Traduzido do Inglês por Amadeu Duarte



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Quando possuímos uma sensibilidade assim, acompanhada da observação, possuímos inteligência no observar – inteligência para perceber as coisas tal como são, sem fórmulas prescritas nem opiniões; perceber a nuvem na qualidade de nuvem; perceber o recesso do vosso pensar; as vossas exigências secretas, tal qual na realidade são, sem interpretação, sem o desejar ou não; observá-lo simplesmente, escutar os desejos secretos, observar como vos sentais no lugar do ónibus ao lado dos outros e perceber como o passageiro que viaja ao vosso lado se comporta ou a forma como conversa. Simplesmente observar. Daí resultará lucidez. Uma observação assim expulsa toda a sorte de confusão. Desse modo, se tiverem sensibilidade na observação obterão essa extraordinária qualidade da inteligência.

Silêncio

Ojai 77

Em que consistirá a religião? Consiste na investigação, com toda a atenção e com todas as nossas energias, na pesquisa do sagrado a fim de podermos alcançar aquilo que é santificado. Isso só pode ocorrer quando nos livramos do ruído do pensamento; com o término do pensamento e do tempo, psicológica, interiormente.(...)
Aquilo que é santificado, sagrado – a Verdade – só pode fazer-se presente quando permanecemos mergulhados no silêncio total, quando o próprio cérebro deixou o pensamento em ordem. Desse imenso silêncio eclode aquilo que é sagrado. Tal silêncio exige que a estrutura total da consciência contenha espaço. Todavia tal qual existe, a consciência não incorpora qualquer espaço, uma vez que se acha apinhada de temores, interminável tagarelar, etc. Quando o silêncio se faz presente, essa imensidão eterna e intemporal faz-se presente. Somente então teremos possibilidade de nos abeirarmos do eterno e sagrado.


A Verdade

Alpino Italy 33
A maior parte daqueles que julgam dispor-se a buscar a verdade já se predispuseram mentalmente para a receberem, por meio do estudo de certas descrições do seu objectivo. Se examinarem com toda a atenção verão que todas as religiões e filosofias procuram descrever-lhes a realidade a fim de poder servir de guia.

Eu não irei descrever aquilo que para mim a verdade representa pois isso seria impossível. Não se pode transmitir nem sequer descrever a inteireza de uma experiência; cada um tem que a vivenciar por si próprio.(...)
Mas, quando sustentamos uma imagem que depois procuramos copiar, ou um ideal que posteriormente tentamos seguir, não podemos jamais abordar de forma completa a sua experiência; jamais somos francos ou sinceros com relação a esse ideal. Se sondarem o vosso íntimo de verdade (coração e mente) descobrireis que vindes aqui justamente à procura de alguma coisa nova – uma sensação, uma ideia, uma explicação para a vida, de forma a poderem moldar a vossa vida de acordo com isso.

Portanto, aquilo de que andam em busca reduz-se a uma explicação satisfatória. Não vindes aqui numa atitude de renovação, de forma a que, pela própria percepção, pela própria intensidade, sejam capazes de descobrir a alegria natural e a espontaneidade de acção. A maioria busca uma mera explicação descritiva da verdade, na esperança de que se forem capazes de o descobrir, então, serão capazes de se moldar a essa luz eterna. Todavia, se esse for o único motivo da vossa busca, então não se tratará de uma procura autentica mas de uma simples consolação, conforto, numa tentativa de fugir aos inúmeros conflitos que temos que enfrentar a cada passo.

Nas minhas conferências não vou tecer nenhuma teoria intelectual mas falar, antes, segundo a minha própria experiência (que não brota de nenhuma ideia intelectual mas é algo bastante real). Façam o favor de não me ver como um filósofo que expõe um novo conjunto de ideias com que possam proceder a malabarismos intelectuais. Nada disso faço intenção de vos proporcionar. Ao invés, gostaria de clarificar que não poderão realizar a verdade nem uma vida de abundância e riqueza por intermédio de quem quer que seja, por meio da imitação ou da autoridade.

Para mim existe essa coisa chamada Realidade – chamam-lhe Deus, imortalidade, eternidade, ou o que quiserem. Existe algo que possui imensa vida e é criativo mas que não pode ser descrito, porquanto a realidade escapa a toda a descrição. Nenhuma descrição da verdade poderá revelar-se duradoura pois não passa de um amontoado de palavras.(...)

