Tudo que brilha é ouro-branco – as estratégias das elites algodeiro-pecuarísticas para a construção discursiva do Seridó norte-rio-grandense



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Tudo que brilha é ouro-branco – as estratégias das elites algodeiro-pecuarísticas para a construção discursiva do Seridó norte-rio-grandense
Muirakytan K. de Macêdo

mkm@seol.com.br

Mestre em Ciencias Sociais

Professor do Departamento de História e Geografia – UFRN – Campus de Caicó

Resumo:


Neste artigo analisamos como o espaço seridoense foi pensado pela elite algodoeiro-pecuarística do Rio Grande do Norte à época do processo de mudança do eixo político potiguar do litoral para o sertão, na década de 20. Um dos elementos que assomam do discurso dessa elite é um Seridó – região localizada no semi-árido do estado - apreendido unilateralmente como espaço voltado quase que exclusivamente para a produção cotonicultora.
Palavras-chaves: regionalismo, Seridó, Economia Algodoeira

Pedras e pedras. Luar sobre as grotas e os xiquexiques. Sertão. A fibra do homem e do algodão. Caicó, região do Seridó. A terra e seus contrastes. Do mais árido chão floresce o algodão mocó, fibra longa, o melhor do país.

O açude do Itans é uma espécie de Nilo Sertanejo. Húmus. Homens fortes que tiram força e perseverança das águas barrentas. Tucunarés e pirarucus se escondem nessas águas. Do desafio da terra o homem extrai o suave milagre. A melhor carne de sol. O melhor queijo de coalho e de manteiga. Outros produtos de exportação, bens duráveis, não perecíveis: a sinceridade sertaneja, a amizade inconfundível.
http://www.redetropical.com.br/caico.htm


Seridó em bites arcaicos

O hipertexto acima, encontrado na home page de uma estação de rádio de Caicó, é um pequeno exemplar da configuração ainda locucionada pelo regionalismo seridoense nos dias correntes. As peças imagéticas que formam esses enunciados demonstram que não existe arbitrariedade na escolha e manipulação dos elementos do discurso. Na verdade ele é uma espécie de palimpsesto que não guarda nada de original, é um discurso compósito construído por camadas de saberes e dizeres que se amalgamaram segundo as premências históricas da região. Se seguem em linguagem binária pelas infovias, não significa que a forma discursiva é nova ou tampouco moderna.

Não é preciso muito esforço para de pronto percebermos que alguns desses enunciados já foram construídos desde o século passado e outros datam da primeira metade do século atual. Dentre esses enunciados presentifica-se aquele paralelismo do meio natural seridoense com um outro da história bíblica: ambos denotando a escolha providencial que sela o destino de provação de uma sociedade, sem exaurir a esperança vivida por ela.

Essa identificação é consubstanciada, por exemplo, na constante comparação dos mananciais d’água (rio ou açude) seridoenses com o seminal Nilo egípcio, como também através da compreensão do malsinado sertão seridoense como um espaço da promissão: promessa divina expressa a partir dos milagres suaves que brotam, a despeito de tudo, do limbo quase nulo do deserto. Esses enunciados foram inaugurados no Seridó em meados do século passado por um engenhoso fazendeiro do Acauã, Manoel Antônio Dantas Correa que escreveu no inverno de 1847 a sugestiva crônica meteorológica.i

Refere-se também o hipertexto àquela semelhança da têmpera pétrea do seridoense com o áspero meio natural em que vive, à semelhança do que líamos no jornal O Povo em fins do século passadoii. E por último, há também um elogio à excelência dos produtos pecuarísticos que atravessam a história do Seridó desde a gênese de seu espaço.

Uma passagem nessa pequena poesia em prosa é, no entanto, “nova” frente às matrizes discursivas que estudamos nos capítulos anteriores. Trata-se da identificação das virtudes do homem sertanejo com a qualidade da fibra do algodão produzido no Seridó. Um disparate: no Seridó não há atualmente uma só lavoura de algodão de que poderia se ufanar o hipertexto.

