Título: a charge na imprensa maranhense do século XIX autor: Francisco das Chagas Frazão Costa Filho Instituição: Faculdade São Luís



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Título: A charge na imprensa maranhense do século XIX

Autor: Francisco das Chagas Frazão Costa Filho

Instituição: Faculdade São Luís

...não sei se já se comparou a caricatura ao apelido.”

Josué Montello

A caricatura é essencialmente o desenho que se define pela estilização dos traços da fisionomia humana por um processo de equivalência ou breve correspondência com o personagem real. A charge transcende este aspecto, uma vez que incorpora os elementos lingüísticos e, em muitos casos, evidenciando uma mise-en-scèna dos personagens que retrata. Outros elementos narrativos e retóricos como a paródia e a personificação são comuns nesse desenho, conforme veremos adiante, na análise de algumas charges.

Do ponto de vista estilístico, a charge do século XIX se evidencia por um desenho menos sintético e estilizado, com menos deformação; é ao contrário, essencialmente narrativo e floreado de detalhes icônicos e lingüísticos. Do ponto de vista do conteúdo, possui uma crítica direta e unívoca, como reflexo de uma posição ideológica definida.

Esse caráter combativo, antes da imprensa ilustrada, em 1842, restringira-se em artigos satíricos, comuns em alguns jornais em toda a imprensa brasileira. As imagens caricaturais eram impressas avulso, em pranchas litográficas, até que finalmente fossem incluídas na imprensa periódica.


1 Considerações gerais sobre a charge na imprensa do século XIX
O consumo de charge ou caricatura como era popularmente denominada, não possuiu maior abrangência incorporada pelos jornais de cunho informativo. Destacou-se com o surgimento de uma imprensa particular, especializada, em fins da primeira metade do século. Os jornais, ou periódicos ilustrados (pois havia também revistas) nem por isso limitavam-se na apresentação dos desenhos humorísticos, mas veiculavam outros assuntos como as abstrações filosóficas, metafísicas e poéticas; porém, tinham a caricatura como destaque. Outros periódicos limitavam-se, essencialmente, na veiculação da caricatura e nos escritos de cunho literário, mediante os quais eram “pintados” os vários episódios políticos e literários que permeavam pelo país.

A incorporação da ilustração, na imprensa periódica, refletia em grande parte os antagonismos políticos e os ideais republicanos e liberais, na segunda metade do século, bem como doutrinas filosóficas e cientificistas européias como o positivismo, marxismo e o evolucionismo nesse período. Além disso, a incorporação das filosofias possibilitou um ideal de progresso mesclado com a República, que segundo aquela concepção, engendraria a modernidade a o desenvolvimento no campo da moral e do pensamento.

O espírito então de progresso calcado na racionalidade e no poder da razão despontava um novo horizonte de modernidade. Esse ideal, no entanto, perpassou em épocas mais remotas como ocorrera com o Iluminismo - que pressupõe a saída das trevas e a entrada na dimensão luminária da razão, a qual responderia em forma de oráculos a todas as questões da dimensão horizontal da vida.

O progresso da racionalidade significou, de fato, inovações e investimentos na técnica e na administração de recursos, que aos poucos ocasionaram uma configuração dos centros urbanos, caracterizados pela racionalidade e controle dos bens.

Dessa forma, a crença no progresso e na racionalidade humana - que inspirou todo continente habitado, repercutia, em grande parte, em vários antagonismos em torno da metafísica e, de modo geral, da cristandade. Esta última, sob o risco de se ver ameaçada pelo rigor do método de conhecer pela experiência, de observação científica; teve que se adequar, tornando-se flexível aos novos moldes do positivismo, ou então, manter-se no outro extremo da radicalização, evidenciando, assim, uma dicotomia existente entre metafísica e racionalismo.

