Um Aventureiro Em Minha Vida Let me count the ways



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Um Aventureiro Em Minha Vida

Let me count the ways

Leigh Michaels




Julia Especial de Férias 14
Sara não sabia que Adam iria tão longe

A dra. Sara Prentiss havia encontrado um refúgio em Chandler College. O pequeno campus na Nova Inglaterra ofereceu-lhe a privacidade ela tanto precisava após Guy ter partido seu coração. E Olivia Reynolds se tornou como uma mãe para Sara.

Adam Merrill, o famoso escritor mistério, chegou e encontrou o que estava procurando: um mistério da vida real, mesmo no meio do pequeno mundo pacífico de Sara.

Porque, entre todos os homens da terra, ela tinha que encontrar esse tão atraente e que estava fazendo a sua vida tão impossível?



Digitalização: Tinna

Revisão: Cynthia



CAPÍTULO I


Sara Prentiss fez uma pausa e levantou-se. Com as mãos na cintura, arqueou para trás o corpo, dolorido depois de várias horas de trabalho. Já eram três e meia da tarde e ela nem tinha almoçado! O problema, refletiu, era que uma coisa levava a outra. Começara por separar apenas alguns livros dos quais não iria precisar e acabara retirando todos eles das prateleiras a fim de reorganizar o escritório para o reinicio das aulas. Olhou desanimada para as pilhas de livros e pastas espalhadas pelo chão e sobre a escrivaninha e imaginou se conseguiria pôr um fim àquela balbúrdia.

Aproximou-se da janela e contemplou o prédio vizinho, que se erguia do outro lado do estacionamento. De onde estava, podia visualizar sua antiga sala no campus da Universidade Chandler. Fora transferida para o prédio novo cerca de um ano antes, mas ainda se lembrava da brisa do rio que soprava por sua janela nos dias de verão. A sala que agora ocupava era equipada com um moderno sistema de ar-condicionado, que, entretanto, só seria ligado depois, quando começassem as aulas. Procurando aliviar-se um pouco do calor, Sara prendeu os cabelos castanhos num rabo-de-cavalo, arregaçou a calça jeans até a altura dos joelhos e voltou ao trabalho, com mais determinação do que entusiasmo.

Já tinha conseguido arrumar a maior parte dos livros, não sem antes ter limpado cuidadosamente o pó das prateleiras, e estava começando a guardar as pastas no arquivo quando escutou o som de passos no corredor. Estranhou que ainda houvesse alguém por ali àquela hora, no fim da tarde. Logo em seguida distinguiu o som de vozes masculinas e reconheceu uma delas como a de Hal Mitchell, diretor do Departamento de Inglês da universidade.

— Você pode usar este escritório, por enquanto — dizia ele.

— Pertence ao professor Ryan, mas como ele só vem uma vez por semana, não haverá problema. Como pode ver, mesmo com a construção, desta nova ala, ainda temos falta de espaço.

Sara sabia que somente um motivo de grande importância tiraria Hal Mitchell de sua sala de estudos, principalmente num tranqüilo dia de férias, sem alunos entrando e saindo, e concluiu que o outro homem devia ser o famoso escritor que o reitor Dave Talbot convidara para dar um curso em Chandler, e cuja chegada só era aguardada para o dia seguinte.

Curiosa, Sara girou lentamente a maçaneta e abriu a porta apenas o suficiente para poder dar uma espiada. Hal, porém, percebeu o movimento e olhou para trás, para constrangimento de Sara.

— Sara! — exclamou ele. — Não pensei que ainda estivesse no escritório.

— Olá, Hal. Estou tentando deixar tudo em ordem para depois de amanhã — explicou, abrindo a porta e deixando os dois homens entrarem.

— Isso é ótimo! Sara, deixe-me apresentá-la ao Sr. Merrill — e virando-se para este —, Adam, esta é a Dra. Prentiss, de quem lhe falei há pouco. Ela é diretora-assistente do Departamento de Artes Liberais e poderá orientá-lo no que for preciso.

— Como vai? — cumprimentou Adam Merrill, apertando-lhe a mão com firmeza e fitando-a diretamente nos olhos. — Não imaginei que a Dra. Prentiss fosse tão jovem!

Sara surpreendeu-se com a cor dos olhos de Adam, um tom de azul puxando para o violeta. Teve de admitir que ele era muito mais bonito pessoalmente do que nas fotografias: o nariz clássico, o queixo forte, os cabelos escuros, e aqueles olhos, que continuavam a fitá-la, sorridentes.

— Não jovem demais — respondeu, retribuindo o olhar. Adam Merrill era uma celebridade. Embora, particularmente, não apreciasse seu estilo, Sara sabia que seus livros eram lidos no mundo inteiro e que em geral encabeçavam a lista de best-sellers no New York Times. Olívia, a velha senhora com quem Sara morava, era leitora assídua e fã incondicional de Adam Merrill.

— Sara supervisionará suas aulas de Redação, Adam — explicou Hal.

O sorriso desapareceu do rosto de Adam.

— Eu pensei que seria auto-suficiente na sala de aula — disse, visivelmente aborrecido. — Dave Talbot me assegurou que eu teria toda liberdade de...

