Transferência erótica: Sonho ou delírio?1



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Transferência erótica:

Sonho ou delírio?1

Franco De Masi

Não é raro que durante a terapia aconteça a transferência erótica e ela representa um intrincado nó clinico, cheio de problemas difíceis de serem compreendidos e de serem colocados na justa perspectiva evolutiva.

Não é simples distinguir entre os estados mentais que emergem durante a transferência erótica e também não é fácil circunscrevê-los em relação a outros fenômenos analíticos; a transferência erótica, mais do que um fato clínico isolado, parece ser uma espécie de território de fronteira, interposto e contíguo a muitas experiências clinicas: de fato, remete ao narcisismo, às perversões da relação, à falsificação ou à fusão com o objeto. Comparece também em múltiplas síndromes psicopatológicas, na neurose (especialmente na histeria), na depressão, nas condições borderline ou também nas psicoses.


O tema da transferência erótica é muito antigo e coincide com as origens da psicanálise. De fato, se nos referirmos à história da psicanálise como foi construída pelos analistas (Jones, 1953, 1955, 1957), sabemos que o motivo principal da ruptura entre Freud e Breuer foi o fato de que Breuer não agüentou a transferência erótica de Ana O.

Segundo Sulloway (1979) esta versão é o resultado de uma versão mitizada dos fatos, não somente porque foi Ana O que interrompeu a terapia, mas também porque foi documentado que a filha de Breuer, que teria sido fruto da fuga deste com a mulher, nasceu antes que a transferência amorosa da paciente se manifestasse.

Esta versão da historia apresenta uma origem paradoxal da psicanálise: a transferência erótica teria eliminado um dos seus dois primeiros pioneiros.

Uma indicação parcial sobre o significado da transferência erótica veio de Freud que o tratou de forma orgânica no texto: “Observações sobre o amor transferencial”, de 1915.

Ele destaca o fato de que um médico que vive este acontecimento “tem dificuldade em conter a situação e a se subtrair à impressão errada que o tratamento tenha efetivamente chegado ao fim”.

Acrescenta que “o amor de transferência constitui a expressão peculiar da resistência” e especialmente que “a paciente tenta desprezar a autoridade do médico colocando-o no nível de amante”.

Em outras palavras, Freud exprime muito claramente o conceito que a transferência amorosa constitui uma tentativa por parte do paciente de se subtrair ao que sucessivamente será visto como transferência dependente infantil (“quebrar a autoridade do médico”).

Este fato analítico não constitui, porém, somente expressão da resistência, mas é potencialmente rico de desenvolvimento: “É necessário – diz – deixar persistir na doente a necessidade e os desejos como forças propulsoras à mudança, evitando silenciá-las com sub-rogados”, sugerindo, por exemplo, de colocar de lado as ofertas amorosas ou, ao contrario, aceitá-las ainda que só platonicamente.

A única coisa clara é que o analista tem de evitar de acabar como o padre, que, na famosa anedota, corre para a cabeceira da cama do corretor de seguros com o objetivo de convertê-lo: ao contrario, sai com uma apólice, enquanto que o corretor de seguros permanece fiel às suas convicções.

Para Freud, portanto, é importante manter viva a transferência erótica com o objetivo de revelar suas raízes infantis. Aconselha tratar o amor como algo de “irreal”: o que não é fácil, acrescenta, quando se trata de certas mulheres “sensíveis somente à lógica da sopa”, que “não admitem alternativas”, “com elas ou se corresponde ao amor ou se atrai a hostilidade da mulher desiludida...”.

Obrigado a oscilar entre Cila e Caribdis, entre gratificação e frustração, o analista deve se segurar fortemente na própria capacidade analítica para não ser seduzido pelas sereias da paciente (Hill, 1994).

Irreal” é para Freud o fato que este enamoramento repita, de forma quase estereotipada, a experiência do passado e da infância da paciente: o amor não seria, em última análise, destinado ao analista. Mas, ele se pergunta, qual é o amor que, no momento em que somos atingidos, não repete o passado?

Concluindo seu texto, Freud acaba por se perguntar se de fato o amor pelo analista pode ser considerado “irreal” e, respeitoso do aspecto extraordinário desse fato analítico, suspende nesse ponto a investigação.
Freud oscila entre duas polaridades: a transferência amorosa é uma defesa da ralação de dependência ou então é uma real relação analítica?

A erotização é uma compulsão a repetir o passado, uma defesa contra o novo, ou ao contrario uma nova e potente ligação analítica (“força propulsora da mudança”), um impulso, portanto, em direção ao novo?

Que essa seja uma nova e real relação encontra confirmação no fato de que, se procuramos, através das interpretações, conduzir de novo o/a paciente ao passado, obtemos somente o efeito de feri-lo/a quando, após ter se defendido por longo tempo de experiências afetivas, dirige-se agora a nós de forma impetuosa .
Blum (1973) descreveu as diferentes configurações com as quais pode se apresentar a transferência erótica. Das formas mais leves, com aspectos positivos e afetivos, até casos extremos, que ele chama de transferências erotizadas (erotized transference), acompanhadas por explícitas ofertas sexuais.

Blum não está de acordo com Rapaport (1959) sobre o fato que a transferência erótica represente sempre uma falta do teste de realidade ou uma perturbação do Ego típica dos pacientes borderline ou psicóticos. A evolução terapêutica depende da capacidade de desenvolvimento do paciente e não da sintomatologia manifesta.

