Turquia, mensageiro entre Oriente e Ocidente



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Turquia, mensageiro entre Oriente e Ocidente
Jorge Almeida Fernandes *
Janus 2009

A Turquia é tradicionalmente definida como «ponte» entre Ocidente e Oriente, cuja integração na União Europeia forneceria um «modelo», democrático e secular para as comunidades muçulmanas da Europa e para o Médio Oriente. A geografia e a história fizeram da Turquia uma encruzilhada entre os dois universos, com uma dimensão civilizacional e geopolítica.

É a fronteira da Europa com a Ásia, é Médio Oriente e é Europa, é parte dos Balcãs e do mar Negro, com uma larga projecção no Cáucaso e na Ásia Central. Durante a Guerra Fria, foi o flanco sul da NATO. Hoje é a chave das rotas da energia para a Europa e a sua linha de segurança perante as «novas ameaças». Parceira de Israel e amiga do Irão, terá um papel fulcral nas relações entre a UE e a Rússia.

Três citações ilustram esta ideia de «ponte». Michel Rocard, que acaba de publicar uma apologia da adesão turca à UE (Oui à la Turquie), afirma que «o futuro da Europa passa pela Turquia». Em dois planos. “Quando digo que a integração da Turquia é o seguro de vida da UE, penso em termos de paz na região e de um acesso seguro a uma importantíssima parte do mundo.» Enterrado o projecto federalista, a UE deve apostar numa nova identidade, a de grande bloco regional com peso à escala planetária, associando Islão e Cristandade: se a Europa tem uma matriz cristã, a adesão da Turquia ainda mais importa pela sua própria matriz islâmica.

Explicou David Gardner, no Financial Times: «Mostrar que islão e democracia podem conviver é um imperativo geopolítico, [...] uma experiência que terá ressonância para lá das fronteiras [turcas], do Médio Oriente às cidades europeias.»

No Fórum da Aliança das Civilizações, realizado em Madrid em Janeiro, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, fez uma interpretação similar: «A Turquia representa a melhor panaceia contra as teorias do “choque das civilizações”.» É «uma república secular e democrática, com uma população esmagadoramente muçulmana e uma dinâmica economia de mercado», o único país que «é simultaneamente membro da NATO e da Organização da Conferência Islâmica». Trata-se de combater a polarização num mundo globalizado «em que, infelizmente, também o ódio, o medo e a intolerância se globalizaram«. A integração da Turquia na UE constituiria um «significativo impulso» ao projecto da Aliança.



Interesses e identidades

Do lado europeu, a questão turca desencadeou um debate passional e algo bizantino. A turcofobia tem uma razão de fundo, a que verdadeiramente pesa nas opiniões públicas e eleições: o medo do Islão. Em lugar de «ponte», a Turquia seria uma «testa-de-ponte» islâmica para acelerar a «invasão» do Continente.

Como é politicamente incorrecto verbalizá--lo, usam-se outros argumentos. O mais sério é a definição da UE como «clube cristão». Invoca-se também a geografia: a UE é europeia e a Turquia fica na Ásia Menor (Giscard d’Estaing). Ou o risco institucional: pelo seu peso demográfico, a Turquia destruiria os delicados equilíbrios da UE. Ou ainda o dilema: um país muçulmano resiste por natureza à secularização e, para assegurar o Estado secular, é necessário um regime semi-autoritário garantido pelos militares, o que em ambos os casos desaconselha a adesão. Quanto à segurança, dizem: não é problema pois a Turquia já pertence à NATO.

O argumento geográfico escandaliza os apologistas da adesão turca: a Ásia Menor foi um espaço de eleição das civilizações helenística e romana. A Anatólia foi o berço do cristianismo, dos primeiros oito concílios, é a «pátria do Credo», responde o historiador das religiões Odon Vallet.

Do lado turco, o debate é de outra ordem e largamente marcado pelo acesso ao poder do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), de Erdogan, em 2002. O AKP tirou as lições do impasse do islamismo político de Necmettin Erbakan, banido pelos militares. Reconverteu-se num partido conservador, assumindo a meta de uma democratização integral e a defesa do Estado secular.

Apoia-se na nova «burguesia piedosa» originária da Anatólia e aliou-se aos seculares liberais, pondo a ênfase na liberalização económica e na adesão à UE. Para lá de quanto a pertença à UE poderia acelerar o desenvolvimento da Turquia e potenciar o seu estatuto internacional, percebiam que a adesão era também a melhor via de abolição da tutela militar sobre a cena política e de mudança do modelo laicista turco, de forma a permitir uma expressão pública do religioso. Apostaram nos Critérios de Copenhaga e no estado de direito.

Esta opção fracturou o campo secular, de matriz ocidentalista. Os seus liberais associaram-se ao projecto europeu de Erdogan, enquanto os radicais a ele se opuseram, temendo a erosão do modelo secular de Ataturk e o desmoronamento do seu poder. Tornaram-se eurocépticos. É manifesta a frieza dos militares perante a UE.

