Um monge no divã1



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UM MONGE NO DIVÃ1

O adolescer de Guibert de Nogent (1055 - 1125?):



uma análise histórico-psicanalítica
DAVID LÉO LEVISKY 2

RESUMO

Este estudo retrata o adolescer de Guibert de Nogent, monge da região de Beauvais, norte da França, que viveu entre 1055­-1125, aproximadamente. Utiliza-se de um método histórico-psicanalítico com o objetivo de tentar analisar o texto autobiográfico e o contexto vivido por Guibert, durante sua infância e a transição para a vida adulta. Toma-se como pontos de referência para o desenvolvimento deste trabalho, o conhecimento adquirido pela psicanálise contemporânea sobre o processo adolescente e o contexto histórico da Idade Média, séculos XI-XII. Tendo por base a metapsicologia psicanalítica proveniente de Freud, e de alguns dos seus seguidores, e os conhecimentos da história social, oriundos de Bloch, Vernant e outros, procura-se compreender os aspectos inconscientes e as interferências recíprocas entre sujeito psíquico e cultura. Estuda-se as condições de nascimento e de desenvolvimento, o processo educacional, a entrada na puberdade, a crise e a elaboração do processo adolescente até a vida adulta, dos quais se pode extrair os conteúdos componentes das estruturas e dinâmicas existentes entre as pulsões, o ego e o superego. Analisa-se as interações entre o desenvolvimento do sujeito psíquico e as incorporações provenientes das características do meio familiar, social, afetivo, religioso, cultural, preconizadas e exercidas pelo domínio da Igreja dentro do regime clérico-feudal. Parte-se do estudo particular de um caso para se propor algumas considerações gerais sobre o adolescer na Idade Média. Evidencia-se dois objetivos principais nesta investigação histórico-psicanalítica. O primeiro, tentar definir a existência da adolescência como fenômeno intrínseco do desenvolvimento humano e seus conflitos, durante a construção da identidade adulta e em relação à cultura. O segundo, tentar criar uma metodologia através da interface histórico-psicanalítica, capaz de contribuir para a compreensão da construção do sujeito psíquico em suas relações com os fatos e processos históricos, e que levam em consideração o individual e o coletivo, o psicofísico e o ambiental, o texto e o contexto, o homem e sua cultura.

ABSTRACT

A Monk on the couch: the becoming adolescent of Guibert de Nogent (1055-1125?) - a historic-psychoanalytic method.




This study analyses the becoming adolescent of Guibert de Nogent, monk from the Beauvais region, north of France, who lived around 1055-1125. A historic-psychoanalytic method was used, having in mind the analysis of the autobiographic text and the context within which Guibert lived his childhood and his transition to adulthood. The up to date psychoanalytic knowledge about the process towards adolescence and the historic context in the Middle Ages, centuries XI-XII, are the reference points adopted for the development of the present work. The basis for understanding the unconscious aspects and the reciprocal interference between the psychic subject and the culture is the psychoanalytic metapsychology originated with Freud and some of his followers, and from the social history by Bloch, Vernant and others. It is possible to extract the contents from the dynamic structures components which exist between the drives, the ego and the superego by analyzing the conditions of birth, the development, the educational process, the entering into puberty, the crisis and the development of the adolescence process until the adult life. The interactions between the psychic subject and the influences originated from the characteristics of the family, social, affective, religious and cultural environment, imposed and executed by the dominance of the Church within a clerical-feudal regime are analyzed. The study of this one case leads to general considerations about the adolescence process during the Middle Ages. Two main objectives come out from this historic-psychoanalytic research. The first aims at the definition of the existence of the adolescence as intrinsic phenomenon of the human development and its conflicts along the construction of the adult identity and in relation to the culture. The second intents the presentation of a new methodology by means of the historic-psychoanalytic interface, able to contribute to the understanding of the building up process of the psychic subject in relation to the facts and the historic processes, which takes into consideration the individual and the collective, the psychophysic and the environment, the text and the context, the man and his culture.




