilidade do banco. E em algum lugar, no meio do labirinto de contas, estavam faltando quase trezentos mil dólares, a maior parte da conta de Walter Thornton.



Capítulo dezenove

O Sr. Carson olhou atentamente para o papel à sua frente.

— Verificou todas as transferências, John?

— Sim, senhor.

— E as ordens de pagamento telegráficas?

— Também, senhor. Tudo confere.

— Então não estou entendendo.

— Eu também não, senhor. Estou terrivelmente preo­cupado desde que descobri.

— E quando foi isso?

— Há alguns dias.

— E por que não veio procurar-me imediatamente?

— Pensei que pudesse ser um equívoco meu. Assim, repassei novamente todas as contas. Mas encontrei o mes­mo resultado.

— Não diga nada a respeito disso a ninguém. Deixe-me pensar no problema por alguns dias.

— Está bem, senhor. Mas se os auditores aparecerem...

Carson não o deixou terminar:

— Eu sei, eu sei — disse ele, impaciente. — Mas quero verificar os números pessoalmente, antes de tomar­mos qualquer providência.

Ele esperou até que a porta se fechasse, à saída de John. Depois, pegou o telefone e discou. Uma voz cautelosa atendeu:

— Alô...


— O Sr. Gennutri, por favor. É Carson quem fala.

A voz tornou-se menos cautelosa.

— Aqui é Pete, Sr. Carson. O que podemos fazer pelo senhor hoje?

— Não sei. . . Em que pé estou?

— Saiu-se muito bem ontem. Aquele pangaré pagou seis e dez. Baixou sua dívida para onze mil dólares.

— E os outros dois cavalos?

— Eles perderam — disse o bookmaker, num tom de simpatia — Era impossível, mas eles perderam. Eu estava certo de que ia arrancar-me uma boa bolada.

Carson ficou em silêncio por um momento.

— Estou em dificuldades, Pete. Preciso de dinheiro.

— É um bom cliente, Sr. Carson. Posso emprestar-lhe dez mil.

— Preciso de muito mais, Pete. De um dinheiro gran­de mesmo.

— Quanto?

— Cerca de trezentos mil.

O bookmaker assoviou.

— É dinheiro demais para mim. Tem que procurar os caras lá de cima para conseguir isso.

— E pode entrar em contato com eles?

— Talvez — disse Pete, a voz novamente cautelosa. — O que tem para dar em troca do dinheiro?

— Como garantia?

— Exatamente.

— Nada que tenha liquidez imediata. Minha casa, mi­nhas ações no banco.

— E quanto valem as ações no banco, Sr. Carson?

— Em torno de quinhentos ou seiscentos mil dólares. Mas elas são inegociáveis.

— Está querendo dizer que não pode vendê-las?

— Para vender, preciso ter a autorização do conselho consultivo do banco.

— E teria alguma dificuldade em conseguir essa au­torização?

— Eu teria de explicar-lhes o motivo. E não posso fazê-lo.

— Então não vai ser fácil.

— Mas pode pelo menos tentar? Eu agradeceria.

— Está certo, Sr. Carson.

Os olhos do banqueiro se fixaram no jornal que esta­va ao lado do relatório de John Randall, em cima da mesa. A página aberta era a das corridas de cavalos.

— Pete...

— Pois não, Sr. Carson?

— Ponha mil em Red River, na ponta, no quinto páreo em Belmont.

— Certo.


Carson desligou, amaldiçoando-se. Sabia que aquilo era uma estupidez. Mas não conseguia controlar-se. O cavalo tinha uma boa possibilidade e o rateio seria muito bom. Ele tornou a olhar para o jornal, sentindo um frio súbito no estômago. De alguma forma, por melhores que fossem as possibilidades, parecia que os cavalos em que apostava nunca conseguiam ganhar, quando precisava deles. Prometeu a si mesmo que, se se livrasse agora, nunca mais voltaria a cair naquela armadilha.

JeriLee saiu da piscina de água quente. Walter largou o jornal, pegou uma toalha e colocou-a nos ombros dela.

— Obrigada — disse ela, sorrindo.

O escritor retribuiu o sorriso.

— O ar de outubro parece que a torna ainda mais bonita, JeriLee.

— Não sabe como lamento que o inverno esteja che­gando. Não haverá então mais nada para fazermos.

— Você sempre poderá vir até aqui e ficar sentada ao lado da lareira acesa.

