Ucranianos Ortodoxos: a (Re) construção da Identidade Ucraniana em Ponta Grossa-pr



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Ucranianos Ortodoxos: A (Re) construção da Identidade Ucraniana em Ponta Grossa-PR

Jeanine Campos Ressetti (UEPG)

Prof. Dr. Roberto Edgar Lamb (UEPG)
Introdução

A identidade imigrante ucraniana esta cercada por inúmeros conflitos étnicos, os quais contribuíram para essa identidade ser mantida e organizada de acordo com os valores tradicionais colocados no caminho dos imigrantes ucranianos ortodoxos. Portanto, o objetivo do presente trabalho é analisar a identidade de imigrantes e descendentes ucranianos desde a sua constituição, buscando compreender como a Igreja Ortodoxa Ucraniana se tornou base e serviu como instrumento na manutenção da identidade desses sujeitos na região dos Campos Gerais.

A construção nacional ucraniana demonstra-se relevante nesses aspectos construídos na afirmação da identidade imigrante ucraniana em Ponta Grossa – PR. O estudo da identidade nacional é essencial para compreender o grupo e como se constituem em seus espaços, principalmente nas suas relações com os sentimentos de pertencimento a grupo.

Dentre inúmeros elementos constituintes da formação da identidade ucraniana, a religião tornou-se locus privilegiado na conservação da cultura ucraniana, os elementos constituídos no espaço sagrado dão ênfase na conservação das tradições que ajudam na afirmação da identidade étnica. Dessa forma, durante esse trabalho refletiremos sobre questões que permeiam a vinda desses imigrantes até a cidade de Ponta Grossa, tomando como análise a manutenção da identidade ucraniana, sobretudo a função que a Igreja Ortodoxa Ucraniana tem na sustentação dos valores culturais ucranianos.

Para isso, buscamos demonstrar o cenário ao qual surge a cultura ucraniana fazendo um breve levantamento acerca do seu país de origem e do deslocamento do grupo que adota o Brasil como segunda pátria. Assim, se fará um panorama da imigração e emigração ucraniana, principalmente dos ucranianos no Paraná, faremos isso a partir de estudos já realizados. Dentro disso procuramos esboçar o desenvolvimento da Igreja Ortodoxa Ucraniana, marca essencial desse grupo. Essas questões nos ajudam a compreender as características que permanecem arraigadas nos sujeitos que fazem parte desse estudo.

Este artigo se originou da pesquisa que investigou as mulheres ortodoxas ucranianas, em Ponta Grossa, e é parte do projeto de pesquisa desenvolvido para o mestrado de História – UEPG orientado pelo professor Roberto Edgar Lamb.

Para a elaboração deste artigo analisamos o histórico da Igreja Ortodoxa Ucraniana, Paróquia São Jorge Protetor e utilizamos a análise de campo, onde observamos as relações entre descendentes ucranianos e a partir disso compreendemos as dinâmicas transcorridas entre a instituição e os sujeitos. Para nos auxiliar nesse estudo, relacionamos alguns autores diretamente ligados ao objeto como, os Padres, Millus (2002) e Burko (1963).

O fundamental contexto para a realização desta pesquisa é a cidade de Ponta Grossa – Paraná, a “Princesa dos Campos” (atrativa por seus campos e sua cultura agropecuária para muitos imigrantes europeus, dentre esses os imigrantes ucranianos que já possuíam essa cultura camponesa), essa região recebeu diversos imigrantes de varias etnias incluindo os ucranianos, os quais foram essenciais no crescimento da cidade.

Nosso estudo observa as questões étnicas, culturais e identitárias vinculadas à comunidade religiosa para compreender a influência na manutenção dessa cultura tradicional para os imigrantes ucranianos e, em seguida, para seus descendentes.

Uma Terra Chamada Ucrânia

A região da Ucrânia padeceu sob os olhares atentos de seus vizinhos, sendo assim diversas vezes alargada ou reduzida. Sua localização é fundamental para compreendermos os significados simbólicos e as trocas culturais na formação da identidade, pois o território numa perspectiva geográfica está carregado de significados, símbolos e imagens, os quais compõem a natureza de identificação, pertencimento e, principalmente, poder, portanto é um importante instrumento se não o principal elemento da existência de um grupo.

