Um Cowboy Irresistível The Baby Claim Martha Shields Aquele cowboy roubou-lhe o coração



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Um Cowboy Irresistível

The Baby Claim

Martha Shields




Aquele cowboy roubou-lhe o coração...

Seu sorriso valia milhões, e ele ficava irresistível de calça jeans. Travis Éden, campeão de rodeio e o rapaz mais gentil que Becca Larson conhecia, era muito especial. Mas a bela competidora agora sabia que não devia confiar em cowboys.

Mesmo assim, quando Becca precisou, lá estava Travis, pronto para ajudá-la. Ele também precisava de Becca, para afastar uma ex-namorada. Mas quando a tomou nos braços... Becca esqueceu-se de que tudo era de mentirinha e começou a sonhar que eram mais do que apenas amigos...



Digitalização: Tinna

Revisão: Bruna Cardoso

Copyright © 1999 by Martha Shields

Originalmente publicado em 1999 pela Silhouette Books,

divisão da Harlequin Enterprises Limited.

Todos os direitos reservados, inclusive o direito de

reprodução total ou parcial, sob qualquer forma.


Esta edição é publicada através de contrato com a

Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá.

Silhouette, Silhouette Desire e colofão são marcas

registradas da Harlequin Enterprises B.V.


Todos os personagens desta obra são fictícios.

Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas

terá sido mera coincidência.
Título original: The Milliondollar Cowboy
Tradução: Leda Moriya

Editor: Janice Florido

Chefe de Arte: Ana Suely S. Dobón

Paginador: Nair Fernandes da Silva


EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

CEP: 05424-010 - São Paulo – Brasil


Copyright para a língua portuguesa: 2001

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.


Fotocomposição: Editora Nova Cultural Ltda.

Impressão e acabamento: Gráfica Círculo



CAPÍTULO I

Finais do Campeonato Nacional de Rodeios Quarta-feira, cercanias de Los Vegas.

A direção de sua carreta pela auto-estrada, Travis nem reparou numa coluna de fumaça branca destacando-se contra o azul do céu. Ao contornar a colina seguinte, avistou a velha caminhonete que a expelia.

Seu auxiliar de rodeio, Chance Morgan, comentou:

— Ora, veja só, Trav. É a Rainha do Gelo em pessoa. Quem diria que Becca Larson sabe esquentar o motor de uma caminhonete? Com certeza, não sabe como fazer isso com a peãozada.

— Becca Larson?

Travis sentiu um arroubo de emoções conflitantes e tirou o pé do acelerador. Conhecia Becca desde o dia em que ela nascera, pois sua mãe ajudara no parto. Nos onze anos seguintes, a garotinha lhe fizera festas como uma cadelinha de estimação, até que ela e a mãe tiveram que sair da Fazenda Circle E, quando o pai de Becca faleceu.

Recentemente, Becca recuperara os quinhentos acres de terra que Travis tentava comprar havia dez anos.

— O que ela está fazendo aqui?

— Ora, ela é finalista. Não está a par do que acontece em seu meio profissional?

— Não na modalidade dela. Isso desde que... — Travis endureceu a expressão.

Chance riu malicioso.

— Cheryl Ann também é finalista.

— Ótimo para ela — rebateu Travis, e ligou a seta para parar no acostamento.

— Ei, o que vai fazer?

— Nunca deixei uma dama em apuros. — Olhando por sobre o ombro, Travis deu marcha à ré, emparelhando com a caminhonete pifada.

— O que espera com isso? Becca nem lhe informaria as horas, quanto mais agradecer. Sabia que metade dos peões do circuito apostou durante um ano em quem conseguiria derreter a Rainha do Gelo? Nenhum de nós conseguiu nem uma gotinha.

Travis puxou o freio de mão e olhou amuado para o companheiro.

— Raios, Chance, ela é novinha.

— Novinha é a minha égua. Ela tem vinte e seis.

— Bequinha já tem vinte e seis anos? — Travis fez uns cálculos mentais. — É, acho que está certo. Ela era dois anos mais nova do que Claire.

— Conhece a Rainha do Gelo?

