Título: multiplicasus: a história de um projeto em educaçÃo continuada



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Título: MULTIPLICASUS: A HISTÓRIA DE UM PROJETO EM EDUCAÇÃO CONTINUADA



Autores:
Marcia Helena Nerva Blumm; Filiação: Wladimir Gilberto Dânia Nerva e Iara da Cunha Nerva); Brasília/DF; Brasil.

Silvana Solange Rossi; Filiação: Luiz Rossi e Dorothea Pinton Rossi); Brasília/DF; Brasil.

Guadalupe Paranaguá Santana; Filiação: Raimundo Santana e Magnólia Paranaguá Santana; Brasília/DF; Brasil.
Palavras-chaves: Educação Permanente; Multiplicador; Sistema Único de Saúde; Ministério da Saúde; Problematização.
Introdução
Este artigo aborda de forma descritivo-analítica um projeto de formação dirigido aos trabalhadores do Ministério da Saúde, em desenvolvimento há dois anos, inserido na política de educação permanente em saúde, implicando os trabalhadores na construção e disseminação do conhecimento sobre o seu processo de trabalho.

O Projeto MULTIPLICASUS nasceu da constatação da necessidade de criação e manutenção de espaços de discussão e reflexão acerca do Sistema Único de Saúde (SUS) entre os trabalhadores do Ministério da Saúde. Seu objetivo é contribuir para a desalienação provocada pela fragmentação do processo de trabalho em saúde, especialmente na esfera federal, pelo desconhecimento exposto pelos próprios trabalhadores, em relação à complexidade do Sistema pela frágil identidade do trabalhador federal de não se perceber como parte do SUS.

A partir da realização de uma ausculta preliminar acerca das expectativas e necessidades dos trabalhadores dos diversos setores da estrutura organizacional do Ministério da Saúde, constatou-se a urgência de implementar esse Projeto e o desafio de sua manutenção e permanência.

A complexidade do ideário do SUS, suas leis e normas e as dificuldades enfrentadas para sua implementação, principalmente do ponto de vista dos seus princípios, fizeram deste Sistema um modelo de democracia para o mundo, uma utopia possível para os países em desenvolvimento e um objeto desconhecido para alguns sujeitos que nele operam. Desvendar esse objeto e simplificar sua complexidade tornou-se um desafio e o MULTIPLICASUS, hoje, é um lócus privilegiado – um espaço de reflexão crítica das ações educativas em saúde. A concepção do SUS é o eixo orientador da atuação de todos os que trabalham no setor saúde e, neste sentido, é o conhecimento acerca do SUS que está sendo construído e apropriado coletivamente.

A concepção de um processo de formação ao mesmo tempo inovador, inclusivo, que permita a visualização dos processos políticos em curso, e também a auto-identificação e o reconhecimento dos trabalhadores como protagonistas do processo, desafia as abordagens tradicionalmente utilizadas nos cursos de Política de Saúde.

Nesse sentido, o Projeto MULTIPLICASUS vem sendo construído buscando a valorização dos trabalhadores da saúde, o resgate de suas identidades organizacionais e a construção coletiva de um conhecimento básico e compartilhado acerca do SUS.


Fundamentação Teórica


A proposta de educação voltada para os trabalhadores do Ministério da Saúde visou, numa primeira etapa, criar um dispositivo de formação de multiplicadores de conhecimentos construídos coletivamente. Por função multiplicadora entende-se a implicação dos trabalhadores num processo de educação permanente em saúde, desempenhando papéis de construtores e de transmissores de conhecimentos. A idéia é fomentar a capilarização do saber acumulado acerca do SUS, promovendo a sua apropriação e disseminação por parte do conjunto dos trabalhadores deste Ministério.

O desafio de trabalhar conteúdos de forma participativa numa abordagem além da narrativa histórico-crítica da construção da política e de um sistema público de saúde no Brasil, que permitisse a cada um dos participantes o reconhecimento do lugar ocupado nessa cadeia, identificando as potencialidades e os limites de sua atuação individual e coletiva foi tomado pelo grupo de trabalhadores voluntários, assessorados por consultores oriundos de universidades e trabalhado em diversas reuniões.