A Ucrânia fica no leste europeu entre a Rússia e a Polônia, tendo como fronteiras, a Moldávia, a Romênia, a Hungria, a República Tcheca e a Bielo-Rússia. Estende-se sobre um território etnográfico contínuo de cerca de 742.000 km² e um território etnográfico misto de 945.000 km² (BURKO, 1963 p. 16), tendo sofrido influência da Rússia e da Polônia na construção da Igreja Ucraniana, a primeira dominou a porção oriental da Ucrânia, e a segunda, a parte ocidental.

Tendo em vista a mescla de diversos povos da Europa central e ocidental, Burko (1963, p. 16) diz que “a mescla contínua, historicamente efetuada na Europa, cancelou, quase por completo, os distintivos originais das raças”. Existem muitos traços na organização da Ucrânia que nos possibilitam perceber não somente componentes culturais e políticos, mas também a representação religiosa.

A religião esboça uma característica fundamental para a compreensão da formação dos ucranianos, que são fortemente inspirados por sua Igreja e trás significativa atenção no processo deste estudo. Portanto, apresentaremos aspectos constituintes da formação desta religião, relevantes para o desdobramento do pertencimento religioso.

Assim como a construção nacional ucraniana, a Igreja Ortodoxa Ucraniana também é fruto de tensões, um conjunto de problemas que passaram a existir entre o Oriente e o Ocidente, como diferenças entre costumes, culturas, políticas, dentre outros elementos que estabeleceram relações de exclusividade dentro de cada grupo, o qual desembocou em fatores religiosos ligados às questões dogmáticas, questões que levaram ao Cisma de 1054, expressão das divergências da Igreja Cristã. A partir daí o lado Ocidental passa a ser reconhecida por Igreja Católica Apostólica Romana, e do lado Oriental a Igreja Ortodoxa.

Assim, a Igreja Oriental se organiza devido a esses respectivos acontecimentos, levando à formação das Igrejas locais, autocéfalas e nacionais, e à formação de patriarcados, sendo a Igreja Ortodoxa Ucraniana uma dessas ramificações, porém não havia ainda uma hierarquia estabelecida e isso a fazia dependente de Patriarcas já estabelecidos pela Igreja Ortodoxa (MILLUS, 2002 p. 3).

De certa forma, as Igrejas Ortodoxas seguem sua língua e seus costumes, ou seja, se diferem por sua posição geográfica e cultural (WATSON, 1998 p. 34), por este motivo são denominadas autocéfalas. Com isso podemos perceber as diferenças étnicas e culturais como expressão de pertença de cada grupo.

Após a Primeira Guerra Mundial, foram criadas outras Igrejas Autocéfalas como o caso das Igrejas romena, albanesa, estoniana, letoniana, lituana, finlandesa, polonesa e a ucraniana, que ficaram sob a jurisdição do Patriarca de Constantinopla. A Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana, no seu Concílio em 1990, escolhe como Patriarca Dom Mstyslav, Metropolita da Igreja Ortodoxa Ucraniana (MILLUS, 2002 p. 4).

Esse desdobramento da Igreja Ortodoxa Ucraniana aconteceu num período de conflitos nacionais vivenciados pelo povo ucraniano, tornaram a religião fonte de força da nação. A religião e as questões nacionais sempre estiveram interligadas, exemplo disso é o grupo denominado cossaco, formado por camponeses, pescadores e caçadores armados. Tornaram-se uma força significante dentro do território ucraniano, assumindo questões referentes a aspectos sociais, religiosos e nacionalistas.

Os cossacos exerceram desempenho contundente na organização da Ucrânia e da Igreja Ortodoxa Ucraniana, lutaram contra as forças moscovitas e libertaram milhares de cristãos ortodoxos, derrotaram o exercito turco e, após as várias guerras polaco-ucranianas, alcançaram a independência nacional (BURKO, 1963 p. 28).

O século XIX se caracterizou por movimentos de libertação e nacionalismo por toda a Europa. Consequentemente, a Ucrânia também manifestou esse anseio, através, sobretudo, da cultura intelectual que tinha força da cultura do povo do campo e na rica poesia popular, a exemplo do poeta Tarás Chevtchenko.

Então, em 1991, com o colapso da União Soviética, a Ucrânia alcança sua independência. Junto com a independência nacional voltou a autonomia religiosa e a Igreja recebeu sua autocefalia, podendo cuidar da sua própria administração; porém, possuindo as mesmas doutrinas das demais. A Igreja se organizou de acordo com a nação a qual ela pertence. Ou seja, a Igreja Ucraniana, definiu seus ritos, sua arquitetura, e outros símbolos, em um formato próprio.

