Ufpb resumos 2010 Apresentação



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UFPB

Resumos


2010

Apresentação

Amigos,
E se os chamo assim é porque assim os considero. Nunca é demais lembrar que tudo passa, e nada dura sobre a terra. E sabendo disso é que precisamos descobrir logo o que devemos fazer de nossas vidas. O tempo corre veloz, dentro da noite, com seus cavalos negros de olhos de fogo e crina esvoaçante, apenas por correr, pois cumpre a sua função. Até ele, o tempo, descobriu a sua utilidade. E nós? O que faremos de nossas vidas. De nossas aptidões. Nada?

Então a vida é que vai fazer algo com a gente. Vai nos pegar, jogar de um lado para o outro, esmurrar e cuspir na nossa cara a nossa falta de escolha. A nossa ausência de sentido e carência de objetivos.

E por que ter um objetivo. Porque o tempo corre veloz dentro da noite... e ficamos velhos, fracos e flácidos numa pelanca sinistra de arrependimentos, por não lembrarmos que,um dia desses, éramos pó; um dia desses, éramos plâncton; um dia desses éramos primitivos; um dia desses éramos pessoas , éramos gente e não éramos ninguém. Um dia desses tivemos a chance de escolher, mas não escolhemos; tivemos a chance de fazer, mas não fizemos; tivemos a chance de querer, mas não quisemos; tivemos a chance de ser e não fomos.

Chegará o dia em que nos lembraremos, finalmente, que qualquer pedra lá fora é mais velha que nós. E isso não será uma novidade. O problema mesmo é que tudo passa; nós passaremos e ela não passará, continuará lá fora, inerte, irônica e lerda, rindo da nossa efemeridade, e feliz porque, mesmo parada, cumpriu o seu objetivo.

Amigos, todo mundo deve ter um Norte, um lugar para ir, algo para desejar, um ser para querer, pois é isso que nos fará mais fortes e mais vivos, cheios de artimanhas para cumprir nosso maior objetivo: sermos úteis, pois nada é totalmente inútil nessa vida. Sejamos ao menos como um relógio velho que, mesmo quebrado, ao menos duas vezes no dia, estará coberto de razão...

Sejam felizes na nova vida que escolheram, na busca de seus objetivos, para trocarem, a partir de hoje, a tristeza de “um dia desses” por um alegre “qualquer dia”. E qualquer dia, qualquer hora, a gente se encontra, seja onde for, nem que seja pra falar de Amor...
Vicente Jr.

Livro 1 – Cartas Chilenas

Autor e obra

O poeta Tomás Antônio Gonzaga, patrono da cadeira nº 37 da Academia Brasileira de Letras, nasceu na cidade do Porto, em Portugal, a 11 de agosto de 1744 e faleceu na Ilha de Moçambique, onde cumprira pena de degredo, em fevereiro de 1810. Era filho do brasileiro Dr. João Bernardo Gonzaga e de D. Tomásia Isabel Clark. Passou alguns anos da infância no Recife e na Bahia onde o pai servia na magistratura e, adolescente, retornou a Portugal a fim de completar os estudos, matriculando-se na Universidade de Coimbra na qual concluiu o curso de Direito aos 24 anos. Depois de formado exerceu Gonzaga alguns cargos de natureza jurídica, já tendo advogado em várias causas na cidade do Porto. Candidatou-se a uma Cadeira na Universidade de Coimbra, apresentando uma tese intitulada "Tratado de Direito Natural". Em 1778 foi nomeado juiz-de-fora na cidade de Beja, com exercício até 1781. No ano seguinte é indicado para ocupar o cargo de Ouvidor Geral na comarca de Vila Rica (Ouro Preto), na Capitania de Minas Gerais. A permanência em Vila Rica estendeu-se até o ano de 1789, quando foi envolvido na famosa Inconfidência Mineira. Em maio do referido ano, acusado de participação na conspiração é detido e, sem maiores formalidades, remetido preso para o Rio de Janeiro. Nessa ocasião estava o poeta noivo de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, jovem pertencente a uma das principais famílias da capital mineira, e a quem dedicava poesias do mais requintado sabor clássico, que iriam fazer parte do livro intitulado "Marília de Dirceu" cuja primeira parte foi publicada em Lisboa, pela Impressão Régia, no ano de 1792. A obra poética de Tomás Antônio Gonzaga é relativamente pequena mas suas liras tiveram dezenas de edições. Segundo as mais abalisadas pesquisas de natureza estilística e histórica, deve-se ao infortunado Ouvidor de Vila Rica a autoria da famosa sátira "Cartas Chilenas", só editadas, em forma impressa, no Segundo Reinado. Continham elas uma coleção notável de versos cáusticos, em que era posto em ridículo Luís da Cunha Meneses, Governador e Capitão-General de Minas Gerais, na década de 1780. Na Ilha de Moçambique, para onde foi levado Gonzaga, em virtude de sua condição no processo da Conjuração mineira, casou-se o desventurado vate com Juliana de Sousa Mascarenhas, de quem houve um casal de filhos, cujos descendentes remotos ainda vivem na antiga colônia portuguesa. Quanto ao "Tratado de Direito Natural", já teve edição a cargo do Instituto Nacional do Livro. Castro Alves deu a uma de suas produções em prosa o título de "Gonzaga, ou a Revolução de Minas", drama representado no Brasil, ainda em vida do autor, interpretado no principal papel feminino pela artista portuguesa Eugênia Câmara, uma das musas do poeta.



Momento
O Arcadismo foi uma escola literária que perdurou pela maioria do século XVIII, sendo também chamado Neoclassicismo por ter como um dos objetivos imitar os autores clássicos como Homero e Virgílio (daí o fato das figuras da mitologia Grega e Romana serem muito utilizados). Tinha como principal característica o bucolismo, elevando a vida despreocupada e idealizada nos campos. Outra característica importante é a tendência a lógica, que se manifesta na descrição racional dos sentimentos. O Arcadismo é uma estética surgida na Europa no século XVIII. O nome dessa escola é uma referência à Arcádia, região bucólica do Peloponeso, na Grécia, tida como ideal de inspiração poética. No Brasil, o movimento árcade toma forma a partir da segunda metade do século XVIII. A principal característica desta escola é a exaltação da natureza e de tudo que lhe diz respeito. É por isto que muitos poetas ligados ao arcadismo adotaram pseudônimos de pastores gregos ou latinos (pois o ideal de vida válido era o de uma vida bucólica).
Análise

Cartas Chilenas são prosas satíricas, em versos decassílabos brancos, que circularam em Vila Rica poucos anos antes da Inconfidência Mineira, em 1789. Revelando seu lado satírico, num tom mordaz, agressivo, jocoso, pleno de alusões e máscaras, o poeta satiriza ferinamente a mediocridade administrativa, os desmandos dos componentes do governo, o governador de Minas e a Independência do Brasil. São uma coleção de treze cartas, assinadas por Critilo e endereçadas a Doroteu, residente em Madri. Critilo é um habitante de Santiago do Chile (na verdade Vila Rica), narra os desmandos despóticos e narcisistas do governador chileno Fanfarrão Minésio (na realidade, Luís da Cunha Menezes, governador de Minas até a Inconfidência Mineira). Por muito tempo discutiu-se a autoria das Cartas Chilenas. A dúvida só acabou após estudos de Afonso Arinos e, principalmente, de Rodrigues Lapa, comparando a obra com cada um dos elementos do "Grupo Mineiro", possíveis autores, quando se concluiu que o verdadeiro autor é Tomás Antônio Gonzaga e que Critilo é ele mesmo e Doroteu, Cláudio Manuel da Costa. Especula-se que a obra tenha sido influenciada por Cartas persas, de Monstequieu

CARTAS CHILENAS

PRÓLOGO


Amigo leitor, arribou a certo porto do Brasil, onde eu vivia, um galeão, que vinha das Américas espanholas. Nele se transportava um mancebo, cavalheiro instruído nas humanas letras. Não me foi dificultoso travar com ele uma estreita amizade, e chegou a confiar-me os manuscritos, que trazia. Entre eles encontrei as Cartas chilenas, que são um artificioso compêndio das desordens, que fez no seu governo Fanfarrão Minésio, general de Chile.

Logo que li estas Cartas, assentei comigo que as devia traduzir na nossa língua, não só porque as julguei merecedoras deste obséquio, pela simplicidade do seu estilo, como, também, pelo benefício que resulta ao público, de se verem satirizadas as insolências deste chefe, para emenda dos mais, que seguem tão vergonhosas pisadas.