Superar as concepções tradicionais de educação e constituir uma cultura crítica entre profissionais da saúde, capaz de levar adiante práticas inovadoras e ativas neste terreno são questões consideradas fundamentais para a efetivação das mudanças necessárias à implementação da educação permanente em saúde, que propõe o pensamento crítico como indispensável para mudanças de práticas.

As transformações fundamentais que estão ocorrendo no mundo do trabalho desencadeiam grandes inovações, seja no setor tecnológico ou organizacional. Estas transformações demandam a formação de profissionais com capacidade de diagnosticar e solucionar problemas, de tomar decisões, de criar, de intervir, de trabalhar em equipe, de auto-organizar-se e de reconstruir-se num ambiente em constante modificação.

O conteúdo foi discutido e construído coletivamente, oferecendo uma formação prático-crítica conectada com a formação histórico-social do sistema de saúde do Brasil, aliada às novas diretrizes preconizadas na gestão atuante. Os conteúdos e os recursos metodológicos foram organizados nessa perspectiva.

Considerou-se que a formação ética, técnica e política de trabalhadores/ multiplicadores também seria de fundamental importância neste processo, consoante com o movimento de formação de facilitadores de educação permanente em saúde – instrumento de problematização e mecanismo para trabalhar as práticas e refletir sobre a realidade de trabalho.

Nesse sentido foi proposto, num primeiro momento, a realização do Módulo Introdutório sobre o SUS para a formação de multiplicadores que se seguiria de encontros regulares para o acompanhamento do processo.

Os multiplicadores não só vivenciaram o Módulo Introdutório SUS, como participaram ativamente na sua construção e desenvolvimento. Essa vivência tornou-se a oportunidade para a (re) elaboração dos conteúdos abordados, culminando na construção de um curso básico sobre o SUS a ser oferecido ao conjunto dos trabalhadores do MS, batizado de “(Re) Descobrindo o SUS que temos, para construirmos o SUS que queremos”.

Após a conclusão dessa etapa, fez-se necessária formação pedagógica para que os multiplicadores iniciassem suas atividades de multiplicação. Para tanto, foi agendado um laboratório para teste da proposta finalizada, para a validação da proposta final, e a oficina de capacitação pedagógica para possibilitar aos participantes uma análise crítica sobre processo de capacitação, por meio da vivência do processo pedagógico da problematização, levando em conta os seus pressupostos e o reconhecimento de suas potencialidades e limitações.

A metodologia escolhida foi a problematização que, centrada na reflexão do cotidiano, estimula um processo de desconstrução e de busca de novos e diferentes saberes que compõem e possibilitam uma nova construção desse cotidiano, que é dinâmico e provisório. Essa forma de aprendizado leva a pessoa, segundo Bordenave (1988), a desenvolver habilidades de observação, análise, avaliação, cooperação entre os membros do grupo e superação de conflitos, além de possibilitar o desenvolvimento de tecnologias culturalmente compatíveis.

Uma das ferramentas mais importantes para a qualidade na prestação de serviços de saúde é a abordagem educativa, direcionada aos profissionais de saúde e aos vários setores da sociedade, na perspectiva da capacitação ética e técnica, para ações eficazes de gestão, promoção, prevenção, assistência e formação profissional. Portanto, neste momento, tanto a saúde quanto a educação buscam caminhos para construir um sujeito em estado permanente de aprendizado, aprendendo a aprender, aprendendo a ensinar e ensinando a aprender. O adulto aprende aquilo que faz – é o sujeito de sua aprendizagem e constrói seu próprio conhecimento.

O foco da capacitação pedagógica para formação de multiplicadores do Projeto MULTIPLICASUS é a análise crítica do material instrucional do Curso “(Re) Descobrindo o SUS que temos para construirmos o SUS que queremos” do ponto de vista pedagógico, visando à preparação dos multiplicadores para a condução do curso.

A fundamentação teórica do Projeto MULTIPLICASUS baseou-se, também, no modelo andragógico que tem como eixo norteador o “ensino para adultos” e que, em suma, é um estilo de vida, sustentado a partir de concepções de comunicação, respeito e ética; onde o professor (facilitador) e os alunos (participantes) sabem que têm diferentes funções, mas não há superioridade e inferioridade. Paulo Freire (1987), em “Pedagogia do Oprimido”, afirma: “Ninguém educa ninguém, nem ninguém educa a si mesmo: os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. É a idéia do respeito ao saber do outro, de uma construção conjunta do conhecimento, a partir – e, sobretudo – da realidade do sujeito.