— Claro, claro, sem dúvida — interrompeu Hall percebendo a irritação de Adam. — Trata-se apenas de uma formalidade. Não poderia existir alguém mais qualificado que você para administrar estas aulas. Entretanto, você não preenche certos requisitos acadêmicos exigidos pelo corpo docente da faculdade. Portanto, oficialmente apenas, suas aulas ficarão sob a responsabilidade da Dra. Prentiss.

— Sei. — Adam não parecera ficar satisfeito com a explicação de Hal. Olhou para Sara com uma expressão que a fez sentir-se pouco à vontade, como se não aceitasse ser obrigado a dar satisfações a alguém que, para ele, não passava de uma garota. Por outro lado, ela não podia permitir que aquele homem arrogante chegasse ali e simplesmente se considerasse o chefe do lugar só porque era um escritor famoso.

— Na verdade, Sr. Merrill — lembrou ela —, o horário que vai ocupar estava destinado às minhas aulas de Redação, muito antes de o Sr. Talbot sequer pensar em convidá-lo para o curso de verão.

— Sei, sei. Você está zangada porque eu as tomei de você.

— O senhor não as tomou de mim — falou ela, agora realmente zangada. — Eu ainda sou a supervisora, lembra-se?

— Sara até achou bom — interveio Hal, tentando apaziguar os ânimos. E, virando-se para ela:

— Diga a verdade, você nunca gostou de dar aula logo de manhã.

Sara não respondeu, embora, intimamente, reconhecesse que Hal tinha razão. Todavia, não admitiria isso para Adam.

— Bem, precisamos ir, agora — disse Hal. — O Sr. Talbot está esperando por nós.

— Um momento — pediu Sara, retirando um livro vermelho com letras douradas de dentro de uma gaveta da escrivaninha e entregando-o a Adam. Este é o livro que usamos nas aulas de Redação. Talvez queira dar uma olhada para familiarizar-se com ele, antes de recomeçar o curso.

— O livro... hum, sei — disse ele, com expressão de pouco caso. Leu em voz alta o que estava escrito na capa: Criatividade em Redação. — É um título bastante criativo, não acha? — ironizou.

Sara sentiu-se enfurecer. Quem aquele homem achava que era, o Dr. Sabendo?

— É um livro excelente, Sr. Merrill. Se examiná-lo mais atentamente, vai ver que...

— Certamente — interrompeu ele, com o mesmo tom irônico.

A paciência de Sara estava se esgotando. Decidiu que o melhor a fazer era acabar logo com aquela reunião inesperada e in-desejada. Pegou uma folha de papel datilografada e entregou-a a Adam.

— Aqui está o programa de aulas, com todos os horários, inclusive a programação de seminários e provas.

Sem nenhum comentário, Adam dobrou o papel e colocou-o dentro do livro.

— Até logo — despediu-se secamente, seguindo Hal para fora do escritório.

Sara recomeçou a examinar a montanha de fichas e papéis, separando o que voltaria para o arquivo e o que seria jogado fora. Porém, não conseguia se concentrar no trabalho. A imagem de Adam não lhe saía da cabeça. Como ele era petulante! E pensar que teria de aturar aquele homem durante oito semanas! Mas ele iria aprender por si próprio. Vinte e cinco dos melhores alunos da faculdade haviam se matriculado para o curso de Adam, e ele podia ser um grande escritor, mas seria tão bom professor? Não, Sara pensou, não seria fácil. Talvez Adam se arrependesse mais cedo do que imaginava!

Ao passar em frente ao prédio principal da universidade, Sara avistou a figura alta e loira de Phillip Reynolds descendo as escadas. Começou a andar mais depressa, pois a última coisa que desejava, naquele momento, era ouvir a conversa de Phillip. Estava exausta e queria chegar logo em casa. Não conseguiu evitar, porém, que ele a visse.

— Ei, Sara, espere! — chamou Phillip, acenando para ela e correndo em sua direção. — Preciso falar com você sobre Olívia — disse, quando a alcançou, quase sem fôlego.

— O que é, desta vez, Phillip?

— Ela não pode continuar morando sozinha naquele casarão.

— Olívia não mora sozinha — respondeu Sara, andando mais depressa. — Eu moro com ela,

— Mas você está fora a maior parte do tempo! Ela pode cair, quebrar uma perna...

— Phillip, a mulher da limpeza vem todos os dias e eu sempre estou lá à noite. E, além do mais, Olívia tem uma saúde de ferro.

— Mas, Sara, ela deve ter pelo menos oitenta anos! Nunca se sabe o que pode acontecer, nessa idade.

Sara era obrigada a reconhecer que ele tinha razão.

— Muito bem, Phillip, e o que você sugere que se faça?

— Sugiro que a levemos para aquele novo apart-hotel para idosos, com serviço completo e enfermeiras de plantão dia e noite.

— E tirar-lhe a liberdade? E o que é pior, tirar-lhe a casa onde ela mora há mais de cinqüenta anos? Não Phillip, isso acabaria com ela rapidamente. Olívia não é uma inválida, ela goza de perfeita saúde e lucidez e deve continuar morando em Ashton Court.

— Pois bem — retrucou Phillip —, nesse caso, ela devia ser razoável e deixar-me ajudá-la.

— O que você quer é mudar-se para Ashton Court.

— E por que não? A casa é enorme, com todos aqueles quartos vazios... E eu poderia fazer companhia a Olívia.

— Acho que ela enlouqueceria em uma semana com você por perto!

