Um monge no divã1



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Considerações Finais

Depois de muitos andaimes e alicerces, foram configurados os recortes necessários para a elaboração desta investigação histórico-psicanalítica, com o sentimento de que muito ainda poderia ter sido aprofundado, elaborado e articulado. Entretanto, acredito que os objetivos centrais deste trabalho foram alcançados, levando em conta as motivações iniciais: identificar e analisar a existência na Idade Média Central do que hoje se chama de adolescência, observada através do método histórico-psicanalítico desenvolvido, e tentar compreender, integrar e delimitar as influências recíprocas e complementares entre essas áreas do conhecimento humano.

Algumas considerações sobre as questões metodológicas.

O trabalho foi árduo, para quem veio da área médica e psicanalítica, com esparsos conhecimentos específicos da história social medieval, cuja trama foi percorrida e construída com grande empenho para o desenvolvimento desta pesquisa. Esforço recompensado pela experiência adquirida, extremamente gratificante e enriquecedora nos âmbitos pessoal, clínico e científico histórico e psicanalítico. Houve uma ampliação dos conhecimentos específicos dessas áreas, que foram cotejados pelo desenvolvimento de uma capacidade de disciplina afetiva, interna, concentrada e direcionada na perspectiva de manter os eixos de uma investigação ao mesmo tempo criativa e sob a legislação de conceitos estabelecidos, na busca constante de integração dessas áreas, nem sempre satisfatoriamente preenchidas por mim.

Ficou evidente a importância da precisão conceitual histórica e psicanalítica integrada e articulada na construção da inter-face dessas áreas do conhecimento, complementares no desenvolvimento do processo de investigação histórico-psicanalítico. Tal rigor teve por objetivo atenuar os fatores de risco e evitar erros na apreensão e interpretação do material observado. Foi considerada a necessidade de uma profunda compreensão histórica dos valores culturais incorporados à constituição do sujeito psíquico e sua reciprocidade, com a preocupação de encontrar níveis de equilíbrio entre as partes. A reconstrução do passado, presente no inconsciente humano e transmitido pela memória histórica presente na cultura é multifatorial. Essa re-construção depende do método de observação, do corpo teórico-conceitual, do conhecimento sobre os eventos e das formas como foram coletados, analisados, interpretados, transmitidos e lidos, na busca da interação entre o sujeito psíquico e o contexto construídos historicamente.

Concordo com Lowenkron que uma investigação para adquirir a condição de investigação psicanalítica deve se alicerçar nos conceitos fundamentais da psicanálise: o inconsciente dinâmico, a resistência e a transferência.56 Porém, é preciso fazer algumas adaptações, principalmente conceituais, quando o objeto de investigação é um documento histórico confiável e que oferece a possibilidade de uma análise psicanalítica, como fez Freud com o caso Schreber e com a Gradiva de Jansen. No caso da autobiografia de Guibert de Nogent, o objeto da investigação é um “paciente” que, apesar de morto, mobiliza no investigador afetos e sentimentos, identificações e contra-identificações, fenômenos que possuem certa equivalência transferencial-contratransferencial. São condições que permitem levantar hipóteses sobre aspectos semiológicos conscientes e inconscientes, fantasias, núcleos de conflito, mecanismos defensivos prevalentes, potencialidades cognitivas, afetivas e sociais do ego, tipos de angústia, elementos constituintes do superego, do self, de aspectos narcísicos, das imagos parentais, do processo identificatório, provenientes da relação histórica do sujeito em formação e de sua cultura.

Este trabalho contribuiu também para um aprimoramento da minha atuação profissional como psicanalista clínico, na medida em que ampliou a percepção, a compreensão e a interpretação dinâmica obtidas através de diferentes ângulos de observação dos contextos histórico-culturais gravados nas memórias inconscientes dos meus pacientes. Um tal conjunto de condições possibilita melhor compreensão dos aspectos constantes e mutáveis do sujeito psíquico e da cultura, processos históricos determinados segundo velocidades variáveis de transformação estrutural e dinâmica, com graus distintos de interferências recíprocas entre as partes envolvidas. Do ponto de vista da psicanálise clínica, tornou-se mais viável identificar e correlacionar em certos pacientes aspectos históricos de origem longínqua presentes no inconsciente e manifestos na relação transferencial-contratransferencial. São, por exemplo, traços de uma visão de mundo inconsciente, de tipo medieval quanto à sua religiosidade platônica e sofista, promovendo um funcionamento mental binário e cindido entre o bem e o mal, e portador de preocupações com o Além, em um sujeito que se vê exclusivamente racional e agnóstico, no sentido de desconsiderar as questões metafísicas. Elas se manifestam de formas aparentemente aleatórias na constituição do sujeito psíquico; contudo, podem se revelar, analogicamente, compatíveis com uma historicidade esquecida ou desconhecida, e, ao mesmo tempo, presentes, graças à transmissibilidade das memórias histórica e biológica de significantes culturais por ele incorporados pelo sujeito.

Configurou-se também a importância da contribuição psicanalítica na prática do investigador da historia social, visto que a percepção, avaliação e interpretação dos eventos podem se enriquecer ao serem consideradas as teorias, conceitos, questões epistemológicas provenientes da metapsicologia psicanalítica. Achados que fortalecem o ponto de vista de Friedländer, que diz que, com o auxílio da psicanálise, “o historiador pode ultrapassar a descrição dos fatos históricos e tentar uma interpretação teórica que seja objetivamente necessária à pesquisa histórica”, distante de uma psicologia baseada apenas no bom senso e na intuição.57

A partir dessas colocações, podem-se fazer algumas considerações sobre a narrativa de Guibert (séculos XI-XII), nosso “paciente” e objeto da investigação histórico- psicanalítica. Lembro que a primeira edição é do século XVII, e que não se tem conhecimento do manuscrito original. Há um consenso entre os especialistas de que o documento é autêntico e compatível com o pensamento e fatos registrados na Idade Média Central. Porém, não se sabe se alguma mão interferiu na transmissão do seu conteúdo até a publicação do texto em latim pelo monge beneditino Luc Dachery, e que serviu de fonte para a tradução de Labande.

Procurei trabalhar as dificuldades existentes nessa análise como resistências e contra-resistências conscientes e inconscientes, e que, uma vez percebidas e vencidas, abriam possibilidades para caminhar do material manifesto e tentar alcançar os conteúdos latentes, presentes nas entrelinhas do texto e do contexto, articulados com o momento histórico retratado pelo autor em suas várias vozes, com o apoio encontrado na bibliografia.

