Um estudo sobre cartilha analytica, de arnaldo de oliveira barreto



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UM ESTUDO SOBRE CARTILHA ANALYTICA, DE ARNALDO DE OLIVEIRA BARRETO

Vanessa Cuba Bernardes 1


INTRODUÇÃO


Apresentam-se, neste texto, resultados de pesquisa de iniciação científica, desenvolvida sob orientação da professora Dra. Maria do Rosário Longo Mortatti e vinculada à linha de pesquisa "Alfabetização" do Grupo de Pesquisa “História do ensino de língua e literatura no Brasil” (GPHELLB) e do Projeto Integrado de Pesquisa “Ensino de língua e literatura no Brasil: repertório documental republicano” (PIPELLB) (apoio e auxílio CNPq; auxílio FAPESP), ambos coordenados pela orientadora.

Com o objetivo de contribuir para a compreensão da história da alfabetização no Brasil, optou-se pela pesquisa de abordagem histórica centrada em pesquisa documental e bibliográfica, desenvolvida por meio de procedimentos de localização, recuperação, reunião, seleção, ordenação e leitura da produção de Arnaldo de Oliveira Barreto (1869-1925) assim como de bibliografia sobre esse educador, sua vida e sua atuação profissional, além de bibliografia especializada sobre educação, alfabetização e sua história no Brasil e sobre pesquisa histórica em educação.

Foi elaborado, inicialmente, um instrumento de pesquisa2, cuja análise propiciou constatar, por um lado, que, entre o final do século XIX e início do século XX, esse educador paulista destacou-se por sua intensa atuação e produção escrita relativamente ao ensino inicial da leitura3. Por outro lado, até o momento não foi localizado nenhum estudo específico sobre a atuação profissional e a produção escrita de Barreto.

Foi, então, escolhida para análise a Cartilha Analytica, escrita por Barreto e publicada presumivelmente, entre o final da década de 1900 e o início da década de 1910, pela Francisco Alves/RJ. Essa cartilha foi bastante utilizada em sua época e em décadas posteriores, tendo exercido influência no pensamento e nas práticas de ensino da leitura, em vários estados brasileiros.

Objetivando compreender não apenas o conteúdo dessa cartilha, mas também o conjunto de aspectos que constituem o discurso nela contido, o método de análise adotado deriva do conceito de configuração textual, que se refere ao
[...] conjunto de aspectos constitutivos de determinado texto, os quais referem-se: às opções temático-conteudísticas (o quê?) e estruturais-formais (como?), projetadas por um determinado sujeito (quem?), que se apresenta como autor de um discurso produzido de determinado ponto de vista e lugar social (de onde?) e momento histórico (quando?), movido por certas necessidades (por quê?) e propósitos (para quê?), visando a determinado efeito em determinado tipo de leitor (para quem?) e logrando determinado tipo de circulação, utilização e repercussão (MORTATTI, 2000, p.31).
A análise da configuração textual da cartilha foi conduzida pela hipótese, segundo a qual, nela se encontram sintetizados e concretizados os princípios e conceitos básicos característicos do método analítico4 para o ensino da leitura defendidos por Barreto, os quais se relacionam com as disputas ocorridas no âmbito do processo de institucionalização desse método característico do segundo momento crucial apontado por Magnani (1997)/Mortatti (2000).

Os resultados dessa análise permitiram compreender tanto os conceitos básicos do método analítico sintetizados e concretizados na cartilha quanto a importância de estudos como este para a compreensão dos problemas do passado e do presente no que se refere à alfabetização em nosso país.



ALGUNS ESTUDOS SOBRE ALFABETIZAÇÃO E SUA HISTÓRIA NO BRASIL


Dentre os textos lidos, sintetizo a seguir aqueles que mais contribuíram para o desenvolvimento de minhas reflexões sobre alfabetização, em especial no que se refere à abordagem histórica desse tema. São eles: Soares (1989); Soares e Maciel (2000); Magnani (1997)/Mortatti (2000); Bertoletti (1997); Amâncio (2000); Zocolaro (2000) e Ribeiro (2001)5.

Em pesquisas do tipo “estado da arte” intituladas respectivamente Alfabetização no Brasil: o estado do conhecimento e Alfabetização, Soares (1989) e Soares e Maciel (2000) apresentam inventário e análise da produção científica — artigos publicados em periódicos especializados, dissertações e teses defendidas — sobre alfabetização no Brasil; a primeira aborda o período compreendido entre 1954 e 1986 e a segunda, o período de 1961 a 1989. Em ambos os casos, os resultados indicam que as pesquisas e os estudos relativos à alfabetização no Brasil intensificaram-se nas últimas décadas, principalmente os que visam à intervenção na prática pedagógica alfabetizadora; entretanto, as pesquisas de abordagem histórica sobre alfabetização mostraram-se escassas, tendo as autoras localizado apenas uma pesquisa com esse tipo de abordagem, a de Dietzsch (1979).