— Não vejo por quê. Ela já tem você, dormindo e tomando as refeições por lá.

— Eu pago aluguel, Phillip.

— Ora, vamos, Sara! Você paga um preço simbólico!

Isso era verdade. De fato, fora difícil Sara convencer Olívia a receber qualquer tipo de pagamento.

— Além do mais, eu pertenço à família — prosseguiu Phillip. — E sou o único herdeiro de Ashton Court.

— Como pode ter tanta certeza?

— Ora, Pamela desapareceu há muito tempo.

— Não me refiro à filha de Olívia — retrucou Sara. — Ela pode ter algum parente, um primo, ou coisa assim.

— Ela nunca mencionou ninguém.

— Isto não significa que não exista alguém. Além disso, você é sobrinho-neto do marido dela, não é sangue de Olívia.

Phillip calou-se, como que refletindo sobre o assunto, enquanto caminhava ao lado de Sara. Já podiam avistar o muro alto que circundava a propriedade.

— Mas foi Otto quem ganhou o dinheiro e construiu a casa — lembrou Phillip, inconformado.

— Otto morreu, Phillip! Tudo pertence a Olívia, agora, e ela pode fazer com a propriedade o que bem entender. Você não devia contar com isso.

— Droga, não é justo! — queixou-se Phillip. — No tempo em que Otto era vivo, as coisas eram diferentes; ele me dizia que eu era seu herdeiro. Agora nem posso entrar na casa sem um convite formal.

Sara não pôde deixar de sentir pena do amigo. Phillip sentia-se desprezado pela tia.

— O problema todo — prosseguiu ele —, é que Olívia anda obcecada com a idéia de que Pamela vai voltar.

— Não acredito nisso. Olívia é uma pessoa muito prática. Não se esqueça que Pamela era filha única e que deve ter sido muito difícil aceitar a realidade, principalmente porque nunca encontraram o corpo. Mas isso foi há quase quarenta anos. Não creio que Olívia ainda tenha alguma esperança de que Pamela esteja viva.

Chegaram ao portão de ferro trabalhado, através do qual podia-se avistar o imenso casarão, com uma aparência quase lúgubre.

— Muito bem, Phillip, falarei com Olívia a respeito do apart-hotel — prometeu Sara. — Mas a decisão será dela.

— Esse é o problema — reclamou Phillip, irritado. — É sempre ela quem decide. — Virou-se abruptamente e afastou-se, zangado, de volta ao campus da universidade.

Sara empurrou o portão e começou a subir o caminho de pedra que levava à entrada principal da casa, enquanto meditava? no que Phillip lhe dissera. Seria possível que Olívia tivesse realmente uma obsessão corri relação a Pamela? Sara não sabia. Enfim, não iria se preocupar com isso. Atravessou o extenso jardim até chegar à pesada porta de carvalho, sob um arco de pedra construído em estilo gótico, quase que totalmente encoberto pela hera que subia pelas paredes exteriores da casa.

Entrou no vestíbulo de paredes forradas de lambris de madeira e sentiu imediatamente a diferença de temperatura. Estava bem mais fresco dentro de casa e a penumbra era reconfortante. Sara dirigiu-se para a sala de estar à procura de Ouvia. Viu a pequena senhora de cabelos brancos afundada no sofá, ao lado de uma caixa de bombons, totalmente absorta na leitura de um romance denominado Os Quatro Dedos da Morte, de Adam C, Merrill; uma fotografia do autor preenchia a contracapa. Onde Adam ia buscar aqueles títulos ridículos? O último chamava-se A Morte de um Homem Solitário.

— Olá! — cumprimentou Sara, entrando na sala.

— Sara! Você me assustou — exclamou Olívia com um sobressalto.

— Você se assusta à toa quando fica lendo essas histórias de mistério — riu Sara.

Ela considerava aquele tipo de leitura uma perda de tempo e dizia isso a Olívia.

— Nem todo o mundo é obrigado a gostar de Chaucer e James Joyce — observou Olívia, bem-humorada. — Esta leitura me distrai e ajuda a passar o tempo.

Sara sorriu afetuosamente para a simpática velhinha, colocando a caixa de bombons sobre uma mesinha e sentando-se a seu lado. Fazia dois anos que Olívia Reynolds a convidara para morar em Ashton Court, e Sara sentia-se em casa ali. Tinha um carinho imenso por Olívia, que, por sua vez, tratava Sara como uma filha.

— Encontrei Phillip, hoje — contou Sara, sabendo que não teria coragem de repetir a conversa que tivera com o rapaz. Achou que o prejudicaria se o fizesse. Mesmo a questão do apart-hotel, decidira deixar para outra ocasião, pois não sabia bem como abordá-la.

— É mesmo? Faz muito tempo que não o vejo — disse Olívia, sem, no entanto, parecer muito triste com isso.

— Ele disse a mesma coisa — aproveitou Sara. — Pensei que talvez pudéssemos convidá-lo para jantar, qualquer dia destes.

— Acho que é uma boa idéia, querida. Você precisa da companhia de gente da sua idade. E, por falar nisso, acho bom você subir, para tomar um banho e se arrumar, enquanto termino este livro. Vamos à casa dos Talbot. — O que vamos fazer lá? — indagou Sara.

