Um problema da história literária (Da aparição do estilo pitoresco na literatura portuguesa)



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Um problema da história literária

(Da aparição do estilo pitoresco na literatura portuguesa)

UM dos processos de que modernamente lança mão com mais frequência o escritor, è a caracterização da paisagem, das variações do céu e das nuvens, do retraio, do vestuário, pelas diversas cores que apresentam. O escritor pre­tende, dalgum modo, rivalizar com o pintor, oferecendo-nos verdadeiros quadros com meias tintas, claro-escuro, cores vivas, que um lei­tor requintado filiará na maneira de determi­nado pintor— um Rubens, um Rembrandt, um Greuze (l).

«No século XIX, diz o eminente Gustave Lanson, produz-se um fenómeno novo. Entre o modelo objectivo ou subjectivo e a obra, alguma coisa se interpõe: não um ideal, mas a idea duma maneira, .dum processo de arte ou dum efeito, de arte a obter, ou, para falar com mais precisão, a idea duma outra arte a que a litera­tura pretende assemelhar-se e excitar as emo-

(1) V. no entanto as considerações de P. Lacombe, no seu livro «Introduction à 1'Histoire Littéraire, Paris 1896, pág. 264.

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ções especiais. Isto começou com Chateaubriand, mesmo antes dêle, com Bernardin de Saint-
-Pierre. Êste, vê-se bem, procura dar à sua des­crição o carácter duma notação de pintor; não quer dar-nos apenas a sensação visual do nascer ou do pôr do sol, mas a dos tons que se fundem nesta sensação, a das côres que toma como numa paleta para compor estes tons» (1).

Ainda diz o mesmo Lanson: «Bernardin... será o verdadeiro criador da frase pitoresca, daquela que é apenas sensação pura, sensação da vista ou emoção de pintor traduzida em for­mas e em côres» (2). Vejamos num nascer do sol em Bernardin de Saint-Pierre a demonstra­ção do que fica exposto:

«Vouz verrez d'abord blanchir à l’horizon, le lieu oú elle (l’aurore) va paraître... Cette blan-cheur monte insensiblement au ciel et se teint en jaune, le jaune, s'élevant à quelques degrés au-
-dessus de l'horizon passe à l’orangé; et cette nuance d'orangé s'élève au dessus en vermillon vif qui s'étend jusqu'au zénith. De ce point, vous apercevez au ciel, derrière vous, le violet à la suite du vermillon; puis 1'azur, ensuite le gros bleu ou indigo, et, enfin, le noir tout à fait à 1'occident» (3). Comentário de Lanson a êste trecho: «Não se diria um fragmento do carnet


  1. Lanson—«L'Art de la Prose», Paris, 1909, p. 277.

  2. Lanson, id., pág. 204. V. também a «Histoire de
    la Litterature Française», do mesmo autor, ll.a ed.,
    pág. 831. ;

  3. B. de Saint-Pierre—«Etudes sur la Nature», X.

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dum pintor, notas técnicas dum modelo para o trabalho no atelier?.". Até aqui a literatura, tanto em prosa como em verso, estava organi­zada para reproduzir, essencialmente, o homem e a vida; agora o mundo exterior, particular­mente a paisagem, ou seja o domínio dos pin­tores, foi anexado à literatura, e a frase tor-nou-se apta para receber tudo aquilo que só na tela parecia poder exprimir-se».

Renard (1), falando-nos do abuso do em­prego dos termos nobres e gerais nos fins do século XVIII, assinala a Saint-Pierre e a Cha-teaubriand o mesmo papel que lhe atribui Lan-son nas passagens citadas, identicamente a Arvède Barine (M.me Vincens), que na sua mo­nografia do autor do «Paulo e Virgínia», afirma que este «legou aos seus sucessores os primeiros grandes modelos da paisagem literária» (2).

Estas afirmações levam-nos naturalmente a investigar o que era o estilo pitoresco, ou melhor, o estilo pictural, antes de Bernardin, sobretudo em Portugal.

Chateaubriand, sustentando que a mitologia impedira os antigos de terem uma poesia descri-


  1. G. Renard—«La Mèthode Scientiíique de 1'His-
    toire Littèraire», Alcan, 1900, pág. 382.

  2. Arvède Barine—«Bernardin de Saint-Pierre»,
    Hachette, 3.a ed., pág. 186. V. também «Histoire de la
    Littèrature Française illustrée» de Bédier et Hazard,
    1923, 2.° vol., pág. 139.

