Tradução de Nelson Rodrigues Digitalização: Argo



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LIVRO DOIS
Cidade Grande

Capítulo um

Era primavera em Nova York. O verde viçoso das fo­lhas novas das árvores do Central Park adejava à brisa que soprava e as crianças brincavam no primeiro momento do calor de maiô. Passamos pelos bancos repletos de ociosos. Não nos falamos nem nos olhamos, juntos embora sepa­rados, cada um imerso em seus próprios pensamentos si­lenciosos.

Ele nada disse até sairmos na Avenue of the Américas, na altura da 59th Street. Ficamos esperando que o sinal abris­se. Como sempre, o tráfego estava congestionado nas duas ruas.

— Pode demorar o tempo que precisar para se mudar — disse ele. — Vou pegar o vôo das dez da noite para Londres e não voltarei antes de um mês.

— Está bem. Eles me disseram que o apartamento já está quase pronto.

Ele segurou meu braço no momento em que um cami­nhão fez a curva e passou perto demais. Largou o braço rapidamente, ao pisarmos na calçada.

— Eu queria apenas que você soubesse.

— Obrigada, Walter. Mas vou passar o fim de sema­na em casa e tenho certeza de que na segunda-feira já estará tudo resolvido.

O empregado que nos abriu a porta tinha uma expres­são estranha.

— Olá, Sr. Thornton. Olá, Sra. Thornton.

— Olá, Joe — respondi. Eu tinha certeza de que ele sabia. A essa altura, todo mundo já sabia. Afinal, fora publicado em todas as colunas. Os Thornton estão se divorciando.

Subimos no elevador em silêncio, até a cobertura. Saímos para o corredor.

— Tenho a minha chave — disse Walter.

As malas dele já estavam prontas, no vestíbulo. Ele fechou a porta e ficou parado por um momento, em silêncio.

— Acho que estou precisando de um drinque — disse ele, finalmente.

— Vou preparar para você. — Automaticamente, en­caminhei-me para o bar, na sala de estar.

— Pode deixar que eu mesmo faço.

— Não é trabalho nenhum. Para dizer a verdade, também estou precisando de um drinque.

Joguei algumas pedras de gelo em dois copos e despejei o scotch por cima. Ficamos nos olhando por cima do bar.

— Saúde! — disse ele.

— Saúde!

Ele tomou um gole grande, enquanto eu me limitava a um gole pequeno.

— Seis anos. . . Mal posso acreditar!

Não fiz qualquer comentário.

— Passaram tão depressa! Para onde será que foram?

— Não sei.

— Lembra-se da primeira vez em que eu a trouxe para cá? Estava nevando naquela noite e o parque estava todo branco na escuridão.

— Eu era apenas uma criança nessa ocasião. Uma criança num corpo de mulher.

Uma expressão aturdida surgiu nos olhos dele.

— Quando foi que você cresceu, JeriLee?

— Um pouco a cada dia que passou, Walter.

— Não reparei.

— Eu sei, Walter — falei gentilmente.

Era justamente esse o problema. Mais do que qualquer outra coisa. Para ele, eu seria sempre a esposa-criança. Ele terminou o drinque e pôs o copo vazio em cima do bar.

— Tenho que subir para tentar tirar um cochilo. Nun­ca consegui dormir nesses vôos noturnos.

— Está certo.

— O carro virá apanhar-me às oito e meia — disse ele. — Você estará aqui quando eu descer?

— Estarei.

— Não gostaria de ir embora sem dizer-lhe adeus.

— Eu também, não gostaria. — Foi então que as com­portas se romperam e meus olhos ficaram cheios de lágri­mas. — Oh, Walter, sinto muito!

A mão dele tocou a minha por um breve instante.

— Não há problema. Compreendo perfeitamente.

— Eu o amei muito, Walter. E você sabe disso.

— Eu sei, JeriLee.

Não havia mais nada a dizer. Ele saiu da sala e ouvi seus passos subindo para o quarto. Um momento depois, o barulho da porta se fechando ecoou pelos aposentos va­zios. Enxuguei meus olhos com um lenço de papel e fui até a janela, onde fiquei olhando para o parque.

As folhas ainda estavam verdes, as crianças ainda es­tavam brincando, o sol continuava a brilhar. Era primavera. Mas que diabo! Se isso era verdade, então por que eu estava tremendo de frio?

O apartamento ficou vazio depois que ele partiu. Eu estava indo para a cozinha, a fim de arrumar alguma coisa para comer, quando o telefone tocou. Era Guy.

— O que você está fazendo?

— Nada. Eu estava apenas indo arrumar alguma coisa para comer.

— Walter já foi?

— Já.

— Você não deveria passar esta noite sozinha. Vou levá-la para jantar fora.



— É muita gentileza sua. — Eu falava com toda a sinceridade. Guy era um excelente amigo nosso. Fora ele quem me dirigira na primeira peça em que eu atuara, a peça que Walter estava escrevendo quando nos conhecêra­mos. — Mas será que não podemos deixar para outra oca­sião? Não estou com a menor vontade.

— Vai lhe fazer bem.

— Não, Guy. Obrigada.