— Isso seria maravilhoso, mas. . . — Ela hesitou. — Sei que em breve terá de ir embora. Os ensaios da peça começarão dentro de poucas semanas.

— Se até lá conseguirmos reunir todo o elenco.

— Pensei que já estivesse tudo acertado.

— E está. Mas está faltando a moça. Conhece por acaso uma atriz de dezessete anos que possa fazer o papel de uma criança como se fosse uma mulher?

— Nunca pensei que esse problema pudesse existir. Sempre achei que deveria haver muitas atrizes disponíveis para o papel.

— Mas não há. O diretor deve vir até aqui a qualquer momento, para examinarmos o assunto. Vamos discutir di­versas possibilidades.

— Se ele está para chegar, vou me secar e ir embora, para não atrapalhar.

— Não há pressa, JeriLee. E fique certa de que você não irá atrapalhar.

— Fala sério?

— Eu não diria isso, se não fosse verdade.

— De qualquer maneira, vou tirar o maiô e me vestir.

Walter ficou observando-a seguir até a cabana. Depois, pegou novamente o jornal. Mas não o leu. Estava pensan­do. A peça era algo diferente. Nela, ele tinha o controle absoluto. As personagens faziam apenas aquilo que ele lhes permitia. Mas a vida era diferente. Muito diferente. . .

Ouviu a porta da cabana se abrir e olhou. JeriLee esta­va usando os blue jeans desbotados e um suéter de lã. Ela percebeu o olhar dele e sorriu.

— Quer que lhe prepare um drinque?

— Seria ótimo — disse ele, sentindo o estômago se contrair. — Um scotch com água, por favor.

— Está bem.

Walter ficou olhando-a até que ela desapareceu no in­terior da casa. A sensação que o invadira deixara-o quase trêmulo. Era a primeira vez que ele compreendia que se apaixonara por JeriLee.

— Está certo, Guy — falou Walter. — Se não encon­trarmos a moça, não estrearemos em novembro. Adiaremos para a próxima primavera.

— Mas não podemos fazer isso, Walter! — O diretor era um homem magro, de óculos grandes, com um ar de confiança tranqüila. — Perderemos Beau Drake, se adiar­mos a estréia. Ele tem um compromisso de filmagem em maio. E sem ele, teríamos que começar tudo novamente. Temos que correr o risco e encenar a peça com a moça que nos parecer melhor.

— A peça é bastante difícil, Guy. — Walter sacudiu a cabeça. — Se a moça não for a atriz certa para o papel, teremos um fracasso nas mãos.

— Você sempre acertou, Walter. Por isso é que lhe digo que há meios de ajustar a peça à moça com que po­demos contar.

— Não, Guy, não vou reescrever nada. Se eu quisesse que a moça fosse diferente, teria escrito a peça de outra maneira.

Guy fez um gesto de quem desistia.

— Está certo, Walter. A criança é sua. — Olhou para a piscina, além das portas corrediças de vidro. JeriLee estava sentada ali, lendo o jornal. — Quem é a garota? Uma amiga de Júnior?

Walter sentiu que corava.

— De certa forma.

Guy era bastante sensível.

— Mas que resposta mais estranha. Tem certeza de que ela não é amiga sua?

— Ora, Guy, deixe disso. Ela é apenas uma criança.

— Qual é a idade dela? Dezessete anos?

Walter não respondeu.

— Ela sabe representar? — perguntou o diretor.

— Você está doido! Ela é apenas uma colegial que sonha ser escritora.

— E tem algum talento?

— Acho que sim. Há algo de extraordinário nela. Pro­vavelmente ela não sabe, mas tenho a impressão de que há uma tigresa dentro dela, esperando o momento de ser solta.

— Você acaba de dar a descrição perfeita da moça que estamos procurando. Se ela souber representar. . .

Walter ficou calado.

— Peça a ela para dar um pulo até aqui.

Quando JeriLee passou pela porta, Guy teve um pres­sentimento súbito. Sem esperar pela apresentação, ele disse as frases iniciais da peça:

— Seu pai acaba de telefonar. Quer que você volte para casa imediatamente. E disse, também que não quer que eu a veja nunca mais.

Ele acertou em cheio. JeriLee tinha lido a peça. Ela respondeu, dentro do roteiro:

— Meu pai está louco. Como ele não me pode ter, não quer que ninguém mais me possua.

— Anne! Isso não é maneira de falar sobre seu pai!

JeriLee fitou-o com um afetado sorriso inocente.

— Não fique tão chocado assim, Sr. Jackson. Nunca teve pensamentos incestuosos em relação à sua filha?