A tese de livre docência de Magnani (1997), publicada sob forma de livro com o título Os sentidos da alfabetização: São Paulo – 1876/1994 (MORTATTI, 2000) aborda resultados de extensa pesquisa documental e bibliográfica sobre o movimento de constituição da alfabetização no Estado de São Paulo, no período compreendido entre 1876 a 1994. Mediante procedimentos de recuperação, reunião, seleção, organização, análise e interpretação de um amplo conjunto de fontes primárias e secundárias, a autora reconstitui as discussões em torno da questão dos métodos de ensino de leitura e escrita na fase inicial da escolarização de crianças, resultantes das disputas entre “modernos” e “antigos” que ocorreram nesse Estado, no período abordado, o qual a autora dividiu em quatro “momentos cruciais” caracterizados pelas seguintes disputas: 1º) “novo” método João de Deus X “antigos” métodos sintéticos baseados na soletração e silabação; 2º) “novo e revolucionário método analítico” X “tradicionais” métodos sintéticos; 3º) “alfabetização sob medida” e novos métodos mistos X “tradicional método analítico”; 4º) “desmetodização da alfabetização”/“revolução conceitual X “tradicionais” métodos de alfabetização, sobretudo, o misto.

A dissertação de mestrado de Bertoletti (1997) — Cartilha do povo e Upa, Cavalinho!: o projeto de alfabetização de Lourenço Filho — também resulta de pesquisa documental e bibliográfica com o objetivo de discutir o projeto de alfabetização do educador paulista Manoel Bergström Lourenço Filho, com base na hipótese da necessidade de medida do nível de maturidade individual da criança necessário ao aprendizado da leitura e da escrita, por meio dos testes propostos pelo próprio Lourenço Filho em Testes ABC (1934), e concretizado em duas cartilhas: Cartilha do povo: para ensinar a ler rapidamente (1928) e Upa, Cavalinho! (1957).

A tese de doutorado intitulada Ensino de leitura na escola primária no Mato Grosso: contribuição para o estudo de aspectos de um discurso institucional no início do século XX, de Amâncio (2000), resultou de uma pesquisa de fundo histórico e foi desenvolvida mediante os procedimentos de localização, recuperação, reunião, seleção e ordenação de fontes documentais (leis, decretos, regulamentos, regimentos e programas de ensino) referentes à instrução pública no Estado do Mato Grosso, nas primeiras décadas do século XX, período de organização do aparelho escolar e do ensino matogrossense, sobretudo, da escola primária. Nessa tese, a autora analisa a configuração textual de dois documentos oficiais considerados como emblemáticos desse processo no período eleito: o Relatório da Escola Normal do estado de Mato Grosso e Modelo Annexa - 1911, e a Ata do Conselho Superior da Instrucção Pública, de 21 e 28 de agosto de 1915.

Em seu Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização, mediante análise da configuração textual da cartilha A Casinha Feliz (1999) e do Livro do Professor (1999) escritos por Iracema Meireles (1907-1982) em co-autoria com Eloísa Meireles (1940-), Zocolaro (2000) busca compreender as características do “método casinha feliz” considerado rápido, eficiente e facilitador do trabalho do professor, para assim compreender a função da cartilha e do método no processo de alfabetização, e sobretudo, o porquê de o “método casinha feliz” ser utilizado até os dias atuais em vários Estados do Brasil.

Em seu Trabalho de Conclusão de Curso de Pedagogia, intitulado Um estudo sobre A leitura analytica (1896), de João Köpke, Ribeiro (2001), a partir dos procedimentos de recuperação, reunião, seleção e organização de bibliografias de e sobre João Köpke, enfoca a concepção desse educador sobre o ensino inicial da leitura e escrita com o objetivo de compreender, por meio da análise da configuração textual da conferência “A leitura analytica”, proferida por esse educador em 1° de março de 1896, os princípios do modo de processar o método analítico para o ensino da leitura e escrita, os quais João Köpke adotou, defendeu e “teorizou” por meio de seus livros, artigos, cartilhas, conferências etc.

