TÍtulo: Kafka e a literatura: visões infernais e paradisíacas autor



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Encontro01.08.2016
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TÍTULO: Kafka e a literatura: visões infernais e paradisíacas

AUTOR: Ana Cristina Pinto da Silva (Mestranda em Ciência da Literatura/UFRJ)

ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: Literatura Comparada

PALAVRAS-CHAVE: Literatura alemã, Kafka, O Processo

RESUMO: Uma reflexão sobre o pensamento que se delinea por trás da obra kafkiana, a partir da parábola intitulada “Diante da Lei”, que faz parte d'O Processo, tendo em mente a obra de um modo geral, sobretudo seus escritos pessoais.
Se Kafka escreveu um inferno,

era isso justificado pela idéia que se fazia de paraíso. 1
O presente ensaio pretende refletir sobre a produção literária de “um certo Sr. Franz Kafka.”2 É tão somente mais uma tentativa – modesta! – de aproximação desse escritor: homem de infinitas faces, estrela de inúmeras pontas. É preciso escolher uma das faces e mergulhar fundo no olhar que se mostra; tomar uma das pontas e deixar-se guiar por seu brilho. É somente assim que esse desafio parece acenar-me com a mão da vitória.

Aproximo-me de Kafka apoiada no pressuposto de que sua obra se volta para o protesto contra uma realidade alienante, artificial, injusta e hipócrita. Tomo por base o romance O Processo (com destaque para a parábola intitulada “Diante da Lei”, inserida n’O Processo e publicada à parte pelo próprio Kafka), fazendo referência a outros trabalhos de Kafka, em especial aos seus escritos pessoais, ao meu ver fundamentais para quem deseja aproximar-se do homem e do autor, acreditando que essa separação, na verdade, não se justifica, o que parece se comprovar ao nos acercarmos de sua biografia. É por crer no intercâmbio entre homem e autor que procedo, em primeiro lugar, a algumas reflexões a partir da biografia de Kafka atentando, evidentemente, para os fatos que mais diretamente ecoam em suas obras.

Não estou, deste modo, defendendo a visão de um autor voltado para a expressão pura e simples de uma subjetividade confusa, reflexo dos conflitos que viveu Kafka desde a infância, mas sim a de um autor que, não podendo desvincular-se dos próprios conflitos – não deixando de ser ele, Franz Kafka, indivíduo buscando compreender a si mesmo – também não deixa de enxergar os conflitos do mundo em que vive, tomando para si a quase missão de fazer o mundo enxergar-se e compreender-se. Em outras palavras, rondando o caráter fragmentário que envolve suas obras parece estar a idéia da totalidade, da interligação de tudo o que há e que parece estabelecer um elo mais forte do que se supõe entre subjetivo e objetivo, entre indivíduo e mundo, entre Kafka e o outro, entre homem e escritor. Neste ponto, preciso dar voz a NUNES e COSTA LIMA, cujas reflexões em muito colaboram para este desafio:
Ao voltar-se para o mundo exterior, longe de conseguir libertar-se do círculo senhor-escravo do qual o convívio com o pai o fizera prisioneiro, ao contrário, ele o encontrava em nível mais extenso e generalizado. (...) a experiência vivida e o conhecimento do mundo não se opõem, eles remetem um ao outro e se confirmam mutuamente.3
(...) em Kafka o movimento da palavra toma o rumo oposto ao da introjeção. Esta é repudiada porque o enredaria em presunções subjetivas – naquilo que o sujeito em causa pensaria previamente de si e das coisas, resultado que lhe desagradava porque queria que sua literatura fosse uma produção da verdade. (...) Sua questão é converter as tematizações pessoais de próprias ao espaço interno em capazes de se mover no externo.4
Franz Kafka (Praga, 1883- Kierling, 1924) é abordado pelos críticos, de uma maneira geral, como um autor complexo. Como acontece com os grandes nomes da literatura, o primeiro grande obstáculo se apresenta à tentativa de rotulá-lo ou alocá-lo numa determinada escola literária: deixa-se associar a todas e, portanto, a nenhuma. Os críticos das mais variadas tendências e guiados pelas mais contraditórias vertentes filosóficas acercam-se de suas obras e nelas encontram guarida. Recorrendo à sua biografia, o quadro que se nos mostra é o da contradição: nem judeu, nem cristão; nem tcheco, nem alemão; sem apoio da família, mas dela não conseguindo se afastar; funcionário da burguesia, mas não se adequando a ela; desejando o casamento, mas não podendo abrir mão da literatura.