Guibert expressa com grande sensibilidade pensamentos, sentimentos, anseios, angústias, temores, traumas, imagos, sonhos, visões e esperanças através de um processo que considerei similar à livre associação de idéias. O próprio Labande interpreta essa narrativa como uma obra na qual “o leitor tem dificuldade em assimilar aquilo que lhe parece muito desordenado [...] obedece a uma lógica interna, que não é, contudo, a nossa”.58

De fato, Guibert não obedece a uma lógica racional, mas a uma lógica da vida afetiva, própria, mobilizada pelos sentimentos e pela quebra progressiva de resistências, que possibilitam a emergência e o fluxo associativo espontâneo, mobilizado pelas pressões inconscientes. Por vezes desordenada, a escrita de Guibert parece delinear-se de forma livre e espontânea, conforme as lembranças lhe vão chegando à mente, associando livremente as idéias, à semelhança do que ocorre durante o processo psicanalítico. Entretanto, evidencia-se também no texto a tendência a uma exposição evolutiva, uma vez que, após retratar a imagem dos pais terrenos e divinos, aborda o seu nascimento, passa pela infância, entra na puberdade/adolescência, até alcançar fatos ocorridos em fases posteriores de sua vida.

Guibert segue uma certa cronologia evolutiva em sua narrativa à qual vão sendo enxertadas lembranças outras, espontaneamente associadas, como se as resistências inconscientes estivessem sendo vencidas, e é esse jogo dialógico que dá ao seu discurso um movimento de aparente vai e vem, com repetição de alguns fatos e sentimentos. É um discurso aparentemente incoerente para a lógica da comunicação social, mas que possui uma lógica interna que permite apreender a rede de inter-relações inconscientes que conduzem à configuração de imagem, imaginário e imaginação, capazes de serem transformadas em pensamento e meio de comunicação. No jargão psicanalítico, diz-se que é uma comunicação de inconsciente para inconsciente, um estado mental que se aproxima de um estado onírico, presente na autobiografia de Guibert, e que deve corresponder ao que Misch denominou autobiografia onírica. 59

Durante essa análise histórico-psicanalítica, percebi também em mim a existência de movimentos associativos de idéias que espontaneamente chegavam-me à mente, como recordações de minha adolescência. Elementos analógicos, internos ao investigador, na tentativa de identificar e esclarecer vivências, idéias e sentimentos capazes de serem confrontados com aqueles do texto e do contexto. Esses movimentos, que ora observo, talvez possam ser considerados expressões contra-identificatórias ou contratransferenciais: conjunto de movimentos voluntários e involuntários que contribuíram para a proposição de paradigmas auxiliares, na tentativa de compreensão da mente de Guibert e do contexto medieval, em confrontação com os do investigador.

Procurei manter-me, o quanto possível, dentro de uma neutralidade relativa para evitar julgamentos morais sobre os conteúdos identificados no objeto da investigação. Todavia, não pude deixar de perceber em mim momentos de indignação, revolta e hostilidade em relação a certos princípios, estruturas e movimentos profundamente arraigados em Guibert e presentes nas pretensões universais e métodos opressores utilizados pela Igreja medieval onipotente, regida por uma visão de mundo platônica e sofista.

Pude, em alguns momentos, até mesmo me perceber torcendo por Guibert, identificado que estava com os sofrimentos enfrentados por esse adolescente. Cheguei a projetar nele desejos de que encontrasse a energia e os caminhos viáveis para solucionar internamente e de forma mais harmoniosa os seus conflitos de identidade, adequados à realidade do seu contexto durante a resolução dos conflitos edípicos. Certamente eu estava identificado com alguns aspectos de sua luta interna, e, por isso mesmo, podia reconhecê-los, não apenas intelectualmente, mas emocionalmente, naquele jovem de mil anos atrás.

A confirmação das hipóteses formuladas sobre as motivações, angústias, fantasias inconscientes, imagos parentais, aspectos do imaginário medieval com bestas e demônios de Guibert, etc. deu-se pela repetição dos fenômenos em vários trechos da narrativa. Assim, após a análise dessa narrativa e o confronto com a literatura, pode-se confirmar que os medievos conheciam as idades da vida. Guibert narra seu nascimento, infância, adolescência, maturidade e aproximação da morte, assinalando aspectos diferenciais da psicologia em cada uma dessas fases. É com sensibilidade e lucidez surpreendentes que aborda os aspectos educacionais, diferenciando necessidades e possibilidades comuns e individuais, da criança e do adulto, quanto às potencialidades de aprendizado, mostra quão importante é o brincar para as crianças.

Há um profundo amor por sua mãe, evidenciando a formação de vínculos afetivos precoces. E, mesmo depois, quando ela o abandona para viver no convento, preocupa-se em dar testemunho de uma preocupação constante dessa mãe com o estado emocional e com a vida de Guibert, fatos que afastam a hipótese de abandono movido por desamor ao filho. O que havia, isto sim, era um estado de “loucura popular”, graças à propaganda da Igreja e ao imaginário existente frente às ameaças do fim dos tempos, Juízo Final, salvação eterna no Além mundo. São processos psicos-sociais causados por fatores individuais e coletivos profundos e complexos, que vão além da simples observação de que não existia infância na Idade Média, ou de que os medievos viam mal suas crianças. Ainda quanto às idades da vida, Guibert refere-se a elas de forma aparentemente intuitiva, sem preocupação classificatória, mas com discernimento no emprego dos vocábulos pertinentes a cada uma das diferentes fases.

A narrativa de Guibert confirma que ele atravessa uma adolescência – tal como aquela – descrita por autores psicanalíticos como Freud, Klein, Lebovicci, Meltzer, Winnicott, e nós mesmos. Guibert aparenta ter vivido o que Arminda Aberastury e Knobel denominaram “síndrome normal da adolescência”. Síndrome, por se tratar de um conjunto de fenômenos; e normal, por estar presente em todos os jovens no período de transição da infância para a vida adulta. O que varia é a forma de vivenciá-la e de manifestá-la, devido aos valores da cultura incorporados durante o processo de desenvolvimento do sujeito psíquico. Os conflitos sexuais, por exemplo, vividos por Guibert durante a infância e a adolescência, encontraram formas de sublimação ou vazão inconsciente das pulsões que, naquela cultura, levaram-no a rezas, exortações divinas, penitências, visões, fugas. Numa sociedade cuja organização social é vertical, clérico-feudal, em que a autoridade suprema é representada por Deus e pela Igreja, subverter o sistema requeria muita coragem e energia. Identificar-se com os princípios do meio era um dos caminhos da sublimação. Guibert é um adolescente do seu tempo. Passa também por conflitos identificáveis nos jovens de hoje; nestes e naqueles – vivendo no século XII – tais conflitos foram mobilizados pelas transformações psicológicas e sociais concomitantes ao processo de maturação física e surgimento da sexualidade genital adulta, com repercussões globais no desenvolvimento da personalidade e na definição da identidade.

