Traduzido do Inglês por Amadeu Duarte



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Traduzido do Inglês por Amadeu Duarte

A carreira de Krishnamurti, única na história de todos os líderes espirituais que já por esta Terra passaram, faz lembrar a do famoso épico de Gilgamesh tal a forma como procurou modificar o nosso viver. Tendo recorrido a uma linguagem reveladora e despida de artifícios que penetrava os pontos obscuros da filosofia e nos restaurava as fontes da acção, ao mesmo tempo que nivelava as superestruturas da nossa ginástica verbal, Krishnamurti legou-nos uma mensagem de Amor e Paz sem, todavia, advogar quaisquer ilusões. As análises a que procedia eram elaboradas sob a acção de aguçados instrumentos da lógica e da inteligência, o que nem sempre as tornava fáceis de entender. Jamais apresentou soluções fáceis mas, ao invés, provocava e exortava as audiências a ponderar de forma implacável sobre as causas dos nossos problemas, sempre com o objectivo de transformar o homem, libertando-o, para o efeito.

Certos autores confessam que ele era dotado de uma natureza ingénua e era bastante sugestionável à manipulação por parte de terceiros. Possuía uma qualidade bastante infantil, contudo, no que tocava às questões fundamentais, a extensão dessa manipulação era limitada, mostrando-se inamovível. Krishnamurti trabalhou toda a sua vida a fim de libertar o homem, sem jamais procurar qualquer vantagem ou benefício pessoal. Em boa verdade se poderá concluir que foi um indivíduo que realizou a Verdade, tal o modo singular e a magnanimidade com que tratou as mais diversas vertentes do nosso viver.
Jiddu Krishnamurti nasceu em Madanapale, no sul da Índia, a 12 de Maio de 1895. Durante mais de sessenta anos, deu conferências por todo o mundo, e entrevistas privadas com milhares de pessoas de todas as faixas etárias e formação, sempre referindo que, somente através da mudança completa da mente e do coração dos indivíduos poderá suceder uma mudança na sociedade e resultar paz para o mundo.

O século que o viu nascer assistiu à eclosão de duas guerras mundiais, à violência contínua no campo religioso, ético e político, assassínios em massa, numa escala sem precedentes e o desenvolvimento e a proliferação de armas de destruição maciça, por todo o mundo. De forma adicional a sobrepopulação, a degradação ambiental e o colapso das instituições sociais produziram medo e cinismo nas pessoas com relação à sua capacidade de resolverem os problemas sempre crescentes. Em cada conferência que dava, fazia virtual menção à crise global, ao mesmo tempo que chamava a atenção das plateias para a gravidade das estruturas psicológicas que são responsáveis pela criação da violência e da mágoa nas suas vidas.

Ao longo de toda a sua vida Krishnamurti insistiu em referir que não queria seguidores: “Seguir alguém constitui um mal danoso”, dizia, “não importa de quem se trate”. Jamais criou qualquer organização de discípulos ou crentes e tampouco aderiu ou autorizou quem quer que fosse a tornar-se um intérprete das suas instruções, tendo procurado somente que, após a sua morte, aqueles que partilhassem das suas preocupações preservassem um registo inviolável das suas conferências, diálogos e escritos para a posteridade e os tornassem amplamente disponíveis ao público.

Apesar de se ter exprimido por meio da palavra e da escrita estritamente em inglês, os seus escritos foram traduzidos para quarenta e sete línguas. Cinquenta das suas obras foram publicadas durante o seu tempo de vida. Durante várias décadas os seus textos circularam subrepticiamente por certos países de regime totalitário, mas após a década dos noventa, por altura do derrube do muro de Berlim, foram empreendidos esforços para a publicação do seu trabalho na Rússia, na Polónia e na Roménia. Estima-se que, nos seus pronunciamentos ele se tenha endereçado a mais pessoas do que alguma outra figura na história registada. Por mais de seis décadas, as audiências variavam comummente entre os milhares, especialmente nas sobrelotadas cidades indianas e em Ojai, na Califórnia, onde o clima ameno permitia ajuntamentos fora de portas, numa plateia praticamente isenta de limites de lugares sentados. Os auditórios e salas de concertos das áreas metropolitanas do Pacífico em que proferiu palestras, eram frequentemente lotadas em toda a extensão da sua capacidade, assim como as enormes tendas que acolhiam aproximadamente duas mil pessoas durante os encontros anuais de verão, na Suíça e Inglaterra. Além disso, encontrava-se frequentemente com pequenos grupos, que iam de uma a duas vintenas de pessoas. Mas, como ele mesmo certa vez referiu: “Mesmo que apenas duas pessoas se encontrem para dialogar com toda a seriedade, elas poderão mover montanhas”.


