Um Estudo da Mortalidade na Freguesia da Gloriosa Sant´Anna, Rio Grande do Norte (Brasil), no período de 1788 a 1838



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Um Estudo da Mortalidade na Freguesia da Gloriosa Sant´Anna, Rio Grande do Norte (Brasil), no período de 1788 a 1838

Gracineide Pereira dos Santos

Palavras-chave: Mortalidade, Demografia Histórica, Registros paroquiais, Freguesia da Gloriosa Sant´Anna.



Resumo

Pesquisar a mortalidade na Freguesia da Gloriosa Sant´Anna, no recorte temporal de 1788 a 1838 é o objetivo do estudo. A pergunta à qual a pesquisa se propõe a responder é: Os dados paroquiais de óbitos nos permitem estudar a mortalidade na Freguesia? Assim como se propõem mostrar os procedimentos metodológicos para isso. Primeiramente, recorreu-se aos mapas populacionais dos anos de 1777, 1810, 1811, 1824, 1844, 1853; os censos de 1872 e 1890. Como também, os dois primeiros livros de enterros/óbitos da Freguesia; o primeiro datado de 1788 a 1811 e o segundo de 1812 a 1838 e um livro de batismo de 1803 a 1806. Metodologicamente, o trabalho foi pensando a luz de discussões conceituais de autores que tratam de Demografia e Demografia histórica. As técnicas utilizadas para a pesquisa foi no primeiro momento, o método de projeção inversa do Ronald Lee (1993) e estatística descritiva.

Entre os resultados encontrados percebemos um alto índice de sub-registros principalmente para as primeiras idades, na qual pelos registros que temos era muito elevada, no período Pré-transicional. Ao realizar o exercício de projeção inversa constatou-se uma população que teria uma esperança de vida elevada para tal período. Diferente dos estudos feitos por outros estudiosos e com dados de melhor qualidade para algumas paróquias que mostra que a longevidade nesse período era 28,7 anos. Quando as estimativas da Freguesia da Gloriosa giravam em torno de 67. Demostrando a importância da crítica das fontes a luz dos conceitos da Demografia. Os óbitos infantis ocorrem principalmente com as crianças do sexo masculino, nos primeiros meses do ano por causas infecciosas, e nos primeiros dias e semanas. Uma hipótese que levantamos é que a mortalidade nesse período tem como cenário, as condições climáticas.
Um estudo da Mortalidade na Freguesia da Gloriosa Sant´Anna, Rio Grande do Norte (Brasil), no período de 1788 a 1838.

Gracineide Pereira dos Santos

Introdução


O artigo é resultado da pesquisa2 realizada no mestrado em Demografia, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e da continuidade no doutorado em História/Especialidade Demografia Histórica, na Universidade do Minho. A Demografia tem três variáveis importantes e de sustentação, são elas: A Natalidade, a Mortalidade e a Migração. Dentro desse estudo estudaremos a mortalidade, admitindo que se trata de uma população estável e fechada, e que os batizados corresponde aos nascimentos e não levando em consideração o fenômeno da migração. A pergunta a qual o estudo se propõe a responder é: se é possível estudar a mortalidade utilizando como fonte os registros paroquias e a luz dos conceitos e métodos da Demografia e da Demografia histórica?

As fontes utilizadas nesse estudo foram os livros de enterro/óbitos3(1788 a 1838) e batismo (1803-1806), acervo pertencente à Paróquia de Santana, na cidade de Caicó/RN, no estado brasileiro do Rio Grande do Norte e os mapas de população e censos, os primeiros disponibilizados no site do Projeto Resgate ou nos Relatórios dos Presidentes de Província e os Censos, consultados e organizados no site da Biblioteca Online do IBGE. Metodologicamente, a escrita do trabalho e a pesquisam foram pensados a partir de leituras bibliográficas e discussão de teóricos sobre a temática, sobre o espaço a ser estudado no contexto geral e particular, ou seja, a própria freguesia, assim como o contexto histórico no qual ela estava inserida, o Rio Grande.