Colocados à disposição dos insones internautas, o texto tal como se encontra escrito não corresponde à realidade seridoense. Esse fato não é todavia surpreendente se ponderarmos que os discursos regionalistas não intentam atingir a objetividade. Por serem parte expressão da vontade de poder - e por que não, do desejo -, e parte estratégia do marketing laudatório comum a qualquer regionalismo, este Seridó efetivamente não existe de se tocar, sobrevive no imaginário dos seridoenses a partir de sua existência forjada no discursoiii.

O Seridó parece não ter base tangível para a significação dada a ele nas cabeças e bocas. Os significantes parecem divorciados dos significados. A paisagem hoje do Seridó não mais é pontilhada pelas plumas de algodão que branqueavam a perder de vista os campos sertanejos. Sua economia não mais produz o ouro branco e principalmente a sua mais nobre variedade, o mocó. Todavia, a persistência do algodão no regionalismo seridoense é tal que, nos dias atuais, embora sendo a cotonicultura apenas um residual traço estatístico no Seridó, esse produto continua a gerar valores simbólicos.

O algodão é muito freqüentemente lembrado nos períodos em que são discutidas propostas de soerguimento econômico da região. Nesses momentos as falas que pensam a crise, reencenam um Seridó orgulhoso de si, exportador de um produto cuja excelência foi reconhecida no Brasil e no exterior. Neste sentido, mesmo ausente, o algodão ocupa um lugar no espaço como persona imagética na formação da paisagem regionalistaiv.

Poderíamos atribuir a persistência simbólica do Seridó - que ainda é algodoeiro no imaginário dos que vivem nesse espaço - à própria crise vivenciada pela região a partir da década de 70 deste século, quando declina irreversivelmente a produção cotonicultora. Essas celebrações post-mortem são parte de uma rede discursiva que monta a defesa de uma certa região que defronta-se, sem partejar respostas convincentes, com a realidade da urbanização e da superação do setor primário pelo terciário.


Plumas pagãs
Atividade econômica inicial do Seridó, o criatório não é celebrado nesta crise. É o resultado de não se associarem a ele, as imagens de superação regional. Interessante observarmos que a pecuária não foi pródiga em elaborar símbolos no imaginário regional de forma tão laica quanto a cotonicultura. A pecuária está associada à origem do Seridó, ao ambiente do misticismo católico coetâneo à fundação das primeira cidades seridoenses. Afinal Sant’Ana, padroeira de vários municípios seridoenses, é também a padroeira dos pastores. Vaqueiro e padroeira são, por exemplo, o ponto de partida da narrativa lendária da criação de Caicó, elementos de seu mito de origemv.

Há razões para que a simbologia provocada pela cotonicultura adquira um sentido laico. O algodão foi cultivado com melhor proveito seja no solo, seja no discurso, na esteira do movimento republicano - ainda em fins do Segundo Império - e além dele, quando a República ensaia seus passos titubeantes. Ora, no Rio Grande do Norte, a partir da década de oitenta do século passado, o algodão dá mostras de que iria tendencialmente superar o açúcar como o produto que mais contribuía para a receita estadual.

Notemos que a essa época os locutores do regionalismo seridoense foram em grande parte formados por elementos das elites seridoenses, cuja formação intelectual era vincadamente marcada pelas idéias laicas da Faculdade de Recife e, numa palavra, nicho do republicanismo que influenciou quase todos os acadêmicos seridoensesvi .

Diante disso, poderíamos mesmo supor, que a partir de todos estes elementos, houve uma certa descristianização dos símbolos agrários do Seridó que provinham de significações inspiradas na cotonicultura. Um dos exemplos flagrantes é a figura da Rainha do Algodão. Expliquemos. Terminada a colheita do algodão programavam-se festas para a escolha da moça que representaria a majestade desse produtovii.