Um D. Quixote pode desterrar do mundo as loucuras dos cavaleiros andantes; um Fanfarrão Minésio pode também corrigir a desordem de um governador despótico.

Eu mudei algumas coisas menos interessantes, para as acomodar melhor ao nosso gosto. Peço-te que me desculpes algumas faltas, pois, se és douto, hás de conhecer a suma dificuldade que há na tradução em verso. Lê, diverte-te e não queiras fazer juízos temerários sobre a pessoa de Fanfarrão. Há muitos fanfarrões no mundo, e talvez que tu sejas também um deles, etc.

... Quid rides? mutato nomine, de te

Fabula narratur...

Horat. Sat. I, versos 69 e 70.

As Cartas Chilenas encontram-se entre os melhores textos satíricos da língua portuguesa. Poema incompleto, o livro trata da corrupção de Luís da Cunha Meneses, governador da Capitania de Minas Gerais entre 1783 e 1788. Escrita sob anonimato - para evitar represálias, evidentemente - e permanecida inédita até 1845, durante muito tempo polemizou-se sobre a sua autoria, que um certo consenso atribui a Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). Nela, Chilenas querem dizer Mineiras: Chile seria Minas Gerais; Santiago, Vila Rica. Os personagens também tentam despistar a inspiração: o governador ficou ilustrado por Fanfarrão Minésio; o autor se autodenomina de Critilo; o destinatário das cartas chama-se Doroteu:

.

Amigo Doroteu, prezado amigo,



Abre os olhos, boceja, estende os braços

E limpa, das pestanas carregadas,

O pegajoso humor, que o sono ajunta.

Critilo, o teu Critilo é quem te chama;

Ergue a cabeça da engomada fronha

Acorda, se ouvir queres coisas raras”

São 13 cartas escritas em decassílabos brancos (sem rimas). Os costumes da cidade de Vila Rica são expostos de modo caricato e impiedoso, sobretudo os atos grosseiros e os desmandos da aristocracia. Seus temas se anunciam a cada carta: a entrada de Fanfarrão no Chile; a fingida piedade inicial deste a fim de angariar negócios; suas violências e injustiças; o casamento do futuro rei d. João 6o e Carlota Joaquina; as desordens e brejeirices de Fanfarrão. Autor revolucionário em certa medida, Gonzaga faz da literatura aqui um modo de combate, um meio que julga capaz de transformar a ordem que não lhe é conveniente: "Um D. Quixote pode desterrar do mundo as loucuras dos cavaleiros andantes; um Fanfarrão Minésio pode também corrigir a desordem de um governador despótico”, diz o poeta no prefácio.

A influência dos iluministas franceses se mostra clara aqui. Gonzaga teria se inspirado no estilo satírico de Voltaire e nas Cartas Persas (1721), do Barão de Montesquieu (1689-1755), para intitular seu poema. Nesta obra, um dos manuais do Iluminismo, um persa visita a França e tenta entender os hábitos e as instituições do país. Na comparação entre culturas e costumes diferentes residem as ironias de Montesquieu.



Tomás Antônio Gonzaga teve participação ao lado de outros poetas na Inconfidência Mineira, contrária à cobrança de impostos altíssimos sobre a exploração do ouro. Seu conjunto de liras Marília de Dirceu se enquadra como uma das melhores obras do período e faz par com as Cartas Chilenas na alta produção do poeta.


Livro 2 – Coração Roubado

Autor e obra
Marcos Rey, pseudônimo de Edmundo Donato foi um escritor, tradutor e cineasta brasileiro. Marcos Rey era descendente de italianos; seu pai, Luís Donato, era um gráfico que trabalhara na Editora Monteiro Lobato, e era um leitor voraz de ficção, transmitindo este gosto aos filhos. Seu irmão mais velho, Mário Donato, também é escritor. Marcos foi redator de programas de televisão, adaptou os clássicos O Príncipe e o Mendigo, de Mark Twain e A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo em forma de telenovela. Foi um dos autores do roteiro de Vila Sésamo e participou da equipe de redação do Sítio do Picapau Amarelo. Foi tradutor de livros em inglês, em parceria com seu irmão Mário Donato. Em 1961, escreveu para a coleção juvenil Conquistas Humanas o volume Habitação, que conta a história da residência do homem desde o tempo das cavernas. Marcos usava sua cidade natal, São Paulo, como cenário de várias de suas obras. O autor se dedicou principalmente às obras voltadas ao público juvenil. Escreveu crônicas, contos e se destacou escrevendo romances. Escreveu também várias obras literárias adultas. Durante os anos 70, foi roteirista de diversos filmes do gênero pornochanchada produzidos na Boca do Lixo, em São Paulo, como As Cangaceiras Eróticas e O Inseto do Amor. No gênero ficção infantil estreou com Não Era Uma Vez, drama de um garoto à procura de sua cadela perdida nas ruas. Na década de 1990 tornou-se colunista da revista Veja São Paulo. No ano de 1999, após voltar de uma viagem à Europa, Marcos Rey foi internado para uma cirurgia, e não resistindo às complicações, faleceu no dia 1 de abril, aos 74 anos, sem recuperar a consciência. Foi cremado, e um mês depois sua esposa Palma Bevilacqua Donato sobrevoou com helicóptero o centro da cidade, espalhando as cinzas do autor sobre São Paulo e realizando assim a reunião eterna de Marcos Rey com a metrópole que foi a grande personagem de toda sua obra.

Momento
O estilo chamado Pós-Modernismo ainda não é aceito por todos os estudiosos. Alguns acreditam que após a 2ª Guerra Mundial (1945) o tempo Pós-Moderno já seria uma realidade; para outros, ainda não saimos da Modernidade (e estaríamos vivendo uma 3ª fase do Modernismo). Na literatura brasileira podemos perceber características que se diferem do Modernismo após a década de 50. Há uma intensificam dos traços Modernistas no Movimento da Poesia Concreto e Instauração-Práxis. A transição do Modernismo para o Pós-Modernismo "se evidencia no Tropicalismo e no Movimento do Poema-Processo. Os traços pós-modernos podem ser encontrados mais acentuadamente em alguns textos da poesia marginal e na prosa de determinados autores contemporâneos"1.
    A poesia marginal é feita por jovens que buscam uma liberdade de criação e de palavras, além de uma liberdade editorial (pois publicam seus textos de forma artesanal ou em folhetos). "Por sua própria natureza, a produção 'marginal' ou 'independente' é bastante volumosa e diversificada, ainda que alguns de seus autores já tenham, em 1987, obras publicadas pelas editoras convencionais"2. Podemos ainda citar entre os movimentos de Vanguarda do Pós-Modernismo: o Neoconcretismo, a poesia ligada à revista Tendência, a produção poética de Violão de rua e os cultores da Arte Postal.
    As principais características desse estilo são: intensificação do ludismo na criação literária, utilização deliberada da intertextualidade, ecletismo estilístico, exercício da metalinguagem, fragmentarismo textual, na narrativa há uma autoconsciência e auto-reflexão, radicalização de posições anti-racionalistas e antiburguesas. Os principais autores desse estilo literário são: Guimarães Rosa, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Nelson Rodrigues, Adélia Prado, Autran Dourado, Augusto e Haroldo de Campos, João Ubaldo Ribeiro, Mário Quintana, Marcos Rey entre outros... 62

Análise
Marcos Rey, em Coração Roubado, mostra mais uma de suas habilidades como escritor: a criação de crônicas. A respeito desse gênero o autor comenta: A boa crônica, a meu ver e não sei de quem mais, só possui o meio ou o miolo, é sumo, não casca. Tendo as pontas soltas bóia deliciosamente, caia onde cair. É um sanduíche sem as fatias de pão. Não tendo assinado contrato com a posteridade, é feita para servir já, quente ou gelada, em pó ou granulada. Ao contrário do artigo de jornal, ela não prova, confere. As crônicas, divididas no livro em três subtítulos, Situações embaraçosas, Flashes da vida moderna e Figurinhas carimbadas encantam, ensinam e divertem.

Marcos Rey, em Coração Roubado, mostra mais uma de suas habilidades como escritor: a criação de crônicas. A respeito desse gênero o autor comenta: A boa crônica, a meu ver e não sei de quem mais, só possui o meio ou o miolo, é sumo, não casca. Tendo as pontas soltas bóia deliciosamente, caia onde cair. É um sanduíche sem as fatias de pão. Não tendo assinado contrato com a posteridade, é feita para servir já, quente ou gelada, em pó ou granulada. Ao contrário do artigo de jornal, ela não prova, confere.


