Turismo e cultura na cidade de mossoró/rn (brasil): a dinâmica territorial de suas principais festividades



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TURISMO E CULTURA NA CIDADE DE MOSSORÓ/RN (BRASIL):

A DINÂMICA TERRITORIAL DE SUAS PRINCIPAIS FESTIVIDADES

AMARAL, Patrícia Daliany Araújo do1

SILVA, Anelino Francisco da2

TEIXEIRA, Kátia Simone Santiago3


A cidade de Mossoró, localizada no Estado do Rio Grande do Norte (Brasil) tem sido, atualmente, divulgada e conhecida pela população como a capital cultural do Estado, em função dos relevantes investimentos realizados, a cada ano, no seu setor cultural, especialmente no que se refere às festas, assim como à criação de espaços voltados para o setor cultural. O trabalho propõe-se a construir uma compreensão de como ocorre a dinâmica da cultura e do turismo na cidade de Mossoró. Busca, ainda, verificar de que maneira processa-se essa dinâmica territorial da cidade, nos últimos anos, em função das atividades do Mossoró Cidade Junina, do Auto da Liberdade e da Festa de Santa Luzia, festas que acontecem todos os anos, nos meses de junho, setembro e dezembro, respectivamente. Faz-se uma análise das transformações territoriais ocorridas em Mossoró, decorrentes das festividades em estudo, e dos impactos provenientes dos investimentos públicos e privados, que provocam uma nova dinâmica na cidade. Além disso, é verificada a percepção da comunidade, da iniciativa privada e do poder público em relação a essas práticas como processos dinamizadores de Mossoró. Para isso, realizou-se pesquisa bibliográfica e em documentos. Efetivou-se, ainda, pesquisa de campo, através da observação não-participante e da realização de entrevistas com o poder público municipal, principal idealizador das festas e com a iniciativa privada, enquanto patrocinador. A comunidade local também participou através da aplicação de questionários. Após a efetivação da pesquisa, é possível afirmar que as festas do Mossoró Cidade Junina, do Auto da Liberdade e de Santa Luzia, têm demonstrado uma capacidade de criar e manter um fluxo de turismo, fazendo com que Mossoró ganhe projeção como um destino turístico. Através de festas, patrocinadas pelo poder público, são celebrados fatos do passado que recuperam a memória, as imagens e os discursos do passado em Mossoró. Mas o momento festivo não ocorre sem objetivos por parte daqueles que a realizam. O poder público busca, com o trabalho que vem sendo realizado, afirmar sua imagem e seus interesses. Nesse contexto, o turismo tem sido visto como uma alternativa extremamente rentável, mas a comunidade local tem sido muitas vezes, negligenciada dentro desse processo. As festas envolvem todos os segmentos da sociedade, independentemente do seu nível de escolaridade. Mossoró tem, na efetivação de suas festas, grande parte da cidade movimentando-se no sentido de garantir a sua realização. Os equipamentos de hospedagem organizam-se para a chegada da demanda de turistas, assim como os comerciantes locais e o poder público buscam estar aptos a receber um grande número de pessoas na cidade de maneira organizada, segura e de modo a ter condições de atender às suas necessidades. As programações organizadas pelos diversos atores envolvidos nesse processo não têm apenas o poder de atualizar os mitos, mas de colocar em cena a história do povo, sendo capaz de mediar valores. Elas são tidas como instrumento de interação e expressão da diversidade, permitindo ao povo reconhecer-se na festa. O fato das pessoas acreditarem que Mossoró ficou mais conhecida a partir da realização das festas, acaba por melhorar a estima da população, que, cada vez mais, mostra o orgulho de fazer parte daquele lugar. Através das festas em estudo, uma nova Mossoró vem sendo criada. São transformações na economia da cidade, que busca desenvolver o turismo cultural em seu espaço, com vistas aos possíveis benefícios dessa atividade. A opção pelo investimento nesse setor tem acabado por trazer, também, modificações estruturais para a cidade, que tem sido transformada para a realização das festividades, as quais estão acabando por criar um corredor cultural no entorno dos espaços apropriados. Para que isso ocorra, atenta-se para a necessidade de ações de planejamento a médio e longo prazo, para que todos os atores sociais estejam envolvidos no processo e comunguem dos benefícios que a atividade turística pode trazer.
Palavras-chave: Cultura. Dinâmica territorial. Festas. Mossoró. Turismo.
1 MOSSORÓ E A EXPLORAÇÃO TURÍSTICA ATRAVÉS DOS EVENTOS FESTIVOS: UMA INTRODUÇÃO
No Brasil, a realidade de crescimento do turismo tem animado os gestores da atividade, que cada vez mais direcionam seus esforços no sentido de levar crescimento econômico às localidades onde atuam. O turismo é capaz de proporcionar uma série de benefícios aos lugares em que se instala, mas, também, desafios ou efeitos perversos, já sendo motivo de preocupação por parte de estudiosos de diversas áreas, como antropólogos, sociólogos e mesmo geógrafos. No Nordeste e no Rio Grande do Norte, o desenvolvimento do turismo está historicamente mais atrelado às atividades litorâneas. Em função de suas belezas naturais, o litoral nordestino tem atraído, nas últimas décadas, um fluxo considerável de turistas. Isso fez com que muitas cidades da região tivessem, no turismo, a maior contribuição para o desenvolvimento de suas economias. Exemplo disso ocorre no RN, quando tem essa atividade concentrada na área litorânea.

Entretanto, atualmente, o desenvolvimento da atividade turística tem ocorrido em outras áreas que não a litorânea, ao ponto de ser constatada a interiorização do turismo como uma realidade. Nesse contexto, destaca-se a cidade de Mossoró, localizada na chamada região da Costa Branca do Rio Grande do Norte. A figura 01 mostra a localização geográfica do município mossoroense no Estado. A partir de festas diversas, a cidade tem buscado desenvolver um segmento do turismo até então pouco trabalhado nas localidades potiguares. Na cidade de Mossoró, o turismo tem crescido como atividade econômica nos últimos anos e representa, na atualidade, um dos mais importantes setores de sua economia. Essa é uma atividade que exige a implantação de infra-estrutura, envolvendo, por exemplo, equipamentos de hospedagem e serviços, mas é responsável, também, pela geração de empregos diretos e indiretos, o que dinamiza a economia, gerando divisas.

A atividade turística vem demonstrando seu poder de desencadear um processo de identificação dos cidadãos com a historiografia sociocultural. Na visão de geógrafos, antropólogos e historiadores, a preservação da identidade de um povo começa quando os sujeitos envolvidos em um processo de construção identitária incorporam-se ao trabalho de recuperação de sua memória coletiva, da reconstrução de sua história, da verificação das fontes de sua identidade, não se restringindo às questões materiais, mas abrangendo também aspectos não-materiais da cultura. Esta vem sendo a mola propulsora dessa atividade econômica da cidade de Mossoró.