Tecnicamente, foi confeccionada uma base de dados com informações de nascimentos e óbitos; o primeiro para proceder à estimação da população e projeção dessa população para datas, cujos registros paroquiais não eram fornecidos e que fazem parte do processo antes da aplicação da Projeção Inversa, proposta por Ronald Lee (1993) em si. No segundo momento utilizamos os dados de óbitos em conjunto com os de batismos e separados. Nesse processo de crítica e análise das fontes percebemos os sub-registros e a impossibilidade de usar medir a mortalidade por faixas etárias, então, passamos a realizar um estudo descritivo da mortalidade e das suas causas e como tínhamos um número significativo de óbitos relacionados às primeiras idades, resolvemos analisar a mortalidade nesse grupo.

Os dados encontrados no acervo documental e o processo citado anteriormente nos permite ter indícios acerca da mortalidade na Freguesia. E conhecer o perfil da mortalidade no passado nesse espaço delimitado pode ajudar a compreender a dinâmica demográfica dessa população.

O artigo está dividido em cinco partes, a primeira é composta por essa introdução; na segunda, analisaremos os conceitos da Demografia e da Demografia Histórica, assim como os métodos utilizados para o estudo crítico das fontes. No terceiro momento, abordaremos a Freguesia da Gloriosa Sant´Anna numa perspectiva histórica, no quarto momento, analisaremos a mortalidade na Freguesia e por último serão expostas as considerações finais acerca do estudo feito.

Demografia e Demografia Histórica: métodos e técnicas para estudar a população

Diferente das outras ciências, a Demografia, é recente. O seu nascimento, como ciência, é datado do século XIX. A Demografia teve suas origens na Aritmética Política surgida na Inglaterra, só vindo, porém, a transformar-se efetiva e definitivamente num campo da ciência autônoma na França, com Achille Guillard (1799-1876) na obra Elementos da estatística comparada, foi a partir desse momento que temos a utilização do termo Demografia tal como usamos e conhecemos hoje. Nesse contexto, a Demografia se destinava ao estudo, a descrição, a análise e compreensão dos mecanismos que regem a composição e a evolução da população.

No processo de evolução da Demografia como Ciência, um grande salto foi à descoberta da relação entre a mortalidade e a idade, dada por Graut, e seus estudos sobre os Boletíns de mortalidade. Dessa forma, passou-se a inferir que haveria regularidades e permanências dos demais fenômenos demográficos. Com base na idade foi possível perceber que ela não era somente importante para estudar a mortalidade, mas os outros componentes demográficos como, por exemplo, a natalidade, a nupcialidade, a fecundidade e inclusive a migração variavam influenciados pela idade (Véron, 1997).

Para Preston et al (2000), a Demografia é uma ciência social que adapta-se ao seu tempo, e que tem questionamentos e métodos próprios. Ou como bem definiu Mário Leston Bandeira (2004:20): “Ciência em plena expansão e obtendo um reconhecimento cada vez mais extenso dos seus méritos, a Demografia é uma ciência orgulhosa de seu passado.”. A Demografia tem vários técnicas, algumas classificadas com diretos e outras como indiretos, as primeiras, são utilizadas pela Demografia dita formal, quando as populações estudadas têm dados de boa qualidade. Já as técnicas indiretas, foram criadas e pensadas para auxiliar os demógrafos em estudos quantitativos que envolvesse precisão, mas quando os mesmos não pudessem dispor de bancos de dados confiáveis e de boa qualidade e mesmo assim pudessem fazer estudos sobre a população. Sendo as técnicas indiretas bastante utilizadas nos estudos de Demografia Histórica, sendo sobre ela que discutiremos a seguir.

A Demografia Histórica é fruto de uma demanda de tempo, ou seja, nasceu na Escola Francesa, na década de 1950, no Pós-Segunda Guerra mundial, quando os países pertencentes ao denominado Terceiro Mundo demostravam um quadro acelerado de crescimento demográfico e declínio da mortalidade. Além disso, assim como a Demografia, ela é dotada de questionamentos e métodos próprios. E o mais importante que isso, ambas tem em comum um objeto, o homem. Outra característica familiar entre as duas é sua raiz, no contexto político, Segundo Pinto (1973), a origem da Demografia Histórica é de natureza política e deriva da conscientização da importância condicionante do processo populacional pelas condições políticas em moda em cada período histórico.