Assim, podemos dizer que a Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana possui uma identidade própria, seus membros construíram para si diferentes maneiras de articular práticas, ritos e expressões como um conjunto de significações que abrange toda uma estrutura política e religiosa.



Da Pátria Amada à Imigração

O deslocamento dos ucranianos ocorreu em três etapas, se reestruturando em diferentes localidades, grande parte nas Américas. Entretanto, evidenciamos a entrada desses imigrantes no Brasil, sobretudo no estado do Paraná.

De acordo com Mariano Czaikowski (1989), a imigração no Brasil foi um investimento. O imigrante significava capital de trabalho, pois o processo imigratório aconteceu no período de consolidação do capitalismo e acreditava-se que, a imigração ocasionaria melhoramento cultural dentro da sociedade. Com isso houve transformações na estrutura agrária, ou seja, uma democratização do uso da terra. Os imigrantes ucranianos eram chamados para criar uma agricultura de abastecimento e fornecer trabalhadores para obras públicas.

Os imigrantes ucranianos e europeus, de modo geral, foram atraídos pelas propagandas feitas pelas companhias de navegação transoceânicas que, por meio de seus agentes de imigração, divulgavam as possibilidades de vida nova aos europeus num país do novo mundo, o Brasil (JACUMASSO, p. 6).

No Paraná a imigração ocorreu em três fluxos imigratórios, é relevante detalhar nesse trabalho a entrada dos ucranianos da terceira etapa, pois se refere aos ucranianos vindos para a cidade de Ponta Grossa.

Conforme Boruszenko (1972 apud HOBATIUK 1983. p. 29.), a primeira etapa ocorre no fim do século XIX. A segunda etapa da imigração aconteceu no decorrer da Primeira Guerra Mundial. A terceira etapa incide a Segunda Guerra Mundial, sendo esse o propulsor do maior deslocamento de emigrantes ucranianos. Faziam parte desse grupo: operários, prisioneiros de guerra, refugiados políticos, entre esses soldados da primeira divisão ucraniana e outras formações militares que lutaram junto dos alemães contra os russos.

Entre 1947 e 1951, a entrada desses imigrantes atingiu mais de sete mil registrados, sendo a mais representativa dirigindo-se para diversos pontos do Brasil, ainda tendo como preferência o Estado do Paraná. Os municípios que receberam mais imigrantes ucranianos foram; Prudentópolis, Pitanga, Ipiranga, Curitiba, União da Vitória, Vera Guarani, Dorizon, Marechal Mallet, Cruz Machado, Ponta Grossa, Irati, Lapa, Antonio Olinto, São José dos Pinhais, Araucária, Apucarana, Londrina, Maringá, Campo Mourão, Roncador, Mamburê, Foz do Iguaçu, Cascavel e outros (BURKO, 1963 p. 52).

Ao se deslocarem do seu lugar de origem o grupo carregou uma bagagem cultural que se deparou com muitas transformações ao longo desse processo. Assim, podemos observar na etnia uma percepção ampla de onde é possível ver pluralidade cultural; isto é, apesar de estar associada à raça, a etnia compreende outros pontos essenciais, como nacionalidade, religião e costumes que serão recolocados e reelaborados. De acordo com Fredrik Barth (1998 p. 112):

A etnicidade assegura a unidade efetiva do grupo tanto quanto pressupõem seu caráter constituído. A especificidade da organização social étnica decorre do papel que nela desempenham os contrastes culturais, mas esse papel não pode ser dissociado dos processos de manifestação de identidades.

Observamos que o étnico é a diferenciação social, se manifesta por símbolos nas diversas representações e na valorização do grupo. As etnias são base de uma construção de pertencimento, que vão se configurando ao longo das relações e práticas sociais. Diante disso, ressaltamos os aspectos que constituem necessidades, manifestações, símbolos e, a postura perante o outro dos ucranianos da cidade de Ponta Grossa.



Os Ucranianos em Ponta Grossa

O maior número de imigrantes ucranianos ortodoxos chegou após a Segunda Guerra Mundial, denominada a “nova imigração”. Embora já existissem ucranianos situados na região de Ponta Grossa, esses eram confundidos com poloneses e russos.