Nesse contexto, a pesquisa realizada e da qual resulta este texto, propôs-se a construir uma compreensão de como ocorre a dinâmica da cultura e do turismo na cidade de Mossoró. Busca, ainda, verificar de que maneira processa-se essa dinâmica territorial da cidade, nos últimos anos, em função das atividades do Mossoró Cidade Junina, do Auto da Liberdade e da Festa de Santa Luzia. Faz-se uma análise das transformações territoriais ocorridas em Mossoró, decorrentes das atividades em estudo, e dos impactos provenientes dos investimentos públicos e privados, que provocam uma nova dinâmica na cidade. Além disso, é verificada a percepção da comunidade e do poder público em relação a essas práticas como processos dinamizadores de Mossoró.

A cidade de Mossoró tem sido, atualmente, divulgada e conhecida em todo o Rio Grande do Norte como a capital cultural do Estado, em função dos relevantes e contínuos investimentos realizados, a cada ano, no setor cultural. As festas do Mossoró Cidade Junina, do Auto da Liberdade e de Santa Luzia, que vêm ocorrendo na cidade têm possibilitado uma capacidade de criar e manter um fluxo de turismo, fazendo com que a cidade ganhe projeção como um destino turístico. Além disso, o turismo mossoroense apresenta o diferencial de desenvolver um nicho de mercado até então pouco explorado no Estado do Rio Grande do Norte: o turismo cultural. Esse fato, por si, já justificaria a análise da exploração do turismo na região mossoroense como um objeto de estudo, já que essa iniciativa é diferente do que ocorre em outras localidades potiguares, tradicionalmente famosas pelo turismo de sol e mar.

O estudo da atividade turística de Mossoró, porém, justifica-se ainda por três outros fatores. O município mossoroense é o segundo maior em extensão territorial dentre os norte-rio-grandenses, tendo uma economia dinâmica, e sua demanda de turistas tem crescido sob uma infra-estrutura turística ainda precária. Observe-se que a cidade apresenta um rico patrimônio histórico-social a ser explorado por políticas públicas de desenvolvimento do turismo, que resultará no resgate da identidade, da memória e da história daquela região, além dos outros benefícios que a atividade turística pode trazer.

Nesse sentido, a presente investigação poderá contribuir de dois modos distintos. Esse ramo da atividade turística será melhor entendido por aqueles ligados a ele, em especial, os gestores da localidade estudada. Além disso, os promotores do turismo cultural em Mossoró poderão perceber o quanto a atividade turística é benéfica para o local onde se instala de modo ordenado. Tais contribuições também justificam a pesquisa em andamento.

As cidades deveriam investir na contínua valorização de sua cultura. Quando trabalhada de forma responsável por seus planejadores, em especial, os produtores culturais, tanto do setor público quanto do privado, como um produto turístico, a cultura tem o poder de atrair fluxos turísticos. Além disso, o turismo pode ser fator de estímulo à manutenção da identidade das populações receptoras.

Sabendo disso, o poder público municipal de Mossoró tem investido na apropriação da cultura popular e na divulgação/reconstrução de fatos históricos para dinamizar a atividade turística. A cidade já possuía um fluxo de turistas que tinha como motivação principal a realização de negócios, e vê nessa nova modalidade o fator de crescimento do setor turístico local. Sob essa concepção, analisam-se as festas de maior representatividade da cidade, denominadas Mossoró Cidade Junina, Auto da Liberdade e Festa de Santa Luzia. Esta é marcada por um forte apelo religioso, por se tratar de um acontecimento voltado para as comemorações da Padroeira da cidade. O turismo cultural mossoroense tem se desenvolvido a partir dessas festas.

Esse segmento de mercado tem sido apontado como uma alternativa para desenvolver a economia local, além de construir novas visões das origens histórico-culturais da região e reafirmar a percepção identitária dos mossoroenses, estabelecer novos laços entre as pessoas e entre elas e os territórios da cidade. Dessa compreensão compartilha Alves (2005, p.04) ao dizer:


Em Mossoró, [...] a festa vem sendo apropriada como uma das formas de demarcação de identidade local. Nesta cidade, algumas festas vêm sendo (re) inventadas e a tradição juntamente com os referenciais de coragem e liberdade, vêm sendo agregada como elemento diferenciador das demais cidades. Esse processo vem sendo acompanhado não raramente pelo processo de espetacularização.
Mossoró sempre se destacou por sua expressão em algumas atividades: historicamente, o sal foi fator de crescimento da economia local, e a fruticultura tropical  irrigada é um dos filões da sua economia (destaca-se principalmente o melão). Ela é a maior produtora de petróleo em terra firme do Brasil (sendo esta a maior representação na sua economia) e é, também, um pólo ceramista. Fornece ainda 97% do sal marinho consumido pelo país. Seu comércio é bastante dinâmico e diversificado, como afirma Rocha (2005).

A dinâmica sócio-territorial da cidade de Mossoró, até meados da década de 1990, estava ligada apenas às atividades anteriormente referidas. Hoje, os gestores da cidade buscam meios para reestruturar suas atividades e vêem no turismo cultural um novo nicho de mercado a ser explorado e desenvolvido nesse território. Pode-se estabelecer uma retrospectiva de fatos históricos, considerados por seus cidadãos como de grande importância e que podem ser explorados pela atividade do turismo cultural: a Abolição dos Escravos, em 1883 (05 anos antes da promulgação da Lei Áurea); o Motim das Mulheres, em 1875; o primeiro voto feminino, realizado por Celina Guimarães, em 1928; a Resistência ao Bando de Lampião, o mais famoso cangaceiro do Nordeste, em 1927. Todos esses acontecimentos são hoje resgatados especialmente em forma de grandes espetáculos.