Além desses textos, tive a oportunidade de ler e analisar o conjunto de referências sobre alfabetização reunidas na versão preliminar da obra de referência proposta no PIPELLB6. A análise dessas referências permitiu confirmar muitas das constatações de Soares (1989) e Soares e Maciel (2000), especialmente no que se refere ao fato de que, embora tenha havido um aumento gradativo de estudos e pesquisas realizados por brasileiros sobre alfabetização, sobretudo a partir de meados da década de 1980, ainda há poucos estudos e pesquisas sobre alfabetização numa abordagem histórica, o que veio confirmar a relevância e pertinência deste estudo.


ASPECTOS DA VIDA E ATUAÇÃO PROFISSIONAL DE ARNALDO BARRETO7

Arnaldo de Oliveira Barreto nasceu em Campinas/SP, em 12 de setembro de 1869. Era filho de um farmacêutico gaúcho, oficial da Ordem da Rosa, Sr. Antonio Jesuino de Oliveira, e de D. Aristhéia Braziliana de Lemos Barreto, natural do estado da Bahia. Iniciou seus estudos, aos sete anos, no “Collégio Morton”, tradicional instituição de ensino de Campinas, que, na época, era um dos melhores do país em virtude da erudição de seu corpo docente.

Em 1889, matriculou-se, após ser aprovado com distinção nos exames de suficiência, na Escola Normal de São Paulo, diplomando-se em 1891. A partir de então, passou a integrar
[...] uma geração de normalistas que, após a Proclamação da República, passa — em substituição ao bacharel em Direito — a ocupar cargos na administração educacional, liderar movimentos associativos do magistério, assessorar autoridades educacionais e produzir material didático e de divulgação das novas idéias, especialmente no que diz respeito ao ensino da leitura (MORTATTI, 2000, p.78).
Em 1984, passa a reger uma das classes da Escola-Modelo do Carmo, anexa à Escola Normal de São Paulo. Em 1896, encarregado pelo Secretário do Interior, reorganizou o grupo escolar de Lorena/SP e, em seguida, voltou a ocupar seu cargo de professor naquela escola-modelo E, em 1987, atendendo à solicitação do diretor da Escola Normal de São Paulo, Barreto tornou-se inspetor das escolas anexas.

No período de 1902 a 1904, Barreto foi redator-chefe da Revista de Ensino, órgão da Associação Beneficente do Professorado Público Paulista e que se tornou um dos veículos responsáveis pela propagação do método analítico para o ensino da leitura.

Em 1908, o Secretário do Interior — Cardoso de Almeida — entregou a Barreto a direção do Colégio de Campinas e, após dirigir por muitos anos o Colégio de Campinas, Barreto vai para São Paulo onde ocupa o cargo de diretor da Escola Normal da Praça da República, de 1924 a 1925.

No período de 1915 a 1925, Barreto organizou a Coleção Biblioteca Infantil, da Companhia Melhoramentos/SP; em 1915, foi publicado o primeiro título dessa coleção: O patinho feio, de H. C. Andersen. Nesse período, Barreto organizou e recriou vinte e oito contos para essa coleção e, em 1924, um ano antes de falecer, organizou o catálogo dessa coleção8.

Ao longo de sua atuação profissional, Barreto destacou-se pelo conjunto de importantes atividades que realizou, especialmente por sua produção escrita em que se destacam as relacionadas ao ensino inicial da leitura: cartilhas e livros de leitura; artigos para revistas e jornais; textos pedagógicos traduzidos; e contos infantis recriados. É importante destacar ainda que sua produção escrita para o ensino inicial da leitura foi caracterizada, sobretudo, pela defesa do método analítico, o que gerou o envolvimento desse educador nas disputas apontadas por Magnani (1997)/Mortatti (2000) como características do segundo momento crucial na história da alfabetização em São Paulo.

Arnaldo de Oliveira Barreto morreu em São Paulo no ano de 1925.



A CARTILHA ANALYTICA

Aspectos gerais


Como já informei anteriormente, a Cartilha analytica foi escrita pelo educador paulista Arnaldo de Oliveira Barreto e teve sua primeira edição publicada, presumivelmente, entre o final da década de 1900 e o início da década de 1910, pela Francisco Alves/RJ.

Foi analisado um exemplar da 27ª edição, de 1926 (exemplar mais antigo que localizei), no formato 20,5 por 15cm, com 93 páginas seguidas da transcrição de um documento que será descrito mais adiante.