A montagem de um processo de formação que seja ao mesmo tempo inovador, inclusivo e que permita não só a visualização dos processos políticos em curso, como também, a auto-identificação e o reconhecimento dos trabalhadores como protagonistas do processo, está sendo o desafio enfrentado na construção desta proposta.

A História do MULTIPLICASUS

O Ministério da Saúde, por meio da Subsecretaria de Assuntos Administrativos, vem investindo esforços na qualificação dos trabalhadores do componente federal do SUS, com o desenvolvimento de projetos de educação e formação profissional.

Dentre os principais projetos destacamos o MULTIPLICASUS que visa à capacitação técnica e pedagógica dos trabalhadores para atuarem como multiplicadores do curso básico “(Re) Descobrindo o SUS que temos para construirmos o SUS que queremos”, com duração de 24 horas, direcionado a todos os trabalhadores federais. Seu propósito é constituir um espaço de discussão e análise acerca do Sistema Único de Saúde (SUS), identificando-o como um processo histórico e socialmente construído.

Os objetivos do MULTIPLICASUS são: 1. resgatar o lugar e a identidade dos participantes no contexto organizacional; 2. situar os participantes em relação à organização de saúde na qual estão inseridos; 3. conhecer e analisar o processo histórico de construção do sistema de saúde no Brasil; 4. identificar o SUS como modelo legalmente constituído, seu processo de construção, com os avanços e dificuldades; 5. identificar os desafios contemporâneos do SUS frente às principais políticas e diretrizes propostas hoje pelo Ministério da Saúde.

O Projeto MULTIPLICASUS está acontecendo no nível central desse Ministério desde fevereiro de 2004 e até o momento foram formados 60 multiplicadores que realizaram 50 cursos básicos para 1000 trabalhadores. Vale ressaltar o baixo custo do referido Projeto, pois é realizado pelos trabalhadores que se agendam previamente.

A estratégia do Projeto tem sido bem avaliada pelos participantes, com repercussão positiva entre os trabalhadores e gestores do nível central, principalmente no que se refere à valorização do trabalhador.

O Projeto MULTIPLICASUS tem ampliado sua abrangência incluindo as “Rodas Temáticas” que são palestras ministradas por especialistas e gestores – trabalhadores do Ministério da Saúde, sobre temas atuais relativos às políticas de governo, resultados de pesquisas e ações inovadoras de interesse dos trabalhadores. Todos os meses um novo tema é trabalhado. Há espaço interativo, pela intranet do Ministério da Saúde, com enquetes sobre os temas para sugestões, que são enviadas aos expositores para subsidiar a abordagem do tema e para orientar o debate. As Rodas são transmitidas em tempo real para todos os computadores em rede do Ministério da Saúde e serão editadas posteriormente. A Biblioteca Virtual do Ministério da Saúde arquiva e publica todo o conteúdo e material relativo às Rodas.

Este é o MULTIPLICASUS se multiplicando. Ele contagia a todos que compartilham da idéia de um “Ministério Único da Saúde”, de um SUS que dá certo, idéias que nascem após o encerramento de cada turma do “(Re) Descobrindo o SUS que temos para construirmos o SUS que queremos”. O sentimento de se sentir parte desse Sistema é o que motiva a todos que comungam dessa idéia. E ele não pára por aqui. A conjunção de esforços nos ajuda a lutar pela consolidação desse sistema de saúde plural, equânime e universal.


Principais Resultados – avaliação dos participantes e efeitos produzidos
Destacam-se, a seguir, alguns depoimentos dos participantes do Projeto, seja facilitador ou participante, que comprovam a repercussão positiva do MULTIPLICASUS.

Multiplicadores / Facilitadores

“O curso tem uma seqüência lógica de crescimento do conhecimento sobre SUS muito didática. Isto ajudou na ampliação e organização das informações já conhecidas, proporcionando uma contextualização do meu trabalho no MS e no panorama sócio-político de saúde pública no país”.