Parece que, quanto mais se diz sobre Kafka, mais se tem a dizer. Daí a perenidade e atualidade de seu legado. É interessante como uma obra que, numa leitura superficial e isolada, sugere a estagnação, a conformação com o beco sem saída, possa suscitar tantas possibilidades de leitura, o que parece falar a favor da inconformação e do movimento rumo a algo mais, ao contrário do fatalismo que uma abordagem fragmentada leva a destacar.

Da biografia de Kafka ressalto algumas passagens que delineiam, ainda que precariamente, o perfil do homem por trás do autor. É impossível não mencionar Hermann Kafka ao tratar de alguns aspectos de sua vida. O pai representa, na esfera pessoal, familiar, o poder que na esfera social, pública não tem cara, mas cuja mão faz sentir seu peso o tempo todo. Tudo o que Kafka, mais tarde, vai criticar no mundo já conhecia através do pai, microcosmo que trazia em si os vícios e as contradições de um mundo caduco.

A tensão em que repousava a relação entre pai e filho está registrada na famosa Carta ao Pai, que Kafka pedira à mãe para entregar ao pai. A carta nunca chegou ao seu remetente, já que a mãe achou prudente não entregá-la. De carta pessoal tornou-se parte da produção literária de Kafka – será que não chegou mesmo ao seu destino? No trecho a seguir vemos claramente essa associação entre a figura autoritária de Hermann Kafka e a configuração que Kafka percebia de um mundo arbitrariamente dividido entre uns poucos que mandam, e para os quais as normas sorriem maleáveis, e a maioria que obedece e que só conhece a carranca das normas. O eu escravo, neste caso, não é somente Kafka mas a multidão que se curva ante leis que não consegue compreender – por serem estas absurdas:


Por isso dividia o mundo em três partes: uma,onde eu, o escravo, me encontrava, regida por leis inventadas exclusivamente contra mim, às quais, além disso, não sei por que, parecia impossível adaptar-me por completo; a seguir, outra infinitamente afastada, na qual permanecias ocupado em governar, expedindo ordens, aborrecendo-te por não serem cumpridas; finalmente, uma terceira, onde pessoas viviam alegres, livres de imposição e obediência.5
Esta passagem sugere a relevância dos assim chamados escritos privados de Kafka, os quais lançam luzes intensas sobre suas obras, permitindo maior firmeza ao nos agarrarmos às entrelinhas, que é onde se ouve melhor o grito de Kafka: dá-nos acesso ao homem e enxergamos melhor o autor.

Além dos romances, contos e novelas que produzia, Kafka escrevia diários e mantinha contato intenso com amigos por meio de cartas. Publicou alguns de seus trabalhos, mas a maior parte do que chegou a nós foi fruto da desobediência de um grande amigo seu: Max Brod não lhe atende o pedido de destruir seus escritos, e é a ele que devemos a chance de conhecê-los.

Não se pode deixar de lado o conflito intenso vivido por Kafka no que diz respeito aos seus envolvimentos amorosos, sob os quais repousa a necessidade de, por um lado, encontrar a companhia de que necessita enquanto homem e ser humano através do casamento e, por outro, manter acesa a chama da literatura em sua vida, sem a qual não pode viver, “(...) porque é escrevendo que me mantenho vivo”.6

Daí os noivados rompidos com Felice Bauer, Julie Wohryzeck, o envolvimento com Milena Jesenská, mulher casada, e a presença de Dora Dymant, vinte anos mais nova que Kafka, com quem passa a viver já na fase em que a tuberculose começa a mostrar-se mais presente, e que permanece com Kafka até sua morte. Na luta entre casamento e literatura, vence a literatura.


