Um aliado problemático



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Batista Junior, Paulo Nogueira. “Um aliado problemático”. São Paulo: Folha de São Paulo, 18 de outubro de 2001. Jel: E, F, G.
Um aliado problemático.

Paulo Nogueira Batista Junior.

Posso falar da Argentina outra vez? Esse nosso vizinho tem sido uma fonte constante de preocupação. Na semana passada, foram as salvaguardas e a perspectiva de redução do acesso das exportações brasileiras ao mercado argentino. Nesta semana, novos rumores de dolarização total da economia. O governo De la Rúa estaria pretendendo, segundo se afirma, preparar o terreno para a dolarização plena por meio de medidas que estimulariam o uso do dólar no pagamento de impostos, serviços públicos, aposentadorias e pensões.

A dolarização plena seria um desastre para a Argentina. E algo inteiramente inusitado. Nunca, na história mundial, um país da importância da Argentina abandonou a sua moeda em favor de uma moeda estrangeira.


O que fazer com um aliado desses? Longe de mim alimentar qualquer animosidade contra a Argentina. Não se pode desprezar a importância da aproximação Brasil-Argentina, iniciada nos anos 80, durante os governos Alfonsín e Sarney. Essa aproximação permitiu a superação de rivalidades arraigadas, porém desprovidas de qualquer sentido.


Desde os tempos de Menem e Collor, contudo, a ligação com a Argentina tomou um rumo preocupante. A Argentina estava, havia muito anos, desde a época dos governos militares, na "vanguarda" do processo de desnacionalização e liberalização. O Brasil, com crescente dificuldade, procurava resistir a essa onda internacional. O Mercosul serviu, na prática, como instrumento para nivelar o Brasil a esse padrão de política econômica e de inserção internacional. A "aliança estratégica" com a Argentina foi utilizada como instrumento para forçar a adaptação do Brasil ao chamado Consenso de Washington.


É claro que na Argentina a subordinação foi muito mais profunda. Não é por outra razão que a crise lá é mais grave do que aqui. No campo monetário, por exemplo, o Brasil foi aconselhado ou pressionado, em mais de uma ocasião, a seguir o exemplo da famigerada lei de conversibilidade argentina. Não o seguiu, felizmente.


Custa a crer que a Argentina, que tanto sofre com a semidolarização e a perda de autonomia decorrentes da lei de conversibilidade de 1991, esteja de fato cogitando dolarizar completamente a sua economia. O remédio está quase matando o doente. Solução: aumentem a dose!


Esperemos que o desfecho da crise argentina não seja esse. A Argentina precisa evidentemente de uma reforma monetária. Não raro, as reformas monetárias bem-sucedidas são aquelas que reconstroem a moeda nacional com base nos mecanismos emergenciais que surgem durante a própria crise. Foi assim na Alemanha, em 1923, quando as moedas emergenciais (Notgelder) criadas no auge da hiperinflação serviram de modelo para a criação do Rentenmark, a moeda paralela que permitiu a estabilização. Foi assim no Brasil, em 1994, quando a experiência com a indexação estimulou a criação da URV, a unidade de conta paralela e superindexada que permitiu a transição para o real.


Talvez os bônus emitidos pelos governos federal e provinciais, que já vêm circulando como moedas paralelas, possam servir de base para a criação de um novo sistema monetário na Argentina. Essas moedas paralelas têm alguns traços do que deveria ser uma nova moeda argentina: não são conversíveis em moeda estrangeira, não têm a sua emissão limitada pela disponibilidade de reservas internacionais e não estão atreladas ao dólar.


Seja como for, o Brasil não deve amarrar o seu destino ao da Argentina. Um aliado fraco pode ser um grande perigo em tempos de crise.


Permita-me, leitor, um paralelo que talvez pareça descabido. Em maio de 1940, a Inglaterra e a França, aliadas na guerra contra a Alemanha, sofriam sucessivas derrotas. A queda de Paris estava no horizonte.


O governo da França, desesperado, queria utilizar-se da mediação de Mussolini (naquela altura, ainda fora da guerra) para iniciar negociações com Hitler. No governo britânico, havia importante apoio para essa iniciativa, notadamente da parte do ministro das Relações Exteriores, Edward Halifax.


Mas Churchill compreendeu que a fraqueza da França poderia terminar envolvendo a Inglaterra em uma manobra fatal. Em sucessivos embates dentro do governo britânico, Churchill fez ver que a França estava tentando levar a Inglaterra para uma ladeira escorregadia. Se a França não tinha como se defender, sustentou Churchill, que ela saísse da guerra. Antes isso do que permitir que a Inglaterra fosse arrastada para uma negociação que, nas circunstâncias daquele momento, envolveria termos intoleráveis.


Como sabemos, a França acabaria saindo da guerra pouco depois. Nesse episódio emblemático, começou a se configurar a resistência isolada da Inglaterra, primeiro passo para o que seria a derrota da Alemanha nazista.


"Mutatis mutandis", talvez seja essa a atitude que convenha ao Brasil. Eu sei, leitor, que Churchills não se encontram em cada esquina. Por outro lado, o desafio que nos cabe enfrentar não é tão difícil. O importante é não se deixar afundar por uma aliança problemática.




Esperemos que a Argentina consiga se reerguer. Mas, se ela quiser continuar no caminho da submissão, paciência. O Brasil terá que trabalhar por conta própria na reconstrução da sua autonomia nacional.


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