As crônicas, divididas no livro em três subtítulos, Situações embaraçosas, Flashes da vida moderna e Figurinhas carimbadas encantam, ensinam e divertem.
Livro 3 – “O Noviço” e “Judas em sábado de aleluia”
Autor e obra

Martins Pena nasceu no dia 5 novembro de 1815 no Rio de Janeiro. Filho de João Martins Pena e Francisca de Paula Julieta Pena, ficou órfão de pai quando tinha apenas um ano de idade e de mãe aos dez. Dai por diante foi criado por tutores que o incentivaram a aprender as artes do comércio. Após completar o curso de Comércio em 1835, passou a estudar, dentre outras coisas, pintura, música, literatura e teatro. Dedicou-se também ao estudo de outras línguas, tendo grande facilidade em dominá-las. Essa aptidão facilitou o seu ingresso na carreira diplomática, chegando a ser adido(1) de Primeira classe na legação de Londres. Tuberculoso, deixou o frio Londres e tentou retornar ao Brasil. No entanto, não completou a viagem, vindo a falecer em 7 de dezembro de 1848 em Lisboa. Martins pena é considerado o fundador da comédia de costumes no teatro brasileiro. É considerado ainda um dos principais precursores do Romantismo no Brasil e um dos primeiros autores a retratar o processo de urbanização no século XIX. Grande parte da obra composta por Martins foi teatro. Em suas aproximadas 30 peças, divididas em comédias e farsas, percebe-se que Martins Pena usa com precisão a linguagem coloquial. Outras características importantes são o seu extraordinário estilo cômico e a sátira, usada para censurar, entre outras coisas, a hipocrisia da Igreja e os abusos políticos. Vale lembrar que graças a esse estilo conseguiu grande popularidade não só no período em que viveu, mas também nos dias atuais, pois suas obras são representadas com êxito nos dias atuais. O mundo dos seus personagens englobam sobretudo, o povo simples da roça e a gente comum das cidades. Em sua verdadeira galeria de personagens destacam-se os seguintes "tipos": juizes, profissionais da época, malandros, estrangeiros, falsos cultos etc. O tema das peças gira em torno de casamentos, heranças, dívidas, festas da cidade e da roça, pequenas intrigas domésticas etc. Esses temas, por serem cotidianos, agradaram em demasia o público. Martins Pena é o patrono da Cadeira n. 29 da Academia Brasileira de Letras, por escolha do fundador Artur Azevedo. Suas principais obras são:

  • 0 Juiz de paz na roça;

  • Os Irmãos das Almas;

  • 0 Judas em sábado de Aleluia;

  • Os Dois ou 0 Inglês maquinista;

  • Os Namorados ou a Noite de S. João;

  • Os Três Médicos;

  • 0 Cigano;

  • 0 Noviço;

  • As Casadas Solteiras;

  • Quem casa, quer casa;

  • 0 Segredo d'Estado;

  • D. Leonor Telles

Momento

O Romantismo foi um movimento artístico e filosófico surgido nas últimas décadas do século XVIII na Europa que perdurou por grande parte do século XIX. Caracterizou-se como uma visão de mundo contrária ao racionalismo que marcou o período neoclássico e buscou um nacionalismo que viria a consolidar os estados nacionais na Europa. Inicialmente apenas uma atitude, um estado de espírito, o Romantismo toma mais tarde a forma de um movimento e o espírito romântico passa a designar toda uma visão de mundo centrada no indivíduo. Os autores românticos voltaram-se cada vez mais para si mesmos, retratando o drama humano, amores trágicos, ideais utópicos e desejos de escapismo. Se o século XVIII foi marcado pela objetividade, pelo Iluminismo e pela razão, o início do século XIX seria marcado pelo lirismo, pela subjetividade, pela emoção e pelo eu.



O Romantismo no Brasil...
Em 1836, com a publicação de Suspiros Poéticos e Saudades, o Romantismo instala-se no Brasil. Isso fez com que houvesse uma divisão de nossa escola romântica em obras de Prosa ( romance, conto e crônica) e Poesia, havendo posteriormente, o englobamento do gênero Dramático, o teatro de Martins Pena. O Romantismo, porém, dividia-se em vertentes: Indianista ( Iracema e Ubirajara ); Histórica ( Guerra dos Mascates ); Urbana ( Senhora e Lucíola ) e Sertanista ( O sertanejo, O cabeleira e Inocência).

O romance indianista representa no Romantismo brasileiro, parte de um projeto de valorização da cultura nacional através de uma postura nacionalista que coloca o índio como símbolo nacional e expressa características como heroísmo, coragem e pureza, retomando o Mito do Bom Selvagem, de Jean Jackes Russeau. Valoriza também a exuberância das nossas matas tropicais mostrando o poder da Natureza sobre o homem.



Análise

Peça 1
O Juiz de Paz da Roça (1833), obra de Martins Pena, é considerada a primeira comédia de costumes do teatro brasileiro. Influenciada pelo teatro picaresco espanhol, possui, além da crítica social e do diálogo coloquial, características posteriormente encontradas na chanchada, no teatro de revista e outros gêneros populares, como a piada de duplo sentido e a utilização de danças e canções. Além disso, traz também, sob a influência dos franceses – o que o faz ser chamado de Molière brasileiro –, o teatro que, por meio do riso (outro ponto de contato gilvicentino), a descrição e a crítica aos costumes do Rio de Janeiro de meados do século XIX. E tudo de forma simples, natural, espontânea, ágil.

Espaço / Tempo

Rio de Janeiro - casa de Manuel João e casa do Juiz de paz. A peça é de 1837. O momento histórico da ação é o mesmo da Revolução Farroupilha, acontecida no Rio Grande do Sul, em 1834: é da convocação militar que José, noivo de Aninha, vem fugindo. 0 casamento seria justificativa legal para seu não recrutamento. Coincidentemente, é Manuel João o encarregado de conduzir o recruta ao serviço militar - o que não acaba acontecendo, naturalmente



Temática

Criticar as convenções sociais, o casamento, a família, o governo e satirizar figuras como padres, juízes, políticos inescrupulosos e novos ricos.



Estrutura da peça

Ato único com 23 cenas (incluindo a Cena Última)




Personagens

As personagens de Martins Pena são pessoas comuns em situações do dia-a-dia, como casamentos, festas, envolvidas em pequenas intrigas domésticas etc: juiz de Paz; escrivão do Juiz de Paz; Manuel João; Maria Rosa; Aninha; José da Fonseca; lavradores.



Enredo

O enredo é simples: trata-se de uma sátira à aplicação da justiça nas províncias remotas do Segundo Império, denunciando a corrupção e o abuso das autoridades. Sem dúvida foi esse o motivo do estrondoso sucesso da sua primeira encenação, em 1848. Faz menção à Guerra dos Farroupilhas, ao contrabando de escravos e outras mazelas sociais.


Peça de um ato, o texto é considerado o nosso Monólogo do Vaqueiro, já que é o inaugurador, literariamente, de nosso teatro. Como seu título indica, a trama dedica-se a descrever os costumes da zona rural, o que era a preocupação das primeiras obras do autor. Depois de infeliz passagem para a tragédia, o dramaturgo voltaria às comédias, mas ambientadas na Corte. No entanto, como se verá, o foco de sua crítica não mudou.


Assim como nas peças de Gil Vicente, somos jogados de chofre no meio da história. Essa técnica recebe o nome de “in media res”. Assim, por meio do diálogo de mãe (Maria Rosa) e filha (Aninha) sobre a labuta do pai (Manuel João), tomamos conhecimento de todo o sofrido universo de valores, costumes e tarefas da roça, como a necessidade de mais mão-de-obra escrava, atrapalhada por dificuldades econômicas. É interessante como essas preocupações por demais pragmáticas são apresentadas diante de um público romântico e com tendência à evasão e à idealização. Até que ponto estaria ocorrendo um desvio aos padrões estéticos burgueses?


Aninha, ciente da iminente chegada do pai, cansado do trabalho, lembra a mãe que este iria gostar de jacuba (um tipo de refresco). A senhora sai de cena, para a preparação da bebida. Tratava-se de um expediente da menina para que ficasse sozinha e recebesse seu namorado. Esses estratagemas são muito comuns no tipo de teatro que Martins Pena estava inaugurando. Dão mais agilidade à trama.


Aumentando a velocidade do texto, as cenas são curtas, tendo apenas a extensão necessária para o desenrolar dos fatos. Tudo é essencial, econômico, importante, inclusive as rubricas (marcações da cena), que são precisas e significativas até no vestuário. O autor demonstra aqui a consciência de que o teatro é encenação, é para ser visto principalmente. Isso explica a importância de se lembrar que o namorado de Aninha, José (note a simplicidade dos nomes) veste roupas brancas. Em plena roça, esses trajes reforçariam uma tendência, disseminada em outros momentos, da personagem a não enxergar que seu papel é trabalhar e não pensar em prazeres da vida apenas, como se fosse um bon vivant.