O mundo que Kafka presencia é marcado por inúmeras contradições, subjugado à autoridade de alguns poucos, que o governam como bem o entendem. Numa escala menor, pensemos que em Praga, onde nasce e vive Kafka, cerca de 92% da população – tcheca – consistia em uma massa de miseráveis, enquanto que um pequeníssimo grupo – alemão – usufruía de boa situação financeira. Numa escala maior, foi contemporâneo dos grandes impérios coloniais, em que os países mais poderosos apropriavam-se dos outros, através da força militar, subjugando-os e tornando-os escravos para melhor atenderem aos seus interesses. Para completar o quadro, testemunhou os infortúnios da Primeira Grande Guerra (1914-1918).

As conseqüências deletérias de um sistema que punha o ser humano em último lugar já se faziam fortemente notar, daí advindo o grande tema em Kafka: a alienação, que toma o homem de si mesmo, transformando-o numa espécie de autômato, facilmente manipulado pelas mãos da autoridade que protege a Lei e por ela é protegida, sobre a qual tudo o que se sabe é que tem de ser cumprida. Assim , a imagem do homem kafkiano é o homem acuado, desorientado frente à “ imagem dos poderes superiores, que parecem simbolizar a ordem (...); [é a imagem] de um labirinto, de uma engrenagem burocrática que é a exata representação do nosso mundo alienado, com sua organização gigantesca totalmente desumanizada.” 7 A alienação de suas personagens ressalta, portanto, a amplitude da lucidez e senso de realidade que caracterizam o autor por trás das personagens. Desta forma, vê-se enfraquecido qualquer argumento ou atitude frente à obra de Kafka que não reconheça o caráter profundamente realista que se oculta nas situações absurdas e aparentemente sem sentido: absurdo é o mundo e, para ser realista, precisa mostrá-lo como ele é. Recorro às palavras de ANDERS sobre o realismo em Kafka.



As pessoas que Kafka faz entrarem em cena são arrancadas da plenitude da existência humana. Muitas, de fato, não são outra coisa senão funções: um homem é mensageiro e nada mais que isso; uma mulher é um “boa relação”e nada mais que isso. Mas esse “nada mais que isso” não é uma invenção kafkiana: tem seu modelo na realidade moderna, na qual ele é sua profissão, na qual a divisão do trabalho o tornou mero papel especial (...) Kafka é, com a sua introdução de marionetes, o realista mais verdadeiro. 8

O homem kafkiano encontra-se emparedado, perplexo diante de um mundo que sustenta uma imensa placa onde se lê: não há saída. Tomadas a frio, suas obras não apontam soluções, não cultivam otimismo algum: é o mundo tal como se apresenta. Mas essa aparente perplexidade e apatia já é o esboço de uma inconformação, de um “não!”ao que se mostra. Parece a única forma que Kafka encontrou para expressar esse mundo: utiliza-se da matéria podre de que ele é feito, o que causa um impacto ainda maior e sugere tantas e contraditórias interpretações. Visto sob este prisma, sua obra é muito mais uma sacudidela promissora do que um pálido afago de compaixão, o que sugere ação em vez de resignação. O próprio Kafka nos tem algo a dizer nesse sentido, em uma de suas reflexões, em que se questiona sobre como combater o mundo:


A característica decisiva desse mundo é sua caducidade. Em conseqüência, se quero combater esse mundo, devo fazê-lo quanto à característica essencial, vale dizer, sua transitoriedade. Será que o posso, realmente, nesta vida e não apenas com a fé e a esperança? Desejas então combater o mundo e precisamente com armas que sejam mais eficientes que a fé e a esperança (...) em primeiro lugar vereis se as possues. 9
Entretanto, vale ressaltar que Kafka não cultivava a revolução como meio de salvação do mundo. Tendia muito mais para a transformação a partir da mudança da mentalidade dos homens do que para a violência como forma de se fazer mudança o que, em última instância, seria a troca de posições calcada no uso da força, em que um grupo subjuga o outro e faz prevalecer os seus interesses. Em suma, a dialética do senhor e do escravo: Quanto mais extensa a inundação, mais superficial e turva a sua água. A revolução se evapora, restando, aí, apenas a vasa de uma nova burocracia. As cadeias da sofrida humanidade vêm a ser simbolizadas pelos relatórios e informações dos ministérios.10