Na imagem a seguir, fotografada por volta da década de 1960, uma tímida vencedora de tais concursos posa em trajes típicos de apanhadora de algodão: chapéu de abas largas, lenço sobre a cabeça e bisaco para o algodão a ser colhido. Ela é toda algodão: tecido, plumas nas barras do vestido e, para tornar ainda mais direta essa referência, folhas e capuchos de algodão bordados na saia. Uma momentânea deusa pagã da colheita: jovem e fértil - promissora matriz de prole fecunda, como deveriam ser os algodoais transformados em cornucópia do Seridó de 1880 até a década de 70 do presente século.



Figura 01- Rainha do Algodão (S. João do Sabugi)
Fonte: Acervo particular de João Quintino de Medeiros Filho
Observem-se também duas fotografias mais recentes que registram festas da colheita no município de Cruzeta, tradicionalmente realizadas no mês de junho – época da apanha do algodão.

Na primeira delas (Figura 02), representando a Agricultura, um óbvio e imemorial cortejo de donzelas, abrindo o desfile triunfal da Rainha do Algodão, cuja presença é o ponto alto da passeata. Condu-la um moderno carro alegórico.



Figura 13 - Desfile da Festa da Colheita - Cruzeta (RN)


Fonte: Acervo particular de Ione Morais
Percebamos o contraste entre estas moças circunspectas em seu tédio adolescente e a ala que representa a pecuária (Figura 03).

O grupo de vaqueiros é formado por homens maduros - a exceção de um garoto aprendiz de vaqueiro - que sem viço algum, envergam vestes de couro e montam cavalos acanhados: um arcaico e brancaleônico pelotão de cavalaria. Nada remete a um tempo moderno. Esta ala do desfile assemelha-se a uma imagem congelada dos primeiros povoadores. Atentemos para os cartazes que empunham. Em um deles patenteia-se a proximidade da pecuária com as referências católicas que anotávamos anteriormente.


Figura 1 - Ala dos vaqueiros na Festa da Colheita – Cruzeta (RN)

Fonte: Acervo particular de Ione Morais


A produção simbólica não pára aí.

No momento da ocupação do Seridó pela pecuária, os primeiros vaqueiros escolheram a imagem de Sant’Ana como símbolo de proteção e materializaram suas esperanças votivas quando construíram as capelas, sementes de futuras igrejas matrizes.

Séculos após, para que fosse representada a riqueza, o progresso e o desenvolvimento do Seridó, escolheu-se como símbolo as imagens do algodão. Tal escolha, que não é um lance de dados, concorreu para que este produto adquirisse a aura de elemento identitário do Seridó. Para ilustramos melhor essa observação, basta uma rápida pesquisa através das alegorias que nomeiam imageticamente as municipalidades seridoenses.

Vejamos dois exemplos.

Em 1968, ao comemorar o centenário da emancipação política da cidade, a câmara de vereadores de Caicó aprovou o brasão de armas da municipalidade viii (Figura 15). Na parte central do brasão encontram-se os capuchos de algodão simbolizando a riqueza do Seridó. É claro que a escolha do símbolo malváceo deu-se devido ao algodão ter sido a mercadoria motriz da riqueza regional, cuja repercussão no mercado era muito maior que o criatório.
Figura 02 - Brasão da Cidade de Caicó

Fonte: Prefeitura Municipal de Caicó
O algodão enobrecia a região a ponto de investir a principal cidade dali em uma preeminente majestade, como deduz o hino de Caicó:

Terra de luz, e calor,



Fibras longas do “mocó”!

Ó Rainha Centenária,

Coração do Seridó!”

A pecuária - atividade que sempre marcou presença no Seridó sem nunca desaparecer, mesmo no período em que a cotonicultura dominou à larga a economia potiguar - é citada somente como uma atividade instituinte, fornecedora de contornos épicos à região:





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