Guy virou-se para Walter, que ficara observando a cena, fascinado.

— O que acha, Walter?

Ele não disse nada, continuando a olhar para JeriLee.

— Ela é a moça, Walter.

— Mas do que estão falando, afinal? — perguntou JeriLee, aturdida.

Walter finalmente recuperou a voz:

— Ele quer que você faça o papel da moça.

— Mas não sou atriz!

— Para ser atriz, é preciso apenas ser atriz — disse Guy, com um sorriso.

— Não é tão fácil assim. Nunca pisei num palco, a não ser em algumas peças na escola.

— Compete a você conseguir convencê-la — falou Guy, virando-se para Walter.

O escritor ficou calado, olhando para JeriLee, com uma estranha expressão no rosto. Guy encaminhou-se para a porta.

— Vou voltar para Nova York. Telefone-me quando decidir o que vai fazer, Walter.

Ele não respondeu. Assim que o diretor saiu, perce­bendo o olhar fixo de Walter, JeriLee perguntou-lhe:

— Está zangado comigo?

Ele meneou a cabeça.

— Então o que é?

— É que, de repente, descobri que sou como o pai de minha própria peça. Estou com ciúmes, de você.

Carson olhou para o relógio. Eram quatro horas da tarde. Eles já deviam ter o resultado do quinto páreo. Ligou para o bookmaker. Gennutri atendeu, com a mesma voz cautelosa habitual.

— Alô...


— Pete? Qual foi o resultado do quinto páreo?

— Teve azar, Sr. Carson. Seu cavalo foi um dos úl­timos.

Carson levou alguns segundos para reagir ao choque.

— Conseguiu falar com seus amigos, Pete?

— Consegui, Sr. Carson. Mas eles não estão interes­sados.

— Mas têm que compreender. Não sou um apostador comum. Pagarei tudo, com juros.

— Não há nada de pessoal, Sr. Carson, mas é justa­mente isso o que todos dizem.

Carson olhou para o jornal sobre a mesa. Havia um cavalo no oitavo páreo que poderia ajudar.

—- Está certo, Pete. Aposte dois mil dólares para mim em Maneater, no oitavo páreo.

— É impossível, Sr. Carson — disse Gennutri, com a voz subitamente, fria. — Já está me devendo doze mil dólares e não posso mais lhe dar nenhum crédito, enquanto não saldar sua dívida.

— Mas já fiquei devendo muito mais do que isso antes!

— Eu sei, Sr. Carson. Mas as coisas eram diferentes. O senhor não estava em dificuldades como agora.

— Então aposte mil dólares, Pete. Tem que me dar uma chance de descontar.

— Lamento muito, Sr. Carson.

O bookmaker desligou abruptamente. Carson ficou olhando por um momento para o fone mudo em sua mão, depois pousou-o no gancho. Continuou sentado em sua mesa por quase uma hora, até ter certeza de que todos já tinham ido embora. Abriu então a última gaveta da mesa, tirou um revólver, enfiou o cano na boca e estourou os miolos, jogando sangue e carne na parede, por baixo do retrato do Presidente Eisenhower.


Capítulo vinte

Exausto, John Randall olhou para o relógio na parede. Eram três horas da tarde. O guarda do banco estava olhan­do para ele. John ergueu a mão, o guarda assentiu e virou-se para trancar a porta. No mesmo instante, os dois caixas fecharam seus guichês.

Frustrada, a multidão que ainda estava na fila diante dos guichês encaminhou-se para John. Ele se levantou. A notícia do suicídio de Carson atingira Port Clare como uma onda de choque.

John olhou para trás. A porta do gabinete do presi­dente estava fechada. Por trás dela, os auditores do Esta­do ainda estavam examinando as contas. Diversas outras irregularidades haviam sido encontradas, mas o total dos desfalque ainda não fora verificado. Carson agira meticulosamente. As transferências e retiradas haviam sido cuida­dosamente falsificadas. Ninguém conseguia compreender como ele conseguira permanecer a salvo até aquele momento.

— Quando é que vamos receber nosso dinheiro? — gritou um cliente, furioso, do meio da multidão. — Por que estão fechando as portas na nossa cara?

— É a hora legal de encerrar o expediente do banco — disse John, pacientemente. — E todos vocês receberão seu dinheiro. Quaisquer prejuízos que possa haver serão integralmente cobertos pelo seguro.