Le Goff afirma que a família feudal “gerava também filhos desrespeitosos”. Para o autor, “(a) pequena distância entre gerações, a curta esperança de vida, a necessidade do senhor, chefe militar, de mostrar a sua autoridade ao chegar à idade de legitimar o seu lugar na batalha -tudo isso exasperava a impaciência dos jovens. Daí a revolta dos filhos contra os pais: Henrique, o Jovem, Ricardo Coração de Leão e Godofredo da Bretanha contra Henrique II da Inglaterra...”. Além disso, continua, “as razões econômicas e as razões de prestígio conjugam-se para que o jovem senhor, ao atingir a maioridade, afaste-se do pai esperando a sua herança e se faça cavaleiro andante. As tensões surgiam também dos múltiplos casamentos e da presença de numerosos bastardos – a bastardia, vergonhosa para os pequenos, não trazia nenhum opróbrio aos grandes”. 60

Não se discute a validade das argumentações do autor, mas levanta-se como hipótese que o conceito de “desrespeitoso” é um conceito arbitrado pelas convenções sociais. Porém, ser desrespeitoso pode ser o sentimento adequado para essa fase do desenvolvimento humano, ainda que desagradável de ser vivido pelos pais e familiares, e mesmo pelo jovem. Seriam os “aborrecentes”, termo pejorativo com que alguns denominam os adolescentes da atualidade.

Aristóteles, na Retórica, afirma que os adolescentes são desrespeitosos. Agostinho e Guibert também o foram. Os adolescentes são desrespeitosos porque são adolescentes, independentemente da época e da cultura. Em cada uma delas e à sua maneira, o adolescente, mobilizado pelas transformações físico-psíquicas, vive tanto a fragilidade egóica temporária, decorrente do processo de desinvestimento do corpo e das imagos da infância, quanto a necessidade de auto-afirmação. Surgem novas potencialidades cognitivas, afetivas e sociais. Guibert, através do seu discurso, possibilita que se identifique o processo evolutivo de passagem pelas várias fases que compõem os movimentos e conflitos entre as diferentes instâncias psíquicas participantes do processo de elaboração e resolução edípica.

Em sua personalidade, durante os conflitos entre o infantil e a aquisição dos aspectos adultos de sua personalidade, é possível identificar elementos depressivos, obsessivos e fóbicos decorrentes de sua biografia: resíduos mnêmicos inconscientes de vivências infantis oriundas dos traumas da vida peri-natal, da depressão materna, da perda precoce do pai, da severidade do pedagogo, do abandono materno. Carrega as imagos parentais caracterizadas por pais terrenos e divinos. Educado diferentemente das demais crianças do seu meio, sofre os sentimentos da exclusão e da pressão em vir a ser um servo de Deus. Sentimento amplificado pelo fato de ter nascido num sábado de Aleluia, dia maior da cristandade. Arca ainda com o ônus do rigor do contratualismo clérico-feudal, e dos demais princípios éticos e morais da Igreja da época.

Compromissado com Deus, com a família e com a comunidade, sem forças para contrariar aqueles que sobre ele exercem poderes, inclusive ele mesmo, Guibert submete –se aos conflitos existentes entre as motivações profundas e espontâneas do self e o compromisso de vir a ser padre, incorporado e identificado com sua mãe. Parece-nos que seus momentos mais espontâneos estão no desejo de ser e fazer como as demais crianças e, durante a adolescência, quando se vê diante de comportamentos impulsivos e criativos revelados através dos poemas licenciosos, posteriormente destruídos.

Ele, e muitos, viviam o imaginário preconizado pela Igreja na busca da salvação, do ideal da felicidade eterna, principalmente no Além, submissos às exigências de uma visão de mundo binária entre o bem e o mal, o céu e o inferno. Esse clima era dominante, porém não unânime, e a Igreja estava longe de conseguir impor a todos seus ideais universalistas e expansionistas através da submissão do homem, pelo medo e pela repressão, diante de um Deus severo, punitivo, onisciente, onipresente e onipotente. Deus que, provavelmente, reflete os anseios arcaicos e narcísicos do homem, projetados no superego exigente e punitivo, protetor e clemente, idealizado à imagem divina. No ego instável do adolescente Guibert prevalecem pavores diante do desamparo e do temor da morte, principalmente da morte súbita, para o cristão dos séculos XI-XII, pressionado pela sexualidade efervescente e que tende romper o dique da proibição.

No adolescente Guibert, ameaçado pela castração, oprimido e reduzido a ser o objeto do desejo materno, do mestre-padrasto, da comunidade e de Deus, a ambivalência se manifesta. Diante das pressões de diferentes propósitos narcísicos, egóicos e superegóicos, ele não tem energia para contrariá-los, e o peso do pecado, da depressão, e da angústia não lhe dão tréguas. A vida pulsional o pressiona, surgem os sentimentos de apatia, as visões, os sonhos como vias mais livres de expressão de motivações profundas, e que escapam ao processo repressivo do superego. O material reprimido vem à tona durante a crise da adolescência, em meio a pensamentos e atos indesejáveis para o pensamento cristão.

Em vários aspectos de sua personalidade pode-se evidenciar que Guibert está identificado com a religiosidade cristã, presente, sublimada e em sintonia com sua identidade. Porém, noutros trechos de sua narrativa evidenciam-se elementos compatíveis com a formação do que Winnicott chamou de “falso self”, diante da extrema necessidade adaptativa a que teve que se submeter para corresponder não apenas aos desejos dos pais e da sombra inconsciente do contratualismo presente no seu meio social; uma série de pressões externas sobre sua frágil personalidade em desenvolvimento. Guibert reconhece essa situação, por exemplo, quando fica observando as demais crianças enquanto brincam. Ele, vestido como um padre adulto, situação humilhante e por ele criticada, leva-o, tanto a admirar a liberdade e espontaneidade das demais crianças, como a se adaptar internamente para corresponder aos desejos que lhe foram atribuídos, através da organização de uma personalidade “como se”.

Em relação às imagos parentais, Guibert guarda uma imagem materna terrena quase divina, muito próxima à da Virgem, enquanto, Deus foi seu grande pai. Na ausência do pai terreno perdido precocemente e pouco qualificado por Guibert, e de um pedagogo-padrasto que não conquistou o respeito do seu discípulo, Deus era o Pai ameaçador, que protegia e punia justo, clemente, tolerante e fonte de energia vital na condução da salvação, a felicidade eterna no Além. Guibert demonstrou possuir duas imagos parentais masculinas e femininas, divinas e terrenas.

