Trauma emocional e desenvolvimento psicopatológico Franco De Mais



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Trauma emocional e desenvolvimento psicopatológico

Franco De Mais
Em nossa pesquisa concluímos que os que chamamos fenômenos (sintomas) de uma neurose são conseqüências de certas experiências e impressões, que justamente por isso reconhecemos como traumas etiológicos”.

Sigmund Freud – Moisés e o monoteismo


Premissa
O termo psicopatologia frequentemente é considerado antiquado, discriminante e objetivante e talvez por isso raramente é utilizado na comunicação cientifica psicanalítica. Para mim e para outros, ao contrario, a psicopatologia é a componente básica que permeia e estrutura o processo analítico, condiciona relação e a transferência e assinala os momentos de impasse ou de transformação.

O meu ponto de vista é que existe uma tensão dialética constante entre a psicopatologia e o conjunto dos instrumentos que usamos para obter a mudança.

Uma das teses desse trabalho é que a psicopatologia do paciente, não importa em que nível se constitua ou de que entidade seja, deve ser considerada o elemento perturbador e enriquecedor de nosso trabalho cotidiano.

Em relação aos dois termos do título do trabalho, o meu pensamento é que um retorno ao estudo da psicopatologia e uma atenção especial ao seu desenvolvimento em relação ao trauma originário só podem ter um efeito estimulante sobre todo o conjunto dos conhecimentos analíticos e sobre nossos instrumentos transformadores.



A tragédia no passado
Em Análise terminável e interminável, Freud (1937) sugere que o tratamento analítico, mesmo quando concluído com sucesso, não tem condições de prevenir eventuais recaídas. Isto porque durante a análise não é possível fazer com que o paciente viva todas as experiências que irá enfrentar não longo da vida. Para evitar o retorno da doença seria necessária, justamente, uma análise interminável.

Como é possível, então, que o analista consiga fazer com que o paciente escape de seu inevitável destino?

Se durante o tratamento analítico oferecêssemos ao paciente somente conhecimento, acabaríamos por ter a mesma função do coro da tragédia grega. O coro conhece a historia, mas limita-se a registrar os acontecimentos e a comentar os fatos do protagonista, o qual, apesar de tudo, vai de encontro à própria tragédia.

O seu destino se realiza sem que o coro intervenha para modificá-lo.

Em O valor da reconstrução na psicanálise do adulto, Eric Brenman (2006) propõe uma outra versão do mito de Édipo. Ele faz a hipótese que talvez não tenham sido os sentimentos homicidas em relação ao pai e o desejo de casar com a mãe a determinar a tragédia. Talvez tenha sido justamente o trauma do abandono de ambos os pais a fazer crescer em Édipo sentimentos de revanche homicida.

Considerando o equipamento psíquico de que dispunha Édipo para enfrentar seu complexo edípico, seria difícil para qualquer analista considera-lo dotado de um ambiente ou de objetos suficientemente bons para enfrentar, no início da vida, os seus problemas.

Mas porque o trágico destino de Édipo havia se realizado?

Porque Laio, depois da resposta dos deuses, não havia confiado em nenhuma intervenção humana para a prevenção de seu homicídio, e assim havia se submetido aos desejos dos deuses: abandonando a criança ao seu destino, porém, tinha preparado também a sua morte.

Seja tendo em mente uma teoria traumática, seja escolhendo uma teoria intrapsíquica para compreender o sofrimento do analisando, temos convir que para todo paciente, que encontramos e do qual desejamos cuidar, a tragédia já aconteceu. O passado já criou as bases para que o antigo destino se repita e por este motivo nós, independente das boas teorias e da profunda experiência clinica, podemos sempre ser relegados ao papel de coro grego.

O trauma emocional
À medida que procedo em meu trabalho, me dou conta cada vez mais o quanto é importante considerar o conjunto das respostas emocionais, ausentes ou distorcidas, por parte dos objetos primários que interferiram com as potencialidades evolutivas da criança.

Nestes casos, as primeiras experiências emocionais destinadas a construir a percepção do self podem ir de encontro a situações traumáticas justamente no momento de seu desenvolvimento. Freud (1920) utiliza o termo trauma em sentido descritivo, imaginando a mente como fechada em uma espécie de pele protetora, uma barreira contra os estímulos excessivos, que pode ser perfurada e lacerada por uma ferida.

Para os recém-nascidos e as crianças pequenas esta função de filtro protetor é exercida pela mãe com base em sua capacidade espontânea de intuir o que a criança tem condições de suportar nos diferentes momentos e segundo seu desenvolvimento emocional.

Às vezes as figuras parentais não só não são capazes de assumir essa função de filtro protetor da mente infantil preconizada por Freud, mas podem se tornar elas mesmas a fonte do traumatismo.

Entendo por trauma emocional o conjunto das respostas distorcidas que são capazes de condicionar o desenvolvimento infantil em sentido psicopatológico.

Os homens não nascem com um aparato para perceber suas emoções mas possuem a potencialidade para desenvolvê-lo. Como nos ensinou Bion, para que este aparato se desenvolva é necessário que uma mãe dê respostas adequadas e confirme a preconcepção emocional da criança. Este ponto de vista coloca a conceitualização de trauma psíquico sob uma nova luz.

O meu ponto de vista apresenta analogias como o conceito de trauma cumulativo de Khan (1963), que implica na idéia da repetitividade e da dimensão temporal, mas quer sublinhar o efeito traumático das distorções precoces da comunicação emocional que acontecem entre a mente do genitor e a da criança.

A teoria do desenvolvimento psíquico, que valoriza a relação entre figuras primárias e recém-nascido, entre ambiente e criança, parte do pressuposto que para nascer e se desenvolver como indivíduo é necessário ter sido acolhido emocionalmente na mente de um adulto (originariamente a mente da mãe). Os processos de humanização nascem deste fato primitivo e impossível de ser eliminado1.