Travis expressou desgosto. O nome de Chance era Brian. Ele ganhara o apelido porque gostava de apostar sobre tudo. Era o melhor peão que Travis conhecia, depois de seu irmão Hank. Por isso mesmo, estavam nas finais do campeonato nacional. Quando se tratava de mulher, entretanto, Chance comportava-se como um cafajeste.

— O bastante para não deixá-la no meio do deserto. Sua mãe não lhe ensinou bons modos?

O amigo desdenhou.

— Ah, Trav, não se pode mais nem brincar?

Travis não respondeu e desligou o motor. Ouvira aquela reclamação mais de uma vez no último ano. De fato, mudara. Sabia tão bem quanto Chance. Não saberia dizer quando ocorrera a transformação, mas, em algum momento do último ano, cansara-se da estrada. Do suplício constante. Das aterrissagens duras, arremessado do lombo de touros bravos. De hospedar-se em quartos baratos de hotéis diferentes a cada noite. De ser assediado por aventureiras. De dar seu "sorriso de um milhão de dólares" para a mídia, para os patrocinadores, para os fãs sempre ávidos de autógrafos e fotos a seu lado. Enfim, de ser o grande astro do rodeio.

Queria paz. Queria abandonar aquela vida, ser ele mesmo. Queria ser dono de seu tempo. Aquela seria sua última corrida às finais, seu último ano no circuito profissional. Estava decidido.

Com um grunhido de desgosto, abriu a porta da cabine e saltou.

Estava prestes a socorrer a garota sardenta que, cinco meses antes, comprara o único pedaço de terra no qual ele poderia encontrar a paz.

Ajeitando o chapéu, caminhou ao longo da carreta com capacidade para até seis cavalos. Veículos de todos os tipos zuniam pelo asfalto rumo à cidade do pecado, Las Vegas. Nem sentia as rajadas do frio ar de dezembro, porém, ao contornar o extremo da carreta, estacou embasbacado. Tudo o que via era a traseira de uma calça jeans desbotada sobre um par de pernas esguias que saíam de botas gastas e terminavam num bumbum tão carnudo e empinado que se sentiu trespassar por um raio de desejo ardente. O choque o mantinha paralisado. Aquela era a pequena Becca Larson? Lembrava-se de uma ruivinha magricela, o rostinho branco coberto de sardas.

— Maldição.

Nem percebeu que praguejara em voz alta até ouvir a provocação de Chance.

— Essa visão levanta até morto, não é?

Travis recuperou-se do ataque de luxúria e aproximou-se do ferro-velho que só as pessoas mais condescendentes chamariam de caminhonete.

— Como vai? Precisa de ajuda?

— Oh! — Curvada sobre o motor, Becca endireitou-se abruptamente e bateu a cabeça no capo levantado. Desequilibrada, acabou também escorregando do pára-choque sobre o qual se empoleirara.

Ágil, Travis agarrou-a pela cintura, evitando que caísse. Pelo tato, constatou que os seios dela tinham se desenvolvido tanto quanto o bumbum.

Sentiu-se arder. Surpreso com o arroubo de desejo baixou as mãos quando Becca se voltou e arregalou os olhos azuis.

— Travis?

Ele avaliou o rosto que, outrora fofinho, adquirira um formato de coração, com queixo delicado e maçãs do rosto altas. O cabelo ruivo escurecera, assemelhando-se a brasas de carvão, e tombavam em cachos sobre seus ombros elegantes. A Sra. Larson comentava que os cabelos da filha só se penteavam molhados, pois depois de secos era impossível. Teve vontade de tocar numa mecha e sentir de novo a textura macia, enrolando-a no dedo como uma fita de Natal.

— Você me reconheceu? — espantou-se Travis. — Pois eu não a identificaria nem em um milhão de anos, carinha de mico.

Percebeu que ela se enternecia ante o velho apelido. Vinte anos antes, ela o idolatrara como somente as crianças sabem fazer. Ainda não obcecado por rodeios, ele pudera usufruir a adoração da menina como as plantas se regozijavam ao sol. Quase se esquecera daquela sensação gostosa...

Becca ficou sem graça e desvencilhou-se do abraço.

— Claro que o reconheci. Sua propaganda de jeans está por toda parte. Como se isso não bastasse, as colunas de esportes sempre publicam uma foto sua.

