Um Amor de Beijinho



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Encontro01.08.2016
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Um Amor de Beijinho
Eva, da classe dos mais crescidos, diz que sabe dar beijos de amor. Diz mesmo que é especialista em beijos de amor. E que é muito difícil conseguir um beijo de amor. Não é um beijo que estala, não é um beijo de namorados, na boca, não é um beijo que explode dentro da orelha, não é um beijo de gato, a lamber com a língua, é um beijo que se deposita, sem ruído, mas muito, muito grande e durante muito tempo, na face.

Eu nunca tinha pensado nos beijos de amor. Achava uma palermice. Mas agora que existe a Lisete, gostava muito de saber dar beijos de amor.

Lisete é a senhora da biblioteca do centro. Quando lá vou, espero que a minha mãe esteja bem entretida, de cabeça apoiada nas mãos, e vou ver a Lisete.

Digo-lhe carinhosamente:

A minha mãe está a trabalhar, não pode ser incomodada. Podes ler-me um livro?

Então Lisete sorri com aqueles olhos que fazem pregas, senta-me no colo, envolve-me com o seu perfume e lê, só para mim, uma história ao ouvido. Gostava de dar-lhe um beijo de amor, mas tenho medo de não conseguir.

Por isso, esta manhã, fui ter com a Eva, da classe dos mais crescidos.

— Eva, como é que se faz para dar um beijo de amor?

— Eu vou dar-te um.

Recuei três passos.

— Não pode ser, Eva! Estou doente e cheio de micróbios. Tens de ensinar-me, mas de longe.

Eva olhou-me de cima e respondeu secamente:

— Nem pensar.

Não é que eu não goste dela; é muito simpática, a Eva. Mas para um beijo de amor, não, não consigo!

Sobretudo porque tem a cara pintalgada com aquelas sardas. Tenho medo que, durante o beijo de amor, me deixe a cara cheia delas. E, se calhar, a Lisete já não gostaria de mim, se eu tivesse sardas!

Então, decidi experimentar sozinho.

Olhei para a minha mão e pensei com muita força: é a cara da Lisete.

E dei-lhe um beijo de amor muito, muito grande.

Naquele momento, chegou a professora:

— Mas, o que é que estás a fazer, Teo? Agora dás beijos a ti próprio?

Levantei a cabeça, o beijo fez um estalido.

Pronto, o beijo de amor correu mal. E ainda por cima toda a gente se riu de mim.



À noite, quando a minha mãe veio à cama desejar-me boa noite, perguntei-lhe:

— Como é que se faz para dar um beijo de amor?

— A quem é que tu queres dar um beijo de amor?

— Isso é comigo! Dou a quem quiser!

Ela viu que eu estava um pouco zangado e não insistiu.

— O problema com o amor é que se pode dar tantos beijos diferentes! Depende da ocasião. Não há só um tipo de beijos de amor.

E deu-me um grande beijo soprado no pescoço para me desejar boa noite.

Boa noite! Mas eu estava tão enervado! Se havia muitas espécies de beijos de amor, como havia de fazer para que a Lisete visse que o meu beijo não era um simples beijo vulgar?

À força de tanto pensar, de olhos bem abertos no escuro, fiquei com uma terrível dor de cabeça. Virei-me de barriga para baixo, de costas, de lado: era impossível dormir.

No sábado, como todos os sábados, fui à biblioteca com a minha mãe.

Estava com tanto medo de falhar o beijo de amor, que não me atrevia a pedir uma história à Lisete. Foi ela que veio ter comigo:

— Queres que te leia uma história, Teo?

— Não, uma história, não. Gostava que me lesses o dicionário.

Lisete, que nunca se admira com nada e faz sempre as perguntas certas, perguntou-me:

— Que palavra queres ler?

— Beijo de amor.

Aqui, Lisete ficou espantada.

— O problema — disse — é que beijo de amor não é uma mas três palavras. Duas grandes: beijo e amor, e uma mais pequena: de. Qual é que escolhes?

— Beijo. Não! Amor. Não! Beijo! De! Não! Quero as três: beijo de amor. Diz lá, como é que se dão beijos de amor?

Pensava tanto no meu problema do beijo que nem me dei conta: estava a perguntar à Lisete!

— Um beijo de amor dura muito tempo — respondeu-me ela. — Anda cá, vou dar-te um.

Pegou em mim ao colo. O seu perfume envolvia-me. Devagarinho, colocou na minha face um beijo muito, muito, muito, muito grande e muito forte.

A minha bochecha ficou vermelha e a arder e tinha calor pelo corpo todo. Porém, não queria que ela parasse!

— Não é um beijo de amor! Fez barulho! Outra vez.

— Estás a fazer batota! Não fez barulho, mas vou fazer outra vez.

A seguir, sou eu.

— Está bem.

Virginie Lou



Un amour de bisou !

Arles, Actes Sud, 1996



(Tradução e adaptação)


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