Um monge no divã1



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Para a realização deste estudo é preciso deixar claros alguns conceitos de ordem histórico-psicanalítica que servem de alicerce para o seu desenvolvimento: a constituição e construção do sujeito psíquico, subjetividade, mentalidade, imaginário, identidade. São condições que sempre estiveram presentes na construção do homem simbólico, em níveis inconsciente e consciente, mobilizadas por uma necessidade de alcançar uma identidade e inserção social através do processo de identificação. “A identificação é conhecida em psicanálise como a manifestação mais precoce de uma relação afetiva com outra pessoa, e desempenha um importante papel na pré-história do complexo de Èdipo”. 27

Com a evolução histórica do conhecimento, tais questões passaram a ser discriminadas, nomeadas e transformadas em conceitos que alimentam, ampliam e modificam as percepções do homem sobre si mesmo e sobre o mundo que o cerca; mundo do qual ele é membro integrante, sofre suas influências e o modifica a partir de suas capacidades relacionais.


No livro A Interpretação dos Sonhos, Freud elaborou um modelo de funcionamento mental denominando-o aparelho psíquico; não do ponto de vista anatômico, mas como uma capacidade humana de transmitir e transformar energias, diferenciando-as em sistemas. Através da elaboração psíquica, da atividade simbólica, do jogo de investimentos e desinvestimentos, essa energia permite o funcionamento desse “aparelho” dentro de princípios próprios de funcionamento como princípios de prazer, da realidade e de constância.28

Bleichmar, a partir de Freud, considera que a produção da constituição psíquica “está dada por variáveis cuja permanência transcende certos modelos sociais e históricos, e tal produção é determinada por variáveis que podem ser delimitadas dentro de seu campo conceitual específico. A produção da subjetividade, por sua vez, inclui todos aqueles aspectos que pertencem à constituição social individual em termos de produção e reprodução ideológica tanto quanto de articulação com as variáveis sociais que o inscrevem num tempo e espaço específico do ponto de vista da história política”. 29

Entende-se por sujeito a pessoa em sua totalidade histórica e individualizada, egóica, em oposição ao conceito de objeto relacionado com o mundo externo, como foi conceituado por Freud. 30 Klein aprofundou o conceito de mundo interno e criou as noções de objeto total e parcial, entre outros componentes da realidade psíquica integrantes da constituição do sujeito e de sua subjetividade.31

Em carta enviada à B’nei Brit pela homenagem que lhe foi prestada pelos seus 70 anos, Freud referiu-se à sua ligação ao judaísmo falando de: “intensas potências sentimentais obscuras, tanto mais poderosas quanto mais difíceis de expressar em palavras; a clara consciência de uma íntima identidade, a secreta familiaridade de possuir uma mesma arquitetura anímica 32. Em outras palavras, Freud está dizendo que existe uma certa maneira de sentir, pensar e agir que faz parte do consciente ou inconsciente comum de um determinado grupo social.

O que é estável ou lentamente mutável e o que é variável no tempo perceptível dessa arquitetura anímica?

De acordo com Franco Júnior, a história psicossocial propõe um conceito complementar àquele proposto por Freud, ao sugerir que a mentalidade “indica o primado psicológico nos seus aspectos mais profundos e permanentes, mas sempre manifestados historicamente, dentro e em função de um determinado contexto social, que por sua vez passa a agir a longo prazo sobre aquele conjunto de elementos psíquicos coletivos [...] os significantes (palavras, símbolos, representações) que o imaginário utiliza alteram os significados (conteúdos essenciais) da mentalidade, decorrendo disso a dinâmica dela”. 33 O autor sugere quatro traços básicos da mentalidade: 1- a interseção entre o biológico e o social; 2- a relação entre as emoções primitivas e uma forma específica de racionalidade, como certos estados mentais presentes em sociedades como a medieval, com predomínio do pensamento analógico; 3- a predominância dos fatores biopsíquicos na mentalidade, o que faz dela “o nível mais estável, mais imóvel das sociedades”, revelando seu papel de “inércia, força histórica capital; 4- a abrangência: uma vez que constitui o conjunto de automatismos, de comportamentos espontâneos, de heranças culturais profundamente enraizadas, de sentimentos e formas de pensamento comuns a todos os indivíduos, independentemente de suas condições sociais, políticas, econômicas e culturais, a mentalidade é a instância que abarca a totalidade humana. Realça a impossibilidade de o estudioso ter acesso à psicologia coletiva profunda de um período, visto que suas transformações são de longuíssima duração, com seu ritmo quase inerte. O que se pode dela detectar são fragmentos expressos culturalmente, através dos imaginários reveladores de como cada situação da mentalidade é vivenciada e pensada. 34

