Um Certo Capitão Rodrigo I – o movimento e o Autor



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Um Certo Capitão Rodrigo

I – O Movimento e o Autor

  • Desde 1930, a ficção produzida no Brasil preocupava-se, sobretudo, com a abordagem social, a incorporação de tipos e falares regionais, a denúncia política.

  • Otto M.Carpeaux chama atenção para o estilo realista de Érico, de um realismo que é a síntese de romantismo e de naturalismo.

  • Romântico na autenticidade e na solidariedade de cada uma das suas criaturas;

  • Naturalista na invenção de personagens e na narração de seus destinos.

  • O capitão Rodrigo, até certo ponto, evoca o herói romântico, por seu individualismo, seu gosto pela liberdade, o apreço às aventuras, ao violão...

  • Por outro lado, o caráter naturalista de Rodrigo está em sua compleição instintiva, animalesca - o zoomorfismo, isto é, a animalização do humano é procedimento recorrente na obra - o seu machismo, a sua concepção de amor ligado a sexo, a mulher reduzida a objeto de desejo sexual (às vezes, confundindo-se çom frutas, com churrasco...).


II – A Obra e a Verossimilhança

  • Érico se definia como um engenhoso contador de histórias, fascinado pelas pessoas e pelos problemas humanos, e se divertia “inventando histórias que nunca aconteceram sobre gente que nunca existiu”, como ouvia seu avô dizer.

  • O autor afirmou ter feito um mínimo de pesquisas, pois partia do princípio de que a história é feita de estórias, intrigas e enredos.

  • O mais importante é atentarmos para a trama ficcional do enredo.

  • O estado do RS, por ocupar um lugar estratégico que protegia as fronteiras brasileiras e por fornecer alimentos e outros bens para as demais regiões do país, teve imensa importância na História do Brasil.

  • Vejamos as datas, os fatos e os nomes que aparecem ao longo da narrativa, considerando que nenhuma figura histórica aparece em posição central.

        • 1810 a 1821 – durante esses anos, a região do Prata esteve envolvida em guerras de independência: San Martin (libertador do Chile, Argentina) e Simon Bolívar (“El Libertador” da Venezuela, Colômbia, Bolívia, Peru e Equador) são os grandes heróis latino-americanos. José Gervásio Artigas defende a autonomia do Uruguai e as inúmeras rebeliões acabam ameaçando o território do Rio Grande; D.João VI envia uma tropa de elite, comandada pelo General Lecor, a Montevidéu, para obrigar a Banda Oriental (Uruguai) a jurar a constituição do império. Em 1821, oficializou-se a anexação da Banda Oriental ao Brasil, com o nome de Província Cisplatina. Artigas, vencido, refugia-se no Paraguai.

1825 a 1828 — Guerra da Cisplatina: conflito ocorrido entre Brasil e Argentina pela posse da Banda Oriental do Rio do Prata (Uruguai).’ O governo proíbe o comércio do gado para aquela província, intensifica a cobrança de impostos e dízimos e aumenta a taxação sobre as mercadorias entradas no império, inclusive o gado uruguaio, favorecendo, assim, o contrabando.

1832: o presidente uruguaio, Fructuoso Rivera, confisca terras e gados dos aliados e simpatizantes de Juan Antonio Lavalleja, herói nacional, que lutou pela independência de seu país. Lavalleja tinha amigos brasileiros, como Bento Gonçalves, comandante militar da fronteira gaúcha, defensor de idéias liberais. Bento foi o líder da Revolução Farroupilha e presidente da República Rio Grandense.



1835 a 1845 — Revolução Farroupilha: os gaúchos insatisfeitos com a falta de autonomia das províncias, os altos impostos e, conscientes da boa receita fiscal do estado, mobilizaram-se pela adoção de uma república independente. São criados dois partidos: Liberal e Moderado (ou Restaurador), que, no romance, também são chamados de farroupilha ou pé-de-cabra, e de conservadores, caramurus, chimangos ou galegos, respectivamente. Algumas vertentes do exército rebelam-se contra o governo e as forças revolucionárias crescem com a adesão de camponeses e escravos, que contavam com a promessa de alforria. A Revolução Farroupilha, que causou reflexos em todo o país, terminou com a intervenção do Duque de Caxias.
III – O Enredo

  • Um certo capitão Rodrigo é estruturado em 28 capítulos, cuja sinopse é apresentada a seguir:

1. Chegada do Cap. Rodrigo a Santa Fé, em outubro de 1828. Na venda de Nicolau, conhece Juvenal Terra. Ali, todos ouvem, atentamente, o Cap. contar as histórias das guerras nas quais peleou. Ele imagina passar ali uma noite ou quem sabe o resto da vida.