Num plano mais geral, os turcos querem ser «ponte», mas não apreciam ser apresentados como «modelo» para a democratização do Médio Oriente. É um raciocínio subtil. Por um lado, a sua cultura política é renitente à exportação de modelos de democracia – criticaram o «Grande Médio Oriente» de Bush. Por outro, não querem ser identificados com o mundo árabe. O próprio Islão turco sempre fez questão de se distinguir do árabe.

A Turquia é uma «encruzilhada»: geograficamente, e mesmo culturalmente, pertence ao Oriente, mas politicamente insiste em pertencer ao Ocidente, observa um analista turco.

Se o Império Otomano esteve dominantemente voltado para a Europa e se foi uma potência europeia, o momento extremo foi a fundação da República, em que Ataturk fez a Turquia «voltar as costas» ao Oriente e virar-se para o Ocidente, em termos de identidade cultural e política.

Um fenómeno que merece ser assinalado é o aumento da religiosidade «visível» e um simultâneo progresso da secularização. A pequena «guerra civil» em torno do lenço islâmico representa uma prova de força entre duas elites e duas concepções de Estado secular. O lenço é um desafio ao modelo laicista radical, que limita a representação pública do religioso e coloca a mesquita sob a tutela do Estado.

Entretanto, a secularização da sociedade prossegue. A «islamização» é um fantasma, dizem os inquéritos. Um estudo em grande escala sobre os «meios conservadores» (conotados com o AKP) mostra que mesmo aí a Turquia «se ocidentaliza e moderniza», afirma o sociólogo Adil Gür, que o coordenou. Por exemplo: «A taxa de pessoas que praticam o Ramadão ou a prece está em diminuição, tal como a taxa das mulheres que cobrem a cabeça». A afirmação dos valores religiosos e puritanos evolui a par de um crescente individualismo.

Por outro lado, o sunismo turco é favorável ao Estado secular, não apenas como efeito da laicização forçada de Ataturk mas sobretudo pela imensa influência do sufismo, a corrente mais espiritual do Islão, que condena a confusão entre religião e poder, em nome da própria pureza do religioso.

«Mudança tectónica» na geopolítica turca

Após um período de idílio, emergem duas perguntas. «Vai a Europa perder a Turquia?». Ou na imprensa turca: «Vai Ancara a afastar--se do Ocidente?». Está em curso, diz o historiador britânico Mark Almond, «uma mudança tectónica na posição geopolítica da Turquia».

O fim da Guerra Fria forçou Ancara a repensar o seu estatuto estratégico. Até lá era claro: «linha da frente» no flanco sul da NATO. A Primeira Guerra do Golfo (1991) fê-la temer uma desvalorização estratégica perante os Estados Unidos, além de abrir uma Caixa de Pandora: a autonomia do Curdistão iraquiano. A Turquia procurava uma nova identidade geopolítica.

Emergiram várias orientações, todas visando fazer de Ancara uma potência regional. Com o fim da URSS, sectores nacionalistas e militares apostaram num grande espaço turcófono englobando parte do Cáucaso e da Ásia Central. A corrente euroasiatista equacionou uma ligação privilegiada com a Rússia. O exército permaneceu ancorado na NATO e os ocidentalistas voltaram-se «desesperadamente» para a UE.

Em 1992, os EUA tentaram tranquilizar os turcos estabelecendo uma nova «parceria estratégica». Mas, em 1996, Samuel Huntington profetizava que a Turquia, dividida entre Islão e Ocidente, não só permaneceria excluída da UE como acabaria por se separar da NATO.

A abertura das negociações com a UE fez inscrever a política externa turca numa linha marcadamente europeia. O estreitamento desse horizonte e o crescimento da «turcofobia» na Europa desestabilizaram o governo de Erdogan, levando à travagem das reformas políticas e incentivando uma ofensiva dos «secularistas». Ao mesmo tempo, aceleraram «uma reorientação estratégica da Turquia, de um papel no interior de uma grande e multilateral aliança ocidental em direcção a uma maior afirmação unilateral» (Richard Giragosian).

Já em 2003, a invasão do Iraque abrira uma crise na orientação pró-americana de Ancara, pois punha em causa interesses vitais, como os laços com o Iraque e a questão curda. A recusa do AKP em abrir o território turco aos americanos foi apoiada pelos militares. O nacionalismo turco criou largas áreas de consenso entre Erdogan e o estado-maior na condução da política estrangeira.

Sob o lema de uma política «sem inimigos», a Turquia faz de mediador entre Israel e a Síria, conversa com o Hamas e tem relações privilegiadas com o Irão. Ofereceu-se para mediar o conflito Washington-Teerão. Começou a interessar-se pelo Líbano. Pesa no Iraque. Numa palavra: lidera a diplomacia regional. Por sua vez, os árabes redescobriram a Turquia e começaram a investir.

Os dois grandes fios condutores da política externa são a adesão à UE e a segurança energética. Se a primeira permanece como prioridade nacional, a segunda levou ao estabelecimento de relações privilegiadas com o Irão e a Rússia.