Sem a especifica experiência de ter sido compreendido não é possível introjetar esta mesma função que serve na comunicação emocional com o outro. Não se desenvolve, então, a mente humana.

A criança privada de acolhimento emocional pode desenvolver as capacidades cognitivas, mas permanece privado da possibilidade de vida relacional.

Como é possível ajudar analiticamente um paciente que, no curso de seu desenvolvimento, teve suas capacidades de desenvolvimento emocional comprometidas? Como podemos evitar que os mesmos acontecimentos se reproduzam na transferência criando impasses ao processo analítico? O conhecimento do passado, que o paciente adquire durante a análise, é suficiente por si só para desenvolver novas competências emocionais?

A hipótese que faço é que, quando tratamos pacientes neuróticos, a experiência do trauma emocional (uma conjunção constante) está presente no conhecimento inconsciente, e, portanto, acessível durante o tratamento analítico. Nos casos mais graves, como nas condições boderline, as difíceis experiências infantis comprometem a estrutura da personalidade e favorecem a construção de estruturas patológicas que apagam a lembrança da experiência traumática. Para chegar na experiência de sofrimento infantil é necessário um percurso mais complexo, porque o nexo entre psicopatologia e trauma é, nestes casos, muito mais escondido, intricado e indireto.


A importância da historia emocional
A reflexão que proponho implica no exame de problemas complexos e tão intricados a ponto de exigir um enorme esforço de simplificação.

A importância que damos ao trauma emocional, assim como tentei defini-lo nos parágrafos anteriores, e ao sucessivo desenvolvimento do sofrimento, tem conseqüências diretas sobre o modo como ouvimos o paciente e sobre a concepção que temos do processo terapêutico. O destaque dado à personalidade dos pais e ao impacto de suas reações emocionais sobre o desenvolvimento da criança varia muito de analista para analista.

É minha opinião que o trauma emocional não somente deixa “buracos” na personalidade, mas incide sobre sua estruturação provocando angústia e paradas de desenvolvimento, e criando estruturas ou objetos psicopatológicos que continuam funcionando como partes do self ou do objeto. Uma das funções da escuta analítica é distinguir, na perturbação do paciente, o que foi criado pelo trauma infantil e o que depende das estruturas psicopatológicas pelas quais está dominado. O entrelaçamento entre trauma emocional e desenvolvimento psicopatológico e a relação entre os dois permite, de fato, intuir o grau de complexidade do possível percurso terapêutico.

Desde a entrevista, costumo ouvir do paciente o relato da sua história e de seus problemas, mas, ao mesmo tempo, usar minha receptividade analítica para intuir quais objetos primários teve ou de que forma os pais foram capazes de desenvolver sua pessoa, ou, ao contrario, de inibi-la.

Em outras palavras, formulo perguntas que me permitem fazer hipóteses de quais teriam sido os elementos, externos ou internos, em condições de impedir ou distorcer seu desenvolvimento emocional. Especialmente, me pergunto sobre a capacidade dos pais de ajudar o paciente a enfrentar a vida e a desenvolver uma real identidade. Em outras palavras, me pergunto quais podem ter sido os elementos que interferiram com desenvolvimento potencial do paciente, onde pode ter acontecido o bloqueio e quais caminhos distorcidos percorreu.

Por exemplo, os pais favoreceram que o filho fizesse perguntas, acolhendo sua curiosidade e o uso da dúvida para conhecer a realidade, ou intervieram de forma autoritária, minando sua independência e sua capacidade de juízo pessoal?

Quais foram as relações com os irmãos ou possíveis adultos significativos?

Houve um período de retiro infantil que tornou a criança incapaz de enfrentar a realidade psíquica?

Quais podem ter sido as construções psicopatológicas que ela criou e que distorceram seu desenvolvimento?

Tento reconstruir intuitivamente o percurso emocional do paciente confrontando a sua lembrança consciente com seu estado presente de dificuldade. Da diferença entre o relato consciente e sua capacidade de reconhecimento posso desenvolver uma hipótese sobre o que o paciente não conhece de seu passado, sobre o caráter dos objetos originários e sobre seu próprio funcionamento mental. Em outras palavras, procuro intuir o âmbito emocional no qual será necessário trabalhar para produzir transformações úteis.

Como mencionei antes, em pacientes mais evoluídos (neuróticos) e capazes de representá-los, os traumas emocionais infantis são revelados pelos sonhos em que o analista aparece como o objeto traumático do passado. Estes sonhos, de aparente significado transferencial, descrevem muito bem a natureza das relações com o objeto traumático do passado.

Agora quero trazer alguns exemplos.


Reconhecimento inconsciente
Um paciente de 23 anos, em análise com uma analista mulher, por causa de um bloqueio total nos estudos, crises de pânico cada vez mais graves e dificuldade nas relações com os companheiros, nos primeiros meses de análise teve um sonho que permaneceu o único por muito tempo: “Tem que participar a um campeonato de esqui com uma sua ex-companheira de estudos, muito boa na escola. A companheira não aparece na partida e ele vence o campeonato. Depois do campeonato, ele vai até a companheira para lhe exprimir gratidão”.

Deste sonho poderíamos deduzir que o paciente, inconscientemente, sabia que parte de seus problemas e de suas dificuldades haviam sido causados pelas respostas hiperprotetoras de uma mãe amorosa (a companheira que ele mesmo admirava) que, porém, havia se substituído a ele privando-o do seu espaço pessoal. A mãe, separada do marido, tinha estado excessivamente presente (tinha considerado o paciente como um companheiro) e não havia permitido que se criasse, entre ela e o filho, uma separação na qual pudesse existir um crescimento psíquico diferenciado. No sonho está implícita também a comunicação do paciente à analista, para que esta mantenha a justa distância juntamente com uma presença ativa e discreta.

Outro exemplo clínico.

Eu não tinha conseguido entender muito dessa mulher de aproximadamente 30 anos. Nas entrevistas estava muito tensa, quase sem expressão, talvez tentasse entender quem eu era em vez de comunicar algo de si mesma.