As transgressões adolescentes de Guibert eram até certo ponto toleradas e esperadas tanto pelos jovens quanto pela sociedade. Os que tinham uma vida mais livre, os destinados à vida militar, os jovens senhores feudais ou entre outras classes de jovens, viviam os trotes das confrarias, os charivari, o rapto de mulheres, as farras nos quartéis, que continham, além dos seus significados específicos, forte conteúdo simbólico e sexual, componentes da elaboração edípica. No caso de Guibert, as transgressões ocorrem no meio monástico, nas brincadeiras e insinuações entre iguais e nas preferência que alguns mais idosos manifestavam pelos mais jovens através de manifestações eróticas camufladas, escondidas ou negadas. A mão do homem e a mão divina podiam se encontrar na expressão dos desejos proibidos.

Segundo Inocêncio III, quanto maiores as crianças, mais crescia sua tendência para o pecado, que se iniciava por volta dos sete anos e alcançava seu topo aos quatorze, em plena crise da adolescência, com a sexualidade em efervescência, excitando o corpo e tendo seu espírito tomado pelos desejos. Frívolos e arrogantes, não aceitavam a autoridade dos mais velhos, nem respeitavam seus pais, preferindo dançar, fazer palhaçadas e brincar com as palavras de Deus, predispostos ao pecado, licenciosos e impregnados da luxúria carnal. Por essas razões, os jovens necessitavam de uma educação enérgica e rigorosa.

Em contraposição, os adolescentes santificados eram descritos como modestos, estudantes diligentes, exemplos de castidade e de pensamentos puros, como os retratou Vicente de Beauvais, que, ao redor de 1190, hostilizava os jovens não santos através de suas obras eruditas. 61

Tomados pelos desejos sexuais, os jovens eram fonte do pecado, uma vez que o sexo surge de um ato livre da vontade humana, resultante de uma ação exterior. É algo que submete o indivíduo a uma ação ou a um vício pelo qual ele não é responsável, e o sentimento de culpa já faz parte desse ato, antes mesmo que ele se transforme numa ação exterior. Tal interpretação sugere que o sujeito é vítima de uma pressão externa e, portanto, sobre a qual ele não pode assumir qualquer responsabilidade ou exercer o poder de decisão. O pecado deixaria de ser uma quebra da moral existente e a culpa não seria resultante da quebra de um sistema jurídico, mas uma corrupção do corpo e da alma, que todo homem herda de Adão, expressão de uma tendência inata para o mal. A culpa e a confissão da culpa seriam os caminhos monásticos para o resgate da alma pura. Pensamento proferido por Pedro Abelardo em Ethica – Scito Teipsum, e que reflete as forças do mal que dominavam Guibert. 62

Entretanto, a necessidade de auto-afirmação dos jovens durante o processo de elaboração edípica, leva-o a subverter o poder constituído para estabelecer suas condições e poderes próprios. Esse processo inconsciente contribui para a ocorrência de transformações na sociedade e na cultura.

A análise histórico-psicanalítica do adolescer de Guibert permite evidenciar o equívoco cometido por Ariès quando afirma que a sociedade medieval “via mal a criança, e pior ainda o adolescente”; que a duração da infância “era reduzida a seu período mais frágil” e, ainda, que “de criancinha pequena, ela se transformava imediatamente em homem jovem, sem passar pelas etapas da juventude”, e de que “ela (a família) não tinha função afetiva”, concluindo que a socialização da criança não era assegurada nem controlada pela família.63

Os medievos tinham sentido de família e as crianças tinham um lugar dentro desse mundo limitado pelas crenças. Havia na família de Guibert forte preocupação com a vida educacional, não somente porque ele deveria ser padre, visto que seus primos também receberam esse tipo de influência. Havia, por outro lado, uma revolta em Guibert, pois sua família estava diretamente relacionada com o abade da região, e o contratualismo se fazia presente tanto nas questões do bem quanto nas do mal: simonias, corrupções, vendas de cargos religiosos ou penitências atenuadas e até mesmo compradas eram toleradas.

Penso que essas afirmações caem por terra, pelo menos em relação a Guibert e sua família. São vários os indicadores manifestados por Guibert que permitem afirmar a existência social da infância e da adolescência, que se poderia talvez estender a outras comunidades e sociedades da Idade Média. Na família de Guibert há evidências da existência de vínculos afetivos profundos e cuidados precoces afetivos e materiais com o bebê, dentro do que era possível para o conhecimento, o imaginário e a tecnologia da época.

Le Goff também afirma:“Já se disse que não há crianças na Idade Média, há pequenos adultos [...] A criança surgirá com a família doméstica [...] A criança é um produto da cidade e da burguesia, que, ao contrário, deprimem e abafam a mulher.” 64

Não sei em profundidade que metodologia Ariès e Le Goff utilizaram para chegar às idéias assinaladas. Talvez eles tenham observado esses fenômenos predominantemente pelo vértice social manifesto. Mas, é preciso frisar que, por exemplo, as impressões iconográficas isoladas, como quaisquer outros vértices de análise exclusivo e absoluto, podem conduzir a falhas de interpretação. Sabe-se dos riscos de uma leitura restrita à aparência comportamental, diante de evidências de conveniências circunstanciais e até mesmo da intenção de certos documentos ligados à propaganda e contra-propaganda da Igreja, e de movimentos divergentes dentro dela mesma.

São essas as razões pelas quais considero fundamental para o progresso do conhecimento e das ciências, que cada análise preserve sua especificidade e autonomia, mas que também sejam criadas inter-faces que enriqueçam e aprimorem o processo epistemológico. Se a iconografia, por questões de sua própria história, ignorava ou tinha uma visão distorcida da criança, são condições que não autorizam a concluir que as crianças e os adolescentes da Europa medieval não recebiam uma atenção adequada.

É preciso, portanto, considerar o processo histórico integrado a outros fenômenos, como as características psicológicas, psicanalíticas, educacionais, médicas, econômicas, sociais, etc. que envolvem o desenvolvimento e a compreensão humana numa dada fase de sua história.

O fato de a criança ser representada na maioria das vezes, na Idade Média Central, como um adulto de dimensões reduzidas, não define que era assim que as crianças eram vistas e vividas pelos adultos daquela época. Pode ser apenas uma questão de representação, das convenções, do grau de desenvolvimento das imagens, da mensagem que se pretende, consciente e inconscientemente, propagar através da imagem, numa dada época e região.

Tomar por verdade absoluta as imagens de uma determinada época e local requer uma análise crítica não só da imagem, do momento de desenvolvimento da arte, mas também do contexto no qual ela se situa, para atenuar o risco de interpretações equivocadas. A imagem pode ser um elemento sugestivo, tanto da realidade quanto do imaginário, pode ressaltar determinados interesses ou esconder certas verdades, influenciadas por tendências, valores, poderes determinantes, e não deve ser tomada como expressão definitiva de uma determinada condição social.