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tiva, recorda-nos que os próprios poetas que cantaram a natureza como Hesíodo, Teócrito e Vergílio, embora nos tivessem legado admirá-


veis pinturas dos trabalhos, dos costumes e da felicidade da vida rústica, apenas nos deixaram nos seus escritos raros traços destes quadros dos campos, das estações, dos acidentes do céu, que enriqueceram a musa moderna (1).

Esta mesma escassez de descrições da natu­reza preocupava Schiller (2) e originou um magnífico capítulo do «Kosmos» (3) de Hum­boldt, no qual se inventariam as raras passa­gens que mostram o amor dos antigos pela natureza.

É nos italianos que iremos encontrar a admiração pela natureza e a sua pintura. Êles foram, diz Burckhardt na esteira de Humboldt, os primeiros entre os modernos que viram numa paisagem um objecto mais ou menos belo e que tenham achado prazer em olhar para um lugar pitoresco... Entre os antigos, por exemplo, a arte e a poesia tinham esgotado tudo o que se refere à vida do homem, antes de che­garem à descrição da natureza. Esta nunca for­mou mais do que um género restrito, se bem


  1. Chateaubriand—Génie du Christianisme», ed.
    Flammarion, vol. 1.°, pàg. 227-8. V. também a nota Q.,
    pág. 364 do mesmo volume.

  2. Schiller's sammtliche Werke, 1826, Bd. XVIII,
    S. 231, 423, 480 e 486.

  3. Humboldt—«Kosmos, Entwurf einer physischen
    Weltbeschreibung»—1842, Bd. 11, S. 6. :

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que, desde Homero, se encontre um grande número de palavras e de versos que atestam a funda impressão que a natureza produzia nos gregos e nos romanos» (1).

Relendo, porém, os passos apontados, nota- remos que o cromatismo raro intervém, e, quando uma notação de côr aparece, é desa­companhada de outras, de modo que nunca temos a impressão que nos dá Bernardin de Saint-Pierre — do carnet dum pintor.

Burckhardt, passando em revista trechos pitorescos (num sentido largo, não no restrito que lhe damos neste artigo) dos escritores ita­lianos, depois de se referir a Dante, Petrarca e Fazio degli Uberti, ao chegar a Sílvio Eneas (1405-1458) verifica que este foi o primeiro que tenha gosado os esplendores da paisagem ita­liana e os tenha descrito com entusiasmo até nos mais pequenos pormenores (2). Mas entu­siasmo e pormenores estão longe do estilo de Saint-Pierre e dos seus seguidores.

Exemplo da prosa de Sílvio Eneas; «Degraus
abertos numa rocha, sombreados por pâmpa-­
nos, conduzem por um declive rápido às mar-
gens do lago, onde se erguem carvalhos sempre
verdes, constantemente alegrados pelos cantos
dos tordos...»

Mas êste realismo não o impede de sacrifi-



  1. Burckhardt—«La Civilisation en Italie au Temps
    de la Rennaissance», tr. fr. de Schmitt. Paris, vol. 2.°
    pág. 16.

  2. Burckhardt, ob. cit., vol. 2.°, pág. 22.

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car à antiga descrição mitológica, p. ex. «Já, pois, a aurora ou alva se levantava do aça­froado leito de Titão seu marido e trazia o claro dia dos amantes desejado, e Apolo com os seus raios restitue a todas as coisas a sua côr e alegra o confiante Euríalo» (1).

Bruckhardt ao estudar a poesia dos sécu­los XV e princípios do XVI, encontra provas nu­merosas da forte impressão do espectáculo da natureza nos poetas, mas não acha descrições propriamente ditas de grandes paisagens, por­que a poesia lírica, a epopeia e a novela têm mais que fazer neste século de acção. «Bojardo e Ariosto (continua Bruckhardt) fazem quadros da natureza que brilham pela nitidez, mas que são elementares quanto possível... porque êles querem interessar sobretudo pelas personagens e pelos factos» (2).

Onde encontraremos então as descrições cro­máticas, picturais, que temos em vão buscado? Bruckhardt envia-nos para os autores de diálo­gos e para os epistológrafos.

«Bandello, por exemplo, fica fiel por con­vicção às leis do género literário que cultiva; mesmo nas novelas não diz mais do que o estri­tamente necessário quando quer indicar o qua­dro das suas narrativas: pelo contrário, nas dedicatórias que precedem as suas novelas, des-


  1. Sílvio Eneas — « Eurialó y Lucrecia, in Origines
    de la Novela, de Pelayo», tomo IV, pág. 113.

  2. Bruckhardt, ob. cit., vol. 2.°, pág. 27.

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creve muitas vezes, com complacência, a paisa­gem como fundo dos quadros onde pinta a vida social. Entre os epistológrafos, é preciso infeliz­mente citar Aretino como sendo aquele que, tal­vez pela primeira vez, pintou com uma grande riqueza de pormenores um magnífico efeito de sol poente» (1).