— Como é que sabe disso? — gritou outro cliente. — Ainda me lembro que nos disseram a mesma coisa quando o Banco dos Estados Unidos faliu, em 32.

— As coisas eram diferentes naquela ocasião. Atual­mente, as contas de poupança são garantidas pelo governo federal até dez mil dólares. E o banco tem seguro contra fraudes e desfalques. Todo o dinheiro será devidamente reposto.

— Isso é o que você diz! Mas não tem dinheiro em caixa para nos devolver os nossos depósitos neste momen­to, não é mesmo?

— Não. E nenhum banco tem dinheiro em caixa, suficiente para pagar a todos os seus depositantes, num deter­minado dia. O dinheiro que você nos paga pela hipoteca de sua casa, nós emprestamos a outro. Multiplique isso por centenas e compreenderá como a coisa funciona. É apenas uma questão de bom senso.

— Não sou nenhum estúpido! — disse o homem. — Se eu não pagar a hipoteca, o banco toma minha casa. Mas se o banco não pagar nossos depósitos, o que podemos fazer?

— Todos vocês receberão o seu dinheiro.

— E se o banco fechar?

— Não vamos fechar. Temos bens suficientes para cobrir todos os nossos compromissos. Tudo o que precisa­mos é de um pouco de tempo para convertê-los em dinheiro. Se vocês nos derem esse tempo, posso garantir que nin­guém terá o menor prejuízo.

— Por que deveríamos acreditar no que está nos di­zendo, Sr. Randall, depois do que aconteceu?

John fitou o homem nos olhos. Falou devagar, pro­nunciando cada sílaba nitidamente, para que todos pudes­sem ouvir:

— Porque eu também, Sr. Sanders, como todos vocês, trabalhei a vida inteira para ganhar o pouco que tenho. E até o último tostão que consegui economizar neste mundo, está tudo depositado neste banco. Mas não estou preocu­pado com isso.

O homem ficou calado por um instante, depois virou-se para os outros.

— Eu confio no Sr. Randall. E vocês?

Houve um murmúrio de aprovação na multidão. A hostilidade começava a se dissipar. Aquilo era algo que eles podiam compreender: a palavra de um homem.

— Nós todos confiamos! — gritou um homem nos fundos da multidão.

Sanders estendeu a mão para John.

— Vai cumprir a promessa que nos fez, Sr. Randall?

John assentiu. Não confiava em si mesmo para falar, diversos outros clientes apertaram a mão dele. Silenciosamente, a multidão começou a deixar o banco, pela porta aberta pelo guarda.

Quando voltou para sua mesa, John viu que Arthur Daley e diversos outros membros do conselho consultivo do banco haviam saído do gabinete do presidente, onde ti­nham estado em conferência com os auditores. E estavam todos olhando para ele. Arthur Daley sacudiu a cabeça, num gesto de aprovação, e eles voltaram, para o gabinete.

Três dias depois, John foi eleito presidente do Port Clare National Bank.

John levantou os olhos quando JeriLee entrou na sala, parando de tomar o café da manhã por um instante.

— Levantou-se cedo, querida. Especialmente hoje.

— O que há de tão especial no dia de hoje? Eu sempre me levanto cedo.

— Até nos sábados, quando não há aula?

— Estou com vontade de dar uma olhada nas lojas — disse ela, corando.

— Você? Pensei que detestasse fazer compras.

— É que amanhã é o aniversário do Sr. Thornton. Quero comprar um presente especial para ele.

— Quantos anos ele vai fazer?

— Quarenta e oito.

— Pensei que ele fosse mais velho — falou John, de­monstrando surpresa na voz.

— É o que muita gente pensa. Acho que é porque a primeira peça dele foi encenada na Broadway quando ele tinha vinte e três anos.

— Mesmo assim, ele é mais velho do que eu. — John estava com quarenta e três anos.

— Não muito, papai. E o mais curioso é que ele não parece ser velho. Entende o que estou querendo dizer, não é?

John assentiu, tornando a pegar a xícara de café.

— Ele esteve no banco ontem. Tivemos uma longa conversa.

JeriLee serviu-se de café e sentou-se.

— E sobre o que conversaram?

— Principalmente sobre negócios. Ele foi muito com­preensivo com relação ao que aconteceu. Se quisesse, po­deria ter-nos criado as maiores dificuldades. Se por acaso tivesse retirado sua conta, teria iniciado uma corrida que acabaria levando ao fechamento do banco.

— Mas ele não fez isso.