RESUMÉ

Un moine sur le divan : la passage à l'adolescence de Guibert de Nogent (1055-1125 ?) - une méthode historico-psychanalytique

Cette étude est une analyse du passage à l'adolescence de Guibert de Nogent, moine qui vécut approximativement entre 1055 et 1125 dans la région de Beauvais située dans le Nord de la France. Utilisant une méthode historico-psychanalytique pour tenter d'analyser le texte autobiographique et le contexte vécu par Guibert, pendant son enfance et le passage à la vie d'adulte. Nous avons pris comme références, pour mener à bien ce travail, la connaissance acquise par la psychanalyse contemporaine sur le processus de l'adolescence et sur le contexte historique dans le Moyen Âge, siècles XI e XII. A partir de la métapsychologie psychanalytique de Freud, et de quelques uns de ses disciples, et de la connaissance de l’histoire social provenant de Bloch, Vernant et d’autres auteurs, nous avons cherché à comprendre les aspects inconscients et les interférences réciproques entre sujet psychique et culture. Etudiant les conditions de la naissance et de la croissance, le système éducatif, l'entrée dans la puberté, la crise et l'élaboration du processus de l'adolescence dont on pouvait extraire les contenus composant les structures et les dynamiques qui existent parmi les pulsions, le moi et le surmoi. Nous avons analysé les interactions du développement du sujet psychique et les influences provenant des caractéristiques du milieu familial, social, affectif, religieux, culturel, préconisées et exercées par la domination de l'Eglise au sein du régime clérico-féodal. Partant de l'étude particulière d'un cas, nous proposons quelques considérations générales sur l'adolescence au Moyen Age. Deux objectifs principaux ont été mis en évidence dans cette recherche historico-psychanalytique. Le premier tente de définir l'existence de l'adolescence comme un phénomène intrinsèque du développement humain et de ses conflits, pendant la construction de l'identité adulte et par rapport à sa culture. Le deuxième, essaie de créer une méthodologie à travers l'interface historico-psychanalytique, pouvant contribuer à la compréhension de la construction du sujet psychique, dans ses rapports avec les faits et les processus historiques, et qui prennent en considération l'individuel et le collectif, le psychophysique et l'environnemental, le texte et le contexte, l'homme et sa culture.



UM MONGE NO DIVÃ3
O adolescer de Guibert de Nogent (1055 - 1125?): uma análise histórico-psicanalítica
DAVID LÉO LEVISKY 4

Guibert de Nogent (1055-1125) teria vivido o que nós, hoje, chamamos de adolescência?

A questão surge com História Social da Criança, livro de Ariès que afirma que as palavras latinas puer e adolescens eram empregadas indiferentemente na Idade Média e que a discriminação entre enfance, jeunesse, vieillesse é mais recente na história da civilização ocidental. Esses dados geraram um sentimento desconfortável conseqüente às afirmações de que naquela época não havia a percepção e o conceito das diferentes idades da vida. Nova surpresa quando o autor diz que na Idade Média essa sociedade “via mal a criança, e pior ainda o adolescente”; a duração da infância “era reduzida a seu período mais frágil” e, “de criancinha pequena, ela se transformava imediatamente em homem jovem, sem passar pelas etapas da juventude”. Ariès diz ainda que “ela (a família) não tinha função afetiva”, concluindo que a socialização da criança não era assegurada nem controlada pela família.5

São idéias inquietantes para um psiquiatra da infância e da adolescência, e psicanalista com especialização nessas áreas. A primeira reação foi pensar que estamos errados ou que temos conceitos distintos para as mesmas palavras: criança, adolescente, família. Interessado nas questões vinculares e no estudo dos processos de desenvolvimento do aparelho psíquico em seus aspectos afetivos, cognitivos, relacionais e, mais especificamente, nos seus aspectos inconscientes, passamos a indagar se haveria um equívoco histórico ou psicológico nas afirmações daquele autor de sucesso em nosso meio.