Nesse sentido, pensamos que a adolescência, processo dinâmico em evolução, é continente de uma mentalidade vivenciada e expressa segundo as características do imaginário de cada cultura ou grupos que a constituem. A mentalidade é o conjunto estável de elementos psíquicos inconscientes e conscientes que caracterizam o sentir, o pensar, e o agir do adolescente que se expressa através dos seus imaginários. As manifestações de um e de outro podem ser captadas através dos tipos de raciocínio, manejo e conceitos das palavras, dos signos, dos significados das relações temporais e espaciais, que se preservam, uns, no longo tempo da história; outros, que sofrem lentas e progressivas transformações nas suas transmissibilidades. Esses movimentos de curta, longa e longuíssima duração resultam das ações recíprocas existentes entre a constituição biológica, o sujeito psíquico, o grupo social, a cultura e a sociedade. Eles podem ser perscrutados, em alguns dos seus aspectos, pela análise das relações entre o texto e o contexto, segundo as concepções de Foucault e Guirado. 35

Esses processos estruturais, econômicos e dinâmicos do aparelho psíquico, em sua interação com a realidade externa e objetiva, configuram os eventos e as memórias históricas que compõem a vida, que sofrem as pressões das motivações pulsionais, através dos desejos e das fantasias que mobilizam tanto o consciente quanto o inconsciente. O aparelho psíquico e suas leis vivem numa luta constante na busca de estados de equilíbrio interno, ahomeostase psíquica”, em sua relação com o meio exterior.

Através desse processo complexo constrói-se a identidade do sujeito psíquico. Fenômeno estruturante que tem lugar no ego, e através do qual são elaborados certos componentes incorporados que dão “lugar a uma matriz identificatória”. Para Grinberg, esse processo que ocorre dentro do self (ego) tem por base a seleção, inclusão e eliminação de elementos provenientes dos objetos externos, dos objetos internos e de partes do próprio self, a partir de fenômenos de internalização, externalização e identificação projetiva. 36

O estudo da formação do sujeito e de sua subjetividade através da análise do processo de identificação implica acompanhar o desenvolvimento desse processo cujo início ocorre antes mesmo do nascimento do indivíduo, através do filho imaginário que os pais carregam dentro de si. Esse processo prossegue nos anos subseqüentes com aquisições e transformações, e configuram o conceito social das idades da vida.

Portanto, alguns dos objetivos deste trabalho é identificar se há correspondências entre a fase de transição da infância para a vida adulta na Idade Média e aquela que hoje denominamos adolescência, através do desenvolvimento do processo de identificação de Guibert. Para alcançar este objetivo foi preciso analisar documentos e levantar bibliografias que refletissem aspectos da vida interior e relacional do indivíduo desde a infância até sua entrada na vida adulta, na Idade Média Central. Requereu também conhecer alguns aspectos da sociedade medieval que evidenciassem as estruturas e as dinâmicas sociais prevalentes quanto à vida familiar, aos processos educacionais das crianças e dos jovens, aos valores religiosos, éticos e morais, aos manejos da sexualidade, ao encontro de manifestações comportamentais e ritos presentes na transição infanto-juvenil. O estudo de documentos religiosos, jurídicos, médicos, pedagógicos, manifestações artísticas e folclóricas no período histórico focalizado foram as possibilidades encontradas para tentar alcançar alguma compreensão analógica e racional de certas estruturas e dinâmicas psicológicas.

A aplicação da metodologia e das teorias histórico-psicanalíticas contribuíram para esclarecer aspectos do inconsciente, presentes no indivíduo e na coletividade, com maior enfoque sobre a adolescência e sua inserção no contexto histórico-cultural da Idade Média Central.

A utilização dos recursos da psicanálise contemporânea possibilita, através de sua metodologia de observação e teorias, identificar características microscópicas da personalidade ligadas às vicissitudes da vida pulsional, da re-organização egóica, da prevalência de certos mecanismos defensivos do ego, dos lutos, da re-elaboração dos conflitos narcísicos e edípicos, das re-definições das escolhas objetais. Processos que ocorrem durante a aquisição e desenvolvimento de potencialidades cognitivas, afetivas e sociais, na busca da identidade adulta, entre outros processos psíquicos conscientes e inconscientes, observáveis na adolescência atual, e que poderão vir a ser detectados no adolescente da Idade Média Central.

Imaginamos ser possível extrair contribuições a partir do estudo específico de um caso, a autobiografia de Guibert, e sugerir algumas generalizações sobre o próprio método e o processo de identificação naquela época.

Os jovens, durante a transição infanto-juvenil na Idade Média Central, tinham comportamentos socialmente caracterizados como flutuantes, inflamados, indisciplinados, abusivos de si, de tudo e de todos37, assim como têm sido descritos em outras épocas da história da civilização.38

A investigação histórico-psicanalítica da adolescência envolve questões conceituais e metodológicas múltiplas em cada uma dessas áreas do conhecimento humano, condição geradora de um espaço comum, uma inter-face, com interferências recíprocas entre sujeito e cultura, privado e público, individual e coletivo. Tais objetos, para cada um, historiador e psicanalista, o mesmo e outro, sugerem a busca de conceitos e métodos que se complementem dentro de limites a serem construídos, como nos transmitem Bloch39, Friedlander 40, Febvre41 e Gay 42.