Os ucranianos se destacavam pelo seu desempenho no trabalho agrícola; seu país era considerado como um território rico em recursos agrícolas. Os imigrantes ucranianos se estabeleceram nos Campos Gerais, tendo em vista principalmente as lides agrícolas.

A região de Ponta Grossa tinha já a cultura agropecuária, sendo assim, atividades agropecuárias motivaram a vinda de muitos imigrantes europeus para a região. Compreendendo isso, os imigrantes ucranianos criaram a União Agrícola Instrutiva. No principio tinha como finalidade apoiar os imigrantes ucranianos. Com a solidificação do trabalho agrícola, o apoio se tornou mais efetivo, pois a agricultura era base do trabalho desenvolvido em terras ucranianas. Entretanto, outras atividades culturais foram sendo desenvolvidas pela Sociedade, dentre elas, no folclore, com a manutenção das tradições ucranianas, através das danças, canções, da língua e outras atividades relacionadas (SUBRAS).

No entanto, a cidade, com o tempo, passou a ter aspectos mais urbanos e se reconfigurava a partir da presença de imigrantes. Foi um momento de euforia urbana e capitalista que mudou comportamentos e padrões na sociedade pontagrossense.

Com a urbanização vieram as transformações e os ucranianos, que já tinham anseio de trazer a cultura religiosa, viram na Igreja uma forma de solidificar suas tradições no novo território. A Igreja transmitiu segurança para os imigrantes e incentiva a continuidade das tradições ucranianas para os descendentes. O elemento religioso tem função de manter a lembrança que vincula-se à própria origem, criando, para esse grupo, uma memória.

Conforme o histórico da Paróquia São Jorge Protetor, em 1950, na residência de Arcenio Voroniuk, localizada ao lado da Igreja Catedral (Praça Marechal Floriano Peixoto) com a benção da Páscoa feita pelo padre Alexandre Butkiw, começou a formação da Igreja Ortodoxa Ucraniana em Ponta Grossa, tendo como participantes 30 famílias. Sem um local sagrado (Igreja) para a realização das missas, elas passaram a ser celebradas na residência de Miguel Tchekaniuk, porém, sentia-se necessário a construção de um local apropriado para as celebrações (templo).

De acordo com Durkeim (1996) o sentimento religioso embora seja concretizado num templo consagrado, tem uma origem na própria vida social que se estabelece nestes respectivos espaços para orientar a vida social, por mais incompatíveis que os tornem. A partir do sagrado caracteriza-se o templo e os ritos realizados, sendo esse um espaço de relações sociais onde se misturam elementos de fé que, incorporados ao imaginário religioso, intensificam as representações da comunidade, no caso, a ucraniana.

Assim, tendo necessidade de construir um local para a realização dos ritos, em pouco tempo organizou-se um grupo gestor formado por Alexandre Butkiw, Miguel Chechaniuk, Wsyl Vlasenko, Fedir Moronenko, dentre outros. Designado a esse grupo expor as necessidades dos imigrantes ucranianos ao Coronel João Carneiro Ribas, proprietário de uma vasta área de terras, na posteriormente Vila Marina. O Coronel Ribas fez doação de um terreno para a igreja, oferecendo ainda um terreno ao lado para a construção da casa paroquial.

Como as famílias ucranianas interessadas em construir uma paróquia haviam acabado de chegar da Europa tiveram também de construir suas casas, e, com dificuldades financeiras e comunicação devido ao idioma, recorreram a simpatizantes da religião Ortodoxa, e receberam doações das colônias Sírio-Libanesa e grega, além do trabalho dos próprios paroquianos.

Assim, em meados de 1951, as missas passaram a ser celebradas na igreja recém-construída. Neste mesmo ano foi criada uma diretoria, tendo como presidente Wolodymyr Huczov, vice-presidente Miguel Chechaniuk, secretário Michael Overcenko, tesoureiro André Kiska. A paróquia contava com sessenta e nove famílias.

Posteriormente migraram vários ucranianos, principalmente da colônia Gonçalves Junior (Irati) para Ponta Grossa, com o interesse de trabalhar no Frigorífico Wilson, indústria de suínos. Boa parte da mão de obra foi absorvida dos ucranianos, pois tinham boa resistência ao frio dos congeladores. Mais tarde, em 1971, a indústria Wilson foi vendida para a empresa Comabra e em 1992 essa empresa foi incorporada pela atual Sadia (COSTA).