2. Finados. Rodrigo vê Bibiana no cemitério. Paixão à primeira vista. Apresenta-se ao pai da moça, que o aconselha a ir embora do lugar.

3. Pedro Terra, preocupado, pensa no futuro da filha, ainda sem marido. Bibiana não pára de pensar naquele homem que vira no cemitério.

4. Padre Lara, o vigário do povoado, a mando do Cel Amaral, tenta convencer Rodrigo a abandonar o lugar.

5. Rodrigo vai conversar com o senhor de Santa Fé. Decide ficar no povoado, contrariando a vontade do estancieiro.

6. O Cap. Rodrigo Cambará conquista Santa Fé, com exceção de Pedro Terra, o patriarca da família. Propõe sociedade com Juvenal Terra para abrirem uma loja. Comunica ao futuro cunhado seu desejo de casar-se com Bibiana.

7. Padre Lara faz considerações sobre o rapaz de Porto Alegre, filho de açorianos, tão diferente de Rodrigo, que chega ao povoado para se casar com uma jovem, prima de Pedro Terra.

8. Festa do casamento na casa de Joca Rodrigues. Rodrigo certifica-se dos sentimentos de Bibiana.

9. Rodrigo convida Bibiana para dançar. Bento, filho do Cel Amaral, que a acompanhava, não permite. Desentendem-se. Juvenal revolta-se, em defesa do amigo. Decidem resolver a contenda em um duelo atrás do cemitério, sem testemunhas (duelo era proibido por lei).

10. A arma definida para tal embate seria adaga. Rodrigo, levando a melhor, cumpre o prometido e marca o rosto do adversário com a letra de seu nome, um R maiúsculo de sangue. Só não consegue terminar “a volta do R”. Bento retorna ao povoado com o rosto sangrando; Juvenal vai buscar o corpo do capitão e descobre que o seu ferimento não foi feito por uma adaga.

11. O ferido é levado para a casa de Juvenal Terra. A história da traição de Bento Amaral corria de boca em boca: levando uma pistola escondida, atirara à queima-roupa no rival. À beira da morte, diante do Padre Lara, o capitão não se arrepende de seus pecados, recusa a extrema-unção.

12. A milagrosa recuperação do protagonista.

13. Cel Ricardo Amaral manda um recado para o capitão para que ele “dê o dito por não dito, ou melhor, o feito por não feito”. Permite a sua permanência no povoado. A amizade de Rodrigo e Padre Lara se solidifica, não obstante o ateísmo do capitão.

14. Padre Lara pede a Pedro Terra a mão de Bibiana para o Cap. Rodrigo, que prometia sentar juízo. A contragosto, o pai dá o seu consentimento, certo de que sua filha será infeliz.

15. Casamento de Rodrigo e Bibiana no Natal de 1829. Alguns poucos meses de felicidade plena.

16.A gravidez de Bibiana deixa-a menos atraente aos olhos do esposo. Fugindo do incômodo de vê-la assim, como pretexto para ausentar-se do lugar, vai a Rio Pardo buscar um novo sortimento para a venda. Nasce o primeiro filho do casal, no dia 2 de novembro, Finados, mesma data em que se viram pela primeira vez.

17. O primogênito recebeu o nome de Bolívar. Rodrigo em uma das longas conversas com Padre Lara, brinca de ser Deus, e defende alguns pontos de vista em defesa de um mundo melhor, mais justo, igualitário, sem línguas diferentes, escravos, trabalho, casamentos, partos doloridos ou velhice, mas com umas guerrinhas de vez em quando. O capitão mostrava-se já descontente e entediado com a vida sedentária que levava atrás de um balcão.

18. Nascimento de Anita, segunda filha do casal. Pedro Terra não visita mais a filha, pois discordava do comportamento do genro, de volta ao jogo, às brigas de galo, às bebidas e mulheres. Cap. Rodrigo passa a ter uma amásia, Honorina, neta da índia Paraguaia. Bibiana ficava horas a fio a fiar na velha roca de sua avó, Ana Terra.