A análise de Burke sobre essa questão revela os cuidados a tomar para evitar distorções, como as assinaladas acima, ao caracterizar uma tendência comunicativa da época como uma verdade social.65 É preciso também considerar que os conhecimentos e recursos existentes hoje não são os mesmos de outros tempos, além do fato de que observações do “mesmo” fenômeno, a partir de ângulos diferentes, podem levar a resultados distintos. É bem possível que, apesar de desejar ter alcançado um aprimoramento pessoal e de conhecimento, o inconsciente nos traia, e os adultos de amanhã possam constatar que essas observações feitas por mim adquiram outros e novos significados.

Lembro meu professor de endocrinologia, Arnaldo Sandoval, que costumava dizer que “a Medicina é a ciência das verdades transitórias organizada para fins didáticos.” O absoluto faz parte de uma tendência preconizada na Idade Média Central pela Igreja da universalidade e da perfeição, presente na Utopia, criada por Morus, 1516, um país imaginário habitado por um povo perfeitamente sábio, poderoso e feliz 66. Talvez todos nós carreguemos esses desejos em nossos imaginários, mas o princípio da realidade costuma demonstrar que as coisas não são bem assim, e que lhe fazem a ronda, a frustração e a dor do desenvolvimento.

Também pode induzir ao erro a tentativa de tomar a religiosidade explicita de Guibert como a expressão de uma religiosidade homogênea na Idade Média Central. A Igreja tinha seus interesses e sistemas de propaganda. Entretanto, os fabliaux, as gestas, o amor cortês, os goliardos, os charivari e as festas dos cavaleiros são informações complementares e reveladores das presenças de outros vértices da moral nessa mesma realidade social.

É preciso ter em mente que aqueles que detinham o poder da escrita e da difusão dos pensamentos, a mídia de então, era a Igreja e o mundo clerical. O alerta feito por Costa pode ser transladado, em certa medida, para a Idade Média Central: “todos nós que vivemos imersos no mundo pós-moderno temos muito a aprender sobre como as imagens das mídias podem ser ambíguas e servir de armadilhas para o leitor ou espectador incauto”. 67

Guibert, ao generalizar a natureza do homem e discriminar a criança do adulto, evidencia que a natureza humana é variável em sua subjetividade. Caracteriza também que essa natureza tem limites que, ultrapassados, geram transtornos na estruturação da pessoa.

Indivíduo e sociedade refletem, como espelhos recíprocos, a presença do imaginário que se impõe ao sujeito em formação, e as mudanças que esse sujeito insere paulatina e involuntariamente na cultura. As manifestações criativas geram transformações que interferem nas manifestações dos imaginários que, num dado momento histórico, são capazes de dar conta de um conjunto de necessidades e fantasias individuais e coletivas. Muitos medievos não tinham ou negavam essa percepção de Guibert, pois o imaginário dominante justificava qualquer meio para preservar o domínio da Igreja e a subserviência a Deus.

Na transição para a vida adulta, ao revelar os intensos conflitos inconscientes e conscientes, Guibert deixou transparecer a presença do mito do herói, e suas elaborações totêmicas e tabus constituintes da civilização, brilhantemente descritas por Freud em “Totem y tabu” e “El malestar en la cultura”. 68

Freud procura demonstrar que durante a elaboração inconsciente dos conflitos psíquicos da adolescência há aspectos primitivos armazenados na memória e transmitidos genética e historicamente pela cultura. Essa dinâmica sofre transformações em seus múltiplos aspectos e com diferentes velocidades. Há elementos constantes e presentes no longuíssimo prazo, e constituem as mentalidades, sobre as quais se organizam os imaginários e as subjetividades em seus diferentes níveis. Esse processo complexo, dinâmico e parcialmente consciente é mobilizado pela vida pulsional, que a mentalidade e a cultura reprimem, recalcam, estimulam e valorizam construtiva, destrutiva e criativamente, frente às necessidades internas e sua interação com o mundo exterior. São aspectos constantes e variáveis intensamente vivenciados durante a adolescência em função das necessidades provenientes do processo de identificação e de estruturação da personalidade adulta.

Daí nos arriscarmos a dizer que existe uma mentalidade adolescente, própria dessa fase evolutiva do desenvolvimento humano, que abrange aspectos biológicos, psicológicos e sociais.

Dentro do contexto medieval – a adolescência – assim denominada por Guibert, contém fenômenos como o adoubement, para o jovem cavaleiro; a tonsura, para o religioso; as festas da primavera, entre os camponeses; os trotes, nas confrarias dos jovens; a investidura, para o jovem senhor feudal, podem conter e representar, além do seu significado de ritual específico, a representação, em cada um desses segmentos, o herói e a transgressão à lei, próprios da elaboração e resolução do conflito edípico e entrada progressiva na vida adulta.

Guibert precisou lidar também com outros valores que estavam sendo incorporados na construção do seu sujeito psíquico: manipulação do poder, tráfico de influências, interferência do sistema de comunicação de massa na vida cotidiana faziam parte daquele contexto dominado pela Igreja voltada para os seus interesses, muitas vezes camuflados, de desejos de poderes universais, absolutistas, perfeccionistas à semelhança de ideais narcísicos primitivos. A despeito dessas pressões, Guibert transmite sua luta, seu posicionamento pessoal e autônomo, com muita clareza, no momento em que decide fazer o sermão à revelia do abade, e deixa patente o desejo inconsciente de auto-afirmação, parte do processo de identificação, que ele realiza.

Há um consenso quanto à idade de início da adolescência, próxima do início das transformações pubertárias, entre 12 e 14 anos, variando um pouco para mais ou para menos, dependendo do sexo, da região climática, da alimentação. Entretanto, o tempo de duração dessa transição e, portanto, a idade de término, são variáveis e dependem de um conjunto de fatores psicológicos, econômicos, jurídicos, religiosos, sociais presentes na cultura. Entre eles, o conceito de autonomia definido pela sociedade adulta contém um conjunto de atributos como condição a ser alcançada pelo jovem em sua mudança de status social. A auto-afirmação da identidade é vivida por Guibert no confronto entre as vivências da vida infantil e suas novas aquisições, demonstradas através de sua decisão de enfrentar o abade, e preparar o sermão de acordo com suas convicções e princípios, sem deixar de sedar conta de também levar em consideração os cuidados indispensáveis para não se expor desnecessariamente à hostilidade do meio.