A realização desta verdade – do eterno – não encontra cabimento no movimento do tempo, movimento esse que não passa de um hábito adquirido pela mente.(...)
Por outras palavras, toda e qualquer acção empreendida nesse campo deve brotar verdadeiramente do próprio indivíduo. Por acção individual quero referir-me - não à oposição para com a massa – mas àquela que brota da total compreensão que o entendimento que não é imposto por mais ninguém, proporciona. Quando esse entendimento se faz presente, então existe verdadeira individualidade, verdadeira unicidade, integridade; não se trata da evasão da solidão mas da condição singular de ser que resulta da total compreensão das experiências da vida.

Freedom From the Known
O pensamento é desonesto por ser capaz de inventar qualquer coisa e perceber coisas que não existem. É capaz dos truques mais mirabolantes, razão porque não devemos confiar nele. Porém, se formos capazes de perceber a estrutura completa do modo como pensamos, a razão de pensarmos o que pensamos, dos termos que empregamos, da forma como nos comportamos no nosso viver diário – o modo como conversamos com as pessoas e as tratamos, o modo como caminhamos, como comemos – se tivermos atenção por todas essas coisas, então nesse caso a vossa mente deixará de vos enganar e tampouco passará a subsistir o que possa ser enganado. Nesse caso, a mente não mais se tornará aquela fonte de exigências que é causa permanente de subjugação, mas permanecerá extraordinariamente silenciosa, flexível, sensível, só. E nesse estado não subsiste o menor engano.


Auto-conhecimento

Madras 61
A pesquisa do medo equivale ao auto-conhecimento, ao conhecimento de nós próprios, ao processo de nos tornarmos conscientes daquilo que somos de verdade a cada instante do dia – não aquilo que pensamos ser, nem tampouco o que os livros descrevem e inventam sobre nós. Temos de ter conhecimento disso que somos mas tal apresenta-se como uma tarefa imensamente árdua, que exige enorme atenção, enorme capacidade de percebermos o que ocorre de facto – a forma como nos sentamos, o modo como falamos, como caminhamos ou contemplamos o céu, o modo como encaramos a nossa esposa ou filhos, além do modo como eles se nos dirigem. Ter consciência disso tudo representa um começo, ou seja, a base da compreensão. Se não nos conhecermos não poderemos ir longe, mas se pensarmos que sim, estaremos a iludir-nos. Já se o fizermos de forma gratuita, isso será uma questão inteiramente diferente. Porém, se continuarmos nesse rumo por muito tempo mais cedo ou mais tarde cairemos na desilusão.

Aprendizagem

New Delhi 64

Temos de apreender o significado da aprendizagem, o sentido da aquisição de conhecimento. Aprender equivale a uma dada coisa enquanto que aquisição de conhecimento corresponde a outra. Aprender consiste num processo contínuo que não comporta qualquer adição (por meio do que reunimos conhecimentos para depois agirmos). Quer dizer, nós actuamos com base no conhecimento que, por sua vez, se torna experiência, tradição - conhecimento esse que deriva das nossas idiossincrasias e tendências particulares. Mas nesse processo não existe qualquer aprendizagem. O aprender jamais é acumulável, sendo, ao invés, um movimento constante. Não sei se alguma vez pensaram nesta questão - do que signifique aprender e a mera aquisição de conhecimento. Mas muito importa compreender isso porque a seguir vamos investigar uma questão bastante complexa.

Aprender jamais consiste num processo acumulável; não podemos armazenar aprendizagem para a partir daí agirmos!

Devemos ter bastante clareza com relação a ambos esses aspectos porque o que de seguida vamos empreender juntos, neste entardecer, é aprender – ao invés de acumular conhecimento. Vamos aprender com relação a algo que pensamos conhecer, mas que na realidade não conhecemos. Ou seja, vamos aprender em conjunto com relação à qualidade, à energia que não resulta do conflito. Toda a vida consiste em energia. Mas a única forma de energia que conhecemos está envolta no motivo, porquanto resulta da fricção ou do conflito, ou então do percurso rumo a um determinado fim. Trata-se de uma forma de energia que deriva de determinada coisa - como aquela que resulta da nutrição, ou então a forma de energia que resulta do sentimento de ódio por determinada pessoa. Todavia essa energia que deriva de um motivo contém, sempre a semente do conflito, sob a forma de prazer e dor.
Estamos a investigar em conjunto essa forma de energia singular que pode dissipar todos os nossos problemas, conflitos e disfunções da mente. Vamos aprender juntos - quer dizer, vamos descobrir por nós mesmos em que consistirá essa energia que não possui qualquer motivo e, portanto, não resulta de nenhuma forma de conflito nem de nenhum meio. Por si mesma, esse energia é tremendamente vital e criativa e possui o potencial de nos dissipar toda a forma de ilusão, tristeza e confusão.