A despeito de uma vida publica bastante activa, K era bastante tímido e cortês. Desde os seus anos de moço, sempre repudiou todas as tentativas elaboradas para o retractar como um indivíduo excepcional. Em 1929 retirou-se do convívio de quantos pretendiam criar uma atmosfera mística ao seu redor e em redor do seu trabalho, referindo que: “ Não desejo que aqueles que buscam compreender o que digo me sigam, mas que sejam livres; não pretendo que se crie ao meu redor uma nova prisão que por sua vez se torne uma nova seita ou religião”.

Dois anos antes da sua morte, numa altura em que o interrogavam acerca da importância da sua própria vida, respondeu: “Importará de algum modo que o mundo comente a pessoa de K como excelente? Quem se importará com isso? Deveis beber a água do jarro e não adorá-lo. Todavia, o homem adora o vaso e esquece a água.”


Devido ao carácter primacial das questões que colocava, pensava ele ser de primordial importância que aqueles que se interessassem em questioná-las junto com ele, encetassem a investigação com um propósito correcto, e lembrava as suas audiências que não procurava convencê-las de coisa nenhuma, nem se impunha como instrutor.
Certa vez descreveu a abordagem que empregava, do seguinte modo: “Travemos um diálogo entre dois amigos que nutrem certa afeição um pelo outro, um mútuo sentimento de interesse, sem procurarem trair-se mutuamente mas explorar os pontos de vista de interesse comum. Assim trata-se de uma conversa amigável com profundo sentido de comunicação, aqui sentados à sombra desta árvore, nesta encantadora manhã, com a relva cheia de orvalho, numa conversa a respeito das complexidades da vida.”
K. encontrava-se com frequência com um pequeno grupo de amigos a fim de debaterem os problemas do dia-a-dia e penetrar os problemas da existência. Tais grupos eram, na maior parte das vezes compostos de professores, estudantes e pais que se associavam às escolas que ele ajudou a erguer, e por vezes incluíam cientistas, psicólogos e eruditos. Ele não estabelecia qualquer critério quanto à frequência nesses debates. Os participantes activos numa única cessão por vezes variavam desde figuras internacionalmente conhecidas até empregados de limpeza, ali dos locais de acolhimento.

Jamais utilizava o pronome pessoal “eu”, tanto em privado como em público. Nas conferências que dava geralmente apresentava-se como “o orador”, e nos diálogos que sustentava com outras personagens era vulgar substituir o nome próprio por “K”, ou muito simplesmente “X”, ao referir-se à sua pessoa. Não se tratava de pose mas de um convite endereçado a quantos o escutavam para que se envolvessem numa investigação completamente impessoal sobre a existência humana, sem considerar as suas palavras como opiniões autoritárias ou conclusões subjectivas. Pelas mesmas razão, ele quase invariavelmente abordava quantos se envolviam no diálogo com ele, por “senhor” ou “madame”, até mesmo, por vezes, participantes que eram seus amigos de longa data..

Durante o período dos anos vinte e trinta, as transcrições das suas conferências eram feitas por meio do uso de estenógrafos profissionais, que transcreviam palavra a palavra todo o conteúdo, e K. habitualmente mantinha registos , não só das conferências como das entrevistas com aqueles que o procuravam. No começo de 49 as conferências passaram a ser gravadas como registo comprovativo, e já pelo final da sua vida, era frequente ser filmado duas ou três vezes ao dia, à medida que mantinha encontros com amigos ou estudantes, ou até mesmo professores, após uma conferência pública. A primeira gravação feita em fita de vídeo foi feita em 68 e a partir daí as suas conferências eram gravadas nesse formato, do mesmo modo que muitos diálogos com grupos menores.
K. era comummente interrogado com relação àqueles que afirmavam ser intérpretes ou professores no campo daquilo que ensinava. Três meses apenas antes da sua morte teve ocasião de reiterar que tais indivíduos não possuem autoridade alguma que legitime as suas pretensões, e muito menos de serem seus seguidores. Além do mais K. deixou bem claro que aqueles que nutriam admiração –não pelas suas palavras, mas pelo estilo de vida que apontavam, deveriam naturalmente partilhar as suas descobertas com os demais, do mesmo modo que fariam com relação a qualquer outra coisa que os sensibilizasse: “Diante da contemplação dessas colinas, da extraordinária tranquilidade da manhã, a forma dos montes, dos vales, as sombras, a forma bem proporcionada com que tudo se apresenta – ao perceberdes tudo isso não escrevereis a um amigo a convidá-lo para vir contemplar tal espectáculo? Não estareis preocupados convosco mas unicamente com a beleza dos montes”.