Uma outra contribuição importante ao tema foi dada por Schafer (1977) que investigou o caráter real e irreal da transferência amorosa. Ele pensa que o amor de transferência equivale a uma espécie de estado transicional, real e irreal, progressivo e regressivo ao mesmo tempo, uma tentativa de coordenar a fantasia e a realidade e, em especial, uma velha organização com uma nova possível. Ele destaca que existem múltiplas realidades e significados que operam em toda transferência e isso acontece em especial na transferência erótica.

Eu mesmo (1988), examinando a natureza do “amor” e da “sexualidade” da transferência amorosa, destaquei a falta de continuidade entre idealização, erotização e sexualidade que caracterizam diferentes modalidades de transferência erótica com êxitos clínicos opostos

Bolognini (1994) distingue quatro tipos de transferência erótica: erotizada, erótica, amorosa e afetiva. O primeiro tipo se acompanha a um funcionamento de tipo psicótico, o segundo de tipo neurótico. As transferências amorosas e afetivas representam formas clínicas próximas de um desenvolvimento sadio, diferenciando-se entre elas em base ao nível de maturação do complexo de Édipo.

Levando em conta essas importantes contribuições, durante minha exposição tentarei compreender o significado da transferência erótica nos diferentes estados de mente dos pacientes, considerando especialmente a presença ou não da componente propriamente sexual e sua natureza. Desenvolverei também algumas considerações a respeito do caráter “irreal” da transferência erótica que oscila entre o “sonho” de amor e um verdadeiro delírio de caráter psicótico.


Idealização na transferência amorosa

Apresento em primeiro lugar um paciente, que chamo Aldo, do qual traço um breve resumo, para depois voltar ao ponto que nos interessa.


Aldo é um jovem de 21 anos que faz uso de drogas leves para combater o estado de angustia, que se agudizou após o rompimento de uma ligação sentimental.

O estado de break-down parece ligado à queda de defesas narcisícas, que o mantiveram durante a sua prima juventude, queda que agora o deixa com a sensação de estar em pedaços.

No primeiro período analítico o paciente tem uma grande desconfiança em relação a mim: está inseguro, confuso e pergunta com quais meios psicológicos eu tentarei obter poder sobre ele para mudá-lo. Suspeita que eu modifique meu comportamento para influenciar suas emoções: por exemplo, se sou gentil é para induzi-lo a sentir afeto; se não falo é para deixá-lo irritado, etc.

É evidente que o paciente pensa em mim como um indivíduo com uma falsa personalidade que modifica as próprias emoções com objetivo de seduzir ou exercitar poder sobre o outro.

Por sua vez, o paciente opera transformações, e não somente psicológicas, com o objetivo de obter consideração e sucesso: por exemplo, submete-se a uma intervenção de cirurgia plástica no nariz para melhorar o próprio aspecto.

O ser levado a contínuas manifestações narcísicas parece ditado por uma “voz” que o domina e o tortura. Se ele não obedece a esta voz e não opera transformações, físicas ou psicológicas, sobre si mesmo, a voz insinua que ele é responsável por todos os seus insucessos e que, afastando-se de qualquer relação humana, fica satisfeito com seu estado de isolamento, como um jovem Werther.

Naturalmente, nenhuma mudança é suficiente: a voz torna-se cada vez mais arrogante e pretende que ele se torne “por dentro, sábio como Sócrates, por fora, belo com Apolo”. Quando Aldo é capturado por este Superego sedutor ou agressivo, aparece como um trágico exemplo da ambigüidade torturante do narcisismo.

Depois de um período de difícil trabalho analítico, parte da sua personalidade se torna mais livre e ele consegue sentir mais as próprias emoções como pertencentes a ele mesmo. É este o momento do desenvolvimento, na relação comigo, de uma ligação positiva, que se exprime agora como um amor particularmente impetuoso e idealizado.

Os sonhos deste período apresentam belíssimas florestas tropicais, plantas com cores brilhantes, vitais e agressivas e animais primitivos (os mamutes); plantas e animais, porém, desaparecem repentina e misteriosamente, como que engolidos no nada.
Se seguirmos os sonhos do paciente, está implícito que esta ligação ideal-infantil não poderá ter outro destino a não ser aquele das plantas e dos animais primitivos, que foram eliminados ao longo da evolução e foram perdidos para memória do homem.

Visto que as associações e o material remetem à personificação da beleza da natureza, parece que o paciente consegue viver o estado de atração e ligação ao objeto somente através de uma passionalidade idealizante, que o leva em direção a objetos dotados de particular sensorialidade e beleza, mas que se revelam efêmeros e transitórios.


O tipo de transferência amorosa que estou descrevendo corresponde a um doloroso estado de exaltação emocional que mistura a perda do objeto e a possível união fusional com ele. Justamente porque este tipo de exigência total parece exprimir um retorno exasperado a necessidades originarias, podemos pensar que sejam mais vulneráveis a ela pacientes que tiveram interferências ao longo de suas primeiras experiências de dependência.

Essa mistura de ternura e nostalgia aparece com bastante frequência em alguns pacientes quando, em momentos difíceis, se mantêm ligados na análise, fantasiando a presença doce, ideal e contínua do analista.

Estes pacientes trazem para a análise um precário equilíbrio entre uma condição idealizada e um contínuo, subjacente, sentimento de catástrofe. Em todo caso, a dificuldade consiste em não liquidar as experiências idealizadas e, ao mesmo tempo, não fazer um conluio com as ilusões do paciente, ajudando-o em uma passagem difícil.