O percursor dos estudos metodológicos que hoje conhecemos como Demografia histórica, foi o Francês Louis Henry e Michel Fleury, que, baseados em fortes bases técnicas e metodológicas criaram o método de “Reconstituição de Famílias”, para questionar o passado sobre uma questão vista no presente, mas que os dados deste período não conseguiam responder: a baixa fecundidade na sociedade francesa (Henry, 1988)

Henry e Fleury aplicaram o método de Reconstituição de Famílias, inicialmente, nas bases de dados francesas, após ser testado empiricamente com famílias já reconstituídas e bem estabelecidas por genealogias. Depois, o método foi exportado para outras nações, como por exemplo, a Inglaterra; inclusive, sendo adaptado e aprimorado, criando-se outros métodos baseados na ideia principal. O método de Reconstituição de Paróquias criado por Maria Norberta Amorim para a realidade portuguesa é um deles (Bacellar et al, 2005; Marcílio, 1977; Scott, 1990).

Utilizando como fonte os registros paroquiais disponíveis na época, os livros eclesiásticos de batismo, casamento e enterro, Henry e Fleury mapearam diversos sistemas demográficos e puderam medir, com precisão e rigor, a natalidade, a reprodução e a mortalidade de populações do passado, possibilitando uma padronização que facilitava e permitia os estudos comparativos (Nadalin, 2004; Reher, 1997). Em 1956, publicou-se o primeiro Manual de Demografia Histórica. Expondo a experiência da aplicação do método na população da paróquia normanda de Crulai, sendo a primeira de muitas pesquisas que seriam realizadas, estudando, principalmente aldeias e paróquias rurais da Europa Moderna, dos séculos XVI, XVII, XVIII.

A Demografia Histórica, assim com a Demografia, tem problemas no que diz respeito à autonomia de seus campos, de suas definições e fronteiras. Como a Demografia, por exemplo, ora é denominada e atrelada ao campo das Ciências Exatas, por causa da base empírica e quantitativa marcante, ora é colocada como uma Ciência Social que se utiliza de métodos estatísticos e faz uma análise substantiva de números, pois esses refletem um contexto social, econômico e cultural. Situação parecida passa a Demografia Histórica. Alguns estudiosos defendem que a Demografia Histórica é mais um campo das Ciências Sociais, da História, ou da própria Demografia. Essa disciplina tem por objetivo estudar as populações no que diz respeito à natalidade, nupcialidade, mortalidade, morbidade e migração de período proto-estatística, ou seja, onde não havia contagem e registro de população como os censos existentes hoje nos diversos a partir do rigor metodológico e crítica das fontes. O estudo de populações pretéritas é feito, principalmente, através da catalogação em fichas de fontes paroquiais e de listas nominativas de diversos países e regiões. Ou seja, segundo Bandeira (1996), a Demografia Histórica mostra sua importância e diferença, pois transforma com auxilio de suas teorias e metodologias dados que não foram criados com finalidade de ser “testemunho populacional do passado”.

Como é possível perceber, não há um consenso claro em se estabelecer os limites da Demografia Histórica, pois ela acaba fazendo relação com outras abordagens como a História da Família e a História das Populações e a própria História Demográfica. Nas palavras de Bacellar et al (2005), citando o pesquisador de Demografia Histórica Reher, no que diz respeito à Demografia Histórica e à História das Populações não haveria diferença. Essa rivalidade teria sido forjada por autores franceses no intuito de contestarem contra a imprecisão dos historiadores. Em contrapartida, o demógrafo português Joaquim Manuel Nazareth (1998), menciona que a Demografia Histórica é um ramo independente da História das populações e da Paleodemografia. E sobre a diferença entre Demografia Histórica e História das populações, o autor argumenta que a História das Populações é um dos campos da História e não da Demografia. Para ele, enquanto a História da População procura refletir sobre os dados existentes acerca do estado e dos movimentos das populações pretéritas, a Demografia Histórica define-se, sobretudo, a partir das fontes que utiliza e da metodologia que desenvolve para investigar o passado.

No caso brasileiro, a Demografia Histórica tem algumas décadas de discussões e estudos. O precursor das pesquisas nessa área foi Luis Lisanti, que abordou as inúmeras possibilidades de estudar a partir das listas nominativas de habitantes o período colonial. A pioneira na discussão e estudos nesse campo foi à pesquisadora Maria Luiza Marcílio, com sua obra intitulada de A cidade de São Paulo: povoamento e população, 1750 – 1850, publicado no ano de 1973, sendo considerado um marco para a Demografia Histórica brasileira no cenário científico. Esse trabalho foi seguido de inúmeros outros da mesma autora que versava sobre técnicas e métodos e levantamento de fontes a serem pesquisadas (Marcílio; 1997).