— Então posso levar uns sanduíches? Passarei no Stage e comprarei alguma coisa.

Hesitei por um instante.

— Além disso, JeriLee, tenho algumas idéias sobre as alterações que deve fazer em sua peça. Poderemos conversar a respeito disso.

— Está certo.

— Assim é melhor. Levarei vinho também e teremos uma noite tranqüila. Dentro de meia hora está bem?

— Está ótimo.

Desliguei o telefone e fui para o quarto. Abri a porta do armário para pegar uns blue jeans quando o telefone tocou novamente. Era minha mãe.

— JeriLee?

— Eu mesma, mamãe.

— Quando foi que você voltou?

— Esta tarde.

— Poderia ter me telefonado.

— Não tive tempo, mamãe. Fui do aeroporto direto para o escritório do advogado. Walter e eu ainda tínhamos que assinar alguns documentos.

— Quer dizer que o divórcio está consumado — disse ela, em tom de desaprovação. — Eu não sabia que os di­vórcios no México eram válidos em Nova York.

— Mas são, mamãe.

— Devia ter encontrado um jeito qualquer de me te­lefonar. Afinal de contas, sou sua mãe e tenho o direito de saber o que está acontecendo.

— Você sabia o que estava acontecendo. Expliquei-lhe tudo, antes de viajar para Juárez. Além disso, passarei o fim de semana aí e poderei contar-lhe todos os sangrentos detalhes.

— Não precisa contar-me nada, se não quiser.

Tentei controlar-me, para não ficar irritada. Não sei o que é, mas mamãe sempre teve a capacidade de me fazer ficar na defensiva. Olhei ao redor, à procura de um cigarro, mas não vi nenhum.

— Mas que diabo! — murmurei.

-— O que foi que você disse, JeriLee?

— Não consigo encontrar um cigarro.

— Só por causa disso não precisa praguejar. Além do mais, você anda fumando muito.

— Tem razão, mamãe. — Encontrei finalmente um cigarro e acendi-o.

— A que horas pretende chegar?

— De manhã.

— Vou preparar um almoço para você. Não coma muito no café.

— Está bem, mamãe — disse eu, mudando em segui­da de assunto. — Papai está aí?

— Está. Quer falar com ele?

— Gostaria.

— Como está a minha garotinha? — A voz dele era cordial e meiga ao telefone.

Foi o bastante. Senti as lágrimas novamente aflorarem aos olhos.

— A garotinha está crescida e muito triste, papai.

Toda a compaixão do mundo se expressou em duas palavras:

— Foi duro?

— Foi.

— Mas fique de cabeça erguida. Você ainda tem a nós.



— Eu sei.

— Vai dar tudo certo, JeriLee. Só que leva tempo. Tudo sempre leva algum tempo.

Eu já tinha recuperado o controle.

— Conversaremos amanhã. Estou morrendo de sau­dades.

— Eu também.

Eu tinha tempo apenas para tomar um banho de chu­veiro e vestir-me, antes da chegada de Guy.

Ele ficou parado na porta, com um sorriso tolo no rosto, uma sacola de compras numa das mãos e um buquê de flores na outra. Pôs as flores em minhas mãos e beijou-me no rosto. Antes mesmo que ele falasse, pude sentir, por seu hálito, que andara bebendo.

— Feliz, feliz. . . — murmurou ele.

— Você é doido, Guy. Por que essas flores?

— Para comemorar. Não é todos os dias que os melho­res amigos de um sujeito se divorciam.

— Não vejo nada de engraçado.

— E o que você quer que eu faça? Desate a chorar?

Não respondi.

— Chorei no seu casamento, JeriLee. Por todo o bem que me fez. Agora, vocês estão divorciados e ambos se sen­tem felizes. Acho que isso merece uma comemoração.

— Você faz tudo ao contrário, Guy.

— E por que não? No final das contas, dá no mesmo. — Ele passou para a sala de estar e tirou uma garrafa de champanha da sacola de compras-. — Pegue as taças, JeriLee. Dom Pérignon. Sempre o melhor.

Depois, levantando sua taça, disse:

— Vamos beber a tempos melhores.

Tomei um gole. As borbulhas fizeram-me cócegas no nariz.

— Beba tudo, JeriLee.

Esvaziei a taça e tornei a enchê-la.

— Outra vez.

— Você está tentando embriagar-me.

— Tem toda a razão. E garanto que não lhe vai fazer mal algum — disse ele.

O champanha desceu e subiu rapidamente. Comecei a sentir-me subitamente animada.

— Você é doido mesmo, Guy.

Os olhos de um azul muito pálido se fixaram nos meus, e percebi de repente que ele não estava tão embria­gado quanto eu imaginara.

— Está se sentindo melhor?

— Estou.

— Ótimo. Agora, vamos comer. Estou faminto. — Ele começou a esvaziar a sacola em cima do bar. Vi-me cercada pelos odores maravilhosos de sanduíches de carne, pastrami e picles com alho. Minha boca se encheu de água.

— Vou pôr a mesa.

— Para quê? — Ele pegou um sanduíche e mordeu-o. E com a boca cheia, disse: — Não precisa impressionar ninguém.

