Traduzido do Inglês por Amadeu Duarte



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Quando é Que Chegamos a Aprender




1960

Existe uma enorme diferença entre a aquisição de conhecimentos e o acto de aprender. É óbvio que precisamos obter conhecimentos; de contrário não poderemos lembrar-nos do sítio onde moramos, podemos esquecer-nos do próprio nome, etc. Logo, sob um determinado aspecto, o conhecimento é imprescindível. Mas quando o empregamos para tentar compreender a vida- que é um movimento, uma coisa viva, móvel, dinâmica, que se altera a cada instante- quando uma pessoa se torna incapaz de percorrer os caminhos da vida a par e passo, essa pessoa passa a viver no passado; mas então procura compreender essa coisa extraordinária chamada vida... Mas para compreendermos a vida, precisamos aprender a cada minuto sobre ela; jamais a abordaremos se já tivermos aprendido.
A vida que a maioria das pessoas conduz, em meio à sociedade restringe-se ao ajustamento; isto é, moldar o pensamento, o sentimento e o modo de viver a um padrão, a uma sanção ou molde particular de uma dada sociedade, sociedade essa que por sua vez evolui muito lentamente, de acordo com certos padrões. Logo na infância somos treinados para nos moldarmos a esse padrão, para nos ajustarmos ao ambiente em que vivemos. Mas esse processo não comporta qualquer lugar para a aprendizagem. Bem que podemos revoltar-nos contra esse ajustamento que essa revolta jamais constituirá liberdade. E só a mente que aprende e jamais acumula é capaz de movimentar-se em harmonia com o fluxo constante da vida.

Afinal de contas, qual o objectivo da educação que hoje temos? Moldar a mente de acordo com a necessidade, não é mesmo? Neste momento a sociedade precisa de determinado número de engenheiros, cientistas, físicos; de modo que, mediante diversas formas de recompensa e compulsão, a mente é influenciada a moldar-se a essa demanda. E a isso damos nós o nome de educação. Embora o conhecimento seja necessário e não possamos viver sem educação, será possível obtermos conhecimentos sem nos tornarmos escravos deles? Tendo consciência da natureza parcial do conhecimento, será possível que não permitamos que a mente fique aprisionada por ele, de modo que ela seja capaz de uma acção total, que há de ser uma acção não baseada num pensamento, numa ideia?
Vou dizer a mesma coisa por outras palavras. Não haverá uma diferença entre o conhecimento e o acto de conhecer? O conhecimento é sempre processo pertencente ao tempo, enquanto que o conhecer não é. O conhecimento vem de determinada fonte, de um acumular, de uma conclusão, ao passo que o conhecer é um movimento contínuo. Uma mente em constante movimento de conhecer, de aprender, não possui um aspecto a partir da qual ela refira um conhecimento definitivo.

Tentemos de outro modo. O que queremos dizer com aprendizagem? Poderá haver aprendizagem quando apenas acumulamos conhecimentos e reunimos informação? Esse é um tipo de aprendizagem, não será? Como alunos de engenharia, vocês precisam estudar matemática e outras matérias; vocês obtêm informação e aprendem acerca dessas matérias. Vocês estão a acumular conhecimento a fim de o empregar de uma forma prática. Essa é uma aprendizagem cumulativa, aditiva. Mas, quando a mente está apenas assimilando, acrescentando, adquirindo, poderá ela estar a aprender? Ou será a aprendizagem uma coisa completamente diferente? Eu afirmo que o processo aditivo a que hoje chamamos de aprendizagem não é aprendizagem nenhuma. É apenas um cultivo da memória, que assim se torna mecânica; e uma mente que funciona de modo mecânico, como uma máquina, não tem capacidade para aprender. Uma máquina só é capaz de aprender no sentido aditivo. Aprender não tem nada que ver com isso, como lhes vou mostrar.
Uma mente que aprende nunca diz "eu sei", porque o conhecimento é sempre parcial, ao passo que a aprendizagem é uma coisa sempre completa. Aprender não significa começar com um certo montante de conhecimento e ir fazendo acréscimos a esse conhecimento; isso não é aprendizagem, mas tão só um processo puramente mecânico. A meu ver a aprendizagem é algo completamente diferente. Estou a aprender sobre mim mesmo a cada momento, mas esse "mim mesmo" é dotado de uma extraordinária vitalidade. Ele é uma coisa viva, móvel, que não tem começo nem fim. Quando digo: "conheço-me a mim mesmo", então a aprendizagem acabou, tornando-se conhecimento acumulado. Mas a aprendizagem jamais brota do acúmulo de conhecimentos; é um movimento do conhecer que não tem começo nem fim.(...)