— Não, não fez. — Era curioso como as coisas aconteciam inesperadamente, pensou John. Será que JeriLee sabia que, se não fosse por Walter Thornton, ele talvez nunca se tivesse tornado presidente do banco?

Tudo acontecera na noite em que os auditores do Estado haviam terminado o levantamento. O conselho con­sultivo do banco fora procurar o Sr. Thornton. Ele tinha sido o cliente mais atingido; faltavam mais de duzentos mil dólares em sua conta. Haviam-lhe pedido tempo para repor o dinheiro e que demonstrasse sua confiança no banco, não retirando o dinheiro.

Ele concordara imediatamente, impondo apenas uma condição. Mais tarde, Arthur Daley repetira para John as palavras exatas do Sr. Thornton:

"Continuarei cliente do banco, mas com uma única condição: que John Randall seja eleito presidente".

Como Arthur fizera questão de ressaltar, o conselho ficara aliviado. Todos já haviam chegado à conclusão de que essa era a melhor solução, e não houvera a menor dificuldade.

John ficou observando a filha passar manteiga numa torrada.

— Também falamos a seu respeito, JeriLee.

— É mesmo? E sobre o que falaram?

— Ele disse que você realmente pode ser escritora. E que deve tomar muito cuidado na escolha da universidade que irá cursar, depois que terminar o curso secundário.

— Ele me disse a mesma coisa.

— Quer mesmo ser escritora, JeriLee? E como será quando se casar e constituir uma família?

— Oh, papai! — JeriLee corou. — Ainda falta muito tempo para isso. Não conheci até hoje nenhum rapaz com quem tivesse vontade de namorar firme. Além do mais, es­crever é uma coisa que se pode fazer independentemente da vida que se tem. Há muitas escritoras que são casadas e têm família.

— Ele disse também que você deve começar agora a tratar da matrícula na universidade que escolher. Afinal, daqui a pouco estará terminando o curso secundário.

— O Sr. Thornton prometeu obter algumas informa­ções sobre diversas universidades, para que eu pudesse tomar uma decisão.

— Ele também me falou nisso. E prometeu que se manteria em contato conosco.

— Como assim?

— Ele vai passar uma longa temporada longe daqui. Irá para Hollywood, depois para a Europa, e voltará a Hollywood.

JeriLee não disse nada por alguns segundos.

— Ele falou alguma coisa a respeito de uma peça na Broadway?

— Não, JeriLee. Ele não me falou nada a esse respeito.

JeriLee apertou a campainha da porta. Dentro da casa, o carrilhão tocou suavemente. Foi a secretária dele quem abriu a porta.

— Olá, JeriLee. Eu não a estava esperando. Estamos arrumando as malas. Vou dizer a ele que você está aqui.

A mulher foi para a biblioteca, fechando a porta na passagem. Depois de esperar um momento no vestíbulo, JeriLee atravessou a sala de estar e saiu para o terraço. A piscina já estava coberta para o inverno. O vento frio de novembro soprava pelo estreito. JeriLee estremeceu e acon­chegou-se no casaco.

— JeriLee... — A voz dele vinha da porta. Ela virou-se, murmurando:

— Está ficando cada vez mais frio. . .

— Está mesmo. Mas venha cá para dentro, está mais quente. — Ela seguiu-o até a sala de estar. — Não esperava vê-la hoje, JeriLee.

— É que amanhã é seu aniversário — disse ela, estendendo-lhe o pequeno embrulho em papel de presente. — E eu queria dar-lhe isso.

Ele pegou o presente, constrangido.

— Abra-o — disse ela. — Espero que goste.

Rapidamente, Walter abriu o embrulho. Era uma pe­quena agenda e caderninho de telefones, com uma capa de couro. Do lado, presa por uma alça, havia uma pequena caneta de ouro.

— É lindo, JeriLee. Por que escolheu esse presente?

— Está sempre procurando números de telefone.

Ele se limitou a assentir.

— Feliz aniversário — disse ela.

— Obrigado, JeriLee — murmurou ele, forçando-se a sorrir. — Estou ficando velho.

— Nunca vai ficar velho, Sr. Thornton. As coisas que escreve irão mantê-lo eternamente jovem.

— Obrigado. Muito obrigado mesmo. É a coisa mais maravilhosa que alguém já me disse — falou ele, sentindo a tensão interior aumentar.

JeriLee estava de pé, um pouco constrangida. Final­mente, voltou a falar:

— Acho que já vou, Sr. Thornton. Estão me espe­rando em casa para o jantar.