Observamos dentro do espaço religioso um grande laço afetivo na sociabilidade da comunidade em questão.

Quando se delimita uma região ou um espaço com a finalidade de acobertar determinados tipos de pessoas ou grupos, constroem-se redomas cerceadoras da liberdade. Talvez, seja para os que estão fora dela, uma necessária construção com objetivos claros: proteger-se daquilo que é diferente (...) (TAMANINI, 2009, p. 9).

Essa reflexão é necessária para a análise da identidade desse grupo, pois é dentro desse espaço que podemos visualizar aspectos da formação identitária desses ucranianos ponta-grossenses.

A Respeito de Identidade

O grupo imigrante se estabilizou enraizando e mantendo suas tradições a partir do resgate histórico e cultural. A identidade esta sujeita a diversas reconstruções de caráter simbólico, ela une indivíduos e dão a eles comportamentos sociais.

Conforme Tarouco e Reyes (2011, p.3), as identidades se enraízam nos contextos sociais, no coletivo e no histórico de cada localidade. São produtos de símbolos e discursos de valorização de cada lugar que se opõem às culturas de outras localidades.

A identidade dos sujeitos esta relacionada com a identidade cultural e nacional, esses elementos estão presentes na Igreja Ortodoxa Ucraniana servindo de influencia nas ações dos seus membros, ela produz sentidos que dão ênfase para a continuação dessa identidade através da tradição e da repetição desse conjunto simbólico gerado de um sentimento de identidade e lealdade (HALL, 2011 p. 47).

De acordo com Bellotti (2004), dentro da perspectiva da história-cultural, a religião é algo construído historicamente, não podendo ser vista como uma instancia diferente da vida social.

Portanto, consideramos a religião e a religiosidade como pertencentes da identidade compondo uma representação coletiva. Neste aspecto, os ucranianos ao se deslocarem de sua pátria, deslocam também a sua cultura e o conjunto simbólico que constitui a identidade desse grupo.

Esse deslocamento provoca insegurança nesses indivíduos, pois rompe com vínculos que os identificam levando a dispersão da identidade. Sobre isso Hall (2000) nos sugere o conceito “tradução”, o qual descreve as formações de identidades que atravessam fronteiras naturais, composta por pessoas dispersas da sua terra natal. Esses sujeitos possuem vínculos com suas origens, porém ao se estabelecerem em outros territórios percebem a necessidade de reavaliar seu campo simbólico desdobrando sua organização para uma melhor interação com os “outros”.

Considerações Finais

Os imigrantes, embora tivessem passado por um enfrentamento cultural nas suas tradições, resistiram às diversas ocupações na região da Ucrânia e não permitiram que a sua cultura fosse esquecida, mantendo até hoje por seus descendentes ainda que de forma recriada.

Como observamos durante este estudo existe uma fragilidade identitária por parte de imigrantes quando se deparam com uma nova realidade, podemos observar os elementos dessa fragilidade nos ucranianos de Ponta Grossa- PR, pois necessitam de um local para concretizá-los enquanto identidade, ou seja, uma afirmação e interação com seus semelhantes e com a memória de seus antepassados. Com isso, percebemos que esses indivíduos, estando diante de outro plano simbólico, sentem a necessidade de fixar suas raízes, sendo assim, veem na religião ortodoxa uma fortaleza, onde se oferecem valores que garantem os alicerces da identidade. No entanto, mesmo a instituição estando bem estruturada ela não esta livre de influências, sendo assim, não estão livres das misturas ou divisões.

Contudo, os fiéis no espaço religioso, ao manifestar sua relação com o sagrado, produzem suas identidades formando, assim, um grupo com quem se relacionam e se identificam movidos pela compatibilidade ou por interesses comuns. Desta forma, dentro do espaço sagrado se cruzam interesses do grupo e da ideologia religiosa. Assim, nessa articulação ocorrem comportamentos indicados pelos símbolos que representam o espaço sagrado, ou seja, isso consiste em determinar como as pessoas devem se portar no interior do espaço e nas celebrações, isso acontece sendo reforçado pelos objetos simbólicos.

A organização da Igreja deixou resquícios no inconsciente dos indivíduos ortodoxos, sem eles necessariamente terem conhecimento dessa situação. Portanto, carregam consigo o prestígio da sua história, ou a história de seus antepassados.

Referencias Bibliográficas

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