Traduzido do Inglês por Amadeu Duarte



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Inocência e Felicidade



Como é simples sermos inocentes! Sem inocência é impossível sermos felizes. O prazer que as diversas sensações conferem não é a felicidade da inocência. A inocência é a liberdade com relação ao fardo da experiência. É a lembrança que a experiência confere que corrompe e não propriamente a experiência. O conhecimento, como fardo do passado que é- é corrupção. O poder de acumular, o esforço por nos tornarmos alguém, destroi a inocência. E, sem inocência, como poderemos ter sabedoria? Aquele que é meramente curioso nunca poderá conhecer a sabedoria; ele encontrará; porém, aquilo que encontrar não será a verdade. Aquele que desconfia jamais conhecerá felicidade pois a suspeição constitui a própria ansiedade, enquanto que o medo gera a corrupção. A intrepidez não é coragem mas justamente liberdade de todo o acúmulo.

1967
Têm de olhar a vossa esposa ou marido tal qual ele ou ela é, e não através da imagem que deles formaram. Nesse caso sempre encontrarão o facto- isso que é- sem terem de o interpretar em termos de inclinação ou tendência pessoal, nem se deixarão guiar pelas circunstâncias. Olhar isso que realmente é- é inocência. A mente tem de passar por uma revolução radical assim.

Como nos envergonhamos por dizer não sabermos! Encobrimos o facto de não sabermos com palavras e informação. Na verdade desconheceis a vossa esposa, o vosso vizinho; como haverão de conhecer quando nem se conhecem a si mesmos? Possuem imensas conclusões e bastante informação e explicações sobre vós próprios porém, não possuem consciência daquilo que está implícito a isso. Explicações e conclusões- ao que se chama conhecimento- impedem a experiência do que é. Se não formos inocentes, como poderemos ter sabedoria? Se não morrermos para o passado, como poderá dar-se a renovação da inocência? O verdadeiro morrer há de dar-se a todo o momento; morrer é deixar de acumular. Aquele que passa pela corrente da experiência deve morrer para toda ela. Se não houver experiência nem conhecimento também não existirá aquele que experimenta. Conhecer é ser ignorante; não saber é o começo da sabedoria.


A tradição, a cumulação de experiência, as cinzas da memória- é isso que torna a mente envelhecida. A mente que morre a cada dia para as lembranças de ontem, para todas as alegrias e tristezas do passado- uma mente assim será sempre fresca e inocente e não se deteriorará com a idade; sem essa inocência- quer tenhais dez ou sessenta anos- não encontrareis Deus.


Amsterdão 1967
Se não compreendermos a mente que exige ter experiências, não poderemos abordar a questão de aceder a uma certa qualidade de inocência. A inocência é muito mais importante que a imortalidade! (...)
Uma mente mesquinha, estreita e leviana estará constantemente em busca de mais e mais experiências. Refiro-me, com este exemplo, à mente que está constantemente preocupada consigo mesma e com as suas actividades egocêntricas- a mente sem profundidade. Uma mente assim pode ser brilhante e esperta, erudita, e pode ter enorme capacidade técnica e analítica, todavia, continuará a ser uma mente superficial e mesquinha- a própria essência da mente burguesa. Não estamos a fazer uso da palavra "burguês" no sentido pejorativo. Uma mente assim, como a da maioria, acha-se fortemente condicionada e como tal bastante estreitada, bastante entrosada na tradição, na experiência do nosso ajustamento das exigências diárias de uma vida monótona, laboriosa e bastante inútil. Uma mente assim, bastante limitada, está constantemente a explorar experiências mais profundas e alargadas. A nossa vida diária, tal qual a conhecemos- a vida que levamos- é bastante monótona e vazia. E, seguindo hábitos e tradições bem estabelecidas criamos uma norma que a mente passa a observar continuamente até morrer ou chegar a um fim. Tal mente... exige uma variedade de experiências. Ela passou por experiências físicas não só de sexo e da satisfação dos vários prazeres sensuais como exigirá do mesmo modo experiências mais alargadas. E é por isso que o mundo se acha de tal forma louco, presentemente.

Saanen 1968
Vejam bem, todos nós desejamos alimentar-nos, vestir-nos e abrigar-nos; Isso é óbvio. Todos nós precisamos disso. E existe todo um complexo social e económico de relação uns com os outros, a fim de produzirmos vestuário, alimentação e abrigo para todos. Além disso existe esse campo psicológico de esforço interior, com todas as suas contradições e lutas constantes com uns clarões ocasionais de alegria pura, a sensação psicológica de solidão, de vazio, de não ser amado nem amar ninguém de todo o coração de modo que em tal amor não subsista nenhuma qualidade de inveja nem ódio. Além disso desejamos igualmente paz, não a paz dos políticos mas uma paz que está para lá da compreensão. Queremos igualmente saber o que sucede após a morte, o que significa morrer e a razão porque nós temos um pavor permanente da morte.(...)
Queremos também descobrir se existe algo permanente e intemporal. Desejamos igualmente ir além do conhecido; Se existe tal coisa como a verdade, Deus, alguma benção, inocência, uma lei que opere sobre toda a nossa vida sem que tenhamos de empreender qualquer acto da nossa parte; se existe divindade, alguma coisa sagrada que não seja mera invenção do homem. Isto engloba todo o complexo da existência. E, em todo este vasto campo, como poderemos afirmar que "queremos isto ou aquilo"? Entendem o que quero dizer? Poderemos fazer tal coisa? No entanto nós fazemos! "Eu desejo ter saúde, desejo sentir a minha mulher por perto; não quero que nenhuma imagem se intrometa entre nós, desejo apreciar a beleza da natureza, do relacionamento", etc. E em meio a tudo isto, escolhemos um pequeno pedaço e dizemos: "É isto que eu quero"!

Norway 1933
Se realmente usassem de inteligência nos negócios, ou melhor, se tanto as vossas emoções como os vossos pensamentos actuassem em harmonia, os vossos negócios podiam ir por "água abaixo". Muito provavelmente iriam. Mas provavelmente vós também deixaríeis que assim fosse, ao perceber o quanto este modo de vida contém de absurdo, cruel e exploratório.

Até que vos aproximeis do todo da vida com inteligência- ao invés de o fazer com o intelecto somente- nenhum sistema no mundo librará o homem da labuta incessante pelo pão.
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