Com Walter, tudo tinha o seu lugar próprio. Jamais havíamos comido na cozinha. Guy tornou a encher minha taça.

— Beba, coma e seja feliz.

Peguei um sanduíche e dei uma mordida. Inesperada­mente, meus olhos ficaram úmidos. Guy reparou.

— Não, por favor, não!

Eu tinha um nó na garganta. Não podia engolir. Não podia falar.

— Não chore, JeriLee. Eu a amo. — Ele sorriu e as­sumiu uma expressão maliciosa, acrescentando: — Isto é, eu a amo até o ponto em que uma boneca como eu pode amar uma garota.




Capítulo dois

Eu me sentia tonta e desligada, havia um zumbido agradável em meus ouvidos. Estava estendida no sofá. Olhei para Guy, que estava estendido no chão, a meus pés.

—- Por que você não se levanta, Guy?

Ele rolou no chão e ficou deitado de costas, erguendo a mão para pegar um cigarro que estava entre meus dedos.

— Não sei se consigo — disse ele, dando uma tragada.

— Experimente. Eu o ajudarei.

— Para quê? Estou feliz aqui.

— Está bem. Sobre o que estávamos falando?

— Não me lembro.

— Sobre a peça. Você tinha algumas idéias para al­terá-la.

— Não posso falar sobre isso agora. Estou me sen­tindo bem demais.

Olhei pela janela. O céu da noite, sobre o Central Park, estava cinza, do reflexo da iluminação.

— Será que o avião já decolou, Guy?-

— Que horas são?

— Quase meia-noite.

— Então, já partiu — disse ele.

Levantei-me e fui até a janela. Ergui a mão e acenei para o céu.

— Adeus, Walter, adeus... Faça boa viagem.

Comecei a chorar. Guy levantou-se e caminhou em minha direção.

— Ei, JeriLee, isto é uma comemoração! Não chore.

— Não consigo controlar-me. Estou sozinha agora.

— Mas claro que você não está sozinha — disse ele, passando o braço pelos meus ombros. — Eu estou aqui.

— Obrigada, Guy.

Ele me levou de volta ao sofá.

— Beba mais um pouco de champanha.

Tomei um gole da taça que ele pôs em minha mão. Subitamente, já não tinha mais gosto algum. Eu estava nas últimas. Coloquei a taça em cima da mesinha de coquetel e fiquei olhando para a mancha úmida que se alastrou pela superfície envernizada. Normalmente, eu trataria de limpá-la rápido e poria a taça em cima de um descanso. Walter detestava manchas de copos em suas preciosas antigüidades. Mas agora não dei a menor importância.

— Acho que vou para a cama, Guy.

— Ainda é cedo — protestou ele.

— Mas estou muito cansada. Foi um dia longo. Às oito e meia da manhã, eu estava num tribunal no México. Às onze horas, já estava num avião, voltando para Nova York. Há dois dias que praticamente não descanso.

— O que fez com sua aliança de casamento, JeriLee?

— Ainda a estou usando. — Estendi a mão. A peque­na aliança de ouro cintilava à luz. Guy sacudiu a cabeça, solenemente.

— Assim não dá, JeriLee. Você tem que se livrar dessa aliança.

— Por quê?

— É um símbolo. Não será livre enquanto não se li­vrar da aliança. — Guy estalou os dedos e acrescentou: — Tive uma idéia. Em Reno, há uma pequena ponte sobre um riacho. Quando as mulheres saem do tribunal, vão para a ponte e jogam a aliança na água. É isso o que temos de fazer.

— Mas não estamos em Reno!

— Não importa. Conheço o lugar certo para a gente fazer isso. Pegue o casaco.

Alguns minutos depois, estávamos na calçada, fazendo sinal para um táxi.

— Vamos para o lago do Central Park — disse Guy ao motorista. — Pare no ancoradouro perto da garagem de barcos.

— Está louco, senhor? Eles não alugam barcos a esta hora da noite.

— Vá indo, meu bom homem — disse Guy, sacudindo a mão como um grão-senhor.

Ele afundou no banco no momento em que o carro arrancou, com um solavanco, fez o retorno e entrou no parque, pelos portões da Avenue of the Américas. Guy enfiou a mão no bolso e tirou outro cigarro, acendendo-o. Soprou a fumaça para o alto, satisfeito.

Não havia passado muito tempo e o táxi diminuiu a velocidade. O motorista olhou para trás e anunciou:

— Já chegamos.

— Pode parar o taxímetro — disse Guy, abrindo a porta. — Só vamos demorar um minuto.

— Este lugar não é muito seguro à noite — avisou o motorista.

— Já vamos voltar — disse Guy.

O motorista pegou uma barra de ferro que estava no chão do carro.

— Ficarei esperando. E que Deus ajude o negro que chegar perto de mim.

Subimos pelo caminho até o ancoradouro. Paramos, debruçando-nos sobre a balaustrada, olhando para as águas escuras. O lago estava absolutamente sereno, não havia uma única ondulação na superfície.

— Tire a aliança, JeriLee.

Puxei, mas a aliança não se mexeu. Meus dedos esta­vam inchados. Olhei para Guy, desolada.

— O que vamos fazer agora? — perguntei.

