Um olhar preciso sobre nossos saberes especialista, professora do regular e aluna com surdez



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Encontro27.07.2016
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UM OLHAR PRECISO SOBRE NOSSOS SABERES – ESPECIALISTA, PROFESSORA DO REGULAR E ALUNA COM SURDEZ
Daniela Maria da Silva

Eli Renata Moraes


O presente trabalho visa discorrer sobre a parceria e as posições ocupadas por: especialista, professora do regular e aluna com surdez, em uma rede municipal. À aluna foi designado um lugar de produção de saber e os educadores sustentaram o processo educativo, analisando e investigando suas ações, o que contribuiu imensamente para suas práticas educativas.
Mais difícil do que escrever ficção é, certamente, escrever sobre a realidade. Mais difícil do que inventar é, na certa, lembrar, juntar, relacionar, interpretar-se. Explicar-se é mais difícil do que ser. E escrever é sempre um ato de existência. Quando se escreve conta-se o que se é. Parece que se inventa, mas não: vive-se. Parece que se cria, mas na verdade aproveita-se. A história como que está pronta dentro da gente. É como a pedra bruta, da qual o escultor tira os excessos. O que sobra é a obra. No espírito, no fundo, no íntimo, a história espreita. Ela existe antes que o escritor suspeite. A história é mais real do que qualquer explicação. A realidade do que sou está mais no que escrevo do que nas racionalizações que eu possa fazer. (ROCHA, Ruth)
Este trabalho descreve o relato das primeiras impressões da professora do regular do ciclo I e da professora especialista. Pretende relatar a entrada de uma aluna com surdez, diagnosticada aos quatro anos, no ensino fundamental de uma escola do município de SBC e da parceria com o professor especializado do AEE. Vale a pena ressaltar que a aluna usava aparelho auditivo.

No ano de 2010, um dos atendimentos era denominado Ensino Colaborativo, por meio da parceria com o professor do ensino regular. Através da elaboração de um projeto para o grupo classe, com a presença dos dois professores em momentos específicos da rotina.


AS IMPRESSÕES DAS PROFESSORAS – RELATO DE UM (DES) ENCONTRO

A professora do regular quando chegou, não sabia nada sobre a escola, seu quadro de professores, a dinâmica a ser aplicada e quais seriam os desafios que enfrentaria pela frente; enfim tudo era novo diante do inesperado.

Ao saber que trabalharia com uma aluna D.A, recebeu o relatório de Cindy, sendo que, logo nas primeiras linhas descritas sentiu-se um pouco aturdida, pois, sua futura aluna, não falava, não se interessava por quase nada, extremamente agressiva, chorava com muita facilidade, de difícil convívio e sofria de várias outras complicações.

Após a leitura vieram momentos de ansiedade de conhecer sua nova aluna Cindy, passando a alternar momentos de reflexão, preocupação e de como seria o novo desafio profissional.

No primeiro dia de aula Cindy não compareceu, o que aumentou suas expectativas. Aproveitou para conversar com os alunos e sentir as diferenças, limites, respeito, sendo que, em nenhum momento falou diretamente sobre a aluna, porém , falaram muito sobre crianças especiais e suas peculiaridades.

Finalmente a apresentação aconteceu: Cindy se mostrou uma criança muito desenvolta, se apresentou da sua maneira, sem uma fala definida, mas completamente ao contrário do que a professora esperava, pois, por vários momentos imaginava uma criança agitada, explosiva, com poucos limites, surpreendeu-se e logo percebeu que Cindy era uma aluna comum, apenas sem uma comunicação clara.

Após essa primeira fase, passou a aguardar a chegada do professor especialista, na esperança de receber as diretrizes e soluções prontas para a alfabetização da aluna Cindy, como se existisse uma fórmula mágica a ser aplicada.

Num breve período, descobriu que na verdade não existem fórmulas e sim trabalho de estudos complexo e personalizado.

A professora especialista, como iniciante no processo de inclusão, a única preocupação era deparar-se com uma professora que buscasse todas as soluções exclusivamente no especialista, tornando-se subordinada.
E A PARCEIRA ACONTECEU
Após conhecerem Cindy, distanciaram-se da idéia de que seria necessária, primeiramente a aluna aprender Libras ou Língua oral, para que na sequência pudesse adquirir novos conhecimentos. No seminário X, Lacan diz: “Tudo o que o sujeito recebe do Outro por meio da linguagem, a experiência ordinária é que recebe sob forma vocal. Mas há outras vias além das vocais para receber a linguagem: A linguagem não é vocalização.” (LACAN, 1963).