Na capa do exemplar analisado, sobre um fundo pardo, tem-se a ilustração, em preto e branco, de uma garotinha deitada de bruços segurando um dentre os nove cubos, os quais contêm as letras do título da cartilha. Os cubos estão distribuídos abaixo da ilustração e dentre os nove cubos oito têm duas letras visíveis, cada letra numa face, sendo que apenas um cubo é colocado de maneira a ser vista uma única letra. Abaixo do título que integra a ilustração, tem-se o nome do autor e, na parte inferior da capa, o nome da editora "LIVRARIA FRANCISCO ALVES" seguido pelos endereços nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte.

Na página de anterrosto, consta apenas o título da cartilha e, no verso dessa página, uma relação de livros de Barreto e seus respectivos preços, que variam de 1$500 a 3$000. Na página de rosto há, na parte superior da página, o título da cartilha, seguido pela informação: “Baseada sobre rigorosos princípios pedagógicos”, após a qual tem-se o nome do autor, o número da edição e, logo abaixo, a seguinte informação: “Completamente refundida e posta de accôrdo com as instrucções recommendadas pela Directoria Geral do Ensino Publico de S. Paulo”. Na parte inferior da página, há, assim como na capa, o nome da editora e os endereços de algumas cidades, e logo abaixo, há o ano de publicação dessa 27a edição, 1926.

Na quarta capa, apresenta-se o “Extrato do catalogo da Livraria Francisco Alves”, em que são reunidos os títulos de cartilhas e de livros de leitura e seus respectivos preços, que variam de $600 a 3$500, dos seguintes autores: Hilário Ribeiro, Thomaz Galhardo, Felisberto de Carvalho e Arnaldo Barreto.

Na terceira página, há a seguinte dedicatória: "AO OSCAR THOMPSON o mais decidido propagandista, no Estado de São Paulo, do ensino da leitura pelo methodo analytico e AO THEODORO MORAES o seu mais fino executor, como preito da mais justa homenagem, offerece o ARNALDO.”9

Segue-se outra página, com duas epígrafes:

Não merece o nome de professor

aquelle que, para ensinar, não recorre

aos processos mais de accordo com as

leis do espírito.
Aphorismos de Pestalozzi

- Cultivae as faculdades em sua ordem natural; formae primeiro o espírito, para instruil-o depois.

- Primeiro a syntese, depois a analyse. Não a ordem do assumpto, mas sim a ordem da natureza.

e uma espécie de advertência:



Para bem entender-se o methodo processado neste livro, é indispensável a leitura do que vae dito nas ultimas paginas, nas instrucções da Directoria Geral do Ensino, que, com a devida auctorização, trancrevemos nesta Cartilha.
Ao final da cartilha, o autor transcreve um documento, intitulado Modelos de lições, que se estende da página 94 à página 101 e é assinado pelos professores paulistas Mariano de Oliveira, Ramon Roca Dordal e Arnaldo de Oliveira Barreto. Esse documento é antecedido pela seguinte observação de Barreto: "instrucções recommendadas aos professores do Estado de S. Paulo, para o ensino da leitura pelo methodo analytico.” (BARRETO, 1926, p. 95) Trata-se, de fato, de transcrição adaptada de Instruçções Praticas para o ensino da leitura pelo méthodo analytico — Modelos de lições, assinadas pelo mesmos professores e fixadas pela Directoria Geral da Instucção Publica do estado de São Paulo, presumivelmente em 1914.

Após o documento Modelos de lições (p. 94-101), o autor apresenta uma espécie de apêndice, que se estende da página 101 à página 106 e contém uma “observação importante” e orientações intituladas “Como se devem dar as lições no quadro negro”.

Transcrevo a seguir a observação que ocupa três parágrafos.
OBSERVAÇÃO IMPORTANTE. — Somente depois que forem dadas todas as lições aconselhadas nas Instrucções Praticas acima, é que se deve iniciar o ensino por esta Cartilha, o que vale dizer que ella só poderá ser posta nas mão dos alumnos depois de tres ou quatro mezes de exercicios de leitura ao quadro negro.

Reservo-me a opportunidade para desenvolver, em folheto, á parte, os principios psychologicos e pedagógicos que justificam o modo de processar, nesta “Cartilha”, o ensino da leitura pelo methodo analytico.

Um facto ficou, porém, desde já demonstrado: é o resultado verdadeiramente surprehendente de sua pratica em todos os primeiros annos de todos os grupos da Capitas, cujas dignas professoras o aceitaram com o maior enthusiasmo, como a expressão mais racional do methodo analytico, applicada ao ensino da leitura. (BARRETO, 1926, p.101).
Em seguida, sob o título “Como se devem dar as lições no quadro negro”, Barreto faz uma apresentação mais detalhada dos cinco passos propostos nos Modelos de lições e acrescenta outros quatro passos.