Trago para esta reflexão o romance O Processo, mais precisamente o episódio do encontro de Kafka com o Sacerdote da Catedral. Neste encontro, o Sacerdote conta a Josef K. uma estória referente a um engano. Trata-se de um texto curto que ficou conhecido entre os que estudam a obra de Kafka como a lenda ou parábola do porteiro. Foi escrita em 1914 e publicada pelo próprio autor em 1915, sob o título Vor dem Gesetz (Diante da Lei) – e este é um dado importante se levarmos em conta que Kafka publicou em vida muito pouco de sua produção literária: já sabemos que devemos a publicação de parte de sua produção a seu amigo Max Brod, que não realizou o desejo (desejo?) de Kafka de ter suas obras destruídas. Apesar de publicada separadamente, a parábola fazia parte de um capítulo do romance O Processo, que começa a ser escrito em 1914 e é interrompido algumas vezes, permanecendo inacabado. O que chegou até nós foi organizado por Brod e publicado pela primeira vez em 1925, após sua morte. Essa atitude de Kafka em publicar essa parábola isoladamente parece apontar para a importância e a autonomia que o próprio autor reconhece nesse texto. Ele fala por si só e as vozes que ouvimos são muitas, como teremos a oportunidade de verificar mais adiante.

Vou ocupar-me especificamente da parábola, mas é importante uma visão ainda que superficial do romance, em especial do capítulo em que se insere a parábola (nono capítulo). O romance trata da história de um homem que, numa certa manhã – mal se tinham aberto os olhos – é detido por um motivo que ele não conhece, obedecendo a uma Lei a qual ele não tem acesso e acaba condenado à morte por um crime que dizem que ele cometeu, mas os que dizem também não sabem do que o acusam, nem quem encabeça a acusação. Portanto, diz-se (não se sabe de quem originou a acusação) que há uma Lei (que ninguém conhece) que foi infringida (a infração também ninguém conhece). A única certeza que se tem é que aquele que foi designado infrator (quem designou não se sabe) deve pagar com a vida. Todo o romance gira em torno dessa manhã. Josef K. passa exatamente um ano tentando defender-se de um crime que não cometeu, sem que ninguém saiba, ao menos, lhe dizer qual foi a infração. A atmosfera que se apresenta é, pois, de total absurdo, aparentemente irreal, semelhante a um pesadelo. É a mesma atmosfera que se cria quando, n’A Metamorfose, Gregor Samsa acorda transformado em inseto. Ou, como no conto Na Colônia Penal, um militar mostra-se profundamente orgulhoso de sua invenção: uma máquina com requintes de crueldade para torturar infratores de leis, sem que os condenados sequer conheçam a lei que infringiram. Aparentemente irreal. Só aparentemente: lembremo-nos do homem que é tratado como um inseto; lembremo-nos da burocracia inútil que nos cerca; lembremo-nos dos campos de concentração.

Quanto mais próximo do absurdo, quanto mais Kafka dá a seus textos um aspecto de pesadelo ou irrealidade, tanto mais ele se aproxima do real, porque o real é absurdo e o ser humano vive como se dormisse um sono profundo, um pesadelo que não acaba. Daí o sentido que adquirem as palavras de ANDERS sobre o método de Kafka o qual, em princípio, pode levar a interpretações equivocadas quanto ao grau de realismo de suas obras:


