Traduzido do Inglês por Amadeu Duarte



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Carácter e Destino



Pergunta- O meu filho foi juntamente com outros para o estrangeiro mas eles ficaram em falta, moralmente. Como é que acontece uma coisa assim? Que poderemos fazer para desenvolver o seu carácter?
Krishnamurti- Porque razão se refere somente aos que estiveram no estrangeiro? Vamos explorar isso juntos.

Pretendemos desenvolver o carácter- pelo menos dizemos que sim. Mas, estarão os jornais, os governos, os moralistas, os religiosos a contribuir para isso? Pensa que sim? Como é que havemos de desenvolver o carácter? De que forma pode a bondade florescer? Florescerá ela no contexto das compulsões sociais a que chamamos moral? Ou será que a bondade e o carácter se desenvolvem quando possuímos liberdade? Porém, a liberdade não significa fazer o que se deseja.

O que acontece é que eles se sentem subitamente livres de todas as pressões habituais; pressões essas decorrentes da família, da tradição, da nação, do medo, do pai ou da mãe. Todavia, será que antes de partirem eles possuíam carácter, ou sujeitavam-se meramente ao polegar dos pais, da tradição ou da sociedade, da propaganda e tudo isso- será que tinham carácter? Vocês deviam saber isso melhor do que eu. Desse modo, o vosso problema reside em saber como desenvolver o carácter sem deixar de frequentar o quadro dos padrões sociais, para não transtornar a sociedade, não é mesmo? Porque, apesar da sociedade falar de carácter e moralidade ela não visa incentivar o carácter. Assim, pode-se entender que não é possível desenvolver o carácter através de nenhum padrão nem convenção. Só poderemos consolidar o carácter com liberdade- contudo a liberdade não significa fazer o que se quer. Observem-se a si mesmos à medida que lidam com os vossos filhos. Vocês não querem que eles tenham carácter mas tão só que se ajustem à tradição ou aos padrões individuais e sociais. Para se ter carácter tem que se gozar de liberdade, porque só com liberdade poderemos fazer a bondade despontar. O carácter será isso; isso será a moral e não a chamada moralidade do ajustamento a padrões. Assim, será possível desenvolver o carácter e permanecer no círculo social? Por certo a sociedade não se interessa pela questão do carácter nem com o florescimento da bondade. Preocupa-se com o conceito de "bondade" mas pelo seu desabrochar já não se interessa; e esse só pode ocorrer com liberdade.

Portanto, ambos os aspectos são incompatíveis, daí resultando que o indivíduo que pretender desenvolver o carácter deve tornar-se livre (da acção dos pressupostos *) da sociedade. Porque, afinal de contas, a sociedade baseia-se na cobiça e na inveja, na ambição; contudo, não poderão os seres humanos libertar-se dessas coisas auxiliando desse modo a sociedade a romper os seus padrões? (...)
Vejam o que está a acontecer. Está tudo a ruir essencialmente por falta de carácter e por falta de bondade.
*- parêntesis do tradutor
Por seguirmos simplesmente o padrão de determinada cultura e procurarmos tornar-nos morais pelo enquadramento aos seus valores é que sucedem as pressões que surgem e nos causam rompimento na fibra moral, por falta de substância e realismo interior. Depois vêm os mais velhos indicar-lhes a via de volta para os velhos costumes, o caminho para o templo, para as escrituras, isto e mais aquilo- o que traduz conformismo.

Contudo, aquilo que procede do ajustamento jamais poderá desabrochar com bondade. Tem de haver liberdade porém, a liberdade resulta somente da nossa compreensão da cobiça e da inveja, da ambição e do desejo de poder. A liberdade com relação a tudo isso é o que nos permite que essa extraordinária coisa chamada carácter floresça.

Um indivíduo de carácter deverá possuir compaixão e conhecer o significado do amor; não aquele que meramente repete um montão de palavras sobre moral.