Nesta segunda cena ocorre o encontro amoroso entre José e Aninha. Nela se manifesta uma característica comum do autor, que é a utilização do exagero caricaturesco, percebido no instante em que Aninha recusa o abraço de seu amado. Só depois do casamento é que pode! E ainda alfineta dizendo que esse “abuso” fora causado pelos maus costumes adquiridos na Corte.

Há também nesta cena, por meio do diálogo dos namorados, um elemento que é crucial na obra do autor: o contraste entre a roça e a Corte. O rapaz, após a estranha explicação de que não sobrara vintém do bananal que recebera de herança – revelador, no mínimo, da imaturidade da personagem –, diz como pretende se arranjar com sua amada: vão-se casar às escondidas e se mudarão para a Corte. Para seduzir Aninha, faz uma descrição completamente distorcida da Capital, apegado apenas ao aspecto exótico, como se a vida lá fosse prazer, diversão. Isso é percebido no diálogo abaixo transcrito:
JOSÉ – Vamos para a Corte, que você verá o que é bom.

ANINHA – Mas então o que é que há lá tão bonito?

JOSÉ – Eu te digo. Há três teatros, e um deles maior que o engenho do capitão-mor.

ANINHA – Oh, como é grande!

JOSÉ – Representa-se todas as noites. Pois uma mágica... Oh, isto é cousa grande!

ANINHA – O que é mágica?

JOSÉ – Mágica é uma peça de muito maquinismo.

ANINHA – Maquinismo?

JOSÉ – Sim, maquinismo. Eu te explico. Uma árvore se vira em uma barraca; paus viram-se em cobras, e um homem vira-se em macaco.

ANINHA – Em macaco! Coitado do homem!

JOSÉ – Mas não é de verdade.

ANINHA – Ah, como deve ser bonito! E tem rabo?

JOSÉ – Tem rabo, tem. Essa visão distorcida provoca riso na platéia, composta de burgueses da Corte. No entanto, fica subentendida uma crítica de Martins Pena à mania desse grupo em tentar se equiparar à Europa, não se tocando de que é tão provinciana – trata-se de uma nação recente – quanto a roça. A maneira como Aninha imagina a Corte (em que acaba até comicamente misturando tudo o que José descreveu) deve ser a mesma maneira como enxergávamos e ainda enxergamos o Primeiro Mundo.

Enfim, o encontro é abreviado por causa da iminência da chegada de Manuel João. Assim, combinam o casamento para o dia seguinte, de manhã.

A chegada do pai serve para que mais uma vez entremos no cotidiano simples da classe baixa rural. Ficamos sabendo das lamentações por uma vida trabalhosa, das tarefas feitas e a serem realizadas e até da janta (carne seca, feijão e laranjas).  Não se poupa nem mesmo a menção ao fato de já ter acabado carne seca. Lembra o esforço, muitas vezes fracassado, que algumas novelas globais tentam de retratar o dia-a-dia.

Ao bater da porta, mais uma vez o ridículo será utilizado, dessa vez por aspectos visuais (um procedimento também comum em Martins Pena, que remonta à tradição circense e que deu origem ao pastelão): Manuel João trata de esconder a comida e ainda – beiramos o grotesco – lambe os dedos. É pobreza extrema misturada a mesquinharia e sovinice.

Quem entra em cena é o Escrivão, que traz uma intimação do Juiz de Paz: Manuel João tem de levar até a cidade um prisioneiro como recruta para a revolta que estava havendo no Rio Grande do Sul. João não entende por que justo ele tem de realizar tal tarefa, o que representaria a perda de um dia de trabalho. As preocupações imediatas, ligadas à sobrevivência, entram mais uma vez em foco. O Escrivão informa que ninguém a aceitava. João mais uma vez protesta, dizendo que ele não tinha culpa nenhuma dos problemas arranjados pelo governo. Nem mesmo dá atenção ao argumento ligado a patriotismo. No entanto, cede, diante da ameaça de prisão.

Observe-se que há críticas fortes aqui que chegam a se chocar com o conjunto de valores burgueses. Seu efeito só não é de imediato fulminante porque tudo se dilui em meio ao humor e principalmente por estar na boca de uma personagem que age de forma tão estabanada.

A partida de Manuel João é feita em meio a inúmeras recomendações sobre as tarefas a serem feitas de ambos os lados, tanto para os que ficam, quanto para o que vai. Mais uma vez o cotidiano simples retratado de forma viva, natural e colorida. Destaque seja feito ao pedido que Aninha faz ao pai: já que vai à cidade, que lhe trouxesse sapatos franceses. Outra crítica que se dirige não à roça, mas à Corte e ao seu apego à ostentação das superficialidades do universo europeu.

A próxima cena é já na casa do Juiz de Paz, funcionário que tem a função de conciliador dos conflitos de sua jurisdição. É provavelmente o melhor momento da obra, por causa principalmente dos jogos de palavra que se estabelecem.

Em primeiro, ficamos sabendo de um presente recebido pela autoridade: 

“Tomo a liberdade de mandar a V. Sª um caicho de bananas maçãs para V. Sª comer com a sua boca e dar também a comer à V. Sª Juíza e aos Srs. Juizinhos. V. Sª há de reparar na insignificância do presente; porém, Ilmo Sr., as reformas da Constituição permitem a cada um fazer o que quiser, e mesmo fazer presentes; ora, mandando assim as ditas reformas, V. Sª fará o favor de aceitar as ditas bananas, que diz minha Teresa Ova serem muito boas.” É saborosa a maneira com que o autor enfoca a simplicidade do povo, por meio, primeiro, de pleonasmos (“comer com a boca”) e por expressões inadequadas, mas cômicas (“V. Sª Juíza”, no lugar de “esposa do Juiz”, e “Srs. Juizinhos”, no lugar de “filhos do Juiz”). Há também a confusão que se faz entre o tom cerimonioso, adequado à situação, e o familiar, íntimo, inadequado. Mas há ainda uma crítica à corrupção do magistrado, pois Manuel André, a personagem que presenteia o juiz, participará, como se verá, de uma ação litigiosa. Além disso, olha a visão distorcida (será?) que se tem sobre os efeitos da Nova Constituição.

O primeiro caso a ser resolvido envolve Gregório, Inácio José e sua esposa Josefa Joaquina. A transcrição de um trecho apresenta elementos suficientes para análise: 


JUIZ – É verdade, Sr. Gregório, que o senhor deu uma embigada na senhora?

GREGÓRIO – É mentira, Sr. Juiz de paz, eu não dou embigadas em bruxas.

JOSEFA JOAQUINA – Bruxa é a marafona de tua mulher, malcriado! Já não se lembra que me deu uma embigada, e que me deixou uma marca roxa na barriga? Se o senhor quer ver, posso mostrar.

JUIZ – Nada, nada, não é preciso; eu o creio. Martins Pena manipula com eficiência e colorido os elementos dramáticos, reproduzindo com fidelidade não só a linguagem coloquial, mas também a psicologia das personagens. Prova disso é que Gregório e Joaquina desviam-se da resolução de sua contenda em meio a ofensas. Fica nítido, por exemplo, que o aspecto infantil do raciocínio de Joaquina, que, ao invés de apresentar argumentos na discussão, devolve ofensa, atacando a mãe do oponente.

O mais incrível é a decisão do Juiz, que, além de paternalista, é contraditória. Se por um lado dispensa Inácio e Joaquina, sob a alegação de que umbigada não constitui crime em nenhuma lei, por outro ameaça Gregório de aplicar a lei “às costas” se este continuar a praticar umbigadas. E arbitrariamente encerra o caso com um “Estão conciliados”, o seu bordão.

Em seguida é lido um outro requerimento de Manuel André. E mais uma vez o suborno: na introdução do requerimento, antes de anunciado o assunto, avisa-se, meio que en passant, que um cacho de bananas será enviado ao Juiz. E novamente a mistura cômica do tom familiar com o solene.

Tratava-se de uma questão de divisa de terra. O Juiz delega ao suplente a decisão. O problema é que ambos estavam atarefados com seus próprios roçados. Note-se que o suborno não foi eficiente. Note-se também o descaso e incompetência no exercício das funções jurídicas.

Manuel André protesta. O Juiz ameaça com cadeia. O pleiteante faz lembrar a Constituição, fortemente desprezada pelo magistrado. Confusão é formada – mais um elemento de gosto popular no corpo da peça – e Manuel André acaba fugindo.

