Trajetos de uma cidade



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A VINGANÇA DA HISTÓRIA

Agora tudo se esclarece. Fortaleza, filha dos ventos, que em 1810 não tinha mais do que 1.200 habitantes, e sem nenhuma perspectiva de desenvolvimento, a partir dos anos sessenta do século XIX, não pára de crescer. As marcas de sua modernização e crescimento estão estampadas nas obras que foram construídas durante a fase áurea, que vai de 1860 a 1930, conforme assim mostrou a introdução deste trabalho. Mas, é o seu crescimento populacional que melhor expressa o progresso alcançado pela capital da “Terra de Iracema”. Com efeito, com uma população de 19.264 pessoas, em 1865, chega a 1872 com 42.458. Ao raiar dos primeiros anos do século XX, “Iracema” já tinha mais de 50 mil filhos espalhados pelas ruas de Fortaleza. Daí em diante não pararam de se multiplicar. Em 1910, eram 65.816. Vinte anos depois, 1930, somavam 126.666. Em 1940, eram 180.185, e 270.169, em 1950. Daí, para chegar à casa das mil milhares, não demorou muito. Em 1960, moravam em Fortaleza, 570.108 pessoas. Em 1972, passavam de um milhão. Em números exatos, eram 1.160.00218.


Todos filhos de Iracema? Decerto que não. Seu primeiro filho, ainda em panos de cueiro, deixou sua terra natal, para acompanhar o pai, Martim, na travessia de volta à pátria de além mar. Iracema fica para trás, descansando sob as cobertas dos campos da Porongaba19, às margens da Mecejana20. Que sina! O primeiro cearense já nasceu com “as malas prontas” para viajar. É o que acontece com todos os seus irmãos de sorte; onde quer que possam avistar sinais de esperança, para lá vão embora.
Predestinação, como assim pergunta Alencar em Iracema? Claro que não. A história de Fortaleza não é produto do desígnio da vontade de Deus. Muito embora nela não se acreditasse, como assim pensavam os viajantes cronistas que por aqui estiveram no começo do século XIX, ela inventou a sua história. Arrebatou da cidade de Aracati, sua maior rival, o comércio de exportação e o concentrou em seu porto. Fechou o comércio de exportação para Camocim-Sobral, outra região economicamente tão forte quanto a do vale do Jaguaribe. Fez, assim, toda a economia da província confluir para seu mercado, sobre trilhos de ferro, que saíam da capital e se estendiam pelo sertão afora, à cata de valores-de-troca, para encher seus portos de mercadorias e os seus cofres de impostos. Dona da economia provincial e a da república, que já se avizinhava, não demoraria muito, menos de 100 anos, Fortaleza se tornaria a 5ª maior cidade do país, com mais de um milhão de habitantes.
Tamanha façanha lhe cobraria um preço muito alto. Ao desmantelar as economias do vale do Jaguaribe, com suas ramificações em direção ao sul, e do norte da província, Fortaleza se tornaria o único centro capaz de oferecer as melhores oportunidades de negócios e de trabalho para quem desejasse crescer social e economicamente. Torna-se, assim, a vitrine da economia cearense, para onde todos se voltam. Daí o crescimento exponencial de sua população, como há pouco foi mostrado. Com efeito, de 1872 até 1980, as taxas geométricas de crescimento anual da população, calculadas nas datas censitárias deste período, estiveram e acima de 4%. A maior delas foi a de 1950-1960: 6,5%21. De tão elevadas, não há como compará-las com as taxas atuais.
Tamanha multidão só pode ter vindo de fora. Com efeito, como se explica que, num espaço de tempo tão curto, Fortaleza tenha crescido tanto? É pena que não se tenham estatísticas sobre o fluxo migratório antes dos anos vinte. Mesmo assim, uma coisa parece certa: a migração deve ter sido a principal causa de crescimento populacional nos primeiros anos do século XX. Com efeito, entre 1900 e 1920, o incremento da população de Fortaleza foi da ordem de 63%. Neste último ano, a “Terra de Iracema” abrigava 78,5 mil pessoas, contra 48,4 mil22, em 1900. Com certeza, grande parte desse incremento populacional se deve à imigração.