Na Idade Média, a religiosidade extrema conduzia o ser a uma erotização até certo ponto sublimada dos valores religiosos cristãos como forma de fé e suporte frente às angústias. O sexo era um dos grandes pecados. O clima psicossocial contribuía para a emergência de um profundo e amplo sentimento de desamparo e culpa, mobilizado e reforçado por defesas contra as angústias provenientes da submissão à Igreja e temores diante das ameaças do Juízo Final. Tais processos ainda estavam distantes da racionalidade e da cientificidade que progressivamente foram se instalando, dando lugar a uma nova forma de lidar com as angústias, conseqüências das transformações tecnológicas e psico-históricas do conhecimento da natureza humana, e que conduziram e conduzem o homem a re-avaliações conscientes e inconscientes de sua ética e moral.

A crença, durante a Idade Média da Europa Ocidental, na possibilidade de se alcançar um mundo universalizado e uno, centralizado nas figuras de Cristo e Deus Pai, aliadas à perspectiva do Juízo Final, direcionavam a capacidade crítico-analítica da época para um determinado processo psicológico, no qual, em certas circunstâncias, predominavam mecanismos defensivos como cisão, idealização, projeção intensa, culpa e auto-flagelo. Eram mecanismos psíquicos inconscientes e prevalentes, num mundo cindido e controlado pelo bem ou pelo mal. Nesse universo, sentimentos antagônicos são excludentes entre si, e geram estados de mente, que equivalem àqueles que hoje identificamos como posição esquizo-paranóide, coloridos pelos valores dominantes da cultura. A expiação era o veículo para se libertar das culpas. Não havia na mente muito espaço para a percepção, para a tomada de consciência, além dos aspectos destrutivos e perniciosos que provinham da própria vítima, e caminhavam em conjunto com os aspectos construtivos da personalidade. Prevaleciam os ideais de pureza e perfeição.

Além dos aspectos históricos e de denúncia presentes na narrativa, ela tem funções catárticas e reparatórias. Não se pode negar o aspecto criativo de Guibert manifestado na adolescência, ao produzir poemas licenciosos, e próximo do final da vida, ao deixar seu testemunho, vivo e presente, de tal forma que conseguimos identificar fenômenos daquela época presentes em nossa vida cotidiana.

Jovens do passado e do presente, em suas utopias, buscam alcançar a Cocanha, país imaginário pleno de delícias e intimamente ligado aos desejos eternos de juventude69. Desde os primórdios da civilização, o homem vive o conflito entre prazer e realidade, a angústia frente ao sentimento de desamparo. O Éden bíblico, a Cocanha francesa, a Shangrilá de horizonte perdido, a Ilha Desconhecida de Saramago, a Passárgada de nosso Bandeira, entre tantas outras cidades das ilusões, paraísos terrenos ou celestiais, num movimento de resgate individual e coletivo, de algo supostamente perdido no imaginário individual e coletivo, ou uma ilusão que alivia o sofrimento da vida e norteia o homem na busca alucinatória da felicidade.

O homem da horda primitiva, com o surgimento da proibição do incesto, evoluiu na busca de organizações sociais que satisfizessem suas necessidades vitais, que oferecessem recursos para as manifestações simbólicas e sociais de suas pulsões. Nas transformações oriundas destes complexos processos de transformações no mundo ocidental, atingiu-se uma qualidade de desenvolvimento do sujeito cuja expansão da subjetividade, da individuação, e diferenciação está como nós ainda a (des)conhecemos hoje. Há o predomínio da individualidade, da liberalidade, e da satisfação narcísica.

Guibert, na adolescência, diante de suas necessidades de auto-afirmação, luta para ser espontâneo e fiel aos seus sentimentos, produz poemas licenciosos, rebela-se. Impossibilitado internamente de prosseguir em suas transgressões, identifica-se com o caminho que lhe havia sido determinado desde o nascimento. A auto-afirmação vem, agora, pela via da dedicação intelectual, dentro da racionalidade religiosa, ao se destinar ao estudo profundo das Escrituras, e alcançar autonomia de pensamento e princípio, definindo sua identidade adulta. Pode-se levantar como hipótese, que a produção da De Vita sua tenha sido uma forma criativa de afirmação, autonomia e conquista do verdadeiro self, algo que transcende um relato histórico-biográfico. É um encontro com seu lado mais verdadeiro e coerente, ao fazer um conjunto de revelações e denúncias, numa espécie de acerto de contas com Deus, mas, principalmente, consigo mesmo.



1 Síntese do trabalho apresentado como defesa de tese de doutorado na área de História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 26/11/2004.

2 Analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

3 Síntese do trabalho apresentado como defesa de tese de doutorado na área de História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 26/11/2004.

4 Analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

5 PH. ARIÈS, História social da criança e da família, Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1978, pp. 41, 10-11, respectivamente.

6 J.-C. Schmitt publicou uma análise recente sobre um texto supostamente autobiográfico, datado do século XII que, juntamente com a Autobiographie – De Vita sua de Guibert de Nogent, configuram as primeiras autobiografias que se tem notícia no mundo ocidental. J.-C. SCHMITT, La conversion d’Hermann le juif – autobiographie, histoire et fiction, Paris, Seuil, 2003.

7 H. FRANCO JUNIOR, A Idade Média – nascimento do Ocidente, São Paulo, Brasiliense, 1996.

8 D. L. LEVISKY, “Interfaces com a psicanálise: questões metodológicas em uma investigação histórico-psicanalítica na Idade Média Central”, in T. LOWENKRON, F. HERRMANN, Pesquisando com o método psicanalítico, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2004.

9 S.FREUD, “Observaciones psicoanalíticas sobre un caso de paranoia autobiograficamente descrito” Obras Completas, Madri, Biblioteca Nueva, 1973, vol. II, pp.1487-1527, e na mesma obra, “ El Delirio y los Sueños en ‘La Gradiva’ ” de W. Jensen”, vol. II, pp.1285-1336.

10 PH. ARIÈS, História social da criança e da família, op.cit.

11 Idem, p. 10.

12 Em entrevista para WINOCK, L’Histoire, 19, 1980, p.85, Ph. ARIÈS reconheceu que a Idade Média era, para ele, algo desconhecido, apud P. RICHÉ, P. ALEXANDRE-BIDON, L’enfance au Moyen Age, op.cit, p. 209.

13 L. DE MAUSE (org.), The history of childhood, Londres, A Condor Book Souvenir Press Ltd., 1980. Ver também, do mesmo autor, “The Evolution of Childhood”, History of Childhood Quartely -The Journal of Psychohistory, 1(4), 1974, pp.503-574.