Pode-se dizer que há possibilidade do surdo ser atravessado pelo simbólico, mesmo sem ter uma fala definida.

Perceberam que aquela menina, podia se dizer, portanto tomaram para elas sua forma de expressar-se, o que foi imprescindível.

Uma das cenas que ajudou a especialista a pensar sobre o quanto era importante significar sua fala, (principalmente perante seus colegas de classe), foi um dia em que Cindy dizia:

- Bebê, mamãe, barriga, quê?

E ela respondia: - Bebê na barriga?

Irritada Cindy confirmava: - ÉÉÉ!

Naquele momento a especialista pensava se as palavras estavam associadas a querer saber da sua própria origem. Solicitou à aluna que desenhasse o que gostaria de dizer, mas a mesma não soube expressar-se.

Foi desenhado uma mulher grávida com um bebê na barriga. A aluna apontou e disse Cindy para o bebê e Sônia para a mamãe.

O detalhe é que Cindy era adotada e conhecia sua mãe biológica.

A especialista tentou explicar a ela, de todas as formas possíveis sua história de origem, o que ela demonstrou não gostar nem um pouco, levou o papel para casa, pois queria da mãe as fotos de quando estava grávida e no próximo encontro, disse que era do “coração” de Sônia, demonstrando insatisfação.

Como cada um tem sua história e as impressões são singulares, decidiram colocar o discurso em prática a partir do livro: A história de cada um de Juciara Rodrigues.

A discussão seguiu de forma que cada um pôde dizer como era sua família, foram usados todos os recursos de comunicação durante a discussão: gestos, desenhos, mímicas, fala, escrita e etc.

Cindy trouxe para sala de forma espontânea, outra questão: contou-lhes que dormia abraçadinha com a mãe, alegando que esta sentia medo de dormir sozinha.

A partir do filme Monstros & Cia, abriram a roda de discussão, onde cada um contou o local que dormia e como dormia, sendo que Cindy pode constatar que somente ela, ainda, dormia abraçadinha com a mãe.

Foi falado em alto e bom tom que não era possível criança com certa idade dormirem com seus pais. Cindy não tinha palavras para justificar-se.

Fazia parte do conteúdo da alfabetização para o primeiro ano do ciclo I, Cantigas e Parlendas, tendo como produto final uma encenação para os pais.

Muitas questões surgiram: “E agora o que fariam? Como fariam? Desistiriam de um projeto em função de um aluno, que perante as circunstâncias talvez não pudesse realizar? Excluiria aproximadamente 84 alunos por conta de um?”

Resolveram enfrentar o desafio. Cindy mostrou interesse pelas músicas e cantigas que seriam apresentadas e a partir daí desenvolveram um trabalho contrário ao que geralmente é proposto para surdos.

Durante os ensaios. Cindy participava e mostrava preferências por algumas cantigas, sendo que dentre elas a que mais gostou foi “A linda Rosa Juvenil”.

Começaram a ensaiar e rapidamente Cindy decorou a letra da música e incorporou ao seu papel, tirando de letra e emocionando a todos os presentes.

Após o sucesso das cantigas, vieram os contos. Cindy enlaça-se na história “A Bela Adormecida”, e a ela foi apresentado um grande e variado repertório de contos que a deixou extremamente interessada e curiosa.

A menina detalhista prestava atenção em todas as ilustrações fazendo questionamentos pertinentes a história lida, detalhes esses que a maioria dos alunos não percebia. Na história de Cinderela, Cindy percebeu que o mesmo personagem ora era um rato, ora era um cachorro.

Os questionamentos de Cindy enriqueciam as aulas tornando-as muito mais significativas, sendo que estas peculiaridades incentivavam os outros alunos também prestarem atenção nos detalhes.

Cindy aventurou-se na escrita inicialmente escrevendo palavras dentro de suas capacidades. Quando escrevia algo mais longo não fazia uso de conectivos, sua escrita era objetiva, coesa e coerente.