Com essas inquietações em mente fizemos o caminho inverso do que habitualmente ocorre na clínica psicanalítica, na qual sou procurado pelo paciente. Saímos à procura de um paciente que pudesse nos tranqüilizar e ajudar a pensar as possíveis lacunas na visão da infância e da juventude retratada na história social daquele autor e a percepção que havíamos construído sobre a criança e o jovem a partir de conhecimentos médicos, psicológicos e psicanalíticos. Pareceu-nos então que o problema poderia estar na falta de conexão entre áreas complementares do conhecimento humano, entre história, medicina, psicologia e psicanálise.

Onde e como encontrar a resposta? Como investigar essas questões? Ao invés de retornar ao meu psicanalista para apaziguar minhas angústias existenciais, resolvi aconselhar-me, na ocasião, com uma quase ex-adolescente, minha filha Adriana, que havia conhecido no seu curso de mestrado um professor de história social, medievalista, “muito legal”. Insistiu para que eu fosse falar com ele. Levei uns três anos para criar coragem, até que, um dia, lá fui eu dizer o que fazia e o que queria. Ouviu-me pacientemente, como um bom psicanalista, e, finalmente, disse-me: muito bom, vou pensar.

Após algumas semanas combinamos almoçar. Comida boa, papo gostoso, nasce uma amizade e admiração. Em tom de brincadeira e de desafio abre-se um leque de possibilidades: escrever um artigo, fazer um livro, apenas trocar idéias. Em tom brincalhão e desafiador digo-lhe: E por que não uma tese? Singelamente ele diz, com sua sabedoria psicanalítica: e por que não! Topei a parada. Veio a depressão. E agora, como sair dessa?

Bem, para encurtar a história, o historiador iria pesquisar quem poderia ser meu primeiro paciente medieval. Fiquei ansioso à espera dele. Como seria? Saberia recebê-lo? Ele me aceitaria? Como fazer o contrato de trabalho psicanalítico? A minha escuta clínica seria capaz de entender a fala dele? Muitas e muitas questões convulsionaram minha mente. Mais uma vez me deparei com a dor do desenvolvimento – parar ou continuar- tentava me convencer de que “no final tudo vai dar certo” . Se tivesse paciência, meu paciente medievo poderia me ajudar a compreendê-lo e a compreender melhor os adolescentes da atualidade, assim alcançaria uma nova etapa gratificante de realizações.

Um colaborador do “paciente” marca a entrevista por telefone: “Achei. É Guibert de Nogent, De Vita sua – Autobiographie, edição de E.- R. Labande, 1981, bilíngüe, latim-francês. Dê uma lida e veja se serve.” Tiro e queda, é ele. Pensei em surdina que esse historiador que estava angariando pacientes medievos para mim devia ser também psicanalista ou ter se submetido à psicanálise. Ele havia captado minhas inquietações, e me indicara justamente “um caso de livro”, como se costuma dizer quando o caso é claro e didático, tais as preciosidades de sua fala e as possibilidades de identificar fenômenos do seu inconsciente.

Mas o fato é que o caso de livro trouxe seus problemas, agora e em um outro sentido: não se tratava de um relato de um caso sobre um paciente; o paciente era um documento, um relato. Era preciso saber se meu instrumental servia para analisar um documento de uma história própria que se acrescia à história do dito Guibert, que, por sua vez, havia vivido numa época e num país distante do meu. Se, por ocasião da primeira conversa com aquele historiador almoçou-se a esperança de alcançar uma certa tranqüilidade, um banquete de dúvidas e questões me arrolaram a mente e serviram de estímulo para a elaboração de um projeto de investigação histórico-psicanalítico da adolescência na Idade Média. Assim começou esta adolescente aventura acadêmica.