— JeriLee...

— Pois não, Sr. Thornton?

— Vou embora amanhã. — Seus olhos se fixaram na face dela.

— Eu já sabia. Papai me falou.

— Passarei muito tempo fora.

— Papai também me disse isso.

— Resolvi suspender a apresentação da peça, JeriLee. Cheguei à conclusão de que ainda não está boa.

JeriLee ficou calada. Ele sorriu.

— Você é escritora — disse Walter. — E vai des­cobrir que isso acontece de vez em quando.

Ela limitou-se a assentir.

— A gente segue por um caminho errado e, de repen­te, descobre que não sabe sobre o que está falando.

— Ou que sabe demais. E não quer dizê-lo.

Ele baixou os olhos.

— Sinto muito, JeriLee.

Subitamente, a voz dela estava trêmula:

— Eu também sinto, Sr. Thornton.

JeriLee saiu da casa. Ele foi até uma janela e ficou observando-a entrar no carro e partir. A secretária chamou-o da biblioteca:

— Walter, vai querer que eu leve também as anota­ções sobre aquela história de Chicago?

Lágrimas não derramadas fizeram arder os olhos dele. Não respondeu. O carro de JeriLee estava dobrando a es­quina e desaparecendo.

— Walter, você. . . ?

— Já estou indo.. .

Capítulo vinte e um

Fora há muito tempo atrás e, contudo, não estava tão longe assim. Dezessete anos... O que isso representava? Metade de sua vida até aquele momento. Tanta coisa acon­tecera desde então, e, no entanto, bastava apertar o botão certo de seu banco de memória para que tudo voltasse com a maior nitidez.

JeriLee olhou para o relógio na parede, por cima da cama de hospital. Eram quatro horas da tarde e as outras mulheres há muito já tinham voltado para casa. Ela era a única paciente que ficara.

O médico veio postar-se ao lado de sua cama e fitou-a através das lentes dos óculos, sorrindo.

— Como está se sentindo, JeriLee?

— Chateada. Quando é que vou sair daqui?

— Agora mesmo. Vou dar-lhe alta.

Ele pegou a prancheta que estava ao pé da cama, es­creveu rapidamente uma anotação e depois apertou a cam­painha, chamando a enfermeira. Entrou uma enfermeira negra.

— Pois não, doutor?

— A Srta. Randall já pode ir embora. Ajude-a a se preparar.

— Está bem, doutor. — Ela virou-se para JeriLee e informou: — Há um cavalheiro à sua espera na recepção, desde o meio-dia.

— E por que não me disse antes?

— Ele disse que não se importava de esperar. E que não queria incomodá-la. — A enfermeira foi até o armário embutido, tirou as roupas de JeriLee e colocou-as sobre a cadeira ao lado da cama. — Deixe-me ajudá-la a se levantar da cama, meu bem.

— Estou me sentindo bem — assegurou JeriLee. Mas assim que ficou de pé, sentiu-se estranhamente fraca e apoiou-se na mão que a enfermeira lhe estendia. — Obrigada.

— Vai se sentir melhor daqui a alguns minutos, meu bem. — A enfermeira sorriu. — É preciso algum tempo para recuperar o controle das pernas.

JeriLee foi para o banheiro. Ao voltar, o médico ainda a estava esperando.

— Quero vê-la dentro de uma semana.

Ela assentiu.

— E nada de sexo enquanto eu não autorizar — con­tinuou ele.

Ela fitou-o e sorriu. Aquela seria a última coisa em que pensaria agora.

— Procure descansar o máximo por alguns dias, Jeri­Lee. Não faça muito esforço.

— É o que pretendo fazer, doutor. Obrigada por tudo.

O médico saiu e ela começou a vestir-se. Ao acabar, a enfermeira estava de volta, empurrando uma cadeira de rodas. JeriLee olhou para a cadeira, hesitante.

— Tenho mesmo que ir nessa cadeira?

— É o regulamento. Irá nessa cadeira até a porta.

— Deixe-me primeiro passar um batom nos lábios. — JeriLee contemplou-se no espelho. Um pouco de ruge em suas faces também não faria mal nenhum. A palidez de hospital não demorava muito a se instalar.

A princípio, ela não o reconheceu. Ele estava de óculos escuros e com um bigode falso, além de uma peruca cas­tanha, cobrindo o rosto normalmente barbeado e os cabelos pretos encaracolados. Ela quase soltou uma risada. Afinal de contas, ele estava com uma aparência por demais ri­dícula.

