Tropicália e Poesia Concreta



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TROPICÁLIA E POESIA CONCRETA
Danilo Sérgio Sorroce - Universidade Mackenzie - UPM


Tropicália e Poesia Concreta

Ao longo de seu percurso, a Tropicália trava inúmeros diálogos com os mais variados produtos culturais, entre os quais se incluem a poesia concreta, a bossa nova, o rock´n roll, o baião, o cinema novo, o teatro e outros.Procuramos analisar literalmente o profícuo diálogo desenvolvido entre a produção multicultural tropicalista de Gilberto Gil e Caetano Veloso e a poesia concreta de Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos (irmãos Campos), observando as convergências existentes entre elas.



TROPICÁLIA E POESIA CONCRETA
As obras tropicalistas de Gilberto Gil e Caetano Veloso desenvolvem, ao longo de seu percurso, inúmeros diálogos que nos remetem à reflexão sobre a importância delas dentro da Tropicália, ora como movimento cultural, ora como instrumento de contestação ideológica. O aprimoramento desta poética torna-se clara, mais refinada com o passar do tempo e com as inclusões de novos recursos oriundos de diferentes produtos culturais.

A mistura cultural tropicalista torna-se notória por inserir-se de maneira incomum no processo da revisão cultural brasileira, já que rompe com os padrões estabelecidos, elaborando uma nova estética para a MPB. A volta às origens e à internacionalização cultural, estimuladas principalmente pelos meios de comunicação de massa, tais como a TV, o cinema, a imprensa e outros, estão presentes neste processo de reformulação cultural proposto pelo movimento tropicalista.

O processo da revisão cultural brasileira, apresentado pelos modernistas na Semana de Arte Moderna, de 1922, convergia para os princípios da antropofagia cultural do modernista Oswald de Andrade. Esta antropofagia desenvolvia uma dialética entre a desconstrução e a reconstrução tendo como objetivo básico a criação de uma poesia tupiniquim, organizada para a liberação do verso brasileiro, que então deveria libertar-se por completo das influências das velhas civilizações.

Como mencionado, nota-se a convergência das poéticas tropicalistas de Gil e Caetano com a Poesia Concreta e com os princípios da antropofagia cultural de Oswald de Andrade.

Entre os escritores que foram referência para os criadores do movimento da poesia concreta, Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, encontram-se os artistas europeus e norte-americanos, Stéphane Mallarmé, Ezra Pound, E. E. Cummings, James Joyce. Oswald de Andrade tornar-se-ia, posteriormente, um dos mais importantes ícones para o Concretismo. Embora já houvesse na Europa a tradição de experimentação com a poesia visual, a Poesia Concreta foi um movimento surgido no Brasil, na década de 50, motivado principalmente pela idéia de reconstrução de uma nova ordem mundial e da retomada da fé no novo progresso científico. (Menezes: 1998).

A Poesia Concreta engloba os recursos gráficos incorporados pela poesia moderna, voltados à visualidade e à linguagem cotidiana. Seu consumo se dá de maneira diferente, pois ela encontra-se na propaganda, no “slogan” de televisão, no jornal, no livro, na letra de música. Na Poesia Concreta é abolida a rima dos versos, havendo o rompimento com os limites do próprio verso. Procura-se a integração da cultura com os meios de comunicação e das artes relacionadas entre si. (Campos, Pignatari & Campos : 1965).

A união entre a Tropicália e a Poesia Concreta dá-se de maneira efetiva a partir da canção Batmakumba, do álbum Tropicália ou Panis et Circencis, que consegue materializar com clareza as influências musicais tropicalistas e as características básicas da Poesia Concreta, através dos recursos visuais e da linguagem do cotidiano.

– Gil: “ O Caetano e eu sentados no chão do apartamento dele, na avenida São Luís, centro de São Paulo, compondo a música: o que a gente queria, hoje me parece, era fazer uma canção com um dístico que fosse despida de ornamentos e possível de ser cantada por um bando não musical, algo tribal, e que, por isso mesmo, estivesse ligada a um signo de nossa cultura popular como a macumba, essa palavra nacional para significar todas as religiões africanas, não cristãs, e que é um termo que o Oswald de Andrade usou.

O Oswald estava muito presente na época; nós estávamos descobrindo a sua obra e nos encantando com o poder de premonição que ela tem. A idéia de reunir o antigo e o moderno, o primitivo e o tecnológico, era preconizada em sua filosofia; ‘Batmakumba’ é de inspiração oswaldiana. E concretista – na ligação das palavras e na construção visual do K como uma marca; no sentido impressivo, não só expressivo, da criação. Não é só uma canção; é uma música multimídia, poema gráfico, feita também para ser vista.” (Rennó: 2000, 98).