A análise tinha começado com duas sessões por semana por problemas de tempo e econômicos, com o compromisso de aumentar o número de sessões tão logo fosse possível.

Não falamos mais disso, até que a paciente, depois das férias de Páscoa, me acusou de ter decidido e imposto para uma data sucessiva a passagem a três sessões. Visto que eu tinha certeza de nunca ter retomado o assunto com ela, me pareceu que a minha analisanda estivesse falando de uma outra pessoa e não de mim. Com algum esforço pensei que estivesse me trocando pelo seu pai, do qual eu tinha somente algumas vagas informações.

Daquele momento em diante, parte da análise foi dedicada à figura do pai e à sua relação com a paciente no presente e no passado, uma figura realmente prepotente que tinha se dado direito (e ainda se dava) de entrar na vida da filha sem levar em conta a sua personalidade.

O fato de revivermos juntos parte de sua infância contribuiu para libertar a nossa relação do nível de suspeita inicial. Mas foi necessário um esforço de imaginação de minha parte para intuir como a paciente criança pôde tratar com um pai assim, qual nível de submissão teve que alcançar para viver uma relação com ele e como teve que se refugiar no isolamento para se subtrair a ele.

Compreendi também que a paciente tivera que inibir seu desenvolvimento não podendo contar nem sobre a mãe, aderida ao pai de maneira conformista.

Devo dizer que esse esforço reconstrutivo, útil para promover o desenvolvimento emocional da paciente, caminhou paralelamente à consolidação da confiança na relação analítica. Só sucessivamente a análise pôde enfrentar alguns problemas específicos da paciente na relação comigo, como, por exemplo, sua resposta enfurecida toda vez que a sua competência ou a sua especificidade não eram reconhecidas. Ou então, a sua exigência de ser sempre gratificada (na realidade, nos primeiros anos de vida, a paciente foi entregue a uma avó da qual tinha sido o objeto privilegiado) ou de poder viver em um refúgio separado dos verdadeiros contatos humanos. A paciente parecia estar sempre em busca de gratificações, na falta das quais caía facilmente em uma relação de vítima (como havia acontecido comigo, na retomada das sessões após o intervalo de Páscoa).

Nestes dois exemplos clínicos é evidente que a resposta incongruente do objeto primário e a interação com a figura de um genitor que distorce o desenvolvimento (ainda operante na realidade psíquica interna do paciente) é reproduzido, desde as primeiras falas, no processo analítico e projetado na figura do analista.

É tarefa do analista transformar o papel que lhe é dado pelo paciente para se tornar um novo objeto potencial.

Quero sublinhar que a minha atitude analítica, no segundo caso, não se limitou à interpretação da transferência (“a senhora me percebe como sentia seu pai quando...”), mas adquiriu uma característica diferente, mais ativa. Além de interpretar a confusão (e a projeção) entre eu e o pai autoritário, me esforcei para transmitir à paciente a minha intuição sobre suas vivências emocionais, antes que ela tivesse condições de fazê-lo por conta própria.

Isto faz parte da minha posição ativa, é a minha contribuição pessoal ao desenvolvimento potencial de seu pensamento.

Gostaria de sublinhar que esta posição, que ajuda o paciente a distinguir entre o analista-objeto do passado e analista-que ajuda a compreender o passado, faz parte da técnica que eu utilizo assim que é possível. A interpretação da transferência é útil, nesse caso, para tentar separar a figura do analista, como novo objeto potencial, da experiência com os objetos interiorizados do passado.

Acentuo a importância de intuir e imaginar a história emocional do paciente antes ainda que ela se manifeste na transferência, que eventualmente confirma a posteriori a exatidão da nossa hipótese2.

Este esforço de imaginação, longe de ser um exercício de onisciência, caminha paralelamente à capacidade do analista de se identificar com o paciente, de reviver sua experiência infantil e de compreender profundamente em que ambiente afetivo e com quais recursos pessoais ou familiares teve que proceder em seu desenvolvimento.

Do meu ponto de vista, sem este processo não há nenhuma possibilidade de compreender realmente o paciente.

Se conhecermos a qualidade do trauma emocional causado pelos objetos originários, é possível intuir o caminho que o paciente deve percorrer na análise (existem problemas nucleares desse tipo, específicos para cada paciente) e fazer hipóteses sobre como irá se desenvolver a relação analítica, quais dificuldades poderão aparecer na análise (por exemplo, reações claustrofóbicas ou estados de perseguição superegóica) e, especialmente, qual deverá ser nossa postura mental (que análise deve ser pensada) para aquele tipo de paciente.

Por essa razão acolho com atenção e por longo tempo o relato do paciente (apontando omissões, lacunas ou também a incapacidade de reconstruir) antes de começar a análise.



Trauma emocional e construções psicopatológicas
É muito importante distinguir as condições psicológicas, originadas por uma intrusão que aconteceu quando a criança ainda não tem condições de se distinguir da mãe ou não tem capacidade de pensamente crítico, das estruturas psicopatológicas (perversas ou psicóticas) que podem ter se constituído na base de facilitações provenientes de um genitor patológico, mas que de qualquer forma pressupõem uma construção ativa por parte do paciente.

Um fato bastante freqüente no trabalho analítico é descobrir quanto os pais tenham fornecido respostas emocionais discordantes ou complacentes que não estruturaram a mente da criança.

O que salta em primeiro plano, nesses casos, não é o sofrimento traumático mas a dramática ausência de estruturação da mente do paciente.

Se a criança vive em um mundo sem respostas emocionais por parte dos pais, não terá aquelas representações que são fundamentais para a construção de seu senso de realidade. De fato, em alguns casos, não encontramos um verdadeiro acontecimento traumático, mas a ausência psíquica do genitor, ausência que favoreceu uma fuga agradável no mundo da imaginação ou no corpo, através de mecanismos masturbatórios.