— Deixe comigo. — Ele pôs as mãos em concha ao redor da boca e gritou para o motorista do táxi: — Tem uma lima aí?

Na noite quieta, o barulho da voz dele foi como uma explosão. A voz do motorista ecoou em resposta:

— Está pensando o quê? Acha que meu carro é oficina de funileiro?

Guy virou-se para mim.

— Os táxis já não são mais o que eram. — Segurou minha mão e levou-me pelo ancoradouro. Descemos pela encosta de terra úmida do outro lado, até a beira da água. — Ponha a mão na água, JeriLee.

Ajoelhei-me e estendi a mão. Olhei para ele.

— Não consigo alcançar.

— Dê-me sua mão. Eu a segurarei.

Ele agarrou minha mão com firmeza e inclinei-me para a frente. A água estava bastante fria.

— Está bem assim?

— Está.

Depois de alguns minutos, meus dedos começaram a ficar entorpecidos.



— A água está congelando meus dedos, Guy.

— Está certo. Acho que já dá.

Largou minha outra mão e eu caí dentro da água. Não era fundo, mas a água estava gelada. Quando me levantei, a água batia em meus joelhos. Peguei a mão de Guy e saí do lago. Ele foi pedindo desculpas durante todo o caminho de volta ao táxi. Eu estava tão furiosa que não conseguia falar. O motorista ficou nos olhando, espantado, enquanto Guy abria a porta do táxi.

— Ela não pode entrar no meu táxi desse jeito.

— Eu lhe darei dez dólares extras.

— Está certo.

Entramos no táxi, que arrancou barulhentamente.

— É melhor sairmos daqui o mais depressa possível — disse ele, olhando pelo espelho retrovisor. — Eles metem na cadeia o pessoal que nada no lago.

Guy tirou o casaco e ajeitou-o em torno de meus om­bros. Olhei para minha mão. A aliança ainda estava no dedo. Subitamente, comecei a rir, de tal forma que fiquei com lágrimas nos olhos. Guy não entendeu.

— Mas o que há de tão engraçado, JeriLee? Você pode pegar uma pneumonia.

Não consegui parar de rir.

— É que deveríamos ter jogado a aliança na água e não a mim!

Desci do quarto envolta num roupão felpudo. Guy estava sentado na beira do sofá e levantou-se rapidamente.

— Você está bem, JeriLee?

— Estou ótima — disse eu, olhando para o bar. — Será que sobrou algum sanduíche? Nadar sempre me dá fome.

— Há ainda muitos sanduíches. E fiz também um café. — Estávamos ambos sóbrios agora. — Desculpe, Jeri­Lee.

— Não há do que se desculpar. Gostei de todos os minutos de nossa expedição. Se você não tivesse aparecido, eu provavelmente passaria a noite inteira me sentindo in­feliz, com pena de mim mesma.

Guy sorriu e pegou sua xícara de café.

— Fico contente por isso, JeriLee.

Ficou me olhando, pensativo.

— Em que está pensando, Guy?

— Em você, na maneira como as coisas vão mudar, daqui por diante.

Fiquei calada.

— E vão mudar muito. Sabe disso, não é?

— Acho que sim. Mas ainda não sei exatamente até que ponto.

Em primeiro lugar, você já não é mais a Sra. Walter Thornton. E isso fará uma grande diferença. As portas já não mais se abrirão para você com tanta facilidade.

— Já esperava por isso, Guy. Costumava perguntar-me se as pessoas gostavam de mim pelo que eu era ou por ser a esposa de Walter.

— Pelas duas coisas. Mas sendo você a mulher de Walter, isso tornava as coisas mais fáceis.

— Continuo a ser a mesma pessoa de antes. E ainda tenho o mesmo talento que tinha quando me casei com Walter.

— Tem razão...

— Você está tentando dizer-me alguma coisa. O que é?

Ele não respondeu. Tive uma intuição súbita.

— Fannon ainda gosta da minha peça e continua dis­posto a pagar pela opção, não é?

— Ele ainda gosta, mas só quer a opção depois que a peça for reescrita.

Fiquei calada, pensando. No início da semana, Fannon fizera tudo, exceto recorrer à força, para que eu aceitasse um cheque. Agora, a atitude dele mudara. Afinal, a notícia do divórcio saíra publicada nos jornais da manhã.

— Ele pensava, por acaso, que Walter ia reescrever a peça para mim?

— Não exatamente, JeriLee. Mas provavelmente pen­sava que Walter iria dar-lhe uma ajuda, em caso de ne­cessidade.

Senti o ressentimento explodir.

— Mas que merda! Pois agora ele não vai ter a peça, por mais que queira!

— Quero que me escute, JeriLee, porque sou seu ami­go e a amo. E acontece também que acredito em você. Assim, vamos à primeira lição. Fannon é o melhor produtor da cidade para a sua peça. E se ele a quiser, você entregará a peça.

— Ele não passa de um velho obsceno. Fico repugnada pela maneira como ele me despe com os olhos, sempre que nos encontramos.

— Esta é a segunda lição! você está num negócio que é controlado por velhos obscenos e bichas. Tem de dar um jeito de maneirar.