Kafka deslouca a aparência aparentemente normal do nosso mundo louco, para tornar visível sua loucura. Manipula, contudo, essa aparência louca como algo totalmente normal e, com isso, descreve até mesmo o fato louco de que o mundo louco é considerado normal. (...) o método de Kafka, de colocar o espantoso como algo despojado de espanto, é completamente realista. 11
No nono capítulo, o protagonista Josef K., funcionário importante de um banco, é comunicado que deverá acompanhar um cliente italiano importante em uma visita à cidade. O ponto de encontro é a catedral. – não parece irrelevante destacar a escuridão que predomina no interior da catedral, a qual se faz alusão a todo momento. Espera em vão, pois o italiano não aparece. Josef K. está só na catedral até que entra em cena o sacerdote. Este o chama pelo nome (mas Josef não o conhece!) e começa a falar-lhe sobre o mau andamento de seu processo. O sacerdote apresenta-se como o capelão do cárcere. Ou seja: o italiano era somente um pretexto para atraí-lo até a catedral. Do diálogo entre Josef e o sacerdote destaco algumas passagens que parecem interessantes para nossa reflexão. Por exemplo, à observação do sacerdote de que Josef procura ajuda onde não se pode ajudá-lo – aqui em referência às mulheres que aparecem durante o romance, com as quais Josef acredita que pode contar – segue-se a seguinte fala do sacerdote: Será que não és capaz de enxergar a dois passos de distância?12

Mais adiante, frente ao reconhecimento de Josef quanto à atitude amável do sacerdote para com ele, afirmando-lhe que confiava nele como não havia confiado em nenhum outro membro da justiça até o momento, o sacerdote diz o seguinte: Não te enganes. (...) Ao julgar a justiça, te enganas; nas palavras de introdução à lei existe uma história referente a esse engano.13



O que se segue a esse curto diálogo é a parábola. Como prólogo gostaria de, antes, fazer uma citação de HELLER:
Apesar de sua familiaridade, ela [a parábola] mantém seu terrível encanto e mostra todas as características da arte de Kafka no máximo de seu poder, isto é, de posse daquela força que está mais no sopro suave do vento que na ruidosa tempestade – e a torna ainda mais destrutiva. Parodiando a simplicidade bíblica, ‘sancta simplicitas’, ela exprime as complicações mais profanas da inteligência e propõe perguntas infernais no tom do que é inocentemente inquestionável. Seu humor, terno e cruel ao mesmo tempo, provoca a mente, com a aparência de luz, a perder-se na completa escuridão.
Diante da Lei
Diante da lei está postado um guarda. Até ele se chega um homem do campo que lhe pede que o deixe entrar na lei. Mas o sentinela lhe diz que nesse momento não é permitido entrar. O homem reflete e depois pergunta se mais tarde lhe será permitido entrar. “É possível”, diz o guarda, “mas agora não.” A grande porta que dá para a lei está aberta de para em par como sempre, e o guarda se põe de lado; então o homem, inclinando-se para diante, olha para o interior através da porta. Quando o guarda percebe isso desata a rir e diz. “Se tanto te atrai entrar procura fazê-lo não obstante a minha proibição. Mas guarda bem isto: eu sou poderoso e contudo não sou mais do que o guarda mais inferior; em cada uma das salas existem outros sentinelas, um mais poderoso do que o outro. Eu não posso suportar já sequer o olhar do terceiro.” O camponês não esperara tais dificuldades; parece-lhe que a lei tem de ser acessível sempre a todos, mas agora que examina com maior atenção o guarda, envolto em seu abrigo de peles, que tem grande nariz pontiagudo e barba longa, delgada e negra à moda dos tártaros, decide que é melhor esperar até que lhe dêem permissão para entrar. O guarda dá-lhe então um escabelo e o faz sentar-se a um lado, frente à porta. Ali passa o homem, sentado, dias e anos. Faz infinitas tentativas para entrar na lei e cansa o sentinela com suas súplicas. O sentinela às vezes o submete a pequenos interrogatórios, perguntando-lhe por sua pátria e por muitas outras coisas, mas no fundo não lhe interessam especialmente as respostas. Pergunta como o faria um grande senhor; e sempre termina por manifestar-lhe que ainda não pode entrar. O homem, que para realizar aquela viagem teve de se abastecer de muitas coisas, emprega tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Este aceita tudo, mas diz: “Aceito-o para que não julgues que te descuidastes de alguma coisa.” Durante muitos anos aquele homem não afasta os seus olhos do sentinela. Esquece-se dos outros sentinelas e chega a parecer-lhe que este primeiro é o único obstáculo que lhe impede entrar na lei. Nos primeiros anos maldiz a gritos sua funesta sorte, mas depois, quando se torna velho, limita-se a grunhir entre dentes. E como nos longos anos que passou estudando o sentinela, chega a conhecer também as pulgas de seu abrigo de pele, tornado outra vez à infância, roga até a essas pulgas para que o auxiliem a quebrar a resistência do guarda. Por fim vê que a luz que seus olhos percebem é mais fraca e não consegue distinguir se realmente se fez noite ao redor dele ou se simplesmente são os olhos que o enganam. Mas agora, em meio à trevas, percebe um raio de luz inestinguível através da porta. Resta-lhe pouca vida. Antes de morrer concentram-se em sua mente todas as lembranças e pensamentos daquele tempo em uma pergunta que até esse momento não tinha ainda formulado ao sentinela. Como seu corpo já rígido não se pode mover, faz um sinal ao guarda para que se aproxime. Este precisa inclinar-se pois a diferença de dimensões entre um e outro chegou a fazer-se muito grande em virtude do empequenecimento do homem. “Que é o que ainda queres saber?”, pergunta o sentinela. “És incontestável” “ Dize-me”, diz o homem, “se todos desejam entrar na lei, como se explica que em tantos anos ninguém, além de mim, tenha pretendido fazê-lo?” O guarda percebe que o homem está já às portas da morte, de modo que para alcançar o seu ouvido moribundo ruge sobre ele: “Ninguém senão tu podia entrar aqui, pois esta entrada estava destinada apenas para ti. Agora eu me vou e a fecho. ” 14
É interessante notar que o homem que se aproxima da porta da Lei é um homem simples – um camponês. A porta aberta de par em par como sempre dá a ilusão de que a lei sempre esteve lá é e acessível a todos. Mas o camponês não pode entrar. Aberta, parece oferecer-se a quem queira conhecê-la. Mas há um guarda à sua frente, que funciona como uma espécie de tranca invisível, mantendo a porta aberta fechada.