Há uma retomada de suas origens acontecendo na cidade. O resgate de fatos históricos conduz a uma conexão entre passado e presente, “(re) atualiza os referenciais identitários e produz um sentimento de identificação territorial” (ALVES, 2005, p.06). Isso condiz com a idéia de que “os usos e costumes de um povo, de uma comunidade, são transmitidos pelos fundamentos de suas concepções históricas e sócio-político-culturais” (MONICA, 2001, p.39). Ainda nesse sentido, Albuquerque Júnior (apud FELIPE 2001, p. 146) afirma que
O conhecimento da história do lugar, da sua memória coletiva, fornece os elementos para a invenção de uma cultura particular. Que ao interpretar essa história, imprime a mesma outros significados, outras intrigas, um enredo novo produzido com os fragmentos do passado [...].
De acordo com a Prefeitura Municipal de Mossoró (2007a), a cidade desponta turisticamente em função de uma política local estruturada, conforme a citação anterior. Em site oficial, a instituição afirma que, graças
[...] à diversidade de seus atrativos e singularidade dos aspectos culturais, mais e mais turistas visitam a "capital do semi-árido" potiguar todos os anos. A realização de eventos tornou Mossoró uma referência cultural em todo o Nordeste e fez dela parada obrigatória aos interessados em cultura popular e festas típicas da região.
Nesse contexto de manifestação festiva, uma Mossoró distinta da existente no cotidiano de seus moradores é produzida, já que uma parte da cidade é pensada e reorganizada para as festas. Esse processo tem evidenciado as estratégias dos diferentes atores sociais (Estado, sociedade, Igreja) no decurso da apropriação dos espaços da cidade. Essa realidade conduz à reflexão sobre as territorialidades mossoroenses. Assim, é possível pensar que
[...] as identidades são relacionalmente construídas como parte do processo político mediante relações de poder. Esse reconhecimento pode levar à renegociação dessas identidades, pois reformular o modo por meio do qual se representa o espaço é também uma ação política (ALVES, 2005, p.07).

Assim, o problema que consubstancia a presente pesquisa é: como se processa a dinâmica territorial da cultura e do turismo em Mossoró, bem como sua dinâmica socioespacial, nos últimos anos, a partir das atividades do Mossoró Cidade Junina, do Auto da Liberdade e da Festa de Santa Luzia?

Seguindo esta linha de pensamento, tem-se como objetivo central do trabalho investigar o desenvolvimento da cultura e do turismo em Mossoró-RN e sua dinâmica socioespacial dos últimos anos, tendo como fatores propulsores as festas: Mossoró Cidade Junina, Auto da Liberdade e Festa de Santa Luzia. Para que seja alcançado, foram propostos objetivos específicos: analisar a dinâmica territorial da atividade do turismo cultural na cidade de Mossoró; estudar como os impactos provenientes dos investimentos público e privado têm provocado uma nova dinâmica na cidade e verificar a percepção da comunidade e do poder público em relação ao processo dinamizador da cultura que o turismo tem posto à cidade.

A pesquisa desenvolveu-se no sentido de reunir dados e informações necessárias para análise do problema proposto e o alcance dos objetivos estabelecidos. De acordo com Gil (2007, p.42), pode-se definir pesquisa como “o processo formal e sistemático de desenvolvimento do método científico. O objetivo fundamental da pesquisa é descobrir respostas para os problemas mediante o emprego de procedimento científicos”.

Na pesquisa científica, o levantamento de dados é o primeiro procedimento a ser efetivado para a realização da pesquisa científica, devendo ser realizado através de pesquisa em documentos e bibliografias diversas. Para a efetivação do trabalho proposto, seguiu-se esse preceito. A pesquisa bibliográfica foi realizada por meio de levantamento de informações em artigos científicos, livros, teses, dissertações e em sites da internet. O material coletado foi utilizado na composição do referencial teórico da pesquisa. Também se efetivou pesquisa documental, através da coleta de informações em documentos disponibilizados por órgãos oficiais relacionados à problemática em estudo. Utilizou-se ainda documentos como relatórios de pesquisa, tabelas, etc. A pesquisa de campo foi também implantada, a fim de registrar informações pertinentes (LAKATOS; MARCONI, 1991).

A pesquisa realizada recebe uma classificação dupla. Ela é exploratória à medida que objetiva familiarizar o pesquisador com o tema estudado, no sentido de aprimorar idéias sobre o assunto em questão, utilizando uma quantidade de dados provenientes de fontes secundárias. Ela é também descritiva, porque expõe situações a partir de dados primários, levantados por meio de investigações em que foram aplicadas entrevistas pessoais e observação não-participante como técnicas para efetuar o levantamento dos dados.

A pesquisa descritiva procura construir uma descrição do fenômeno em questão de maneira que seja caracterizada a sua realidade, sem interferência ou modificação por parte do pesquisador. De acordo com Dencker (1998, p.130), “são estudos bem estruturados e planejados que exigem um conhecimento profundo do problema estudado por parte do pesquisador. O pesquisador sabe o que deseja avaliar e como deverá proceder para fazê-lo”. Esse procedimento científico foi executado para a concretização da pesquisa.

O universo da pesquisa circunscreve-se à cidade de Mossoró, localizada no Estado do Rio Grande do Norte. Dentro desse limite geográfico e levando em consideração que se busca analisar as festas culturalmente desenvolvidas em Mossoró, o objeto de estudo restringe-se às festividades do Mossoró Cidade Junina, do Auto da Liberdade e da Festa de Santa Luzia.

O estudo investiga diversos segmentos, incluindo população local, poder público e iniciativa privada quanto à concepção deles em relação aos fenômenos culturais analisados. Para que fossem aplicados os questionários na cidade, utilizou-se da amostra por conglomerados, que, segundo Gil (2007), é indicada em situações em que é difícil a identificação de seus elementos, como é o caso desta pesquisa, cuja população é constituída por todos os habitantes da cidade de Mossoró.

As técnicas utilizadas na pesquisa de campo compreenderam a entrevista e a observação não-participante. Durante a realização da pesquisa, a observação não-participante deu-se na cidade de Mossoró, nos momentos relativos à realização das festas em estudo. Para Lakatos e Marconi (1991, p.193), “na observação não-participante, o pesquisador entra em contato com a comunidade, grupo ou realidade estudada, mas sem integrar-se a ela”. Assim, o estudioso faz o papel de espectador - o que não significa que tal observação não seja consciente, com vistas a um propósito determinado.

As entrevistas foram realizadas com o poder público municipal, como principal idealizador das festividades, e a iniciativa privada, que aparece como apoiadora das festas. Foram utilizados questionários semi-estruturados. A entrevista, cujas perguntas são feitas oralmente, tem por objetivo obter informações a respeito do objeto de estudo, e o próprio pesquisador registra as respostas fornecidas.

Apesar de mais dispendiosa, a entrevista tem, dentre suas vantagens, a maior flexibilidade na formulação de questionamentos e, sendo realizada pessoalmente, apresenta maior capacidade de captar aspectos subjetivos do entrevistado. Isso porque, a entrevista, em seu desenrolar, deixa o entrevistado mais à vontade para tomar partido diante do tema, permitindo, assim, a apreensão, por parte do pesquisador, de aspectos comportamentais e emocionais que possam interferir no conteúdo de suas considerações.