— Como vai, JeriLee? — disse ele, em tom esganiçado, procurando disfarçar a voz normalmente grave.

— Estou ótima.

— O carro está ali fora, enfermeira — disse ele.

A enfermeira assentiu e empurrou a cadeira de rodas ate a entrada de carros, descendo pela rampa. Ele alugara um Continental, ao invés de usar o seu Corniche conver­sível. Abriu a porta e ajudou a enfermeira a acomodar Jeri­Lee no banco da frente.

— Adeus — disse JeriLee à enfermeira. — E obrigada por tudo.

— Será sempre bem-vinda aqui, meu bem. Boa sorte.

Ele tirou do bolso uma nota de vinte dólares e entre­gou-a à enfermeira, dizendo também:

— Obrigado por tudo.

A enfermeira olhou para a nota e depois para ele, o rosto preto brilhante se abrindo num sorriso.

— Obrigada, Sr. Ballantine.

Ele ficou boquiaberto por um momento, virando-se em seguida para JeriLee:

— Como foi que ela me reconheceu?

JeriLee estava rindo, divertida.

— Você pode ser um grande astro, George, mas ainda não sabe coisa alguma de maquilagem.

Ele contornou o carro e foi sentar-se ao volante.

-— Não queria que ninguém me reconhecesse.

— Não precisa ficar preocupado. Ela já viu todo mun­do por aqui, indo e vindo. Não vai dizer nada.

— Não posso me dar ao luxo de mais nenhum falatório — disse ele, ligando o carro. -— Assim como está, o estúdio não pára de falar.

— Não se preocupe.

— E você, JeriLee, como está?

— Estou bem.

— É só o que tem a dizer?

— É, sim.

— Não se sente melhor, agora que tudo acabou?

— Você se sente?

— E muito. Era a coisa certa a se fazer.

Ela pegou um cigarro.

— Também não pensa assim? — perguntou George.

— Se é o que você pensa. . .

— Estou certo, JeriLee. — Ele estendeu o braço e afagou a mão dela. — Você vai ver. Amanhã de.manhã, ao acordar, vai descobrir que eu estava com a razão.

— Amanhã de manhã, vou acordar tão atordoada que nem mesmo me lembrarei do que aconteceu hoje.

— O que há com você? O que deseja de mim?

— Nada, absolutamente nada. — Ela encolheu-se no canto do banco.

O que havia de errado com os homens que os levava sempre a sentirem que ela queria arrancar deles algo que não estavam preparados a dar? Especialmente quando ela nada pedia e nada queria. Eles simplesmente não conseguiam entender.

Havia dois homens na vida dela que jamais tinham assumido aquela atitude: seu pai e Walter Thornton. Tudo o que eles queriam era dar a ela o que tinham dentro de si. Talvez tivesse sido justamente por isso que ela lhes falhara. Ela simplesmente não sabia como receber.

— Ele é velho demais — disse a mãe. — É mais velho do que seu pai. E o que me diz do filho dele? Terá que se encontrar com o rapaz.

— Não, mamãe, isso não acontecerá. Ele foi viver na Inglaterra, com a mãe. Além do mais, nada disso importa, porque eu o amo.

Verônica olhou para a filha, irritada.

— O que você sabe do amor? Ainda é uma criança. Nem mesmo fez dezoito anos.

— O que é o amor, mamãe? Gosto dele, admiro-o, respeito-o, quero ir para a cama com ele.

— JeriLee!

— Se isso não é amor, então explique-me o que é.

— É tudo menos isso que você está pensando. Sexo! Deve se lembrar o que quase aconteceu com aqueles ra­pazes.

— E por causa disso eu deveria ficar com medo do amor?

— Não é isso que eu estava querendo dizer! — falou a mãe. E virou-se para o marido, em busca de ajuda. — Vamos, John, fale com ela. Faça-a compreender.

— Não posso. — John sacudiu a cabeça. — O amor é o que cada pessoa pensa que é. O amor é o que duas pessoas concordam que é. E é diferente para cada pessoa que ama.

— Mas ela ainda é uma criança — falou Verônica.

— Então você não conhece sua filha. JeriLee deixou de ser criança há muito tempo.

— Ele estará com cinqüenta anos antes de JeriLee chegar aos dezoito!

— Se isso virar um problema, será um problema deles. Tenho certeza de que ambos pensaram bastante e que terão de resolver isso.

— Ela vai precisar de minha assinatura na licença de casamento — disse Verônica, ainda obstinada. — E eu não assinarei.