Essa tese é confirmada pelas estatísticas dos anos seguintes. Entre 1920 e 1940, Fortaleza ganhou mais de 100 mil novos moradores. Destes, 56,2 mil vieram de fora23; são filhos migrantes guiados pela esperança de encontrar na “Terra da Luz” melhores oportunidades de sobrevivência. Para cá vieram, para produzir riqueza, não para si, mas para os donos da cidade. A favelização da periferia de Fortaleza é a maior prova. Nos anos 60, um estudo sobre a população de favelados mostrou que, de um total 1.000 pessoas pesquisadas, 82,7% vinham do interior do Estado24.
Não precisa dizer mais muita coisa, para saber que a cidade de Fortaleza não foi construída para todos. Ainda nos tempos da Belle Époque, os donos da cidade de tudo faziam para se livrar da presença incômoda dos pobres rejeitados pelo progresso. Construíram lazaratos, asilos, abarrancamentos, penitenciárias ... tudo que pudesse manter a pobreza longe de suas casas e ruas, onde moravam. Mas nem todos eram malvistos. Eram bem-vindos aqueles que os ajudassem a se livrar da sujeira fecal da cidade. Como assim? Naqueles tempos de esplendor à moda francesa, a cidade ainda não tinha esgotos, nem calçamentos, com exceção de poucas ruas ao redor da Praça do Ferreira. Tornou-se costume de quase todas as residências encher de detritos fecais enormes barris de madeira e mandarem jogar o seu conteúdo nas proximidades da praia. Não faltava gente para executar esse malcheiroso trabalho de limpeza. Em troca de algumas poucas moedas, os desempregados e sem tetos passavam de casa em casa recolhendo os restos da digestão dos outros. Desciam rua abaixo, em direção ao mar, carregando na cabeça a fetidez da riqueza. Muitos tinham que se embriagar, para poder suportar aquele trabalho de merda25.
Trabalhadores da merda! Que coisa! Ficaram conhecidos da cidade pelo nome de carregadores de quimoas26, a marca do barril, exclusividade de fabricação de um tal Samuel Carão. Profissão engolida pelo tempo? Que nada! Os quimoeiros de ontem são, hoje, os catadores de lixo, que emendam o dia com a noite, puxando sua carga pelas ruas da cidade, tal qual burros de carroça. Que progresso! Coisas do capitalismo, deste sistema de merda, que não pára de destruir e recriar formas mais modernas e mais adequadas de exploração.


    1. OS DESVARIOS DA RAZÃO TÉCNICA

Havia também os carregadores de defuntos, os chamados “gatos-pingados”. Como seus irmãos de sorte, os quimoeiros, eram arregimentados das fileiras do lumpemproletariado, do contingente de miseráveis que não encontravam trabalho regular. Em troca de uma diária de mil réis e comida, os “gatos-pingados” ofereciam seus serviços às funerárias, para retirar das ruas da cidade os cadáveres vitimados pela “peste negra”, a varíola. Sebastião Ponte27 narra que, apenas num único dia, naquele fatídico 10 de dezembro de 1878, o cemitério do Lazareto recebeu 1.004 vítimas da epidemia. A fedentina era tanta, que só puxados a muito álcool, os “gatos-pingados” podiam suportar a malcheirosa carga que carregavam para despejar nas valas dos cemitérios28.


Tamanha calamidade não impedia a cidade de crescer e de se desenvolver. Veio a vacina contra a varíola. O desenvolvimento das ciências daria à cidade melhores condições para lutar contra as conseqüências indesejadas do progresso. A partir dos anos 30 do século XX, os gestores/interventores do poder público municipal, embalados pela ideologia do Estado Novo, abraçam o ideário da racionalidade técnica, eleita como instrumento de civilização e progresso. O planejamento da cidade passa a ser visto como prioritário para combater a pobreza e as doenças que infestavam Fortaleza de então. Para tanto, era preciso reorganizar a estrutura administrativa do poder público municipal, dando-lhe feições modernas. Em 1933, o Decreto-Lei 125 criava vários órgãos administrativos: Diretoria da Fazenda, Diretoria de Obras, Consultoria e Procuradoria Fiscal, Inspetoria de Higiene Alimentar, Matadouro, Inspetoria de Fiscalização e Inspetoria do Tráfego29.