Para obter a percepção da comunidade local a respeito das festas, a técnica utilizada foi a aplicação de questionário, elaborado pela pesquisadora de acordo com os objetivos da pesquisa.

Após a realização das entrevistas e a aplicação dos questionários, veio a fase da interpretação. A interpretação “consiste em expressar o verdadeiro significado do material em termos do propósito do estudo. O pesquisador fará as ligações lógicas e comparações, enunciará princípios e fará generalizações” (DENCKER, 1998, p.172). Nesse momento da pesquisa, foram analisados os dados e informações obtidas na pesquisa de campo para que se chegasse às considerações a respeito do tema em estudo. Esse procedimento interpretativo gerou os resultados deste trabalho de pesquisa. Para a tabulação dos dados coletados, utilizou-se o programa Statistical Package for the Social Sciences - SPSS. Posteriormente, foram formatados gráficos e tabelas com o auxílio do Excel.

A seguir, trata-se da relação turismo, território e festas, traz um relato de como as festas vêm sendo um processo dinamizador das localidades. “Os eventos festivos do território mossoroense nas vozes dos atores sociais” aborda como ocorrem as intervenções do poder público e da iniciativa privada nas festas mossoroenses, seus objetivos e as causas pelas quais se dá o investimento. Apresenta, ainda, um panorama da participação da comunidade nas festas em estudo.

O último capítulo traz as considerações apreendidas no decorrer da pesquisa. De maneira sucinta, são expostas as principais observações relacionadas à dinâmica territorial da cultura e do turismo em Mossoró.


2 TURISMO, TERRITÓRIO, FESTAS E IMAGINÁRIO SOCIAL: RELAÇÕES DIVERSAS
A seguir, o turismo e a cultura são abordados, dando destaque ao nicho de mercado do turismo cultural, já que esta segmentação do mercado traz benefícios que são esperados por todos os promotores da atividade turística. O território e a dinâmica territorial também são tratados, posto que se entende que o turismo, assim como as festas, envolvem a criação e a modificação dos territórios. Por fim, tem-se uma abordagem das festas, que são tidas como fenômenos que dinamizam as sociedades, fortalecem identidades e modificam os territórios nos quais estão inseridas.
2.1 O TURISMO CULTURAL
A abordagem científica da Geografia Cultural de um dado objeto de estudo transita pela análise do cotidiano, das micro-histórias, da representação, de estudo do significado, da construção social da identidade baseada nos lugares. McDowell (1996) diz que esse foco de abordagem inclui a investigação da cultura material, dos costumes sociais e do universo simbólico, articulando, portanto, a relação espacial e o universo simbólico-identitário. Desta maneira, o conjunto de significados figura como possibilidade para os estudos dos lugares e dos territórios, cujas apropriações faz-se em escalas reais e imaginárias.

Corrêa (2001), ao analisar a complexificação das espacialidades a partir dos conjuntos de significados que dimensionam o espaço, reitera a reflexão de McDowell (1996), dizendo que o mesmo contém significados simbólicos. Para Corrêa (2001), a espacialidade é produto da apropriação e transformação da natureza, e o resultado dessas atividades humanas está impresso nas formas de expressão musical, poética, imagética e pictórica de um povo, ou seja, nos traços culturais dos grupos sociais que ocupam um dado território.

O descortinar da trama cultural de um povo dá início à perspectiva do estudo do significado, sendo este, portanto, parte da renovação na Geografia Cultural. Nesse sentido, essa abordagem científica concebe que, através das práticas sociais, das sociabilidades e das práticas culturais cotidianas, as maneiras como os artefatos materiais são apropriados e os significados que esses ganham através dos hábitos sociais relacionam-se. Assim, a experiência espacial humana dá-se no âmbito das trocas e complementaridades.

McDowell (1996) defende que uma abordagem dos fenômenos culturais deve enfatizar as maneiras como uma manifestação cultural e o significado dela reforçam os desejos, os apegos, as cumplicidades e os desprezos na produção sócio-histórica dos lugares. Conseqüentemente, o entendimento espacial perpassa o tecido cultural de tal forma que um retro-alimenta historicamente o outro. É válido ainda enfatizar a noção de significado. A autora associa-o a tal fundamento, de análise da entidade espacial. Daí estabelecer que os significados representem um sistema de valores, cujas experiências transformam o mundo em um dado momento histórico.

Através das práticas sociais e culturais, o entendimento espacial efetiva-se como (re)produção e desenvolvimento das sociedades, portanto, sendo permeada por construtos identitários flexíveis, reconhece-se a importância de olhar a dinâmica sócio-espacial (HALL, 2005). Desta forma, McDowell (1996, p.164) expressa que
Os significados e as práticas culturais são particulares a determinados grupos da sociedade. Significados dominantes ou hegemônicos podem ser subvertidos, contestados ou derrubados. Este reconhecimento de significados contestáveis e divergentes, é que o conhecimento em si mesmo também é temporário e contestável [...].
Essa dinâmica de hegemonia e contestação relaciona-se ao entender de McDowell. Para ela, a cultura deve ser vista como “[...] um conjunto pluralístico de práticas sociais” (McDOWELL, 1996, p.162). Na atualidade, vive-se em um mundo globalizado. Ao contrário do que se pode pensar, o fenômeno da globalização não tem homogeneizado todos os aspectos da vida social. Na verdade, o que se percebe é uma acentuação das diferenças de natureza cultural.

Nesse contexto, o próprio conceito de cultura é redefinido. A cultura deve ser entendida como algo intrínseco ao ser humano. Todos os indivíduos, assim como todas as sociedades, são construtores de cultura – embora cada uma tenha um sistema próprio de valores, uma lógica interna. Uma das abordagens dada à cultura é feita por Gomes (2001, p.93), que a conceitua como sendo

[...] um conjunto de práticas sociais generalizadas em um determinado grupo, a partir das quais este grupo forja uma imagem de unidade e coerência interna. O conjunto destas práticas exprime os valores e sentidos vividos por um certo grupo social e a delimitação de suas diferenças em relação a outros grupos.
Dias e Aguiar (2002) associam-se ao conceito de cultura definido por Gomes (2001), ao elencarem alguns aspectos que devem ser considerados quando se trata da questão cultural. Para eles, a cultura é resultado de um processo de civilização do indivíduo. Ela é transmissível pela herança cultural, além de incluir idéias, valores, crenças, instituições sociais, construções, entre outros aspectos. Finalmente, a cultura compreende a totalidade das criações humanas e é exclusiva do ser humano.

Com o passar do tempo, evoluiu o conceito de cultura, ampliando-se ao senso de que todos os povos são detentores e produtores de cultura. Evoluiu, também, a maneira como os turistas viajam. A motivação cultural permaneceu como uma das principais razões para as viagens.