As ilustrações


Embora não haja nenhuma menção ao nome do ilustrador, a Cartilha é extensamente ilustrada com 283 “estampas”, que estão relacionadas com o conteúdo das "lições" da cartilha. Dentre as 283 “estampas”, 10 são coloridas, 17, em preto e branco, 7, em azul, 1, em vermelho, 17 têm o contorno azul e o "miolo” pardo, cor do papel e, a maior parte, 231, têm o contorno preto e o "miolo” pardo, cor do papel.

As “estampas” da Cartilha são bem diversificadas e representam brinquedos e brincadeiras infantis (como crianças brincando com bola, boneca, carrinhos; correndo atrás de animais etc.), objetos de uso cotidiano (prato, caneta, faca, sapato etc.), animais, peixes e aves (galinha, pintinhos, passarinhos, gato, cachorro, tartaruga etc.), de alimentos (ovo, laranja, jaca, maçã etc.), partes do corpo humano (boca, dente, dedo etc.), de lugares (ninho de passarinhos e pintinhos, casa, pomar), etc.

Os traços das “estampas” que ilustram a Cartilha estão muito próximos da “imagem real” dos objetos, brinquedos, pessoas, alimentos e lugares representados. Entretanto, as personagens, ações e situações retratadas nas “estampas” estão relacionadas ao mundo infantil.

As “estampas” são partes importantes das lições dessa Cartilha e, apenas na página 74 não há nenhuma “estampa”.


O conteúdo

A Cartilha analytica inicia-se pela apresentação de três “historietas”. A “historieta” é um conjunto de sentenças em que

"[...] o objecto logico de uma seja empregado como sujeito da sentença immediata, formando o todo uma pequena historia descriptiva do objecto ou estampa que sirva de assumpto da lição" (OLIVEIRA; DORDAL; BARRETO, apud BARRETO, 1926, p.95)10.
Nas três primeiras "historietas”, as sentenças são numeradas e escritas com letra manuscrita vertical, maiúsculas e minúsculas. No restante da cartilha, as sentenças das "historietas" continuam sendo numeradas, mas é utilizada a letra de imprensa; a letra manuscrita vertical volta a ser utilizada apenas nas seguintes páginas: 29 e 35, para apresentar as letras do alfabeto; 73, dias da semana; 74, meses do anos; e 77, num pequeno poema.

De acordo com o 1º passo proposto nos Modelos de lições, as sentenças devem corresponder “[...] à natural vivacidade do espirito infantil” (OLIVEIRA; DORDAL; BARRETO, apud BARRETO, 1926, p.95)., uma vez que o professor deve provocar a observação da criança e levá-la a enunciar sentenças descritivas das estampas. Isso porque são dois os fins da educação: o disciplinar —“cada disciplina [...] tem por objecto, além de trenar as faculdades mentaes, acostumar o alumno a observar, a raciocinar e a exprimir com clareza as suas ideias” e o instructivo — “[...] Sob o aspecto instructivo, propriamente dito, o objecto do ensino da leitura é fornecer á criança um instrumento poderoso de acquisição de ideias e pensamentos.” (OLIVEIRA; DORDAL; BARRETO, apud BARRETO, 1926, p.95).


[...] Por isso mesmo, é mister que a habituem a ler, na palavra ou na sentença, não as sylabas ou letras de que ellas se formam, mas a ideia e os pensamentos que encerram. E, para se attingir a esse objectivo, isto é formar esse habito intellectual, só ha um caminho a seguir: é fazer a criança ler, primeiro, os SEUS PROPRIOS PENSAMENTOS; depois, a proporção do desenvolvimento do seu espirito de analyse, provocado pelos PASSOS aqui determinados, ler os PENSAMENTOS ALHEIOS (OLIVEIRA; DORDAL; BARRETO, apud BARRETO, 1926, p.95). (grifos do autor)
Para explicar o 1º passo dos Modelos de lições, Oliveira, Dordal e Barreto apresentam quatro lições para demonstrar como os processos vão sendo realizados na formação da “historieta” (as perguntas feitas aos alunos; a transcrição das sentenças no quadro negro; o sublinhar e numerar as frases; a leitura da “historieta” de cima para baixo e vice-versa; o uso do ponto de interrogação e de exclamação). No apêndice intitulado “Como se devem dar as lições no quadro negro”, Barreto apresenta detalhadamente a conversa que a professora deverá ter com os alunos, as perguntas que ela deverá fazer aos alunos, o como deverá escrever no quadro negro.