Como atividade de encerramento do ano letivo era oferecida aos alunos à possibilidade de se apresentarem no Sarau. Para surpresa das mesmas, a aluna Cindy foi a primeira a manifestar-se. Escolheu pessoalmente a poesia “A Bailarina” de Cecília Meirelles, demonstrando um ato de coragem e orgulho para todos.
DE NOSSAS (IN) CONCLUSÕES, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES.
O encontro dos alunos e os efeitos que um causou no outro, fosse por uma peculiaridade, por um questionamento, observação ou constatação, foi importante. Esse encontro conseguiu, assim como afirma Pinto, em sua Dissertação de Mestrado “possibilitar a circulação de uma diversidade de discursos com um lugar facilitador de estabelecimento de laço ou enlaçamento social.” (PINTO, 2009)

Outro diferencial no trabalho foi o fato das profissionais apostarem e acreditarem na importância da diversidade. Como explica Nascimento na educação inclusiva:


A diversidade valorizada, acreditando que as diferenças fortalecem a turma e oferecem a todos os envolvidos maiores oportunidades para a aprendizagem. Ela baseia-se em princípios, tais como: aceitação das diferenças individuais como atributo e não como obstáculos; educação como direito de todos, ou seja, o direito de pertencer; igualdade de oportunidades – o igual valor entre os dominantes e os dominados; convívio social,todos crescem nesta relação;cidadania – englobam os direitos políticos, civis, econômicos, culturais e sociais. (NASCIMENTO, 2007, p.10)
Para concluir estas elaborações teóricas, vale a pena ressaltar que a aluna Cindy, por ter sido, tardiamente diagnóstica como deficiente auditiva, recebeu todos os estímulos de uma filha desejada. Faz as professoras se perguntarem se estes estímulos,não foram facilitadores no trabalho desenvolvido com cantigas e parlendas, pois como afirma Belintane:
... começa a ser penetrada pela voz encantatória da mãe o famoso “manhês” as cantigas de ninar e outros textos de berço.Do nascimento à idade escolar, temos aí um percurso que a voz parental matricia, que inclui cantigas, narrativas e jogos linguageiros, cujas origens filogenéticas se perdem nos tempos, mas que em tempo de boa maternância, em geral retornam com delicadeza. (BELINTANE, 2008, p.36-51)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Durante um tempo, Cindy demandava da professora que lhe desse as respostas do enunciado de todas as atividades propostas em sala.

Caso a professora tivesse caído nesta armadilha, tamponando a falta, os efeitos de construção de conhecimento não ocorreriam.

As professoras procuravam o tempo todo sobrevoar, assim, como as águias, pois olhavam para o TODO, sempre respeitando a singularidade de cada um.

Cada opinião, comentário, queixa, ou seja, as diferentes posições discursivas, fazia borda naquilo que parecia loucura - alfabetizar Cindy com músicas e poesias.

É possível afirmar que durante este tempo, estiveram um pouco distante dos métodos e técnicas propostos pela pedagogia.

Olharam para cada um e para elas mesmas, reconhecendo seus limites, implicando-se e fazendo vigorar a Lei, no que se refere aquilo que é comum e possível no ambiente escolar e especialmente na relação professor-aluno.

Através das supervisões com Rita Cardoso (Lugar de Vida), as profissionais se deram conta do quanto foram ousadas em sustentar, manter suas posições em não fazer adaptações do currículo, antes de saber como a aluna se posicionaria diante das propostas.

A superação de obstáculos, os embaraços, as buscas por respostas, a tentativa de dar conta do sujeito, a procura por receitas de fazeres, fazem parte de suas profissões e os ensinamentos da psicanálise para investigar as dificuldades dos sujeitos, incluindo-as aqui, encanta.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BELINTANE, C. Vozes da escrita em tempos de crianças e menestréis. Estilos clin. [online]. 2008, vol.13, n.25, pp. 36-51. ISSN 1415-7128.

LACAN, J.O seminário: A Angústia, lição de 05 de junho de 1963.

NASCIMENTO, L M. Educação Especial Indaial. Ed Asselvi, 2007.

PINTO, F,C,N.,2009 – Grupo Mix : Um campo de linguagem para circulação da heterogeneidade.Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo. Brasil.



ROCHA, R. O que os olhos não veem. Ed. Salamandra, 2003)


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