Portanto, o florescimento da bondade não se situa no perímetro da sociedade, porque em si mesma, a sociedade é constantemente corrompida. Somente o indivíduo que entende a estrutura total da sociedade e os seus mecanismos se livra disso e é possuidor de carácter; somente ele poderá florescer na bondade.
Madras 1956

Pergunta- A inteligência não desenvolverá o carácter?
Krishnamurti- O que entende por carácter? E por inteligência? Utilizamos termos como esses com demasiada liberdade. Qualquer político os utiliza- carácter, ideal, inteligência, religião, Deus, mas isso não passa de simples palavras; mas nós escutamo-las extasiados, por nos parecerem muito importantes. (...)
Vejamos o que queremos dizer com "inteligência" e "carácter". Que coisa é a inteligência? Será inteligente o indivíduo que vive no temor, na ansiedade, inveja, cobiça, com o espirito de copiar e imitar, ou a abarrotar de experiência e conhecimento alheios- cuja mente é limitada e controlada, moldada pela sociedade ou pelo meio? Vós chamais a isso inteligência, porém, isso não é inteligência, será? O indivíduo que vive em constante sobressalto e carece de inteligência poderá possuir carácter- sendo que por carácter se subentende algo original e não a mera repetição das normas tradicionais de actuação? Será o carácter respeitabilidade? Compreendem o significado da palavra respeitabilidade? Ser respeitado pela maioria ou pelas pessoas ao nosso redor. Que é que os nossos familiares respeitam? Que respeitam as multidões? Respeitam as coisas que projectam, e que eles próprios anseiam ou percebem como contraste. Ou seja, sois respeitados por serdes ricos ou se acharem bem posicionados ou deterem poder, ou então por serem amplamente conhecidos no campo político, ou então por escreverem; podem referir completos disparates porém, ao falarem diante de um auditório as pessoas chamar-lhes-ão um grande homem. À medida que vão conhecendo as pessoas e alcançam o respeito das maiorias, e são seguidos pelas multidões, isso dá-lhes uma sensação de respeitabilidade- que significa sentir segurança. Mas o pecador está mais próximo de Deus do que o homem respeitável, porque este está enclausurado na hipocrisia.

Será o carácter o resultado da imitação ou do que as pessoas digam ou deixem de dizer? Será o resultado do mero reforço das nossas tendências e preconceitos ou do respeito pela tradição? Geralmente diz-se possuidor de carácter o homem que detém uma personalidade forte e se faz respeitar. Mas quando imitamos e vivemos em constante sobressalto, poderemos ter inteligência ou carácter? Quando imitamos ou observamos as normas da tradição ou seguimos ideais isso conduz à respeitabilidade mas não à compreensão.

O homem que possui ideais é uma pessoa respeitável; todavia ele nunca chegará a Deus e jamais conhecerá o significado do amor. Os ideais são uma forma de encobrir o seu temor, as suas imitações e solidão. Portanto, se não nos compreendermos a nós mesmos- a forma como pensamos, se vivemos a imitar ou a copiar, se possuímos temores ou se sentimos inveja, se corremos atrás de qualquer forma de poder- sem compreensão de tudo isso que opera através de nós, ou seja, que nos perpassa a mente, não poderemos ter inteligência. E só a inteligência cria o carácter e não a adulação de heróis, imagens ou ideais. A compreensão de nós próprios, do nosso extraordinariamente complicado "eu" constitui o início da inteligência- o que possibilita a eclosão do carácter.
Rajghat 1952

Pergunta- Aquele indivíduo que permanece impávido diante do perigo e dos desafios da vida, tais como a oposição dos seus pares com respeito ao curso de acção correcto, permanece constantemente com uma vontade resoluta e um carácter genuíno. O ensino publico reconhece a importância do desenvolvimento da vontade e do carácter que habitualmente são tidos em conta de ser a melhor investidura para embarcar na viagem da vida, porque a vontade assegura o sucesso e o carácter a sanção moral (por parte da sociedade). Que tem a dizer sobre o valor que a vontade e o carácter têm para o indivíduo?
Krishnamurti- A primeira parte da pergunta serve como questão de fundo à própria interrogação, que é: "O que tem a dizer com relação ao carácter e à vontade e sobre o seu real valor para o indivíduo?"