Na inter-face histórico-psicanalítica deste caso clínico estuda-se a história privada, a biografia, as situações traumáticas e suas repercussões, as articulações entre vários eventos e sistemas internos e externos ao sujeito e seu contexto, que, deslocados no longuíssimo tempo, permite falar de uma mentalidade medieval, que carrega em seu passado a presença de outros tempos inseridos na história da subjetividade, do imaginário e da imaginação, condensados nos objetos desta investigação.

Costuma-se dizer que o “adolescer” equipara-se a um segundo nascimento, visto que as ansiedades e muitos dos movimentos psíquicos desta fase da vida são inerentes ao início da vida psíquica e reeditados com grande intensidade durante a adolescência. Ou, como diz Ferrari, O segundo desafio, uma oportunidade de re-organização da personalidade no vir a ser adulto. 43 Esses mecanismos primitivos da mente nunca deixam de existir, preservados na memória inconsciente, recalcados ou reprimidos, e que, em determinadas condições psico-históricas - fixação, regressão, trauma, fragilização do ego, etc. - podem se manifestar na conduta humana. Os princípios prescritos pela metapsicologia freudiana facilitam a compreensão dos vários processos presentes nesses fenômenos.

Existem, é verdade, na história da psicanálise e na história da história opositores a essa tentativa de aproximação de áreas distintas do conhecimento humano. Gomes Penna faz considerações sobre Freud, a história e a psicologia histórica, e salienta a falta de unanimidade entre os autores. 44 Segundo esse autor, uns valorizam os aspectos culturais das transformações psicológicas, enquanto outros põem em evidência aspectos constantes e universais da natureza humana.

Do nosso ponto de vista, dentro dos conhecimentos atuais das ciências biológicas e humanas, há uma tendência que se configura ao se perceber a reciprocidade das interferências entre fatores externos e a expressividade gênica, nos quais o aleatório e o imprevisível também fazem parte. O processo histórico está sempre presente na configuração do sujeito humano e psíquico, mas as transformações que ocorrem no decorrer do tempo possuem diferentes velocidades e intensidades. Umas são muito rápidas, se transformam como as mudanças de moda, outras são muito lentas, de longuíssima data e podem adquirir um caráter atemporal, como se fossem a-históricas, permanentes e imutáveis. Jaguaribe sintetiza esse pensamento ao afirmar que: “A forma pela qual um rei assírio reage à destruição de seu reino é exatamente igual à forma pela qual um rei moderno, um chefe de Estado ou governo moderno reagem. As grandes reações observáveis no curso da história, no que diz respeito a motivações fundamentais da psicologia humana, permanecem absolutamente constantes”.45 Essa expressão “absolutamente constante” é o que estamos chamando de a-histórica ou atemporal. A mentalidade enquadra-se entre aquelas manifestações que variam tão lentamente que só podem ser percebidas voltando-se o olhar para o passado longínquo e remoto. A existência da adolescência, sugerimos, enquadra-se nessa condição. As variâncias são configuradas pela expressividade da relação histórica entre as questões constitucionais, psicológicas e o contexto histórico-cultural.


Vinhetas do texto original, em francês, da narrativa de Guibert de Nogent e alguns comentários histórico-psicanalíticos
P. 41 “de fait j’embrassai vite ces mêmes lettres que l’ on m’ inculquait si mal, sans pour autant me dérober aux offices ecclésiastiques; au contraire, dès que l’ heure sonnait ou que besoin était, je ne préférais jamais rien, même les repas, à une telle occupation. Ainsi en était-il alors; mais depuis ce temps, tu sais bien, mon Dieu, à quel point je me suis détourné de ces résolutions, comment je ne m’ employai plus dorénavant au service divin qu’avec répugnance, et que même poussé par des coups je n’y consentis que difficilement.”

Algo começa a se passar na vida interior de Guibert que o leva a oscilar rapidamente em seus desejos, quanto ao interesse e à intensidade com que ele se envolve no estudo do latim e à dedicação aos ofícios eclesiásticos, ora com apego, apesar das agressões, ora se desinteressando daquilo que ele tanto desejava. Isto leva a pensar que ele pode estar vivendo o final do período de latência e o início da puberdade. Essas oscilações expressam as oscilações que ocorrem na vida pulsional no início do processo de adolescer.



P. 43 “Mais lorsque ma jeunesse, bientôt épuisée par la germination d’une perversité innée, se fut précipitée dans l’abandon de toute retenue, cette première dévotion allait s’évanouir complètement. O mon Dieu, quoique la bonne volonté, ou plutôt une apparence de bonne volonté, ait semblé pour un temps s’enflammer en moi, elle disparut bientôt, obnubilée par l’ averse des pensées les plus détestables.”46

As aparências de um menino de boa vontade e resignado desaparecem. O ego se enfraquece e é consumido pelo fogo das pulsões que obnubilam sua mente, invadida por pensamentos, os mais detestáveis, frutos da emergência de fantasias arcaicas mobilizadas pelas pulsões agressivas e sexuais. Estas fantasias tendem a trazer em seus conteúdos aspectos da vida primitiva orais e anais sádicas, à figura combinada dos pais, aos traumas infantis, às vivências terroríficas conseqüentes às suas condições de nascimento. A experiência da clínica psicanalítica mostra que, quanto mais conturbados forem os dois primeiros anos de vida do sujeito, mais intensa e complexa será a crise da adolescência.