Travis disfarçou a decepção. Então, Becca só o via como o peão de um milhão de dólares, com o sorriso de um milhão de dólares. A exemplo de todos. Por algum motivo, esperara que...

O quê? Estar diante de alguém que conhecia o verdadeiro Travis Éden? O homem, não o astro do rodeio? Pura ilusão. Já devia ter se convencido de que isso jamais aconteceria.

— Lamento pela cabeçada — disse formal. — Não era nossa intenção assustá-la. Paramos para ver se podíamos ajudar.

Becca olhou-o dos pés à cabeça e pareceu desaprovar o que via.

— Está tudo sob controle, obrigada.

Com isso, Becca deu-lhe as costas e subiu de novo no pára-choque enferrujado.

Travis enfureceu-se.

— Você está sendo teimosa!

Becca olhou fulminante por sobre o ombro.

— Eu sei consertar carros. Chance puxou Travis pela manga.

— Vamos Trav. Eu lhe disse que ela não aceitaria ajuda. Travis desvencilhou-se.

— Mas não podemos...

— Olá, rapazes — cumprimentou uma voz feminina madura. — Obrigada por pararem.

Era a mãe de Becca. Travis espantou-se ao ver que ela se transformara tanto quanto a filha. Os últimos quinze anos não tinham sido gentis com Joy.

Mais baixa que a filha, a Sra. Larson tinha olhos azuis também, mas a semelhança parava por aí. Seus cabelos loiros estavam mais claros, devido aos fios brancos, e as ruguinhas ao redor dos olhos e lábios davam-lhe uma expressão acabada, como se suportasse uma dor constante.

Travis enrijeceu-se. Não queria sentir pena das Larson. Elas haviam destruído seu sonho ao comprar a fazenda Circle E.

E sentia-se culpado por nutrir aquele ressentimento. A Sra. Larson e Becca deram-lhe apoio durante aqueles anos terríveis após a morte de seus pais, quando tanto precisara.

A Sra. Larson sorriu.

— Travis Éden, ficou importante demais para poder dar um abraço numa velha amiga?

Travis avançou um passo e apertou com força o corpo frágil da senhora. Não a revia desde o dia em que Circle E fora a leilão, seis meses após a morte do marido, que a deixara atolada em dívidas. Então, com apenas dezessete anos, não pudera ajudar o que restara da família Larson, a qual se tornara tão próxima quanto a sua própria. Elas se mudaram. Um ano depois, ele se tornava peão profissional. Quisera procurá-las, mas os anos foram passando, até que as duas se transformaram em lembrança distante.

— Que bom vê-lo novamente. — A Sra. Larson reparou em Chance. — Acho que não nos conhecemos...

— Chance Morgan — apresentou Travis. — É meu auxiliar nas provas de laço.

— Você se qualificou para a prova do laço, Travis?

— Sim, senhora.

— Geralmente monta touros, não é?

Travis sentiu-se um verme. Era evidente que as Larson tinham acompanhado sua carreira ao longo dos anos.

Geralmente, sim.

— Ouviu isso, Becca? Travis se qualificou em duas categorias.

— Já sabia mamãe — resmungou Becca, sem tirar a cabeça de baixo do capo.

Joy Larson era toda entusiasmo.

— Deve ter tido um ano e tanto! Já ia perguntar da sua família, mas acho que vimos seus irmãos há menos tempo que você. Sabia que somos vizinhos de novo?

— Sim, senhora. — Travis não pôde deixar de perguntar: — Como convenceram o velho Duggan a vender-lhes a fazenda?

— Acho que ele ficou aliviado em se desfazer dela — replicou a Sra. Larson. — Só tivemos que perguntar se ele queria vender.

Travis mal disfarçou a ira. Apresentara inúmeras ofertas de compra das terras a Duggan nos últimos dez anos, mas o velho turrão recusara todas. Aparentemente, culpava-o pela morte do filho num rodeio na época do colégio. Ora, como teria impedido Ray de montar o cavalo xucro. Duggan devia ter assinado com muito prazer à transferência da escritura para as Larson.

A Sra. Larson encolheu-se toda contra o vento frio de dezembro.