Do meu ponto de vista não possui nenhum valor. Mas isso não significa que devamos ser desprovidos de carácter ou de vontade; não raciocinem em termos de opostos.

O que quer dizer com vontade? A vontade é o resultado da resistência. Se não obtiverem a compreensão sobre determinada coisa sentirão necessidade de a conquistar. Porém, toda a conquista constitui uma forma de escravidão e como tal, resistência; dessa resistência provém o fortalecimento da vontade e a ideia de "devo" e "não devo". Mas a percepção, a compreensão liberta a mente e o coração da resistência e desta batalha constante entre dever e não- dever. E o mesmo aplica-se ao carácter. O carácter consiste somente no poder de resistir às muitas invasões que a sociedade exerce sobre nós. Quanto mais dotados de vontade sois tanto mais desenvolvida será a vossa consciência de si mesmos, o "eu"; porque o eu é o resultado do conflito e a vontade procede da resistência que cria consciência de si. Quando ocorre a resistência? Quando corremos atrás de aquisição e ganho, quando desejamos tornar-nos bem sucedidos, quando seguimos no encalço da virtude ou quando imitamos ou sentimos medo. Tudo isso pode parecer-lhes absurdo por se acharem presa do conflito da aquisição, de modo que dirão com toda a naturalidade: "O que poderá um homem destituído de vontade, conflito e resistência tornar-se?" – o que não significa não-resistência; não quer dizer ser destituído de vontade nem de propósito, deixar-se consumir de um lado para o outro. A vontade resulta de falsos valores; mas quando se usa de compreensão do que é verdadeiro, o conflito desaparece. E com ele o desenvolvimento da resistência a que chamamos vontade. Quando a vontade e o desenvolvimento do carácter se assemelham às lentes coloridas que impedem a claridade da luz não podem libertar o homem, conferindo-lhe compreensão. Pelo contrário, limitarão o homem. Porém, a mente flexível e desperta e é capaz de alcançar a compreensão- o que não significa a astúcia do juízo e da argúcia, tipo destrutivo bastante prevalecente- a mente flexível e adaptável, a mente que não possui limites nem posses- eu afirmo-lhes que para uma mente assim dotada não há resistência por que faz uso da compreensão e torna-se capacitada para perceber a falsidade da resistência, pois assemelha-se à água. Mas vocês pretendem moldar-se segundo determinado padrão, por não possuírem compreensão total. Eu afirmo que se satisfizerem determinado requisito ou agirem de modo total deixarão de buscar um padrão, pois pela verdadeira compreensão existe o movimento constante que representa a vida eterna.
Adyar 1934

Pergunta- A consciência de que fala deve significar o desnudar das várias facetas da personalidade. Esta busca de auto- conhecimento tem conduzido de um modo inevitável à destruição da personalidade e ao enfraquecimento de toda a iniciativa e ímpeto, que constituem as forças que conduzem a personalidade.
Krishnamurti- Serão os senhores indivíduos dotados de personalidade distinta? Será que a compreensão e o despertar da atenção- com todas as suas implicações- os privará da sua personalidade? Serão indivíduos ou um aglomerado de condições? (...)
Por possuírem uma pequena propriedade, nome, certas qualidades ou tendências serão indivíduos? Em que consiste a individualidade? É algo que deve ser completamente único. Porém, nós não somos únicos (nem possuímos singularidade). (...)
Como poderão deter personalidade quando, por todo o mundo, a cultura e a religião se baseiam na imitação e no copiar? (...)
Vós não tendes iniciativa. Limitam-se a seguir a personalidade forte de alguém que pensa ser um líder. Mas enquanto forem seguidores, seja do que for- qualquer autoridade ou livro- não terão criatividade.