Na página 13, há algumas sentenças da “historieta” apresentada na página anterior; essas sentenças estão dispostas em colunas verticais, com destaque para as palavras e, em seguida, há novas sentenças formadas com as palavras das “historietas” já estudadas, assim como propõe o 2º passo dos Modelos de lições:

Depois de compor a historieta [...], escrevam-se algumas das suas sentenças em columna vertical, mandando ler os alunos nessa nova posição.

[...] Com estas palavras poderão ser formadas outras muitas sentenças novas (OLIVEIRA; DORDAL; BARRETO, apud BARRETO, 1926, p.97).


Na página 29, há, pela primeira vez, a apresentação das letras do alfabeto. Essa apresentação obedece à ordem clássica do alfabeto, dá-se por meio de sentenças e com auxílio de “estampas” e inclui as letras “A”, ”B”, “C”, “D”, “F”, “G”, “J”, e “K”, as quais são apresentadas em letra de imprensa, maiúscula e minúscula, e em letra manuscrita vertical minúscula, formando a sílaba que inicia o nome dos objetos representados nas “estampas” utilizadas. Apresentação semelhante volta a aparecer na página 35, com as letras “L”, “M”, “N”, “P”, “Q”, “R”, “S”, “T”, “V”, “X” e “Z”.

Na página 31, há uma seqüência de "estampas" representando "coisas" cujos nomes se iniciam com a sílaba "bo", extraída da palavra "boneca", que integra sentença da “historieta” da página 30; abaixo das "estampas" vem a seguinte informação: "N.B. — Escrever nesta lição, assim como nas demais, identicas, no quadro negro, os nomes das coisas representadas pelas estampas” (BARRETO, 1926, p.31). Tal processo é semelhante ao proposto no 3º passo dos Modelos de lições e repete-se em outras lições, obedecendo à “ordem classica do alphapeto”, na apresentação das sílabas.

Na página 40, algumas palavras, retiradas da “historieta” da página 39, são apresentadas num quadro, separadas por suas sílabas e, na seqüência, há algumas palavras formadas com as sílabas dispostas no quadro. Nos Modelos de lições, o 4º passo sugere o seguinte:
Depois de estudados todas as consoantes, amplie-se a lição com o 4º passo.

Até o 3º passo os alumnos leram seus proprios pensamentos. O 4º passo é o preparo para lerem pensamentos de outrem.

[...] Com duas, três ou quatro palavras da nova lista, forme-se um quadro de modo a ficar cada uma dellas separada em suas syllabas. Com o ponteiro aponte-se para as syllabas, formando novas palavras, que devem ser collocadas em columnas, e classificada de accordo com o som inicial. Formem-se sentenças com algumas dessas palavras (OLIVEIRA; DORDAL; BARRETO apud BARRETO, 1926, p.99) (grifos meu).
Diferentemente dos Modelos de lições, há na Cartilha “estampas” representando os objetos a que se referem as novas palavras formadas com as sílabas dispostas no quadro.

Há, na página 81, uma relação de “palavras rimadas”, que se diferenciam apenas pela letra inicial. Esse processo é semelhante ao 5º passo dos Modelos de lições:


[...] Conhecimento dos sons consonantaes pelas palavras rimadas.

[...] Confrontem-se dois e tres vocabulos semelhantes, apresentando apenas differenças de uma ou mais letras, quer no começo, quer no meio, quer no fim (OLIVEIRA; DORDAL; BARRETO apud BARRETO, 1926, p. 100).


Além das historietas escritas por Barreto, há, na Cartilha, outros tipos de textos, de outros autores, tais como: poema “Minha vida”, de Zalina Rolim, poema, sem título, de Manuel Bernardes, "conto da Carochinha", advinhas, quintilhas.

Por fim, deve-se destacar, que nos Modelos de lições apresentam-se considerações e orientações sobre o ensino da escrita:


O ensino da escripta, já porque auxilia poderosamente o da leitura, já porque exige da parte do alumno um esforço eminentemente educativo, deve caminhar parallelamente ao da leitura.

Assim, desde a primeira lição de leitura os alumnos devem copiar uma das sentenças que aquella encerra.

Quando os alumnos conseguirem nas suas cópias, dar ás letras uma fórma bem definida, é conveniente revesar a professora taes exercicios com os dos cadernos 1º e 2º da Série Paulista, letra vertical.