A análise psicanalítica de um documento de validade histórica, de longuíssima data, poderia nos oferecer a possibilidade de extrair alguns elementos que caracterizassem aspectos do inconsciente de uma pessoa daquela época durante sua transição infanto-juvenil. Com esse projeto lançado, partimos em busca de contos, leis, preceitos higiênicos, médicos, religiosos, uma biografia que pudesse transmitir ou do qual se pudesse inferir elementos da vida inconsciente quanto à transição para a vida adulta. O que poderia ser melhor que uma autobiografia? Tipo de narrativa rara naquela época. Contudo, ainda que fosse um comunicado isolado, individual, ele seria portador de elementos comuns à cultura na qual aquele indivíduo estava inserido e poderia conter manifestações reveladoras das vicissitudes de sua vida pulsional, da organização egóica e superegóica presentes em seu processo de identificação. Uma autobiografia poderia expressar as interferências das manifestações inconscientes individuais sobre o coletivo, a massa populacional característica daquele contexto psico-histórico-social.6

O estudo de um documento medieval seria, portanto, uma possibilidade para tentar alcançar alguma compreensão analógica e racional de certas estruturas e dinâmicas psicológicas identificáveis pela metodologia psicanalítica dentro de um determinado contexto histórico-cultural.

A Idade Média foi a época selecionada por ser o ponto de partida do pensamento Ocidental contemporâneo, e na qual é possível identificarmos características, que ainda estão presentes no nosso modo de ser, apesar do longo processo de transformação histórico-cultural ocorrido até chegar à nossa civilização.7

Nesse processo de envolvimento com as questões histórico-psicanalíticas surgiram dois objetivos centrais que nortearam a execução deste trabalho: Primeiro, tentar identificar as características da transição infanto-juvenil, na Idade Média, sob o prisma psicanalítico. Essa fase do desenvolvimento humano foi questionada por Ariès ao considerá-la fruto de manifestações sócio-culturais mais recentes, e não como uma característica da mentalidade humana, processo de longuíssima data dentro da história da civilização; segundo, analisar as implicações metodológicas recíprocas conseqüentes à tentativa de aproximação entre áreas distintas do conhecimento humano, história, psicanálise, psicologia, pedagogia e medicina, na busca de possíveis interfaces.8

Este trabalho de investigação gerou inúmeros questionamentos tanto em relação à escolha do material objeto da investigação quanto em relação ao instrumental a ser utilizado, isto é, a psicanálise e o psicanalista - sem formação histórica de base. Num primeiro momento, tudo fazia crer que não existiria uma perspectiva para tal empreitada. Por onde começar nesse universo sombrio?

Contidas, parcialmente, as angústias do iniciando, acreditamos que, com motivação, boa vontade e paciência, principalmente do orientador, poderíamos caminhar. Era necessário encontrar um documento válido e estabelecer um certo número de conceitos históricos e psicanalíticos que pudessem balizar o desenvolvimento desta pesquisa. Além disso, surgiram questões relacionadas ao próprio investigador, às características de sua formação profissional e mesmo de sua personalidade, considerando o quanto poderiam interferir no processo de investigação; e, finalmente, uma questão levantada por Peter Gay: seria possível fazer a psicanálise de um morto? Isto é, a técnica psicanalítica se prestaria a interpretar fenômenos do inconsciente na ausência do paciente? Freud o fez no caso Schreber e na análise da Gradiva, levantando hipóteses sobre processos e fantasias inconscientes através de material escrito. 9 Nas supervisões das sessões psicanalíticas também se exercita a prática do processo clínico e teórico-clínico através de relatos de sessões e vivências trazidas pelo supervisionando na troca de experiências com o supervisor, além da análise e auto-análise do investigador quanto às vivências provenientes da relação dual, quer seja com o paciente quer seja com o material trazido para a supervisão. Essas e outras questões complexas, assim como possíveis interferências na minha identidade psicanalítica, arduamente construída, interligadas ao medo de ter que enfrentar as resistências pessoais, dos colegas psicanalistas e historiadores, excitavam o desejo adolescente do investigador para enfrentar os desafios conceituais e metodológicos, requerendo certa dose de ousadia e espírito pretensioso. O objetivo da investigação era tentar ampliar os conhecimentos e os recursos perceptivos sobre a natureza humana, e não uma mudança de identidade profissional. Tudo isso passa pela cabeça até que se encontre internamente a postura adequada, como parte do instrumental de avaliação. Foi preciso trabalhar interna e psicologicamente as pressões decorrentes das diferentes formas de processar a elaboração mental, com características próprias em cada uma dessas áreas do conhecimento.