Parece difícil, quando se manifestam, considerar essas transferências como contendo uma capacidade potencial de desenvolvimento, que ao contrario se delineia em um segundo momento.



Portanto, ocorre de se perguntar se o pedido de fusão idealizada e sonhadora constitui uma passagem preliminar para chegar à capacidade de relação.
Ana é uma mulher de uns 40 anos, que buscou análise por causa de sofrimento depressivo que, mesmo estando presente desde a juventude, foi aumentando com os anos. Vive sozinha, concentrada sobre seu trabalho profissional, do qual não tira nenhum prazer, e não está interessada em relações de casal desde que se evaporaram as que estava tentando construir. Na primeira fase da análise, sonhos de pântanos e de lugares angustiantes dos quais tenta de sair parecem exprimir um desejo de emergir do isolamento no qual, de um tempo pra cá, acabou se confinando.

Por um longo período foi difícil reconhecer uma possível ligação emocional comigo. As minhas tentativas de evidenciar alguma turbulência emocional em vista das separações foram acolhidas com ceticismo ou com comentários irônicos.

Fiquei surpreso e confuso quando, após algumas sessões na qual havia me falado do fascínio da índia e da massagem ayurvédica, declarou estar apaixonada por mim. Estava implícita, na sua declaração, a idéia de uma próxima viajem que faríamos juntos. Na tentativa de colocar sua declaração amorosa em uma justa perspectiva, evidentemente deixei transparecer algum embaraço, visto que a paciente, na sessão seguinte, não retomou mais o assunto, aliás me disse que, na noite anterior, tinha estado muito perto de ir para cama com um colega. Também nas sessões sucessivas comportou-se como se a declaração de amor nunca tivesse acontecido.

Convencido da importância de retomar a questão, após alguns meses tentei compreender, junto com ela, o porquê do silencio que se seguira à sua declaração. Ana disse que a minha hesitação em acolher sua proposta a tinha ferido e, portanto, ela havia cancelado qualquer sentimento a respeito. A sua atração em relação a mim era como um sonho que tinha se anulado pela minha resistência em participar dele. Conversando juntos, ficou claro que a transferência amorosa não tinha uma qualidade edípica mas, ao contrario, correspondia a uma aspiração de viver uma união dual com uma mãe no interior das belezas sensoriais da natureza. Provavelmente, tinha sido essa a carência infantil originaria que, durante a adolescência, a levara a ter uma relação privilegiada com o pai, até a compartilhar suas experiências a custo da própria identidade feminina. A medida que a análise de Ana progredia, tornou-se possível reconsiderar a experiência da transferência amorosa aprofundando seus vários aspectos.

Ana esclareceu que um elemento importante do sonho amoroso era o desejo de realizar uma união total comigo. Viajando juntos, ela poderia ver o mundo com meus olhos. Agora, ao contrario, se dava conta do quanto aspirasse alcançar uma identidade própria separada e fazer experiências em primeira pessoa. Ana não negava que sua declaração correspondia também à de uma mulher em busca de uma realização amorosa, mas intuía que a parte fusional havia sido dominante e interferira regressivamente em relação a uma possível experiência adulta. Se, como mulher adulta teria sido capaz de tolerar a frustração, a outra parte, a fusional, exigia uma imediata adesão e ela, ferida pela minha hesitação, havia se retirado.

Com a análise avançada a paciente disse que não poderia mais exprimir seu amor nos termos do passado. Agora sentia que gostava de mim, me estimava e estava grata pela experiência analítica que eu lhe proporcionava, mas tinha uma clara percepção das diferenças que nos separavam. Agora, não podia me considerar semelhante a ela, nem poderia compartilhar da mesma forma os fatos da vida. É como se a paciente tivesse adquirido agora, pela primeira vez, a percepção de uma diferença de gerações e podia me considerar uma figura genitorial, experiência que certamente não tinha vivido com o próprio pai com o qual tinha vivido uma relação privilegiante e confusiva.
Um aspecto particular da transferência amorosa desta paciente é que não havia nenhuma componente sexual. A paciente tinha certeza de não censurar fantasias eróticas a meu respeito: simplesmente não as tinha.

Esta mulher, na realidade, tinha tido experiências sexuais no passado que tinham sido sempre separadas de um investimento emocional. Examinando a seqüência – declaração amorosa e atuação sexual extra-analítica – ficou claro que atuação da sessão seguinte representava a saída defensiva em relação à declaração amorosa que a deixava desprotegida e por demais exposta. Porém, o sonho de amor vivido pela primeira vez em análise parecia uma primeira tentativa de alcançar um envolvimento emocional que até aquele momento lhe tinha faltado e parecia preliminar para um verdadeiro investimento passional sobre um objeto de amor.


Transformações da realidade

Se até agora considerei os elementos evolutivos presentes na transferência erótica, passo agora a examinar os aspectos defensivos e regressivos.

Quando prevalece o aspecto regressivo da transferência erótica, a relação idealizada desliza para algo que leva a uma alteração cada vez mais profunda do sentimento de realidade. Neste caso o/a paciente, subjugado/a por uma sensoralidade desviante, parece completamente impotente e incapaz de utilizar os aspectos realísticos e adultos da própria personalidade.

Emerge com toda força “a lógica da sopa” (Freud, 1914), isto é, a obstinação, a urgência e a raiva com a qual o/a paciente pede para ser satisfeito/a e a impotência que o analista sente em conter a situação analítica.