— Cynthia me telefonou há cerca de uma hora, nos convidando para uma reunião informal, onde ficaremos conhecendo nada mais nada menos que Adam Merrill, em pessoa! Os Talbot o estão hospedando — declarou Olívia, entusiasmada.

— Oh, é mesmo? — murmurou Sara, não tão entusiasmada.

— O que é isso, minha filha? Pensei que você fosse vibrar com a notícia. Afinal, ele é uma pessoa muito importante.

— Oh, estou contente, sim — disfarçou ela. — É que estou com um pouco de dor de cabeça. Passei o dia todo arrumando aquele escritório, e com esse calor...

— Você vai se sentir melhor depois que tomar um bom banho e descansar. Só vamos sair daqui a duas horas. Enquanto isso vou acabar de ler este livro, que, aliás, está ótimo, para poder comentá-lo logo mais.

Sara sorriu e beijou o rosto de Olívia, que lhe retribuiu o sorriso. Subiu para seu quarto, na verdade, uma confortável suíte com dormitório, banheiro e escritório, que, a princípio, Sara recusara, achando que não tinha necessidade de ocupar tantos aposentos sozinha. Olívia, porém, insistira, alegando que a casa era grande demais e que seria bom para Sara ter um escritório quando trouxesse trabalho para fazer em casa. A própria Olívia ocupava uma suíte ainda maior, mobiliada em estilo Maria Antonieta e com um banheiro luxuosíssimo. O quarto de Sara era decorado com mais simplicidade, todo em tons de rosa e creme, e o seu banheiro era bem menor que o de Olívia.

Tudo o que Sara desejava, naquele momento, era tomar um banho demorado, vestir o robe e ler um bom livro de poesias, da nova coleção que havia recebido. Entretanto, não podia fazer uma desfeita ao patrão, recusando o convite. Além disso, seria obrigada a conviver com Adam algumas semanas e não se deixaria abater por isso.

Sentiu-se revigorada depois do banho. Escovou os cabelos até ficarem sedosos e brilhantes. Abriu o guarda-roupa e escolheu um vestido de unho cor-de-rosa, com um decote nas costas que valorizava seu corpo esguio e o tom bronzeado de sua pele. Aplicou uma maquilagem leve nos olhos e olhou-se no espelho, achando que parecia muito bem..

Adam Merrill que não viesse bancar o superior perto dela. Apesar da autoconfiança que ele demonstrava ter, Sara duvidava que, ao final de dois meses, ele saísse de Chandler tão cheio de si.



CAPÍTULO II

Sara olhou em volta de si, apreciando a sala de jantar e os diversos tipos de doces e sobremesas dispostos sobre o bufê. Todos já haviam se servido e ela podia ouvir o burburinho de vozes que vinha da sala ao lado. Cynthia Talbot aproximou-se com uma bandeja e um bule de prata nas mãos.

— Sara, querida, sirva-se e venha sentar-se. Você não fez outra coisa desde que chegou a não ser me ajudar.

— É um prazer para mim, Cynthia — apressou-se a dizer, tirando um bolo de chocolate de dentro de uma assadeira e colocando-o sobre um prato de cristal. Na verdade, preferia estar ali supervisionando o bufê a estar no meio da multidão que cercava Adam Merrill por todos os lados, fazendo-o sentir-se o centro das atenções. Já não fora fácil vir de Ashton Court até ali, com Olívia falando de Adam o tempo todo. Ainda por cima, tivera de ouvi-la dizer que ele era lindo, quando chegaram e Olívia o vira pessoalmente.

— Além do que — prosseguiu Sara —, você não pode fazer tudo sozinha, com tantos convidados. Admiro sua disposição em hospedar o Sr. Merrill e, depois de todos os preparativos para recebê-lo, ainda oferecer uma reunião como esta.

— Dave e eu já sobrevivemos a três adolescentes, no último semestre. Todas as pensões da cidade estavam lotadas e não pudemos recusá-los, pois eram alunos da faculdade. Depois dessa experiência, será um prazer para nós convivermos por algumas semanas com um homem culto e bem-educado como o Sr. Merrill.

Sara sorriu e pegou um prato de sobremesa para servir-se.

— Experimente esta torta de nozes — sugeriu Cynthia. — É a minha especialidade. E então, o que achou de Adam Merrill? Você é uma garota de sorte, vai trabalhar com ele!

Sara abriu a boca para dizer alguma coisa mas tornou a fechá-la em seguida. Pelo menos, até então, a opinião que tinha de Adam Merrill não era das melhores, mas como diria isso a Cynthia? Nesse instante, uma voz grave soou atrás dela:

— Gostaria de poder ouvir o que ia dizer, Sara, mas é contra meus princípios escutar conversas alheias.

Sara virou-se sobressaltada. Adam entrara na sala de jantar sem que ela percebesse.

— Nem é aconselhável — ponderou ela, secamente. Adam não respondeu, limitando-se a sorrir para ela com um brilho divertido nos olhos.

— Posso tomar um pouco mais do seu delicioso café? — pediu, virando-se para Cynthia.

— Mas é claro, Adam — exclamou a mulher do reitor, enchendo-lhe a xícara.

Sara aproveitou a oportunidade para retirar-se. Pediu licença e saiu apressadamente, cumprimentando algumas pessoas enquanto atravessava a sala de estar em direção à varanda. Estava quente demais dentro de casa e ela queria respirar um pouco de ar puro.

