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O Complexo Problema da Igualdade


Ojai 22 Maio 83
Se alguma vez tivermos consciência do quanto nos achamos religiosa e moralmente condicionados, e de que enquanto estivermos condicionados não poderemos dispor absolutamente de liberdade nenhuma, então poderemos perceber a inexistência de qualquer possibilidade de possuirmos liberdade efectiva. Por isso vamos investigar não só sobre a liberdade mas também sobre a justiça e a bondade, bem como da possibilidade de alguma vez os seres humanos chegarem a afastar-se da corrente condicionada da chamada civilização.

Devíamos examinar se existe de facto justiça no mundo- sendo que por justiça se entende a lei, a moral, a correcção e a igualdade. A lei refere que somos iguais; porém, alguns são, aparentemente, mais iguais do que outros. Os advogados, espertos como são, podem fazer da lei aquilo que quiserem- tanto podem sustentar um postulado como justificar a tese perfeitamente contrária. Por isso perguntamos se existirá de facto justiça alguma, porque essa tem sido uma das interrogações que vêm sendo colocadas, não só desde Aristóteles, Platão e os demais filósofos gregos, como muito antes deles, com o propósito de se descobrir uma possibilidade de podermos instaurar uma justiça apropriada e um sentido de igualdade que diga respeito a todos. Mas, aparentemente, jamais poderá chegar a haver igualdade.
Se vós sois alto, alguma outra pessoa deverá ser baixa; alguém é esperto, erudito academicamente, capaz de coisas grandiosas, enquanto algum outro será trôpego, obediente, conformista, uma simples máquina, não passando dum dente em toda esta engrenagem social. E existe uma enorme diferença entre ambos. Vós possuís beleza e outro não; vós possuis sentido estético de beleza e ele não tem nenhum sentido. Assim, onde poderemos encontrar justiça e igualdade? Ou não existirá nada além do que os filósofos e os académicos referiram, sejam eles marxistas ou teólogos- porque geralmente uns e outros são bastante semelhantes- e sob que forma poderá existir esse sentido de justiça e igualdade? É que, aparentemente, nesta terra isso não pode ter existência entre os seres humanos.

Por favor, permitam que solicite, com todo o respeito, que estamos a empreender uma viagem juntos, o orador não vos fala para escutardes um simples amontoado de palavras, ideias e conceitos, mas ao invés caminhamos juntos pela rua abaixo com amizade, vós e o orador, como dois amigos que se conhecem á muito tempo, a falar sobre todas estas coisas. Nenhum de nós impõe as suas ideias nem sentido algum de autoridade- pelo menos entre amigos será de esperar que não exista. Entre amigos existe não só simpatia, como também amizade, afecto e um certo sentido de investigação. Mas só poderemos examinar e investigar se tivermos não só liberdade com relação a todo o preconceito e inclinação, como também ânsia de compreender as questões do foro da existência humana.
Portanto, estávamos a questionar-nos da existência de igualdade entre os seres humanos. Mas, aparentemente, pelo menos no terreno legal, não somos capazes de encontrá-la. Não uma igualdade estabelecida pelos ditames sociais ou religiosos- ditames que referem que somos todos irmãos, em nome disto ou daquilo; não obstante, se não houver igualdade não poderá haver justiça. Assim, em que aspecto poderá essa igualdade subsistir? Pergunto isso por se tratar de uma questão sobremodo importante. Se não houver possibilidade de existir igualdade, trataremos perpetuamente de nos destruir uns aos outros. Mas, para alcançarmos essa igualdade devemos possuir compaixão, porque só através da compaixão poderá haver igualdade e justiça- não resultante da lei ou dos juizes ou de instituições do tipo das Nações Unidas, nem por pequenos grupos ou comunas, mas juntos, será que juntos não poderemos realizar um sentido de compaixão? Isso não é coisa que o pensamento possa inventar, nem possa ser congregado por decreto ou determinação da vontade. Porquanto essa compaixão sobrevirá quando estabelecermos entre nós uma relação correcta.

Como o nosso relacionamento se resume num contínuo processo de conflito, o término dessa condição deverá constituir o objecto da nossa investigação, da questão da mudança absoluta imediata.

Talvez devêssemos falar sobre a bondade. Mas como a palavra soa a algo fora de moda, hoje em dia, dificilmente a podemos utilizar. A palavra bondade significa juntar- juntar muitas coisas, muitas facetas do nosso viver de modo a que as partes cindidas- fragmentados como somos- sejam congregadas, unidas, harmonizadas. A bondade actua a partir dessa condição; é esse o significado da palavra. Viver uma vida de tal forma que não subsista divisão nenhuma em nós. Mas o cérebro que percebe o preenchimento deverá ser sempre fragmentado. Logo, precisamos fazer menção à bondade, à equidade, à justiça, à liberdade.

A palavra liberdade significa amor. Não se trata da liberdade de uma prisão- isso seria uma mera reacção. Liberdade da dor- não me refiro à dor física mas psicológica, porque a liberdade da dor física pode ser uma armadilha, uma outra forma de escravidão. A liberdade não é liberdade de uma coisa, mas algo completo em si mesmo. Se formos livres das mágoas psicológicas- e a maior parte das pessoas foi magoada logo na infância- e essa mágoa originar um grande sofrimento e tristeza, tanto para o próprio como para os demais, a simples liberdade da mágoa não representa propriamente liberdade nenhuma. Por isso, a liberdade implica não somente um sentido de liberdade total, num todo, como um modo de vida holístico- não um fragmento em busca de liberdade, com todos os outros fragmentos num estado de sujeição. Só poderemos ter liberdade quando reunirmos todos os fragmentos e vivemos uma vida em totalidade. A palavra totalidade significa "saudável" no sentido físico, são, racional, sagrado. E a bondade implica isso tudo.


