Um debate conceitual



Baixar 51.64 Kb.
Encontro29.07.2016
Tamanho51.64 Kb.

Artigos

_____________________________________________________



A REGIÃO DO “VELHO CHAPECÓ”:

UM DEBATE CONCEITUAL

Leonardo Dlugokenski1



Resumo:

O presente artigo pretende suscitar a discussão sobre as ferramentas metodológicas utilizadas para caracterizar uma região. Com a derrocada das ciências sociais a partir da revolução industrial, as divisões regionais feitas por critérios como relevo ou economia tornaram-se extremamente problemáticas, pois a partir da realização de diversos estudos chegou-se a compreensão que a divisão regional não era apenas natural, mas também cultural, por isso em vários casos a região cultural torna-se diferente da região delimitada politicamente.



Palavras chave: região, fronteira, “Velho Chapecó”.

Abstract:

This article is intended to spark discussion about the tools used to define a region. With the genesis of the social sciences from the industrial revolution, the regional divisions made by criteria such as relief or economy became highly problematic, for after the series of studies came to the realization that the regional division was not only natural, but also cultural, so in many cases the cultural region becomes different from the politically defined area.


Keywords: region, border, "Old Chapecó”.


Considerações Iniciais

Para caracterizarmos uma região do “Velho Chapecó” se faz necessário em um primeiro momento determinar qual o conceito se assumirá como referência para integrar nosso estudo. Por isso far-se-á uma exposição sobre o debate que gira em torno da definição do conceito de região, como também os temas marginais que o complementam, como as fronteiras. Partiremos de um breve, porém relevante levantamento histórico sobre o assunto, adentrando no debate travado pelas ciências sociais, como também nas ponderações e teorias postas sobre o assunto.

Em um segundo momento, examinaremos a constituição histórica e social da referida região do “Velho Chapecó”, desde suas divisões políticas, geográficas, para ao fim realizarmos a apreciação de suas divisões culturais e como estas transcendem as fronteiras políticas e naturais, dando uma compreensão de região bem mais vasta do que a utilizada pelos meios acadêmicos tradicionais.

Também faremos ponderações sobre a significação desta visão de região cultural e sua utilização dentro da região Oeste Catarinense anterior a colonização, que foi denominada “Velho Chapecó”, lembrando que esta foi palco de várias disputas territoriais e possuiu várias conotações e limitações geográficas diferentes, porém a população que ali habitava constituía uma única região cultural, que só veio a ser modificada a partir da derrocada da lei de terras de 1850 que deu plenos poderes a empresas particulares para instalarem colônias em diversas regiões brasileiras.

Por fim veremos como que a migração de descendentes de europeus vindos do Rio Grande do Sul culminou com a dissolução da região do “Velho Chapecó” a partir da implantação de um novo recorte político, cultural e da mobilização forçada dos caboclos para áreas marginais quase inóspitas.
As várias percepções históricas sobre o conceito região

Primeiramente em nosso estudo iremos analisar o seu significado conceitual de região. Herédia (1996) aponta que a matriz deste conceito encontra-se estreitamente ligado a Geografia e corresponde a dimensão do espaço habitado pelo homem, porém, adverte sobre o seu duplo significado, pois além de a região ser um fenômeno observável (dimensão espacial) ela se constitui em uma categoria de análise, onde se torna um objeto de estudo das ciências sociais adquirindo uma conotação metodológica.

Ademais a região se constitui em uma porção do território de comando, como é o caso das unidades federativas, como também em um espaço habitado por determinada cultura, que possui uma identidade historicamente construída diferente de seu entorno. A região pode ser considerada uma “categoria espacial que expressa uma especificidade, uma singularidade, dentro de uma totalidade; assim a região configura um espaço particular dentro de uma determinada organização social mais ampla, com a qual se articula”.1

A divisão entre as regiões é realizada pelas fronteiras que podem ser antecedentes,2 superimpostas3 ou conseqüentes,4 não é raro o caso de as fronteiras delimitarem somente as regiões de direito (políticas) e não as de fato (culturais), principalmente quando há constante interação entre os povos, como é o caso sócio cultural da fronteira Brasil – Uruguai, onde a partir das relações históricas entre brasileiros e uruguaios criou-se uma nova região;