14 S. SHAHAR, Childhood in the Middle Ages, Londres, Routledge, 1990.

15 D. LETT, L’enfant des miracles – enfance et société au Moyen Age (XIIe – XIIIe siècle), Paris, Aubier, 1997.

16 P. RICHÉ, D. ALEXANDRE-BIDON, L’enfance au Moyen Age, Paris, Seuil/Bibliothèque nationale de France, 1994, pp. 8-9.

17 P. RICHÉ, Education et culture dans l’Occident barbare, Paris, 1973, apud P. RICHÉ, D. ALEXANDRE-BIDON, L’enfance au Moyen Age, op. cit.

18 “Enfant et société au Moyen Age”, Annales de démographie historique, Paris, Mouton, 1973, pp.63-142; L’Enfant, Recueil de la Société Jean Bodin, t. XXXVI, vol.II e V, Bruxelas, 1976, apud P. RICHÉ, D. ALEXANDRE-BIDON, L’enfance au Moyen Age, op.cit.

19 L’Enfant au Moyen Age, litterature et civilisation, Sénéfiance, no. 9, public. Do CUERMA, Aix-en-Provence, 1982.

20 D. ALEXANDRE-BIDON, M. CLOSSON, L’Enfant à l’ombre des cathedrals, Lyon-Paris, Presses Universitaires de Lyon-CNRS, 1985.

21 Acabo de ter conhecimento do texto de WILLIAM CHESTER JORDAN, “Adolescence and conversion in the Middle Ages: A research Agenda”, in MICHAEL A . SIGNER and JOHN VAN ENGEN (dir), Jews and Christians in Twelfth-Century Europe, Notre-Dame (Ind.), University of Notre-Dame Press, 2001, pp.77-93, apud J.-C. Schmitt, La conversion d’Hermann le juif, op. cit., p.93.

22 O bar-mitzvah é uma cerimônia posterior à Idade Média Central. Marcus afirma que não há nenhum testemunho de sua existência no século XII. I. G. MARCUS, Rituals of childhood. jewish acculturation in Medieval Europe, Nova Haven, Yale University Press, 1984, p. 17.

23 J.-C.SCHMITT, La conversion d’Hermann le juif, op. cit., p. 93. [ Todas as citações são traduzidas pelo autor deste trabalho, salvo indicações em contrário].

24 SANTO AGOSTINHO, Confissões, São Paulo, Nova Cultural, 1999, p. 63. [Exarsi enim aliquando satiari inferis in adulescentia et silvescere ausus sum variis et umbrosis amoribus, et contabuit species meã et computrui coram oculis tuis, placens mihi et placere cupiens oculis hominum , Idem, Confessionum Líber Secundus in Confessioni Fondazione, Lorenzo Valla/ Arnoldo Mondadori Editore, 1997, p. 52. ]

25 W. JAEGER, Paidéia – a formação do homem grego, São Paulo, Martins Fontes, 1995.

26 H. Franco JÚNIOR, A Idade Média – nascimento do Ocidente, São Paulo, Brasiliense, 1996, p 7.

27 S. FREUD, “Psicología de las Masas y Analisis del Yo”, Obras Completas, Madri, Biblioteca Nueva, vol. III, 1973, pp. 2585-2588.

28 Idem, “La Interpretación de los Sueños”, op. cit, vol. I, 1973, pp. 343-752.

29 S. BLEICHMAR, “Entre la producción de subjetividad y la constitución del psiquismo”, Revista del Ateneo Psicoanalítico, Buenos Aires, 1999, no. 2, p. 59.

30 S FREUD, “ Los instintos y sus destinos”, Obras Completas, op.cit., vol. II, pp. 2039-2052.

31 M. KLEIN, Psicanálise da criança, São Paulo, Editora Mestre Jou, 1969, e também, Contribuições à Psicanálise, São Paulo, Editora Mestre Jou, 1970.

32 S.FREUD, “Discurso a los miembros de la sociedad B’nei Brit”, Obras Completas, op. cit., vol. III, p.3229.

33 H. FRANCO JÚNIOR, A Idade Média – nascimento do Ocidente, op.cit., pp. 149-150.

34 H. FRANCO JÚNIOR, “ O fogo de Prometeu e o escudo de Perseu. Reflexões sobre mentalidade e imaginário”, Revista Signum da Associação Brasileira de Estudos Medievais, no. 5, 2003, pp. 73-116.

35 M. FOUCAULT, A ordem do discurso, São Paulo, Edições Loyola, 1998. M.GUIRADO, A clínica psicanalítica na sombra do discurso, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2000, e também, da mesma autora, Psicanálise e análise do discurso, São Paulo, Summus, 1995.

36Identificação: “processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, através daquele modelo. A personalidade se constitui e se diferencia por uma série de identificações [...] esse conceito adquiriu progressivamente na obra de Freud um valor central [...] (é) a operação através da qual o sujeito humano se constitui. Essa evolução se correlaciona em primeiro plano ao complexo de Édipo em seus efeitos estruturais, a partir do remanejamento oferecido pela segunda teoria do aparelho psíquico, onde as instâncias psíquicas que se diferenciam a partir do Id são especificadas pelas identificações das quais elas se derivam” L. GRINBERG, Teoria de la identificacion, Buenos Aires, Editorial Paidós, 1976, p. 7; J. LAPLANCHE et J. B. PONTALIS, Vocabulaire de la Psychanalyse, Paris, PUF, 1967, pp. 187-189.

37 M. PASTOUREAU, “Os emblemas da juventude: attitudes e representações dos jovens na imagem medieval”, in G. LEVI e J.-C. SCHMITT, História dos jovens da Antigüidade à Era moderna, vol. I, São Paulo, Cia das Letras, 1996, pp.245-263.

38 “Os jovens são por caráter concupiscentes e inclinados a fazer aquilo que desejam. E, em relação às paixões corporais são especialmente submissos às de Vênus e nestas, incontinentes. Também são instáveis e fáceis de se saciarem (aborrecerem) em suas paixões, e desejam ardentemente, mas se lhes passa rapidamente; seus caprichos são veementes, mas não duradouros, como a sede e a fome dos que estão enfermos. Também são apaixonados e de cólera repentina e capazes de obedecer a seus impulsos. E. são dominados pela ira, porque por ponto de honra não suportam serem passados para trás, mas se enfurecem caso se considerem vítimas de injustiça. E, são amantes da honra, e ainda mais do triunfo, porque a juventude deseja se sobressair, e a vitória é uma espécie de excelência.E, são muito mais estas duas coisas do que avarentos, e são menos avarentos por não terem experimentado ainda a privação, como é a sentença de Pítaco sobre Anfiarao. E, não são maliciosos, mas cândidos, por não haver presenciado muitas maldades. E, são confiados por não haverem sido enganados muitas vezes. E, cheios de esperança, porque assim como os ébrios, os jovens estão aquecidos pela natureza, e também pelo fato de não haverem padecido muitos desenganos. E, vivem em grande parte com esperança, pois a esperança é do futuro e a memória (é) do passado, e para os jovens o futuro é muito e o passado breve, ...”. ARISTÓTELES, Retórica (II 12), Madri, Centro de Estudios Constitucionales, 1990, pp. 126-127.