Debruçou-se na mureta, sentindo a brisa suave da noite e apreciando a vista do jardim bem cuidado e do rio, que passava por dentro da propriedade. De repente, sentiu que alguém se aproximava. Achou que sabia quem era antes mesmo de olhar e não se enganara: Adam a seguira e estava ali parado olhando para ela, com um prato de doces na mão.

— Você esqueceu isto — disse, entregando o prato a Sara. Observando-o ali, em pé, o sorriso irônico nos lábios, Sara não pôde deixar de reconhecer que, apesar de tudo, Olívia tinha razão. Além do rosto bonito e másculo, Adam era bastante alto, tinha ombros largos e um corpo bem proporcionado. Pena que fosse tão convencido e prepotente.

— Obrigada — agradeceu ela, aceitando o prato. Queria desesperadamente sair dali, pois alguma coisa em Adam a perturbava.

— O que acha de nos sentarmos ali fora para conversarmos sobre nossas aulas? — sugeriu Adam, apontando para alguns bancos de jardim que se encontravam num recanto afastado da casa, perto do rio.

Sara não teve como recusar. Teriam mesmo de conversar, mais cedo ou mais tarde. Caminharam até o local pouco iluminado e Sara sentou,-se. Estava feliz por ter o prato de doces nas mãos, assim, pelo menos, teria o que fazer com elas.

Adam apoiou-se numa mesa de pedra, de frente para Sara, os braços e pés cruzados. A luz da lua, refletida nas águas do rio, iluminava indiretamente seu rosto, tornando-o ainda mais perturbador.

Permaneceram em silêncio por alguns minutos, enquanto Sara saboreava a sobremesa.

— Queria agradecer sua colaboração — disse Adam, finalmente.

— Não há de que — respondeu ela, sem fitá-lo.

— E também quero deixar claro que conduzirei minhas aulas à minha maneira.

Sara levou à boca a última garfada de torta e colocou o prato vazio no banco, a seu lado. Depois olhou para Adam.

— Parece que o senhor se esqueceu do que disse o professor Mitchell, esta tarde.

— Foi Dave Talbet quem, muito gentilmente, me convidou para o curso. Ele me garantiu que eu teria autonomia e não pretendo dar satisfação a quem quer que seja.

— Sr. Merrill — ponderou Sara, procurando manter-se calma, — sou a pessoa responsável pelos cursos de Artes Liberais.v Se vai lecionar nessa área, terá de obedecer a certas regras do departamento. Não pretendo segui-lo o tempo inteiro nem me intrometer em suas aulas. Só lhe peco a gentileza de me adiantar seus planos e programas, para que eu verifique se estão de acordo com...

— Ah, é isso que você pretende? — interrompeu ele. — Dar seu visto de aprovação a tudo o que eu fizer?

— O senhor está torcendo as coisas, Sr. Merrill — queixou-se ela, começando a perder a paciência pela segunda vez no mesmo dia. — Acontece que, como já disse, sou responsável pelo departamento. Se o senhor fizer modificações e alguma coisa sair errada, eu é que terei de responder por isso.

— Acho que, no fundo, você tem medo que eu tome o seu emprego. Não se preocupe, não pretendo passar o resto da minha vida dentro de uma universidade, ganhando um salário de professor e...

— Não tenho medo de nada — defendeu-se Sara, quase gritando. Era incrível a que ponto chegava a petulância daquele homem! — E já que tocou no assunto — continuou ela —, se não está interessado em lecionar, por que aceitou a proposta de Dave?

— Aceitei pelo simples prazer de transmitir o conhecimento e a experiência que adquiri ao longo de muitos anos. Além disso, não podia recusar a Dave Talbot...

— Não acredito numa palavra! — explodiu ela.

— Sara — disse ele calmamente —, o que você tem contra mim? Apesar de mal nos conhecermos, parece que sua opinião a meu respeito não é das melhores.

— Não tenho opinião nenhuma a seu respeito — declarou ela, sem conseguir disfarçar a irritação.

— Já eu não posso dizer o mesmo — retrucou ele, o sorriso irônico voltando-lhe aos lábios. — Acho, por exemplo, que você parece muito mais sensual agora do que hoje à tarde, no escritório, com aquele jeans e rabo-de-cavalo.

Sara sentiu o rosto queimar sob o olhar intenso de Adam e agradeceu intimamente pela pouca iluminação do lugar. Não lhe daria a satisfação de responder àquele comentário.

— Não acredito que seja tão idealista quanto deseja aparentar, Sr. Merrill — declarou ela, retomando o assunto anterior para evitar que a conversa tomasse um rumo indesejado. — Afinal, escrever baboseiras não deve ser tão lucrativo, para que possa desprezar o salário que vai receber lecionando.

— Não me importa no que acredite ou deixe de acreditar — falou Adam, ríspido. — Aceitei o convite em consideração a Adam e porque achei que seria uma boa oportunidade de retribuir um pouco da grande consideração que o público tem tido para comigo. E, já que aqui estou, vou dar o melhor de mim, ou não farei coisa nenhuma. Portanto, se não quiser ser obrigada a explicar a Dave por que fiz as malas e parti de repente, não discuta mais comigo sobre quem está no comando.