Para melhor ilustrar este ponto, farei referencia, simplificando-a muito, à análise de uma paciente, que vou chamar Bice, cujo aspecto determinante foi uma relação complexa com a mãe, um misto de recíproca excitação e intrusividade, que parecia remontar à primeiríssima infância, quando a paciente, recusando o seio, havia se dirigido à mamadeira.
Provavelmente para se defender, mas de fato recriando as mesmas dificuldades problemáticas das primitivas experiências de dependência, a paciente desenvolvia fantasias sobre a relação comigo, vivida como “um jardim luxurioso” do qual tomar posse e no qual se perder.

Este estado mental estático podia também parecer um desejo de se fundir, no contato, com o corpo da mãe, um pré-requisito para que a experiência de relação pudesse acontecer.

Na realidade, na contratransferência, a pressão para não pensar, exercitada através desta excitação intrusiva, fazia com que eu percebesse o quanto a paciente se afastava de qualquer real experiência de relação emocional.

Depois de anos de análise, Bice falou ainda de ser uma só comigo num jardim luxurioso. Dava-se conta que este vivência emocional perturbadora equivalia a algo “feito contra ela mesma”: um desejo de perder a própria identidade para chegar a um estado de completa gratificação e prazer. Nesta situação, conseguia esquecer si mesma, mas no final percebia um extenuante sentimento de vazio, de perda ou de dor física.

Agora reconhecia o quanto a sua idéia de sermos levados para longe, sem mais limites, nascia da ausência de um vínculo estável e positivo; agora percebia uma relação emocional comigo que tinha colocado um limite às grandes sensações místicas que a atraiam e assustavam ao mesmo tempo.
É claro que, com este tipo de transferência, a paciente quer chegar a um estado estático e por isso tenta alterar não somente a própria condição mental, mas também a do analista. Quer levar também o analista para o jardim do Éden: a condição que é procurada parece semelhante a uma alteração transitória da consciência, rica de falsas identificações recíprocas.

Um ponto importante é que o analista é considerado como um parceiro potencialmente excitável, que pode e deve compartilhar do mundo ilusório que a paciente projeta. Em casos como este, a sedução ou a tentativa de projetar a excitação no parceiro acontecem com uma continua pressão mas não conseguem provocar nenhum sentimento positivo no analista; ao contrario, induzem um tipo de emoção de conteúdo desagradável.

A força da projeção tem, de fato, o poder de produzir no analista os efeitos característicos de uma idéia delirante, se a idéia delirante é tal inclusive pela capacidade de monopolizar, atrair para si e dissolver qualquer outra idéia, fazendo-a a passar por falsa.

Sob a pressão da projeção do paciente e na atmosfera de irrealidade que se cria, o analista tem a percepção de que a análise não tem nenhum valor diante da “lógica da sopa” e precisa lutar contra a desagradável sensação de ter acreditado na própria capacidade analítica ou na existência da análise, que não é outra coisa se não uma ilusão da qual ele se nutriu.

A idéia que o analista tem que tolerar, sem sucumbir, é aquela de poder ser ele mesmo uma criança que acreditou, ilusoriamente, de ser adulto, de ter possuído, ilusoriamente, como dizia Freud, “a autoridade do médico”: em outras palavras, de ter adquirido a própria identidade adulta em base a uma mentira.

O analista é submetido pelo paciente à experiência enganosa da alucinação cujo poder se exercita na tentativa de minar o sentido de identidade analítica do analista (poderíamos dizer, anulando a justa separação e distancia da relação analítica).



Sexualização

O caráter da transferência erótica é multiforme e varia de situações em que o elemento afetivo está presente até casos em que se afirma cada vez mais uma sexualidade grosseira, com as características próprias da pornografia.

Vou extrair alguns elementos desta última condição, que podemos definir como sexualização maligna, de uma breve vinheta clínica dos primeiros dois anos de análise de uma paciente, que manteve na relação analítica uma transferência sexual particularmente prolongada.
Em um primeiro tempo da análise, a erotização da relação analítica foi proposta incessantemente como “fascinante e vital”; sucessivamente, inclusive com certa perplexidade por parte da paciente, tornou-se uma sexualidade agressiva e brutal, capaz de assustá-la nos sonhos e nas fantasias diurnas e, às vezes, de captura-la também na vida relacional.

Anoto aqui um sonho, que concluiu este primeiro período de análise e sublinhou o momento em que a paciente conseguiu se subtrair mais conscientemente a essa loucura sexualizada: “Em uma atmosfera de filme de ficção científica, ela procura casa com a filha. Um casal de amigos lhe indica uma; quando se aproxima percebe que se trata de um jazigo, um caixão envernizado de branco; a única possibilidade de morar aí é a de estar com um homem, acasalada sexualmente. A paciente decide não entrar, porque percebe que se entrar perderá a filha para sempre”.
Neste caso, estamos mais próximos de uma forma de sexualização que claramente está simbolizada como muito perigosa. No sonho, o objeto sexualizado, capaz de capturar o self da paciente, revela uma face inquietante. Torna-se mais claro como esta sexualização repetitiva e voraz corre o risco de englobar definitivamente a paciente, arrastando-a em direção a um estado mental mortífero irreversível.
Uma outra paciente, que procurou para a análise porque estava deprimida e com ataques de pânico, desenvolveu desde o início um vinculo amoroso dominador e sufocante em relação ao analista que teve muita dificuldade em manter a terapia com um setting adequado. Esta forma erotização certamente servia como defesa dos ataques de pânico (dessa forma, a paciente tinha oportunidade de manter um contato telefônico extra-analítico) mas em um sonho apareceu como um elemento perigoso por causa da sexualidade grosseira que a dominava. Sonhou que: “um louco a raptava aprisionando-a em uma casa próxima à do irmão e do primo do rapaz (com os quais tinham havido relações eróticas quando ela era relativamente pequena). Ela tentava discutir para se subtrair aos pedidos do louco, mas depois se dobrava sobre si mesma deixando fluir da boca saliva e esperma.”
Nestes dois últimos casos, há cada vez menos o elemento idealisante da defesa e, ao contrário, é potencializado um impulso sexualizado que sanciona um estado de resignado desespero (no último sonho, a paciente se dobra sobre si mesma).