A partir daí, a racionalidade técnico-administrativa passa a reger as políticas de gestão da cidade. As instituições de beneficência, de ajuda aos pobres, que dominaram o cenário da política administrativa de 1860 até os últimos anos da chamada Primeira República, ganham menos atenção nos planos de expansão da cidade. A construção de moradias populares, de vilas operárias, políticas de saúde e educação, passam a ocupar cada vez mais espaço na administração do poder público municipal. É a ideologia do trabalhismo, do Governo Vargas, em ação30.
Daí em diante, o planejamento técnico-administrativo ganha estatuto de cidadania. O saber técnico transforma-se em guia da vontade política. Durante o curto espaço de tempo, que vai de 1945 a 1964, os prefeitos eleitos continuam a embasar as suas decisões políticas em fundamentos técnicos. Governar era criar órgãos especializados no trato da questão social, preocupação básica da gestão de Acrísio Moreira Rocha (1948-1951). Nela, foram criadas as secretarias de Educação e Serviços Internos, da Fazenda, da Saúde e Assistência, de Urbanismo e Obras Públicas, de Serviços Urbanos e Abastecimento e a Procuradoria dos Feitos Municipais31. Assim, a Prefeitura moderniza seu sistema de tributação e arrecadação de impostos, ao mesmo tempo em que desenvolve um corpo de funcionários especialistas em administração, aprofundando cada vez mais a burocracia administrativa.
Com a ditadura, que se instala a partir de 64, o saber técnico, sob a proteção da força das baionetas, passa a administrar, soberanamente, os negócios públicos. O bom político é o bom administrador. É este perfil que orientará a escolha dos governantes municipais, nomeados pelo Estado todo poderoso. José Walter Barbosa, engenheiro, abra a lista dos prefeitos nomeados pelo Poder Central. Sua gestão ficou marcada pela construção do Conjunto Habitacional do Mondubim, a dezenas de léguas distantes do centro da cidade. Era a solução técnica que seu governo tirava da prancheta dos seus arquitetos e administradores, para combater a questão da falta de moradia. Mais do que uma solução técnica, ela era extremamente adequada aos propósitos da ditadura: afastar para o mais longe possível os trabalhadores, miseráveis e desempregados do centro da cidade. Solução de sempre, agora, revestida de bons propósitos. Pessoas aglutinadas, conversando, trocando idéias, não eram bem vistas pelo regime. Era preciso separá-las.
Depois desse genial feito arquitetônico, chegou a vez da Praça do Ferreira. No coração da cidade, perto de tudo e de todos, cheia de histórias, lugar de encontro de intelectuais, ponto de recreação de quem ali vinha apenas bater papo, a Praça cheirava à insatisfação, à indisciplina. Era preciso acabar com tudo isso. A razão técnica, mais uma vez, entra em ação. Demole a Praça e em seu lugar constrói um monstrengo de concreto, com blocos sobrepostos, uns sobre os outros. A Coluna da Hora é derrubada; o Banco, de costas para a farmácia Pasteur, onde outrora sentavam-se advogados, literatos, intelectuais, para discutir o destino da cidade, é arrancado. O que surgiu no lugar da antiga Praça não trazia mais nenhum vestígio do que ela fora no passado. Uma parte da memória da cidade foi, assim, apagada; tudo em nome do progresso e da ordem.
Com o fim do mandato do engenheiro José Walter, outro é nomeado para assumir o poder público municipal - Vicente Cavalcante Fialho. Homem acostumado a cavar e tapar buracos, transforma Fortaleza num grande canteiro de obras. É de sua gestão a construção da avenida Aguanambi e o acabamento final da avenida Leste-Oeste32. Ambas construídas com o claro objetivo de desafogar o caótico trânsito da cidade, que não parava de crescer. Com a cabeça protegida com capacete, onde quer que se avistasse um buraco, uma pá mecânica, lá estava o prefeito Fialho, fiscalizando de perto as obras de seu governo. Homem simples, conhecedor do ofício de engenharia, não parava de construir. Para os pobres e insatisfeitos com os rumos do progresso, deu-lhes de presente Centros Sociais Urbanos, cheios de “carpideiras sociais”, para confortá-los e ensinar-lhes a se conformar com a sorte que Deus lhes deu.
