Tropeiros os propulsores do desenvolvimento inicial das Colônias Alemãs do Litoral Norte/RS



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TROPEIROS - os propulsores do desenvolvimento inicial das Colônias Alemãs do Litoral Norte/RS

Nilza Huyer Ely

Historiadora. Membro do CIPEL, do IHSL e da ALMURS.
O ano de 1826 é o marco inicial da colônia alemã do Litoral Norte/RS, já parcialmente habitado por Sesmeiros açorianos e pelos remanescentes indígenas que permaneciam junto às fraldas da Serra Geral.

Instalados, respectivamente, no vale do Três Forquilhas e na Colônia de São Pedro de Alcântara, premidos entre o mar, as lagoas e a encosta da Serra Geral, que a eles se apresentava intransponível nos idos do século XIX..

Hábeis no aprendizado, rapidamente estavam produzindo os bens necessários para a subsistência na agricultura e em pequenas indústrias como as de derivados da mandioca e da cana de açúcar.

A produção, no entanto ia além do necessário ao consumo local, o óbvio seria comercializar com a capital ou outros centros consumidores.

A falta de meios de comunicação, entretanto, o grande vilão que rondou as colônias alemãs do Litoral Norte por mais de um século, foi o grande empecilho. Este problema acarretava todo o tipo de dificuldade e desânimo aos colonos.

As autoridades, e isto se constata através de diversos relatórios dos Presidentes da Província, viam apenas a satisfação dos colonos em produzirem o bastante para sobreviver, como se isto lhes bastasse, como se nada mais aspirassem do que uma mesa farta, depois de terem abandonado a pátria além mar.

O historiador Handelmann em 1850 observou: [...]“das restantes colônias alemãs na província de São Pedro, apenas há alguma coisa ou quase nada especialmente agradável para relatar: Três Forquilhas e São Pedro de Alcântara, ambas dispõem de solo fértil... contudo, em progresso e riqueza, ficam muito atrás de São Leopoldo ”1.

Se por um lado a produção crescia, não havia o aproveitamento do excedente produzido, e aí vale lembrar as palavras de Roquete Pinto em seu Relatório da Excursão ao Litoral e a região das lagoas do Rio Grande do Sul quando diz “a terra é feracíssima, mas os colonos se desesperam pela dificuldade extrema que encontram para exportar o quanto colhem.

Para que plantar? Perguntaram. É melhor não plantar do que ver apodrecer a um canto da casa a metade da colheita”.2

De todos os quadrantes da Província, as correspondências das câmaras de vereadores eram unânimes em solicitar a abertura de estradas ou a melhoria das precárias existentes com a ponderação de que, apenas “o gado se transporta por si mesmo”.

O relatório de 1853 informa que a cachaça produzida em Santo Antônio da Patrulha é transportada até a Capital da Província [...] com grande custo sobre pequenas e pesadas carretas de duas rodas”3 puxadas por juntas de bois, eram muitos dias de viagem.

Ainda segundo Handelmann “Ao passo que as vizinhanças da capital da província, Porto Alegre, garantiam a São Leopoldo lucrativa venda de seus produtos, estas duas outras (Três Forquilhas e São Pedro de Alcântara), por sua posição no interior deserto e por seu afastamento, ficaram excluídas de todos os grandes mercados...”4

Privilegiados, portanto, poderíamos dizer que foram os alemães instalados às margens dos rios que formam o estuário do Guaiba e que tiveram vias de transporte oferecidas pela natureza.

O comércio nas colônias praticamente inexistia.

Poder-se-ia perguntar o que um colono compraria ou venderia ao outro na mesma localidade?

O vendeiro recebia em pagamento dos bens de primeira necessidade como o sal, o querosene ou do riscado, a produção do colono como o açúcar mascavo, a cachaça ou a farinha de mandioca.

De onde teriam os colonos dinheiro para efetuar qualquer transação comercial.

É quase inimaginável a situação vivida nas colônias alemãs do Litoral Norte. Eu lembro, na minha infância, nos anos de 1940 em plena metade do século XX, a dificuldade que as pessoas tinham para conseguir o numerário para pagamento do imposto territorial ou para comprar o material escolar aos seus filhos.

Enquanto as sobras da produção de gêneros e dos derivados da cana de açúcar e da mandioca se acumulavam nas colônias alemãs do Litoral Norte, os habitantes de Cima da Serra se ressentiam de sua falta pela impossibilidade do cultivo devido ao rigor do clima.

Ao nível do mar estavam os colonos alemães a produzirem. A não muitas léguas de distância mas a mais de mil metros acima viviam os serranos que necessitavam de tais produtos.

Os contrafortes da Serra Geral se interpunham como uma barreira intransponível entre a fonte produtora e o consumidor em potencial. Os colonos alemães desconheciam os meios de alcançar este espaço que se oferecia ao comércio de seus produtos.

As primeiras transações comerciais com os colonos alemães ocorreram por iniciativa dos intrépidos Tropeiros de Cima da Serra, que se aventuraram por trilhas abertas pelos índios que desciam até o litoral em busca do peixe e do marisco quando escasseava o pinhão; e pelos escravos que fugidos das sesmarias serranas se reuniram ao pé da serra, junto às nascentes do Rio do Pinto formando um pequeno quilombo. (mapeamento dos Quilombos - Inst. Anchietano – Unisinos)

Foram os tropeiros os pioneiros a comerciarem com os colonos, trazendo-lhes nas bruacas o pinhão e deles comprando a farinha de mandioca, o polvilho forneado, o açúcar, a rapadura e principalmente a saborosa cachaça, ainda melhor do que a de Santo Antônio da Patrulha..