19. No ano de 1833, chegam os primeiros imigrantes alemães no povoado. Novas conspirações políticas envolvem Cel. Bento Gonçalves e o General Lavalleja (personagens reais). Padre Lara compara-se a um lobisomem andando na noite e não gosta do que vê, ouve e pensa. Lembra-se das inúmeras histórias, lendas, invenções dos homens sedentos por milagres.

20. O capitão Rodrigo Cambará, infeliz com a monotonia de sua vida, num rompante, como se tivesse fugindo de uma prisão, abandona a venda no meio do dia, sai a cavalo, sem chapéu nem botas, gritando ao vento, “acicatando (esporeando) o animal com esporas imaginárias”. Nada no poço e desafoga o que restou da inquietação sexual no rancho da Paraguaia.

21. O povoado de Santa Fé é elevado à vila. Na política, a maioridade de D.Pedro é o assunto preferido. Bento Gonçalves, acusado de estar negociando com Lavalleja, defende-se na Corte e volta com honras e privilégios. As duas famílias alemãs trazem novidades ao lugar: festejaram a Páscoa com ovos de galinha pintados de cores variadas e ainda afirmavam que eram “ovos de coelho”. Hans Schultz, no Natal, “com barbas postiças, e metido num camisolão vermelho, trouxera presentes para os filhos dentro dum saco”. Na noite de Ano Bom, Rodrigo, que há tempos andava enlouquecido pela alemã, tem nos braços Helga Kunz, a mulher mais loura, mais branca e mais limpa com quem ele havia dormido em toda sua vida.

22. Rodrigo Cambará anda mal nos negócios. Mergulha fundo no jogo. Sua filha, Aflita, morre numa noite medonha de vento, enquanto ele jogava na casa de Chico Pinto, não atendendo aos chamados da esposa.

23. Arrependido pelo seu comportamento, Rodrigo pára de beber e jogar volta a cuidar da família e dos negócios. Nasce 3º filho do casal, Leonor. A situação política no país e na região está cada vez pior.

24. No verão de 1835, Juvenal Terra traz notícias inquietadoras. Todo o Rio Grande está em polvorosa, descontente com os impostos cobrados pelo governo. Padre Lara, na missa de domingo, prega “um sermão sobre a obediência, a ordem e a paz”. Pedro Terra discute com O Cel Amaral, numa reunião de vereadores, e vai preso. Rodrigo parte e vai-se reunir com as forças do Cel. Bento Gonçalves.

25. Em outubro de 1835, arrebenta a revolução e Bento Gonçalves toma Porto Alegre. O Presidente da Província foge para o Rio Grande. Padre Lara faz considerações sobre os acontecimentos: “Um dia todas essas coisas hão de ser História”. Um ano depois, apesar da intervenção de Padre Feijó, regente do Império, os revolucionários ainda persistem.

26. Forças revolucionárias chegam a Santa Fé. Temerosos, muitos fogem de suas casas. Bibiana deixa que Juvenal leve seus dois filhos, mas fica esperando por Rodrigo, certa de que ele iria procurá-la ali.

27. Antes de atacar o casarão de pedra dos Amarais, Rodrigo passa por sua casa, conta rapidamente à Bibiana o que lhe aconteceu nesses meses, e, apesar da resistência da mulher, fazem amor pela última vez.

28. 0 capitão Rodrigo Cambará é morto. Coronel Amaral foge com a família para o Paraguai. Cel Ricardo Amaral morre peleando. No dia de Finados, Bibiana visita o túmulo do marido, “morando” tão pertinho de Ana Terra. Para ela, o marido estaria sempre vivo. “Homens como ele não morriam nunca”. Pelo contrário: “o Cap. Rodrigo Cambará tinha voltado para casa”.
IV - Aspectos gerais da narrativa e da linguagem

  • A obra tem a estrutura mais próxima da novela.

  • A novela apresenta uma estrutura mais linear, objetiva, horizontal.

  • O narrador é onisciente:

“Agora se sentia melhor. Tinha fugido da prisão. E ali sozinho e nu debaixo da cascatinha já não podia acreditar que era chefe de família, que tinha mulher e dois filhos — sim! — e um negócio... Que fosse tudo pro diabo...”