Outro ponto relevante para esta reflexão é o caráter simbólico da escuridão associada à cegueira que é, como já destaquei, enfatizada ao longo do capítulo nono. É na velhice, cego, que o camponês em meio às trevas, percebe um raio de luz inestinguível através da porta. Pode-se, talvez, associar a esta passagem o caráter idealista e inconformado da juventude em oposição à atitude realista e conformada da maturidade. Se não for nenhum absurdo dizermos que o velho camponês representa o provável futuro de Josef K., é possível entender-se a superioridade que Josef K. atribui a si mesmo durante todo o romance, bem como a confiança que deposita no chamado Estado de Direito, como empecilhos que não o deixam ver a realidade. Na verdade, essa segurança que o acompanha – pois sabe que não cometeu crime algum e, portanto, não há porque temer – esconde uma certa ingenuidade em relação à realidade em que está imerso. É só no fim da vida, cego, que ele reconhece essa realidade, que consegue enxergar.

Parece igualmente significativo que o porteiro da Lei não envelheça com o passar dos anos, somente o camponês, o que deixa entrever o caráter estático, paralisado da Lei: mudam os homens, muda o mundo, mas a Lei não muda.

A partir de Kafka, segundo COSTA LIMA, a idéia de estabilidade do texto é profundamente abalada: percebe-se em Kafka o oscilar entre subjetivação e objetivação. O autor introduz a questão da indecisão kafkiana. Ao tratar do incômodo causado pela obra kafkiana no que diz respeito à interpretação, o autor conclui pelo empenho de Kafka em encontrar um meio interposto entre a subjetividade e o mundo externo que permita a objetivação daquela. 15 Deste modo, ainda segundo COSTA LIMA, sua atitude coloca-se entre a instabilidade (enquanto “expressão profunda de um eu”) e a estabilidade semântica (enquanto “vontade de objetivação da verdade [que] não se chocava com o pressuposto da estabilidade semântica do texto.”). Portanto, a parábola guarda em si traços da experiência do homem Kafka frente à autoridade paterna que não se deixava questionar, e que avançava contra ele ao menor sinal de desobediência. O pai mantinha as portas fechadas assim como o guarda daLei.