16 Jan. 1955
A falta de interesse e a mediocridade parecem ser a incontornável maldição de uma sociedade destituída de classes.(...)
Não haverá maneira de instaurar a igualdade sem apagar a chama criativa? Que queremos dizer com igualdade? Bem sei que toda a gente defende que deve existir igualdade, mas alguma vez ela chegará a existir? Existirá igualdade no campo das funções? Eu posso não passar de um cozinheiro, enquanto que vós podeis ser um governante. E se o governante desprezar o cozinheiro- coisa que geralmente faz por se achar muito mais importante que ele- então aquilo que para ele contará deverá ser a posição e não a função; portanto, como poderá existir igualdade? Talvez tenhais a sorte de possuir um cérebro melhor que o meu, de conhecer mais pessoas do que eu, possuir uma maior habilidade para pintar do que eu, compor poemas; podeis ser um cientista ou um artista, enquanto que eu não passo de um coolie, ou de um clérigo. Como poderá nisso existir igualdade? (...)

Por certo que se valorizarmos a posição a chama criativa perder-se-á, ou quando deparamos com a imposição de um padrão de igualdade, o que não passa de uma mera teoria. Porém, se pudermos ensinar o estudante a ter gosto pelo que faz, a amar o que faz com todo o seu ser- seja lá o que for que fizer- logo a partir da infância, então talvez não haja contradição e desse modo deixem de existir actividades anti-sociais.(...)

Senhor, eu creio que quando carregarmos amor no coração e este não se achar escravizado pelas coisas da mente, então poderá resultar igualdade. Porque quando há amor não há noção de ser grande ou pequeno, nem necessitaremos de tocar os pés do governante nem fazer-lhe uma vénia mais vistosa do que ao cozinheiro. Mas justamente por não amarmos que perdemos todo o significado da igualdade. Mas o amor não é coisa passível de ser tornada decreto por um Marx, pois não pode ser encontrada na teoria comunista, nem tampouco numa nova cultura padrão.

Ojai, 4 Julho 1953
Queremos equiparar-nos aos famosos, aos ricos e aos poderosos. Quanto mais uma civilização se torna industrializada tanto mais impera a ideia de que os pobres se podem tornar ricos, a ideia de que o homem que vive numa cabana se pode tornar presidente, de modo que, naturalmente, perdemos o respeito por qualquer pessoa. Penso, no entanto, que se pudermos compreender a questão da igualdade, talvez então possamos compreender a natureza do respeito. Mas existirá alguma igualdade? Conquanto os vários tipos de governo, quer da direita, quer da esquerda, enfatizem a noção de que todos somos iguais, será um facto que o somos? Vós possuís um cérebro melhor, mais habilidade, sois mais talentoso do que eu; podeis pintar e eu não. Podeis ter a capacidade de inventar coisas enquanto que eu não passo de um operário. Poderá alguma vez existir igualdade? Pode existir igualdade de oportunidades, e ambos sermos capazes de comprar um carro, porém, será isso igualdade? Por certo, o problema não está em como produzir igualdade económica mas em descobrir se a mente pode ser livre desta noção de superior e inferior, da adulação para com o grande proprietário e do desprezo por quem nada possui.
Penso que o problema se centre essencialmente nisso. Voltámo-nos para aqueles que nos podem dar uma mão, ou alguma coisa, e viramos a cara àqueles que o não podem fazer. Respeitamos o patrão, ou o indivíduo que nos pode dar uma posição melhor, um cargo político, bem como para com o sacerdote- que é um outro género de patrão, no chamado mundo espiritual. Portanto estamos constantemente a voltar-nos para uns e a virar o rosto a outros. Não poderá a mente libertar-se do desdém e da falsidade?

Observem a vossa mente e as vossas palavras e descobrireis que, enquanto subsistir o sentimento de superioridade, não poderá haver sentido de respeito e de igualdade, porquanto todos possuímos diferentes capacidades e aptidões. Mas aquilo que pode existir é um sentimento de todo em todo diferente; talvez um sentimento de amor por meio do qual não sejamos levados a sentir desdém nem a formular julgamento de valor, nem nenhum sentimento de superior ou inferior, nenhum sentimento de doador e de receptor.(...)

Enquanto vós, ou eu, andarmos à procura de realização não haverá respeito nem amor. Enquanto a mente procurar a realização através de algo, terá de haver ambição. E é devido a que, na grande maioria, sejamos ambiciosos, por diferentes modos, diferentes níveis e em grau variado, que é impossível termos este sentimento- não de igualdade, mas de afeição e amor.

- Não pensa que por meio da revolução se possa instaurar a igualdade?

Krishnamurti: Toda a revolução baseada numa ideia, quer seja lógica ou esteja de acordo com uma evidência histórica qualquer, não poderá produzir igualdade. A própria função da ideia consiste em separar os homens. A crença, seja religiosa ou política, só pode virar o homem contra o seu semelhante. E o mesmo fizeram- e ainda fazem- os chamados religiosos. A crença organizada, a que chamamos religião, à semelhança de qualquer outra ideologia, é uma coisa da mente, e como tal separativa.

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