A crença no poder da razão trouxe ainda para o Estado tupiniquim (conforme assinalam algumas charges) o sentimento de querer revogar a velha ordem monarquista - com seu sistema político considerado ultrapassado. No campo da imagem, vários símbolos procuravam refletir os novos ideais republicanos, como o signo da mulher varonil - recortado da pintura de Delacroix - “em que a liberdade (na figura de mulher) conduzia a guerra”. A República implicava uma nova ordem, caracterizada pelo progresso e justiça nas relações sociais. Os símbolos tiveram presença marcante na caricatura que, a todo momento, era aguardada com expectativa pelos leitores nas diversas províncias. As imagens freqüentes do negro acorrentado e, principalmente do índio pisoteado, assinalam um desejo pelas raízes naturais do país, assim como o desejo latente de consolidar uma identidade nacional, ou ainda, um sentimento de aspirar a igualdade entre os setores sociais.

Além desses personagens-símbolos, periodicamente apresentados nos jornais, através da caricatura; projetavam-se várias críticas contra a política imperial; muitas vezes representadas nas charges pela figura do imperador. Outros ataques tiveram como alvo a instituição religiosa considerada um empecilho para o progresso e desenvolvimento do País.

É por certo como considera Herman Lima que, de modo geral, a caricatura do século XIX, no Brasil, primava pelo teor agressivo e de combate direto - com poucas experiências no campo humorístico.1 Além disso, devido ao anseio republicano e às próprias contradições vividas no país - o tema da caricatura concentrava-se basicamente nos assuntos nacionais, e com pouca alusão às questões internacionais. Estas são portanto as características essenciais da caricatura do século XIX e que as distingue das caricaturas de outros períodos.

No tocante a monarquia e as políticas em torno da própria imprensa nacional diante de várias formas de contestação veiculadas nos principais periódicos ilustrados do país, em nada representou uma ameaça para a liberdade de imprensa, como aconteceu após a proclamação da República. Nas próprias charges de Agostini (no período monárquico) o imperador figura um tipo manso e boêmio, de espírito liberal, e voltado muito mais para as curiosidades da ciência e das tecnologias surgidas em fins do século XIX, do que para a política imperial. A contemplação e interesse do imperador pelas invenções e descobertas, na realidade era um sentimento compartilhado pela maioria das pessoas que freqüentavam as exposições no continente europeu. Renato Ortiz, nesse sentido, aponta que esta atitude contemplativa frente às tecnologias inventadas na época (telefone, automóvel, escada rolante, etc.) é análogo ao sentimento que o homem moderno tem hoje em relação às novidades da tecnologia da informação.2

Por outro lado, as charges dos periódicos ilustrados da província do Maranhão, o interesse do imperador pela ciência foi fortemente criticado por uma charge, mostrando o contraste entre a admiração do imperador pela astronomia e o real estado de abandono do país. Na legenda está escrito: “Enquanto te contorces de agonia [abaixo da imagem de um índio], o teu o imperador estuda Astronomia”


1.2 A imprensa caricata maranhense
A princípio, o jornalismo maranhense antes do primeiro reinado, fora caracterizado pela linguagem crítica e combativa sem a utilização dos desenhos ditos de humor. Isso era visto em todo País como vimos acima. Desse modo, nos primeiros pasquins de natureza político-ideológico, a linguagem jornalística caracterizava-se por um texto retórico e argumentativo, dando margem, às criações literárias. A imprensa funcionava em grande parte como uma espécie de arena, onde eram travadas as disputas e altercações exaltadas entre os redatores3. Grande parte dos jornais era criado, inclusive para uma missão de combate e moralização da política e dos costumes sociais, o que é apontado pelos próprios títulos: A Balaiada, O Censor, O Observador, O Conciliador, etc.

A linguagem caricatural dos artigos demarcava também uma descrição dos personagens proeminentes da imprensa e da política. Era comum apelidar políticos. O apelido funcionava como uma espécie de “caricatura verbal”4, pois, através da linguagem literária, podia-se traçar comparações cômicas e grotescas, com base nas figuras de retóricas. A crítica e a sátira de temática política se restringia nos artigos combativos, os quais representavam um primeiro tipo de charge pelo viés literário.