Notemos a data desta carta (1544), para ulte­riores divagações, e verifiquemos que também Chateaubriand vira que a descrição de Petrarca, Ariosto e Tasso se elevaram a um alto grau de perfeição, embora sem verdade. «Mas esta des­crição è destituída de verdade. Consiste em al­guns epítetos repetidos indefinidamente e sempre aplicados do mesmo modo. Não puderam sair dum bosque denso, dum antro fresco ou duma clara fonte... Flora voltou com a sua corbelha e os eternos Zéfiros não deixaram de a acom­panhar... Esta poesia descritiva, prossegue Chateaubriand, passou para França e foi favo­ravelmente acolhida por Ronsard, por Lemoine, por Coras, por Saint-Amand e pelos nossos velhos romancistas. Mas os grandes escritores do século de Luís XIV, desgostados com estas pinturas em que não viam nenhuma verdade, baniram-nas da sua prosa e do seu verso, e é um dos caracteres distintivos das suas obras que quási não se encontram nelas vestígios

(1) Búrckhardt, ob. |cit., pág. 27. Para a descrição citada, v. Aretino—«Lettere pittoriche: A Ticiano, Maio, 1544.

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daquilo a que chamamos poesia descritiva (1).


Em nota, Chateaubriand exceptua Fenelon, La
Fontaine, Racine Filho, etc., e a prosa dos mis­-
sionários. Muito haveria que dizer a propósito
das descrições de Fenelon, p. ex., mas como
não importa directamente ao nosso assunto,
continuemos.

Na Alemanha, baldadamente se procuraria nos seus antigos escritores o estilo cromático de que vimos falando. Mesmo em Wolfran de Eschenbach, apenas se encontrará a indicação vaga da scena em que se movem as suas per­sonagens (2), e o sentimental Walter von der Vogelweide, apesar do seu enternecido lirismo, não nos dá os aspectos coloridos da natureza (3).

A primitiva literatura inglesa; posto que
interessante, é de reduzidas pretensões artísti­-
cas (4). Mais rica depois de Chaucer mas sem a
descrição da grande paisagem, é um pouco
tardiamente que Spenser, (1552-1599) Sidney, etc.,
introduzem a escola italiana e o seu processo
descritivo.

E assim reconhecemos a verdade da afirma­ção já citada de Burckhardt, de que os italianos



  1. Chateaubriand—«Genie du Christianisme », ed.
    Fl., vol. l.º, pág. 233-4.

  2. Burckhardt, ob. cit, 11, pág. 17.

  3. Gedichte von Walter von der Vogelweide, Halle
    a. d. S.-

  4. Cf. Cook and Tinker—Selected Translactions
    from old english poetry, Grim and Compay; e Brooke —
    «The History of Early English Literature».

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iniciaram o estilo descritivo entre os modernos. Mas Burckhardt, Chateaubriand e Humboldt não deram, parece-nos, a importância que era devida à «Arcadia» de Sannazzaro, de que geralmente se diz muito mal, mas que foi, a nosso ver, uma das origens do estilo descritivo que se espalhou pela Europa e a quem, por certo indirectamente, são devedores o próprio Rous-seau, Bernardin de Saint-Pierre, Chateaubriand e a sua incontável descendência. Hoje, a averi­guação das fontes da «Arcadia» está feita, depois dos trabalhos de Francesco Torraca e Michele Scherillo, e as mais importantes con­clusões desses dois investigadores acham-se con­densadas na grande obra «Orígenes de la Novela», do insigne Menéndez y Pelayo. En­quanto Scherillo atribui à «Arcadia» uma forte influência do «Ameto» de Boccacio, Tor­raca acha-a insignificante. Menéndez y Pelayo opina que, como os dois livros pertencem ao mesmo género, sem o «Ameto» não teria pro­vavelmente existido a «Arcadia» «pois que Sannazaro carecia de imaginação novelesca e não o julgamos capaz de criar um tipo novo» (1). Como quer que seja, um passo há na «Ar­cadia» que merece fixar a nossa atenção.. É uma descrição do pôr do sol, anterior à de Aretino, pois que a «Arcádia» apareceu em 1504 e que vamos transcrever:

(1) Menéndez y Pelayo—«Origines de la Novela»,. Madrid, 1905, tomo 1.°, pág. CDXXIV e seguintes.