Nas gestões seguintes, de Evandro Ayres de Moura, Luís Gonzaga Nogueira Marques, Lúcio Alcântara, César Cals Neto e José Maria de Barros Pinho, último dos prefeitos nomeados, continua o trabalho de espichar Fortaleza, para cima e para todos os lados33. Os conjuntos habitacionais, sob o patrocínio do Banco Nacional de Habitação, invadem a periferia da cidade, levando cada vez mais para longe os pobres e desempregados, deixados para trás pela corrida desenfreada do progresso. Para os que não conseguiam lugar nas “colméias” dos Conjuntos habitacionais, as beiras dos rios e alagadiços os esperavam. Era o lugar das favelas, que hoje abrigam mais de 1/3 da população da cidade.
Com o fim da ditadura, chega a vez dos governos eleitos pelo povo. Pela frente uma enorme tarefa os esperava: incluir na cidade aqueles que foram deserdados pelo progresso. Mas, como fazê-lo? O déficit habitacional era enorme; os cofres públicos, penhorados; o clamor das reivindicações, abafadas por tanto tempo, ensurdecedor; as expectativas, trazidas com a democratização, reclamavam prontas soluções para os problemas do desemprego, da moradia, saneamento, entre outras questões urgentes.
É essa a situação com que se depara o primeiro eleito ao chegar ao Paço Municipal, Maria Luíza Fontenele. Sua administração não pôde fazer muita coisa. Ela foi marcada pela tentativa frustrada de fazer um governo popular. Tentativa que a enredou numa série de contradições e divergências, não só com os próprios movimentos populares, mas com amplos setores da classe média, que reclamava soluções urgentes para o lixo e os buracos da cidade. Resultado: termina seu governo com um enorme déficit de legitimidade.
A imagem, que Maria Luíza deixou, é a de que a esquerda não sabe governar; não tem preparo técnico nem experiência administrativa. Matéria-prima para os ideólogos do “projeto mudancista”, que souberam explorar a idéia de que a coisa pública deve ser administrada por quem deu provas de ser um bom administrador. Tasso Jereissati, que vinha das hostes do Centro Industrial do Ceará (CIC), à frente do Governo do Estado, se mostrava à sociedade como um político moderno e eficiente, homem de coragem e determinação, que saneou as finanças do Estado e recolocava a economia nos trilhos do crescimento. Tasso e seus áulicos precisavam de alguém à frente da Prefeitura. Encontram em Ciro Gomes o homem ideal, que se identificava com perfil de político dos “mudancistas”. Apóiam-no nas eleições de 1987. Eleito, com uma pequena margem de votos, Ciro chega ao poder, trazendo como vice-prefeito Juraci Magalhães. Este último o substituiria mais tarde, para que ele concorresse às eleições para governador. Juraci e seu grupo ficaram no poder até 2004, quando Luizianne Lins assume as rédeas do governo municipal.
São mais de vinte anos transcorridos desde o fim da ditadura. Que mudou de lá para cá? Os problemas de moradia, de desemprego, de saúde, violência, etc., que sempre acompanharam o desenvolvimento da cidade, agravaram-se? Num balanço socioeconômico da cidade de Fortaleza, diria que ela está em melhores condições do que se encontrava antes? Que dizem as estatísticas de crescimento da cidade? Ela andou para frente ou para trás?
Essas questões não são para ser respondidas agora. Elas são objeto de discussão da seção três, que traz como subtítulo Fortaleza Sitiada. Antes de lá chegar, uma pequena pausa para falar da vida dos filhos de Iracema, como eles sentiram, viveram e viram Fortaleza, que hoje carregam na memória; para falar de Fortaleza - Espaços de Saudades. Que têm a dizer os filhos de Iracema, que a viram ainda “descalça”, menina sapeca a correr sem parar pelas ruas do progresso, como assim registram as memórias de um Otacílio de Azevedo, de um Moreira Campos? A cidade pode voltar a ser o que foi, ou tudo passa? Que tem Fortaleza de ontem para ensinar a seus filhos de hoje? Ou será que tudo que foi, foi-se para sempre?