Bombaim 1954

Pergunta- O que é a personalidade? Como poderemos desenvolvê-la?
Krishnamurti- Falam de construir a personalidade como se de construir uma casa se tratasse. O próprio desejo de construir a personalidade gera aprisionamento do "eu".

Falo de algo completamente distinto de construir a personalidade- o casaco, a gravata, calças, a conversação arguta, tudo isso. Estou a falar de uma coisa completamente diferente e não aperfeiçoamento pessoal; falo da cessação do "eu", o eu na qualidade de professor, de líder político ou religioso, o "eu" que diz: tenho de salvar o país", o eu que diz: "escutei a voz de Deus". É esse eu que tem de deixar completamente de existir para que o mundo possa viver.
Benares 1954

Pergunta- Qual será o verdadeiro processo de fortalecer o carácter?
Krishnamurti- Bom, certamente a posse de carácter significa a capacidade de resistir ao falso e realizar a verdade, porém, edificar o carácter é coisa difícil porque para a maioria aquilo que consta no livro ou é dito pelo professor, pelo pai, pelo governo etc. é mais importante do que descobrir o que nós pensamos por nós próprios.

Pensar por si próprio, descobrir o verdadeiro e manter a postura, sem permitir-se ser influenciado- qualquer que seja o grau de felicidade ou de infelicidade que a vida nos possa trazer- é isso o que edifica o carácter.

Digamos, por exemplo, que não acreditam na guerra- não porque algum reformador ou líder religioso o tenham declarado, mas por vós próprios. Vocês investigaram e debruçaram-se sobre essa questão, meditaram sobre isso e para vós toda a matança é errada, seja matar para comer ou por uma questão de ódio ou até matar pelo chamado sentimento de amor pela pátria. Se o sentirem com toda a intensidade e se mantiverem na sua postura, a despeito do que quer que seja- considerando que podem ser detidos ou baleados por a assumirem, como pode acontecer em certos países- nesse caso possuirão carácter. Porque nesse caso o carácter possuirá um sentido completamente distinto daquele que é fruto do cultivo por parte da sociedade.
This Matter of Culture

Se o carácter constituir uma mera defesa egotista contra a vida, então torna-se uma forma de limitação. (...)
Todo o indivíduo que procurar viver com abundância e realizar-se deve fazer uso da inteligência. E o carácter situa-se em oposição à inteligência. O carácter não passa de um simples impedimento e uma forma de limitação; com o seu desenvolvimento não pode haver realização.

Santiago do Chile 1935. (...)

O indivíduo religioso é aquele começa pela compreensão de si mesmo e não segue via nenhuma parcial, de acordo com a tradição ou qualquer livro.

Por certo é essencial que conheçamos a nós próprios, ser capaz de pensar com clareza e sem preconceitos, sem utilizar o subterfúgio e sem temor actuando desse modo sem medo- isso significa o carácter. O carácter não é para aquele que se limita a obedecer à lei- seja a lei da sociedade ou a própria- mas para todo o que é capaz de pensar com clareza e cujo pensar é produzido pelo auto- conhecimento.

O próprio processo de compreensão produz uma mudança, porque quando possuem compreensão sobre vós próprios possuem clareza de pensamento, e na posse dessa clareza possuem carácter.