Outra obra importante de orientação para futuros demógrafos historiadores é a obra intitulada “Demografia Histórica: orientações técnicas e metodológicas” em diálogo com outros autores, também organizada por Marcílio (1977). Na década de 1970, Louis Henry veio ao Brasil, contribuindo mais ainda para o arcabouço de discussões sobre a Demografia Histórica brasileira. A partir da década de 1980, Marcílio passou a divulgar a técnica de Reconstituição de Família no Centro de Demografia Histórica da América Latina (CEDHAL) no ano de 1984, na USP, incentivando esse tipo de estudo no país. Mas os estudos de Demografia Histórica são pontuais no Brasil e fora do território brasileiro.

No caso do Velho Mundo, temos estudos de Demografia Histórica na Grã-Bretanha, onde T. Hollingsworth (1983) aplicou a técnica de Reconstituição de Famílias no estudo de uma parcela da população que já dispunha de genealogias estabelecidas da nobreza britânica num período de três séculos. No cenário italiano, temos o Quarderni Storici (1971), dedicado na íntegra à Demografia Histórica italianas produzido em Roma. Há o Institut National de Études Démographiques, de Paris, onde trabalham em conjunto economistas, demógrafos, médicos e estatísticos. No Laboratorie de Démographie Historique, da École des Hautes Études em Sciences Sociales, há historiadores e profissionais de diversos campos, todos tendo em comum o enfoque na Demografia Histórica.

Em Portugal, temos os trabalhos desenvolvidos pelo Núcleo de Estudo de População e Sociedade (NEPS) da Universidade do Minho, que tem a frente à professora Carlota Maria Fernandes dos Santos (2000, 2008) e, como pesquisadora colaboradora Maria Norberta Amorim (1995, 2000, 2008); ambas nas áreas de Demografia Histórica, História das Populações e História da Família. Amorim é citada e conhecida dentre os pesquisadores em Demografia Histórica, pois foi ela que, a partir da realidade portuguesa e do método de Louis Henry, criou o método de Reconstituição de Paróquias, sendo inclusive inspirado nele que Fernanda Faria pôs em prática o software SRP – Sistema de Reconstituição de Paróquias ou formação de bancos de dados importantíssimos para a Demografia Histórica Portuguesa.



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Figura 1 - Espelho do Programa SRP – Sistema de Reconstituição de paróquias

Amorim (2008), partindo do método de Reconstituição de Paróquias, realizou várias pesquisas. Uma delas foi o estudo sobre São Mateus, freguesia criada no ano de 1588. Tal pesquisa foi importante, pois possibilitou ter informações valiosas sobre a estrutura demográfica, econômica e social. Para isso, foi necessário o diálogo das fontes paroquiais (batismo, casamento e óbitos) com outras fontes de natureza diversa. Podemos citar os registros de posses, passaporte, inventários e testamentos. O objetivo era fazer um estudo o mais completo possível sobre os povos que viveram naquela freguesia; acompanhado sua trajetória desde a informação de nascimento do registro de batismo, passando pelos rituais intermediários de passagens para a vida adulta, representados pelo ritual do matrimônio, até o registro no livro de óbitos.

Ainda na perspectiva de Reconstituição de Paróquias está o trabalho de Santos (2004), um estudo sobre a nupcialidade em Prainha do Norte no período de 1664-1764 em Portugal. Na pesquisa são mencionadas as determinações religiosas ligadas à cerimônia do casamento desenvolvido ao longo do tempo. Em seguida é feita uma análise das condições econômicas e sociais da Prainha do Norte, demostrando a situação privilegiada quando comparada ao contexto de toda a Ilha do Pico com terras propícias à plantação. E por último a pesquisadora demostra a influência da nupcialidade sobre as demais variáveis demográficas, por exemplo, a fecundidade.