No Maranhão, esse caráter foi acentuado pelos escritores da primeira metade do século, perdurando até a fundação dos periódicos ilustrados.

A imprensa maranhense em seus primórdios não continha os desenhos humorísticos. As imagens figuravam somente pequenos desenhos clicherizados, para ilustrar anúncios e para o logotipo dos jornais. Os desenhos propriamente satíricos surgiriam em um período5 tardio (1876), com a publicação do primeiro jornal ilustrado.


1.2.1 Os jornais ilustrados
O Jornal Para Todos (1876-1878) é o primeiro6 periódico a veicular os desenhos caricatos. Grande parte desses desenhos alude aos costumes, não obstante existirem charges significativas de assunto político e anticlerical. Com o Jornal Para Todos é inaugurado na imprensa maranhense um componente inédito, a imagem caricatural; muito embora circulasse pela província outros periódicos ilustrados de diferentes localidades.

O advento do desenho caricatural contrastava com a representação academicista. Esse contraste gerou certa admiração à novidade dos desenhos, o que é justificado em parte pela boa tiragem do jornal pela província. Além da charge, que era a principal atração do jornal, havia também desenhos que retratavam alguns das personalidades importantes, como cientistas, literatos e pensadores, em cujo caráter não seguia a deformação caricatural.

Após o período de publicação efêmera desse jornal, a mesma associação editoral lança A Flecha (1878-1880), jornal ilustrado, crítico e literário.

Basicamente, a padronização de A Flecha seguia a mesma de o Jornal Para Todos, mas diferia em alguns aspectos7: a ausência do folhetim, a pouca ênfase de assuntos científicos, a forte crítica política e anticlerical.



A Flecha tem como participação A. Azevedo, que após exercer atividade de caricaturista em O Fígaro e em O Mequetrefe no Rio de Janeiro, regressa ao Maranhão, enveredando para a carreira literária. Os desenhos caricatos eram realizados por João Afonso do Nascimento, o primeiro chargista da imprensa maranhense.

O romancista incide também forte influência sobre os componentes simbólicos do periódico, sugerindo possivelmente temas para as caricaturas, assim como se destacaria na redação de vários artigos contra o clero de São Luís.

Sem perdermos de vista a atividade jornalística exercida tanto por J. Afonso como Aluísio Azevedo e outros escritores da imprensa caricata, é possível afirmarmos que, em alguns casos, a linguagem jornalística esteve paralela ao estilo de desenho caricatural, uma vez que não se tratava de um jornal informativo, mas sim de caráter crítico e literário. Desse modo, as críticas se revezavam, ora na estilização do desenho, ora nas conotações satíricas e jocosas do texto jornalístico. A imagem e texto se harmonizavam e se revezavam nas críticas do jornal.

Um exemplo marcante desse revezamento pode ser visto na seção “flechadas”, de A Flecha, consistindo num arrolamento de frases curtas e satíricas, direcionadas aos segmentos da sociedade maranhense. Do ponto de vista imagético, as caricaturas cumpriam a função de ilustrar e concretizar criativamente uma crítica, muitas vezes relacionando seus temas com as matérias jornalísticas ou ao editorial.

A relação entre jornalismo, desenho e literatura era estreita nas gazetas ilustradas. Algumas legendas inscritas em algumas charges são dotados de rima ou funcionam como narrativa ao lado de cada imagem, como uma espécie de prosa visual.

Os artigos dos jornais são apoiados por uma linguagem conotada, prevalecendo uma argumentação carregada de inverosimilhança e subjetividade, embora tratando de assuntos de referencial fatual.

NA Flecha, a própria idéia de crítica é metamorfoseada de maneira lúdica e satírica num personagem indígena. No primeiro número publicado é estampado um desenho de capa, figurando de Aluísio Azevedo apoiando um índio sobre o mundo. A conotação desses elementos é logo ancorada pelas etiquetas: o mundo conota o mundo das letras, onde se travavam as batalhas e debates literários; em segundo plano, a figura do índio, personificando a índole do jornal. A legenda: “vai, só espero que vivas mais do que o defunto Jornal Para Todos”.