Este perigo que se exprime com muita clareza nos sonhos testemunha a permanência no inconsciente de uma capacidade de “ver” e de simbolizar de forma útil a natureza perigosa da excitação sexualizada.



Uma realidade paralela
Alguns analistas que se ocuparam de transferência erótica (Rapaport, 1956; Gould, 1994; Person, 1985) tem justamente destacado que este estado mental implica em uma perda de contato com a realidade. Na transferência erótica (seja que a consideremos como uma repetição da relação com a mãe ou com o pai da infância) o analista perde o seu papel de ligação com o passado e torna-se o objeto real.

Gostaria agora de considerar este problema do ponto de vista da relação entre o retiro na fantasia e a realidade psíquica.


Viver em um retiro na fantasia parece ser uma condição que alguns pacientes apreciam mais do que a possibilidade de viver a realidade das relações humanas.

Uma minha analisanda, além dos sintomas graves que apresentava, especialmente um delírio obsessivo cheio de culpa e de pecados mortais por pensamentos ou intenções consideradas sacrílegas, cultivava com paixão a vida amorosa na fantasia, que representava uma verdadeira atividade paralela, para ela muito remuneradora.

Viver em um mundo de fantasia não a levou a desenvolver uma transferência erótica em relação a mim (pelo menos pelo que pude entender), mas permaneceu ativo por um longo período na análise.

Ela buscava continuamente parceiros que pudesse incluir no seu mundo imaginativo.

Após um primeiro encontro com um homem agradável, interrompia os encontros. A lembrança do encontro entrava então na sua fantasia e o homem vivia com ela todas as possíveis experiências amorosas. Um novo encontro era buscado somente quando o fogo da imaginação ameaçava se apagar.
A existência desse mundo de fantasia explica a perda de realidade que acontece na transferência erótica. O retiro na fantasia se contrapõe e substitui a realidade psíquica. Trata-se de duas realidades que caminham por longo tempo sem nunca se encontrar2.

Quero agora apresentar um caso que vi recentemente com um colega em supervisão3.



A paciente, que tinha tido uma infância difícil, tinha se afastado precocemente de casa casando com alguém da sua idade. Este logo havia mostrado sua não disponibilidade para o vínculo matrimonial (havia se declarado homossexual), fato que representara uma crise na vida da paciente que tinha procurado a análise com sinais de grande sofrimento depressivo.

Enquanto a análise procedia aparentemente bem e a paciente se beneficiava, o analista tornava-se cada vez mais consciente de uma forte idealização em relação a ele. Frequentemente ele aparecia no sonho da paciente como um guia ou como um personagem disposto a trocas de intimidade afetiva. Além disso, a idealização do analista acontecia paralelamente com a desvalorização do companheiro daquele momento, pois a escolha da paciente recaia sempre sobre parceiros carentes no plano do caráter e facilmente desvalorizáveis.

O analista havia tentado várias vezes atrair a atenção da paciente sobre o aspecto sonhador da relação deles, mas suas intervenções não tinham tido nenhum efeito.

A transferência erótica se manifestou abertamente por volta do quarto ano, em um sonho ocorrido após uma troca de palavras no final de uma sessão. Enquanto a paciente estava prestes pagar as sessões do mês, o analista notou que, no envelope que continha o dinheiro, estava escrito seu nome sem o sobrenome.

Percebendo da sua expressão interrogativa, a paciente havia explicado que esta era a maneira de tornar anônima a identidade do terapeuta: fazia assim também na sua agenda no qual comparecia, ao lado do numero de telefone, somente o nome e não o sobrenome do analista.

Este tinha comentado que aquilo lhe parecia também uma forma de representar uma relação clandestina: a observação tinha sido feita intencionalmente para estimular a paciente a enfrentar o problema na sessão.

Na sessão seguinte, começou relatando um sonho: “Esta noite, eu e o senhor fizemos sexo pela primeira vez. Nunca ante havia sonhado que fazíamos sexo, no máximo o senhor me dava um beijo. O senhor era muito delicado e sensível e eu gostava muito disso. Tocava meus mamilos e eu tinha uma relação oral com o senhor. O que me chamava atenção era que o senhor sentia um prazer tão intenso que eu não sabia se era realmente verdadeiro ou se estava exagerando”.

A própria paciente relacionou o sonho à fala que aludia a uma possível relação clandestina. Disse que ser tocada nos mamilos lhe dá muito prazer e repetiu que, no sonho, o prazer do parceiro-analista era muito intenso, a ponto de fazê-la pensar que pudesse, em parte, ser exibido.