Nenhuma grande cadeia de montanhas, nenhum intransponível curso d’ água, nenhum deserto ou pantanal inabitável separam o Brasil do Uruguai. E, ao revés, como tudo ocorreu para aproximar cultural, social e economicamente os dois povos, o resultado final foi uma área de interação intensa, onde a própria literatura começa a reconhecer a presença de “uma terra só”.5

Por muito tempo o estudo das regiões foi um assunto específico da cartografia, que o realizava para fins da exploração e catalogação de novos locais através da elaboração de mapas. Desde o seu inicio com os babilônios por volta de 2.500 A.C, até o advento da geografia como ciência na modernidade, estes estudos reuniam os esforços de inúmeros profissionais e eram fundamentados na noção de fronteira natural, que compreendia a região como sendo a extensão com um relevo comum circundada por limites físicos caracterizados por rios, cânions, depressões do solo, etc.

As fronteiras políticas também foram usadas para demarcar o território, principalmente na cartografia romana que objetivava a expansão militar e comercial, servia também para medir o poder do império. No mapa elaborado por Marcus Vipsanius Agripa (63-12 A.C) denominado “Orbis Terrarum” datado do século XX A.C, confeccionado a pedido do imperador Octavio Augusto, Roma é considerada como o “centro do mundo”, demonstrando com detalhes todas as rotas do império.

Na história recente, as fronteiras naturais assim como as políticas foram largamente utilizadas como ferramentas nas resoluções de conflitos territoriais, principalmente entre Espanha e Portugal, pode-se citar o tratado de Santo Ildenfonso6 como um dos mais importantes.

Os mapas adquiriram uma enorme importância enquanto instrumentos visuais de trabalho. E isso é perfeitamente compreensível quando estava em discussão a definição dos limites territoriais das coroas ibéricas na América do Sul. As cartas geográficas serviram então para sustentar pretensões territoriais e para resolver litígios de fronteira.7

No Brasil a cartografia foi muito utilizada desde o período imperial como meio de dividir as terras da nova colônia em capitanias hereditárias8 e mais tarde em sesmarias9, também foi um instrumento muito útil quando do processo de colonização do interior deste vasto território na transição entre coroa e república. Porém este método sempre levou em conta as fronteiras naturais e políticas determinadas pelos governantes locais, nunca houve a tentativa de um esboço para compreender a cultura como um fator preponderante, pois existem regiões em que o sentimento de pertença, de comunidade, ultrapassa as fronteiras naturais e políticas.

Este fator só é levado em conta a partir da revolução industrial e do consequente início da modernidade, quando da “invenção” das ciências sociais, tornando os estudos sobre o comportamento dos agrupamentos humanos relevante. Os presentes estudos levantam a hipótese de que tanto as fronteiras naturais como políticas são apenas meros instrumentos de controle administrativo, pois na prática, o sentimento de pertença a um determinado local é diferente da compreensão governamental.

As representações culturais e sociais ultrapassam as fronteiras político-administrativas e naturais se expandindo por um raio de abrangência maior, delimitando outras fronteiras, não oficiais, mas válidas de fato e respeitadas pelos habitantes locais. Para Bourdieu (2001) a região se define por aquilo que não podemos ver e não pelo o que é visto, como é o caso da língua, tradições, de um habitus10 comum.

A constituição da região só é possível pela institucionalização de uma cultura, pela luta simbólica de um agrupamento para ter reconhecida sua unidade e pela significação e resignificação do espaço como instrumento simbólico, por isso pode-se compreender o conceito região como sendo a área de atuação e sobrevivência de uma cultura, que possui conotação simbólica para a mesma.
As definições e redefinições políticas da região do “Velho Chapecó”

Quando se fala “Velho Chapecó”, a referência é feita à extensão cultural dentro do espaço geográfico construída pelos caboclos anteriormente a colonização (século XIX e início do século XX), que compreende o que é hoje dividido politicamente e denominado de região Oeste de Santa Catarina. Este espaço durante os séculos XVIII, XIX e XX sofreu várias resignificações em termos políticos sendo cobiçado inclusive por países estrangeiros e pertencendo a dois estados brasileiros.