Nestes casos, o sentido de identidade pessoal, que pressupõe a percepção do próprio estado emocional, é alterado desde início. A criança se retira em um mundo mágico-onipotente e, mesmo sendo capaz de realizar tarefas realísticas, está atraída ao mesmo tempo pelo mundo do imaginário, da realidade recém-criada que impede o desenvolvimento das competências emocionais.

Viver dentro de um retiro é uma das razões pelas quais um certo número de pacientes, mesmo tendo tido uma infância traumática, não têm absolutamente consciência do fato nem têm condições de reconhece-lo.

Se a condição comum que favorece alguns tipos de patologia é ausência mental dos pais, a sua indiferença pelo desenvolvimento emocional do pequeno, também é verdade que o paciente operou ativamente para ganhar uma distância da realidade psíquica e para se refugiar em um retiro patológico (megalomaníaco, fantástico ou sexualizado).

Neste retiro infantil começaram a ganhar forma as identificações patológicas com personagens grandiosos, vividos como provedores de prazer, e se concretizou o progressivo abandono do mundo das relações emocionais.

Segundo minha maneira de ver, dois fatores igualmente importantes, e que são destinados a se potencializar um com o outro, concorrem para favorecer um certo tipo de patologia psíquica. Existe uma ação sinérgica entre a falta de empatia que provém do ambiente e a construção, por parte da criança, de estruturas psicopatológicas que a fazem desviar do desenvolvimento normal.

Penso que um elemento útil, que favorece uma técnica terapêutica melhor, seja o de considerar a natureza dessas estruturas psicopatológicas, que são especificas para cada tipo de paciente. Essas estruturas se desenvolvem precocemente (por exemplo, sexualizações, retiros fantásticos, megalomania, como defesas estruturadas contra estados de esvaziamento e de não existência), estão ligadas ao caráter dos objetos primários e à sua interação com o paciente, e adquirem ao longo do tempo uma configuração estável e autônoma.



Dois casos clínicos
Falarei brevemente do problema do trauma sexual, esto é, do abuso infantil, para destacar a complexidade da relação entre trauma emocional e estrutura psicopatológica.

Na vasta literatura analítica (especialmente norte-americana) que reconsiderou, após um século de distância, as observações de Freud sobre a importância patogênica do trauma sexual precoce, todos estão de acordo em destacar as conseqüências psíquicas patogênicas da experiência traumática do abuso.

O caso mais freqüente é um pai ou um adulto que abusa da menina, mas é também freqüente o abuso de uma criança do sexo masculino. Dissociação emocional, cisão seletiva do acontecimento, inibição do desenvolvimento emocional, frigidez e assim por diante são as conseqüências descritas com mais frequência. Não é suficientemente destacada a outra vertente: a da presença do triunfo inconsciente e da atração por modalidades incestuosas no mundo interno de quem viveu o trauma e da importância das condições pré-existentes ao abuso.
Ana é uma mulher de 32 anos, com aspecto ainda de adolescente, com um corpo magro e firme ao mesmo tempo, fruto de várias atividades esportivas às quais se dedica constantemente.3 Toda essa atividade frenética, o uso do corpo no esporte e, como irá cada vez mais aparecer ao longo da análise, até na sexualidade se encaixam em um quadro defensivo de uma depressão subliminar.

Ana vive sozinha e certamente fugiu de uma família não protetora, deprimida e altamente conformista.

Passados alguns meses do inicio da análise, confessa ter tido, por volta dos 12 anos, continuas moléstias sexuais por parte do avô materno que a obrigava a relações orais e a repetidos contatos físicos.

Ana sempre se calou sobre tal violência, suspeitando desde sempre que também a irmã, mas especialmente a mãe, por sua vez haviam sido vítimas do abuso do avô e do pai.

Logo após a revelação na análise, quebrando o longo silencio familiar, interroga a mãe e a irmã obtendo a confirmação de suas suspeitas. Por parte dos familiares não haverá nenhuma reação e tudo voltará ao silêncio.

O significado da sexualidade adquire rapidamente o aspecto de fio condutor onipresente.

A sexualização da relação e a confusão que se segue, parece ser uma proposta de cura como neste sonho: “Estou em uma cidade estrangeira. Eu alcanço a senhora, analista, em um edifício que está como imerso na água, como se estivéssemos em Veneza. Eu a alcanço em uma sala e a senhora me propõe uma relação sexual. Eu estou confusa porque não sei se quero ou não isso, depois decido que não quero e digo tranquilamente não. O fato que me deixou perplexa é que água subia, subia e eu tinha que ir embora, triste. O quarto era escuro, nós falávamos sobre uma cama. Eu me dizia: “Geralmente estou disposta a fazer experiências também alargadas; esta eu cheguei a imaginá-la como possível, mas agora não é um desejo”.
Neste primeiro sonho, o “tratamento sexual” equivale para Ana a uma proposta de terapia e a intimidade analítica pode ser transformada na confusão sexualizada da infância.

A casa do sonho não é um lugar apropriado para acolhê-la (vaza água por todos os lados) e a analista, fria e distante, está na posição de uma pessoa adulta dominada por um desejo incestuoso.


Depois do primeiro ano de análise a paciente aos poucos ganha distância do estado mental sexualizado; também na vida externa os episódios de compulsão e promiscuidades sexuais diminuem.

Nos sonhos, a sexualidade compulsiva não aparece mais como cura excitante e benéfica, mas, ao contrario, parece ameaçar as boas relações internas e as experiências infantis.

Neste período, a atração pela confusão sexualizada frequentemente é simbolizada como fato perigoso, fonte de ansiedade.

Então, que relação existe entre a excitação sexualizada, que invadiu a vida infantil de Ana e que a condiciona na vida adulta, e o trauma infantil?

A sexualidade em Ana não foi inibida pelo abuso, mas parece ter adquirido ao longo do tempo uma vida própria, independente do trauma sexual infantil.

Foi o trauma que ativou a conquista sexual da mente da paciente ou o trauma se inseriu sobre um processo de sexualização que o antecede?