Com relação às fundações que criou, e à autoridade, referiu que não detinham qualquer autoridade sobre a vida das pessoas – no que respeita ao que devem ou não deixar de fazer, nem sequer para referir ser o centro a partir do que tudo deve emanar, à semelhança de uma estação de rádio ou de televisão. Aquilo que dizemos é que com as fundações criamos algo que é original e digno de atenção. Utilizem o tempo de que necessitarem a fim de o compreender. E se não sentirem qualquer interesse, então descartem-no, que isso não faz a menor diferença.


Krishnamurti discursou, tanto em privado como em público, com certo número de figuras de destaque mundial, e a maior parte dessas entrevistas acham-se disponíveis para o público em geral, tanto sob a forma de vídeos como em fitas de áudio e livros. Entre os personagens que mantiveram entrevistas com ele encontram-se primeiros ministros da Índia como Indira Gandhi, Nehru, Ragiv Gandhi, o eminente físico Dr. David Bohm, novelistas como Aldous Huxley, Iris Murdoch e Cristopher Isherwood; o psicólogo Ira Progoff, o educador Ivan Illich, o biólogo Rupert Sheldrake, o Dr. Jonas Salk o famoso descobridor da vacina da poliomielite e Chugyam Trungpa Rimpoche o tibetano que proferiu palestras. A única vez que ele apareceu em público numa larga escala foi numa emissão de um programa americano intitulado “O jovem Indiana Jones”.
K mantinha com inflexibilidade e firmeza que no processo de aprendizagem psicológica não ode existir nenhum mestre. Cada um deverá inquirir sozinho sobre a beleza e complexidade da vida e tornar-se livre para descobrir o amor. No entanto, todo esse vasto corpo de registos chegou a ser intitulado como “instruções” – termo esse a que ele próprio não se opunha, apesar de se poder albergar um sentido grandiloquente. Quando interrogado com respeito a isso, K descreveu a forma como sucedeu, nume discussão mantida com amigos: “Pensamos em utilizar o termo “trabalho”, mas como pensei que pudesse transmitir um sentido bastante vulgar pensamos dever utilizar o outro “ensinamentos”, porém, o termo em si não possui qualquer importância. Depende de vós viverem ou não esses ensinamentos”.

Sempre que possível, e quando tal se disponibilizava, K proferia as palestras ao ar livre. Todas as primaveras dava conferências por entre o arvoredo de carvalhos na vila rural de Ojai, Califórnia., de forma que as gravações desses encontros estão cheios, não somente registam a sua voz e as questões colocadas pela audiência, mas também de canto de aves. Nos meses de inverno que passava na Índia, era frequente fazer menção à majestosa aparição da lua diante de audiências de milhares de pessoas, novos e velhos, que se juntavam ao entardecer a fim de o escutar, nos jardins públicos, tanto em Madras como em Bombaim. K chegou mesmo a fazer apontamentos ao ar livre, como é o caso do notável “Educação e Sentido da Vida”, escrito em 53, esboçado num simples caderno de apontamentos durante um curto período de três dias, achando-se sentado à sombra de uma árvore.