No Brasil, o Ministério do Turismo – MinTur – pressupõe para o desenvolvimento do turismo cultural em uma região a conciliação do desenvolvimento da atividade turística com o fortalecimento das culturas, no sentido de preservar o patrimônio local. O turismo deve, segundo o governo, buscar atrelar a manutenção patrimonial, a valorização das identidades culturais e o uso cotidiano dos bens culturais à exploração turística de uma localidade. Esse órgão, em conjunto com o Ministério da Cultura e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN - definem as ações de turismo cultural como “[...] as atividades turísticas relacionadas à vivência do conjunto de elementos significativos do patrimônio histórico e cultural e dos eventos culturais, valorizando e promovendo os bens materiais e imateriais da cultura” (BRASIL, 2006, p.10). A relação do turismo com a cultura deve sustentar-se em duas bases: a existência de demanda motivada pela busca de conhecimento de culturas diversas e a possibilidade do turismo desenvolver-se como ferramenta de valorização da preservação e manutenção do patrimônio e da identidade cultural, assim como da promoção econômica e de bens culturais.

Para Barretto (1995), há uma segmentação a qual culmina em dois tipos de turismo: um motivado pela busca de atrativos naturais; um outro, pela busca de atrativos culturais. O “[...] turismo cultural seria aquele que tem como objetivo conhecer os bens materiais e imateriais produzidos pelo homem” (BARRETTO, 1995, p.21). Esses bens englobam aspectos como a história, o cotidiano, os patrimônios, o artesanato ou outro aspecto qualquer a que o termo cultura abranja.

O turismo cultural, além de ser um dos principais segmentos do turismo, aparece associado a outros nichos de mercado e tem como característica marcante o seu efeito educacional, no sentido de contribuir para o aumento da consciência do visitante para a preservação do patrimônio do local visitado. Aliado a isso, a comunidade tem um papel de fundamental importância no processo de organização das ações relacionadas ao desenvolvimento do turismo cultural, visto que a vivência dos habitantes da localidade é capaz de enriquecer a experiência do visitante, ao mesmo tempo em que reforça o sentimento de pertencimento dos moradores (DIAS; AGUIAR, 2002).

A cultura, assim como seus bens e atividades, produzidos muitas vezes independentemente do turismo, é a razão de ser do turismo cultural. Para o Ministério do Turismo (apud BRASIL, 2006), o mercado cultural é fator de influência no mercado turístico, devendo as duas áreas trabalhar em parceria, o que pode viabilizar ações bem-sucedidas para ambas. Daí que


[...] o incentivo às apresentações culturais representativas da região ou do município em mercados-alvo, pode ser uma estratégia para despertar o interesse de potenciais turistas, por meio de amostras do que pode ser a totalidade dos aspectos culturais do destino (BRASIL, 2006, p.34).
O turista deve ser atraído, conforme a citação, mas os gestores responsáveis por essa atração devem levar em conta que o turismo e a cultura têm uma relação dialética no âmbito da discussão da cultura como produto versus cultura autêntica. A cultura, pois, é preparada, reinventada e encenada para o turismo. Essa encenação, muito embora, acaba por motivar o resgate da cultura dita autêntica. Isso faz emergir um processo de aproximação entre passado e presente, conforme é defendido a seguir sobre as manifestações artístico-culturais preparadas para turistas:
Inicialmente visto como cultura encenada, como tradição inventada para consumo turístico, acaba penetrando os interstícios do tecido social e transformando-se em movimento cultural do presente com interesse genuíno na valorização e no conhecimento do próprio passado (BANDUCCI JÚNIOR; BARRETTO, 2001, p.16).
Os autores mostram que o turismo organizado com base no legado cultural de uma dada localidade permite à comunidade engajar-se no processo de recuperação de sua memória coletiva e de reconstrução de sua história. A exploração turística, assim efetivada, não se restringe ao usufruto de recursos materiais de uma região, mas abrange também os aspectos não-materiais da cultura nela construída. A atividade turística permite, inclusive, que pessoas de uma comunidade adquiram consciência da importância de sua cidade em um determinado contexto histórico (BARRETTO, 2002). Nesse contexto, “Ter identidade local significa ser diferenciado – ou parecido consigo mesmo. A diferenciação dá-se, antes de qualquer coisa, pela historicidade do lugar que se manifesta ainda hoje” (YÁZIGI, 2003, p.155). De acordo com Vaz (apud ALVES, 2005), a diferenciação através da identidade local torna-se um trunfo essencial para o desenvolvimento do turismo nas regiões e, nesse sentido, tal identidade está ancorada na imagem da cultura local que um povo detém e que é repassada aos seus visitantes.

Por isso, as cidades deveriam investir na contínua busca pela valorização da cultura típica das localidades. Isto porque, quando trabalhada de forma responsável por seus planejadores, em especial, seus produtores culturais e os poderes público e privado, como um produto turístico, a cultura tem o poder de atrair fluxos turísticos para as cidades, estimulando a manutenção da identidade das populações receptoras. Trata-se de uma ajuda recíproca que pode haver, de maneira bastante saudável, entre a cultura e o turismo. “Ora, se um dos fatores importantes que motiva o turista a escolher este ou aquele local é justamente o diferencial, o tiro sai pela culatra quando negligenciamos, inclusive com vergonha, as formas locais de cultura, sejam elas quais forem" (YÁZIGI, 2003, p.173).

Em localidades onde a cultura é o principal fator motivador da viagem de visitantes, o turismo funciona como uma ferramenta para impulsionar o resgate da cultura de seu povo. Essa é uma alternativa eficaz para a manutenção da identidade local. A cultura é capaz de atrair fluxos turísticos e de fazer com que a permanência de turistas em número de dias aumente nos destinos procurados. Os aspectos culturais, quando bem trabalhados, ainda são capazes de gerar uma gama de opções e atrativos em cidades que já atraiam visitantes para outros tipos de turismo, como o de sol e mar, por exemplo.

As mudanças culturais e/ou sociais de uma comunidade não devem ser atribuídas somente a uma única atividade, no caso, ao turismo. Esta questão foi elucidada no capítulo anterior ao se falar sobre o caráter mutável da identidade, tida como uma construção permanente. O contato existente entre turistas e comunidade local implica um processo repleto de tensões, mas que se mostra capaz de provocar o fortalecimento da identidade e da cultura dos indivíduos.