Em uma sessão do final do segundo ano de análise Ana sonha que “uma tia coloca um móvel que impede o acesso à sala onde aconteciam os encontros sexuais com o avô”.

Ela lembra que frequentemente se isolava em um retiro masturbatório atrás do mesmo divã: “Não sei se no sonho ou na minha infância, a propósito do divã ou da sala: eu me escondia atrás desse divã e era algo que tinha a ver com a minha sexualidade, porém estava sozinha...”.

Na infância de Ana, portanto, o estado de excitação sexual parece ter precedido o abuso sexual: por este motivo, o encontro incestuoso tornou-se, para a menina, uma forma de atividade sexual.

Assim, foi possível intuir que o abuso sexual por parte do avô havia se inscrito em um retiro sexualizado anterior por parte da menina. Um retiro certamente favorecido pela falta de empatia e comunicação afetiva materna.

Este caso parece demonstrar que o abuso sexual por parte do avô não foi o responsável do sofrimento e da psicopatologia da paciente, mas, ao contrario, a ausência emocional por parte dos pais. Como disse antes, se a criança vive em um mundo sem respostas emocionais por parte dos pais, ela se retira em um mundo excitado e patológico e torna-se dependente de um retiro masturbatorio.

Às vezes, o trauma emocional destinado a levar o paciente em direção a uma estruturação psicopatológica não deriva tanto da distancia emocional dos pais, quanto da sua presença intrusiva e patogênica.

Este é o caso no qual o trauma emocional pode ser sexualizado e pode aparecer uma repetição compulsiva de tipo masoquista (De Mais, 1999).

Gostaria, neste ponto, de relatar mais extensamente um material de um paciente em análise para mostrar a ligação entre trauma emocional e construção perversa.

Neste caso, o êxito da perversão não depende somente da relação com um genitor patológico, mas da medida em que o trauma emocional foi sexualizado. Em outras palavras, ao lado do trauma emocional, desenvolve-se uma construção psicopatológica na qual o significado da violência sofrida perde o sentido.

Deixarei de lado, na exposição desse caso clínico, a dinâmica transferência-contratransferência, porque foge ao objetivo dessa minha contribuição.

Paulo, casado e com dois filhos, no início da análise fazia o uso de drogas, mas a sua verdadeira dependência era a das fantasias masoquistas. Era muito doente desde a infância; havia crescido sem pai, morto quando ele era bebê, em uma constante relação, excessivamente íntima e frustrante ao mesmo tempo, com a mãe. Esta tinha o hábito de mantê-lo consigo na cama quando estava sozinha, pronta para afastá-lo quando podia contar com algum amante. A ausência de uma figura paterna parece ter sido crucial e era tal a ponto levar o paciente a acreditar que uma relação filial com analista teria podido constituir uma experiência de crescimento emocional.

A estrutura patológica dominante consistia no fato que Paulo, em vez de se separar da mãe, tinha se tornado prisioneiro de uma experiência psíquica de total passividade em relação a ela. Justamente pelo prazer de transformar o ativo em passivo, confessava ser incapaz de educar seus filhos, dos quais sofria todos os abusos. Vivia constantemente em um retiro perverso no qual podia anular os afetos, as emoções e os conflitos em virtude de um prazer masturbatorio que podia ser alcançado na fantasia. O paciente parecia sempre repetir o mesmo modelo. Incapaz de ter um conflito com o seu objeto relacional, transformava a raiva em uma ação contra si mesmo, tratando seu self infantil como um escravo. Na realidade, contínuas fantasias de estar reduzido à escravidão e submetido a uma entidade prepotente (geralmente uma mulher) coloriam sua imaginação: estas fantasias se acompanhavam a masturbações ou a penetrações anais obtidas com o uso de vários objetos.

Uma parte da sua vida livre de fantasias sadomasoquistas (nas quais agia também a parte sádica) era a sua capacidade de escrita e seu amor pela literatura.

Durante a análise, frequentemente a sexualidade compulsiva se acentuava após uma boa sessão. A figura do analista era muito fraca, destinada a desaparecer facilmente nas separações. Freqüentemente, não persistiam somente as fantasias masturbatórias, mas surgia também o uso impróprio e toxicomaníaco de remédios que o levavam a um estado mental eufórico. As fantasias sexualizadas e os remédios tinham frequentemente o objetivo de criar um vazio na mente, escondendo os conflitos e as amarguras da relação analítica.

Expressões de admiração pelos benefícios obtidos na análise (por exemplo, uma maior capacidade de firmeza em relação aos filhos) se alternavam a fugas ou retiros masturbatorios com uma conseqüente desvalorização do trabalho analítico.

Estava cada vez mais claro que retornar à fantasia de ser um escravo lhe permitia anular suas emoções e sua própria vida relacional. Na fantasia do escravo, Paulo não era mais ele mesmo, tornava-se uma terceira pessoa, perdia-se no outro: não tinha vontade nem emoções, entrava em um outro mundo. A anulação da própria identidade dava-lhe um prazer real, era realmente uma operação erótica. Consequentemente de manhã sentia-se tão vazio a ponto de ser levado a se masturbar para se excitar e se sentir um pouco mais ativo. Freqüentemente, durante o dia, permanecia grudado na televisão para alimentar suas fantasias masoquistas; identificava-se com a figura dos escravos ou tentava entrar em contacto, pela Internet, com pessoas no papel de patrão. Quando prevalecia o retiro na fantasia perversa, o analista era colocado em uma posição de espectador passivo, um voyeur da excitação do paciente.

Com o tempo e com o progresso da análise essas fantasias começaram a não ser mais fonte de prazer. O paciente começou a evitá-las e a se sentir angustiado com sua presença.

Uma mudança importante aconteceu próximo ao quarto ano em uma série de sessões em que se tornou muito evidente, aos seus olhos, a sua relação patológica com a mãe.

