Traduzido do Inglês por Amadeu Duarte



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Clareza de Percepção e Sabedoria




1950
O indivíduo que repete determinadas palavras de cunho religioso, enquanto que por outro lado explora os outros é, obviamente, um indivíduo que foge à realidade. Na compreensão do "eu" reside o começo da sabedoria. Porém, a sabedoria não constitui nenhuma forma de reacção. Somente quando compreendemos todo o processo de reacção- que consiste numa forma de condicionamento- é que poderá suceder um centro livre de questões; coisa que constitui a sabedoria.(...)
Pergunta: Poderá explicar-nos, por favor, as características do seu processo mental, à medida que se nos dirige nesta assembleia? Se o senhor não acumulou conhecimentos nem possui nenhuma reserva de experiência nem faz uso de nenhuma recordação, de onde lhe vem a sabedoria? Como consegue cultiva-la?
Krishnamurti: O facto de não ter tido conhecimento prévio das perguntas, faz-me hesitar. Procurarei responder de modo espontâneo, mas terão de me seguir com igual espontaneidade, sem raciocinarem pelas linhas travessas da tradição. A questão, pois, ocupa-se do funcionamento da minha mente e de que forma eu encontro sabedoria. "Se não possui nenhum depósito de experiência nem de memória, a partir do que é que consegue ter sabedoria?"

Antes de mais, como sabe que aquilo que digo procede da sabedoria? (risos) Não riam senhores, porque é demasiado fácil rir, e deixar passar tudo o mais em claro. Como havereis de saber se aquilo que digo é verdadeiro? Por que meio de avaliação, ou porque bitola o avaliareis? Poderemos avaliar a sabedoria de algum modo? Poderão afiançar sobre o que seja ou não, sabedoria? Será isso a sensação- ou a resposta à sensação?

Olhe, senhor, você desconhece o que a sabedoria seja, pelo que não pode asseverar que eu esteja para aqui a discorrer sabedoria. A sabedoria não é aquilo que nos é dado experimentar; a sabedoria não se acha nos livros, nem se trata de uma coisa que possais experimentar, nem reunir por um processo de acumulação, absolutamente. Antes pelo contrário, a sabedoria é uma forma de existência que não possui qualquer tipo de acumulação, porque não se pode acumular sabedoria.

O interrogante deseja saber de que forma a minha mente opera. Se me for permitido acercar-me um pouco dessa questão, eu vou mostrar-lhes. Não existe centro nenhum nem lembrança a partir do qual a minha mente actue ou responda.(...)

Não existe nenhum processo a partir do qual a minha mente responda: nenhuma acumulação, nenhum processo mecânico nem repetitivo de reunir, juntar.(...)

A comunicação ao nível verbal torna-se necessária a fim de nos fazermos compreender mutuamente. Porém, é aquilo que é referido, na exacta forma como é enunciado, e justamente a partir do que é enunciado, que importa. Agora, uma vez que essa questão é colocada, se a resposta proceder da mente que acumulou experiência e recordações, nesse caso tratar-se-á de mera reacção e portanto não será raciocínio nenhum. Mas se não acumularmos- o que não significa que não respondamos- nesse caso não sentimos frustração, esforço nem luta. O processo de acumular e o seu centro assemelham-se a uma arvore profundamente enraizada envolta numa corrente, que junta ao seu redor toda a sorte de escombros. E no topo dessa árvore está o pensamento, que imagina viver e pensar. Mas essa mente está simplesmente a acumular e a mente que acumula- seja conhecimentos, dinheiro ou experiência- obviamente não vive. Só vive quando flui e avança.
O interrogante deseja saber como sucede a sabedoria comigo e de que forma a podemos cultivar. Não podemos cultivar a sabedoria; podemos cultivar o conhecimento e a informação porém, não podemos cultivar a sabedoria simplesmente por não se tratar de uma coisa que possa ser acumulada. No momento em que a começarmos a acumular, isso torna-se simples informação e conhecimento- o que não é sabedoria. A entidade que acumula sabedoria faz ainda parte do pensamento e o pensamento é uma mera questão de resposta, uma reacção a um dado desafio.(...)
Só com a cessação do pensamento- que não é temporária nem definitiva- poderá suceder a sabedoria. Mas o pensamento só poderá cessar quando o processo de acumulação sofrer um término- processo que perfaz o reconhecimento do "eu" e do "meu". Enquanto a mente operar no campo do "eu" e do "meu" não poderemos ter sabedoria. A sabedoria é um estado de espontaneidade destituído de centro que não engloba nenhuma entidade que acumule. À medida que falo tenho consciência das palavras que emprego porém, não reajo à questão a partir de nenhum centro. Para encontrarmos a verdade com relação a uma dada questão, um determinado problema, o processo de pensar- que é mecânico e repetitivo, como bem o sabem- deve terminar. Portanto, significa isso que tem de ocorrer um silêncio interior total, pois só então conhecerão aquela criatividade que não é mecânica nem simples questão de reacção. Desse modo o silêncio é o começo da sabedoria.

Olhem, senhores, é bastante simples. Quando estamos com problemas a nossa primeira reacção é de pensar neles, resistir-lhes, negá-los, aceitá-los ou tratar de os explicar, não é mesmo? Observem-se bem e verão. Observem qualquer problema que surja e perceberão que a resposta imediata é de o aceitarmos ou lhe resistirmos; ou então, se não fizerem nenhuma dessas coisas tratam de o justificar ou explicar em termos aceitáveis e compreensíveis.