À medida que se deslocava de um país para outro ele vestia-se consoante os costumes locais, tanto por questão de cortesia, como devido a que não desejasse atrair as atenções sobre si. Desse modo, uma vez na Índia ele envergava uma kurta e pyjama ou um churidar, e era vulgar trazer consigo um imenso guarda-chuva para se abrigar do sol durante os passeios do entardecer. Uma vez no ocidente, envergava fatos confeccionados em Londres. Na Califórnia vestia-se de modo asseado mas casual, evidenciando preferência pelos jeans, camisas de colarinho desabotoado e sapatilhas.
Por vezes k procurava ilustrar certos aspectos do que referia partilhando uma ou outra anedota com a audiência que o escutava. Mas entre os seus escritos mais populares destaca-se a série de apontamentos distribuída pelos três volumes, feita de transcrições de entrevistas, entituladas “Comentários Sobre o Viver”. Ao longo deles k explora a complexidade da vida junto de indivíduos que o visitavam na Califórnia, na Europa e na Índia, ou que o abordavam no aeroporto ou então na gare do comboio. Os seus interlocutores anónimos eram políticos, estudantes, viúvas, homens de negócios, maridos e esposas, professores, monges e artistas- pessoas de todos os sectores do viver, de todas as idades, credos religiosos e nacionalidades. K mantinha uma agenda cheia no que tocava a marcações privadas e entrevistas, chegando mesmo a dispensar mais de trinta ao dia. Fosse na Índia ou na Califórnia, na Suíça ou na Inglaterra, ele encontrava-se com os visitantes à varanda ou davam longos passeios enquanto discutiam as intricâncias da vida, a par com a contemplação da paisagem e do pôr do sol, escutar o ruído do rio, etc. Era frequente deter-se por momentos a contemplar um ou outra flor em pleno desabrochar ou então, dependendo do local onde se encontrassem, costumava chamar a atenção para as brincadeiras dos esquilos e dos macacos, o voo dos papagaios e até das águias. Noutras ocasiões, aqueles que o visitavam escolhiam não falar, permanecendo antes em silêncio, tomando-lhe uma mão entre as suas.
Nos anos trinta conheceu Aldous Huxley e tornou-se amigo desse escritor notável de nacionalidade inglesa a residir na Califórnia. Juntos, partilharam longas conversas e almoços sobre religião e o futuro da humanidade; foi mesmo Huxley quem o encorajou a publicar os “Comentários Sobre o Viver” por achar a mistura de descrição de paisagens naturais com questões filosóficas singular. Huxley escreveu a introdução à publicação da “Primeira e Última Liberdade”, publicado em 54, no qual declara que os leitores descobririam nos escritos e nas conferências de K pronunciamentos claros e actuais sobre o problema humano fundamental.

Certa vez uma criança perguntou-lhe se dispensava conferências por questão de passatempo e por que razão o fazia, se não se cansava de tanto falar. K congratulou-se por ela lhe ter colocado tal pergunta e respondeu-lhe que quando gostamos do que fazemos- referindo-se ao amor que não visa obtenção de resultados nem contrapartidas- então não se trata de questão de auto-preenchimento e assim não resulta nenhum desapontamento nem objectivo: “Porque razão faço o que faço? Bem que poderia perguntar porque razão floresce a rosa ou dá o jasmim aroma, ou os pássaros voam. Vejam, eu até já tentei deixar de falar para ver o que sucedia; mas dá no mesmo, entende? Se falamos por que isso nos possibilita determinada coisa- seja dinheiro ou uma recompensa, sentido próprio de importância, isso provoca uma sobrecarga e torna-se destrutivo e seguramente deixa de fazer sentido por se tratar de mera forma de auto-preenchimento. Porém, se sentirmos amor no coração e ele não se achar repleto com as coisas da mente então isso será como uma fonte ou nascente a jorrar continuamente água fresca.