A memória de um povo é um fator essencial para que sua cultura possa preservar suas peculiaridades. Estando ligada à identidade desse mesmo povo, a cultura pode subsidiar uma relação importante para as bases do turismo cultural de um destino. Para que o turismo cultural possa efetivamente acontecer, há a exigência de que a comunidade receptora tenha um sentimento de pertença àquilo que é oferecido como manifestação cultural. Os nativos compõem o elo mais importante para a preservação e conservação de seus patrimônios.

Assim, o turismo demonstra o poder de exercer um papel importante na construção de tradições inventadas, bem como de fazer emergir e/ou conservar uma atitude preservacionista. Ao visitante, é possível a implantação de diversos olhares a respeito da cultura olhada/apreciada.


2.2 ENTENDENDO O TERRITÓRIO E A DINÂMICA TERRITORIAL
Uma investigação sobre o conceito de território demonstra uma ligação íntima dele com a idéia de domínio ou gestão de determinada área4. De acordo com Andrade (2004), o território surge como o espaço concreto que é ocupado, apropriado por um grupo social. Um grupo não pode ser entendido sem o seu território, pois a identidade sociocultural dos indivíduos está diretamente ligada aos atributos do espaço concreto, já que a ocupação do território é tida como geradora de raízes identitárias de seus habitantes.

Outra forma de abordar a noção de território é considerá-lo como um campo de forças, uma teia, uma rede de relações. Antes do espaço concreto, tem-se o território como relações sociais projetadas no espaço, conforme entende Andrade (2004). Mais uma vez, afirma-se que territórios podem se dissolver, se constituir e se dissipar de modo relativamente rápido.

Em escalas temporais diferentes, os territórios são construídos e desconstruídos. Eles podem ter um caráter permanente, bem como uma existência periódica5. Para Santos e Silveira (2004), nessa linha de pensamento, é possível utilizar o conceito de espaço territorial, sujeito a transformações sucessivas. Assim, iria emergir o território usado, que analisa a constituição do território, o qual pode ser definido através da implantação de infra-estruturas, bem como pelos processos dinâmicos ocasionados por ações do Estado, mas também da sociedade. O território usado envolve todos os acontecimentos que têm reflexo no espaço geográfico, seja em função de uma atividade isolada, ou mesmo de uma série de ações realizadas, criando assim um novo espaço, com novas funções.

Exemplo disso são os eventos. Como afirma Santos (1999, p.115), “o lugar é o depositário final, obrigatório, do evento”, que, por sua vez, pode ser vetor na formação de uma sociedade. Os eventos se tratam de um instante, em um ponto do espaço e, ainda segundo o autor, onde eles instalam-se, há sempre mudança. A cada novo acontecimento, as coisas mudam seu conteúdo, e muda, também, a sua significação. “Os eventos mudam as coisas, transformam os objetos, dando-lhes, ali mesmo onde estão, novas características” (SANTOS, 1999, p.116). O autor coloca, ainda, outra característica marcante dos eventos:


Mas os eventos não se dão isoladamente. Quando consideramos o acontecer conjunto de numerosos eventos, cuja ordem e duração não são as mesmas, verificamos que eles se superpõem. Esse conjunto de eventos é também um evento, do qual os eventos singulares que o formam são elementos. Não é apenas uma superposição, mas uma combinação, pois a natureza da resultante é diversa das partes constitutivas (SANTOS, 1999, p.123).
Esses eventos seriam capazes, ainda, de dissolver identidades, mostrando que não são fixas, mas estão em permanente construção, como será colocado adiante.

De acordo com Haesbaert (1997), a identidade espacial, por sua vez, é produto de uma apropriação simbólica do espaço, tratado não somente como território, mas também como lugar. O autor afirma que a idéia de território suscita questões e respostas que recriam, a cada momento, a idéia de território. Sendo o território um instrumento de exercício de poder, faz-se mister elencar questões que tratem de quem domina ou influencia um dado espaço e como isso se dá para que seja possibilitada uma análise da dinâmica sociocultural nele processada.



Haesbaert (1997) trata da relação psicológica dos indivíduos com um território em que habitem:
Dessa forma, o território deve ser visto na perspectiva não apenas de um domínio ou controle politicamente estruturado, mas também de uma apropriação que incorpora uma dimensão simbólica, identitária e, porque não dizer, dependendo do grupo ou classe social a que estivermos nos referindo, afetiva (HAESBAERT, 1997, p.41).
Corroborando com Haesbaert, Souza (2005) trata da relação da sociedade com um dado território. Segundo ele, territórios são construídos e desconstruídos socialmente. O território caracteriza e realça aspectos nos âmbitos político, social, econômico e cultural, em função dos movimentos da sociedade estarem atrelados ao desenvolvimento das técnicas de domínio e modificação do espaço. O autor mostra que o trabalho é um ponto forte para a compreensão do território. Santos (1985) ratifica as idéias de Souza quanto ao perene devir verificado na configuração de um dado espaço:
O que nos interessa é o fato de que cada momento histórico, cada elemento muda seu papel e a sua posição no sistema temporal e no sistema espacial e, a cada momento, o valor de cada qual deve ser tomado da sua relação com os demais elementos e com o todo (SANTOS, 1985, p. 09).
Sack (1986), ao afirmar que a territorialidade pode ser definida como uma tentativa, que pode partir de um indivíduo ou de um grupo, de influenciar ou controlar pessoas, fenômenos e relacionamentos em uma área geográfica, apresenta a razão pela qual cada território configura-se como um eterno vir a ser. A territorialidade está ligada ao modo como os indivíduos dão significado a um lugar, além da questão da organização de seu espaço e do modo de utilizar a terra. Nas palavras do autor:
[...] a territorialidade é uma poderosa estratégia geográfica para controlar pessoas e coisas através do controle de área, territórios políticos e propriedade privada da terra podem ser suas formas mais familiares, mas a territorialidade ocorre em diversos níveis em numerosos contextos sociais (SACK, 1986, p.05).
A dimensão de influência ou controle dessas áreas está diretamente atrelada às questões simbólicas e identitárias. Assim, tem-se que o território e as territorialidades envolvem dimensões distintas, estando entre elas a dimensão sociocultural, que é a de interesse maior para o presente estudo.
2.2.1 Turismo e território
O turismo surge como atividade econômica organizada em meados do século XIX, quando se utilizava de infra-estruturas criadas em função de outros usos do território. Todavia, nos últimos tempos, o que se percebe é que vem ocorrendo um movimento contrário ao que ocorria anteriormente: a atividade, que antes era usuária passiva dos territórios, passa a ser um agente ativo no seu ordenamento, ou mesmo no seu reordenamento. O turismo, enquanto atividade dinâmica que é, tem demonstrado seu poder de organizar sociedade inteiras, assim como a criação e modificação de territórios em função da sua realização.