— Muito bem — aquiesceu ela. — Nesse caso, falarei com Dave. Ele há de encontrar alguém na faculdade que esteja disposto a lhe proporcionar as condições de autonomia que tanto deseja.

Hal Mitchell, por exemplo, parece um grande admirador seu; tenho certeza de que ficaria encantado com a idéia de trabalhar com o senhor e...

Nesse momento, foram interrompidos pelo ruído de uma porta de vidro que se abria. Pelo som das vozes, Sara concluiu, aliviada, que não estavam mais sozinhos no jardim. Adam, porém, não ligou e continuou com suas investidas.

— Você se referiu a meus livros como baboseiras. É ao meu trabalho, particularmente, que tem objeções, ou encara toda literatura comercial da mesma forma?

— Tem o péssimo hábito de distorcer minhas palavras, Sr. Merrill.

— Como se encaixam nessa sua filosofia Dickens e Shakespeare, por exemplo? — prosseguiu ele, ignorando-a. — Eles também escreviam para ganhar a vida e nunca ouvi alguém referir-se à obra deles como baboseira.

— Aqui estão eles, Olívia — soou a voz profunda de Dave Talbot. — Pensamos que vocês dois tivessem se perdido — brincou, aproximando-se.

— Estamos trocando idéias sobre literatura moderna — conclamou Adam, olhando para Sara.

— Literatura?! -- repetiu Dave, fingindo incredulidade. — O que há com você, Adam? Uma noite como esta, o luar, a companhia de uma linda moça, e você fala sobre literatura?

— O Sr. Merrill está me concedendo o privilégio de relatar-me suas experiências em primeira mão — apressou-se a dizer Sara.

— Sra. Merrill — interveio Olívia, sentando-se numa cadeira de ferro que Adam lhe oferecia. — Me daria imenso prazer se fosse jantar em Ashton Court com Dave e Cynthia na próxima quinta-feira.

Aparentemente, os dois já haviam conversado dentro da casa. —Eu apreciaria muito, obrigado — respondeu Adam.

— Estive pensando — prosseguiu Olívia, virando-se para Sara — que poderíamos chamar Phillip também.

— Acho melhor convidá-lo em outra ocasião — observou Sara, imaginando que o rapaz preferiria ser recebido como o convidado de honra.

— Bem, não custa falar com ele — retrucou a senhora. — Se já tiver um compromisso, poderá vir noutro dia.

E olhando para Adam:

— Venha cedo, Sr. Merrill; assim terá tempo de conhecer minha casa e de passear nos jardins.

— O prazer será todo meu, Sra. Reynolds. Diga-me, qual a origem do nome Ashton Court — indagou ele, parecendo realmente interessado.

Olívia começou, então, a relatar, entusiasmada, o início de sua vida com o marido e os planos de construírem uma casa assim que a fábrica de Otto desse certo.

Embora, aparentemente, a atenção de Adam estivesse voltada para a narrativa da velha senhora, Sara podia sentir seu olhar sobre ela, e um arrepio percorreu-lhe a espinha. Ali, naquele instante, tratando Olívia com tanta gentileza, Adam parecia um perfeito cavalheiro. Por quê, então, em certos momentos, era tão insuportável?

Enquanto Adam e Olívia conversavam, Dave Talbot aproximou-se, com seu copo na mão, e sentou-se ao lado de Sara. Tomou um gole do drinque e falou:

— Hal e eu estivemos discutindo os aspectos positivos desse curso que você e Adam vão proporcionar aos nossos alunos.

— Foi bom você tocar nesse assunto, Dave. Estive pensando... acho que não haverá necessidade de nós dois conduzirmos as aulas. O Sr. Merrill é altamente qualificado... — Fingiu não ouvir a risada de Adam em meio à conversa com Olívia. — Se você me isentasse da responsabilidade do curso, eu poderia me dedicar a alguns projetos especiais junto aos alunos...

Dave Talbot sacudiu a cabeça com veemência.

— Não, não, isso está fora de cogitação. De fato eu não ia dizer nada por enquanto, até poder avaliar o resultado deste curso de verão, mas estou pretendendo adotar este procedimento como rotina em nosso currículo: trazer, pelo- menos uma vez por ano, um escritor que possa passar sua experiência para os alunos. Hal já é muito ocupado, portando, você terá de coordenar tudo. Será uma ótima oportunidade para você, também, compartilhar as aulas com alguém como Adam.

"Sim, excelente", sentiu vontade de dizer.

Adam não escutava uma palavra do que Olívia dizia. Estava estático, fitando Dave como se tivesse sido apunhalado nas costas.

Sara preparou-se para ouvi-lo dizer a Dave que não ficaria, naquelas condições. Bem, pelo menos, se isso acontecesse, ela já tinha todo um plano de aulas para o bimestre.

Olívia não tinha percebido que falava sozinha.

— Como vê, Ashton Court era o lugar ideal para as crianças. Pamela recebia seus amiguinhos, que vinham brincar, nadar e mesmo passar a noite...

Adam agora olhava para Sara com uma expressão glacial, como se seu rosto fosse esculpido em pedra. "A culpa não é minha", tinha vontade de gritar. "Eu tentei." Ela observou-o engolir em seco e fechar os olhos, como se estivesse sentindo uma dor muito forte. Entretanto, em vez do ataque furioso que ela esperava, Adam virou-se calmamente para Olívia e disse, gentil:

— Sua casa dever ser um lugar maravilhoso. Estou ansioso para conhecê-la.