Este vasto território até inicio do século XX era denominado pelo governo imperial de Campos de Palmas e pertencia à província do Paraná, fazendo divisa com as províncias do Rio Grande de São Pedro do Sul e com a República Argentina, a partir da invasão de cidadãos argentinos originários da província de Posadas, houve um desconforto diplomático entre Brasil e Argentina, que levou ao pedido de revisão do tratado de Santo Ildelfonso (1777), pois “no tratado (...), as divisas foram definidas como nos rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio, mas as comissões demarcadoras nunca definiram claramente a localização dos referidos rios”.11 O governo argentino informou aos brasileiros que o rio Peperi-Guaçu e Santo Antonio eram respectivamente os rios Chapecó e Chopin, assim reivindicando para seus domínios a área que compreendia os mesmos, ou seja, a atual região Oeste de Santa Catarina, obrigando o governo brasileiro a levar a questão de divisas a litígio perante a Corte Internacional.

Visando manter posse da região, enquanto esta estava sob judice, o Governo Imperial pelo decreto n° 2.502, de 06 de Novembro de 1859 criou as colônias militares de Chapecó e Chopin. Porém somente no ano de 1880, o capitão José Bernardino Bohrmann foi encarregado da instalação da Colônia Militar de Chapecó que aconteceu em 188212 e o Coronel Francisco Clemente de Santiago Dantas da instalação da Colônia Militar de Chopin que aconteceu também em 1882.

As colônias foram de suma importância para que o Brasil saísse “vencedor” da causa em 1895, pois somente a partir da fundação de Chopin e Chapecó que se fizeram estudos e levantamentos dos redutos e povoados da região comprovando que estes tinham população predominantemente brasileira (caboclos). As colônias militares de Chopin e Chapecó foram dissolvidas legalmente por volta de 1906.

Em meio à guerra jurídica envolvendo a questão de divisas entre Brasil e Argentina, também fervilhavam as discussões sobre as divisões internas brasileiras. Os estados através de tratados ou da força tentavam expandir suas posses geográficas. Os estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina se digladiavam para definir quem ficaria com a maior e a melhor área de terras; em 1766 os paulistas fundam Lages, que consideraram como um prolongamento de sua capitania, com isto os paulistas queriam como limites o rio Uruguai-Pelotas e a Serra. Protestou Santa Catarina, querendo tudo entre os rios Uruguai-Canoas e Rio Negro-Iguassu, até a fronteira espanhola.

Mas as brigas não cessaram por aí, em 1853 o Paraná entra no mérito da questão exigindo para si como limites a Serra do Mar e os rios Maromba-Canoas-Uruguai, iniciando a questão do “Contestado”. Essa instabilidade perdura por 63 anos e só vai ter um desfecho quando o presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, Venceslau Braz favorece o Estado do Paraná em 1916, pelo divisor de águas entre os rios Iguaçu e Uruguai, dando fim a questão e criando novas fronteiras entre os estados. Na área contestada que ficou para Santa Catarina foram fundados quatro municípios; Mafra, Porto União, Joaçaba e Chapecó.
Para uma nova compreensão da região do “Velho Chapecó”

Quando se fala em “Velho Chapecó” tem-se a pretensão de se dirigir a área existente de fato, anteriormente a colonização, ou seja, a área cultural. Juridicamente é impossível mensurar estas extensões, devido volatilidade das fronteiras frente às disputas territoriais nacionais e internacionais ocorridas entre os séculos XVIII, XIX e XX.

Assim, utilizando aportes das ciências sociais, pode-se dizer que o espaço que abrange hoje toda a região Oeste de Santa Catarina, antes do processo de ocupação pelos migrantes vindos do estado do Rio Grande do Sul e após o aldeamento dos indígenas era considerado uma só, construída historicamente e significada pelas ações dos caboclos, que ocuparam e significaram efetivamente esta localidade.