As necessidades de intervenção espacial para a efetivação do turismo, relacionadas, por exemplo, à criação de infra-estrutura de locomoção, hospedagem, alimentação e entretenimento, fazem com que ele se diferencie das outras atividades, à medida que cria uma dimensão espacial que lhe é própria, assim como o fato do consumo do espaço. Consumir o espaço faz do turismo uma atividade econômica peculiar, pois, desta característica, emerge a necessidade do deslocamento por parte do consumidor até o produto a ser consumido. O deslocamento implica, entre outras coisas, que o turismo tenha repercussão em distintas porções do espaço (CRUZ, 2001).

A maneira como ocorre o turismo em uma localidade é resultado das políticas públicas setoriais, que implicam na estruturação dos territórios. A política pública de turismo deve estabelecer diretrizes que sejam capazes de orientar o crescimento da atividade, tanto por parte do setor público, quanto por parte da iniciativa privada. Isso porque, se não há intervenção pública, o turismo irá acontecer da maneira como o mercado achar que lhe é mais interessante, sem medir as conseqüências que uma má gestão pode ocasionar na sociedade onde está ocorrendo.

Para Cruz (2001, p.12), as políticas regionais de turismo para o Nordeste envolvem processos distintos e que, ao mesmo tempo, são complementares. A autora coloca a apropriação e produção de espaços pelo turismo e para o turismo. No primeiro caso, ocorre a criação de toda uma infra-estrutura necessária à realização da atividade. No outro, cria-se apenas a infra-estrutura de suporte, prevendo-se um uso turístico em um momento futuro. Essas situações abarcam transformações, adaptações, novas relações às localidades onde se instala. Diferentemente do que deveria ocorrer, quase sempre, essa modernização restringe-se às políticas de turismo, que, normalmente, não estão integradas às outras políticas setoriais. A autora coloca que:


Da capacidade dos atores hegemônicos de intervir sobre o ordenamento e reordenamento dos territórios, numa escala global, resulta, entre outras coisas, uma crescente artificialidade de objetos e ações. Esta pode gerar uma sensação de estranhamento, por parte dos indivíduos, do seu entorno (CRUZ, 2001, p.16).
As transformações espaciais ocorrem de forma dinâmica. A todo o momento, os sistemas de objetos e de ações interagem. Para Santos (1994), os sistemas de objetos condicionam a maneira como ocorrem as ações, assim como as ações levam à criação de novos objetos, às vezes, até mesmo, aproveitando-se dos já existentes, dando-lhes novas formas ou usos. Todos esses movimentos ocorrem no espaço, e em função da lógica do mercado, que busca atender às suas necessidades. É essa realidade que vem ocorrendo em Mossoró. Os eventos têm trazido uma nova dinâmica para a cidade, que vem criando e recriando espaços destinados à realização da atividade turística em seu território.

O turismo, durante o processo de transformação dos territórios para seu usufruto, concorre com outros usos do território, assim como com outras atividades anteriores a ele. Knafou (1996) coloca possibilidades de relação entre o turismo e o território, e indica a existência de territórios turísticos. Esses territórios turísticos seriam aqueles inventados e produzidos para os turistas, onde, sem eles, não haveria razão de sua existência. Daí serem elencados, também, outros atores no processo de turistificação dos lugares, que são o mercado e os planejadores e promotores territoriais. Esses territórios turísticos são caracterizados por territorialidades distintas – a dos que ali vivem de maneira permanente, e a dos que por ali somente passam, sem a necessidade de apropriação. E questões como essa, normalmente, levam ao confronto dos efeitos advindos da atividade, quando, quase sempre, os agentes de mercado são beneficiados, enquanto a maioria da população fica à margem dos benefícios da atividade.


2.3 A FESTA COMO PROCESSO DINAMIZADOR E IDENTITÁRIO DE UM ESPAÇO TERRITORIAL
Quando se fala em festa, este elemento constitutivo das sociedades, muitas vezes tem-se uma idéia de ruptura às normas, de quebra das regras, de displicência. Ferreira (1999) define a festa, em seu dicionário, como sendo uma reunião para fins de divertimento e acrescenta o vocábulo alegre. Há outros significados que o autor dá ao termo: conjunto das cerimônias que celebra um acontecimento; solenidade; comemoração. Festa é definida ainda como sendo um dia santificado, de descanso, de regozijo. De maneira geral, a cultura dominante define as festas como fenômenos não-sérios e efêmeros. Para Araújo (1996), historicamente, a idéia de festa como um momento de contraponto ao cotidiano e de liberação e distanciamento social começou a ser difundida pelo Estado e divulgada pela imprensa brasileira a partir da década de 1840. A festa, como afirma Damatta (1986), é essencial para reviver a memória e a saudades. O conceito de festa adotado neste estudo define-a como um fenômeno ligado diretamente ao contexto da vida social da população na qual se insere.

Nesse sentido, a festa deve ser vista como uma ação fundamentada para o grupo que a promove, sendo produzida com finalidades determinadas, estando envolta por uma significação para os grupos com os quais se relaciona, apesar de muitas vezes parecer um fenômeno comum. Elas têm sido realizadas por todos os grupos, em função de motivos diversos e representam os anseios, os desejos e os valores das pessoas nelas envolvidas. Trata-se de um ritual, de um momento de convivência social e, assim, não pode ser tida apenas como um momento de descontração e divertimento, durante o qual são deixados de lado os problemas cotidianos, mas como um fenômeno capaz de refletir a identidade sociocultural na qual está inserida. Mesmo acontecendo fora do cotidiano, a festa não está desligada do seu contexto social. Ela é uma ocasião que possibilita amenizar os conflitos, é um elemento integrador de grupos sociais e permite que sejam visualizados traços fundamentais de uma dada sociedade (AMARAL, 2007b).

A festa é um traço marcante do modo de vida brasileiro e, quanto ao seu significado, pode-se dizer que ela tem um sentido único para aqueles que a realizam, em especial no Brasil, onde é possível perceber um número significativo de festas acontecendo durante o ano. Para Amaral (2007b), historicamente, as festas vêm desempenhando um papel importante no desenvolvimento da cultura brasileira e, desde o período colonial, elas têm o poder de facilitar o entendimento dos símbolos nela inseridos, permitindo, por exemplo, a integração entre portugueses e índios, tendo em vista que os primeiros objetivavam a catequese dos outros. Posteriormente, o mesmo ocorreu entre os negros e os brancos. Como se vivenciava um período conturbado, de novidades, por se tratar de uma realidade ainda desconhecida, as festas eram tidas como momentos de descanso e renovação das esperanças. As festas foram um dos elementos de ligação para as diversas culturas que formaram o Brasil e criaram uma cultura nacional própria. Nesse contexto, tinha-se a união das raças para vivenciar, em um momento distinto do seu cotidiano, a alegria.