Comentou que agora conseguia falar dessas coisas com certa tranqüilidade, ao passo que antes não o teria feito.

Depois lembrou o inicio do sonho, que precedia a cena erótica: “Eu ia para a sua casa e o senhor era casado. Havia pessoas, entre as quais também sua esposa... Eu estava tranqüila, mas notava que o seu olhar era um pouco particular, como se estivesse piscando para mim... Então a atmosfera mudava e acontecia esta coisa... Isto me surpreendia porque, mesmo não tido nenhuma experiência erótica comigo, parecia que o senhor sabia como me fazer sentir prazer e eu também ao senhor... Mas não se tratava de uma verdadeira relação sexual, era algo diferente...”.

Se o sonho erótico tinha sido em parte solicitado pela conversa que aconteceu no final da sessão do pagamento, o comentário do analista tinha servido para estimular esta realidade paralela que a paciente cultivava há muito tempo.

De fato, tinha sido suficiente uma rápida e alusiva troca de olhares para levar a paciente para a situação erótica.
Do meu ponto de vista, a importância do sonho está no fato de que as duas realidades, a edípica (representada na primeira parte do sonho quando aparece também a mulher do analista) e a erotizada fusional, estão ambas presentes. A paciente mostra como, no sonho, é possível passar com facilidade de uma para a outra.

Se olharmos melhor para situação erótica, como está descrita no sonho, temos que notar que a paciente goza em excitar o analista, mas este, por sua vez, exagera para exaltar a prestação da paciente e para excitá-la por sua vez.

Trabalhando sobre este aspecto do sonho, a paciente se deu conta de que não conseguia resistir ao fascínio de excitar o parceiro e que, por isso, acabava por escolher companheiros facilmente seduzíveis.

Acolhendo a interpretação do analista, a paciente reconheceu a sua tendência (que no sonho é projetada no analista) em fingir um prazer que, às vezes, não existia. Admitiu que também, na análise, sobrevoava demais sobre as coisas que, às vezes, não iam muito bem.

Em outras palavras, tornava-se cada vez mais claro que tocar os pontos sensíveis, permanecendo em uma relação de superfície, era uma especialidade da paciente que na sua vida nunca havia se permitido viver uma verdadeira relação de amor.

O amor não correspondia tanto ao desejo de estar em relação com um parceiro apreciado, e sim ao de poder viver, em fantasia, algo excitante. Por esse motivo tinha necessidade de encontrar homens plasmáveis.

Agora, na análise, era possível visualizar a dupla realidade na qual a paciente vivia: a da relação analítica, da qual a paciente se beneficiava (a realidade psíquica) e a da vida paralela de fantasia, secreta e altamente valorizada.

A vida de fantasia dissociada desde sempre acompanhara a paciente. Em suas lembranças infantis os seus dias de gloria eram aqueles em que o pai a convidava para cavalgar com ele. Mesmo sendo o pai um homem muito taciturno e bastante cruel (a paciente lembrava da sua frieza e crueldade, especialmente com os animais) naquele momento ela podia sonhar de ser a sua companheira privilegiada.

O simples fato de ser objeto de desejo, podendo estimular o prazer do pai, lhe parecia excitante.

No sonho, analista e paciente parecem ambos reciprocamente orientados a realizar esse objetivo.


A transferência delirante
Tentei até agora descrever algumas configurações da complexa constelação da transferência erótica.

O êxito mais desfavorável deste estado mental é sua transformação em uma transferência delirante.

Tive uma experiência desse tipo com a paciente Maria.4

No inicio da terapia essa paciente não era delirante, não tinha tido episódios psicóticos, nem apresentava nenhum sintoma evidente deste estado. Ela me contara que, no passado, havia se apaixonado de forma infeliz de alguns rapazes da sua idade (em uma ocasião, de um sacerdote) mas, erroneamente, eu não havia previsto que esta mesma situação teria reaparecido com força em um delírio em relação a mim.

Até então, na minha experiência analítica, um sonho, uma alusão tinham sido suficientes para intuir a tempo o que estava se preparando e me dando a possibilidade de intervir para recolocar a análise na justa direção. Mas nenhuma comunicação desse tipo tinha surgido na análise de Maria.

Ao contrário, ao longo da terapia, frequentemente tínhamos que fazer frente a uma ligação dolorosa que tornava as separações analíticas muito difíceis e traumáticas. Considerava Maria uma pessoa carente e deprimida, mas não sujeita a uma evolução psicótica como, ao contrario, se revelou a posteriori.

Depois dos primeiros meses de análise, teve um sonho que eu não consegui compreender se não alguns anos depois, quando apareceu a transferência erótica.

No sonho, a paciente, que estava em um grupo, decide pegar um elevador sozinha para subir ao alto, mas percebe que uma vez no alto não consegue mais manobrar os botões para sair e permanece aprisionada no elevador.
Naquele tempo eu estava muito distante de pensar, como depois fiz a posteriori, que no sonho poderia estar representada a ascensão em direção à psicose (o elevador, evidentemente, correspondia a descrição de um estado maníaco) da qual a paciente temia de não poder mais sair. Por muito tempo, a minha compreensão analítica havia sido de que a paciente sofria de uma forma de depressão melancólica, que aparecia evidente aos meus olhos pelo tipo de ligação agressiva e dolorosa que manifestava na transferência. Na sua historia havia uma infância e uma adolescência tumultuadas pela presença de uma mãe agressiva e violenta, ao passo que o pai havia morrido muito cedo. Pensava que essa experiência infantil tivesse tido um peso sobre a paciente, mas qualquer tentativa de coloca-la em contato com seu sofrimento infantil resultava inútil e não suscitava nenhuma resposta emocional.