A figura do índio é ambivalente nA Flecha. Era consenso para maioria dos caricaturistas do século XIX condensarem nessa imagem, a idéia do País. Em muitas charges de A Flecha, o índio representava o jornal, em outros, sintetizava a nação e a província. Como dissemos, era um personagem alternativo, contestador, capaz de sintetizar politicamente o interesse pelas raízes de nacionalidade. Essa idéia, contudo, já figurava nos textos literários, nos escritores indianistas como dos de J. de Alencar e de Gonçalves Dias.

Embora com matizes de nacionalidade derivada do romantismo, a representação do nativo nos jornais ilustrados servia para contrastar com as temáticas e os personagens considerados hegemônicos. Assim, na figura indígena era sinalizada a desvantagem do país ou das camadas inferiores em relação às superiores e elitistas. No século XIX a imagem foi durante muito tempo predominante até o surgimento de Zé Povinho (criado por Rafael Bordalo Pinheiro, já naquele século) o qual substituiria o índio durante a República.

N’A Flecha o personagem nativo servia para rivalizar metaforicamente os segmentos conservadores da cidade. O índio que fora muitas vezes representado em desvantagem em relação ao europeu, agora nas charges é agressivo e consegue se defender com uma flecha (uma metáfora para a crítica).

O que é característico nessa imagem não é o índio, mas a flecha8 , o símbolo de arma mortífera, capaz ferir simbolicamente “diferentes alvos”. Essa imagem na qual aparece o índio segurando uma flecha disparando contra vários adversários, ilustra e sintetiza adequadamente o sentido e a natureza da charge do século XIX. A crítica é uma seta, cuja direção é definida e direta, indo de encontro com os adversários, sem nenhum arrodeio.

Nessa crítica não resta lugar para ambivalência de sentido, ao contrário, ela é franca e direta, como em Programa dA Flecha nessa charge que é uma abertura do periódico, aparecem vários personagens atingidos pelo teor crítico do Jornal, entre eles, o político, o cônego, o cidadão provinciano, etc.

É comum encontrar nas charges um dualismo, deixando sempre clara uma noção de valores antagônicos, basicamente as dicotômicas de correto/incorreto, esquerda/direita, progressista/arcaico, e outros conceitos similares.9 Quando muito, um maniqueísmo é presente entre as concepções progressistas e conservadores, representadas respectivamente pelos literatos e religiosos da província.

A figura do índio é significativo e não pode ser dissociada da flecha. Esta alterna nas charges com o próprio índio. Em outras palavras, há no jornal um duplo sentido de flechas: a que é atirada pelo índio, que consiste na crítica, na charge dos personagens; e a Flecha (com letra maiúscula) mediante a qual é materializada a índole crítica do jornal. Esse sentido é condensado em várias charges, nas quais aparece a figura do índio disparando com ar de deboche o ataque mortífero nos personagens.


1.2.2 Jornalismo e literatura
Dentre os sentidos do termo literatura, podemos destacar o que se refere aos textos artísticos de caráter fictício, tais como a poesia, a prosa e a epopéia e o sentido atribuído ao texto jornalístico, de caráter referencial, objetivo, com uma função informativa.

No século XIX, o jornalismo informativo caracteriza-se pela literariedade, isto é, uma construção mais estética do texto, permitindo aos escritores desenvolverem um estilo pessoal e livre das imposições de padronização, como acontece na imprensa atual.

Os jornais ilustrados seguiam essa mesma linha, contudo, havia maior liberdade para romper com as matérias noticiosas e descritivas dos fatos.

O estilo pessoal e reflexivo se devia pela formação do jornalista da época, que no geral possuía conhecimentos de retórica política e literatura. A relação desta com o jornalismo é aproximada, não só pela introdução dos gêneros literários, como a poesia, mas pela índole crítica e reflexiva no tratamento de vários assuntos. Com efeito, muito mais de que dados descritivos e objetivos da realidade, como a política e as ocorrências sociais, os artigos dos jornais eram investidos de uma linguagem argumentativa, capaz de julgar segundo um prisma ideológico10.