Assim, em um pequeno esboço geográfico, pode-se dizer que a região do “Velho Chapecó” se encontrava na extensão dos antigos municípios de Chapecó e Cruzeiro (hoje Joaçaba), como referenciado no mapa exposto abaixo, esta região que mais tarde foi desmembrada em mais de vinte municípios e atualmente chama-se Oeste Catarinense.



Fonte: CEOM

Pode-se definir esta região em meio às divisões modernas, pós-colonização, como tendo inicio no município de Joaçaba-Sc, e termino no município de Dionisio Cerqueira, fazendo fronteira com os estados do Rio Grande do Sul através do Rio Uruguai (fronteira natural), Paraná, mais em específico com as cidades de Barracão, Marmeleiro, Pato Branco e Porto União (Fronteira Seca) e com a República Argentina, na cidade de Bernardo de Irigoyen, capital do departamento de General Manuel Belgrano da província de Misiones.

Esta era considerada pela população local entre os séculos XIX e XX a região de fato, pois nesta extensão territorial em que viviam os brasileiros da antiga estirpe, caboclos, recebeu uma conotação simbólica, cultural, formando uma identidade regional para aquela cultura, diferenciando-a dos habitantes litorâneos e rio grandenses, pois como a cultura interfere no meio, o meio interfere na cultura. Nesta área eram fartas as araucárias e a erva mate, que era cortada e comercializada e consumida pelos caboclos.

É necessário frisar que havia certa rotatividade de terras por parte dos caboclos, alguns não permaneciam muito tempo no mesmo local, mas isso não era geral, na verdade eram poucos que migravam para longe de suas antigas moradias. De acordo com Renk (2006):

Além da rotação de terras a população local foi apresentada como itinerante. Internamente há relatos das mudanças realizadas. Nem todos mudavam-se tão frequentemente. A casa e as terras de criar tinham certa imobilidade, ao passo que as terras de plantar apresentavam maior rotatividade. Mudavam de casa, sim, mas com menor frequência que a mudança da roça.13

A mudança de casa não era para terras longínquas, geralmente o caboclo fixava residência próxima às antigas terras devido a pouca mobilidade proporcionada pelo relevo acidentado da referida região que fica situada na costa do rio Uruguai, que era considerada por Bernardes (1997) como “recortada e acidentada”. Outro motivo para a sua fixação era à abundância de erva mate nativa que só era encontrada em tamanha quantidade na referida região.
O programa de colonização do interior brasileiro e a dissolução do “Velho Chapecó”

A colonização do interior brasileiro se intensificou em meados do século XIX, quando o governo imperial sentiu a necessidade de ocupar as regiões de matas com o objetivo de criar de maiores riquezas. Na província de Rio Grande de São Pedro do Sul às únicas regiões ocupadas até então eram os planaltos, com a criação de gado de corte para as “Charqueadas”. A partir daí, em 1824, surge à figura do colono, que vem pronto para o cultivo das terras, os primeiros vindos da Alemanha, e que fundaram entre 1824 e 1835 as colônias de Novo Hamburgo, São Leopoldo e Torres e de 1875 adiante são fundadas as colônias italianas de Caxias do Sul e Bento Gonçalves.

As primeiras colônias têm a atividade da agricultura como ponto principal do seu sustento. Algumas após com o passar do tempo mudam de ramo como Novo Hamburgo, que se industrializa. Os primeiros colonos a ocuparem as terras chegavam geralmente casados e sem filhos, se reproduzindo somente em terras brasileiras, assim, as migrações internas tem início devido ao aumento da taxa de natalidade entre os migrantes e o esgotamento das terras, fazendo com que os filhos ou netos dos primeiros migrantes tivessem que desbravar novas localidades para o seu sustento.

Com a escassez de terras no estado vizinho, onde só eram liberadas para colonização, terras que não fossem ocupadas pelas estâncias de criação bovina e charqueadas. Como era alta a taxa de natalidade entre os imigrantes, as gerações futuras necessitaram procurar novas terras para o cultivo, surgindo à possibilidade da ocupação das terras na região Oeste de Santa Catarina, pois esta possuía a mesma realidade que o Rio Grande do Sul.