Em uma dessas sessões, Paulo tinha começado a falar de uma fantasia que tinha tentado realizar com a esposa. Ela havia se tornado, aos seus olhos a Rainha de Saba, enquanto ele se prostrava aos seus pés. Lembrou-se, então, que quando era pequeno, após ter visto o filmo Helena de Tróia com a mãe, tinha tido uma fantasia parecida; enquanto a mãe havia se tornado a belíssima mulher grega, ele havia se identificado com a sua escrava.

De repente, começou a praguejar contra as mulheres, todas putas, que seduziam somente homens desprezíveis; depois ficou raivoso diretamente com a mãe, insultando-a e chamando-a “puta”. Gritou que ela o havia castrado, o havia tratado como uma mulher, levando-o para a cama com ela e fazendo com que assistisse aos party com as amigas.

Está serie de sessões revelou-se importante. O paciente começou a confrontar o seu ódio pela mãe e sua tendência a se colocar de joelhos diante dela. Antes, seus sentimentos negativos pela mãe, apagados pela fantasia de submissão, não haviam podido ser vividos.

Começou a reconhecer que, se na fantasia estava sempre pronto a se colocar de joelhos diante da mãe-rainha, na realidade a odiava. Reconheceu que a mãe o havia seduzido em vez de amá-lo de verdade; nunca o havia valorizado e tinha escolhido sempre outros homens com os quais ele, criança, nunca pudera competir. Tinha-o considerado, histericamente, como um seu pequeno apêndice, um seu pequeno pênis e não uma pessoa. Entendeu, então, por que razão escorregava tão frequentemente nas fantasias masoquistas. Se com a mãe era impossível ter uma relação de igual para igual, e se tinha que estar sempre em uma posição inferior, então melhor se subordinar e se anular completamente e gozar do próprio anulamento.

Durante um longo período o paciente exprimiu constantemente o ódio contra todas as mulheres consideradas putas. A sua propaganda contra as mulheres era insistente porque queria trazer o analista para o seu lado, queria que ele pensasse como ele.

Demonizar a mãe e todo o gênero feminino podia ser uma via inicial para alcançar um certo grau de separação da figura feminina, mas era especialmente uma defesa contra o sentimento de culpa. Se todas as mulheres eram putas, então a culpa da perversão era da mãe e não dele. Ao contrario, se ele tivesse admitido a existência de uma boa relação com uma figura feminina, a culpa de sua falência podia também ser sua. A culpa era de nunca ter sido capaz e, talvez, de nunca ter desejado se separar psiquicamente da relação com a mãe e da sua relação de excitada subordinação.


Se este paciente foi traumatizado por uma mãe histérica, também é verdade que parte de sua perversão consistia justamente em continuar a destruir qualquer aspecto bom, não somente no seu objeto, mas em todos os objetos e em si mesmo. Paulo admirava a crueldade e a frieza das mulheres e confundia sua arrogância com a força. Tinha sido sua submissão a um objeto ruim (a dominatrix) a torná-lo fraco e castrado.

Por muito tempo Paulo levou adiante sua visão pessimista e cínica da vida: tinha necessidade de demonstrar que o mundo era todo ruim e que sua perversão podia ser justificada. Desta forma, continuava alimentando um objeto internalizado ruim e narcisista, que era contra seu crescimento e seu desenvolvimento emocional.

Durante o processo analítico, este paciente conseguiu, aos poucos, se libertar da excitação perversa e da relação patológica e auto-anuladora com a mulher e renunciou a projetar todo o negativo na figura feminina.

Reconheceu então que ninguém o havia ajudado em seu desenvolvimento e que ninguém o havia protegido. Era filho único e sem amigos. Como teria podido se defender?

A relação com o analista tornou-se cada vez mais significativa porque servia para desenvolver uma verdadeira identidade pessoal. Muitas áreas de sua personalidade eram, de fato, repletas de confusão (especialmente entre partes sadias e partes doentes, partes infantis e partes perversas) que somente o analista podia ajudá-lo a distinguir.


Trauma e retiro vitimista
Até agora falei de pacientes que tiveram dificuldade em tomar consciência dos traumas emocionais infantis e que, às vezes, assumem dentro de si a culpa para manter íntegro o objeto parental que os sustenta. Existe, ao contrario, uma outra categoria de pacientes que desde o início da terapia denunciam os traumas sofridos. Eles fazem uma cuidadosa descrição do caráter dos pais, das suas faltas e das injustiças sofridas. Às vezes, parece quase que registram com cuidado todos os maus tratos, os inevitáveis e os ocasionais, para se excitar no ressentimento e na violência (Steiner, 1993). A participação emocional do analista não consola, alias parece aumentar o tamanho das queixas. Ao denunciar os sofrimentos do passado, o paciente alimenta a sua posição de vitima e desenvolve uma crescente agressividade.

Na análise de Carmem, uma jovem de origem sul-americana o leitmotiv são as acusações aos pais, particularmente à mãe que com sua distância emocional desencadeia violentas raivas na filha. Carmem, porém, está ligada com um fio duplo com ela, com uma sujeição psicológica e uma total dependência. A paciente encontra, na vida de todos os dias, pessoas que se revelam tirânicas e violentas; uma tentativa de relação sentimental transformou-se, ao longo do tempo, em uma relação perversa em que ela, aparentemente de forma passiva, sofreu violências físicas e sexuais.

A relação com a mãe representa a fonte principal das tempestades sadomasoquistas. Recentemente Carmem, que precisava ir de trem para uma outra cidade, havia lhe pedido o dinheiro para poder tomar um táxi, pois teria voltado tarde. Diante da recusa da mãe, ela não argumentou aparentemente aceitando essa decisão. Todavia, logo depois que desceu do trem, sentiu-se invadir pela violência: “Quando desci do trem, não tinha o dinheiro do táxi e não me lembrei onde se pegava o ônibus. Desci na praça da estação e estava escuro. Vi um grupo de africanos bêbados que lançavam garrafas de cerveja um contra o outro. O fato é que eu não tinha o menor medo da turma... teria podido evitá-los, teria podido dar uma volta diferente, mas ao contrario passei lá no meio...como dizer...já me aconteceu uma vez, que importância teria uma segunda. É assim que eu faço quando me corto, é como nos campos de concentração que a gente se torna um objeto sem emoções”.