A paciente desenvolveu com o tempo uma relação delirante comigo, que se tornou evidente no projeto de se casar comigo.

A sua intenção de se casar comigo não era um sonho (não tinha o aspecto emocional ou simbólico), mas um ponto firme perseguido concretamente e conscientemente. Dos “sonhos”, ao contrario, a paciente não falava, aliás calava ostensivamente: tratava-se de sonhos a olhos abertos com uma qualidade altamente ilusória. Maria estava decidida, de fato, a não me revelar estes “sonhos” para evitar que pudessem ser varridos, se confrontados com minha não disponibilidade em compartilhá-los. Evidentemente, Maria extraía desses “sonhos” um grande prazer narcísico: como tais deviam ser ocultados para a análise e para o analista e, portanto, não eram passiveis de transformação.

Em outras palavras, na transferência amorosa de Maria, o aspecto secreto e ilusório se mantinha como uma vida dissociada da realidade e frequentemente a realidade dissociada se impunha tornando-se delírio.

Visto a minha pretensão em considerar o seu enamoramento e a decisão de se casar comigo como um sintoma a ser analisado, a relação comigo tornou-se cada vez mais tumultuada. A paciente, exasperada, comunicou querer interromper a análise comigo e de fazer algumas entrevistas com uma analista mulher para começar uma nova terapia.

Depois de uma dessas entrevistas relatou um sonho no qual estava no jardim da colega, na qualidade de hóspede, em uma atmosfera maravilhosa e sem tempo; porém, tudo era interrompido por um guarda, que se dava o direito de fechar o portão e pôr fim ao entretenimento.
A partir do sonho ficou claro que a paciente me odiava pela minha tentativa de apagar seu desejo (que por outro lado ela habilmente escondia) e que estava reconstruindo na transferência lateral com a colega.

Mas o sonho revelou também que o jardim correspondia a uma experiência infantil da qual nunca havia me falado. Frequentemente a avó materna a levava consigo em uma vila no campo onde passavam meses juntas, as duas sozinhas, retiradas do mundo, sem que a paciente desejasse voltar para escola para rever seus companheiros. Creio que a sedução dessa avó, o fato de ter sido levada em uma atmosfera ideal e sem tempo (uma espécie de psicose a dois), criou as premissas para buscar uma condição especial comigo de caráter delirante.



Considerações finais
De forma esquemática, é possível fazer uma distinção entre transferência amorosa de tipo benigno e transferência erótica de caráter maligno.

Em seus aspectos idealizados ou narcísicos, as transferências amorosas benignas contêm elementos evolutivos ao passo que as segundas se configuram como bloqueios, ou mesmo evoluções irreversíveis, do processo analítico.

A minha hipótese é que as transferências amorosas benignas contêm experiências emocionais, adormecidas ou bloqueadas no passado, que o/a paciente não pode viver plenamente e que emergem novamente na análise na relação afetiva com o analista.

Este tipo de transferência, permeada de nostalgia e caracterizada por um forte colorido melancólico é, em parte, uma defesa ilusória que nega a distância e a separação. Com o tempo esta experiência pode entrar de forma mais estável no mundo interno e torna-se o protótipo de uma boa relação emocional.

Portanto, a transferência amorosa benigna exprime o encontro entre a disponibilidade do paciente para se abrir ao mundo emocional e a receptividade do objeto (o analista).

Trata-se de uma relação primitiva que se coloca em uma dimensão pré-edipica, que não pressupõe uma diferença de gênero sexual e pode estar presente seja na paciente quanto num paciente do sexo masculino. Exprime uma relação nostálgica com um objeto materno, que provavelmente esteve presente em uma primeira fase e que foi interrompida muito precocemente.

Esse é o caso do jovem paciente Aldo e da paciente Ana que, após um longo período de desconfiança e de afastamento emocional, desenvolveram uma transferência idealizada de tipo amoroso.

Naturalmente, a estas aberturas emocionais se seguem prolongados silêncios ou suspensões. O problema terapêutico é o de manter a experiência afetiva que tenta aparecer para mantê-la em uma dimensão de desenvolvimento. Um caso parecido foi descrito pelo colega Gould (1994) em um paciente do sexo masculino que desenvolveu uma transferência amorosa impetuosa em relação a ele. Após uma certa desorientação, o analista compreendeu as potencialidades contidas nas declarações amorosas do paciente e as tratou consequentemente. Isto produziu uma mudança importante e o assedio amoroso inicial transformou-se em uma ligação emocional profunda que foi útil ao progresso da análise.

Um destino completamente diferente têm as transferências com um intenso componente sexual em que “a lógica da sopa” prevalece.

Nestes casos, a declaração de amor do analisando não tem o caráter delicado e sonhador de que falei antes. Ao contrário, surge um pedido concreto com o caráter travolgente transbordante de tudo ou nada, em que o/a paciente utiliza todas as suas forças para convencer o analista de que a solução erótica é muito mais remuneradora que a própria análise.

O pedido imperioso do analisando/a interfere de forma pesada com o trabalho analítico e confronta o terapeuta com o inadequado dilema de se tornar o amante do/a paciente ou afastar com firmeza as avances.