— Não há mais nada além disso?

— Só Bridgeport.

— Já estive lá.

— Então sabe o que significa ser obrigada a se limitar a uma cidadezinha pequena. Estamos na cidade grande. Se conseguir alcançar sucesso aqui, poderá alcançá-lo também em qualquer outro lugar do mundo.

— Estou começando a me sentir apavorada. De certa forma, Walter fez com que tudo me parecesse a coisa mais fácil do mundo.

— Não precisa ter medo — disse Gúy, pegando minha mão. — Você chega lá. Tem talento de sobra para isso. Agora, precisa é lutar.

— Não sei como. Nunca antes tive que lutar. Saí di­reto da casa de meus pais para a de Walter. E ele jamais quis deixar que eu crescesse.

— Esse sempre foi um dos problemas de Walter. Ele tentou reescrever a vida como fazia com suas peças. Mas as coisas estavam sempre lhe fugindo e ele não conseguia compreender por quê. E a prova disso é que você cresceu, apesar de tudo, não é mesmo?

— Agora já não tenho mais tanta certeza.

— Pois saiba que cresceu — disse ele, levantando-se. — Já passa das três horas. É melhor eu ir para casa, dormir um pouco.

Acompanhei-o até a porta.

— Apareça no meu escritório às dez da manhã de terça-feira, JeriLee. Faremos outra revisão na peça e depois eu lhe pagarei o almoço.

— Obrigada, Guy. Mas não precisa levar-me para al­moçar, se tiver algo mais importante a fazer.

— Vamos à lição número três. Quando um diretor ou produtor se oferecer para levá-la para almoçar, limite-se a dizer "Sim, senhor".

— Sim, senhor.

Ele riu e beijou-me no rosto. Fechei a porta e voltei para a sala de estar. De certa forma, tudo aquilo agora me parecia estranho, diferente. E subitamente compreendi por quê.

É que eu não vivia mais ali.


Capítulo três

O carro de meu pai estava bloqueando a passagem para a garagem, por isso estacionei no meio-fio, diante da casa. Tinha acabado de desligar o motor quando meu irmão saiu de casa e veio correndo em minha direção. Por um momento, foi difícil acreditar que fosse mesmo Bobby.

Ele estava alto, com mais de um metro e oitenta, e bem magro. O uniforme azul-claro da Força Aérea fazia-o parecer mais velho e mais alto do que os seus vinte anos. Contornou o carro e abriu a porta.

— Mas que beleza! — disse ele, metendo a cabeça para dentro do carro e examinando o painel revestido de madeira do Jaguar.

— Poderia primeiro dizer "alô".

— Uma irmã é uma irmã, mas um carro é uma alegria para sempre — disse Bobby, beijando-me no rosto.

— O que está fazendo nesse uniforme, Bobby? O pes­soal da reserva agora tem autorização para usar o uniforme em casa?

— Não é nada disso. Estou na ativa. Eles me acei­taram como aspirante a piloto. E eu decidi não esperar, pois a guerra poderia terminar antes. Parto na segunda-feira para San Antônio.

— E o que mamãe acha disso?

— Como sempre, ela berrou um bocado.

— Só que desta vez está com a razão — disse eu, abrindo o porta-malas do carro. Ele tirou a minha valise e respondeu:

— Não comece você também. Já chega o que ouvi de mamãe.

Fechei o porta-malas e segui-o pelo caminho até a va­randa.

— Não temos nada que fazer no Vietnam, Bobby. Mas enquanto eles puderem atrair garotos como você, aquilo lá nunca terá fim.

— Já está começando a falar como todos aqueles co­munas de Nova York, JeriLee.

— Não é nada disso, Bobby. Apenas não me agrada a idéia de meu irmão caçula ser morto no meio de uma selva onde não temos nada que fazer.

— Eu não ficaria preocupado — disse ele. — O pre­sidente falou que estará tudo terminado no Natal. E como terei de passar dois anos na escola de pilotos, não chegarei a entrar na brincadeira. — Parou diante dos degraus da varanda e virou-se para olhar o carro. — Não sabia que você estava de carro novo.

— Já tem quase um ano.

— Pois parece novo.

— Quase não se anda de carro em Nova York.

— É um belo carro. Custou muito caro?

— Cinco mil dólares.

Ele assoviou.

— E de quem é? Seu ou de Walter?

— Meu. Paguei com meu próprio dinheiro. Walter é do tipo que acha que não existe outro carro além do Cadillac.

— Isso significa que você ficará com ele.

— Claro.

— Lamentei muito o divórcio, JeriLee. Eu gostava de Walter.

— Eu também. Mas não estava dando certo. O divór­cio era a melhor solução para nós dois.

Ele abriu a porta de casa e perguntou-me:

— Está planejando sair esta noite?

Eu sabia o que ele estava querendo.

— Quer o carro emprestado, Bobby?

— Tenho um encontro marcado para esta noite — assentiu. — Uma espécie de despedida. . .

Entreguei-lhe as chaves.

— Peço apenas que tome cuidado, Bobby. É um carro muito veloz.

Um sorriso se estampou no rosto dele, e por um mo­mento vi o garotinho que eu sempre conhecera.