  • O tempo da ação transcorre de forma linear, abrangendo de 1828, chegada de Rodrigo a Santa Fé, até 1836, ano de sua morte.

  • Os fatos que antecedem essa data são evocados pelas personagens, como o faz Rodrigo, por exemplo, no primeiro capítulo, quando relata as histórias das guerras nas quais peleou.

  • Ao longo da narrativa, também podem ser observados alguns aspectos lingüísticos.

  • Segundo Flávio L. Chaves, a narrativa de Erico ultrapassa os limites do mero romance histórico, escapando ao regionalismo; ela não se restringe a uma fotografia social, mas expressa uma concepção de existência. “Estou longe de ser um regionalista. Mesmo em O tempo e o vento usei o mínimo de vocábulos ou expressões regionais”, afirma Érico nas suas memórias.

  • O léxico regional de Érico Veríssimo apresenta palavras ligadas a:

Danças: “tirana” (também é empregada no livro com o sentido de cantiga de amor e mulher impiedosa); “fandango” (também pode significar confusão).

Cavalo: “tordilho” (pêlo que lembra a plumagem de um tordo, fundo branco encardido com pequenas pintas escuras); “pingo” (cavalo bom, vistoso, corredor); “zaino” (tem o pêlo castanho-escuro).

Mulheres: “piguancha” (mulher jovem); “prenda” (moça gaúcha, querida); “china”, “chinoca” (mulher campeira, cabocla).

Vestimentas: “chiripá” (peça de vestuário masculino, rústica, usada por entre as pernas, presa à cintura); “bombacha” (calças muito largas em toda a perna, menos no tornozelo); “poncho” (capa grossa, inteiriça,com uma abertura no meio por onde passa a cabeça; agasalho).

Coloquialismos: “Houve uma hora que eu senti o bucho tão cheio de vinho e churrasco que pensei que ia rebentar.”

“Dizem que na stranja é assim também.”

Arcaísmos: “Fiquei lá me divertindo até gastar o último patacão (moeda antiga, de prata, que valia dois mil réis) “Um canalha vem da guerra com a guaiaca cheia de onças (antiga moeda de ouro), “de jóias e de coisas roubadas” .


  • O uso do diminutivo: “estava malito, fresquito”.

  • E expressões como: “afrouxar o garrão” (acovardar-se); “pisar no poncho” (desafiar, provocar, ofender); “gauderiar” (andar errante, despreocupado); “gaudério” (indivíduo folgazão, divertido, pessoa sem pousada certa); “bolicho” (taverna).

  • O texto é repleto de imagens (comparações, metáforas), impregnando a narrativa com doses de lirismo:

“A sombra da figueira era como um borrão de tinta no chão que o luar azulava.; “No campo vaga-lumes pingavam de fogo o corpo da noite”.;

  • Os símiles, geralmente, originam-se dos aspectos rurais e animais:

“Nas barbas negras de alguns deles a farinha branquejava como geadas sobre campo de macegas recém-queimado”. ;

“Bibiana tinha a impressão de que seu coração era como um pássaro louco, como um anu, que ela tinha encerrado no peito e que agora batia com as asas e com o bico em suas carnes, querendo fugir.”



  • Interessante observar as metáforas também do universo campeiro gaúcho, como nas palavras de Ricardo Amaral:

“Pois le pego pela palavra. Se vosmecê é potro que não se doma, muito bem, é porque não pode viver no meio de tropilha mansa. Seu lugar é no campo. Nesse potreiro de Santa Fé, moço, só há cavalo manso. Chegam xucros mas eu domo eles e boto-les a minha marca”.

  • A relação de opressor/oprimido em Santa Fé é expressa também por meio da metáfora animal, cavalar:

“Hai anos que a gente vive aqui encilhado pelos Amaral” .

  • A metonímia pode ser encontrada ao longo da novela, pois é recorrente em narrativas longas. Assim, por exemplo, o protagonista pode ser identificado por traços metonímicos, como a própria patente, o seu lenço encarnado, o seu uniforme; Bibiana é identificada pelo vestido azul, pela pele clara; Honorina é caracterizada por ter a cor de canela; o padre Lara, quando não é visto pela metáfora do urubu, é metonimicamente caracterizado pela batina ou pela difícil respiração de asmático. O mate é o “amargo”. Alemães são identificados por uma “coleção de caras brancas”.