O analista não é, nesse caso, um verdadeiro objeto de relação, mas um trâmite (por outro lado, passível de ser trocado com os múltiplos objetos da vida extra-analítica do paciente) que serve para acender o estado de mente sexualizado.

Do meu ponto de vista, a sexualização da relação analítica não contém elementos passíveis de desenvolvimento e requer uma abordagem diferente em relação à verdadeira transferência amorosa. Do meu ponto de vista, este tipo de transferência sexualizada deve ser tratada como uma estrutura patológica; o analista deve ajudar o paciente a se libertar de seu poder, esclarecendo-lhe a natureza deste estado mental, trabalhando em aliança com a sua parte sadia.
Algumas palavras ainda sobre a perda da realidade na transferência erótica.

Winnicott (1971) faz uma importante distinção entre os sonhos e realidade psíquica de um lado e o mundo do fantasiar de outro.

Afirma que o sonho está em contato com a realidade emocional: “O sonho penetra no mundo real na relação com os objetos, e o viver no mundo real penetra no mundo dos sonhos”. Ao contrário, “o fantasiar permanece um fenômeno isolado, que absorve energia, mas que não contribui ao sonho nem à vida real”. (p. 26)

Se os sonhos e as experiências da vida real tendem a serem recalcados, isto não acontece com as fantasias: “A condição inacessível das fantasias está ligada mais à dissociação do que ao recalcamento”5.

Em outras palavras, Winnicott convida a considerar a necessidade de distinguir o mundo da fantasia e da imaginação criativa do retiro na fantasia no qual alguns pacientes vivem.

A transferência erótica se coloca, do meu ponto de vista, no interior desses dois extremos: pode iniciar através das imaginações positivas necessárias para construir novas realidades compartilhadas ou então se alimentar das falsificações e distorções, isto é, da dissociação da realidade psíquica.

No primeiro caso, a transferência erótica exprime a capacidade de sonhar uma relação afetiva e por isso Freud valorizava seu aspecto transformador como “força propulsora para a mudança”. As transferências amorosas mais benignas, com muitos componentes nostálgicos, podem ser gradualmente transformadas tornando-se relações significativas que assinalam a abertura do paciente em direção à capacidade de desenvolver um mundo emocional em uma condição de separação.

Portanto, justamente porque este tipo de relação contém elementos de desenvolvimento seria inadequado ou contra-produtivo não aceitá-las ou analisá-las em termos de uma simples defesa da relação analítica.

Vice versa, a transferência erótica, que equivale a uma fuga da realidade psíquica e constitui um refugio no qual o/a paciente vive, pode insensivelmente se transformar em um verdadeiro delírio como no caso de Maria, descrito anteriormente.
Por este motivo, é possível entender porque a ação contratransferêncial erótica do analista torna-se, para além de qualquer consideração ética, catastrófica para o paciente. No caso da transferência erótica idealizada, o analista com seu desejo ocuparia e impediria o espaço potencial de desenvolvimento do paciente e impediria, portanto, a evolução analítica. Daí a importância das considerações de Freud de tratar como irreal o pedido do paciente, isto é, de considerá-lo como um espaço a ser deixado aberto para novas experiências emocionais.

No caso de uma transferência francamente sexualizada, o analista se encontraria na posição de quem regride ao mesmo nível do paciente e permite que sua parte patológica tenha o domínio sobre a parte potencialmente sadia, que é definitivamente derrotada.


Provavelmente, há uma correlação entre estrutura de base (depressiva, histérica, borderline ou psicótica) do paciente e da qualidade da transferência erótica. Mais grave é a estrutura patológica do paciente, mais a transferência terá carência de elementos evolutivos e mais radical e difícil será sua transformação.

Como podemos ver dos exemplos clínicos que eu trouxe, na transferência erótica podemos reencontrar todas as manifestações da sexualidade humana. Desde os aspectos sonhadores, íntimos e delicados da ternura erótica ao desejo passional que submerge até a excitação que torna a sexualidade um exercício compulsório a serviço de uma necessidade drogada.

Dentro desses múltiplos e variados aspectos, o analista deve saber se colocar para dar a resposta certa, distinguindo os elementos de desenvolvimento daqueles involutivos, para conduzir o paciente de forma estável no âmbito da relação emocional e do crescimento mental.
BIBLIOGRAFIA
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Sulloway, F. (1979) Freud: Biologist of the Mind. New York: Basic Books.



Winnicott D (1971). Dreaming, fantasying, and living: A case-history describing a primary dissociation. In: Playing and reality, p. 26–37. London: Tavistock.


1 Este artigo representa um desenvolvimento de um meu trabalho intitulado “Idealização e erotização na relação analítica” publicado em 1988 na Revista Italiana de Psicanálise. Alguns temas desse primeiro trabalho são retomados na primeira parte do presente texto.

2 Esta discrepância entre fantasia e realidade poderia explicar porque na transferência erótica o objeto de amor tem um caráter “impossível”, como assinalou Bolognini (1994) em seu trabalho.

3 O caso foi relatado pelo colega Claudio Nicoli.

4 Descrevi este caso no meu livro “Vulnerabilidade à psicose” (2006).

5 Em uma nota de ridapé, Winnicott (1971, p. 30) aponta que este estado de mente de onipotência deve ser distinguido da “experiência de onipotência” que assinala a passagem entre o “eu” e o “não eu”. Enquanto esta ultima experiência pertence à dependência, a primeira deriva da não esperança na dependência.

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