O carácter não pode ser conseguido pelo levar ao cumprimento de um certo ideal para depois ater-se a isso; isso não passa de uma forma de obstinação. O carácter implica clareza, mas não poderão ter clareza enquanto não tiverem inteira consciência de si mesmos. E na compreensão de nós próprios, como já o dissemos, não pode haver aceitação nem justificação daquilo que formos, tampouco desculpas.
Poona 1958
Existe enorme pobreza espalhada pelo mundo, como na Ásia, e imensa riqueza, como neste país; existe crueldade, sofrimento e injustiça e todo um sentido de vida destituído de amor. Se percebermos tudo isso, que coisa faremos? Que tipo de abordagem autentica utilizaremos em face desses inumeráveis problemas? Por todo o mundo as religiões enfatizaram a necessidade de aperfeiçoamento pessoal e o cultivo da virtude, a aceitação da autoridade, a obediência a determinados dogmas e crenças, o despender de um enorme esforço para nos ajustarmos. Subsiste esse incitamento ao auto-aperfeiçoamento não só religiosamente como também social e politicamente - ser mais nobre, mais amável, ser menos violento e ter mais consideração. Mas a sociedade, com a ajuda da religião, produziu uma cultura de aperfeiçoamento pessoal no sentido mais amplo da palavra. Isso é o que cada um de nós está o tempo todo a procurar fazer- procurar melhorar-nos pessoalmente, o que envolve o esforço, a disciplina, o ajustamento, a competição, a aceitação da autoridade e um certo sentido de autoridade, de segurança, de justificação e ambição. É claro que o aperfeiçoamento pessoal produz certos resultados óbvios; torna-nos mais susceptíveis aos aspectos sociais, mas possui tão só significado social, sem mais do que isso, porque o aperfeiçoamento pessoal não revela a realidade última. Penso que seja muito importante que compreendamos isso.

As religiões que possuímos não nos ajudam a compreender aquilo que é real, essencialmente por não se basearem no abandono do eu mas sim no seu aperfeiçoamento e refinamento- o que significa a sua continuidade sob diferentes modos. Somente aqueles poucos que rompem com o padrão social, não no aspecto dos adornos externos da sociedade mas das implicações de toda uma sociedade que se baseia na aquisição, na inveja, na comparação e na competição, o podem fazer.

Esta sociedade condiciona a mente a determinados padrões de pensamento, ao padrão de aperfeiçoamento pessoal, ajustamento pessoal e sacrifício pessoal, de modo que somente aqueles que sejam capazes de romper com todo esse condicionamento poderão descobrir aquilo que não é mensurável pela mente.

Assim, assistimos a esse condicionamento movido pela sociedade, condicionamento esse que assume a forma de aperfeiçoamento pessoal- o que constitui uma perpetuação do eu, sob diferentes formas. O aperfeiçoamento pessoal pode assumir uma forma grosseira ou bastante refinada- como quando se torna uma simples prática de virtude, de bondade ou do chamado amor pelo vizinho, porém, constitui essencialmente uma continuidade do eu- que é um produto das influências condicionantes da sociedade. Todo o vosso empenho foi focalizado para tornarem-se alguma coisa; quer aqui- se o conseguirem- ou em caso de não o conseguirem, no outro mundo. Porém, trata-se do mesmo tipo de desejo e o mesmo tipo de conduta a fim de manter e preservar o eu.
Ojai 1955

Existirão diferentes níveis de consciência e espiritualidade? Ou seja,. Serão uns mais espirituais do que outros? Entendem? Em questão de espiritualidade poderá existir medida? Onde existir medida não poderá existir espiritualidade e sim divisão- tanto na consciência como na chamada espiritualidade.
Ojai 1982

Vós ora sois seguidores ora líderes. Mas na espiritualidade autentica não existe distinção entre aluno e mestre; entre o indivíduo que possui conhecimento e aquele que não possui. Vós é que criais tal distinção por ser isso o que desejais- ser permanentemente distintos

O que é a espiritualidade? Digo que se trata de um viver harmonioso.
New Zealand 1934

A espiritualidade é, no final das contas, a consecução da inteligência.

Ojai 1934

As cerimónias não são uma coisa espiritual nem os dogmas, as crenças, nem a prática de um sistema qualquer de meditação. Tudo isso é resultado de uma mente que busca segurança. O estado de espiritualidade só pode ser objecto de experiência da mente que é destituída de motivos, uma mente que não busca mais, porque toda a busca se centra num motivo. A mente que é incapaz de pedir, incapaz de procurar, e não é absolutamente nada- somente uma mente assim poderá compreender aquilo que é intemporal.
Madras 1956