Conforme evidencia Klein, e em minha própria experiência, o equilíbrio psíquico se quebra e somente se restabelece, de forma relativamente estável, depois de atravessado o período da puberdade e a crise da adolescência. A partir de então, o ego e o superego podem trabalhar em consonância para a aquisição e criação das competências e valores da vida adulta, graças à capacidade adaptativa a um mundo mais vasto interior e externo, do qual o jovem reconhece as exigências. As regras, novas ou não, que emergem em seu sistema de valores são provenientes de seus próprios valores internos, independentes e pessoais, na busca de auto-afirmação e encontro da própria identidade. O jovem deixa de exibir sinais de que esses valores lhe foram impostos por seus objetos. 47

Guibert retrata a percepção das vivências decorrentes da “crise da adolescência” que interferem na totalidade física, psíquica e social da pessoa. Período em que o imaginário sofre transformações, apesar das heranças culturais herdadas. A imaginação tende a tomar conta do sujeito que pode ficar à mercê de sua própria produção, devido às intensas pressões pulsionais. Entretanto, a avidez por novos modelos identificatórios e por experiências cognitivas, afetivas e sociais fazem com que o ego fragilizado sofra a influência de fatores externos distintos daqueles provenientes dos pais da infância. As intensas pressões pulsionais se refletem no coletivo, nos jogos, nas canções, nas atitudes, nas motivações. A vida onírica sofre as influências desse momento de maior presença e expressividade da vida pulsional, decorrente do surgimento da sexualidade adulta e das transformações corporais que a acompanham. O ego fragilizado torna-se vulnerável a influências externas construtivas e destrutivas de sua personalidade. É um período que se caracteriza pela impulsividade agressiva e sexual, baixa tolerância à frustração e forte componente narcísico.



P. 43 “O mon Dieu, quoique la bonne volonté, ou plutôt une apparence de bonne volonté, ait semblé pour un temps s’enflammer en moi, elle disparut bientôt, obnubilée par l’averse des pensées les plus détestables”.

O ardor da adolescência ora se inflama ora desaparece, e assim os pensamentos que acompanham essa oscilação do humor e dos desejos. Guibert se vê assolado por idéias e critica as de sua mãe:



P. 43 “Ma mère s’ingéniait alors en vue de m’installer à tout prix dans un bénéfice ecclésiastique. Or, le premier moyen qui se présenta se révéla mauvais, et même abominable.[...] certaines personnes de ma parenté lui suggérerènt de me donner un canonicat ou, comme l’on dit, une prébende en l’église du lieu[...] en échange, mon frère cesserait ses lassantes réclamations”.

Essas críticas surgem como decorrência dos desejos que ela tem de conseguir-lhe uma prebenda na igreja local, em desacordo com a forma de pensar de Guibert. O aspecto a ser salientado é que essa talvez seja a primeira manifestação crítica, explícita que ele faz à sua mãe. Ela tenta equacionar uma forma de lidar com ele e tranqüilizar o irmão queixoso que trabalha para um senhor feudal. Guibert vê na atitude materna uma manipulação e troca de interesses que contrariam seus princípios. Esses pensamentos sugerem a maturação e a ampliação das áreas de interesses sociais, de trabalho, postura, princípios diferentes daqueles que Guibert vinha mostrando, mais compatíveis com uma criança menor.

Verifica-se que há uma mudança aparentemente rápida, um salto, quando Guibert passa a falar de suas mudanças de humor, a criticar sua mãe, as condutas de alguns, a busca de uma sinecura, questões ligadas à sexualidade. É possível que a distância entre os episódios relativos ao início do aprendizado do latim e os atuais possa ter durado meses ou anos. De qualquer forma, Guibert revela o surgimento de novos campos de interesse, um distanciamento das idéias de sua mãe, pensamentos críticos, oscilações de desejos e de humor que sugerem a existência de um afastamento das imagos parentais e pessoais da infância. Vale lembrar que, naquela oportunidade, Guibert apresentava-se revoltado, mas não contrariava sua mãe e continuava se submetendo às orientações dela. As situações relacionadas à sinecura podem estar, com muita probabilidade, relacionadas ao início dos processos de luto pela perda das imagos infantis, pessoais e parentais. Processos de perdas da imago corporal e dos pais da infância, estado em que se dá a eclosão da puberdade/adolescência, com suas transformações físicas, psíquicas e sociais, como as que Guibert vem relatando. São processos conseqüentes à emergência da atividade pulsional da vida adulta, cujas primeiras manifestações se fazem presentes através das alterações de comportamento e dos campos de interesses.