Porém, esse amadorismo e essa liberdade jornalística deram ocasião às agressões verbais, possíveis em uma linguagem literária, na qual seriam imprimidas as figuras de retórica. Através da paródia, podia-se fazer abstrações poéticas e construções literárias mordazes aos adversários políticos, manifestando, assim, um combate ideológico entre setores conservadores e progressistas da burguesia. Tais rivalidades se revezavam em textos versificados, assim como naqueles de cunho prosaico.

Na imprensa maranhense, os intensos debates ocorreram com os literatos e/ou pensadores maranhenses com o clero. Jomar Moraes destacou que na década de publicação dos jornais ilustrados, se formava na província uma nova geração de escritores que tinham como apoio as proposições cientificistas11.

Ao lado dos artigos informativos estiveram presentes os artigos de natureza crítica e combativa, cujo enfoque consistia em grande parte apontar os defeitos dos opositores. Para tanto, esse embate crítico, se revestia tanto no desenho (incorporando recursos literários) como nas descrições literárias de caráter satírico. Nos jornais ilustrados maranhenses aparece o debate e controvérsias a respeito de assuntos literários. Um exemplo foi a rivalidade entre Camilo Castelo Branco e os autores brasileiros, Tomas Alves e Artur Barreiros, por causa de uma crítica do literato Camilo Castelo Branco aos autores brasileiros e portugueses.

As reações da imprensa no Brasil foram severas e mordazes, o que não deixa de se refletir nas próprias críticas de Castelo Branco, conforme assinala a Revista do Livro:

“Tomas Filho [...] fala-me com ardores canibais dos seus dentes de porcelana. É o sangue tapuia a estuar-lhe nas artérias, a pedir dentes para um colar. Não, facínora, eu lhe juro pela carapinha da mocamba sua avó que não possuirá os meus dentes. Depois Tomás Filho [o mesmo que Tomás Alves] deputa e delega na bengala de Artur a sua desforra. É dar para baixo, seus marmeladas! Avança, minhas gentes.”12

Nesse trecho é latente um sentido pejorativo evocando uma suposta selvageria dos autores brasileiros, proveniente da miscigenação. Desse modo a crítica se generaliza, atingindo não apenas um grupo de literatos, mas a um contexto social, da nacionalidade brasileira. Notamos também a habilidade do escritor português em fazer símiles grotescas de seus oponentes, igualando-os aos canibais.

Esse conflito teve repercussões na imprensa maranhense, e A Flecha destacou especialmente uma charge, satirizando de forma criativa o escritor português:

“O Camilo Castelo Branco, autor de uma imunda descompostura contra literatos do Brasil [e de] Portugal, intitulada - Cancioneiro alegre, acaba de levar uma rebordosa que lhe aplicou o inteligente Artur Barreiros e há de se lamber com uma outra que lhe está preparando o Thomas Alves e com mais outra que lhe reserva o nosso conhecido Arthur Azevedo;

Agüenta Camilo! Chupa maltrapilho da literatura, para não andares espremendo o veneno de tua sífilis contra nós.

Sume-te escarracho!

Diz alguém que o que levou é Senhor Camelo, digo Camilo a defender o Palha, foi simplesmente a simpatia que lhe inspirou tal nome”13.

O artigo faz uma metamorfose do nome de Camilo comparando-o ao animal, como se faz numa caricatura. Aliás, há uma charge, em que essa crítica se materializa, podendo-se ver cada parte do nome do escritor delineado satiricamente.