Nesta circunstância, a paciente está esta mais interessada em mostrar quanto seja ruim o mundo (os homens e a mãe) mais do que defender a própria segurança; sente mais prazer em provocar a agressão contra si mesma do que se proteger. Oferecer a si mesma como vitima de um estupro testemunha o empenho sadomasoquista e seu papel de vítima agressiva.

Ana é uma paciente grave. Desde a primeira infância apresentou episódios anoréxicos.

O primeiro trauma foi uma disfunção pilórica que apareceu nos primeiros meses e que causou dificuldades alimentares, que os familiares só perceberam tardiamente (aos seus olhos, a menina parecia mimada).

Na adolescência, a paciente tinha sido internada várias vezes no hospital por graves episódios anoréxicos, mas houve também várias tentativas de inseri-la em comunidades para afastá-la do ambiente familiar, caracterizado por raivas e ambivalências, particularmente por parte da mãe. Apesar de tudo, Ana consegue se casar e ter filhos. A sua relação com as pessoas queridas é sempre precária, no limite da catástrofe, com ameaças e gestos suicidas que determinam outras internações. A rica sintomatologia compreende ataques de pânico e períodos de anorexia intervalados por orgias bulímicas. A última internação é bastante recente, após uma tentativa de suicídio atuada com remédios.

No retorno à análise, me diz que seu gesto autolesivo foi causado por uma profunda incompreensão com o marido e pelo fato de que ela, como sempre, não sabe administrar os conflitos a não ser com comportamentos autodestrutivos.

A pausa após essa tempestade dura apenas alguns dias: as sessões logo voltam a ficar repletas de ameaças e declarações de violência; quer se jogar pela janela ou engolir novamente os remédios. Voltou a se levantar muito cedo de manhã para correr selvagemente por uma hora e chega esbaforida na sessão de bicicleta quando poderia servir-se do transporte público. Desta forma, conseguiu perder aquele pequeno aumento de peso que tornava sua magreza menos inquietante. Não dorme, sente-se deprimida, fantasia o suicídio e declara querer se internar. Acrescenta que tem impulsos violentos contra os filhos, que para ela são objetos verdadeiros de amor; por isso quer ser impedida, internada. Digo-lhe que novamente se lançou na auto-destrutividade. Ela parece surpresa, mas depois admite ter ficado de novo brava com o marido que se afastou dela, e de odiar a mãe que ostenta indiferença. Diz estar fascinada pela idéia da internação: um lugar no qual se refugiar, um útero ao qual pode feliz retornar.

O que acontece na psique de Ana?

Ela não tem um espaço; para sobreviver precisa permanecer ligada de forma indissolúvel aos seus objetos (a mãe, o marido e o analista). O antigo vínculo sadomasoquista, o mesmo que durante a adolescência havia causado a grave sintomatologia anoréxica, ainda está ativo e reaparece a cada frustração, fora do seu conhecimento.

O ataque ao objeto não se dá através raiva vital, mas da auto-destrutividade; como um terrorista suicida, Ana joga todo seu corpo contra o objeto odiado para atingi-lo e envolve-lo em sua auto-destrutividade.

O impulso em direção ao auto-anulamento constitui para ela a resposta que a ligou ao objeto traumático em um impulso constante e reciprocamente destrutivo. A anorexia é uma estratégia psíquica em direção ao auto-anulamento que pressupõe um ataque violento contra o self corporal e contra o objeto frustrante, em uma dinâmica sem fim.

Conclusões
O Mahabharata, o famoso poema épico hindu, entre os inúmeros acontecimentos fala de Drona, um príncipe caído em desgraça que é assumido como preceptor por uma família real. Uma das suas tarefas e a de ensinar aos três filhos do rei o uso do arco. Para isso prepara, no parque, a figura de um pássaro semi-escondida entre as folhas de uma árvore. Ao dar o arco e flecha ao primeiro jovem herdeiro, pergunta o que ele vê. O rapaz responde “vejo o pássaro sobre a arvore. Vejo as folhas em volta da arvore. Vejo você, o professor, vejo os meus irmãos”. Drona diz: “Abaixe o arco e não atire”. É a vez do segundo irmão. Drona faz a mesma pergunta e obtém a mesma resposta. O professor está muito desanimado quando pede ao terceiro irmão de responder à mesma pergunta. Esta vez, o terceiro rapaz diz: “Vejo somente a cabeça do pássaro e nada mais”. Estica o arco e atira a flecha que corre no ar e atinge a cabeça do pássaro, fazendo-o cair.

Trouxe o relato acima para introduzir um conceito importante que permeia toda a estrutura deste trabalho.

A que paciente nos dirigimos, quando trabalhamos com nosso analisando?

Quando estamos na sala de análise, somos como rapaz do relato, vemos muitas coisas (a arvore, as folhas, os irmãos, etc.), mas temos que escolher somente um entre os muitos elementos presentes, aquele que nos parece específico daquela configuração – relação – historia pessoal – patologia do paciente.

Temos que considerar a especificidade do paciente, não somente como individuo com sua historia e seu potencial evolutivo, mas também como portador de uma especifica configuração psicopatológica.

Por isso considero que o trauma emocional infantil, o contexto ambiental, as defesas ou as construções psicopatológicas em que o paciente eventualmente se retirou, tem uma importância fundamental no trabalho terapêutico.

Esta é a minha maneira de ir em direção ao paciente.

Como é possível chegar na compreensão da existência e da qualidade dos objetos traumáticos originários e entender como podem ter agido (e continuam agindo na transferência) ao condicionar o desenvolvimento da patologia?