No contexto brasileiro, a produção que versa sobre Demografia Histórica ainda é relativamente modesta e concentrada em algumas regiões. Além de Marcílio, outros historiadores foram formados pela Escola Francesa de Demografia Histórica no Brasil. Podemos citar Nadalin que, em um dos seus estudos (2004) conceitua a Demografia Histórica, mencionando minuciosamente os acervos e fontes documentais que servem de suporte ao estudo do demógrafo historiador, quando envereda pelo caminho da Demografia Histórica. Além de realizar uma contextualização pontual das fontes paroquiais e dos vários estudos de caso que já foram realizados com esse tipo de fonte. Assim como também discute como foram pensadas as primeiras listas nominativas no Brasil e qual era a finalidade delas para a Coroa Portuguesa. Outra pesquisa pioneira é o estudo realizado por Burmester (1974), cujo recorte espacial foi Curitiba, realizando a mensuração da população desse espaço a partir da utilização sistemática de dados paroquias. Suas fontes foram os livros de batismo, casamento e enterros.

Numa perspectiva mais metodológica e usando as listas nominativas, em Minas Gerais, temos os estudos de Paiva (1996) que dão contribuições significativas na área com trabalhos que versam sobre a nupcialidade, os sistemas demográficos, análise e críticas às fontes. Além de Rodarte (2008) que analisa os tipos de domicílios encontrados na província de Minas Gerais na década de 1830, recorrendo ao método Grade of Membership (GoM). E contrapondo-se a clássica tipologia proposta por Laslett (1974), cria para a realidade da sociedade pré-industrial brasileira uma tipologia alternativa própria para as famílias, dividindo-as em camponesa, autônoma e assalariada, além de outras híbridas mostrando que os métodos estatísticos modernos podem ser grandes aliados das Ciências Humanas.

Além desses, podemos citar Campos (2011), que, inspirada no método de reconstituição de paróquias da portuguesa Norberta Amorim, criou uma metodologia capaz de acompanhar coortes de mulheres e quantificar quantos filhos as mães teriam ao longo do período reprodutivo (método dos filhos próprios). No cenário paulista, temos a pesquisa de Cunha (2009), cujo recorte espacial e temporal de sua pesquisa é o município de Franca- SP e o século XIX, respectivamente. A mesma não optou por estudar uma parte da população; analisa a demografia e a família na população escrava à luz do conceito de sistema ou regime demográfico. Suas fontes são diversificadas: listas nominativas, Recenseamento Geral do Império de 1872, inventários post mortem e os registros paroquiais de batismo, casamento e óbito. E, finalmente, Scott (1999), apresenta trabalhos que fazem discussões metodológicas da Demografia Histórica e de História da Família no Brasil e em Portugal, permitindo-nos refletir que algumas variáveis demográficas guardam marcas históricas que se reproduzem tanto na metrópole quanto na colônia. Nas leituras das diversas pesquisas acima mencionada percebemos uma preocupação com o método, com as variáveis demográficas, com o apanhado histórico e demográfico, seja numa perspectiva de estudos da família a partir de dados paroquiais até textos que versam sobre os novos programas capazes de auxiliar o demógrafo no manuseio de registro do passado.

No Brasil, as fontes mais famosas são as listas nominativas que remontam ao século XIX nos Estados de Minas Gerais, Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. Nelas as informações, como nome, estado, profissão, sexo, estado matrimonial e idade são encontrados assim como nos arrolamentos encontrados em países europeus. Há, porém, particularidades de informações nas listas dos países americanos. E quais são elas? A menção à cor e ao estatuto (escravo ou livre). As informações nominativas das listas possibilitam a complementação das fichas de família confeccionadas a partir da classificação de solteiro ou casado. Estabelecendo o diálogo de fontes é possível agrupar informações sobre uma mesma família, o que deixa as inferências sobre os estudos com maiores riquezas de detalhes e com mais possibilidades de se detectarem os erros. Os demais dados populacionais permitem realizar uma cartografia de sexo, idade, estado matrimonial, as profissões exercidas pelos indivíduos adultos; entre outros estudos, como a tipologia de famílias (Rodarte, 2008).

Outra fonte bastante utilizada para os estudos de Demografia Histórica são os registros eclesiásticos, cuja abrangência de detalhes e informações não pode ser comparada com as listas nominativas, mas que têm, nas suas particularidades, riquezas sobre os fregueses que eram batizados, casavam, ou morriam e eram registrados pelos párocos. Desde o Concílio de Trento (1545-1563) foram instituídas formas de controle para a população, definindo regras para padronizar os registros dos principais rituais da Igreja Católica. Dessa maneira, os párocos foram ensinados como deveriam registrar as cerimônias de batismos, de matrimônios e de sepultamentos ou enterros. Para a realidade brasileira, como menciona Nadalin (2004: 40) “as peculiaridades do povoamento e da colonização, bem como o tamanho e a rarefação do território, com seus vazios demográficos, constituíam obstáculos para que tais objetivos fossem plenamente alcançados [...]”.