Em função disso, a festa incorpora-se à cultura brasileira como uma linguagem que é capaz de traduzir os valores e símbolos de seu povo, sendo elemento constitutivo de sua cultura. De acordo com Araújo (1996), as festas são símbolos capazes de identificar culturalmente uma área ou região do país, tendo o poder de distingui-la em relação ao todo.

Dantas (2002) trata a festa como um grande espetáculo, tendo a participação dos atores como um aspecto de fundamental importância. Cada um desses atores age de uma maneira que lhe é particular. Suas ações e atitudes serão determinadas pela posição que assumirem e em função de suas características individuais e sociais. O papel e o significado que é atribuído por esses atores durante as manifestações festivas estão diretamente relacionados com sua representação do mundo social. Além disso, “A Festa parece ser realizada com o intuito de seduzir ou atrair a população local e os visitantes pelo glamour, pela beleza e pelo poder, tanto que a cidade prepara-se caprichosa e esteticamente para tal acontecimento” (DANTAS, 2002, p.66). Todavia, os conflitos existentes entre esses atores no seu papel cotidiano muitas vezes aparecem de maneira não-explícita no período da festa.

O tempo da festa é o da regeneração e o da renovação da vida coletiva, no qual se foge da angústia e se parte para buscar a confraternização. Após festejar, o homem sai restaurado e rejuvenescido. Apesar de apresentarem um caráter de excepcionalidade, de ruptura do cotidiano, as festas remetem a ele, pois falam dele e o representam (ARAÚJO, 1996).

Assim, o sentimento de pertença das populações para com a festa de seu município é tão forte que a temporada de festas. Segundo Maia (2001), faz muitos migrantes encontrarem-se em uma situação de conflito, visto que há a necessidade de permanecer no seu local de trabalho para garantir o seu sustento, mas também existe o eminente desejo de estar em sua terra, junto ao seu povo. Para isso, os migrantes sacrificam as economias, contraem empréstimos e relegam até a perder o emprego. O período relativo às festas (e isso é mais forte nas de caráter religioso, com destaque para a padroeira da cidade natal, uma festa religiosa, mas repleta de programações profanas) é tido como uma fuga da realidade cruel do migrante. Tal festejo suprime o penoso cotidiano e dá vazão a um retorno imaginativo de um passado de prazer que se manifesta desde a viagem de ida até ao usufruto das atrações comemorativas.

Então, estando em suas origens no momento da festa, o migrante deixa-se levar pelas emoções, pois nelas estão as suas raízes, suas tradições, a identidade criada acerca de sua cidade natal. O imaginário coletivo do povo está todo voltado para o acontecimento festivo. Os momentos de festividade são os mais importantes do ano, sendo também os mais esperados. Em função disso, Maia (2001, p.193) afirma que


[...] alterar ou retirar algum evento da festa, se não for uma decisão arbitrária e/ou com respaldo legal, envolve ampla negociação entre o agente interveniente e os defensores da tradição – e não é raro que tais negociações acabem em conflitos. No fundo, busca-se descobrir até que ponto isto modificará a “transformação mágica do mundo”.
Pensando-se na questão dos valores ligados à festa e nos significados que lhe são atribuídos, é preciso perceber que, em uma sociedade “simples”, com valores culturais mais homogêneos, os grupos talvez não sejam conflitantes, diferentemente do que pode ocorrer em uma sociedade tida como “complexa”, cujos grupos defendam seus próprios valores. A festa, então, pode ser fator de representação de toda uma sociedade ou apenas de alguns grupos em especial. Na busca por manter a tradição, as festas são, por diversas vezes, regulamentadas, envoltas por uma série de regras e procedimentos a serem desenvolvidos. Ainda assim, é a vontade popular que dita o que deve ou não ser aspecto presente na festa, bem como o que deve ser lembrado ou esquecido, transformado ou conservado.

Há essa adequação das festas populares ao desejo das massas contingenciais pelo fato de que os festejos movimentam cifras significativas em sua organização e realização, sendo viabilizadas por patrocinadores que buscam um retorno dos seus investimentos. Isso se dá pela necessidade sentida pelos grupos de fazer com que a sua festa tome, a cada dia, uma proporção maior, atraindo mais investimentos e gerando maiores lucros. Em Mossoró, a idealizadora do Mossoró Cidade Junina e do Auto da Liberdade é a Prefeitura Municipal, a qual busca parcerias para efetivar sua realização e engrandecê-las a cada ano. Os organizadores das festas concentram recursos dos grupos realizadores e redistribuem-nos para atendimento das necessidades. Para as comunidades, a fartura e a possibilidade de organizar festejos cada vez mais ricos representam motivo de orgulho. Nesse sentido, a festa assume um caráter de ritual, divertimento e ação política, simultaneamente. Por isso há perenidade nas comemorações festivas, conforme dito a seguir:


Ela reaviva as velhas tradições, reforça laços de origem, mas também incorpora novos elementos e anseios. O poder associativo, reiterativo, identificador e reanimador da festa fica evidente quando pensamos naquelas realizadas por imigrantes, infalivelmente, ano a ano, ou mesmo nas de grupos religiosos diversos (AMARAL, 2007a).
No decorrer do tempo, é percebido o empobrecimento de algumas festas, mas isso não é uma regra geral, posto que muitas tiveram crescimento, ganharam espaço e importância com o passar dos anos, projetando-se em nível regional, nacional e até mesmo internacional, assumindo, de acordo com Maia (1999), caráter de eventos de organização empresarial. Em função dessa realidade, as festas mais significativas do calendário das cidades já não são celebrações espontâneas, organizadas e efetivadas ao acaso, mas se tratam de acontecimentos extremamente planejados, envolvendo muitas pessoas em sua organização. Há ainda mais cautela no planejamento quando a festa é de longa duração, envolvendo programações diversas, em espaços distintos. A festa torna-se, cada vez mais, um atrativo turístico para as cidades que as realizam. Em função da movimentação ocorrida nas localidades, tem-se toda uma gama de produtos e serviços atrelados a ela, o que interfere fortemente na economia da cidade e, muitas vezes, nas de seu entorno.

A festa ainda se mostra como elemento simbólico capaz de atrelar os projetos coletivos aos individuais da sociedade na qual está inserida. Para Amaral (2007b), ela concretiza sonhos, anseios e fantasias, ao mesmo tempo em que se distancia de ser um fenômeno alienante. Estando bem próxima à vida real, a festa ocupa-se em resolver problemas reais, quando se dá através da organização de grupos locais voltados para um objetivo social em prol da população local.

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