O caráter indeciso da parábola – e, portanto, a dificuldade em se buscar sentidos, a instabilidade semântica – é reconhecido e discutido pelo sacerdote e Josef K. após a narração da mesma. O que se segue à parábola, ainda no mesmo capítulo nono, é nada mais do que tentativas de interpretação, cuja base está em se decidir quem enganou e quem foi enganado. Ao longo da discussão, cada possibilidade de interpretação é trazida à tona e imediatamente descartada pela próxima: o que está implícito na conclusão é que todas são possíveis, mas nenhuma é suficiente. A passagem que segue ilustra bem essa conclusão: Josef, em princípio, não acredita que o guarda estava em engano. No entanto, após a argumentação do sacerdote, não se mostra mais tão convicto de sua crença:
Pois está bem fundamentado – disse K., que tinha repetido para si à meia voz algumas passagens da explicação do eclesiástico. – São opiniões bem fundadas e eu também acredito agora que o guarda estava em engano. Mas nem por isso me afasto de minha primeira opinião, pois ambas coincidem parcialmente. 16
Mais à frente, o sacerdote encerra a discussão com as seguintes palavras: não é preciso considerar verdadeiro tudo o que diz. É preciso considerá-lo apenas necessário.

Ao final da parábola, a pergunta do velho camponês parece simples: se todos desejam entrar na lei, como se explica que em tantos anos ninguém, além de mim, tenha pretendido fazê-lo? A resposta, no entanto, apresenta-se enigmática: Ninguém senão tu podia entrar aqui, pois esta entrada estava destinada apenas para ti. Agora eu me vou e a fecho. Uma possível reflexão sobre esta resposta nos é dada por BEUTIN:


O processo movido contra Josef K. é um processo que se desenrola no interior de um indivíduo e no qual só pode intervir aquele que o reconhece e aprende a libertar-se da fixação na autoridade de poderes exteriores. 17
O papel do leitor na vida da obra é inquestionável, qualquer que seja o autor. No caso de Kafka, esse papel parece assumir relevância ainda maior. Uma vez escrito, o texto quer ser lido; o ato de escrever só se justifica pelo desejo de ser lido, na pior das hipóteses, ao menos por quem o escreveu. Do contrário, não haveria motivo para tal esforço, ainda se considerarmos a função de válvula de escape que a literatura desempenhou em sua conturbada vida (não parece absurdo pensar que, não fosse seu talento para a atividade literária, Kafka teria vivido muito menos do que quarenta anos). É, portanto, a chama do leitor que aquece a obra kafkiana, sem a qual esta permanece gélida, paralisada, tal e qual as personagens. É o leitor que pode fazer brilhar o sol que se esconde por detrás das nuvens carregadas de desânimo – as nuvens não deixam ver o sol, mas é preciso não esquecer que ele está sempre lá.

Aqui me recordo da intenção de Kafka em ter seus textos destruídos. Nada o impedia de fazê-lo ele mesmo, no entanto, incumbiu o amigo Max Brod dessa tarefa. Por que não o fez? Se desejasse verdadeiramente que não ficasse vestígio de suas visões, não os teria ele mesmo destruído?


“Como é esse mundo?” Parece ser esta a única pergunta que Kafka tenta responder. Chegando-nos um pouco mais perto, entretanto, é possível ouvi-lo dizer baixinho: “o que fazer para mudar esse mundo?”