Interessado em melhor compreender as transformações impostas pela cultura no adolescer atual e suas transformações a partir de outras épocas, bem como os fatores que interferem nas diferentes velocidades das mudanças comportamentais, na vida afetiva, pulsional e no processo de identificação, era necessário tentar desenvolver recursos que tornassem viáveis esta investigação, principalmente em níveis inconscientes.

À primeira vista, pareceu-nos que Ariès10 não relativiza o desenvolvimento da formação vincular existente entre a criança, os pais e a família como formas relacionais possíveis diante da mentalidade e dos imaginários integrantes daquela cultura. O autor se refere às primeiras relações afetivas de forma pejorativa, sem levar em conta o contexto determinante das características vinculares na constituição do sujeito psíquico daquela época e sociedade.

Em sua proposta de construção histórica do conceito de infância na sociedade européia medieval, Ariès parte de uma reconstituição das práticas sociais cotidianas, e chega mesmo a reconhecer a existência de uma certa “paparicação” da criança por parte da família, embora negue que tal atitude pudesse ter uma função afetiva.11 Todavia, Ariès teve o mérito de focalizar a criança como objeto de estudo do historiador, mobilizando outros historiadores, sociólogos, antropólogos, educadores e psicanalistas a voltarem seus olhares para a criança daquela época. Diante de suas afirmações alguns autores se debruçaram sobre esse estudo para averiguar e recuperar o lugar da infância no processo histórico da civilização, e mais especificamente no seio da sociedade da Idade Média. As idéias de Ariès surpreenderam e serviram de estímulo para esta investigação, mas deve-se fazer justiça e salientar que em 1980 ele teve a coragem e a humildade de se desculpar, confessando em entrevista seus parcos conhecimentos sobre a Idade Média. 12

Lloyd de Mause13, Shulamit Shahar14 e Lett15, entre outros, discordam das teses de Ariès relativas ao lugar da infância na Idade Média. Riché e Alexandre-Bidon16 informam que em 1962 houve a publicação de uma obra sobre educação na Alta Idade Média17; em 1973, um colóquio em Paris - “Criança e sociedade” - e outro em Strasbourg, publicado em 197618; em 1979, um congresso em Aix mostrou as contribuições oriundas dos textos literários19, e em 1985 surge uma obra sobre iconografia e infância “descobrindo o verdadeiro lugar da criança no mundo medieval”20. Quanto à adolescência, não encontramos estudos específicos a respeito21, menos ainda estudos que fizessem uma correlação entre adolescência, história e psicanálise, na busca de uma compreensão maior das transformações do processo biopsicossocial da adolescência na Idade Média.

Em relação ao adolescente, era preciso compreender os processos de passagem para a vida adulta em cada uma das classes sociais e seus segmentos, suas expressividades em relação à mentalidade e aos imaginários do vir-a-ser monge, cavaleiro, artesão, camponês, senhor feudal, clérigo, mulher dentro da família e da sociedade. Persistem, então, as indagações sobre a existência de adolescência na Idade Média vista à luz da psicanálise, quando se sabe da existência de ritos de passagem em diferentes tribos indígenas e em outras culturas arcaicas.