O outro caso é entre João de Sampaio e Tomás. O primeiro é dono de um leitão, que invadiu as terras do segundo. Estabelece-se uma briga até física – mais uma cena à pastelão, com os dois reclamos puxando, um de cada lado, o objeto de disputa. O problema é resolvido com a determinação do Juiz – um tanto egoísta – de ficar com o bicho. Ainda manda que seja trazida ervilha para a complementação de um prato que imaginara. E, pior, folgadamente determina que um dos contendores coloque o suíno no chiqueiro. Exibe-se a aplicação torta da lei, apenas para atingir interesses pessoais. No fim, o bordão: “estão conciliados”.

Como um adendo, Sampaio quer que tudo seja citado na Assembléia Provincial. O Juiz não autoriza, achando o assunto irrelevante. Tomás convence-o do contrário, lembrando os votos que o magistrado havia-lhe pedido para os integrantes da tal instituição legislativa. Corrupção, troca de favores, compra de votos... Problemas de longa data!

O próximo caso é de Francisco Antônio, Rosa de Jesus e José da Silva. A transcrição abaixo do requerimento dá mais detalhes: 



“Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de Jesus, trouxe esta por dote uma égua. ‘Ora, acontecendo ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora, como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que a minha escrava tem um filho que é meu, peço a V. Sª mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da égua que é de minha mulher’”. Observe-se como a manipulação da linguagem abre no texto uma ambigüidade saborosa, apesar de rasteira.

A decisão do Juiz seguiu o caminho que parecia mais lógico: em favor de Francisco e Rosa de Jesus. José da Silva protesta, diz que vai recorrer, mas o magistrado faz pouco caso – tem procedimentos jurídicos para invalidar os questionamentos. Há mais reclamações, sufocados quando o magistrado manda prender José da Silva e fazê-lo recruta. Diante do pior, o protestante abre mão das queixas.

Nesse momento, chega Manuel João para receber o preso. E, preocupado com coisas imediatas, obtém autorização para deixar em sua casa o prisioneiro, pois que já estava chegando a noite.

Na chegada à casa de Manuel João ocorre outro expediente típico da dramaturgia popular: a surpresa causada pela descoberta da identidade de uma personagem. Causa curiosidade o espanto de Aninha ao se deparar com o prisioneiro. Depois que pai e mãe saem, a filha solta o recruta e fica-se sabendo tratar-se de seu namorado, José. Havia sido preso, alega, de forma extremamente arbitrária: “Assim que botei os pés fora desta porta, encontrei com o juiz, que me mandou agarrar.” Há um potencial de crítica aqui, que, diluído, não é aproveitado.

O casal foge para se casar. Quando os pais descobrem o que ocorreu, surge alvoroço, revolta e decepção, mas engraçadamente há espaço para um certo alívio de Manuel João, que estava livre da tarefa de levar o prisioneiro no dia seguinte. No fim, toda a culpa recai, comicamente, sobre a guerra que se processava no Rio Grande do Sul. A culpa é do Governo (como dizia uma antiga personagem humorística da televisão). Talvez por isso Manuel João resolva dar parte ao Juiz.

No entanto, é interrompido com a chegada do casal fugitivo, já casado. Tudo acaba em abraços. É essa explosão de felicidade (estamos indo na direção do desfecho da obra) que retira da obra um fôlego mais forte para se dedicar a uma ferrenha crítica social, no estilo do Realismo.

Resolvem, então, dar outra parte ao Juiz, agora de tom mais positivo.

A próxima cena é na casa do magistrado, que comunica ao escrivão a necessidade de consultar um letrado – deixa claro que não entende muito de leis. Antigamente, toda vez que surgia um problema cuja solução não conhecia, simplesmente usava um “Não tem lugar.” e o empurrava. Deixou de utilizar esse expediente porque uma vez quase tinha sido suspenso. Esses são mais ingredientes para que possamos denegrir a imagem desse funcionário. O escrivão até pergunta se tudo isso não era motivo de vergonha. Resposta:  



“Envergonhar-me de quê? O senhor ainda está muito de cor. Aqui para nós, que ninguém nos ouve, quantos juízes há por estas comarcas que não sabem aonde têm sua mão direita, quanto mais juízes de paz...” Suas reflexões são interrompidas com a chegada de Manuel João, Maria Rosa, Aninha e José, que lhe comunicam o casamento. Dessa forma, livra-se a personagem da obrigatoriedade de se tornar recruta.

A primeira reação do Juiz é desmoralizar José, chamando-o de biltre. Mas depois pede para perdoar a ofensa. O magistrado é de fato uma personagem rica em suas contradições, tornando-se extremamente humana, tanto que decide comemorar o matrimônio em sua casa, caindo todos na dança e na cantoria, conforme atesta o trecho final abaixo transcrito: 



TOCADOR, cantando – Em cima daquele morro

Há um pé de ananás;

Não há homem neste mundo

Como o nosso juiz de paz.

TODOS – Se me dás que comê,

Se me dás que bebê,

Se me pagas as casas,

Vou morar com você.

JUIZ – Aferventa, aferventa!... Tudo termina bem, em festança, em folguedo, afugentando todo e qualquer elemento (e os há na obra em grande quantidade) que pudesse desagradar os padrões do público burguês romântico.
Peça 2
O Judas em Sábado de Aleluia, de Martins Pena, é uma comédia de costumes, escrita no final do século XIX, contendo apenas um ato e doze cenas. Martins pena é um dos maiores dramaturgos brasileiros, o criador do Teatro Nacional. Na peça, ele zomba dos costumes sociais do Rio de Janeiro do século XIX, pois trata basicamente de um tema comum esboçado pelos autores românticos: das moças que buscam um noivo para si, bem como um reforço retratista da pequena burguesia: funcionários públicos, militares etc.

Dotado de singular veia cômica, soube aproveitar o momento em que se intensificava a criação do teatro romântico brasileiro, que possibilitava tratar das situações e personagens do cotidiano, e mostrou a realidade de um país atrasado e, predominantemente, rural, fazendo a platéia rir de si mesma. Seus textos envolvem, sobretudo, flagrantes da vida brasileira, do campo à cidade. Assim, apresenta com temas principais, os problemas familiares, casamentos, heranças, dotes, dívidas, corrupção, injustiças, festas populares etc. Sua galeria de tipos compreende: funcionários públicos, padres, meirinhos, juízes, malandros, matutos, moças namoradeiras ou sonsas, guardas nacionais, mexeriqueiros, viúvas etc.


Na peça fica patente a crítica de Martins Pena à sociedade hipócrita que semeia visões distorcidas daquilo que é em sua interioridade podre. Percebe-se a crítica à moral burguesa com os seus desejos e certezas. Fica clara ainda a figura da esperteza de Faustino. A história passa-se no Rio de Janeiro, no ano de 1844.



PERSONAGENS

JOSÉ PIMENTA, cabo-de-esquadra da Guarda Nacional


CHIQUINHA
MARICOTA e suas filhas
LULU (10 anos)
FAUSTINO, empregado público
AMBRÓSIO, capitão da Guarda Nacional
ANTÔNIO DOMINGOS, velho, negociante
Meninos e moleques

RESUMO

A história se desenrola na casa de Pimenta, cabo da guarda-nacional e pai de Maricota e Chiquinha. Estas duas moças, principalmente, Maricota sonham com o casamento. Sonho e desejo comum das jovens solteiras do século XIX. Para isso, resolveu namorar a tantos quanto pudesse. Isso permitiria a ela maiores oportunidades. Conforme ela mesma disse à irmã:



Ora dize-me, quem compra muitos bilhetes de loteria não tem mais probabilidade de tirar a sorte grande do que aquele que só compra um? Não pode do mesmo modo, nessa loteria do casamento, quem tem muitas amantes ter mais probabilidade de tirar um para marido?

Já a sua irmã Chiquinha possuía uma atitude mais sôfrega. Não era dada a requestos tão intensos.

A história avoluma-se ou alcança um ponto inflexivo quando aparece a figura de Faustino à porta da casa para ter com Maricota. Faustino lamentoso, questiona o amor de Maricota por ele e afirma a infelicidade que habita a sua alma inquieta. Maricota diz que o ama. De repente chega o capitão da Guarda Nacional, que é um dos pretensos namorados de Maricota. Faustino assume o disfarce de Judas, que alguns meninos preparam para o Sábado de Aleluia. Portanto, este escuta a fala de Maricota com o capitão. Em seguida, chega ainda o pai de Maricota. Esta corre. Pimenta, o pai das duas donzelas, fica a tratar de negócios com o capitão. Conversam basicamente sobre a situação de indisciplina que anda a Guarda Nacional. Faustino disfarçado de Judas de aleluia escuta a conversa. O capitão retira-se.