Para estudar as fontes paroquiais, devemos seguir alguns procedimentos. O primeiro deles é a verificação do registro, pois as perdas, destruições pela ação do tempo ou até mesmo de pragas que atacam o papel, armazenamento de forma inadequada, causam a deterioração, tornando impossível a utilização do registro para pesquisa. No segundo momento, podemos explorar os livros eclesiásticos através de arrolamentos anônimos, encontrando o número anual de nascimentos, casamentos e óbitos, sendo possível assim construir quadros de nascimentos, casamentos e óbitos por estado civil.

Também podemos fazer a exploração através de arrolamentos não anônimos. Nesse caso, a pesquisa é uma junção de dados paroquiais complementados com listas nominativas. Dentre os métodos da Demografia Histórica como já foi mencionado há o Método de Reconstituição de família, que consiste em fazer levantamentos nominativos em “fichas ou folhas de levantamento”. Esse método tem formas específicas de organizar e analisar as informações em espécie de fichas de família. Desse modo, os registros de casamentos podem ser catalogados diretamente nas fichas de família, sendo importante fazer isso seguindo uma ordem cronológica das datas de realização das cerimônias. Quando no decorrer da coleta surgem dúvidas, por exemplo, por causas de nomes homônimos, é recomendado anotar nas margens ou em lugares específicos informações adicionais que existam no registro, tais como laços de parentesco, avós e tios.

Outro método importante da Demografia Histórica, muito utilizado para a realidade portuguesa é inspirado no método de Henry, o Método de Reconstituição Paróquias de Maria Norberta Amorim, criado em 1991. Nele é feito primeiro a reconstituição de paróquias, organizando os dados em fichas individuais de indivíduos e posteriormente formando as famílias através do cruzamento dos registros de nascimentos, casamentos e óbitos em Fichas de Famílias, assim é possível acompanhar o encadeamento genealógico, a história de vida de cada residente, caso ele tenha nascido na paróquia observada, entrado nela pelo casamento ou simplesmente ter aí falecido (Amorim, 1990: 290 apud Santos, 2004:14).

Foi sobre as Freguesias de S. Mateus/ S. Caetano e S. João que se desenvolveu em 1991, a metodologia de reconstituição de paróquias, usando a ferramenta informática então disponível, o DBase III. Essa informação encontra-se vertida para ferramentas adequadas, estando patente, na Internet, uma base de dados genealógica, a satisfazer o interessado pelo conhecimento das próprias raízes (Amorim, 2008:9).

Mais recentemente, outras técnicas da Demografia estão sendo adaptadas para estudar as populações do passado. Podemos citar como exemplo os métodos indiretos, usados para se estudar as populações de países onde os dados costumam ser problemáticos e de qualidade duvidosa, contexto que lembra, em muito os dados de períodos Pré-estatísticos pesquisados por demógrafos historiadores. Alguns avanços, podemos citar a técnica de projeção inversa de Ronald Lee (1993), que adaptada a realidade dos dados paroquiais, inspirou vários estudiosos. Um exemplo é o estudo de populações espanholas do passado do demógrafo Livi-Bacci (1991), ou de Wrigley e Schofield (1981), na realidade inglesa, que aplicaram às paróquias estudadas o método de projeção inversa para analisar a evolução da mortalidade. Ao mencionar conceitos e técnicas da Demografia e da Demografia Histórica partirmos para explorar os dados da Freguesia da Gloriosa Sant´Anna e o seu recorte no tempo e no espaço e suas características demográficas.

Recortando o Nordeste, no caso dos trabalhos de Demografia Histórica, temos alguns trabalhos na perspectiva de histórias das populações e as contribuições de estudos como esse realizado em nível de mestrado e dado continuidade no doutorado. Como já foi mencionada a Demografia Histórica tem por fontes principais; as listas nominativas e os registros paroquiais, em alguns casos sendo possível realizar o cruzamento desses dados com Censos, cartas de alforrias, rol de confessados, inventários e testamentos. No entanto, em alguns espaços, como por exemplo, a Freguesia da Gloriosa Sant´Anna; os dados paroquiais são os únicos registros deixados sobre as populações pretéritas nos quais podemos recorrer para proceder a análises em geral, pois mesmo existindo documentos, como os testamentos e inventários, estes não dão conta do geral, mas sim de casos particulares.
O Rio Grande recortado: A Freguesia da Gloriosa Sant´Anna