Mesmo correndo o permanente risco de ataque de “Indios que viviam nas florestas e com freqüência atacavam viajantes e tropeiros que circulavam pela região. Também atacavam os colonos do Vale do Sinos, a poucos quilômetros de Porto Alegre” 5, nas palavras de Paulo Afonso Zarth em sua tese de doutorado.

Foi através dos tropeiros que começou a circular alguma moeda, pouca é bem verdade, de vez que a maioria do comércio se reduzia à troca das mercadorias.

Não tivesse havido o intercâmbio comercial com os Tropeiros, talvez as previsões de Handelmann quando diz [...] “ O estado em que se acham ambas as colônias, com uma população de 1000 almas, é, portanto, lastimável; se os habitantes têm o necessário para a subsistência, entretanto, pela impossibilidade de saída regular dos produtos, falta-lhes o estímulo para incitá-los a ativos trabalhos de lavoura; cortadas as colônias de toda comunicação com a gente da província e com a velha pátria, elas permanecem como que enterradas no mato, devendo necessariamente degenerar espiritualmente”6 tivessem se confirmado.

Conforme portaria de 1º de julho de 1825, ao determinar a localização dos alemães no Litoral Norte o governo imperial teve a preocupação de que: [...] “os colonos sejam acomodados ao longo da estrada nova que se trabalha para se fazer praticável entre o presídio das Torres e os habitantes de Cima da Serra” 7, com vistas ao futuro das regiões serrana e litorânea da Província.

Pois que se poderia antever o moroso intercâmbio com a capital do Estado pelos empecilhos decorrentes da geografia local e assim proporcionaria um desenvolvimento mútuo, além do intercâmbio comercial e cultural entre nacionais ou tropeiros e os imigrantes. Seria uma forma prática de animar o relacionamento entre as etnias o que realmente logo aconteceu.

Revendo os arquivos da comunidade evangélica de Três Forquilhas encontramos já na década de 1860, o registro do batismo de Henrique Hoffmann, nascido em 15.01.1867, no distrito de Vacaria, comarca de Santo Antônio da Patrulha, o que corrobora a influência dos Tropeiros sobre as famílias de imigrantes que transferiram residência para os Campos de Cima da Serra e que se tornariam mais tarde abastados fazendeiros. Entre elas podemos citar: Jacoby, Becker, Voges, Kramer, Schwartzhaupt, Hoffmann, Finger e tantas outras.

A Câmara de Vereadores de Torres, ao elaborar o seu código de Posturas em 1882, ciente da importância da presença dos tropeiros de Cima da Serra no Litoral Norte, até porque tanto Colônia de São Pedro de Alcântara quanto parte de Três Forquilhas situavam-se em seu território fez constar no

artigo 85: “Não é permitido andar no município com mascataria e negócios ambulantes sujeitos ao pagamento dos impostos, sem prévia licença da Câmara e conhecimento de ter pago o imposto municipal devido, sobre pena de 10$000 rs a 30$000 rs de multa, com a ressalva constante do

§ único – são isentos das penas deste artigo os TROPEIROS de cargueiros que descem de Cima da Serra, Vacaria, Lagoa Vermelha e Lages”8.

Note-se que a expressão “descer a serra” caracteriza que a iniciativa de intercâmbio partiu dos Tropeiros de Cima da Serra, foram eles que foram comprar a produção das colônias. É uma constante nas correspondências das Câmaras de Vereadores ou nos relatórios encontrarmos a referencia de que a produção das colônias é vendida aos Tropeiros de Cima da Serra.

Tanto é verdade que o próprio professor Leopoldo Tietböhl ao escrever o seu relato sobre as Aventuras de um Tropeiro”9 inicia dizendo:

“Em um dos deliciosos passeios aos queridos pagos (vale do Três Forquilhas) tomei a estrada que conduz pelos belos campos de Cima da Serra” descendo a Serra do Pinto.

Assim, vencendo a Serra da Rocinha, a Serra do Pessegueiro, a do Josafath, do Amola Faca, do Pinto a hoje Rota do Sol e outras, os Tropeiros em seu trabalho anônimo, no lento caminhar das mulas arqueadas pelo peso das bruacas abarrotadas, ao longo de muitos anos levaram, além das experiências vividas em dias chuvosos e na escuridão da noite tormentosa enfrentando o lamaçal das trilhas, os passos de rios cheios em épocas de enchentes, com noites mal dormidas muitas delas recostados em troncos ou pedras à beira da picada correndo o risco do ataque de animais ferozes, a sua contribuição para o desenvolvimento da região litorânea.

É de todo sabido que o interesse de intercâmbio foi mútuo, mas há que se reconhecer que o passo inicial foi dado pelos Tropeiros.

Nada, absolutamente nada, intimidou os Tropeiros de se tornarem os propulsores do desenvolvimento inicial das colônias alemãs do Litoral Norte/RS.




1 HANDELMANN, Heinrich. História do Brasil. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro: imprensa nacional. 1931, p. 535.

2 PINTO, E. Roquete. Relatório da Excursão ao litoral e à região das lagoas do RGS. Gráfica da UFRGS. Porto Alegre. 1962, p. 35

3 Relatório do Presidente da Província, ano 1853, p. 25. AHRGS A7 - 03

4 Handelmann, op cit

5 ZARTH, Paulo Afonso. Do arcaico ao moderno: as transformações no RGS rural do século XIX. Tese de doutorado apresentada na Universidade Federal Fluminense. 1994, p 37

6 HANDELMANN, op cit

7 IOTTI, Luiza Horn (org.) Imigração e Colonização: legislação de 1747-1915. EDUCS. Caxias do Sul, p.86

8 POSTURAS, de São Domingos das Torres. AHRGS maço 282, lata 97 vert.

9 TIETBÖHL, Leopoldo. Aventuras de um Tropeiro, Tipografia Gundlach. Porto Alegre, p. 3.


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