No início do processo de ocupação pelos imigrantes, eram vastas as terras, cobertas pela mata e segundo as empresas colonizadoras, “desocupadas”. Assim acontece a integração da região Oeste de Santa Catarina ao processo de colonização agrícola brasileira, em meados do século XX. Colonos descendentes de italianos e Alemães começam a se deslocar para as terras do Oeste de Santa Catarina, a partir da aquisição de lotes junto às colonizadoras particulares, que tinham o respaldo do poder estatal para realizar as suas atividades.

É importante esclarecer que somente as “colônias novas”, geralmente iniciadas no século XX, tinham sua ocupação organizada por empresas particulares as Colônias velhas eram organizadas e geridas pelo estado, que definia o perfil dos imigrantes e principalmente a divisão das terras e o valor das mesmas.

Porém, é importante frisar que a colonização do oeste de Santa Catarina seguiu os padrões impostos no início da colonização do Rio Grande do Sul, modernização e positivismo, as vilas eram divididas por etnia como aponta Renk (2004):

[...] os empreendimentos dividiam áreas para italianos e alemães (...). Outros empresários recrutavam principalmente colonos descendentes de italianos, como De Carli, que levou a frente à colonização de Ponte Serrada e Bertaso, a quem coube a venda das terras em Chapecó.14

No início da colonização eram frequentes os desentendimentos entre caboclos e migrantes pela posse das terras, uma vez que o colono já chegava a esta região com título de posse emitido pela colonizadora, e o caboclo passava à condição de posseiro. Devido à falta de intervenção do Estado, alguns destes conflitos eram resolvidos de forma violenta, como dizia a população local, “à bala”, acabando muitas vezes em morte. Porém não era regra, geralmente, o caboclo era expulso por empregados da colonizadora que faziam a “limpeza” da terra e migravam consequentemente com toda a sua prole para terras mais distantes onde ainda não houvesse chegado à ocupação pelos colonos.

Com o processo migratório cada vez mais intenso, o caboclo se viu obrigado a fixar residência em terras que não houvesse interesse por parte dos colonos. Terras impróprias para a atividade agrícola, dado que a possibilidade de se retirar para outros Estados se esgotara à medida que já estavam plenamente povoados e colonizados, impossibilitado de cultivar suas pequenas roças devido ao terreno extremamente acidentado, sendo desprovido de caça e tendo fragmentado o seu grupo social.

Este processo culminou com a dissolução da região do “Velho Chapecó”, já que o grupo social que a significava não estava mais presente, e os poucos que se encontravam próximos às antigas moradias estavam fragmentados. Surgiu então uma nova região denominada Oeste Catarinense caracterizada pela diversidade de etnias divididas por várias fronteiras políticas e culturais em seu interior.
Considerações Finais

Ao discutir a fundamentação cultural para o conceito Região, tínhamos a pretensão de compreender ascendência do caboclo durante os séculos XVIII, XIX e XX, como também propor um novo modo de visualizar o Oeste catarinense anterior à colonização, pois a constituição regional amparada somente nos aportes teóricos metodológicos da geografia clássica e política não nos proporcionavam a visão de uma totalidade histórica e geográfica de uma região.

Por isso, amparados pelos estudos culturais de Bourdieu (2001), Heréria (1996) e Amado (1990) constituímos uma nova ferramenta de análise para a construção da história do Oeste Catarinense, denominada de região do “Velho Chapecó”, localidade esta, que foi significada e resignificada pela a ação dos brasileiros da antiga estirpe, os caboclos, e somente foi dissolvida com a chegada dos migrantes vindos do Rio Grande do Sul.

Vivendo do campesinato e da extração da erva mate nativa, os caboclos ocuparam efetivamente esta porção de terra, adaptando suas tradições e cultura a sobrevivência nesta área, tornando como comidas típicas o que era viável produzir nesta localidade e compreendendo como limites regionais a ascendência de sua cultura.