— Obrigado, mana. E pode deixar que tratarei o car­rinho com luvas de pelica.

Mamãe realmente não começou a sessão até o jantar acabar, quando me seguiu para a varanda. Ficamos em silêncio por um momento. Acendi um cigarro, vendo sua expressão de desaprovação.

— Seu apartamento já está pronto? — perguntou ela, finalmente.

— Já. Vou me mudar na segunda-feira.

— Espero que seja um prédio seguro. Todos os dias aparecem notícias nos jornais sobre as coisas que acontecem em Nova York.

— É um lugar seguro, mamãe.

— E tem porteiro?

— Não. Os porteiros de edifício são muito caros. Não me posso dar ao luxo de morar num prédio com porteiro.

— Estou surpresa de Walter ter permitido uma coisa dessas.

— Não é mais responsabilidade dele. Já se esqueceu de que estamos divorciados?

— Tenho certeza de que ele lhe daria mais dinheiro, se você tivesse pedido.

Percebi aonde ela estava querendo chegar.

— Por que não diz logo de uma vez o que está pen­sando, mamãe? Quer saber quanto Walter está me pagando de pensão, não é mesmo?

— Não precisa dizer-me. Afinal, isso não é da minha conta.

— Mas não me importo de dizer. Ele não está me dando nada.

— Nada? — repetiu ela, incrédula. —- Mas como ele pôde fazer uma coisa dessas? É terrível!

— Pois não acho. E fui eu mesma que não quis rece­ber nada.

— Mas você me falou sobre o dinheiro que ele estava pagando a ex-esposa. Por que você não deveria receber também?

— Porque não quis, mamãe.

— Mas vocês estiveram casados durante seis anos! E como é que vai viver agora?

— Posso trabalhar. Tenho uma peça que talvez seja produzida e estou me candidatando a papéis em diversos espetáculos.

— Mas se não conseguir nada, como é que vai arrumar dinheiro?

— Tenho algum dinheiro. Walter nunca me deixou gastar o dinheiro que ganhei. Está tudo guardado no banco.

Ela ficou calada, esperando.

— Quer saber quanto tenho, mamãe?

— Não precisa dizer-me. Não é da minha. . .

— Eu sei que não, mamãe — falei, em tom sarcástico. — Não é da sua conta, mas mesmo assim vou dizer-lhe. Devo ter em torno de onze mil dólares no banco.

— Só isso? Pensei que estivesse ganhando setecentos e cinqüenta dólares por semana, enquanto atuava naquela peça. O que fez com todo esse dinheiro?

— Os impostos levaram a maior parte. Walter está numa categoria de imposto muito alta, e fazíamos uma de­claração conjunta. O resto, gastei com o carro, móveis e roupas.

— Talvez seja melhor você vender o carro. Aliás, não vejo para que precisa de um carro em Nova York. E especialmente um carro tão caro.

— Mas eu gosto dele, mamãe. Não o teria comprado, se não gostasse.

— Gostaria que você conversasse com seu pai e co­migo antes de fazer qualquer coisa.

Fiquei calada.

— Walter era uma ótima pessoa. Não deveria tê-lo deixado desse jeito.

— Descobri que não o amava mais, mamãe. E não seria justo continuar a viver com ele, sabendo disso.

— Está apaixonada por outro homem?

— Não.


— Então não deveria tê-lo deixado. Não se acaba com um bom casamento por causa de simples capricho.

— Não foi um capricho, mamãe. E se eu tivesse con­tinuado a viver com ele, acabaríamos nos odiando. Dessa maneira, continuamos amigos.

— Acho que nunca vou conseguir compreendê-la, JeriLee. Sabe, por acaso, o que está procurando na vida?

— Sei, mamãe. Estou procurando a mim mesma.

Ela ficou genuinamente surpresa.

— Mas que espécie de resposta é essa?

Eu estava cansada e fui deitar-me cedo. Mas assim que me deitei, descobri que não conseguiria dormir. Saí da cama e fui sentar-me junto à janela, com um cigarro na mão. Nem mesmo estava pensando. Recordei-me de estar sentada na­quela mesma janela, olhando para aquela mesma rua, desde que eu era garotinha.

A imagem surgiu de novo em minha mente. A garo­tinha estava sentada no alto da escada e chorava. A garotinha era eu. Mas eu não era mais uma garotinha. Por que então estava chorando?

Bateram na porta.

— Está acordada, querida? — sussurrou meu pai.

Abri a porta. O rosto dele, emoldurado pela luz do corredor às suas costas, estava mais magro e mais enrugado.

— Não consegue dormir, querida?

Sacudi a cabeça, confirmando.

— Se quiser, posso buscar-lhe um copo de leite quente.

— Não precisa, papai.

— Espero que sua mãe não a tenha aborrecido. Mas quero que saiba que ela só age assim porque se preocupa com você.

— Eu sei. E ela não me aborreceu.

— Ela tem uma porção de preocupações no momento, JeriLee. Está mais perturbada com o alistamento de Bobby do que admite.

— E agora ainda há o problema do meu divórcio.