Além de ampliar os conhecimentos acerca do SUS é uma oportunidade de re-visitar temas relacionados ao nosso cotidiano de trabalho, ao tempo em que nos põe em contato com os colegas dos demais setores – oportunidade em que se socializa experiência e toma-se conhecimento dos diferentes processos de trabalho”.
“A aquisição de novos conhecimentos e novas habilidades, que serão de grande importância para as minhas atividades, não só como trabalhador da área de saúde, como também como cidadã comprometida com a qualidade dos serviços de saúde da população”.
“Conhecimento da metodologia da problematização e sensibilização quanto à importância de participar de processos democráticos”.
“Trabalhar no projeto e para o projeto resultou em grande crescimento profissional”.
“Desconstruir aquela velha imagem de que o ‘mestre’ deve saber tudo e que é somente o conhecimento que o habilita a dar aulas. Isto fez com que amadurecesse em mim a idéia de poder contribuir para a construção do SUS em meu local de trabalho”.

Participantes do Curso “(Re)Descobrindo o SUS”
“Vou saindo com uma bagagem de conhecimentos fantástica e proveitosa. Adorei saber o que é o SUS e e que está funcionando e, mais ainda, a consciência de que sou SUS também e, com essa descoberta vou ser mais participativa e tentar controlar e ajudar o SUS a crescer”.
“Sem medo de errar, posso afirmar que o conhecimento aprendido alcançou muitos objetivos, atendendo por completo minhas expectativas, sei que a partir de agora poderei ser uma multiplicadora, passarei um pouco dos meus conhecimentos para construirmos o SUS que queremos”.
“Passados cinco dias de treinamento, posso afirmar que me sinto incluído, de fato, no sistema. O curso fez com que eu pudesse entender realmente o SUS. O que antes era apenas uma sigla, que denotava a vergonha do serviço público de saúde, tornou-se, para mim, um exemplo de empenho para a melhoria deste serviço que tanto necessitamos – a saúde”.
“O projeto atendeu além das minhas expectativas. Sinto como se tivesse feito um passeio por todo o Sistema (SUS). Muitas portas e janelas foram abertas e cabe-me entrar em qualquer uma delas quando quiser aprofundar no assunto. Sinto-me, agora, parte integrante do SUS e mais uma multiplicadora. O projeto precisa continuar, pois os resultados a longo prazo, principalmente, serão mais do que satisfatórios”.
“Achei bastante interessante o caráter participativo e dinâmico do curso. Recomendaria para todas as pessoas que trabalham nessa área e para qualquer cidadão interessado na saúde do país”.
Podem ser destacados alguns pontos positivos, como: palestrantes conhecedores do assunto SUS; aulas interativas; recursos pedagógicos; curso humanizado; troca de experiências e relacionamento interpessoal e a organização.

Considerações Finais
O Projeto MULTIPLICASUS teve data de nascimento, mas não tem data para finalizar. Por isso todos os participantes vêm se empenhando em torná-lo um programa em cujo bojo se encontrem todos os trabalhadores da saúde que sonham com um SUS melhor, um SUS que dá certo.

No momento trabalha-se no projeto de descentralização do MULTIPLICASUS com oficinas regionais marcadas para setembro/2005 em Belém, Recife e São Paulo. A intenção é oferecer o curso “(Re) Descobrindo o SUS que temos para construirmos o SUS que queremos” e a “Oficina de Capacitação Pedagógica para a formação de Multiplicadores” para os trabalhadores dos Núcleos de representação nos estados, autarquias e fundações vinculadas ao MS, que assumirão a responsabilidade de levar o “(Re) Descobrindo o SUS que temos para construirmos o SUS que queremos” a todos os trabalhadores de saúde de seus estados.

Esse é o sonho e é possível – a conjunção de esforços e a vontade de ver o SUS dando certo em todos os rincões deste País é o que move toda a equipe e dá alento para a luta.
Jamais pude entender a educação como uma experiência fria, sem alma, em que os sentimentos e as emoções, os desejos, os sonhos devessem ser reprimidos. Exatamente assim é que vejo os professores e os alunos, serem com alma, sonhos, emoções e desejos, ávidos por ensinar e aprender”.

Paulo Freire



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



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