  • Há o moderado uso de onomatopéia: “O procótó das patas do cavalo, o vuu do vento, o guincho dos quero-queros”.; “Acima do chuá-chuá mole e regular da água”.

  • Na valorização da cultura popular, o autor insere as letras das canções populares cantadas por Rodrigo, a propósito das lutas de que participou.

  • E, além disso, há ditos e provérbios: “Mañana es outro dia, como dizem os castelhanos”; “Não sou sapo para viver em banhado”. ; “Às vezes fugia dele como o diabo da cruz”.; “Quem anda cego de amor não sabe se é noite ou se é dia “.; “Pata de galinha nunca matou pinto” .; “Dizem que Deus ajuda quem cedo madruga” .; “Pistola boa não nega fogo” ; “Rei morto, rei posto” .


V – As Personagens

    • Érico criou aquele que viria a ser um estereótipo, um símbolo do gaúcho, homem bravo, generoso e fanfarrão, um gaudério com uma paixão instintiva pela vida e por seus prazeres.

    • Não tem vínculos com o passado nem paciência com o futuro, vive o presente; não se apega a Deus porque Ele não responde às suas necessidades práticas.

    • Sabemos que Rodrigo Severo Cambará é descendente de Chico Rodrigues, aventureiro, ladrão de gado, que resolve mudar de vida, olha para uma árvore à beira da estrada e decide usar o nome Cambará.

    • Donaldo Schüler observa que a origem de Rodrigo Cambará é obscura, ele chegou a Santa Fé ninguém sabia de onde.

    • A sua origem incerta já é indicada pelo título de sua história.

    • Vejamos o capitão Rodrigo por ele mesmo:

Origens: “Me criei guaxo (sem mãe). Não conheci mãe. Com doze anos já trabalhava no campo com a peonada bem como um homem feito. Com dezoito tinha sentado praça e já andava brigando com os castelhanos. Daí por diante sempre vivi ou brigando ou correndo mundo.”

Morte: “Na minha família quase ninguém morre de morte natural. Só as mulheres, assim mesmo nem todas. Os Cambarás homens têm morrido em guerra, duelo ou desastre. Há até um ditado: ‘Cambará macho não morre na cama”.

Vida: “Se Deus é grande, a vontade de viver é maior.”

Mulheres: “As castelhanas são mui lindas. Houve uma noite que eu fui para o quarto com três. E dei conta do recado.” ; “... naquele dia houve festa grossa. Rolou bebida e comida. Houve uma hora que eu senti o bucho tão cheio de vinho e churrasco que pensei que ia rebentar. Só sei que lá pelo anoitecer acordei completamente nu numa cama não sei de quem, num quarto não sei onde e ao lado duma mulher não sei de quem nem de onde.” ; “Mulher que vai uma vez comigo pra cama, vai sempre. “

Religião: “Religião nunca me fez falta.”; “... pra le ser franco, não tenho sentido falta de igreja nem de reza nem de santo.”

Padre: “Para ele padre era preto e agourento como urubu. Onde havia padre havia desastre ou morte: enterro, extrema unção ou casamento.”

Casamento: “Sempre achara que casamento também era um desastre, uma prisão, uma espécie de morte. No entanto agora a idéia de casamento associada a Bibiana não lhe era de todo desagradável nem impossível. “


  • Rodrigo pelos outros:

    • Pedro Terra: “Rodrigo é um homem sem serventia. Vive cantando, bebendo e jogando, e tem raiva do trabalho.”

Ricardo Amaral: “...homem habituado a pândegas, fandangos, carreiras, jogatina e mulheres... Sempre desconfiei de homem que toca violão.”

Bibiana: “...não sabia fazer nada com calma e jeito. Não punha um objeto em cima da mesa: atirava-o. Quando se despia, à noite, jogava as roupas para todos os lados. Não sabia beber um copo d’água ou de vinho devagar: tomava-o em goles largos, fazendo muito ruído e no fim estralando os beiços. (...) tão alegre, tão descuidado, tão barulhento, tão engraçado... “

Moradores de Santa Fé:

“Onde está o Cap. Rodrigo não hai tristeza.”