P. 45 “lequel s’adonnait si bestialement à l’oeuvre de Vênus qu’il assouvissait sur-le-champ son désir de n’importe quelle femme. Par contre, en ce qui regardait le clergé, il se déchaînait en vue de l’application desdits canons avec une telle ardeur qu’on l’eût dit poussé par une exceptionnelle chasteté à réprouver semblables pratiques. Laïc, il était incapable de se plier aux lois qui le concernaient: plus larges elles étaient, plus honteusement il les transgressait”.

O tema sexualidade, o interesse por questões ligadas ao casamento e ao sexo oposto começam a surgir na mente do jovem Guibert. O ardor da juventude se faz presente, e ele relata que esse primo desejava obter uma autorização falsa, que lhe conferiria a condição de abade dessa igreja, contando com o apoio de Guibert; em contra-partida, apoiaria Guibert na posse de uma prebenda.



P.43“épuisée par la germination d’une perversité innée.

Os núcleos perversos, psicopáticos, psicóticos e psicossomáticos, costumam emergir durante o processo adolescente atual. Eles decorrem da fragilidade egóica, dos fenômenos regressivos, dos estados psíquicos primitivos, da prevalência de cisão, identificação projetiva maciça, negação, dificuldades de expressão dos conflitos por limitações lingüísticas inerentes ao processo evolutivo, com liberação da atividade superegóica e invasão do ego por aspectos arcaicos da mente. Ainda que os conceitos do psicopatologista e de Guibert sobre perversão sejam distintos, o denominador comum está na emergência de núcleos profundos e arcaicos da mente que vêem à tona durante a crise da adolescência. São núcleos que podem desencadear e estruturar quadros psicopatológicos, com reações comportamentais intensas, cujas seqüelas dependerão de elementos da personalidade de base, do histórico do sujeito, do meio e da cultura à qual ele pertence. Esses núcleos primitivos entram em conflito com os núcleos atuais, produzidos pelas novas aquisições, e que sofrem as pressões dos anteriores na construção de uma nova ética e moral. 48 Não cabe nesse trabalho discutir os conceitos psiquiátricos e psicanalíticos de perversões, psicoses e psicopatias, mas pode-se admitir que esses termos expressam um sentimento negativo do funcionamento mental humano nos seus aspectos psíquicos ou morais, independentemente do momento histórico no qual eles se passam.

Ao retratar sua percepção sobre a ética, moral e psicologia do mundo em que vive, Guibert revela a construção de um aspecto particular de sua subjetividade, dos novos valores e psicologia que se estabelecem em sua identidade, diferentes daqueles promulgados por sua mãe, na medida em que vai conquistando seus espaços próprios.

Muitas figuras importantes daquela sociedade, durante a adolescência de Guibert, despojaram-se de suas riquezas e poderes para destinar suas vidas à Igreja. Jovens como ele, que estavam na carreira militar, também abandonaram a carreira para dar outro rumo, monástico, às suas vidas. 49

Guibert diz que o ex-conde tratava-o com afeição e consideração, como se fosse membro de sua família:

P. 59 “car il me témoignait grand respect, bien que je fusse encore un simple adolescent, et il me considérait comme de sa parenté; je fus comblé par lui de marques toutes particulières d’affection et d’égards”.

Essa empatia tornava-os irmanados dentro dos imperativos que constituíam aquela lógica social. O parentesco espiritual era parte dos objetivos universalistas da Igreja, que idealizava a existência de uma irmandade única, na qual todos estariam unidos em Deus.



P.75 “Étant encore à peine nubile, elle avait été (P.77) accordée par les soins de mon aïeul à mon père, lequel n’était pas moins jeune qu’elle.”50

Nessa frase, Guibert identifica sua mãe como muito jovem, mal tendo entrado na idade núbil, o que significa que ela está pronta para a reprodução, pronta para se casar. Pode-se entender que a idade dessa jovem ao se casar fosse muito próxima da menarca, isto é, entre os doze e os quatorze anos, quando ela é entregue pelo avô em casamento. Guibert utiliza a expressão latina ”prorsus adolescenti”, completamente adolescente. Évrard, pai de Guibert, deveria ter aproximadamente essa mesma idade, talvez um pouco mais velho, se considerarmos que a produção seminal ocorre entre quatorze e dezesseis anos. Guibert deixa claríssima a percepção da adolescência como uma fase muito próxima da pueritia / pubertates, com o início da sexualidade adulta.