Afagou carinhosamente a mão da velhinha e levantou-se.

— Acho melhor entrarmos, agora. Está ficando tarde e vejo que Sara está tremendo de frio.

Sara custou a conciliar o sono, naquela noite. Os acontecimentos do dia não lhe saíam da cabeça. Para completar, a atitude, final de Adam a surpreendera. Imaginou que ele talvez tivesse reagido com tanta cortesia em consideração a Olívia e que, possivelmente, depois de todos os convidados terem saído, ele tivesse explodido com Dave, dizendo que iria embora.

Por isso, foi uma surpresa para Sara quando, na manhã seguinte, mal havia entrado no escritório para terminar de arrumar a papelada, Adam entrou sem bater e puxou uma cadeira para perto da escrivaninha, sentando-se de frente para o encosto.

— Você ainda está aí — foi o que Sara conseguiu dizer, abandonando o tratamento cerimonioso, já que ele também a tratava com informalidade. Sentiu-se, porém, uma tola por não se lembrar de algo mais inteligente para dizer.

— E o que esperava? — retrucou Adam. — Que eu tomasse uma decisão precipitada sem considerar os prós e os contras?

— Bem... e já considerou?

— Já. Vou ficar..

— Conseguiu convencer Dave de que minha presença na classe sufocaria sua criatividade?

— Não. Ele é que me convenceu de que você poderá me poupar da penosa tarefa de elaborar e corrigir apostilas e provas, enquanto me dedico ao ensino propriamente dito.

— Dave é mais diplomata do que eu imaginava — observou ela, abrindo uma pasta e jogando na cesta de papéis todo o conteúdo.

— Além disso — troçou Adam —, sou um pobre escritor de baboseiras que batalha para viver e cheguei à conclusão de que, com sua ajuda, terei mais tempo para me dedicar ao meu trabalho. Esta cidade pode servir como cenário para meu próximo livro; e a casa de Olívia me soa como o lugar ideal para a cena de um crime. Aliás, você também mora lá?

— Sim, por quê? — perguntou ela, desafiando-o. — Por acaso pretende que eu seja a vítima?

— Admito que a idéia me ocorreu — falou ele com naturalidade. — Você é parente de Olívia?

— Não, somos amigas.

— Hum — ele acenou com a cabeça.

— Você acha que ela se importará se eu me inspirar em Ashton Court?

— Pelo contrário, acho que vai adorar a idéia. Mas por que não lhe pergunta você mesmo?

— Vou fazer isso. — Fez uma pausa e depois perguntou: — Não acontece nada de extraordinário por aqui, não é mesmo?

— Como assim? — quis saber ela.

— Algo que me sirva de inspiração, como, por exemplo, um crime sangrento, um marido traído que tenha matado a machadadas o casal de amantes, um suicídio misterioso...

— Nada no gênero — declarou Sara secamente, empurrando com o dedo os óculos de aro de tartaruga que teimavam em lhe escorregar sobre o nariz e voltando a concentrar-se no trabalho.

— Não quero a história completa — insistiu Adam. — Somente um ponto de referência em que possa me basear. Minha imaginação cuidará do resto.

— Não tenha dúvidas quanto a isso — garantiu Sara, olhando para ele. Acontece que, no momento, não me ocorre nada que possa lhe interessar.

— Sei. Existe alguma delegacia por aqui?

— Do outro lado da praça. Por quê?

— Registros. Todo crime tem um documento escrito. Também posso conversar com as pessoas que vivem aqui há muito tempo e que podem ter lembranças de casos passados: escândalos, cadáveres, e tudo mais. A própria Olívia deve conhecer algum caso escabroso...

— Não! Olívia, não! — interrompeu ela, bruscamente.

— Por quê? Se ela souber de algo interessante que...

Por favor, não pergunte nada a Olívia!

Adam ficou em silêncio por alguns minutos, observando-a intrigado.

— Você não pode me fazer um pedido desses sem me explicar o motivo.

Sara suspirou.

— Vamos lá — tomou ele —, qual é o problema? Ela tirou os óculos e colocou-os sobre a escrivaninha,

— Escute, eu falo sério — advertiu, inclinando-se para a frente. — Olívia tem muita idade e já sofreu demais com a confusão toda. Não é justo, agora, pôr o dedo na ferida. — Sara fez uma pausa, depois continuou: — Se eu lhe contar tudo que sei, você promete não tocar no assunto com ela?

Adam levantou uma sobrancelha.

— Você confiaria em mim se eu prometesse?

— Para ser franca, não!

— Nesse caso, eu prometo! — declarou ele, sorrindo. Sara não tinha outra alternativa.

— Olívia falou sobre a filha com você, ontem.

— Sim... Pauline, ou coisa parecida.

— Pamela. O que vou lhe contar aconteceu há quarenta anos. Pamela foi uma criança muito mimada pelos pais. Os dois desdobravam-se para fazer-lhe todas as vontades. Não sei se por esse motivo, ela acabou se tornando uma adolescente rebelde, causando inúmeros problemas. Era desobediente, andava com más companhias, enfim, transformou a vida dos dois num verdadeiro inferno. Estava no primeiro ano da faculdade quando desapareceu. Num fim de semana encontrou-se com um grupo de colegas e disse que iria pegar uma carona para Chicago a fim de assistir a um concerto, apenas para contrariar o pai, que não queria deixá-la ir porque ela estava de recuperação em três matérias. Alguém a viu, a alguns quilômetros daqui, entrando num carro preto velho, cuja aparência não era melhor do que a do jovem que o dirigia. Nunca mais foi vista, depois disto.