Volta à sala a figura de Chiquinha para continuar a coser o seu vestido para a festa de sábado de aleluia. Em dado momento, esta suspira alto e confessa a sua paixão por Faustino. O rapaz deitado, disfarçado no chão, aproxima-se dela e é solidário ao amor da moça. Chiquinha sente-se envergonhada, mas se mostra crédula com a recepção do amor de Faustino. O pai retorna à sala, Chiquinha corre e Faustino se esconde. Pimenta dessa vez traz consigo a figura de Antônio. Os dois especulam sobre um negócio escuso que estão praticando no porto. E temem. Faustino absorve todas estas informações. Os dois homens temem ser descobertos pela polícia. Isso propiciaria um destino infausto. Faustino, deitado, ensaia uma voz que parece ser da polícia. Os dois encolhem-se de medo. Quando à porta bate o capitão. Pimenta e Antônio se atarantam. Finalmente, os três ficam juntos e entendem que algo misterioso se passava no interior daquela casa.

Os meninos que preparavam o Judas entram na sala para malharem-no. Faustino corre. Os presentes à sala se assustam com o espantalho que toma vida. Todos correm. Uns se escondem embaixo da mesa; outro sobe num móvel; outros ainda rolam no chão. Chiquinha não se altera por saber a identidade do espantalho Judas. De repente Faustino volta ao interior da casa ameaçado por algumas crianças que encontra na rua. Temendo a própria vida volta para ter com os que jaziam espantados. Martins Pena deixa transparecer a sua verve cômica nessa cena.

Começa a partir daí a vingança de Faustino. Este se põe no meio daqueles que dantes estavam espantados. O capitão, Antônio, Pimenta e Maricota ameaçam Faustino. Tal ameaça expressa claramente uma ignorância por parte dos personagens, que não têm conhecimento dos segredos adquiridos por Faustino. Este se apropria da fala e se vinga de cada um dos personagens. As suas intenções são manifestadas: Maricota se casa com Antônio (um velho). Suas intenções não graçam, não tomam vida. Ao cabo, Faustino beija o rosto de Pimenta, realizando o ato de Judas, o discípulo de Jesus, que o traiu com um beijo na face. Aqui o personagem ironiza e pede a mão de Chiquinha em casamento.


Livro 4 – Sermões escolhidos

Autor e obra

Padre Antônio Vieira (Lisboa, 6 de fevereiro de 1608Bahia, 18 de Julho de 1697) foi um religioso, escritor e orador português da Companhia de Jesus. Um dos mais influentes personagens do século XVII em termos de política, destacou-se como missionário em terras brasileiras. Nesta qualidade, defendeu infatigavelmente os direitos humanos dos povos indígenas combatendo a sua exploração e escravização. Era por eles chamado de "Paiaçu" (Grande Padre/Pai, em tupi). António Vieira defendeu também os judeus, a abolição da distinção entre cristãos-novos (judeus convertidos, perseguidos à época pela Inquisição) e cristãos-velhos (os católicos tradicionais), e a abolição da escravatura. Criticou ainda severamente os sacerdotes da sua época e a própria Inquisição. Na literatura, seus sermões possuem considerável importância no barroco brasileiro e português. As universidades frequentemente exigem sua leitura. Nascido em lar humilde, na Rua do Cónego, perto da Sé, em Lisboa, foi o primogénito de quatro filhos de Cristóvão Vieira Ravasco, de origem alentejana cuja mãe era filha de uma mulata ou africana, e de Maria de Azevedo, lisboeta. Cristóvão serviu na Marinha Portuguesa e foi, por dois anos, escrivão da Inquisição. Mudou-se para o Brasil em 1609, para assumir cargo de escrivão em Salvador, mandando vir a família em 1618.

No Brasil


António Vieira chegou à Bahia com seis anos de idade. Fez os primeiros estudos no Colégio dos Jesuítas em Salvador, onde, principiando com dificuldades, veio a tornar-se brilhante aluno. Ingressou na Companhia de Jesus como noviço em maio de 1623.

Em 1624, quando na invasão holandesa de Salvador, refugiou-se no interior da capitania, onde se iniciou a sua vocação missionária. Um ano depois tomou os votos de castidade, pobreza e obediência, abandonando o noviciado. Prosseguiu os seus estudos em Teologia, tendo estudado ainda Lógica, Metafísica e Matemática, obtendo o mestrado em Artes. Foi professor de Retórica em Olinda, ordenando-se sacerdote em 1634. Nesta época já era conhecido pelos seus primeiros sermões, tendo fama de notável pregador.

Quando da segunda invasão holandesa ao Nordeste do Brasil(1630-1654), defendeu que Portugal entregasse a região aos Países Baixos, pois gastava dez vezes mais com sua manutenção e defesa do que o que obtinha em contrapartida, além do fato de que os Países Baixos eram um inimigo militarmente muito superior à época. Quando eclodiu uma disputa entre Dominicanos (membros da Inquisição) e Jesuítas (catequistas), Vieira, defensor dos judeus, caiu em desgraça, enfraquecido pela derrota de sua posição quanto à questão da Região Nordeste do Brasil.

Momento
O BARROCO tem como datas em Portugal (1580 – 1756) e no Brasil (1601 – 1768) . É a literatura do conflito e dos extremos, isto em função das diferentes visões de mundo advindas da Idade Média (Teocentrismo) e da Idade Moderna (Antropocentrismo). A Igreja Católica, preocupada com as idéias da Reforma Protestante, inicia a Contra Reforma.

A corrupção da Igreja, com a ambição desmedida de seus representantes soma-se aos avanços verificados no campo do conhecimento humano fazendo com que o homem descubra sua autonomia passe a questionar os discursos da Igreja.


Obs.: Muitas são as explicações para a etmologia da palavra “Barroco”, para uns indica uma pérola de superfície irregular; para outros vem do nome de um artista italiano e, outros ainda acham que tudo não passa de um intrincado “silogismo” (bArOcO).
Silogismo – argumento formado a partir de duas proposições, as premissas: delas se obtém uma terceira chamada conclusão.

Análise
A Lógica Bíblica de Os Sermões

Eloqüente e apaixonado, elabora os sermões dentro da técnica medieval, deslindando as metáforas da linguagem bíblica e as "aparências enganosas" do universo através de interpretações pessoalíssimas. Ele vai buscar no passado o comentário alusivo ao tempo presente.

Sempre há um episódio ou uma citação da Bíblia em suas pregações, e por meio dessas referências, ele penetra no turbilhão do cotidiano. Assim, uma passagem do Livro Sagrado funciona como espelho de uma situação atual. Tudo na Bíblia têm um sentido oculto. E o objetivo do padre é fornecer a tradução da cifrada linguagem divina para o seu momento histórico.

Temas religiosos



O interesse pela existência cotidiana da Colônia e pelo futuro histórico de Portugal não impedem Vieira de desenvolver uma oratória estritamente religiosa, onde as questões da morte e da eternidade avultam a todo momento. O fragmento abaixo pertence ao Sermão de Quarta-feira de Cinzas, pregado em Roma, no ano de 1672. Acompanhe o engenho e o brilho desse texto:

Duas coisas a Igreja prega hoje a todos os mortais: ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa, e evidente, que não é necessário entendimento para a crer; outra de tal maneira certa, e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura. (...) E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es et in pulverem reverteris. Sois pó e em pó vos haveis de converter. Sois pó é a presente. Em pó vos haveis de converter é a futura. (...)

Ora suposto que já somos pó e não pode deixar de ser, pois Deus o disse; perguntar-me-eis, e com muita razão, em que nos distinguimos os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós também somos pó. Distinguimo-nos, os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó do pó. Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz.

A mim não me faz medo o que há de ser o pó. Eu não temo na morte a morte, temo a imortalidade. Eu não temo hoje o dia de Cinza, temo hoje o dia da Páscoa, porque sei que hei de ressuscitar, porque sei que hei de viver para sempre, porque sei que me espera uma eternidade ou no Céu ou no Inferno. (...) Este homem, este corpo, estes ossos, esta carne, esta pele, estes olhos, este eu, e não outro, é o que há de morrer? Sim. Mas reviver e ressuscitar à imortalidade. Mortal até ao pó, mas depois do pó, imortal.

Quando considero na vida que se usa, acho que nem vivemos como mortais, nem vivemos como imortais. Não vivemos como mortais, porque tratamos das coisas desta vida, como se esta vida fora eterna. Não vivemos como imortais, porque nos esquecemos tanto da vida eterna, como se não houvera tal vida.