Quando era novo K frequentou uma escola na Índia onde recorda ter sofrido agressões por ser incapaz de aprender as lições. Filho de um funcionário público que vivia numa propriedade adquirida pela Sociedade Teosófica da Índia, foi levado aos quinze anos para Inglaterra onde recebeu uma educação privada. Em 29 teve a iniciativa de criar uma escola residencial em Rishi Valley, movido pela preocupação por que as crianças fossem ensinadas sem pressões, de modo a que pudessem entrar na vida adulta livres dos efeitos de deformação da tradição e do medo. Em anos subsequentes, auxiliou a estabelecer cinco novas escolas na Índia. Em 68 juntou-se a outros pares, num esforço para criar a escola de Brockwood Park e, de novo em 75 a escola americana de Oak Grove. Sobre as escolas que fundou, ao longo de mais de seis décadas, disse: “O propósito, a intenção, o vigor destas escolas destina-se a equipar a criança com uma proficiência mais excelente para que possa exercer funções com clareza e eficiência no mundo moderno e, além disso, o que importa muitíssimo mais, possibilitar a criação do meio correcto para que se possa desenvolver completamente enquanto ser humano”.
Até ao final dos seus dias K esteve sempre profundamente envolvido no trabalho dessas escolas, que amiúde visitava a fim de estabelecer diálogos com estudantes e alunos. Além disso escreveu dúzias de cartas ao pessoal dessas escolas manifestando um vívido interesse por que essas escolas não se tornassem meros empreendimentos académicos mas lugares onde tanto estudantes como professores pudessem aprender com relação “à totalidade, à inteireza da vida”. No final da vida preocupou-se por que indivíduos de maturidade e sério empenho que revelassem interesse pelo seu trabalho pudessem dispor de um local para estudar e reflectir, longe das pressões do emprego e da família. Para satisfazer essa necessidade, pediu às fundações para criarem locais de retiro e centros de estudo perto dos locais onde haviam implantado as escolas que ajudara a fundar. Actualmente, existem seis desses centros de retiro na Índia, um em Inglaterra e outro na anterior residência de K, em Ojai, Califórnia. K tinha a esperança de que aqueles que visitassem esses centros de retiro, situados como estão numa atmosfera de sossego e beleza natural, pudessem gozar da oportunidade de investigar profundamente os ensinamentos e ir ao encontro de quantos fossem capazes de travar diálogos livres com respeito aos seus mútuos interesses. “Os centros de estudo devem ser um local destinado a todas as pessoas interessadas, que se tenham descartado das noções de nacionalidade, crença sectária e outras coisas que dividem os seres humanos.
Pessoalmente K rejeitou todas as formas tradicionais de meditação, tanto na forma como é praticada no oriente como adaptada pelo ocidente, e respondia a quem quer que o interrogasse que considerava todos os sistemas que a mente é capaz de impor sobre si mesma, como perigosos e insensatos. Frequentemente declarava ser importante que ficássemos sós em sossego em qualquer altura do dia, de forma a dar descanso à mente, mas adiantava logo que nem mesmo isso deveria ser feito como rotina. Referindo-se ao que chamou “meditação autêntica” devotou conferências inteiras ao tema, a fim de esclarecer a subtileza do seu significado.

O tipo favorito de prática que sustentava era caminhar, mas além disso observava certas posturas e exercícios da yoga a fim de ser capaz de proporcionar alguma flexibilidade aos músculos, mas jamais aderiu a qualquer tipo de disciplina rígida por questão de rotina, antes referindo que, quando se sentia fatigado permitia que o corpo repousasse sem o forçar. A certa altura, em Inglaterra, demonstrou alguns exercícios respiratórios da yoga, mas sugeriu imediatamente que os fizessem apenas pela diversão. Ele não via qualquer outro valor na yoga como, por exemplo, um meio para a compreensão da mente.

Em 84 decidiu-se pelo processo de gravação em fita, de forma preservar um diário. As observações que fez em “Krishnamurti to Himself” versam de um modo livre sobre os tópicos mais variados, como a permanente beleza da terra, a imoralidade do acto de matar animais, a naturalidade da morte, a necessidade urgente de mudança e o sentimento urgente da meditação. Por essa altura recomendava que devíamos realmente esquecer-nos do termo “meditação”.

É um facto bastante extraordinário que aquele rapaz” ( K referindo-se a si mesmo no passado) não tenha sido corrompido. “Eles (os teosofistas) tudo fizeram para procurar dominar-me.”


O estado de abstracção (vazio interior) jamais se desvaneceu. Ainda esta manhã no dentista, durante as quatro horas que lá passei, nem um único pensamento sobreveio à minha mente. Fiquei espantado. Isso comprovou como esse estado de abstracção prevalece desde aquela altura e até ao presente, com oitenta e poucos anos, sempre alberguei uma mente assim. Que coisa fará com que isso aconteça assim? (...) A mente deste indivíduo permaneceu constantemente ausente desde a infância até ao presente. Porque razão não sucede isso com os demais? Isso deve ser passível de suceder a qualquer um. Caso contrário, que sentido teria?”
Quando acontece a mente ausentar-se desse modo, ela só toma conhecimento do facto posteriormente. Quando se torna necessário usar o pensamento para fins de comunicação ela fá-lo, de outra forma permanece vazia. Durante o seminário- enquanto estou a falar esse estado revela-se. Não se trata de ter qualquer visão ou assim, simplesmente resulta naturalmente, sem qualquer intervenção por parte do meu raciocínio. À medida que irrompe torna-se lógico, racional. Mas se acontecer de eu me por a pensar nisso com zelo ou escrever o que se processa no seu decurso, ou sequer procurar repetir a experiência, não sucede absolutamente nada.”
Querem saber qual é o meu segredo?” Krishnamurti fez uma pausa para logo a seguir dizer, num tão de voz suave e tímido: “Vejam bem, eu não me importo com o que possa acontecer.”


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