  1. FORTALEZA - ESPAÇOS DE SAUDADE


2.1. UMA VELHA CIDADE, UMA HISTÓRIA BREVE
Fortaleza começa a nascer lá pelos idos dos anos seiscentos, quando aqui chegou Pero Coelho, em 1603. Três anos depois vai embora, deixando na Barra do Ceará o “Fortim São Tiago”. Depois, em 1612, vem Soares Moreno, que ergue, sobre as ruínas da pequena fortaleza construída por seu antecessor, o Forte de São Sebastião. No ano seguinte, deixa a Capitania para combater os franceses lá pelos lados do Maranhão. Algum tempo depois, em 1621, está de volta. Desta vez, para defender o pequeno lugarejo que, antes, havia reconstruído. Demora dez anos até que, em 1631, parte definitivamente para Pernambuco, a fim de lutar contra os holandeses. Deixa o Forte aos cuidados de uma pequena guarnição que, em 1637, sucumbe ao cerco das tropas holandesas, que seriam, mais tarde, dizimadas pelos indígenas. Mesmo assim, os flamengos não desistiram. Em 1649, Mathias Beck chegava à enseada do Mucuripe. Às margens do riacho Pajeú construiu um novo forte. Com a sua expulsão em 1654, os portugueses reconstruiriam o forte flamengo e, ao seu redor, edificariam um pequeno povoado, com alguns edifícios, entre os quais uma capela em homenagem a Nossa Senhora da Assunção. Estavam, assim, lançadas as bases de fundação da futura vila de Fortaleza.
De lá para cá, já são quatro séculos. Muito tempo, para a história de uma cidade que aconteceu num período muito breve e extremamente agitado. Com efeito, durante as primeiras décadas do século XIX, Fortaleza não passava de um acanhado povoado, com pouca expressividade política, social e econômica. De tão pobre e inexpressiva que era, parece que não teve infância, nem juventude. Engatinhou, até se pôr de pé, a partir de meados daquele século, quando assume a hegemonia econômica e política da província. Daí em diante, correu sem parar. Em pouco mais de 30 anos, 1860-1900, encheu-se de gente, de prédios, de ruas, de monumentos e de praças. Sem passado para ser destruído, a velocidade das transformações foi tanta que, talvez, nenhuma memória viva teria sido capaz de distinguir a Fortaleza nova daquela que fora há pouco tempo, quando não passava de um pequeno vilarejo.
No século seguinte, a fome voraz do progresso não deixa Fortaleza descansar. Em pouco tempo, vinte anos, a “Terra de Iracema” já abrigava quase 80 mil pessoas; o dobro do que tinha em 1900 - pouco mais de 40 mil. Crescimento espetacular! Sem dúvida. Daí em diante, a cidade não parou de crescer. Em 1906, seu comércio com o mercado internacional exige portos mais modernos. Surge a ponte metálica que, pouco tempo depois, cairia em desuso; em obsolescência forçada, pelo crescimento do fluxo de mercadorias e de gente. O Mercado de Ferro, construído ainda no século passado, também não resistiria à pressão do progresso. É destruído em 1938. O jardim e o coreto da Praça do Ferreira não tinham muita utilidade; foram demolidos. Mais útil seria a coluna da hora, construída para lembrar a todos que o tempo tem pressa; não pode parar. E não pára mesmo. Em nome do progresso, muitos bangalôs e palacetes foram destruídos. O palacete Plácido de Carvalho, uma das residências mais monumentais do Brasil, adquirido pelo grupo empresarial Romcy, foi derrubado nos anos 70, para a construção de um supermercado34. O Estoril, residência de empresário cearense, construída em 1925, só não foi destruída, talvez, porque seu proprietário a alugou para dois comerciantes portugueses, que a transformaram num restaurante. Lagoas são aterradas, para dar lugar à edificação de condomínios e avenidas. Bairros inteiros mudam de lugar, e se espraiam em direção à periferia da cidade. Outros nascem calçados pelo dinheiro fácil do BNH. Novas ruas são abertas; outras, destruídas para dar lugar à construção de viadutos e de pistas mais largas, para permitir o escoamento mais rápido do tráfego de veículos. A velocidade com que se transforma a cidade era tão rápida que deixava qualquer pessoa, que tentasse acompanhá-la, tonta, perdida. Com efeito, nas quatro últimas décadas do século XX, quem saísse da cidade por dez anos, por exemplo, quando voltasse encontraria uma nova Fortaleza.