Por isso, eu gostaria de pensar com vocês sobre essa questão da possibilidade de a mente romper suas próprias fronteiras e ir além das suas limitações- porque é inegável que a nossa vida é bastante vazia. Vocês podem ter todas as riquezas que a terra é capaz de proporcionar; podem ser muito cultos; podem ter lido muitos livros e ser capazes de citar com grande erudição todas as autoridades bem estabelecidas, tanto do passado como do presente; por outro lado, podem ser muito simples e apenas viverem da labuta do dia a dia, com todos os pequenos prazeres e aflições da vida familiar.

Seja lá o que for, é da maior importância descobrir de que maneira poderão ser rompidas as barreiras que a mente criou para si mesma. Esse é, na minha opinião, o nosso principal problema. A mente é limitada e feita presa num vórtice móvel de influências ambientais por meio da chamada educação, da tradição e de várias formas de condicionamento social, moral e religioso. Mas não será ela capaz de quebrar todas essas amarras do condicionamento e viver com alegria, percebendo a beleza das coisas, e possuindo um extraordinário sentimento de vida incomensurável?

Acho que é possível, porém, não creio que seja um processo gradual. Essa ruptura não ocorre por acção de uma evolução, por efeito do tempo. Ela acontece instantaneamente ou então não acontece, de todo. A percepção da verdade não sucede ao final de vários anos. No campo da compreensão não existe amanhã nenhum. Ou a mente compreende de imediato ou fica sem compreender.(...)
Vocês já perceberam que a compreensão sucede sempre num clarão súbito e nunca por cálculo, com o tempo? Jamais ocorre ela por meio do exercício e do desenvolvimento gradual. A mente que confia nessa ideia de compreensão gradual é essencialmente preguiçosa. Não me venham perguntar: "Como fazer com que uma mente preguiçosa se torne desperta, revigorada, activa?" Não há "como". Por mais que tente ficar inteligente, a mente estúpida permanecerá sempre estúpida. Uma mente mesquinha não deixa de ser mesquinha por prestar culto a um deus que inventou. O tempo não vai revelar a verdade nem a beleza de coisa alguma. O que de facto traz compreensão é o estado de atenção- ser atento apenas, mesmo que por um só segundo, com todo o nosso ser, sem cálculo algum nem premeditação. Se pudermos concentrar totalmente a atenção num determinado momento, creio que poderá suceder uma compreensão instantânea, uma compreensão total.(...)

Todo e qualquer pensamento que nos perpassa a mente, não deixa de a afectar. Seja um pensamento bom ou ruim, feio ou bonito, subtil ou perspicaz- seja o que for, o pensamento moldará essa mente. Assim, em que consiste o pensamento? Sem duvida nenhuma, o pensamento é a reacção daquilo que vocês sabem. O conhecimento reage, e damos a isso o nome de pensamento. Se ficarem bem alerta, conscientes do próprio processo de pensamento, vocês vão se dar conta de que, o que quer que estejam a pensar, moldou já a mente; e uma mente moldada pelo pensamento deixa de ser livre, e por isso não é uma mente individual. Logo, o auto-conhecimento não é um processo de continuidade do pensamento, mas de redução, de cessação do pensamento. Mas não podem fazer cessar o pensamento por meio de nenhum truque, nem por meio da negação, nem do controle, nem da disciplina. Se fizerem isso, ainda estarão presos no campo do pensamento. O pensamento só poderá terminar quando conhecerem o conteúdo total da pessoa que pensa; e desse modo começarem a ver como é importante possuir auto-conhecimento. A maioria de nós contenta-se com uma forma de auto-conhecimento superficial, com arranhar a superfície, com o "b-a, ba" da psicologia. Não adianta ler alguns livros de psicologia, arranhar um pouco a superfície e depois dizer que sabe. Isso é simplesmente o processo de aplicar aquilo que se aprendeu à mente. Por conseguinte, vocês têm de começar a interrogar-se sobre o que é a aprendizagem. Percebem a relação que existe entre o auto-conhecimento e a aprendizagem? Uma mente que possui auto-conhecimento está a aprender, ao passo que uma mente que aplica a si mesma conhecimentos adquiridos, e pensa que isso é auto-conhecimento, está apenas acumulando. Mas a mente que acumula não pode aprender. Façam o favor de o observar. Vocês, em algum momento, aprendem? Já descobriram se aprendem alguma coisa ou se apenas se limitam a acumular informações?

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