Com a colonização esta região se dissolve, o grupo social que atribuía significado é expulso de suas terras por migrantes vindos do Rio Grande do Sul e se fragmente, rumando para terras onde não houvesse interesse econômico dos “colonos”, a partir deste momento se inicia a constituição da região Oeste catarinense.

Referências:

http://www.ibge.gov.br/ibgeteen/atlasescolar/apresentacoes/historia.swf acessado em 05/01/2010

AMADO, Janaína. História e região: reconhecendo e construindo espaços. In: Amado Janaína et al. República em migalhas: história regional e local. São Paulo: Marco Zero/CNPq, 1990, p. 8.

BERNARDES, Nilo. Bases Geográficas do Povoamento do Rio grande do Sul. Ed. UNIJUÍ, Ijuí, 1997.

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Bertrand Brasil, 4. Ed. Rio de Janeiro, 2001.

FRANCO, Sérgio da Costa. “Panorama sócio-cultural da fronteira Brasil-Uruguai”. Verso e reverso. Porto Alegre: ano VI, n. 11, julho-dezembro de 1992, p.29-42.

FERREIRA, Mario Clemente. “O Mapa das Cortes e o Tratado de Madrid: a cartografia a serviço da diplomacia”. Varia História, Belo Horizonte, vol. 23, nº 37, Jan/Jun 2007, p.51-69.

HEREDIA, Edmundo. La región em La globalización y la historia de las relaciones internacionales latinoamericanas. III Jornadas de las Relaciones Internacionales. Buenos Aires, 1996, p.291 – 311.

PIAZZA, Walter Fernando. A colonização de Santa Catarina. BRDE, Florianópolis, 1982.

POLI, Jaci. Caboclo: Pioneirismo e Marginalização. In; Centro de Organização da Memória Sócio Cultural do Oeste. Para uma história do oeste Catarinense, UNOESC, Chapecó, 1995.

RENK, Arlene. A Luta da Erva: um ofício étnico da nação brasileira no oeste catarinense. Argos, Chapecó, 2006.



RENK, Arlene. Narrativas da diferença. Argos, Chapecó, 2004.

Notas:

1 Mestrando em História pelo PPGH/UPF.

1 AMADO, 1990, p. 08.

2 Já existiam antes do povoamento.

3 Fronteiras políticas que delimitam áreas em que há unidade cultural. Ex. Europa Central e Oriente Médio

4 Acidentes naturais como rios, cânions, montanhas, etc.

5 FRANCO, 1992, p. 30.

6 Acordo assinado no dia primeiro de Outubro de 1777 na cidade de San Ildelfonso, na província espanhola de Segóvia, com o objetivo de encerrar a disputa entre Portugal e  Espenha  pela posse da colônia sul-americana do Sacramento. Com a assinatura do tratado os espanhóis mantiveram a colônia e a região dos Sete Povos das Missões, que depois passou a compor grande parte do estado do Rio Grande do Sul e Uruguai, em troca, reconheceram a soberania dos portugueses sobre a margem esquerda do rio da Prata, cederam pequenas faixas fronteiriças para compensar as vantagens obtidas no sul e devolveram a ilha de Santa Catarina, ocupada poucos meses antes.

7 FERREIRA, 2007, p. 52.

8 Divisão administrativa das terras brasileiras durante período colonial. Ordenada pelo rei português D. João III (1502 – 1557) com objetivo de entregar as terras a empreendedores que as povoassem e desenvolvessem economicamente cada local.

9 Divisão de terras criada em Portugal pelo Rei D. Fernando I (1345 – 1383) e transposta posteriormente para suas colônias além-mar, principalmente Brasil.

10 A palavra habitus significa “uma conhecimento adquirido e também um haver, um capital (...), a disposição incorporada, quase postural...” (BOURDIEU, 2001, p. 61), ou seja, as disposições comuns de um povo que lhe dão coesão e identidade.

11 POLI, 1995, p. 85.

12 PIAZZA, 1982, p. 23.

13 RENK, 2006, p. 108.

14 RENK, 2004, p. 25.

Revista Semina V8 - n 2 – 2009, publ. no 2º sem. 2010


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal