Uibaí-ba, 30/12/04. Inauguração do Grêmio Cultural Voz do Povo



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Uibaí-BA, 30/12/04.

Inauguração do Grêmio Cultural Voz do Povo

Discurso de Edimario Oliveira Machado, em Homenagem a Pedro da Rocha Machado, fundador da Sociedade Anônima Voz do Povo

É importante lembrar que o ser humano, entre os animais que habitam nosso planeta, é o único com capacidade de imaginação. Sonhar com um mundo melhor, ser capaz de planejar a construção de um caminho para alcançá-lo, e perseverar na caminhada, são atributos essenciais do ser humano, sem o exercício constante dos quais nos igualaríamos aos outros animais. Portanto, é preciso sonhar, sempre; é preciso planejar, sempre; e é preciso caminhar, sempre. Mas nem sempre é possível a realização de todos os nossos sonhos. Às vezes estabelecemos metas excessivamente arrojadas e, por esta razão, inalcançáveis. Às vezes a realização de nossos planos envolve fatores que não estão ao alcance de nossas mãos ou que dependem da remoção de obstáculos que extrapolam nossas próprias forças. Temos que aprender a gerenciar as frustrações; a recuar, quando preciso; e a desenvolver alternativas para prosseguir na caminhada. Para esta solenidade, planejamos que o descerramento deste marco com o histórico da Voz do Povo seria feito por Pedro da Rocha Machado e por Pedro Lázaro Machado. Para nossa alegria aqui está, compartilhando conosco este momento histórico, Seu Pedro Lázaro Machado. Sentimos a falta, contudo, do velho e bom Pedro Rocha, que nos deixou na reta final desta caminhada de construção do Grêmio Cultural Voz do Povo. Mas nosso destino é seguir em frente, executar o que planejamos, construir nossos sonhos, ajustando nossas ações às vicissitudes de caminhos tortuosos, mas sempre desafiadores. Por isso estamos todos aqui, para esta celebração cultural.


O título de primeiro prefeito de Uibai, por si não credencia seu portador à mais singela das homenagens, como esta que fazemos agora. É preciso que o título esteja ancorado na capacidade de sonhar, de ser visionário; que se alicerce no vezo para a arte de planejar, antevendo o futuro e se antecipando aos fatos e acontecimentos; e que tenha fundamento na perícia para administrar, unindo os contrários, exercendo em sua plenitude a dialética, diluindo resistências, driblando as picuinhas da vaidade humana, impondo a autoridade sem os desvios do autoritarismo, com paciência franciscana e capacidade de absorver frustrações, fazendo erguer do solo bruto edificações, ruas, estradas e, o que é mais importante, construindo instituições.
Assim como Thomas Morus, na Utopia, enxergou (sob a ótica de sua época) um Estado de liberdades plenas; assim como os índios, nos Sete Povos das Missões, construíram no Sul do Brasil a República Comunista Cristã dos Guaranis; assim como Conselheiro, nas margens do Rio Vaza Barris, plantou em Canudos um ideário de igualdade e fraternidade, Pedro Rocha engendrou a anatomia institucional do município de Uibaí. Sonhou com a terra prometida; planejou a construção de uma ponte segura para transpor os abismos do isolamento, da ignorância e dos rigores do meio inóspito e, com uma fé inquebrantável em sua capacidade de superar obstáculos e uma visão de futuro incomum para o seu tempo, lançou as bases para a edificação de Uibaí, nossa pequena pátria ou nossa pátria de fato, já que o Estado e a União Federal não passam de ficções jurídicas.
O grande legado de Pedro Rocha, no entanto, não é propriamente sua obra enquanto empreendedor e construtor das coisas públicas. Deixa para a posteridade, num primeiro plano, a imagem de vencedor; a história de um homem simples, que foi plenamente vitorioso na luta que travou em busca do conhecimento, conhecimento não para si, mas conhecimento para os descendentes seus e para os descendentes de seus compatriotas. Deixa para as futuras gerações, num plano seguinte, o exemplo de quem, em que pesem as limitações impostas pelas agruras do sertão, conseguiu visualizar a educação, não puramente como um instrumento para vencer na vida, mas, sobretudo, como um meio eficaz para a busca do conhecimento. Já naquele tempo, compreendeu o conhecimento como a única arma capaz de suplantar a miséria e as desigualdades sociais.
Foi um paladino da educação. Construiu escolas, arregimentou mestres, inclusive da Capital e de outros grandes centros urbanos; peregrinou pelos municípios vizinhos para viabilizar a migração de estudantes para Uibaí; soube vibrar, sempre, com entusiasmo inesgotável, quando recebia a notícia de que um filho da terra ingressara na universidade.
Sua partida, recente, é uma enorme perda para todos. A lucidez com que acompanhava a vida de nossa comunidade fará muita falta. Sua ausência, assim como a de outros pioneiros de nossa terra, embalados pela força do tempo, nos deixará inseguros e mais frágeis. Mas, com certeza, saberemos superar a perda e conviver com a saudade, buscando ensinamentos nos traços que a história já se encarregou de eternizar.
Para encerrar estas breves palavras, quero registrar que, num mundo em que a efemeridade das organizações está na raiz das grandes crises da sociedade contemporânea, é justo lembrar que Pedro Rocha articulou a criação de instituições consistentes e duradouras, mais uma vez se antecipando ao futuro.
Um exemplo é a fundação da Voz do Povo.
Dentro de instantes Seu Pedro Lázaro descerrará o pano que cobre este marco histórico. Na verdade, estará passando o bastão, com a chama da esperança acesa, para que a geração seguinte encampe a resistência cultural, o que certamente fará com uma crença inarredável na construção de um futuro melhor.
E por falar em futuro, só ele, o futuro, nos ensinará a compreender, em sua plenitude, a importância do velho Pedro Rocha.
Ao encerrar estas palavras quero deixar para os escritores, historiadores e para a juventude desta terra, entre os quais tenho a honra de incluir-me, o desafio de buscar na história a verdadeira dimensão e a grandeza humana de Pedro da Rocha Machado.
Muito obrigado.


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