— Bem, felizmente vocês pararam. Há semanas digo a Becca para...

A Sra. Larson agitava a mão para cima e para baixo, um gesto do qual Travis lembrava-se bem. Parecia uma borboleta.

— Não entendo nada de motores, mas acredito que este esteja nas últimas. Já rodamos tanto que nem marca mais. Só não sei o que vamos fazer.

Becca voltou-se.

— Nós vamos deixar esses peões seguirem o seu caminho, não, vamos, mamãe? — sugeriu, a voz doce.

— Mas, querida, Travis teve o trabalho de parar. O mínimo que pode fazer é deixá-lo ver o motor.

Becca pulou do pára-choque e levou as mãos aos quadris.

— Por quê? Porque ele é um peão de rodeio? E quem melhor para ver o motor do que alguém que passa a vida na estrada? Bem, pode ter razão aí, mas ninguém conhece esse motor melhor do que eu. Eu o conserto há oito anos. Posso consertá-lo hoje também.

Travis ergueu uma sobrancelha com o sarcasmo dela.

— Não parece estar se saindo muito bem...

— Só precisa esfriar um pouco.

— Vamos, Travis, pé na estrada.

Travis ignorou a sugestão de Chance. Passou por Becca, jogou o chapéu no pára-brisa e enfiou a cabeça debaixo do capo. Sentiu a caminhonete balançar quando Becca juntou-se a ele.

— Eu posso cuidar disso, Travis — insistiu ela. — Não sou mais uma garotinha.

Ele ergueu o olhar e encarou-a.

— É, deu para notar.

Ela respirou rápido e as narinas se inflaram. Travis sentiu vontade de agarrá-la. Atônito com a idéia desviou o olhar e voltou à atenção à mecânica.

— A fumaça é branca, deve ser o radiador, certo?

— Sim, mas é só um furinho — insistiu ela, abanando a área para dispersar o vapor. — Está vendo? Já quase resfriou o bastante para dar a partida de novo.

Ele inclinou-se mais para verificar o radiador.

— Furinho? Nossa, é uma cratera.

— Não, não é. — Ela começou a abanar com mais energia e inclinou-se. — É... Raios. É grande, não é? Não vi antes por causa do vapor...

Travis identificou desespero no tom de voz. Ergueu o olhar e viu lágrimas de frustração deixando-lhe os olhos muito brilhantes. Ela recompôs-se rapidamente.

— Duvido de que tenha restado uma gota de água ou anticongelante — comentou gentil. — Foi bom termos parado.

Encararam-se. Travis identificou a dúvida evidente no olhar dela. Havia uma mancha de graxa no rosto que desejou poder limpar. A pele ruborizada estaria tão quente quanto parecia? Conseguiria sentir a pulsação sob a...

— Obrigada. Acho que realmente precisamos da sua ajuda — admitiu ela, finalmente, trazendo-o de volta à realidade. Becca respirou fundo e resmungou: — Parece que algumas coisas não mudam jamais.

Travis sorriu contente por ela se lembrar do tempo em que ele levava lenha para o fogão, ou voltava correndo da escola para levar o gado para pastar, ou passava para lhes deixar um bom filé. Confuso, tanto com a ternura repentina quanto com o próprio desejo, endireitou-se e bateu a cabeça no capo.

— Ai!


Ouviu uma risada suave e olhou para Becca enquanto massageava o local injuriado. A visão do sorriso largo, das covinhas e das sardas fez com que se esquecesse da dor, quase o fez se esquecer do próprio nome.

Ela cobriu o sorriso com dedos esguios.

— Desculpe-me.

— Não, não se desculpe carinha de mico. — Com um sorriso, agarrou o chapéu e franziu o cenho ao posicioná-lo na cabeça. — Vamos dar uma carona a você e sua mãe até Las Vegas, então, poderão...

Ela deixou de sorrir.

— Las Vegas fica a cinqüenta quilômetros daqui.

Travis olhou para Chance, para a Sra. Larson e então, de volta a Becca.

— Mais ou menos. É para lá que estão indo, não é? Ela pulou do pára-choque.

— Bem, claro. Mas não posso deixar a minha caminhonete aqui por tanto tempo. E tem o cavalo no reboque.