Guibert tem plena percepção da psicologia sexual da adolescência, do seu desenvolvimento quanto à emergência do vigor das pulsões que surgem abruptamente nessa fase da vida, e cujo controle mental lhe fora muito dificil. Fala com tanta nitidez sobre esse aspecto de sua mãe, que nos leva a pensar o quanto ele estava identificado com os conflitos e encaminhamentos dados por ela em seu imaginário. Essas elaborações tão vivas de Guibert devem estar tingidas por suas próprias vivências ao narrar estes fatos:

P.79“C’est grâce à toi que ses moeurs, malgré l’âge tendre, ne furent pas corrompues par la pénétration des mauvaises conversations, et ceci bien que de l’huile fût jetée sur le feu, je veux dire bien que les séductions extérieures s’ajoutassent aux mouvements instinctifs qu’il est humain, et normal, de ressentir. Pourtant l’âme de cette jeune vierge, toujours en mesure de se contenir, n’était détournée par aucun stimulant[...]car, alors qu’elle se trouvait dans toute l’ardeur du jeune âge, et continûment placée dans l’état conjugal, tu l’as maintenue sept ans entiers dans un si parfait état de continence[...]même la voix publique craignait de mentir à son sujet”.

A clareza dos pensamentos de Guibert apenas confirma sua experiência vivencial e conceitual da adolescência, não se trata de uma elucubração teórica a respeito. Agora, na velhice, num momento de confissão, desabafo e denúncias, ele abre seu coração, abre-se o homem interior, atenuada a censura e o fogo das próprias paixões, para ser apenas o homem maduro, cônscio de sua natureza humana.

Vimos em Confissões de Santo Agostinho uma descrição nítida dos sentimentos e angústias vividos nessa fase da vida. Guibert produz sua versão. Constata-se que, passados seis séculos, ele pode reconhecer em Agostinho aquilo que hoje somos capazes de reconhecer em Agostinho e em Guibert, pois a adolescência também está presente em nós.

A sabedoria popular medieval era capaz de reconhecer as agruras e as dificuldades por que passavam os jovens para se controlar nessa idade, mas o controle daquela jovem era admirável:“même la voix publique craignait de mentir à son sujet”. Não faltam histórias para serem contadas sobre descontroles, as gradeiras, monjas que surgiam misteriosamente grávidas, vivendo reclusas em conventos. Pode-se arriscar, com muita probabilidade, que eram jovens tomadas pela fome do desejo.51



P. 107/109 “ Je m’emparai alors fâcheusement de ma liberté, je me mis à abuser du pouvoir qui m’était laissé, ne gardant aucune retenue; je me moquai de l’église, pris l’école en horreur et recherchai la compagnie de jeunes cousins, des laïcs engoués d’exercices chevaleresques. Je me promettais la rémission de mes fautes tout en maudissant les signes de ma cléricature; enfin je m’abandonnai au sommeil, que l’on ne m’avait précédemment accordé qu’avec parcimonie; mais un tel abus, si insolite, m’anémia.”

Esse momento de intensa ruptura familiar coincide com a entrada de Guibert na puberdade, e contribui para intensificar o adolescer do menino, que vive de forma abrupta a separação real e concreta das figuras parentais, como também das imagos parentais e pessoais da infância. Essa ruptura interna e externa é própria do adolescer, e gera movimentos psíquicos característicos, com o predomínio de sentimentos ambivalentes em relação às imagos até então estruturadas e estruturantes da vida infantil. Guibert liberta-se dos valores, das ambições monásticas, dos compromissos assumidos por seus pais e por ele mesmo durante a sua infância diante da Virgem, e entra em um estado predominantemente maníaco e de negação, como forma de se proteger de sentimentos depressivos anteriormente estabelecidos e dos atuais, gerados pelo novo abandono.

Na impossibilidade de controlar seus desejos e os dos adultos, vê-se dominado por fantasias onipotentes, de despojamento do acervo de valores adquiridos durante a infância. Nega a realidade de ainda ser parcialmente dependente, e a circundante que o direciona para a vida clerical. Idealiza radicalmente a liberdade, a irresponsabilidade e a necessidade de avaliação das conseqüências de seus atos pessoais e sociais e é assolado pela instabilidade comportamental e de humor, dominado pela impulsividade, com incremento da ambivalência e da negação da temporalidade. A vida pulsional toma conta dele, frente à fragilização do ego e conseqüente emergência dos aspectos espontâneos e autênticos da personalidade, com o surgimento de desejos de aventuras e desafios, arrogância e auto-afirmação do adolescente.

Guibert passa a desprezar as autoridades parentais da infância e aquelas substitutivas dos pais – seus familiares –, assim como a vida religiosa. Realiza um conjunto de movimentos afetivos e comportamentais reveladores da busca de novas experiências emocionais e de suas possibilidades físicas e corporais. Nesse período, que oscila entre grande atividade física e apatia, cujo denominador comum é a instabilidade emocional, quando sente que os transtornos físicos ou psicossomáticos o enfraquecem. Tudo isso ocorre graças à intensa atividade hormonal e ao desenvolvimento das características corporais e fisiológicas da maturação biológica chamada de puberdade, e das transformações psicológicas e sociais que compõem a adolescência de Guibert.

Guibert prossegue em seu processo associativo e comenta as preocupações de sua mãe diante de seus comportamentos, bem como as medidas que foram tomadas diante do seu descontrole:

P.109 “Ainsi me comportais-je de façon d’autant plus désinvolte, voire extravagante, que ma vie avait été auparavant plus étroitement controlée.”