OBSERVAÇÃO: — É imprescindivel que a professora adquira, por sua vez, uma letra vertical correcta, por isso que o modelo escripto por ella no quadro negro é o que mais impressiona á criança (OLIVEIRA; DORDAL; BARRETO apud BARRETO, 1926, p. 100-101) (grifos meu).



CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Cartilha analytica foi escrita num momento histórico que Mortatti (2000) considera como sendo o segundo momento crucial do movimento de constituição da alfabetização no estado de São Paulo e que foi caracterizado pela disputa entre os defensores do método analítico e os tradicionais métodos sintéticos.11

Essa disputa e as discussões estavam relacionadas com a reforma da instrução pública paulista, iniciada em 1890 e que teve nos “normalistas” grandes representantes e, principalmente, na condição de administradores educacionais, autores de livros didáticos e cartilhas de alfabetização e divulgadores das novas idéias, sobretudo as referentes ao ensino da leitura.

Foi nesse contexto que Arnaldo de Oliveira Barreto, cuja formação e atuação profissional tentei apresentar anteriormente, escreveu a Cartilha analytica para concretizar os conceitos básicos característicos do método analítico para o ensino da leitura por ele defendidos.

No momento histórico de produção e circulação da cartilha analisada, encontravam-se acirradas as discussões sobre o método analítico para o ensino da leitura, e os diferentes modos de processar esse método. Além da cartilha analisada, várias outras foram produzidas para orientar os professores no emprego do método a ser seguido e a matéria a ser ensinada.
Embora já na segunda metade do século XIX encontrem-se cartilhas produzidas por brasileiros, o impulso nacionalizante nessa área se faz sentir, especialmente em alguns estados, a partir da década de 1890, solidificando-se nas primeira décadas do século XIX, quando se observa o engendramento de fenômenos correlatos: apoio de editores e especialização de editoras na publicação desse tipo de livro didático; surgimento de um tipo específico de escritor didático profissional — o professor; e processo de institucionalização da cartilha, mediante aprovação, adoção, compra e distribuição às escolas públicas, por parte de órgãos dos governos estaduais (MORTATTI, 2000, p. 42).

Como se pode observar por meio da análise aqui apresentada, a Cartilha anlytica foi um importante material didático para o ensino da leitura utilizado por muitos professores que defendiam o método analítico, nas primeiras décadas do século XX, em São Paulo e em outros estados brasileiros.

Analisando o conjunto dos aspectos constitutivos da configuração textual de Cartilha analytica, verifica-se que o método analítico proposto por Barreto baseia-se na “historieta”, que caracteriza o todo a ser “analisado”, gradativa e seqüencialmente, até suas menores “partes” constitutivas — sentenças, palavras, sílabas, letras — sempre com predomínio da visão do “todo” e condução por parte do professor.

Por fim, embora modestamente, o estudo aqui apresentado vem contribuir para compreender um importante momento da história da alfabetização no Brasil, podendo, assim, auxiliar na compreensão dos problemas que se enfrentam neste presente histórico em relação a esse problema ainda central para a sociedade brasileira: o ensino e a aprendizagem da leitura e da escrita.




REFERÊNCIAS
AMÂNCIO, Lazara Nanci de Barros. Ensino de leitura na escola primária no MT: contribuição para o estudo de aspectos de um discurso institucional no início do século XX. 2000. 264f. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, Marília.

BARRETO, Arnaldo de Oliveira. Cartilha analytica. 27.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1926.

BERTOLLETTI, Estela Natalina Mantovani. Cartilha do povo e Upa, cavalinho!: o projeto de alfabetização de Lourenço Filho. 1997. 129p. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, Campus de Marília.

DIETZSCH, Mary Júlia. Alfabetização: propostas e problemas para uma análise do seu discurso. 1979. 122f. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.

MAGNANI, Maria do Rosário Mortatti. Os sentidos da alfabetização a “questão dos métodos” e a constituição de um objeto de estudo (São Paulo: 1876/1994). 1997. 389f. Tese (Livre-Docência na Disciplina de Metodologia do Ensino de 1º grau: Alfabetização) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente.

MORTATTI, Maria do Rosário Longo. Os sentidos da alfabetização (São Paulo – 1876/1994). São Paulo: Ed. UNESP; Brasília: MEC/INEP/COMPED, 2000.

______. Cartilha de alfabetização e cultura escolar: um pacto secular. Cadernos Cedes, Campinas ano XIX, n.52, p.41-54, nov. 2000.