Travis apontou para a própria carreta.

— Tenho quatro cavalos numa carreta em que cabem seis. Bastante espaço para a sua montaria, portanto...

Ela ergueu o queixo.

— Mas...

— Você tem duas opções — informou ele, interrompendo-a. — Ou aceita nossa carona para Las Vegas e acha alguma oficina que possa vir rebocar a caminhonete...

Ela franziu o cenho.

— Quanto vai custar? Travis olhou para Chance.

— Quanto? Pelo menos, cem dólares, eu diria. O que você acha?

— Essa distância? — Chance balançou a cabeça. — Está mais para duzentos.

Becca engoliu em seco.

— Duzentos dólares só para vir buscar? E depois, pagar pelo conserto? Não gostei dessa opção. Qual é a outra?

— Um ex-peão de rodeio mora em Glendale. Ele tem um posto de gasolina mais ou menos a vinte quilômetros daqui. Chama-se Rube Pruitt. É um bom homem e excelente mecânico. Poderá consertar a sua caminhonete por um preço justo.

— Hoje?


Travis encolheu os ombros.

— Provavelmente, não, mas pode perguntar.

— Tenho que estar no coquetel de abertura esta noite — comentou Becca. — É exigência.

— Eu sei — concordou Travis. — Todos temos que ir.

— Não posso deixar a caminhonete em Glendale. Fica longe de Las Vegas. Como chegarei até a arena? E onde iremos dormir?

Ele se espantou.

— O que quer dizer com onde irão dormir?

Ela apontou para a cabine na carroceria da caminhonete.

— Nós íamos ficar no acampamento na estrada Boulder.

— Acampamento? Faz idéia de como é frio à noite no deserto?

— Nós sempre acampamos — informou a Sra. Larson. — Estamos acostumadas.

— Bem, esta noite vocês vão ficar num hotel. — Travis voltou-se para a velha carreta de duas vagas rebocada pela caminhonete igualmente velha. — Se conseguir vaga. Vegas durante as finais fica tão lotada quanto no verão e ouvi dizer que há outros eventos grandes na cidade nesta semana.

Becca seguiu-o de perto.

— E se não conseguirmos uma vaga? Ele encolheu os ombros.

— Veremos isso depois. Chance? Ao invés de ficar aí parado, vá abrir a carreta.

— Podemos pagar um quarto de hotel, Becca? — indagou a Sra. Larson.

— Claro que não, mãe. Travis voltou-se.

— O que quer dizer com não poderem pagar? Você é uma das quinze melhores amazonas na prova dos três tambores ou não estaria aqui.

— Isso não significa que somos feitas de dinheiro — insistiu Becca. — Não sou amazona sete vezes campeã cheia de patrocinadores. Além disso, preciso guardar cada centavo se quiser...

— Quiser o quê?

Ela o encarou confiante, o olhar dissimulado.

— Nada.


— Se quiser pagar pelo radiador furado? — disparou Travis, irritado por Becca não confiar nele.

A hipótese dele desconcertou-a. Quando ela desviou o olhar, abatida, Travis desejou tomá-la nos braços e confortá-la. Atônito com a força do desejo agarrou a trava da porta do reboque pára ficar longe dela.

Tentou se convencer de que o sentimento era reminiscência da afeição fraternal que lhe tinha havia vários anos, mas não conseguiu. Não era irmão de Becca e, embora a consciência lhe dissesse que estava sendo tolo, sentia-se muito, muito feliz.

— Fique tranqüila — murmurou ele.

— O quê?

Ele afastou os pensamentos vagos. Aquela era Becca Larson, raios. A mulher que lhe roubara a fazenda.

— Os hotéis oferecem preços especiais para os finalistas. Você não vai ficar sem dinheiro.

— É o que você pensa — reclamou ela.

— O que foi que disse?

Ela inclinou-se para pegar um saco de ração junto à porta da carreta.

— Nada.

Travis sentiu outro impulso, o de agarrá-la e fazê-la conversar com ele. Queria saber por que ela comprara a fazenda Circle E quando ainda tinha muitos anos de rodeio pela frente. Queria exigir que ela lhe vendesse as terras.



Não a agarrou, mas ficou pensando nisso enquanto baixava a rampa da carreta.