O caráter destes objetos, do meu ponto de vista, pode ser intuído não somente das informações, frequentemente limitadas, que nos dá o paciente, ou de suas dificuldades em enfrentar etapas evolutivas importantes da vida, mas da evolução do próprio processo analítico.

Algumas vezes, os traumas infantis se revelam em sonhos muito claros em que o analista aparece como o objeto traumático: estes sonhos se referem ao passado e descrevem experiências relacionais precoces.

A relação entre trauma emocional e processo psicopatológico é um elemento de base que caracteriza minha aproximação terapêutica. O meu ponto de vista parte da constatação de que, para crescer, necessitamos da mente de um outro à qual possamos dirigir perguntas, angústias, desejos e necessidades.

O encontro repetido e estável com esta experiência e a devolução da nossa projeção permite a introjeção de um objeto dotado da função de compreensão emocional.

Os pacientes que se dirigem a nós não tem este objeto; por isso, não compreendem e não estão em condições de entender porque sofrem. Deste ponto de vista, a terapia psicanalítica poderia ser definida como a experiência capaz de desenvolver no paciente a função de compreensão emocional originariamente carente ou gravemente destorcida.

Em alguns casos, como nas situações perversas, borderline ou psicóticas, esta função não pode se desenvolver até que o espaço psíquico não tenha sido libertado das estruturas patológicas que o ocupam.

Para compreender o paciente nos utilizamos um instrumento, a intuição emocional, que ele ainda não pôde desenvolver plenamente.

A interpretação é terapêutica pelo fato de dar significado à experiência do paciente e de ajudá-lo a compreender e a se compreender emocionalmente.

Nós compreendemos não porque interpretamos, remetendo simbolicamente a outra coisa, mas porque somos capazes de nos colocar na pele do paciente, conseguindo compreender empaticamente não somente o presente, mas também seu passado. Interpretamos para trazer o paciente de volta à compreensão real e emocional da sua experiência psíquica, e procuramos fazer com que ele se torne aos poucos capaz de introjetar essa função e de usar seu pensamento associativo para monitorar o que lhe acontece.

A interpretação analítica (mas eu gostaria de chamá-la intuição analítica) permite ao paciente de experimentar um objeto capaz de pensar emocionalmente. O verdadeiro trauma vivido está em ter introjetado um objeto que não compreende as emoções e que priva de significado a vida psíquica. Do meu ponto de vista, a transferência tem o significado específico de uma ligação ativa que perdura com um objeto passado (mas também de embate, de desenvolvimento psicopatológico, de retiro, etc.) que deve ser analisada, transformada e superada para permitir o desenvolvimento da relação analítica.

De fato, grande parte do processo terapêutico depende da capacidade dos dois protagonistas, analista e analisando, de criar uma relação útil ao desenvolvimento. Por esse motivo faço uma distinção entre transferência (e contratransferência) e a relação analítica.

De forma simples, poderíamos dizer que enquanto a transferência é obra das projeções do paciente de seus aspectos cindidos ou de seu passado infantil, a relação analítica é fruto do encontro entre as partes receptivas, do analisando e do analista, se desenvolve com a contribuição de ambos. De forma especifica, se a relação analítica se funda na necessidade natural de depender de um objeto (um objeto transformador, diria Bollas, 1979) para o crescimento mental, o caráter dessa relação dependa da capacidade interpretativa do analista, isto é, da sua receptividade e da sua resposta adequada à comunicação do paciente4.

A capacidade de insight não pode aparecer se o paciente não é convidado a rever seu passado, a revê-lo em análise e a colocá-lo em uma nova dimensão de compreensão na relação com um novo vínculo.

Este fato é particularmente importante para os pacientes traumatizados emocionalmente, os quais sentem concretamente o analista como uma figura do passado.



A concretude da experiência traumática que se repete constantemente na análise, deve nos fazer considerar como o trauma emocional bloqueou o desenvolvimento do espaço potencial do paciente, bloqueio destinado a permanecer até quando um novo objeto e uma nova experiência, às vezes nunca antes experimentados, começarão a estar presentes em seu mundo interno.


BIBLIOGRAFIA


Bollas (1979). The Transformational Object. Int. J. Psycho-Anal., 60:97-107

Brenman, E. (2006) Recovery of the Lost Good Object. Routledge. London and New York

De Masi, F. (1999) La perversione sadomasochistica. L’oggetto e le teorie. Bollati Boringhieri. Torino. La perversión sadomasoquista. El objeto y las teorias. Lúmen, Buenos Aires, 2004.

Freud, S. (1920) Beyond the Pleasure Principle. Standard Edition 18:1-64.

Freud, S. (1937) Analysis Terminable and Interminabile. Standard Edition 23: 255-271.

Joseph, B. (1985). Transference: The Total Situation. Int. J. Psycho-Anal., 66:447-454.

Kahn, M. R. (1963) The Concept of Cumulative Trauma. Psichoanal. St. Child, 18:286-306

Steiner, J (1993). Psychic retreats: Pathological organizations in psychotic, neurotic, and borderline patients. London: Routledge. 162 p. (New Library of Psychoanalysis, Vol 19.)


1 Entre os analistas que abriram este campo de investigação quero lembrar em especial de Balint, Winnicott e Bion.

2 O meu ponto de vista é diferente do dos colegas (entre muitos, Betty Joseph, 1985) que consideram que a reconstrução da experiência infantil não é útil a não ser quando se avançou muito na análise, isto é, quando o paciente é capaz de pensar mais claramente e pode integrar sua experiência do passado com a atual.

3 Este material foi-me apresentado em supervisão pela Dra. Maria Grazia Gallo

4 Visto que estão constantemente sobrepostos, não é fácil distinguir a transferência da relação analítica. De fato, os mesmos elementos subjetivos que constituem a relação analítica influenciam a forma com a qual a transferência se manifesta. Nas suas manifestações específicas, a transferência depende não somente das projeções do paciente, mas também das respostas conscientes e inconscientes do analista, cuja atitude emocional influencia (facilita, inibe ou transforma) as projeções do mundo interno do paciente.






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