A freguesia da Gloriosa Sant´Anna começou a ser colonizada após várias tentativas frustradas da Coroa Portuguesa, e posteriormente um conflito que dizimou um número considerável de índios, denominado de “Guerra dos Bárbaros”. A finalidade de desbravar os sertões era principalmente transformar o espaço em solo para a criação de gado, sendo essa a atividade sob a qual se desenvolveu a Freguesia. “O gado foi, desse modo, ao começar o povoamento da terra seridoense, o elemento econômico fundamental, a fonte de riqueza natural, asseguradora das condições de vida, a oferecer perspectivas de exploração comercial, o princípio de toda história do Seridó” (Medeiros, 1980: 25).

No passado, quando da povoação, a Freguesia da Gloriosa Sant’ Anna era denominada como sinônimo de Seridó, herança do pretérito que se manifesta na contemporaneidade. Segundo Medeiros (1983), as primeiras datações sobre as terras concedidas na região do Seridó nos livros da Capitania do Rio Grande datam do ano de 1676 e referem-se ao espaço do Acauã, sendo beneficiados nessa concessão Teodósio Leite de Oliveira, Teodósia dos Prazeres e Manuel Gonçalves Diniz. E de 1679 mencionando ainda o Acauã, mas acrescentando as partes de terra na Serra do Trapuá, dadas a Luís de Sousa Furna, Antônio de Albuquerque da Câmara, Lopo de Albuquerque da Câmara e Pedro Albuquerque da Câmara. A Freguesia da Gloriosa Senhora Sant´Anna do Seridó, criada no ano de 1748, segundo Medeiros Filho (1983:9):

Compreendiam na sua extensão, áreas pertencentes às capitanias da Paraíba e Rio Grande do Norte [...] os limites naturais daquela freguesia eram: ao norte, as serras que separavam o Seridó da Freguesia do Açu de Santana, ao Sul, destacando-se a serra de Santana, ao Sul, os contrafortes da Borborema, de cujas fraldas desciam todos os tributários que compunham as ribeiras das Espinharas, Sabugi, Quipauá, e do próprio Seridó; ao leste, as serras, também integrantes do Sistema da Borborema, de onde provinham os afluentes do Seridó; ao oeste, o rio Piranhas, desde a altura de Jucurutu até a barra do Espinharas; e daí, seguindo-se, as serras que servem de divisores das águas que correm para o Espinharas.

“A emancipação administrativa do Seridó foi feita em 31 de julho de 1788, por alvará que criou o munícipio dando a ele a denominação de Vila Nova do Príncipe (Medeiros, 1983: 16)”. Hoje, com a criação de novas paróquias, a Freguesia corresponderia a atual cidade de Caicó. Segundo Pinto (1977), nesse mesmo ano a Freguesia da Gloriosa Sant´Anna do Seridó se desmembrou da Freguesia de Nossa Senhora do Bom sucesso 4.

Como podemos notar, da criação da freguesia aos registros eclesiásticos há uma lacuna documental de cerca de quarenta anos. Como não temos a população no instante do tempo dos quais dispomos dados sobre óbitos, foi necessário recorrer aos dados de população dessa freguesia em outro marcos temporais; foram encontrados mapas populacionais dos anos de 17775, 18116, 18247 18448, 1853,9 187210, 189011. Como as faixas etárias de idades desses levantamentos populacionais não estão organizadas de modo que possamos fazer comparações, serão utilizadas algumas técnicas de suavização, padronização e redistribuição dos dados por idade decenal.

Primeiramente foi feito uma tabela com os dados de população da freguesia da Gloriosa Sant´Anna, em números totais, sem estrutura etária, nem idade por sexo. Originado de várias fontes de dados, dentre eles, relatórios de presidentes de província e mapas feitos pelos párocos da Freguesia que já foram mencionados anteriormente. Em posse desses dados foi feito estimativas de população, no primeiro momento com os dados do contagem populacional de 1777 (hipótese 2) e depois com os dados de 1824 (hipótese 1) inferindo sobre a população total nos demais anos e sua respectiva taxa de crescimento 12 (usado para inferir os dados de população de 1777, 1824 e 1872).

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