Por que não passar um tempo com as Larson e ver se poderia convencê-las a vender-lhe Circle E? Becca participava dos rodeios havia pouco mais de um ano, de acordo com seu irmão Hank. Estava apenas começando a carreira, portanto. Ela ficaria na estrada, longe da casa que acabara de resgatar. Além disso, não precisava do fardo extra de sustentar a fazenda. Raios, era mais provável que ela encontrasse algum peão nos rodeios, se estabelecesse em algum lugar e acabasse vendendo Circle E. Talvez conseguisse convencê-la a vender-lhe a fazenda antecipadamente.

Como era a primeira visita das Larson a Vegas, poderia mostrar-lhes a cidade, ajudá-las no que fosse preciso, acompanhá-las pela cidade do pecado. Quem melhor que um velho amigo? Tinha dez dias para encantá-las e convencê-las de que os quinhentos acres que faziam o limite norte com a fazenda dos Éden eram mais do que elas precisavam.

Travis hesitou, lembrando-se de como sua libido reagira desde que parará na estrada para ajudá-las. Não queria envolver-se com Becca. Precisava de tempo sozinho na montanha Yellow Jack antes de pensar em compartilhar sua vida, e sentia que com aquela mulher era tudo ou nada.

Por outro lado, para passar algum tempo na montanha Yellow Jack, precisava comprar Circle E, ou seja, precisava convencer as Larson a vendê-la.

Confiante no plano subiu na carreta. Embora o veículo estivesse em mau estado por fora, por dentro era impecável. A égua ocupava a sela esquerda. Feno, duas selas e os arreios estavam do outro lado. O animal tinha a cabeça protegida por equipamento específico, às pernas e o rabo, enfaixados, um cobertor dando o toque final. O assoalho parecia novo e as esteiras de borracha brilhavam de limpas. Hank sempre dizia que se podiam tirar muitas conclusões sobre uma pessoa pela forma como tratava seus animais. Becca subia em seu conceito. Ela podia ser severa quanto ao próprio conforto, mas, com certeza, mantinha a montaria segura e asseada.

— O que foi? — perguntou ela, ansiosa.

— Nada. — Ele avançou até a frente da carreta e desatrelou a égua, conversando baixinho com o animal enquanto o conduzia para a rampa.

Becca buscou os arreios assim que o animal se afastou um pouco, mas Travis reprovou.

— Ela está arredia por causa do tráfego na estrada. Vou levá-la para a minha carreta. Você pega seus pertences. Becca, não tem escolha senão vir comigo para Vegas.

Becca largou os arreios e acariciou o pescoço da égua.

— Mamãe está arrumando tudo.

— É melhor então trazer as selas e tudo de valor — aconselhou ele, levando a égua.

— Você tem espaço para tudo isso e mais quatro pessoas? Travis olhou por sobre o ombro e riu.

— Se não tivermos, colocaremos você com as montarias.

Becca encolheu-se mais para a esquerda, esquivando-se, enquanto Chance esticava as pernas no espaço exíguo da cabine estendida. Não que o culpasse, já que era uns quinze centímetros menor e sentia-se como uma sardinha.

— Desculpe-me — grunhiu o rapaz.

Becca concentrou-se na paisagem. Estava sendo rude com o peão que cedera seu lugar para a Sra. Larson, mas não podia evitar. Não gostava de Chance Morgan, desde que ele tentara agarrá-la num corredor, no inverno anterior, em Toledo.

Becca fechou os olhos e encostou a cabeça na janela. Não sabia se ria ou se chorava. Quem diria que pegaria carona para Las Vegas com o famoso peão de rodeio?

Sabia que Travis estaria nas finais, mas achava que ele a ignoraria, como nesse último ano, nos poucos rodeios em que ambos estiveram inscritos. Até pensara em abordá-lo, por insistência da mãe, mas ele estava sempre cercado de pessoas. Ele sorria o tempo todo, mas ela percebia que ele não estava se divertindo, e não queria aborrecê-lo ainda mais. Além disso, concluíra que ele já se esquecera dela, que uma pessoa tão famosa não reconheceria uma criança tola que crescera idolatrando-o.