Assim, quando nos é colocada uma questão a nossa mente é imediatamente posta a funcionar, à semelhança de um mecanismo que reage imediatamente. Mas, para resolverem o problema- para esse efeito então a resposta imediata reside no silêncio e não no pensar. Quando esta questão foi posta a minha resposta imediata foi um completo silêncio. Por me achar em silêncio percebi imediatamente que quando há acumulação não pode existir sabedoria. A sabedoria está na espontaneidade mas não poderemos ter espontaneidade nem liberdade enquanto decorrer acumulação sob a forma de conhecimento ou recordação.

Assim, um indivíduo experiente jamais poderá ser um indivíduo sábio e simples. Mas aquele que se acha livre de todo o processo de acumulação é sábio, e sabe em que consiste o silêncio; aquilo que proceder desse silêncio deverá ser verdadeiro.
O silêncio não é algo a ser cultivado pois não tem expressão nem existem vias de acesso para ela, tampouco se trata de questão de "como" o consegui. Perguntar "como" implica cultivo- o que constitui uma simples reacção, uma resposta do desejo para acumular silêncio. Mas se compreenderem o processo inteiro da acumulação- que consiste num processo de pensamento- então conhecerão esse silêncio do qual brota uma acção que não é reacção. E nós podemos viver nesse silêncio o tempo todo pois não se trata de nenhum dom nem habilidade nenhuma; não tem nada a ver com habilidade e chega a existir somente quando observamos minuciosamente cada reacção, cada pensamento, cada sensação, e nos tornarmos cientes deles sem uso de nenhuma explicação ou resistência, aceitação ou justificação. Quando percebemos assim o um facto com toda a clareza, sem intervenção de bloqueios nem projecções então a própria projecção do facto dissolve-o e a mente permanece em silêncio. E só quando a mente se acha em perfeito silêncio, sem efectivar esforço nenhum para permanecer nesse estado, pode chegar a ter liberdade. Senhores, só uma mente livre pode ter sabedoria. Mas para ser livre tem de permanecer interiormente em silêncio.

1949
Pergunta: Desde sempre se proclamou que só pela obtenção de sabedoria se alcança o mais elevado objectivo da vida, e que a sabedoria deve ser alcançada pouco a pouco- por meio de uma vida de pureza e dedicação, direccionando a mente e as emoções para ideais mais elevados, por intermédio da oração e da meditação. Concorda com isto?
Krishnamurti: Descubramos o que quer dizer com sabedoria, e então veremos se a podemos descobrir. Que quer dizer com sabedoria? Será o "propósito da vida"? Se for, e nós conhecermos de antemão esse objectivo, essa meta, esse propósito, então nesse caso a sabedoria será isso que conhecemos. Mas poderemos obter esse conhecimento, adquirir sabedoria, ou somente podemos ter conhecimento de factos, e adquirir conhecimentos? Com certeza que a sabedoria e o conhecimento devem ser coisas inteiramente distintas. Podemos obter conhecimento total acerca de determinado assunto, porém, será isso sabedoria? Poderá a sabedoria ser alcançada pouco a pouco, vida após vida? Representará a sabedoria o armazenamento de experiência?

Toda a aquisição significa uma forma de acúmulo; a experiência implica a existência de um certo resíduo. Mas representarão esse acúmulo e esse resíduo sabedoria? Nós acumulamos os resíduos da experiência racial e da herança, em conjugação com o presente. Mas será esse processo de acumulação sabedoria? Nós acumulamos por uma questão de nos resguardarmos e vivermos com segurança; e nesse ínterim vamos obtendo experiência gradualmente. Poderá a acumulação de conhecimento ou a lenta reunião de experiência ser sabedoria? A nossa vida não passa- na sua inteireza- de um processo de acumulação, mais e mais aquisição- mas isso tornar-nos-á mais sábios? A nossa resposta consiste nessa experiência e na continuidade desses antecedentes de um modo diferenciado. Por isso, quando refere que a sabedoria reside na experiência, refere a recolha de uma variedade de experiências. Mas então, porque não seremos sábios? (...)
Assim a acumulação nunca é sabedoria porque só podemos acumular aquilo que proceder do que conhecemos; e o que é conhecido jamais poderá passar por desconhecido.(...)
Aquele que conquistou bastantes coisas tornou-se rico, mas um homem rico jamais se tornará sábio. Queremos tornar-nos proficientes no conhecimento- o que consiste numa aquisição de experiência da palavra- porém, aquele que o obtém nunca será sábio. Do mesmo modo, aquele que abandona tudo isso deliberadamente, também não poderá tornar-se sábio.

A verdade não pode ser objecto de acúmulo pois não reside na experiência mas sim no experimentar- estado esse que é destituído de experiência e daquele que faz a experiência. O conhecimento sempre é objecto de acúmulo, da parte de alguém que o reúne, tanto através da sua experiência ou aquisição; porém, a sabedoria não engloba nenhum experimentador. A sabedoria existe quando existe amor. Mas sem esse amor nós procuramos conseguir essa sabedoria através da aquisição contínua. Todavia tudo aquilo que sofre continuidade deve atingir a decadência. Somente aquilo que sofre um findar pode conhecer sabedoria. A sabedoria é sempre uma coisa fresca e nova. Mas como poderemos obter o conhecimento do novo se houver continuidade?.(...)
Essa mente jamais poderá conhecer sabedoria.(...)
A verdade não pode ser buscada, mas sucede somente quando a mente se esvazia de todo o conhecimento, todo o pensamento e toda a experiência- isso é sabedoria.

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