SOARES, Magda Becker. Alfabetização no Brasil: o estado do conhecimento. Brasília, DF: MEC/REDUC/INEP, 1989.

______; MACIEL, Francisca. Alfabetização. Brasília, DF: MEC/Inep/Comped, 2000. (Série: Estado do conhecimento, n.1).
RIBEIRO, Neucinéia Rizzato. Um estudo sobre ”A leitura analytica” (1896), de João Köpke. 2001. 66f. Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso de Pedagogia) - Faculdade de Filosofia e Ciências. Universidade Estadual Paulista. Campus de Marília.

ZOCOLARO, Roberta Cristina. Um estudo sobre o "Método Casinha Feliz", de Iracema e Eloisa Meireles. 2000. 58f. Monografia (Curso de especialização) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente.




1 Bolsista CNPq/PIBIC/UNESP; Graduanda em Pedagogia – Faculdade de Filosofia e Ciências – UNESP-Câmpus de Marília/SP.

2 Esse instrumento de pesquisa contém um total de 145 referências bibliográficas. Dentre esse total, 110 referências são de textos de Barreto, publicados entre o período de 1896 e 1955. As demais 35 referências são de textos em que há citações de textos de Barreto, menções e homenagens a esse educador e informações sobre sua vida e obra escritos por outros autores, entre 1903 e 2001.

3 “Ensino inicial da leitura” ou “ensino da leitura” eram expressões utilizadas à época de Barreto para designar o processo que atualmente denominamos “alfabetização” e que envolve também o ensino da escrita.

4 O método analítico consiste em uma “[...] maneira de ensinar introdução à leitura que começa com unidades completas de linguagem e mais adiante as divide em palavras ou as palavras em sons” (HARRIS, Theodore L.; HODGES, Richard E. (Org.). Dicionário de alfabetização: vocabulário de leitura escrita. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre: Ed. ARTMED, 1999.), isto é, segue o caminho do “todo” para a “parte”.


5 As pesquisas de Magnani/Mortatti, Bertoletti; Amâncio, Zocolaro e Ribeiro foram desenvolvidas no âmbito do PIPELLB e do GPHELLB, na linha de pesqusia alfabetização; nessa linha também se insere outra pesquisa em andamento, da mestranda Márcia C. O. Mello.

6 Nessa versão preliminar, até o momento, foram reunidas 894 referências sobre alfabetização, distribuídas em seções, de acordo com o formato de texto,

7 As informações constantes deste tópico foram extraídas de: MELO, Luís Correia de. Dicionário de autores paulistas. São Paulo: [s.n.], 1954. ; MORTATTI, Maria do Rosário Longo. Os sentidos da alfabetização (São Paulo – 1876-1994). São Paulo: Ed. UNESP; Brasília: MEC/INEP/COMPED, 2000. REVISTA DE ENSINO, São Paulo, anno.1, n.2, p.291- 294, jun. 1902; e D’ÁVILA, Antônio. René e Arnaldo Barreto. Educação, São Paulo, v.33, n.46/47, p.230-233, jan./jun. 1945. (Secção História da educação no Brasil).

8 A respeito da atuação de Barreto como organizador dessa coleção, ver, especialmente: MENIN, Ana Maria da Costa Santos. O Patinho Feio, de H. C. Andersen: o “abrasileiramento” de um conto para crianças. 1999. 2v. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Campus de Assis. (v.1, 280p; v.2, Anexos).


9 Nesta e nas demais citações de títulos e trechos da cartilha em análise, mantenho a ortografia de época.

10 Gostaria de esclarecer que, quando citar trechos dos Modelos de lições (p. 94-101) utilizarei a seguinte indicação: (OLIVEIRA; DORDAL; BARRETO, apud BARRETO, 1926, p.), porém, quando citar trechos da cartilha ou da espécie de apêndice (p.101-106) que contém uma “observação importante” e orientações intituladas “Como se devem dar as lições no quadro negro”, utilizarei a indicação (BARRETO, 19256, p.).


11 Diferentemente dos métodos analíticos, os métodos sintéticos para o ensino da leitura consistem em “[...] ensinar introdução à leitura começando por partes ou elementos das palavras, tais como letras, sons ou sílabas, para depois combiná-los em palavras” (HARRIS, Theodore L.; HODGES, Richard E. (Org.). Dicionário de alfabetização: vocabulário de leitura escrita. Tradução de Beatriz Viégas-Faria. Porto Alegre: Ed. ARTMED, 1999.), isto é, da “parte” para o “todo.


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