A relação entre texto e imagem é evidenciada aqui pelo revezamento. Nos desenhos, o texto está presente seja de forma direta como nas legendas e etiquetas, seja também de forma latente embutidas nas imagens, como é o caso do animal e dos objetos da charge apresentados em metáfora visual.14

Com esses exemplos, podemos inferir que, em alguns casos, a imagem gráfica com o texto jornalístico convergem para a dimensão satírica. Essa convergência só é possível pelo princípio de conotação, proporcionada pelas figuras de linguagem, existentes em uma ou outra matéria.


2 CONCLUSÃO

Verificamos até aqui que tanto no jornalismo ilustrado como na literatura se efetivou uma reflexão crítica da sociedade maranhense. Por meio desses jornais era inaugurado um elemento inédito na imprensa, a imagem caricata, consistindo num ataque simbólico aos segmentos sociais. Essas produções apontam a iniciativa e o combate ideológico num período de transição em que se aspirava a introdução da modernidade no País. Podemos deduzir que, nos periódicos ilustrados, há uma confluência entre desenho, literatura e jornalismo. Além disso, verificamos como a relação do texto e a imagem era uma realidade já presente naquele contexto, tal como vemos nos dias de hoje. Todavia no século XIX, a característica do texto é a literariedade, sejam eles inseridos nas charges, sejam nos artigos dos jornais. Em ambos os casos aparecem, indubitavelmente, uma crítica que não se restringe apenas a dimensão do cômico, na evidência dos defeitos dos personagens rivais, mas na apresentação de temas por vezes chocantes e denunciadores da realidade.

O jornalismo ilustrado trouxe inquietação na opinião pública, na imprensa e nos sistemas de representação vigentes na província. Não devemos esquecer que essa subversão se baseava nas idéias cientificistas assumidas pela burguesia progressista da época, e não numa luta de classe popular.

Antes da monarquia, os progressistas mostravam-se otimistas ante uma nova sociedade pautada na racionalidade e na moral. Era então inevitável a transferência desse dualismo opositivo nas produções jornalísticas com uma crítica direta, unívoca e confrontadora; apresentando temáticas por vezes pessimistas e denunciadoras. No que concerne à literatura, a crítica possui uma representação particular, pois é indireta, latente, menos retórica, porém sugestiva por meio da conotação. Além disso, o próprio estilo naturalista não deixou de representar certa subversão do idealismo contemplativo do romantismo, o qual se afasta das contradições da sociedade.

Evidentemente, a definição dessa postura política e ideológica dos progressistas se respaldava em uma produção jornalística independente e, portanto, sem as restrições ou censuras a nível interno das produções, tão freqüentes nos dias de hoje. Tal censura além tornar a linguagem jornalística homogênea e impessoal, influi consideravelmente na escolha dos temas e dos enfoques previamente estipulados. Por conseguinte, podem ocorrer modificações profundas nos fatos sociais e políticos. O agravante nesse processo é que não se consegue geralmente perceber as sutilezas das representações e dos discursos, pois se pressupõe que são mediadoras dos fatos adequadamente em uma linguagem referencial do ponto de vista do texto jornalístico; ou então do caráter denotativo da fotografia que tem o poder de se tornar uma substituta do próprio real. O problema que se discute aqui não é a linguagem referencial do jornalismo moderno, que assume uma importância fundamental nos dias de hoje, mas o perigo das estilizações demasiadas dos fatos e das ocorrências sociais, camuflando-os numa pseudolinguagem referencial e denotada.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁRICA


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2 ORTIZ, Renato Apud FOLHA DE SÃO PAULO, 1997.

3 Geralmente partidários políticos.

4 Caricatura verbal é uma expressão de Josué Montello a respeito de narrativas literárias de cunho satírico. Comenta o autor no prefácio do livro de Álvarus sobre a caricatura, que o apelido é um tipo de “instantâneo de caricatura verbal”, um detalhe importante e que “se ajusta mais a pessoa que o seu nome de batismo.” CONTRIM, Álvaro. Daumier e Pedro I. Departamento da Imprensa Nacional/ Ministério da Educação e Cultura, 1961.

1961. p. 10.