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«Era giá per lo tramontare del sol tutto 1'occidente sparso di mille varietá di nuvoli; quall violati, quali cerulei, alcuni sanguigni, altei tra giallo e nero, e tali si relucenti per la ripercussione de'raggi che di forbito e finissimo oro pareano...»(l).

Este trecho é notável pela sua riqueza de
colorido e vai, como veremos, ser o ponto de
partida, na prosa portuguesa, do estilo cromá-
tico. .

A literatura portuguesa até ao século é geralmente pobre de efeitos de arte, mormente de efeitos de cor. Se num ou noutro passo de originais e traduções há referência à cor dum objecto, como p. ex. na «Corte Imperial» onde se indicam com certa insistência as cores das pedras preciosas duma coroa, ou, na «Crónica Troyana» onde se faz a notação das sete cores que toma um véu maravilhoso, reconhece-se todavia que não existe nos autores a intenção de formarem um quadro, de rivalizarem com o pintor. Não se en-contrará, outrossim, em Bernardim Ribeiro, em Cristóvão Falcão, em Sá de Miranda, nos escri­tores que escreveram as suas obras anterior­mente a 1553 (2), êsse estilo que nos dá a policro­mia da paisagem ou dos acidentes do céu.

Não cremos que Bernardim dependa de San-


  1. Le tre Arcadie (Arcadia de Sannazzaro, de Men-
    zini e de Morei, Veneza, 1781, pág. 40.

  2. Data da publicação do livro de Samuel Usque
    «Consolaçam às Tribulaçoens de Israel. Ferrara.

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nazzaro e muito menos que Samuel Usque de­penda de Bernardim. Mas de Usque falaremos já. Quanto a Bernardim, se dependesse de San-nazzaro, é de crer que se inspirasse no belo pôr de sol que acima transcrevemos, e que desse ao seu estilo um maior ritmo, semelhante ao da «Arcádia», pois que Bernardim sabia aproveitar os seus modelos, como se pode ver da sua estra­nha expressão «o sol levantado até aos peitos», que descobri ser imitação do final do 2.° e do 3.° verso do terceto de Petrarca:

Vede 1'Aurora del aurato letto Rimanare à mortali il giorno, e l'Sol Gia fuor dell oceano infin al petto (l).

Descrições, tem-nas, e lindas, Bernardim Ribeiro; mas, como já notou Aubrey Bell, não há nenhuma «explicit indication of colour» (2).

O mesmo se poderia dizer dos nossos clás­sicos anteriores a Usque, salvo erro da nossa parte, sempre possível, tanta a abundância de material a consultar.

É com Samuel Usque ,(3) que supomos ter



  1. Petrarca—«Trionfo della Morte», cap. II, ter­
    ceto 60.

  2. Aubrey Bell—«Portuguese Literature, Oxford,
    1922, pág. 134.

  3. Sôbre o pouco que se sabe da vida de Samuel
    Usque, consulte-se o prefácio e notas do benemérito edi-

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aparecido pela primeira vez, com rara magnifi­cência, o estilo pictural na literatura portuguesa. Imitação de Sannazzaro, más não plágio. Leia-se este deslumbrante pôr de sol, maravilha de cor e de graça, surpresa das surpresas na prosa quinhentista, embaraçada e pesada:

«Já neste tempo o Sol, feita sua obra na fértil terra daquele seu particular hemisfério, se havia escondido debaixo das aguas do poente, e variando o céu de infla­madas nuvens, umas louras da cor do puro ouro de Ofir, outras sanguíneas qual a fina escarlata e precio­sos rubis, entre negras algumas, com longos raios, mui­tas como montanhas de neve ou branca lã escarmeada sobre verdoengas aguas do mar e á maneira de longas serras, algumas cinzentas bordadas de ouro, com fres­cos ares e quietas sombras, deixava os altos montes e verdes campos numa deleitosa temperança...» (i)

Aqui encontra-se a sensação pura, o croma­tismo de Bernardim de Saint-Pierre, ou de Cha-

tor da «Consolaçam às Tribulaçoens de Israel», o ilustre Professor Snr. Dr. Mendes dos Remédios, bem como a sua «História da Literatura Portuguesa»; a Introdução de D. Carolina Michaelis às obras de B. Ribeiro e C. Falcão ; a «História da Literatura Clássica», do Dr. Fidelino de Figueiredo; «Da Literatura Sagrada dos Judeus», por António Ribeiro dos Santos, «in Memórias de Literatura da Academia» (2.° vol.); História dos Cristãos Novos, de Lúcio de Azevedo, etc. Para mais indicações biblio­gráficas, Dr. Mendes dos Remédios, ob. cit.