Naquele momento, não sabia o que pensar. Felizmente, não corria o risco de fazer papel de tola novamente.

Travis, com sua voz grave, perguntou algo a Sra. Larson. Becca abriu os olhos e o encarou, sentindo um arrepio por todo o corpo.

Não se tratava mais da mesma adoração que sentira em criança. A voz dele não era tão grave na época. Retumbante agora lhe provocava uma agradável sensação de fraqueza, assim como o toque lembrava um choque elétrico.

Por que tivera que reencontrar Travis? Desse jeito? Se tivesse deparado com ele nos eventos do rodeio, simplesmente diria: "Olá. Como vai? Foi bom vê-lo." E só.

O acontecimento trazia à tona também o período de penúria que ela e a mãe haviam vivido na Circle E. Só mais tarde soubera o quanto os Éden as ajudaram. Primeiro, a Sra. Éden vinha com Travis e Claire. Depois da morte de seus pais, Travis continuou aparecendo, sempre com Claire a reboque, para as duas meninas poderem brincar.

Becca trabalhara muito nos últimos dez anos, garantindo que não precisassem mais de caridade. Era doloroso ver-se necessitada de ajuda novamente. De algum modo, era ainda mais doloroso para Travis vê-la assim, mais uma vez.

A caminhonete não podia ter quebrado em pior hora. Não seguia a um rodeio qualquer, onde não perderia mais do que um prêmio e uns pontos. Tratava-se da final nacional. Se perdesse uma das dez noites de disputa, por qualquer motivo, poderia dar adeus ao título.

Becca cerrou os punhos. Precisava vencer o campeonato. Senão, perderia Circle E outra vez, como perdera quinze anos antes, à morte do pai. Precisava de cada centavo do prêmio para pagar o que Ote Duggan vinha cobrando desde a morte de seu tio, havia dois meses.

Ao som contínuo do motor, Becca identificou a voz da mãe contando a Travis sobre a mudança de volta ao Wyoming. Reaver as terras da família significava tanto para ela. Joy Larson nascera em Circle E. Agora, poderia morrer lá.

As lágrimas brotavam sempre que Becca pensava no tumor no cérebro da mãe, que a matava vagarosamente. Inoperável, disseram os médicos.

— Não se preocupe com a caminhonete — comentou uma voz grave com Becca. Rube Pruitt vai cuidar dela.

— Nunca ouvi falar de Rube Pruitt antes.

— Eu o conheço bem — respondeu Travis, o olhar na estrada. — É boa gente. Montava cavalos xucros quando Hank se tornou profissional.

— Bem, ele pode ser confiável, mas não gosto de ficar longe da minha caminhonete.

Travis deu de ombros.

— Não tinha opção. Não conseguiria um guincho de Las Vegas.

— Eu sei. Mas não posso pagar duzentos dólares por um guincho, mais o conserto do radiador. — Becca suspirou. — E quem sabe quantos mecânicos pilantras há em Vegas...

Pelo espelho, Travis sorriu perspicaz.

— Quer dizer que está confiando no meu julgamento?

Becca desviou o olhar, controlando-se para não mostrar-lhe a língua, como fazia quando criança. O problema era que, lá no fundo, confiava nele, e isso a assustava mais do que chegar à final.

Travis Éden era o perfeito peão de rodeio, porém, ao longo dos anos, Becca aprendera que peões de rodeio não valiam o ar que respiravam. Eles roubavam seu coração e, então, triunfantes, pegavam a estrada. Do pai ao peão que conhecera em Paris, Texas, e a quem quase entregara seu coração, todos eram iguais. Era amá-las e abandoná-las com suas ilusões... Com ênfase no "abandoná-las."

Becca não queria nada com Travis Éden, nem com nenhum outro peão de rodeio. Talvez tivesse um fraco por ele no passado, quando ainda não sabia como era o raciocínio de um peão de rodeio.

Se confiasse nele naquele instante, era só no que se referia ao conserto da caminhonete e só porque não tinha escolha.

Suspirando, massageou a região entre as sobrancelhas. Fora um longo dia. Ficaria contente em chegar a Las Vegas. O hotel valeria cada centavo, desde que não tivesse que ver Travis Éden novamente.





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