— Daremos um jeito. Tudo o que queremos é que vocês dois sejam felizes. — Hesitou por um momento, de­pois acrescentou: — Quero que saiba que, se precisar de alguma coisa, o que quer que seja, basta nos telefonar.

Inclinei-me e beijei-o no rosto. Ele afagou meus cabe­los gentilmente:

— Não gosto de vê-la sofrendo, JeriLee.

-— A culpa foi minha, papai. E eu mesma é que terei de sair disso. Mas as coisas vão melhorar, agora que tenho uma chance.

Ele me fitou em silêncio por um momento, antes de assentir.

— Tenho certeza que sim. A última coisa no mundo de que você precisava era de outro pai.

A surpresa transpareceu em meus olhos. Ele não espe­rou que eu dissesse coisa alguma.

— O problema de Walter era igual ao meu. Nenhum de nós dois queria acreditar que você estava crescendo. — Um sorriso afetuoso iluminou-lhe o rosto, e ele continuou: —- Percebi isso no momento em que a vi atuar na peça dele. Walter gostaria de mantê-la eternamente como a mo­cinha daquela peça. Mas a diferença entre a vida e o teatro é que a vida muda, enquanto o teatro permanece inalterado. Aquela mocinha da peça ainda tem hoje a mesma idade que há cinco anos. Mas você não.

Senti as lágrimas escorrendo pelo rosto. Ele puxou-me a cabeça de encontro ao seu peito. Sua voz tinha um tom pensativo quando ele falou.

— Não fique tão desesperada, JeriLee. Podia ter sido pior. Algumas pessoas jamais conseguem crescer.


Capítulo quatro

Fiquei observando meu pai percorrer o corredor até o quarto dele, antes de fechar a porta. Acendi outro cigarro e voltei para a janela.

A moça da peça nunca chegava a crescer. Mas tinha sido eu a moça da peça. Ainda seria aquela mesma moça? Não seria uma ilusão todo o amadurecimento que eu julgava ter tido? Ainda me lembrava daquela tarde, na segunda se­mana de ensaios, quando meu amadurecimento começara.

Eu não queria atuar na peça. Continuava dizendo a mim mesma que não era uma atriz. Mas Walter e Guy me pressionaram e eu finalmente cedi. A princípio, senti-me estranha e constrangida. Uma amadora entre profissionais. Mas, pouco a pouco, fui aprendendo. Ao final da primeira semana, já podiam ouvir minha voz no balcão. Todos se mostravam gentis, atenciosos. Comecei a sentir-me mais à vontade, mais segura. Até aquela tarde, quando tudo me surgira do nada.

Beau Drake viera de Hollywood para fazer sua primeira aparição num palco de Nova York desde que partira de lá, quinze anos antes. Ele era um astro e sabia disso. Era um profissional e não deixava que ninguém se esquecesse disso, especialmente eu. Conhecia a fundo sua profissão e recorria a todos os truques. Metade do tempo eu estava represen­tando de costas para a platéia, outras vezes estava quase que totalmente escondida por trás dos seus ombros largos ou num canto distante do palco, enquanto as atenções se focali­zavam no outro lado.

A princípio, eu não sabia o suficiente para me inco­modar com tais coisas. Mas, à medida que comecei a perce­ber o que ele estava fazendo, fui ficando cada vez mais furiosa. Eu não queria ir além do meu papel na peça, mas achava que tinha direito pelo menos a isso. Comecei a reagir, da única forma que podia. A essa altura, eu já tinha percebido que Beau Drake se deixava guiar unicamente pelas frases de deixa. A menor variação no texto, e ele ficava totalmente descontrolado. E assim comecei a mudar as falas que Walter escrevera para mim, falando as coisas na minha própria linguagem.

Aconteceu numa tarde da segunda semana de ensaios. Estávamos no clímax do segundo ato, na cena que antecedia o fechamento das cortinas. Subitamente, Beau Drake ex­plodiu:

— Mas que diabo!

Ficamos paralisados. Dan Keith, que fazia o papel de meu pai, olhou primeiro para ele e depois para mim. Jane Carter, nos bastidores, esperando o momento de entrar em cena, ficou boquiaberta. Beau caminhou furiosamente até o centro do palco e inclinou-se sobre as luzes da ribalta.

— Não estou ganhando dinheiro bastante para bancar um Stanislavsky — gritou ele para Guy e Walter. — Se eu quisesse dirigir uma escola de representação para garotas deslumbradas com o palco, poderia dar-me muito melhor em Hollywood. Se não conseguirem convencer a Sra. Thornton a dizer as falas que foram escritas para ela, então podem procurar outro ator para o papel. Eu caio fora!

Virou-se e saiu do palco. Não houve o menor ruído ou movimento até ouvirmos a porta do camarim dele ser fecha­da violentamente. Todos começaram então a falar ao mesmo tempo.

— Quietos! — A voz de Guy era firme. Ele subiu ao palco, seguido por Walter. Olhou para Dan e Jane e disse: — Vamos suspender os ensaios por meia hora.

Eles assentiram e deixaram o palco, silenciosamente. Guy e Walter ficaram olhando para mim, sem dizer nada. Naquele momento, senti-me como uma criança desafiando os pais.