  • Flávio Loureiro Chaves, analisando a estrutura das personagens de Veríssimo, acredita mais em uma “dialética entre o transitório e o permanente”, do que na divisão entre personagens históricas e imaginárias. E explica:

“Enquanto os guerreiros e caudilhos se destroem na coxilha, a continuidade da existência fica assegurada pelas personalidades verdadeiramente fortes das mulheres”, como Bibiana, herdeira da personalidade de Ana Terra, “espécie de mãe, ventre, terra, raiz, verticalidade”, como a definiu Érico.

  • A horizontalidade nômade dos homens opõe-se à permanência, paciência, espera, perseverança, coragem moral das mulheres.

  • Bibiana representa a mulher-terra, com suas qualidades sedentárias e telúricas.

  • Segundo Tristão de Athayde, há uma “galeria humana de mulheres bem superior à média da condição humana normal”, mulheres essas que são uma resposta ao machismo, que tentam reservar para si as virtudes heróicas.

  • Bibiana é uma delas. Ela é o arquétipo feminino da novela; é a reprodução da avó; seu nome reduplica o de Ana Terra, com quem se identifica na obstinação, nos silêncios, no ódio às guerras.

  • Outras personagens da obra:

Pedro Terra: Patriarca da família, aparece no primeiro episódio. Filho de Ana Terra e Pedro Missioneiro. Casado com D. Arminda, perdeu três filhos (um afogado, outro de bexiga, outro de bala perdida), restando Juvenal e Bibiana.

Tinha a cara tostada de sol, fechada, melancólica. Era seco de gestos e palavras. O sorriso era amargo e triste. Trabalhador, honrado.

Juvenal Terra: Irmão mais velho de Bibiana, casado com Maruca, mulher quieta e trabalhadeira. Moreno, usava os cabelos compridos. Era lerdo, descansado; de tanto carretear, parecia ter tomado o jeito dos bois. A única atitude enérgica que teve na história foi quando enfrentou Bento Amaral, antes da cena do duelo, desabafando todo o ódio que sentia pela família Amaral, cujas riquezas provinham da exploração de terras alheias.

Ricardo Amaral Neto: Homem de cinqüenta e poucos anos, olhar altivo, era o “senhor” de Santa Fé. Dizia-se que ele se valia de sua autoridade militar para obrigar os estancieiros a lhe vender terras por um preço irrisório. Os Amaral, tradicionais adversários dos Terra-Cambará, representam a camada social exploradora, enquanto Rodrigo é o símbolo da luta pela liberdade pessoal, política e social.

Bento Amaral: Filho de Ricardo Amaral. Sabia ler e escrever, tinha maneiras de fidalgo, usava arreio chapeado de prata, palas de seda, anel no dedo, relógio de ouro. Gostava de Bibiana. É o antagonista do Cap. Rodrigo. Demonstra sua covardia nas seguintes situações: quando atira traiçoeiramente em Rodrigo, no duelo, e, no final, no ataque ao casarão, quando foge. Sabe-se depois que vai com a mulher e o filho para o Paraguai.

Padre Lara: Vigário de Santa Fé, fumante e asmático.



  • Vai ser o elo entre Rodrigo, de quem se torna amigo, e os demais habitantes de Santa Fé.

  • As longas conversas que mantinham, ora sobre a igreja, ora sobre a vida, o mundo, a sociedade, até mesmo os recados diretos ou não que trazia do Coronel Amaral são páginas antológicas de críticas salpicadas de humor.

  • Os diálogos do padre com Rodrigo ou com outras personagens da história exibem idéias socialistas, reflexões sobre o pensamento político e social da época; até mesmo um tema atualíssimo, constante nos jornais, a polêmica discussão entre os defensores das idéias científicas e o criacionismo é abordada aqui, quando o padre tenta convencer Rodrigo de que o mundo foi criado por Deus.

  • Apesar de se manter sempre ao lado dos poderosos, sem dar murro em ponta de faca, Padre Lara é a personagem que atua como o coro grego que abre o caminho para que essas idéias sejam debatidas.

Nicolau: Dono da única venda de Santa Fé, onde Rodrigo se alojara. Casado com Paula. Fingia não perceber que sua mulher, num silêncio submisso e assustado, saciava os desejos do capitão.

  • As duas famílias alemãs: Erwin Kunz o Serigote pai de Helga, cuja beleza deixa Rodrigo perturbado; Hans Schultz, sua mulher e seu “batalhão” de filhos. Compraram terras, trabalhavam na lavoura de sol a sol, de tamancos e chapéus de abas bem largas.