— O que será uma pena, pois eu assinarei.

— Você não pode! Ela não é sua filha! — exclamou Verônica, furiosa.

JeriLee percebeu a mágoa no rosto do pai. Apesar disso, a voz dele permaneceu calma:

— Ela é minha filha, sim! Tanto minha quanto do pai verdadeiro. Eu a amo e a adotei. Isso é suficiente para sa­tisfazer a lei.

— Vai deixar que todo mundo acredite que é verdade o que andaram comentando até agora?

— Não me importo com o que as pessoas digam, pen­sem ou acreditem. A única coisa que me interessa é a feli­cidade de minha filha.

— Mesmo sabendo que, a longo prazo, ela está come­tendo um terrível erro?

— Não sei se será um erro e você também não sabe. Mas mesmo que ela esteja cometendo um erro, continuarei a amá-la e procurarei ajudá-la.

— Pela última vez, JeriLee, peço-lhe que me escute com atenção. — Verônica virou-se para a filha. — Haverá outros homens, mais moços, mais próximos de sua idade. Poderão crescer juntos, envelhecer juntos, ter filhos. E você jamais poderá fazer essas coisas com ele.

— Pelo amor de Deus, mamãe, ele não é um aleijado! — disse JeriLee, já exasperada. — Já fui para a cama com ele e quero que saiba que é um amante maravilhoso!

— Ah, então é isso! As histórias que contavam eram verdadeiras!

As lágrimas afloraram aos olhos de JeriLee.

— Não, mamãe, não é verdade. A menos que você queira acreditar...

Ela virou-se e saiu correndo de casa. Com uma ex­pressão de cansaço, John olhou demoradamente para a espo­sa, antes de murmurar, em tom desolado:

— Sabe, Verônica, às vezes me pergunto o que vi em você. Há ocasiões em que consegue ser de uma estupidez inacreditável!

George parou o Continental à entrada da casa dela.

— Não quer entrar para tomar um drinque? — per­guntou ela.

— Prometi a meu agente que iria encontrar-me com ele no Polo Lounge, às cinco horas — disse ele, sacudindo a cabeça.

— Está certo. — JeriLee abriu a porta do carro e saltou. — Obrigada por ter ido buscar-me.

— Não foi nada. Sinto muito o que aconteceu, JeriLee. Eu não queria causar-lhe tantos transtornos.

— Não houve nenhum transtorno. Nunca lhe fala­ram? É mais fácil do que curar um resfriado. — JeriLee contornou o carro e ficou parada junto à janela em que ele estava, brincando por um instante com o bigode postiço. — Tem certeza de que não quer mesmo entrar?

— Bem. . . Acho que posso chegar meia hora atrasado. Meu agente não vai se importar.

JeriLee riu e arrancou o bigode postiço, grudando-o na testa dele.

— Oh, George, George. . . Por que você tem que ser um merda tão grande?

Depois, virou-se e, meio rindo, meio chorando, subiu o caminho para sua casa. Trancando a porta, encostou-se nela e deixou que as lágrimas lhe escorressem livremente pelo rosto. O que será que havia nela que sempre parecia atrair os homens que não prestavam?

Nem sempre fora assim. Walter não era um merda. Era apenas um fraco. Precisava de mais garantias de se­gurança do que ela.

JeriLee atravessou a casa até seu quarto e caiu na cama, sem tirar as roupas. Ficou olhando para o teto, os olhos novamente secos. O telefone começou a tocar, mas ela não fez o menor movimento para atender. Depois de três toques da campainha, o serviço de recados telefônicos atendeu.

Estendeu a mão para uma caixa de cigarros na mesinha-de-cabeceira e tirou um. Acendeu-o e deu uma tragada, sentindo a fumaça invadir-lhe os pulmões. Apertou um bo­tão e o toca-fitas começou a tocar, a música se espalhando pelo quarto. Deu mais duas tragadas no cigarro, jogou-o num cinzeiro e virou-se de bruços, cobrindo o rosto com as mãos. Novamente, surgiu diante de seus olhos a imagem da garotinha sentada no alto da escada, chorando. Mas logo desapareceu. Abruptamente, JeriLee sentou-se na cama. Não era mais aquela garotinha. Deixara de sê-lo há muito, muito tempo...

Desde o dia em que se casara com Walter e os dois haviam seguido para Nova York, onde subiram interminavelmente de elevador até o apartamento dele, no alto de um edifício que dominava a cidade.



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