Mantém a parceria estratégica com os EUA, reactivada a seguir ao 11 de Setembro. Mas acabou a era do «seguidismo» e a Turquia discordou substancialmente da política de Bush para o Médio Oriente. Na maioria dos pontos, inclusive na abordagem do terrorismo, Ancara está mais próxima de Bruxelas do que de Washington.



A encruzilhada e a Aliança

Um inquérito do German Marshall Fund indica que apenas um terço dos turcos têm uma opinião favorável sobre a UE. E cerca de 55% entendem que a Turquia possui valores tão distintos que não faz realmente parte do Ocidente – em grande medida identificado com Cristandade.

Uma sondagem de Agosto indicava, no entanto, que, se houvesse um referendo sobre a adesão à UE 69% da população votaria a favor.

Várias crises puseram este ano a Europa à prova. No conflito Geórgia-Rússia, faltou à UE o peso da Turquia, grande actor no Cáucaso. No Médio Oriente, da Palestina ao Irão, a Europa sofre da falta do soft power turco. A crise financeira veio relembrar a utilidade dos «grandes blocos» com massa crítica para os confrontos no novo mundo multipolar: com a Turquia, a UE pesaria muito mais.

A actual política externa turca é um trunfo para a Europa. O risco é outro: o de o fecho da UE ser percebido como humilhação e provocar um efeito de bumerangue, nacionalista e anti-ocidental.

Interrogava-se em Agosto, a propósito da Geórgia e do Médio Oriente, Yusuf Kanli, director do Turkish Daily News: «Onde está a Turquia na nova Guerra Fria?» Optará pelos «seus aliados geográficos e culturais» ou colocar-se-á ao lado dos «aliados políticos e estratégicos»? Estão em jogo «duzentos anos de esforços deste país para integrar o Ocidente». «Deveria ser óbvio, mesmo para os anões políticos líderes da UE, que os interesses estratégicos fundamentais de europeus e turcos sublinham a importância vital da integração da Turquia na UE.»

É neste quadro, ou nesta «encruzilhada», que poderá ser lido o empenho turco na Aliança das Civilizações. É uma dimensão da sua política em «todos os azimutes» e uma ponte mais em direcção à UE.

Para lá das vicissitudes estratégicas, há uma constante que o politólogo Huseyin Bagci resume assim: «A Turquia quer ser o mensageiro entre o mundo islâmico e o Ocidente. O Governo acredita que pode ser uma ponte entre Oriente e Ocidente, e esta é a sua política externa.»



Informação complementar
O sufi que inspira o AKP – Partido da Justiça e do Desenvolvimento
O mais influente líder religioso turco chama-se Fetullah Gülen, 70 anos. Passa por ser um dos inspiradores do AKP. Foi acusado de conspirar contra o Estado laico e absolvido. Prudentemente, vive na América.O seu nome tornou-se universalmente conhecido ao ser eleito, em Junho, pelos leitores das revistas Prospect e Foreign Policy, como «o intelectual mais influente do mundo». O valor da eleição é relativo, pois os seus adeptos acorreram à votação electrónica.

Não prega na mesquita, tem um site na Internet. Dirige um movimento composto por centenas de escolas e universidades, instituições de assistência, organizações financeiras e um grande grupo mediático, com um dos maiores jornais turcos (Zaman), revistas e televisões, em que colaboram muitos seculares liberais. As suas escolas, muitas delas de elite, estão particularmente implantadas na Turquia, Ásia Central e Balcãs, mas estendem-se pela China e pelos EUA, passando por África.

Herdeiro da tradição sufista, rompeu com o modelo das confrarias e criou uma rede moderna que alguns comparam à Opus Dei. Considera que a educação, privilegiando as ciências e as humanidades, é a chave da emancipação do mundo muçulmano. «Gülen continua a grande tradição sufista de atender às necessidades espirituais do povo, educar as massas e dar-lhes alguma estabilidade em épocas de tempestade», escreveram dois politólogos turcos, Bulent Aras e Omer Caha.

Esteve preso, mas sempre tentou fazer compromissos com o exército, que o acusou de tentar infiltrar as academias militares. Foi um crítico frontal do islamismo político de Necmettin Erbakan, nos anos 1990. Inspirou a viragem do AKP. Mas, para os adversários seculares, continua a ser «um Khomeini turco», à espera da hora de fazer uma revolução islâmica.

A sua oposição ao islamismo político e aos fundamentalismos assenta numa posição teológica que procura conciliar a razão e a revelação e recusa a confusão entre o poder e o religioso. Crítico de regimes como o iraniano ou o saudita, adepto da democracia política, da economia liberal e defensor do diálogo entre religiões e culturas, inimigo do anti-semitismo, seduz os ocidentais, que vêem nele o modelo de um islão moderno e liberal. Quer ancorar a Turquia na Europa e ao mesmo tempo «islamizar o nacionalismo turco, recriando um laço legítimo entre Estado e religião». Ou seja, substituir o laicismo de modelo francês por um de inspiração anglo-saxónica.

Jorge Almeida Fernandes

Jornalista do PÚBLICO.






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