Ora senhores, já que somos cristãos, já que sabemos que havemos de morrer e que somos imortais, saibamos usar da morte e da imortalidade. Tratemos desta vida como mortais, e da outra como imortais. Pode haver loucura mais rematada, pode haver cegueira mais cega do que empregar-me todo na vida que há de acabar, e não tratar da vida que há de durar para sempre? Cansar-me, afligir-me, matar-me pelo que forçosamente hei de deixar, e do que hei de lograr ou perder para sempre, não fazer nenhum caso? Tantas diligências para esta vida, nenhuma diligência para a outra vida? Tanto medo, tanto receio da morte temporal, e da eterna nenhum temor? Mortos, mortos, desenganai estes vivos. Dizei-nos que pensamentos e que sentimentos foram os vossos, quando entrastes e saístes pelas portas da morte. A morte tem duas portas. Uma porta de vidro por onde se sai da vida; outra porta de diamante, por onde se entra à eternidade.

SERMÕES ESCOLHIDOS

Padre Antônio Vieira questiona a razão de nossa existência, a nossa verdadeira fé e a conduta do homem diante das palavras do Santo Evangelho.”

             

 A consagrada Editora Martin Claret, por sua vez, traz à tona uma obra imortalizada pelo tempo barroco, e, especialmente, nos dias atuais onde a Igreja Católica Apostólica Romana está sendo questionada no tocante ao aborto, a eutanásia, o controle de natalidade que evita a prosperidade da miséria. Em assim sendo, nota-se a dinâmica social exigindo reformas contundentes no que diz respeito às questões que atormentam a Humanidade.

               Doutor José Verdasca, presidente da Ordem Nacional dos Escritores (SP), escritor renomado, jornalista talentoso, português genuíno, despertou o interesse de organizar/coordenar o livro que disseca os cinco principais Sermões de Vieira, a saber: Sermão da Primeira Dominga da Quaresma (ou das Tentações); Sermão de Santo Antônio (ou dos Peixes); Sermão da Sexagésima (ou do Evangelho); Sermão do Bom Ladrão (ou da Audácia); Sermão da Epifânia (ou do Evangelho).

               Segundo o autor, o primeiro foi pregado na cidade de São Luís do Maranhão, no ano de 1663. Discordou da escravidão levantando questões sociais adiantadas para o seu tempo. E, por isso, Padre Vieira incomodou o Vaticano por ser questionado sobre o que estava apregoando e, consequentemente, recebeu conselho para se calar diante dos ditames da Inquisição. 

               Ora, Vieira tinha a consciência de que o ser humano era livre mesmo atormentado pelo poder da própria Igreja que vivia ao lado o Estado absolutista mandando e desmandando. Jamais poderia ter sido diferente. Afinal, Deus fez o homem seu semelhante e, portanto, escravizá-lo não estava no plano divino. Muito pelo contrário, Cristo pregou a igualdade, a fraternidade, a solidariedade entre todos os cristãos de ontem e de hoje.

               Por essas razões, Vieira foi perseguido no dizer der seu biógrafo André de Barros, “Porque era bom; porque era e tinha sido válido; porque era varão único em talentos, raro em sabedoria e porque a todos fazia sombra; e esta foi a culpa das culpas”.

               Parafraseando o organizador/coordenador do mister literário, diria que “O Padre Vieira havia muito que incorrera nos ódios da Inquisição: as suas opiniões bem conhecidas a respeito dos cristãos-novos, o seu trato com os hereges da Holanda não o tinha posto em cheiro de santidade perante o Santo Ofício”.

               Certamente, a Igreja da época não suportava o desafio de suas prelações. Muito pelo contrário, condenava em nome de Deus àqueles que discordavam mesmo sendo clero alto. Assim, usava da temeridade para se valer do divino Ofício de julgar sem direito a defesa o homem, imagem semelhança de Deus Pai.

               Em realidade, o Padre Vieira foi o porta-voz dos humildes, dos menos favorecidos da sorte, e, sobretudo, homem santo que soube se valer da oratória para se fazer entender no seu raciocínio lógico que o consagrou nos seus Sermões que extrapolaram os umbrais do tempo.

               Lendo e comentando os Sermões Escolhidos, vê-se a preocupação do escritor português que, optou a vir morar em São Paulo (1967) a fim de servir à Pátria lusitana e, ao mesmo tempo, à nação irmã Brasil que herdou o vernáculo de Camões / Bilac, príncipe dos poetas brasileiros.

               Por tudo isso, destaca-se seu conhecimento erudito no que diz respeito a historicidade dos jesuítas que foram expulsos do Brasil pelo então primeiro-ministro Pombal. À época, havia a preocupação na formação do patrimônio da Igreja a ponto de não se poder mensurar o poder do Estado, bem com o daqueles que se diziam construtores do próprio império português. A obra-prima é, por excelência, escrita com muita seriedade/eloquência, e, porquanto, merecedora de crédito internacional.

 
Livro 5 – Casa de Pensão



Autor e obra
Alvarez de Azevedo nasceu em São Luís do Maranhão, em 1857. Depois de seus primeiros estudos, dedicou-se ao comércio, como caixeiro. Com quatorze anos, estudou pintura no Liceu Maranhense, mas não concretizou seus objetivos neste campo artístico. Iniciou na imprensa como caricaturista de “O Fígaro” e, em 1878, é obrigado a voltar a São Luís devido à morte do pai. Nessa época, publicou o romance Uma Lágrima de Mulher, ainda de inspiração romântica. As leituras de Zola e Eça mostram-lhe um novo caminho. Em 1881, publicou, então, O Mulato, com o qual inaugurou o Naturalismo na literatura brasileira. O romance provocou violenta reação na sociedade maranhense, coagindo-o a retornar ao RJ. Dessa fase em diante, dedicou-se à literatura e à imprensa, publicando romances, escrevendo folhetins e contos na imprensa, ou redigindo peças teatrais junto com o irmão Artur. Dedicou-se depois pela carreira diplomática e consular. Aprovado em concurso, é nomeado para o cargo de vice-cônsul em Vigo, Espanha. Fora do Brasil, abandonou a carreira de escritor, deixando apenas um livro como registro de suas viagens pelo Oriente. Faleceu em Buenos Aires, em 1913. Na carreira literária de Aluísio Azevedo, distinguimos duas fases: a composição de obras para a imprensa, com o intuito de se sustentar na vida modesta e sem recursos, e a produção de verdadeiras obras-primas em que se encontram os romances de intenção artística, quando adere ao espírito naturalista e passa a analisar o comportamento da sociedade burguesa.

      Pode-se classificar a obra de ficção do autor no seguinte quadro didático:

     Textos Românticos:

      Uma Lágrima de Mulher (1879)

      Condessa de Vésper (1882) (com o título de Memórias de um Condenado)

      Girândola de Amores (1882) (com o título de Mistério da Tijuca)

      Filomena Borges (1884)

      A Mortalha de Alzira (1894)

      Demônios (1893) (Contos)

      Textos Naturalistas

      O Mulato (1881)

      Casa de Pensão (1884)

      O Coruja (1885)

      O Homem (1887)

      O Cortiço (1890)

      Livro de uma Sogra (1895)


Momento
O Naturalismo tem inicio na França com a publicação dos Contos Experimentais do francês Emile Zola. O Naturalismo caracteriza-se na realidade como uma extensão do pensamento realista, ou seja, uma espécie de realismo exagerado, pois os problemas da natureza humana ( taras, vícios, homossexualismo, cleptomania, lesbianismo, ambição, hereditariedade, loucura... ) não são apenas denunciados, mas trabalhados a fundo à luz de teorias cientifico-filosóficas da época dentre elas: o Positivismo de Augusto Comte, O Evolucionismo de Charles Darwin, o Determinismo de Hipolité Tayne, O Anticlericalismo de Renan e até as teorias sociológicas do Manifesto Comunista de Karl Max e Friederich Engels. Desta forma, o texto naturalista é contemporâneo aos textos do realismo machadiano, mas trata dos dramas humanos de uma forma mais direta, sem metáforas, e com uma visão cientifica, mecanicista e filosófica. Os dramas humanos revelados pelo realismo agora são trabalhados e as personagens ( cobaias ) cederão para o autor ( cientista) aquilo que de melhor possuem, suas taras, seus defeitos, seus vícios que servirão como base na comprovação das teorias propostas pelos pensadores da época e aplicadas ao texto literário. A partir da publicação dos Contos Experimentais de Emile Zola, o Naturalismo é comumente entendido como uma extensão do Realismo, alimentado pelas teorias científico-filosóficas do período, alcançando o status de escola. No Brasil, tem início com a publicação de O Mulato de Aluisio Azevedo (1881), mesmo que o nosso principal livro naturalista seja O Cortiço (1890). Diz-se então que o Realismo é psicológico, enquanto o Naturalismo é Biológico.
Análise