Mas, para podermos aprender com relação a nós mesmos temos que fazer uso da compreensão; não compreensão verbal nem intelectual. Temos de compreender, sentir toda a questão do aprender de uma forma isenta de ideias.

Se não possuirmos qualquer conhecimento sobre algo com que nos deparamos, temos que estudar essa coisa, temos de lhe dar voltas, aplicar-lhe a nossa mente e ir descobrindo à medida que avançamos. Todavia, se antecipadamente pensarmos conhecer, pararemos de aprender. Ao passo que, devido a que o aprender não seja um processo aditivo, a questão exige que o abordemos de modo francamente diverso.

Eu não vos conheço e, do mesmo modo, vós não me conheceis. Possuis certas e determinadas ideias a meu respeito, provavelmente do mesmo modo que eu com relação a vós. Mas não será que desse modo irei aprender acerca de vós, nem vós acerca de mim. Por isso devemos possuir uma mente revigorada, inquisitiva, crítica, e não uma mente que aceite ou rejeite.

Estamos a aprender e como tal daí não resulta nenhuma formulação de juízo nem determinação de valor. Quando aprendemos, a mente encontra-se atenta, sem jamais acumular - de forma que disso não resulta nenhum processo de acumulação a partir do que ajuizemos, avaliemos, analisemos, possamos condenar ou comparar. Uma mente que aprende torna-se esclarecida e inquiridora sem jamais ser comparativa nem aceitar a autoridade ou determinado valor a partir dessa fonte de autoridade. Uma mente assim permanece jovem e inocente, devido a que se ache constantemente a aprender.(...)
Portanto, a mente que permanece num estado de aprendizagem não se encontra em estado de experiência, porque quando experimentamos lançamo-nos de volta ao campo da avaliação. Portanto, a mente que se acha a aprender não experimenta, por se achar a agir, em movimento, por estar a ser conduzida, a penetrar.

Assim, a mente que se acha activa aprender a toda a hora, não só com relação a si mesma mas acerca de tudo na vida; assemelha-se a uma criança que observa, faz perguntas e exige respostas, sem jamais se satisfazer. Esse aprender requer uma energia extraordinária. Mas quando se acha sobrecarregado pelo peso do conhecimento e a exigência de mais experiência, deixa de possuir energia.

Agora, o aprender exige disciplina - não a disciplina do controle, da repressão, do conformismo nem da brutalidade que envolve. Disciplina é o que vulgarmente se traduz pela aceitação de um ideal como padrão, consequente esforço por nos conformarmos a ele, forçando a mente, o corpo e todo o nosso ser, tudo!
O sentido etimológico da palavra “disciplina” significa aprender – não conformar-se, nem suprimir, brutalizar mas aprender. O aprender exige uma espantosa disciplina que não é aquela da aceitação nem da autoridade. Desse modo, a mente que se achar num estado de aprendizagem, deve não só ter consciência das influências do meio, tanto quanto possível sem se conformar, nem resistir, como também permanecer consciente das próprias tendências e qualidades, consciente das próprias experiências sem cair em qualquer dessas armadilhas; mas isso exige atenção.

Justiça / Compaixão

Madras 81
Em que consiste a corrupção?(...)

A corrupção existe onde a fragmentação se faz presente nos seres humanos. Não consta somente em fazer passar dinheiro por debaixo da mesa.(...)

Também se faz presente quando um indivíduo com educação- um juiz, um engenheiro- se torna, com toda a sua capacidade e inteligência, activo numa certa direcção, enquanto que noutra se mantém supersticioso, e vai ao templo fazer votos idiotas. Porque, estou certo de estarem a par de tudo isso (provavelmente até trilham percursos idênticos) existe essa contradição de frequentar o templo, a oração e todo o género de contra-senso, enquanto no mundo dos negócios, onde grassa a corrupção, se tornam juizes, engenheiros, negociantes de prestígio(...)