Nas sociedades complexas, judeus22, cristãos e muçulmanos realizam nessa época da vida, cerimônias religiosas que coincidem com o início da puberdade. Essas manifestações estão presentes em vários povos e períodos históricos, como se observa nos comportamentos dos adolescentes da era da informática e da globalização. São fenômenos de expressão psico-social coincidentes com o surgimento da sexualidade adulta, e tudo faz crer que, seja qual for a cultura e a época, o surgimento da sexualidade reprodutora é acompanhado de transformações corporais e comportamentais durante a transição infanto-juvenil, através de linguagens conscientes e inconscientes, presentes nos comportamentos sociais, religiosos e folclóricos que marcam esse momento de passagem.

Schmitt discorre sobre Hermann, um judeu que se converte ao cristianismo, numa idade crítica, próxima dos treze anos, após um sonho que vai definir o resto de sua vida, pondo em evidência o fato de que “ desde aquela época (século XII), a idade aproximativa de treze anos podia bem ser um momento decisivo no crescimento e aspirações de um jovem judeu. A ligação explícita que se estabelece entre o décimo terceiro ano e o sonho que devia aclarar todo o resto da vida chama a atenção diante do fato de que os relatos de milagres ou de exempla situem a conversão de jovens judeus (e judias) no início dessa idade crítica que nomeamos – dando a esta palavra uma carga psicológica que não havia na Idade Média – adolescência.” 23

A etimologia da palavra adolescente ( apresentada com detalhes no próximo capítulo), bem como o conteúdo de textos de várias épocas sobre seu comportamento, permitem levantar a hipótese de que existem manifestações constantes de natureza psicológica em sua forma de ser e agir, passíveis de serem detectadas e evidenciadas pela metodologia psicanalítica, conforme se pretende demonstrar neste trabalho. A análise histórico-social da adolescência pode representar um vértice distinto daquele observado pela psicanálise, mostrando, ambos, aspectos distintos e talvez complementares de um mesmo fenômeno: a adolescência.

As Confissões de Santo Agostinho revelam que na Antigüidade a transição infanto-juvenil já era chamada de adolescência, no mundo de influência latina. As mudanças de comportamento diante da sexualidade emergente, a falta de controle, eram perceptíveis e atormentavam o jovem. Ao redor dos quarenta e três anos de idade, Agostinho escreve sobre os seus dezesseis e focaliza “Os Pecados da Adolescência”. A sensibilidade desse homem permitiu-lhe narrar os sofrimentos vividos, produtos das pulsões sexuais e agressivas emergentes, e conseqüentes ao enfraquecimento de sua capacidade egóica de controle racional e irracional que, na sua linguagem, eram identificadas como forças do mal. Suas reflexões contribuíram para a construção de uma teoria doutrinária e filosófica sobre o pecado e as dualidades entre o homem e Deus, o bem e o mal, o mutável e o eterno, reflexões viáveis quando o fogo sexual da adolescência se atenua, e a capacidade crítico-analítica e reflexiva são retomadas por um ego mais estruturado. Agostinho diz sobre os seus tormentos:

“Quantas vezes, na adolescência, ardi em desejos de me satisfazer em prazeres infernais, ousando até entregar-me a vários e tenebrosos amores! A minha beleza definhou-se e apodreci a vossos olhos, por buscar a complacência própria e desejar ser agradável aos olhos dos homens”.24

É desejável identificar essa fase da vida, e compreender se o que hoje é chamado de adolescência tem correspondência no passado. O homem da Idade Média Central percebia as várias idades da vida e entre elas a adolescência?

O estudo da transição infanto-juvenil é fascinante pela sua vitalidade, complexidade, energia e caráter evanescente, no qual o inefável se faz presente. São aspectos com os quais este psicanalista-pesquisador se identifica pela sua biografia e desafios que representam compreender e lidar com os jovens, que tanta dificuldade trazem nas relações com os pais e professores e nos conflitos que despertam na vida social. Vale lembrar que a juventude é o segmento mais ativo de uma sociedade e nela está o futuro de uma nação. O elevado índice de violência física e moral contra o adolescente e praticada por ele na sociedade contemporânea justifica ir buscar no passado elementos histórico-psicanalíticos que ajudem a ampliar a compreensão do presente.