Mas, por que a paisagem arquitetônica de Fortaleza muda tanto? Por que seu acervo cultural, comparado com o de outras cidades, é tão pobre?
Diferentemente de Olinda, Salvador, Ouro Preto, e até mesmo de algumas cidades do interior, como Aracati, por exemplo, a paisagem de Fortaleza não contou com prédios e monumentos arquitetônicos à moda do barroco colonial, dos séculos XVII e XVIII. Nem poderia. Seu crescimento se inicia muito tardiamente, quando o barroco já tinha sido aposentado pela arquitetura moderna. O estilo estético que adota é o da art nouveau, ligado à segunda Revolução Industrial, que tinha o ferro e o vidro, com estruturas pré-moldadas, como principais elementos de construção. Prédios, teatros, praças, jardins, tudo era construído de acordo com a nova estética em voga.
Quando o Brasil desperta para a necessidade de preservar o seu acervo histórico, elege o barroco como o único estilo a ser protegido pelo Estado. Fortaleza é, assim, excluída da política de preservação do patrimônio histórico e cultural das cidades. Daí uma das razões por que sua paisagem arquitetônica sofreu e ainda sofre tanta desfiguração35. A Praça do Ferreira é um bom exemplo. Em pouco mais de 50 anos, sua estética foi remodelada três vezes. A primeira, em 1933, com Raimundo Girão; a segunda, em 1968, na administração de José Walter e a terceira, em 1991, quando Juraci Magalhães, então prefeito da cidade, tenta recuperar a antiga estética da Praça.
Mas essa não é a única razão da pobreza arquitetônica de Fortaleza. Não foi apenas a falta de uma política de preservação cultural que explica por que ela não tem nada de muito especial em arquitetura36. A razão maior se deve à ideologia que animou o seu desenvolvimento. Diferentemente de outras cidades, com longo passado colonial, Fortaleza começa a crescer quando o capitalismo já se fazia dominante e se espraiava avassaladoramente por todo o globo. Tudo que encontrava pela frente, quando não destruído, era transformado, para se adequar às novas exigências da razão-capital. Não por menos, Marx caracteriza a modernidade como a emergência de uma forma de vida em que “tudo o que era sólido e estável se desmancha no ar”.
É sob essa atmosfera que Fortaleza, num breve espaço de tempo, que tem como marco os anos sessenta do século XIX, se despe de sua timidez mórbida de lugar acanhado e sem nenhuma expressividade econômico-social, para se transformar, cem anos depois, na 5ª maior cidade do país37. Embriagada com a promessa da razão iluminista de que o progresso libertaria o homem da escassez, da necessidade e da arbitrariedade das forças da natureza, Fortaleza nunca mais parou de correr. Nessa trajetória desenfreada, tudo o que lhe cheira a novidade dá-lhe ânimo para construir um prédio, uma nova ponte, mudar o traçado de uma rua, derrubar o que não parece mais útil e moderno. Parece que a cidade foi construída para ser permanentemente mudada. O que ontem estava ali, amanhã já não mais pode ser visto. Outra coisa toma seu lugar. Mesmo assim, algumas coisas escaparam da fome voraz do progresso. O rio Cocó sobrevive como área de preservação, ainda que na condição de jardim de um grande Shopping. A antiga Cadeia Pública foi transformada num Centro de Turismo, onde os visitantes podem encher suas mochilas de souvenir com “coisas da cidade”. Ah, não se pode esquecer de incluir, no rol do patrimônio tombado pelo poder público, o Teatro José de Alencar, a Escola Normal, sede atual do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Cine São Luis, a Estação Ferroviária, a Praça dos Leões, o Prédio da Secretaria da Fazenda, o Palácio da Luz onde hoje funciona a sede da Academia Cearense de Letras, o Solar Fernandes Vieira, atual sede do Arquivo Público e o Palacete Ceará, que abriga a agência da Caixa Econômica38.


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