Narrado em 3ª. pessoa, Casa de Pensão inicia com a chegada do jovem maranhense Amâncio ao Rio de Janeiro, que para ali se muda no intuito de estudar Medicina na Corte. Chegando à cidade, Amâncio procura o Sr. Luís Campos, negociante, amigo de seu pai, que lhe oferece pouso na Capital. O Sr. Campos era casado com D. Maria Hortênsia, que não se mostra muito a vontade com a chegada do menino à sua casa, mas que acaba aceitando a decisão do marido. Embora fosse mais econômico, Amâncio não se mostra muito satisfeito com o fato de se hospedar na casa da família, pois ele fora para a Capital com o sonho de também viver a noite, as mulheres, de viver plenamente os seus 20 anos. Sobre a trajetória de Amâncio, ele apanhava do pai na infância e tinha uma aparência frágil. Na escola, ele parecia soltar todos a repressão de casa. Até que um dia ele bate num menino. O seu professor bate em Amâncio, em contrapartida, e ainda diz para o menino que apanhara também bater no seu algoz. Amâncio não aceita a vingança e discute com o professor, dando-lhe uma bofetada. Além de apanhar na escola, ao chegar em casa, ele também apanha do pai. Este acontecimento faz com que Amâncio se torne medroso, apesar das carícias, cuidados e proteção da mãe, D. Ângela (ou talvez por isso mesmo).

Então, no Rio de Janeiro, Amâncio sentia-se só, até encontrar um colega (nem tão íntimo) do Maranhão, Paiva Rocha. Eles se encontram na rua, e Amâncio o convida para almoçar. No caminho do Hotel dos príncipes, os dois encontram dois amigos de Paiva Rocha, Salustiano Simões e João Coqueiro. Os quatro vão almoçar. Amâncio mostra-se maravilhado com a vida na Corte, com o almoço, com o cardápio em francês. E não economiza neste primeiro almoço, pagando a conta para todos. João Coqueiro, ao fim da refeição, convida Amâncio para visitá-lo. Entretanto, ele é levado, já bêbado, por Paiva Rocha (que também lhe pede dinheiro) para a sua república, onde Amâncio vomita e passa a noite. No dia seguinte, o ambiente degradado marca o jovem maranhense. Ao sair ele encontra uma empregada e tenta agarrá-la, sendo repelido.

Amâncio mostra-se confuso, pois não queria permanecer na prisão da casa de Campos, mas como sentia-se atraído por D. Hortênsia, pensava em ficar por lá. Amâncio, ao chegar na casa da família, encontra uma carta de João Coqueiro, convidando-o a visitá-lo. Ele vai.

João Coqueiro era filho de uma rica senhora que se casara com um homem devasso e desregrado, que batia em João Coqueiro, fazia-o comer e até mesmo beber, para torná-lo homem de verdade (!). Com a morte do pai, a mãe abre uma casa de pensão, mas ela também morre em seguida. João Coqueiro e Amélia, sua irmã, vão morar, então, com uma amiga da família, Madame Brizard, mulher de 50 anos. Com a convivência, João Coqueiro e Mme. Brizard decidem se casar e reabrir a casa de pensão que fora da mãe do moço.

João Coqueiro, após conhecer Amâncio, comenta com a esposa que possivelmente encontrara um marido para a irmã, já com 23 anos. A menina, informada por Mme. Brizard, concorda com a possibilidade.

Assim, Amâncio vai à casa de João Coqueiro. Lá, ele conhece a família, mais os filhos de Mme. Brizard, o menino César e Nini, mulher com problemas mentais; e os moradores da pensão, tendo destaque o casal Lúcia e Pereira. João Coqueiro mostra as vantagens de viver ali: comida, lanches, carinho. Amâncio decide aceitar a oferta e, já naquela noite, dorme ali. Ao acordar, ele agarra o braço de uma menina que trabalhava ali. Enquanto isso, Mme. Brizard combinava a estratégia de Amélia: ela tinha que parecer tímida ao rapaz. Desconfia de todo aquele que se arreceia da verdade.

Seriam onze horas da manhã. O Campos, segundo o costume, acabava de descer do almoço e, a pena atrás da orelha, o lenço por dentro do colarinho, dispunha-se a prosseguir no trabalho interrompido pouco antes. Entrou no seu escritório e foi sentar-se à secretária. Defronte dele, com uma gravidade oficial, empilhavam-se grandes livros de escrituração mercantil. Ao lado, uma prensa de copiar, um copo d água, sujo de pó, e um pincel chato; mais adiante, sobre um mocho de madeira preta, muito alto, via-se o Diário deitado de costas e aberto de par em par. Tratava-se de fazer a correspondência para o Norte. Mal, porém, dava começo a uma nova carta, lançando cuidadosamente no papel a sua bonita letra, desenhada e grande, quando foi interrompido por um rapaz, que da porta do escritório lhe perguntou se podia falar com o Sr. Luís Batista de Campos.


- Tenha a bondade de entrar, disse este. O rapaz aproximou-se das grades de cedro polido, que o separavam do comerciante. (...)

Já na pensão, Amâncio também se torna um alvo de Lúcia, que também começava a pensar em seduzir o rapaz, visto que o ele tinha dinheiro e ela não sentia absolutamente nada por seu marido, Pereira. Com a convivência na pensão, Amâncio acaba se tornando relapso nos estudos e sentindo-se culpado por isso. Mas Amâncio cai doente: bexiga (varíola). Os hóspedes ficam com medo e começam a deixar a pensão, mas Lúcia mostra-se amiga do convalescente, para desespero de João Coqueiro e da esposa, que vêem nela uma concorrente à fortuna. Pensando em se livrar de Lúcia, o casal cobra o dinheiro devido, mas ela consegue com Amâncio a quantia solicitada. Amâncio quer transar com Lúcia, mas ela diz que só o faria se ele a tirasse de seu marido e a assumisse. Apesar de saldar a conta, Lúcia e seu marido saem da casa, após ela alertar Amâncio sobre a possível exploração que João Coqueiro planejava.

Neste ínterim, também Amélia cuida de Amâncio, mas a pensão começa a perder seus hóspedes devido à doença de Amâncio, e este começa a sustentar a casa. E quando ele pensa em sair da casa, Amélia diz amá-lo. Em função de sua doença, Amâncio acaba indo para Santa Teresa, com a sua nova família, é claro. Lá, ele passa a ter uma vida de homem casado com Amélia, com a conivência de João Coqueiro, que fingia não ver o que se passava. Este sentimento aumenta quando Amâncio perde seu pai e herda sua parte da herança. Aproveitando-se na ocasião, Amélia pede uma casa a Amâncio, que reluta, mas cede. Por esta época, Amâncio é aprovado nos testes do primeiro ano da faculdade, e numa festa em comemoração do fato, ele tenta agarrar D. Hortênsia, mas esta recua.

Como Amâncio não havia ainda visitado a mãe, D. Ângela lhe escreve, pedindo uma visita, mas Amélia se impõe e não o deixa partir, dizendo que ela poderia ir junto, após o casamento. Amâncio recua, a vida de homem casado o oprime. Por esta época, Amâncio escreve uma carta se declarando a D. Hortênsia, mas Amélia a encontra e mostra ao seu irmão. Durante uma discussão sobre a viagem, Amâncio chama a família de filantes e pensa em partir sem comunicá-los. Entretanto, João Coqueiro já havia se preparado para isto.

Certo dia, quando Amâncio partiria para o Maranhão, já no cais, ele é detido pela polícia, acusado por João Coqueiro de ter violentado sua irmã. Com o fato, o Sr. Campos pensa em defendê-lo, mas desiste ao receber a carta que Amâncio escrevera para sua esposa.

Apesar das testemunhas falsas, Amâncio é absolvido do crime. João Coqueiro, então, passa a ser chacoteado por estudantes, que o acusavam de exploração, de viver na casa que de Amâncio. Desesperado com a pressão de Mme. Brizard e humilhado com a situação, João Coqueiro procura Amâncio num quarto de hotel e o mata. Ironicamente, aqueles que apoiavam Amâncio durante o processo, automaticamente passam a simpatizar com a ação de João Coqueiro.

O romance acaba com a chegada de D. Ângela ao Rio de Janeiro e a descoberta por parte desta da morte de seu filho.

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