Batmakumba foi certamente a canção que conseguiu sedimentar a fusão dos dois produtos culturais, a Tropicália e o Concretismo; retoma-se, desta maneira, a dialética do localismo brasileiro e do cosmopolitismo estrangeiro. A relação entre o regional e o universal se faz presente no movimento tropicalista; destarte, retoma a dialética do localismo e do cosmopolitismo, desenvolvida pelo professor Antônio Cândido no ensaio Literatura e Cultura de 1900 a 1945 .

O diálogo entre o localismo brasileiro e o cosmopolitismo estrangeiro encontra-se em toda a nossa produção cultural, assim, podemos dizer que a influência e a reelaboração desse legado acompanha a trajetória da poética tropicalista, da música popular brasileira e de suas letras.

Caso fosse possível estabelecer um princípio da evolução cultural, brasileira esse poderia manifestar-se por diversas maneiras:

“Se fosse possível estabelecer uma lei da evolução da nossa vida espiritual, poderíamos talvez dizer que toda ela se rege pela dialética do localismo e do cosmopolitismo, manifestada pelos modos mais diversos. Ora a afirmação premeditada e por vezes violenta do nacionalismo literário, com veleidades de criar até uma língua diversa; ora o declarado conformismo, a imitação consciente dos padrões europeus. Isto se dá no plano dos programas, porque no plano psicológico profundo, que rege com maior eficácia a produção das obras, vemos quase sempre um âmbito menor de oscilação, definindo afastamento mais reduzido entre os dois extremos.” (Cândido: 2000, 109).

Exemplo claro disso é a fusão da música folclórica e nacional, representada pelo atabaque da umbanda e a viola, com a música internacional, representada por sua entonação e andamento, que nos remetem ao rock e a “soul music”. Ao lado da poesia e da música, elementos da cultura popular integram de modo decisivo a própria concepção da canção, como se demonstra na fusão, da figura do Batman, – o homem morcego, o herói “trash” das revistas em quadrinhos, posteriormente da televisão e cinema –, que representa o segmento internacionalizado, e a Macumba, – representando o segmento tupiniquim –, elemento da cultura afro-brasileira já incorporado, adaptado e transformado em nossa cultura, havendo mesmo se tornado parte integrante do sincretismo religioso de uma parcela do povo brasileiro.

BATMAKUMBA


Gilberto Gil e Caetano Veloso (1968)


Batmakumbayêyê batmakumbaoba

Batmakumbayêyê batmakumbao


Batmakumbayêyê batmakumba

Batmakumbayêyê batmakum


Batmakumbayêyê batman


Batmakumbayêyê bat

Batmakumbayêyê ba

Batmakumbayêyê

Batmakumbayê

Batmakumba

Batmakum


Batman

Bat


Ba

Bat

Batman


Batmakum

Batmakumba

Batmakumbayê

Batmakumbayêyê

Batmakumbayêyê ba

Batmakumbayêyê bat

Batmakumbayêyê batman

Batmakumbayêyê batmakum

Batmakumbayêyê batmakumbao

Batmakumbayêyê batmakumbaoba

Originalmente a canção Batmakumba foi grafada com “C”, porém adotou-se o “K”, em sua substituição, do mesmo modo que o “Y” passa a substituir o “I”, o que melhoraria a expressão tipográfica da alusão ao gênero de música estrangeira. “Batmacumbaiêiê” foi a maneira como se grafou originalmente a canção.
“ Eu tenho a impressão de que chegamos a grafar a palavra com K porque vimos que o poema formava um K. O K passava a idéia de consumo, de coisa moderna, internacional, pop. E também de um corpo estranho; não sendo uma letra natural do alfabeto português-brasileiro [sic], causava uma estranheza que era também a estranheza do Batmam.” (Rennó: 2000, 98).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CALADO, C.. Tropicália: a história de uma revolução social. 3. ed.. São Paulo: Editora 34, 2001.

CAMPOS, A. de, PIGNATARI, D., CAMPOS, H. de.. Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos 1950-1960. São Paulo: Edições Invenção, 1965.

CAMPOS, A. Balanço da bossa e outras bossas. 5. ed.. São Paulo: Perspectiva, 1993.

CÂNDIDO, A.. Formação da literatura brasileira. 2. ed.. São Paulo: Martins, 1962. v. 1 e 2.

CÂNDIDO, A.. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 8. ed.. São Paulo: T.A. Queiroz, 2000.

MENEZES, P.. Roteiro de leitura: poesia concreta e visual. São Paulo: Ática, 1998.



RENNÓ, C. (org.). Gilberto Gil: todas as letras. 2. ed.. São Paulo: Cia das Letras, 2000.


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