— Minha nossa! — exclamou Adam, pensativo. — E o rapaz do carro?

— Nunca o encontraram. Você tem idéia de quantos carros pretos antigos havia nesta cidade? Além do que, isso aconteceu três dias antes de se darem conta de que ela sumira realmente. Provavelmente, o rapaz não teve nada a ver com o desaparecimento.

— Será que ela não foi embora para se libertar dos pais e ser independente? Talvez ela se sentisse sufocada por eles.

— A polícia considerou a hipótese, a princípio. Mas Pamela não levou nada consigo. Até mesmo uma quantia de dinheiro foi encontrada em seu quarto, além de todas as roupas, pertences pessoais e um trabalho de pesquisa já começado, que deveria ser entregue na semana seguinte. Pamela não era uma aluna aplicada; não teria se preocupado em fazer o trabalho se tivesse planejado partir.

— Realmente, não parece ter sido uma fuga intencional.

— Não foi. Todas as evidências mostravam que ela pensava em voltar.

— E durante este tempo todo... — Adam fez uma pausa.

— Nada. Nem uma palavra, nem um indício do que possa ter acontecido. A polícia chegou à conclusão de que ela deve ter sido assassinada, provavelmente pelo pouco dinheiro que pudesse ter consigo. Há muito chão daqui até Chicago; ela pode ter sido jogada em algum buraco, sabe-se lá onde, ou mesmo ter sido enterrada.

— Deve ter sido terrível para os pais — observou Adam.

— Sem dúvida. Durante alguns anos, ainda, contrataram detetives particulares, mas acabaram desistindo. — Sara lembrou-se do que lhe dissera Phillip, sobre a obsessão de Olívia. Será que ela realmente desistira, ou continuava a procurar sem que ninguém soubesse?

— É um mistério, uma história inacabada — concluiu Adam. — Com certeza existe alguma coisa, um elo que precisa ser descoberto.

Sara viu Adam apoiar o queixo nas mãos, sobre o encosto da cadeira, e olhar pela janela com uma expressão distante, como se tentasse visualizar a imagem de Chandler quarenta anos antes.

— Veja bem, Adam — lembrou ela, inquieta —, eu só lhe contei esta história para evitar que você fosse falar com Olívia. De qualquer modo, não serve para o seu livro.

— Por que não?

— Porque não existe solução.

— Tem certeza? Pode ser difícil, mas não é impossível. Sabe, acho que posso conseguir alguma coisa — anunciou, o olhar distante.

— Por favor, Adam, deixe Olívia em paz.

— Não se preocupe. Serei discreto.

— Você não tem idéia de como são as pessoas aqui. A cidade é pequena, as fofocas se espalham rapidamente. Depois, não vejo o que você possa fazer que já não tenha sido feito há quarenta anos.

— Bem, não importa, na verdade. Eu preciso da idéia, não dos detalhes.

Sara refletiu que deveria demorar bastante até que uma idéia se transformasse em livro. E depois, até que fosse publicado... Provavelmente, Olívia não estaria viva, então. Pelo menos, ela esperava... Não se arrependia de ter contado a Adam. Se não o fizesse, ele iria fazer perguntas a Olívia, o que seria bem pior.

Adam sorriu para ela.

— Tomarei cuidado — prometeu, percebendo a preocupação estampada no rosto de Sara. — Também não quero ferir os sentimentos de Olívia.

— É estranho — considerou Sara — como ela devora os seus livros, Adam... Você não acha um pouco mórbido?

— Mórbido? — repetiu ele, indignado. — De baboseiras passou para mórbido? Por acaso você já leu algum livro meu?

— Não, mas o que eu quis dizer é que... — começou a defender-se.

— Então sugiro que o faça antes de proferir uma opinião desfavorável.

— Desculpe. Não foi minha intenção ofendê-lo — achou melhor dizer. Queria evitar discussões.

— E por falar em baboseira, sugiro também que jogue toda esta criatividade aí nessa cesta — disse ele, empurrando para ela, por sobre a escrivaninha, o livro de textos que ela lhe emprestara.

— Mas é o livro de literatura mais usado no país! — defendeu ela.

— Por quem? Por professores que não conhecemos e alunos que não têm opção? Quantos livros o autor escreveu? Não me refiro a livros didáticos, mas a volumes que se esgotem nas livrarias.

— Ele não é esse tipo de escritor. É um estudioso.

— Sabe por quê? Porque é incapaz de escrever um livro que venda, realmente. Não sabe ligar uma frase à outra para tornar a coisa mais interessante. Nunca li um livro mais tedioso do que este.

— Suponho que faria melhor! — ironizou Sara.

— Certamente não faria pior.

— E como se chamaria? O Evangelho Segundo Merrit Adam sorriu e a irritação desapareceu de seu rosto.

— Nada mau — observou, levantando-se e estendendo-lhe a mão. — Sabe de uma coisa, Sara? Acho que, afinal de contas, vamos nos dar muito bem.


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