VI - Aspectos simbólicos míticos

    • Donaldo Schüler, tecendo considerações a respeito da epígrafe de O Continente observa:

“A epígrafe destaca dois aspectos da obra: o passar das gerações e a permanência dos fenômenos naturais (a terra, o sol, o vento). Além desses, a obra apresenta outras permanências: objetos, construções, mitos, o caráter das personagens. Os elementos de permanência impedem a obra de acumular ao acaso realidades desconexas. O tempo não destrói tudo. Algo resiste”.

EPÍGRAFE: “Uma geração vai, e outra geração vem, porém a terra para sempre permanece. E nasce o Sol, põe-se o Sol, e volta ao seu lugar onde nasceu. O vento vai para o sul e faz o seu giro para o norte. Continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos. “(ECLESIASTES : 1,4-6)

    • Um dos elementos de permanência é o vento, que terá como símbolo antitético o tempo. Este passa. O outro permanece.

    • O tempo (entenda-se o passado) pode ser esquecido, não resgatado.

    • Mas o vento, vinculado às vivências dos vivos, evoca, no seu sopro, os mortos.

    • Por isso Bibiana repetia a frase da avó, quando ventava, á noite: “Noite de vento, noite dos mortos “.

    • Segundo Jacques Leenhardt, “o vento, que é também um princípio temporal, caracteriza-se como um fenômeno da natureza, metáfora do ciclo que leva os homens e as coisas, que dispõe as ações sobre a roda do eterno retorno”

    • Outro elemento de permanência é o punhal que vai aparecer nas mãos de Juvenal Terra, quando limpa com ele, despreocupadamente, as unhas. Rodrigo demonstra interesse pela arma, admira-a e o dono, indiferente, olha para ela como se a visse pela primeira vez.

    • O punhal, herança do marido de Ana (Pedro Missioneiro), parece existir apenas para homens, daí a possibilidade de ser visto como um símbolo fálico.

    • Retornam à história, pelas mãos de Bibiana, a velha tesoura de podar (que continuaria cortando o cordão umbilical dos recém-nascidos) e a roca de fiar (também usada pela mãe de Ana Terra, simbolizando o trabalho constante da mulher).

    • O crucifixo com Cristo de nariz carcomido, vindo com os outros objetos da estância do bisavô, ficava na cabeceira da cama de Pedro Terra. Diante dele, Bibiana vai rezar e pedir um desfecho sem mortes no duelo entre Rodrigo e Bento Amaral.

    • O olhar e as lembranças de Bibiana nos trazem também a grande figueira que havia no centro da praça desde a criação do povoado.

    • A figueira é uma árvore que simboliza a abundância, sinal de prosperidade. Ao pé de uma figueira, Buda recebeu a iluminação. Mas nas lembranças da jovem, misturam-se brincadeiras de criança ao corpo de um homem enforcado naqueles galhos, como Judas.

    • Padre Lara apela á história bíblica da figueira sem frutos para doutrinar Rodrigo, como se ele fosse uma árvore seca ou daninha que não traria nada de bom para o povoado.


VII - Conclusão

  • A história de Rodrigo e Bibiana está assinalada, de alguma forma, pela dualidade vida x morte.

  • Eles se conheceram no dia de Finados, em um cemitério, O primeiro filho do casal nasceu também no dia dos mortos.

  • Bibiana, fiando na sua roca, nos remete a Cloto, entidade da mitologia grega que segura o fuso e vai puxando o fio da vida: é esse o destino humano.

  • É esse o destino das mulheres da família Terra: fiar, chorar, esperar e continuar vivendo.

  • Rodrigo desafiou a morte durante toda a vida. É da estirpe daqueles heróis gregos cujas vidas só têm sentido se guiadas pela ação guerreira.

  • “Mundo velho sem porteira” – essa expressão popular geralmente é usada para descrever um mundo vasto ou sem pé nem cabeça.

  • Aproxima-se do que Zé Bebelo (Grande sertão) dizia: “Mundo à revelia.”


Bibliografia: Cadernos de Literatura Comentada – Intercampos. Ano I N º1. Luiz Carlos Junqueira Maciel e Gilberto Xavier


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