Sua mãe distante e preocupada com os comportamentos do filho procura o abade –

mantido na função com a ajuda do avô de Guibert – e obtém dele e da comuniudade permissão para que o pedagogo retome a educação de Guibert, que é acolhido no mesmo monastério.52 Surpreendentemente, diante da decisão de ir para o convento, Guibert tem uma reação de intensa devoção e o desejo de seguir a vida monástica é resgatado:

P. 109 “Je te prends à témoin, mon Dieu, toi qui à mon égard avais prévu ces saintes dispositions, de ce que, dès l’instant où j’entrai dans l’église de ce monastère et vis les moines assis côte à côte, ce spetacle m’inspira un si grand désir de l’état monastique que cette envie ne cessa plus de bouillonner en moi. Mon âme n’allait plus trouver de repos tant que l’accomplissement de son voeu ne serait pas obtenu”.

A decisão impulsiva de Guibert é contrastante com seu comportamento anterior. O radicalismo de sua atuação fala a favor da impulsividade e da oscilação de humor - tendências constituintes dessa fase de desenvolvimento, marcada por paixões contrastantes.



P.113“En outre, je me trouvai subitement animé d’une si grande passion de m’instruire que je n’eus absolument plus aucune autre aspiration [...] Oh1 combien de fois on a pu croire que je dormais, que mon corps délicat se tenait bien au chaud sous ses draps, alors que mon esprit était torturé par le besoin de s’exprimer, ou bien que je lisais quelque ouvrage, à l’abri de ma couverture, par crainte des commentaires d’autrui”.

Essa oscilação de desejos manifestada por Guibert é bem típica da adolescência que se conhece na atualidade. Esse trecho despertou no psicanalista a rememoração de momentos de sua adolescência e da clínica psicanalítica, com humor e nostalgia, pelos atos e fantasias que se passaram, muitos sob as cobertas. É um passado presente que Guibert desencadeia mil anos depois, e cujos temores em relação às críticas dos colegas ou dos pais são ainda muito atuais, a despeito de todo o esclarecimento que hoje existe. Há um sentimento concomitante de desafio e de pudor, um receio de ser percebido como diferente pelo outro ou fora do grupo.

O ato de transgredir parece ser um elemento peculiar da mentalidade dessa fase do desenvolvimento, e pode ser absorvido pela cultura, dentro de seus rituais, ou diluído em comportamentos como o descrito por Guibert. Transgredir é se contrapor ao stablishment na sua busca inconsciente de auto-afirmação e de suas próprias leis e determinações.

P.113 “Ce qu’ils prédisaient comme devant m’advenir dans l’âge mûr, je croyais en fait que j’y parviendrais dès l’adolescence et la prime jeunesse”. 53

Ele tem a percepção de que há um processo gerador do desenvolvimento e da necessidade de se dedicar para satisfazer sua ânsia, e que muito do que ocorre posteriormente na vida depende de como a vida é vivida na adolescência e no início da juventude. Essa dedicação aos estudos tem também um componente defensivo contra os desejos vividos como ameaçadores.

Guibert discrimina com muita clareza a existência de fases distintas do desenvolvimento humano e de características específicas das várias fases da vida. Estes dados demonstram que a adolescência não é um fenômeno exclusivamente sócio-econômico-cultural. Esse fenômeno depende basicamente das características específicas da mentalidade nessa fase do processo maturativo, em conjunção com questões sócio-econômico-culturais, cuja resultante dá a especificidade e o colorido da adolescência em cada cultura, inclusive em relação ao seu tempo de duração.

P. 115 “Mais notre vieil ennemi, qu’une longue expérience a instruit en vue de s’adapter à la diversité des états d’âme ou des âges, notre ennemi, dis-je, inventa de nouveaux combats à la mesure de mon esprit et de mon corps d’enfant. Il introduisit dans mon sommeil très fréquemment, se présentant aux regards de ma pensée, des images de personnes défuntes, et tout particulièrement de telles que j’avais en quelque lieu vu mourir par l’épée...”

Guibert salienta a existência de um movimento involuntário da mente, sobre o qual ele não tem controle e que invade sua vida, corpo e mente infantis. Penso que ele se refere à presença da vida pulsional, agressiva e amorosa, que durante o sono, favorecida pelo enfraquecimento da consciência e dos mecanismos de censura, traz à tona manifestações da vida sexual e agressiva. Os inimigos que retornam são manifestações de desejos reprimidos, inclusive a preocupação com a morte, não somente de objetos internos da infância, mas a morte em si e suas relações com o Juízo Final e a salvação.