5 Embora lançado em 1876, só aparece nos arquivos públicos de São Luís, os números de 1877 do Jornal Para Todos.

6 Segundo a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro de 1908, o Jornal Para todos é o primeiro jornal ilustrado da imprensa maranhense. Contudo, em 1842, aparece o Museu maranhense já trazendo algumas ilustrações de personalidades históricas como o Padre Antônio Vieira. Parte dessas ilustrações não foi encontrada nesse jornal, e as poucas que aparecem não são de estilo caricatural, pois o desenho caracteriza-se pelo estilo de retrato.

7 A caricatura de costume é freqüente de aparecer no Jornal Para Todos, mas na Flecha percebemos uma crítica mais direta, com a predominância dos temas políticos do que de costumes.

8 Conforme assinala o Prof. Aluísio Trinta, a flecha do índio não é studio, mas um punctum, um detalhe significativo, capaz de preencher uma identidade numa imagem. R. Barthes diz que o punctum na fotografia nunca é codificado como ocorre com o studio, Na charge o punctum é sempre codificado e evidente para o receptor. A flecha assinala uma marca, um ponto significativo do jornal ou das charges que são veiculadas. BARTHES, Roland. A câmara clara. Trad. Júlio Castanõn Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. 185 p 1984. p. 80.

9 Atualmente uma charge com sentido mais didático manifestando um dualismo opositivo, não é comum de se encontrar nos jornais de cunho oficial, mas somente nos jornais alternativos e independentes, tais como os de sindicato,. Nesse sentido aparecem algumas críticas mais freqüentes, como a que procura desvelar as irregularidades políticas, as que procuram contrapor o mais fraco pelo mais forte, evidenciando sempre uma opressão deste sobre aquele; uma critica pautada em fundos apocalípticos, destruição, opressão, inflação. Além disso, tem-se a pouca preocupação nos aspetos humorísticos ou fisionômicos dos personagens que sempre atenuam uma crítica afrontadora e denunciativa. Quando se quer debilitar alguma crítica a algum personagem, geralmente se realiza uma caricatura, cuja crítica se restringe, quando muito, na desproporção de seus caracteres pessoais, sem nenhum perigo à sua integridade moral. Grande parte das charges veiculadas em jornais de circulação nacional como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e revistas Veja e Caras baseia-se nesse princípio de atenuamento crítico. As causas disso são complexas e variadas, indo da censura editoral sobre a produção dos chargistas; a indefinição de uma posição ideológica; a estratégia de realizar uma arte indireta, dotada de ambigüidade; ou mesmo de conceber o desenho como uma atividade lúdica e recreativa, por parte dos produtores, sem engajamento político partidário. Já os jornais alternativos demonstram no geral uma crítica combativa e confrontadora, mantendo sempre claro um dualismo de idéias e de valores. É neles também que o sentido de charge (“ataque”, “carga”) é mais original.

10 A acepção de ideologia utilizada aqui refere-se a um sentido primário, relativo às idéias incorporadas nos bens simbólicos de natureza conotativa, como a charge e os textos jornalísticos. Acreditamos que todos as produções investidas pela dobra de significações intervindas pelo homem, possuem uma natureza ideológica. Desse modo evitamos nesse trabalho o termo de ideologia de cunho marxista, de falsa consciência, isto é, pela tendência a ignorar as disparidade e contradições sociais, apelando para um discurso generalizante, como fez a burguesia dominante no século XIX. Nossa questão aqui, não é tomar partido das produções simbólicas, ratificando a posição dos literatos e pensadores maranhenses sobre a burguesia da época, ao contrário é de demonstrar como os processos discursivos, de índole lingüística, são uma realidade nos desenhos de humor.

11 MORAES, Jomar. Apontamentos de Literatura maranhense. 3ª. ed. São Luís. Maranhão. SIOGE, 1979. 273p., p. 152.

12 ALVES, Tomás. 1857-1920. Os folhetos de hop-fiog. Revista do livro. Rio de Janeiro. abr/jun. 1959 p. 125. v. 4. n.º 14. p. 126.

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