A verdadeira espiritualidade consiste em vivermos de modo harmonioso, com a mente e o coração em perfeita sintonia, através da compreensão; na compreensão existe alegria de viver.
New Zealand 1934

Para sermos entidades espirituais, nesse caso temos de conhecer o intemporal; desse modo deixará de existir para nós toda a continuidade. Porque aquilo que for espiritualidade, verdade, divindade está para além do tempo, pelo que não mais se tratará da continuidade que conhecemos em termos de amanhã ou futuro. Entendem?
Bombaim 1948

Com certeza que, para podermos ter beleza interior tem de haver um completo abandono de nós próprios; um ausência de sentido de preservação, de total ausência de restrições, nem defesa nem resistência. Porém, o abandono pessoal torna-se uma coisa caótica se for destituído de austeridade. Mas, saberemos nós o que significa ser austero, satisfazer-se com o pouco e não pensar em termos de "mais"?

Obviamente, a beleza inclui a beleza da forma. Porém, sem a beleza interior, a simples apreciação sensual da forma conduz à degradação e à desintegração. Só existe beleza interior quando sentimos amor autêntico pelas pessoas e por todas as coisas da terra; com tal amor sucede um tremendo sentido de consideração, observação e paciência.
This Matter of Culture

Na civilização moderna, a beleza cinge-se, aparentemente, ao que está à superfície da pele: ao modo como nos vestimos, como pintamos o rosto, como penteamos o cabelo ou caminhamos.(...)

É óbvio que as influências do meio possuem o seu lugar. Porém, quando enfatizamos o lado externo, deixamos de ter compreensão pela confusão interior, e dessa forma negámo-la, a beleza interior. Mas sem beleza interior, como haverá de suceder a sua expressão externa? Para cultivarmos a beleza interior temos, antes de mais, de ter consciência da confusão e da fealdade interior, porque a beleza não ocorre por si só.
Bombaim 1948

Podeis ter um rosto muito belo, um aspecto esmerado, ter modos delicados e vestir-vos com bom gosto; podeis ser bom pintor ou escrever sobre a beleza da paisagem; porém, sem este sentido interior de bondade, toda a pertença externa conduz a uma vida bastante superficial e sofisticada, uma vida sem muito significado.

É a beleza interior que confere todo o sentido de graça e delicadeza refinada à forma externa e ao movimento. Mas, em que consiste essa beleza interior, sem a qual a nossa vida se torna superficial? A vossa mente encontra-se demasiado ocupada e atarefada com o estudo, com a experiência, com a conversa, o riso e o gozo com os outros. Mas uma das funções da educação correcta consiste em auxiliá-los a descobrir o que é essa beleza interior. A profunda apreciação da beleza constitui uma parte essencial da vossa própria vida.
This Matter of Culture


A mente que busca segurança jamais poderá conhecer o amor. O abandono pessoal não é um estado de devoção a um ídolo nem à imagem mental que dele podemos ter. Aquilo de que estamos a falar difere tanto disso quanto a luz da escuridão. O abandono pessoal só pode sobrevir quando não o cultivamos, quando possuímos auto-conhecimento. Quando a mente tiver compreendido o significado do conhecimento, só nessa altura haverá auto-conhecimento; auto-conhecimento implica abandono pessoal. Teremos deixado de permanecer numa experiência como um centro a partir do qual observamos e avaliamos, julgamos; desse modo a mente já terá mergulhado no movimento de abandono pessoal.
Madras, 1959

A disciplina não tem fim; todavia só poderemos tornar-nos simples quando vivermos com austeridade- que não resulta da disciplina nem do abandono pessoal calculados. Tal austeridade constitui o abandono pessoal que somente o amor pode produzir. Quando não possuímos amor, criamos uma civilização em que se deixa perceber a beleza da forma destituída da vitalidade e da austeridade do simples abandono pessoal. Se houver emulação pessoal através de boas acções, ideais, crenças, então não haverá abandono do eu. Tais actividades aparentam ser livres de ego porém, na realidade, o eu continua a operar sob o manto dos vários rótulos.
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