Os inimigos presentes nas visões, sonhos e pesadelos, mobilizados por imagens da vida cotidiana, estimulam conteúdos latentes que emergem nos sonhos mobilizados pelos restos diurnos. Esses, por sua vez, mobilizam outros desejos reprimidos e excitam a mente na busca de meios de vazão da vida pulsional, mobilizados por aspectos espontâneos e em sintonia com o self. Guibert necessita estruturar seu ego para aprender a lidar com essas lutas internas-externas, mobilizadas pela dialética das pulsões de vida e de morte, como Freud explicitou em “Além do Princípio do Prazer” 54:

P.115 “Ces apparences terrifiaient tellement mon esprit plongé dans le sommeil que, pendant la nuit(P.117) si je n’avais eu l’aide vigilante de mon maître déjà mentionné, j’aurais difficilement pu me maintenir au lit, ou m’empêcher de pousser des cris: à peine pouvais-je commander à mes sens”.

Para construir o seu próprio eu, Guibert necessita matar interna e inconscientemente aqueles que assolam sua mente. Ele vive os lutos pelas perdas dos objetos e das imagos da infância: perdas dos pais da infância, da imagem corporal da criança e de seus próprios valores infantis. É nesse processo que surge a fragilização do ego e a emergência de aspectos primitivos e intensos que até então estavam fortemente reprimidos. Nessa fase surgem quadros de depressão, suicídio, distúrbios mentais, drogadição, pensamentos fanáticos, oscilações de tendências na busca da identidade de gênero. É, portanto, um período altamente vulnerável e favorecedor do surgimento de desequilíbrios psicológicos e mentais. O contexto familiar e cultural, isto é, o meio ambiente, é fator importante nessa fase da vida, podendo ser continente e acolhedor dessas vulnerabilidades transitórias do ego ou contribuir para a eclosão e cristalização de uma dessas tendências.

Guibert apresenta um quadro clínico que, apesar de ter as caracterísitcas da “síndrome normal da adolescência”, está acompanhado de intensa angústia e depressão, mobilizadas pelas manifestações da sexualidade e agressividade da vida atual, mas também, decorrentes da revivescência de fantasias e vivências terroríficas, experimentadas durante os primeiros anos de sua vida. Elas agora emergem, agravadas pelos sentimentos de abandono exterior, de luto pelas perdas infantis, concomitantes à maior fragilidade egóica e ação censora super-egóica. Esse conjunto de sintomas faz com que a crise normal da adolescência se torne conturbada e seja vivida de forma ainda mais intensa e ameaçadora, afetando o seu equilíbrio interno. Há fortes elementos depressivos e Guibert precisa encontrar algum caminho para se libertar das turbulências que o assolam, promovidas por desejos contraditórios e outros afetos reprimidos pela ética e moral de sua educação. As expectativas provenientes dos ensinamentos eclesiásticos presentes na configuração de sua personalidade a caminho da vida adulta intensificam suas angústias. Ele alerta para o fato de que, quem já passou por isso, quer dizer, quem é sensível e atento aos fenômenos psíquicos, sabe do sofrimento a que ele está se referindo, isto é, a crise da adolescência. Esse estado mental pode ser encontrado em pacientes mais idosos e que estruturam sua personalidade de forma adolescente, isto é, com predomínio da ambivalência, da oscilação de humor, da busca do prazer imediato, etc.:

P. 117 “Un tel torment peut aparaître enfantin et ridicule à qui ne l’a point éprouvé, mais ceux qui en sont affligés y voient une véritable calamité. Une frayeur semblable, que la plupart des gens jugent stupide, ne peut être atténuée par aucun raisonnement, par aucun avis. Celui qui en souffre a beau traiter par le mépris ce dont il est atteint, nulle résolution de son esprit ne peut, dès qu’il s’est le moins du monde assoupi, repousser les horribles visions qui l’assaillent; l’esprit, troublé par ces angoisses, en arrive à redouter profondément de retomber dans le sommeil […] la société d’autrui n’empêche pas les frayeurs, cependant le fait d’être toujours seul en accroît, ou du moins en maintient l’intensité.”

Há em Guibert um sentimento crítico que revela extraordinária lucidez quanto à existência de um mundo interior que foge ao seu controle, que possui um funcionamento autônomo, cujas forças o subjugam e que ele chama de inimigas. Vive-as como elementos cindidos de sua personalidade, e que, portanto, devem ser excluidos de si, dentro de sua visão de mundo divido entre o bem e o mal. Sua fragilidade e impossibilidade em controlar ou transformar aquilo que está se passando em si mesmo, no seu mundo interior mobilizado pela atividade pulsional, pertence às forças inimigas que a religião tenta controlar através da repressão, e não transformar em afetos ou conhecimentos, com os quais se pode aprender a lidar ou a atenuar.

A descrição das sensações e vivências que emanam de seus pesadelos e visões são de uma minúcia, de um detalhamento clínico surpreendente, e reveladora da acuidade perceptiva dos processos psicológicos vividos por Guibert. Sua mente está dominada por intensos mecanismos de identificação projetiva, exacerbada pelo imaginário medieval composto de bestas e demônios, crenças variadas, incrementadas por fantasias conscientes e inconscientes, além de elementos provenientes de sua biografia e criatividade. 55

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