Essa fase da vida costuma ser vulnerável a múltiplas influências externas e internas, estruturantes e desestruturantes da personalidade na busca de uma identidade adulta. Fase propícia à instalação de muitas patologias. É considerada na atualidade como a segunda e última oportunidade que o indivíduo tem para a re-estruturação de sua personalidade e desenvolvimento de recursos pessoais para sua integração à realidade que o cerca.

Para tanto, torna-se necessário procurar alcançar o conjunto de fatores histórico-culturais e estruturais da mente humana, de curta e longa duração, que agem na construção das diferentes formas de expressão daquilo que se passa no mundo inconsciente nessa fase da vida. É importante determinar quais as influências recíprocas existentes entre os processos históricos e a formação das mentalidades e dos imaginários na construção da subjetividade individual e coletiva de cada cultura, como contribuição ao estudo da interface cultura e psicanálise, e conseqüentes repercussões sobre a constituição do sujeito e da coletividade.

A psicanálise tem demonstrado, através de sua metodologia de investigação, características fenomenológicas e microscópicas do processo de identificação dessa fase de transição para a vida adulta. A necessidade de elaboração dos conflitos edípicos dentro das características culturais de cada sociedade e época, através de ritos de passagem ou diluídos em comportamentos nem sempre identificados como tais, está presente nas mentalidades dos jovens de hoje e do passado.

Dessas inquietações surgiu um profundo interesse investigativo pelas características da transição infanto-juvenil em outra época histórica. Para percorrer o caminho que aqui se inicia, imaginou-se proceder a um estudo histórico-psicanalítico da questão, buscando delinear as possibilidades de satisfazer este interesse científico de compreensão não apenas dos hábitos, costumes e comportamentos, mas das angústias, temores e desejos dos adolescentes medievos do Ocidente europeu, berço do pensamento ocidental contemporâneo. Afinal, um estudo histórico-psicanalítico permite perguntar: Os adolescentes de mil anos atrás são os mesmos adolescentes de hoje? O que muda? O que é constante?

Diante dos controles sociais existentes em cada época, indaga-se o que teria variado no psiquismo humano: a constituição do aparelho psíquico, o significado simbólico dos desejos, a ética, nada mudou? Ou essa confrontação sequer é possível?

Reclama-se que os jovens de hoje são agressivos, barulhentos, mal educados, arrogantes, instáveis, passivos, impulsivos, desinteressados em relação ao futuro; que só querem se divertir e estão voltados para a vida sexual. Seriam esses comportamentos tão diferentes daqueles dos jovens adolescentes medievos? Quais seriam as motivações profundas em relação à sexualidade e à agressividade naquela época? Haveria uma busca de definição de uma identidade adulta? Teriam ambições e ideais, desejos ocultos, medos, coragem, transgressões? A masturbação era um fenômeno presente? Quais seriam os mecanismos defensivos prevalentes diante das ansiedades existenciais da época? Passariam pela resolução dos conflitos edípicos como os jovens da atualidade? Qual a relação dos jovens com a família e com a sociedade?

O estudo da adolescência na Idade Média é exíguo e dificultado pela carência de registros documentais. Quanto mais se retrocede no tempo, menos os jovens escreviam e se escrevia sobre os jovens. Entretanto, sabe-se da importância que os gregos davam à Paidéia25 como processo educacional, preparando seus jovens para integrarem com eficiência, sabedoria e estética a vida societária nas cidades.

A investigação de características das subjetividades a partir de um referencial histórico-psicanalítico da Idade Média pode ajudar na compreensão de certas características do homem contemporâneo e de suas áreas de conflito interno e no meio cultural, a partir do que pode ser observado na constituição do sujeito psíquico de cada uma dessas épocas.

Sente-se nos jovens do presente heranças do passado, cujo futuro poderá ser contado como história; ou, como diz Franco Júnior: “História é uma compreensão do passado para se lançar luz sobre a compreensão do presente” 26.


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