Suas visões são, ao mesmo tempo, demoníacas e paradisíacas: apontam para a felicidade e a infelicidade; denunciam a crueldade e o absurdo do mundo que se lhe apresenta mas, subjacente a essa denúncia, parece mostrar-se uma pontinha de luz, a possibilidade de que o mundo seja diferente. A figura que se me esboça após a leitura de suas obras não é a de um autor puramente orientado por idéias metafísicas e religiosas (embora haja, sem dúvida, sinais que permitem essa leitura), sem nenhum compromisso com a realidade social e política da época em que viveu. Defendo um Kafka que, à sua maneira, grita o que não pode ser e nos convida a mudar. Esse grito, no entanto, esconde-se atrás da aparente conformação das personagens e da nuvem de normalidade que se espalha sobre seus textos, que parece paralisar personagens e leitores e mostrar o próprio autor paralisado. Posso ouvir o grito, meio sufocado – pois a realidade é sufocante; posso ver um autor que empunha a espada da ação – embora titubeante e meio desnorteado – pois que se move em um espaço labiríntico. Posso ver, nos homens de Kafka, um resquício de esperança, uma chama que quase não se deixa notar por detrás das ruínas que suas obras parecem deixar. Mas que não deixa de ser chama à espera de quem a reavive; a chama de um otimismo tímido que cabe a nós, leitores, cuidar para que se espalhe. A voz que ouço cada vez que termino a leitura de seus escritos diz-me o seguinte: assim está o mundo, mas ele não quer, nem deve estar assim para sempre. Mas essa voz só se faz ouvir ao tomarmos sua obra como um todo, considerando não só romances, novelas, mas também cartas e diários; olhando não só para Kafka, o autor, como também para Franz, o homem.

Talvez as ruínas que, de forma geral, é tudo o que sobra ao final de suas obras seja uma destruição simbólica de tudo o que o mundo não deveria ser. Considerando a destruição como o vazio, e o vazio como o espaço que guarda todas as possibilidades, onde o novo pode surgir – e onde o velho pode ressurgir, é bom não esquecer – não parece tão absurdo vislumbrar no pessimismo de Kafka uma faísca de otimismo, de esperança no homem e no mundo. Seu texto parece sofrer a influência da timidez que lhe era imanente. Traduzindo em termos estéticos: tímido, o texto kafkiano não consegue dizer mais abertamente a que realmente veio, o que lhe parece conferir um caráter ainda mais metafórico, calcado em imagens ambíguas e que se entrelaçam, dificultando-nos a caminhada em busca de sentido, tornando-o um texto que mergulha ainda mais fundo nesse oceano a que chamamos literatura.

Referências bibliográficas

ANDERS, G. Kafka: pro e contra. SP: Perspectiva (col. Debates), 1969, 106 p.

BEUTIN, W. (org). A República de Weimar. In: História da literatura alemã das origens à atualidade. v.2, Lisboa: Apáginastantas, edição Cosmos, 1993.

COSTA LIMA, L. Limites da voz: Kafka. RJ: Rocco, 1993.

DELEUZE & GATTARI. A literatura menor. In: Kafka: por uma literatura menor. RJ: Imago, 1977, p. 25-42.

HELLER, E. Kafka. SP: Cultrix e Editora da Universidade de São Paulo, 1976.

KAFKA, F. O processo. SP: Martin Claret, 2001.

_____. A metamorfose. Um artista da fome. Carta ao pai. SP: Martin Claret, 2001.



NUNES, D. Franz Kafka: vida heróica de um anti-herói. RJ: Bloch, 1974.


1 Jean Wahl. In: NUNES,p. 66

2 Título do primeiro capítulo da biografia de Kafka por NUNES (1974)

3 Ferenzi. In: NUNES, p. 60

4 COSTA LIMA, p. 65

5 Carta ao Pai. In: NUNES, p. 51-2

6 Cartas à Felice NUNES, p. 234.

7 Rosenfeld. In: NUNES, p. 59


8 ANDERS, p. 51

9 Kafka. In: NUNES, p.71

10 Kafka.Cit. em Gustav Janouch, Conversations with Kafka. In: NUNES, p. 70.

11 ANDERS, p.16-20


12 KAFKA, p. 238

13 Id. ibid. p. 239

14 KAFKA. P. 239-241

15 COSTA LIMA, p.66

16 KAFKA, p. 245

17 BEUTIN, p. 155



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