39 “os fatos históricos são por essência fatos psicológicos”. M. BLOCH, Introdução à História, Lisboa, Publicações Europaamérica, 1965, p. 167.

40 O autor enfatiza a importância da psicologia para a história, em contraposição a uma história restrita à descrição minuciosa dos eventos. L. FEBVRE, “Psicologia”, Combate pela História, vol. II, Lisboa, Editorial Presença, 1977 pp.131-228.

41 Este autor aprofunda o pensamento de Febvre e introduz a psicanálise.S.FRIEDLANDER, Histoire et Psychanalyse, Paris, L’Univers Historique/Seuil, 1975, p. 9.

42 P. GAY, Freud Para Historiadores, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1989.

43 A . B. FERRARI, Adolescência - O segundo desafio, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1996.

44 A . GOMES PENNA, Freud, as ciências humanas e a filosofia, Rio de Janeiro, Imago, 1994, pp.53-68.

45 H. JAGUARIBE, Um estudo crítico da história, São Paulo, Caderno Mais- Jornal Folha de São Paulo, edição 12 de setembro de 1999, p.5. Ver também, Idem, Um estudo crítico da história, São Paulo, Paz e Terra, 2001, vol. I, pp.29-62.

46 Guibert utiliza a expressão adolescentia , traduzida em francês por jeunesse. O quadro clínico descrito por Guibert é típico da primeira fase da crise da adolescência, como ela é conhecida hoje. P.42 “At postquam adolescentia, ingenitae nequitiae jam effoeta con / ceptibus, sese in totius pudoris damna proripuit, vetus illa devotio prorsus extabuit.” (grifo meu) LABANDE, p.42 da Autobiographie, chama a atenção para a boa descrição da crise da puberdade.

47 M. KLEIN, “A técnica da análise na puberdade”, Psicanálise da criança, , pp. 119-138.

48 M. KNOBEL, “The neurotic and the psychotic components in the somatization process”, Dynamische Psychiatrie/Dynamic Psychiatry, 1992, pp.188-202.


49 As características físicas decorrentes das qualidades nutricionais permitiam que se distinguisse quem pertence ou não à aristocracia, os aristocratas eram bem alimentados e fortes pela prática de exercícios. cf. G. DUBY e R. MANDROU, Histoire de la civilization française, vol. I, Paris, 1958, p. 17, 51 apud LABANDE, p.56 da Autobiographie.

50 “Quae siquidem ab annis vix nubilibus patri meo, prorsus adolescenti, avo meo providente, contradita, cum esset scito admodum vultu, et oris habitudine naturaliter ac decentissime gravi ingenita, tamen divini nominis timorem in ipsis pueritiae parturivit initiis”.

51 ROMANINI, V., “A Bíblia passada a limpo”, Super Interessante, nº 178, 2002, pp. 40 –50.


52 Há uma especulação sobre o nome do tutor de Guibert, que seria Salomão, segundo trabalho de J. RUBINSTEIN, Guibert de Nogent: Portrait of a medieval mind, Nova York, Londres, Routledge, 2002 apud R.I. MOORE, Speculum, 79, 2004, pp.554-555.

53 P.112 “Quae enim in grandaevo eventura dicebant, ego plane adolescent atque juvenculo accessura putabam” . A frase latina tem por finalidade salientar o uso dos vocábulos ‘adolescente’ e ‘jovem’ tanto por Guibert quanto por Labande. Duby discute o uso desses vocábulos no trabalho “ Os ‘moços’ na sociedade aristocrática no noroeste da França no século XII”, A sociedade cavaleiresca, pp.95- 105.



54 FREUD, “Mas alla del principio del placer”, Obras Completas, vol. III, pp. 2507-2541.

55 No trabalho com adolescentes da contemporaneidade, sintomatologias muito intensas nem sempre revelam fragilidade estrutural da personalidade e, noutros casos sem tanta exuberância sintomatológica, emergem fraturas importantes da personalidade e acting out. A observação longitudinal é que permite a elaboração diagnóstica. Ver LEVISKY, Adolescência – reflexões psicanalíticas, pp.161-183.

56 LOWENKRON, “O objeto da investigação psicanalítica”, trabalho apresentado na II Jornada de Psicanálise e Pesquisa da Associação Brasileira de Psicanálise – Pesquisando o Método Psicanalítico. São Paulo, 10 de maio de 2003, p. 6.

57 FRIEDLÄNDER, Histoire et psychanalyse, Paris, Seuil, 1975, p. 10.

58 LABANDE, Introdução, edição e tradução de De Vita Sua, op. cit., p. XVI.

59 “Autobiografia onírica” cf. LE GOFF, “Sonhos” in LE GOFF e SCHMITT, Dicionário temático do Occidente Medieval, São Paulo, Imprensa Oficial/Edusc, 2002, vol. II, p.515, 517.

60 LE GOFF, A civilização do Ocidente Medieval, Lisboa, Editorial Estampa, vol.II, p. 41.

61 VICENTE DE BEAUVAIS, De Eruditione Filiorum Bobiliorum, op. cit., pp.6, 7, 134, apud SHAHAR, Childhood in the Middle Ages, Nova York, Routledge, 1990.

62 PEDRO ABELARDO, Ethica – Scito Teipsum, edição de MAURICE DE GANDILLAC, Paris, 1993, apud CASAGRANDE e VECCHIO, “Pecado”, in LE GOFF e SCHMITT, p. 342.

63 ARIÈS, História social da criança e da família, pp. 41, 10-11.

64 LE GOFF, A civilização do Ocidente Medieval, vol. II , p.45.

65 P. BURKE, Testemunha ocular, São Paulo, Edusc, 2003.

66 THOMAS MORUS, De optimo reipublicae statu, deque nova insula Utopia, apud LALANDE, p.1184.

67 A. L. M. C.COSTA, “As armadilhas nas imagens – uma cartilha introdutória para a alfabetização visual do historiador e do leitor”, in Carta Capital, nº IX, 244, 2003, pp. 62-63.

68 FREUD, “Totem y tabu” e “El malestar en la cultura”, Obras Completas, vol.II e III, pp.1745- 1850 e 3017-3067.

69 Franco JUNIOR, Cocanha – A história de um país imaginário.
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