— Vocês viram o que ele estava fazendo! Não era justo. Estava fazendo tudo para me colocar como uma es­túpida. — Não tinha mais nada a dizer, por isso comecei a chorar. — Está bem, está bem. . . Eu nunca disse que era uma atriz. Por isso, vou embora.

A voz de Guy era tranqüila:

— Quem decide se você sai ou não sou eu. Afinal, o diretor desta peça sou eu.

— Mas é a melhor coisa para a peça! — disse eu, soluçando. — Ele me odeia. E vocês não terão nenhum problema com outra moça.

— Beau está certo — disse Guy. — Você estava mu­dando suas falas. Por quê?

— Ele não tinha o direito de fazer o que estava fa­zendo!

— Você não respondeu à minha pergunta.

— E você não respondeu à minha!

— E nem preciso responder. Não era eu que estava adulterando o texto do autor.

— Se tinha alguma objeção a isso, por que não disse nada?

— Porque não era o momento apropriado. Mas agora estou querendo saber por que você fez isso.

— Era a única maneira que eu tinha de conseguir que ele me deixasse representar o meu papel!

Guy e Walter trocaram um olhar significativo.

— Não é uma razão suficientemente boa — disse Guy.

Subitamente, eu não me sentia mais intimidada.

— Quer saber de outra? É que não havia condição de eu dizer aquelas falas e continuar a ser a menina de dezes­sete anos que querem que eu seja. Aquelas falas foram escritas para uma mulher de trinta anos. Não conheço ne­nhuma moça que fale daquele jeito.

Por um momento, houve silêncio absoluto. Depois, vislumbrei o rosto angustiado de Walter.

— Oh, Walter, sinto muito! Eu não queria. . .

— Não há problema — disse ele, com a voz muito tensa.

Abruptamente, ele virou-se e saiu do palco. Eu já ia segui-lo, quando Guy me deteve.

— Deixe-o ir.

— Mas que história é essa? É meu marido que está saindo daqui!

— Não, aquele não é o seu marido. Aquele é o escritor.

— Eu o magoei. Tenho que ir procurá-lo.

— Não vá. Ele é um profissional e saberá superar o ressentimento.

— Não estou entendendo. . .

— Alguém tinha de dizer-lhe. As falas não estavam boas. A cada dia que passava, isso se tornava mais óbvio. Se o diálogo estivesse certo, Beau não teria qualquer pos­sibilidade de fazer o que fez, de tão ocupado que estaria representando o seu próprio papel.

Por cima do ombro de Guy, vi o rosto de Beau vindo dos bastidores. Ele parecia relaxado. Aproximou-se de nós e perguntou, em tom sereno:

— Tudo bem?

— Está ótimo agora — respondeu Guy, como se nada tivesse acontecido.

Foi então que compreendi tudo e senti a raiva crescer dentro de mim.

— Vocês dois me forçaram a isso, porque não tinham coragem de dizer-lhe a verdade!

— Você era a única de quem ele aceitaria a verdade — disse Guy. — Agora, ele vai reescrever a peça, até que as falas fiquem perfeitas.

— Você não presta!

— Eu nunca disse que era um santo.

— Será que nenhum de vocês tem coragem de dizer a verdade? Por que têm sempre de manipular os outros para fazerem o trabalho sujo de vocês, quando seria muito mais simples dizer logo a verdade?

— Estamos no show business — disse Guy, tranqüi­lamente.

— Pois saiba que não gosto nada disso!

— É melhor ir se acostumando, se deseja continuar nisso.

— Não tenho a menor intenção de continuar!

— Se quer continuar casada com Walter, é melhor se acostumar, quer goste ou não. Pois ele vai continuar metido nisso, por muito e muito tempo. É o único tipo de vida que ele conhece e deseja. — Guy se encaminhou para os bastidores, sem esperar por uma resposta. Virando ligeira­mente a cabeça, gritou para nós: — Teremos um novo ensaio amanhã, às duas da tarde.

Beau e eu ficamos sozinhos no palco. Ele sorriu.

— Ficamos só eu e você, boneca.

— Não vejo nada de engraçado.

— Desculpe. Eu não quis ser grosseiro.

Como eu não respondesse, uma expressão de arrepen­dimento se estampou no rosto dele.

— Não pude fazer nada. Acho que sou melhor ator do que pensava.

Isso quebrou o gelo. Comecei a sorrir.

— Você é muito bom, mas é também um descarado.

— Já fui chamado de coisas piores. — Ele riu. — Mas fiz isso por uma boa causa. Posso pagar-lhe um drinque para mostrar que não há ressentimentos?

— Não bebo. Mas pode pagar-me um café.

Tudo funcionou exatamente como eles haviam plane­jado. Quando cheguei a casa naquela noite, Walter estava trabalhando na peça. Passou a noite toda acordado. Na manhã seguinte, quando desci para tomar café, encontrei um bilhete dele sobre a mesa:
"Querida,
Fui tomar café com Guy, para revisarmos as novas falas. Vejo-a no ensaio. Com todo o amor,

Walter.
P.S. Por favor, perdoe-me, mas aproveitei as falas que você improvisou. Eram melhores do que qualquer coisa que pude imaginar.



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