E essa contradição, que diz respeito a nós próprios, mas que passa despercebida à maioria, é igualmente corrupção – o exercício da razão numa determinada direcção ao mesmo tempo que se vive na contradição(...) Isso é corrupção.
Corrupção é dizer uma coisa e fazer o contrário, pensar uma coisa e agir de modo completamente diferente. Isso é desonestidade bem como corrupção. E nós somos desonestos, não seremos? Porque possuímos uma enorme quantidade de ideias sobre o que deveríamos tornar-nos e vivemos de modo completamente contrário. Isso é igualmente corrupção. A corrupção consiste na imitação, não só do vestir mas na imitação do ajustamento a um modelo ou padrão, que resulta em que jamais sejamos livres. Portanto, não resta dúvida de que vivemos sob a corrupção. Mas, se tivermos consciência de nós próprios, não equivalerá isso a mover-nos para fora dessa escravidão e a vivermos uma vida de profunda integridade, tornar-nos pessoas em pleno sentido, sem quaisquer cisões? Não poderemos lutar assim por um modo de vida, sem dizer que é fastidioso, e todas essas desculpas que inventamos com base no racionalismo?

Além disso coloca-se a questão da justiça: vós sois bela e eu não sou; possuís um bom aspecto enquanto que eu não; sois extremamente inteligente, ao contrário de mim, e possuís poder, fama e riqueza enquanto que eu jamais obterei tal coisa; possuís visão das coisas, capacidade pessoal, sentido de beleza – eu, ao contrário, não possuo nada disso. Assim, onde existirá justiça? Vivo na aldeia, de modo paupérrimo, enquanto que vós viveis na cidade, sois urbanizados, viveis na satisfação. Eu jamais poderei ser assim. Portanto, não deveríamos falar de compaixão ao invés de justiça e de procurar a igualdade? Porque, não existe coisa tal como igualdade. A igualdade é uma coisa bonita, para permanecer ali fixada no pedaço de pedra, porém, não existe tal coisa no mundo. Sempre procuramos produzir igualdade, e aparentemente até por meio da democracia. As pessoas não têm nenhum conhecimento acerca disso neste país (Índia) mas, a despeito de tal coisa fazem uso do voto.(...) Vocês conhecem muito bem isso tudo.

Se pudermos desviar-nos totalmente da palavra e descobrir se seremos capazes de nos tornar compassivos, de amar ou pelejar pela causa da justiça, porque (...) vós sois alto e eu sou baixo; sois brilhante e eu sou embotado; possuís tudo ao passo que eu nada tenho; tendes saúde e eu vivo doente. Portanto, não deveríamos encarar a questão, não do ponto de vista da justiça mas na qualidade de seres humanos destituídos de amor, compaixão – coisa que é pior que ser um animal?(...)
Conheceremos a qualidade de misericórdia, justiça sob o aspecto da misericórdia, da compaixão, do amor? Porque se não sentirmos nada disso não poderá haver justiça.

A compaixão possui inteligência, porém, não a inteligência da mente astuta.(...)
Não aceitem aquilo que estou para aqui a dizer, porque desse modo estareis apenas a aceitar um amontoado de palavras. A palavra soa terrivelmente sedutora, mas vós não possuís o sentimento, essa qualidade de comunicação que o amor alberga. De forma que podeis criar uma sociedade baseada na revolução, porém, jamais sereis bem bem sucedidos.(...)

Os seres humanos procuram instaurar uma sociedade dessas por todo o mundo, mas a sociedade assenta no relacionamento de uns com os outros, e nesse relacionamento não existe amor nem compaixão; podemos ter as leis mais nobres, porém, elas poderão sempre ser ultrapassadas. Portanto, se não tiverem essa qualidade, façam o que fizerem, jamais podereis produzir um mundo de beleza.(...) Podeis criar tudo o que desejardes que isso não passará de conversa (...)

Jamais cooperamos, ou seja, jamais trabalhamos em conjunto. Vivemos com inveja uns dos outros. Desse modo não sabemos o que é trabalhar juntos. Nos negócios praticamos isso porque isso nos garante proveito próprio. Mas conheceremos o sentimento de trabalhar juntos, sem proveito nem motivo particular, sem o padrão de autoridade a dizer-nos o que devemos fazer, e sem termos que fazer algo que possa diferir dessa autoridade? Trabalhamos juntos pelo ideal, porém, cedo começamos a romper tal acção por logo começarmos a interpretar a coisa em termos de preferência e preconceito.



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