(1) Samuel Usque—«Consolaçam às Tribulaçoens de


Israel», com revisão e prefácio do Dr. Mendes dos Remé­-
dios. Coimbra, vol. l, 1906, f. IV verso e V. Como se
trata apenas de crítica literária, modernizo um pouco a
ortografia. '

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teaubriand, ou de Flaubert. E se de facto, como cremos, Samuel Usque introduziu este estilo cromático na língua portuguesa, o seu papel é considerável—o dum iniciador dum género que ainda floresce, que é mesmo o maior recurso dos artistas da prosa dos nossos dias. Prosador extraordinário foi, na verdade, Samuel Usque. Dissemos que um dos maiores recursos da prosa moderna é a cor que dá às suas descri­ções. Os outros, são o ritmo e a notação da vida em flagrante. Pois Usque, inspirando-se sempre no bom velho Sannazzaro, e excedendo-o, tam­bém introduziu na língua portuguesa o ritmo, que por vezes atinge surpreendentes efeitos, e conseguiu ainda a notação dos movimentos e da vida como os maiores artistas dos nossos dias.

Afirmações graves que precisam de justifi­cação.

Todos conhecem as célebres páginas acerca do ritmo na prosa do livro de Guyau «L'Art au Point de Vue Sociologique (1), dando-nos a aná­lise de trechos de Zola, Flaubert, etc., sob o ponto de vista da sua estrutura rítmica. A prosa de Samuel Usque forneceria identicamente abun­dantes sequências de frases rítmicas, por vezes de versos perfeitos, chegando a ter séries de frases com a mesma medida (decassílabos), como por exemplo:

(1) Guyau—Ob. cit. V. também G. Saintsbury— «A History of English Prose Rhytm». Londres, 1912, e Lanson—«L'art de la Prose», já cit.

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Não passes adeante com teu planto, Cessa já oh Israel de lamentar-te, Quiçaes desatinado com a dor, Não toques mais co'a língua no vedado Que contra o céu não tens que te queixar (1).

O decassílabo abunda, ora com acento na 6.a ora na 4.a e 8.a. Mas, o que mais surpreende, é encontrarem-se alexandrinos, algumas vezes frouxos, mas outras perfeitos, versos só muito recentemente usados pelos nossos poetas.

Exemplos duns e doutros, indistintamente:

E tu guerreira, sábia e temperada Europa (2)

Umas louras da côr do puro ouro de Ofir (3) Oh filhas minhas mais que o puro leite brancas sobello claro sol formosas e alegres (4)

Pisaram com os pés as virgens de Israel (5) Sentiam um fresco ar que com suave ruído (6) Tornei a idolatrar no ídolo Baal (7)

Oh amados meus não volteis atraz os olhos que vendo o que deixais mais máguas levareis (8)



  1. S. Usque, ob. cit., vol. I, f. LI.

  2. Id., l.ª p. f. I.

(3) Id., l.º p. f. V.
(4) Id., I.ª p. f. L, V.

  1. Id., l p. f. XX, V.

  2. Id., l.a p. f. IV, V.

(i) Id., l.ª p. f. XXIV, v.

(8) Id., l.º p. f. XXXII, V.

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E docemente as mais altas ramas brandindo (1)

Co'a barba no ar saia o ligeiro veado

Viam de longe a real e delicada garça (2)

A quem se aparecera o leão com asas de águia (3)

E a outra temerosa e feroz alimária (4)

Assi que carne sã de ti não foi talhada (5)

Mas, oh triste de mim que clamo piadade

Oh meu desviador, quam sofreado me tens! (6)

Insistimos, sem contudo esgotar os exem­plos, para mostrar que não é por acaso que tantos versos aparecem. Além da influência de Sannazzaro, possuía o ilustre judeu um notável sentido do ritmo, que é um dos imprescindíveis requisitos do moderno prosador de arte.

Mas ainda a cor e o ritmo não são os únicos altíssimos predicados do extraordinário hebreu. Há notações de movimento e de vida felicíssimas, verdadeiros instantâneos, que só um grande artista pode obter.

Ali os piquenos e tenros cordeiros de poucos dias antes nascidos arremetiam às chêas tetas das piadosas


  1. Id., l.ª p. f. IV, v.

  2. Id., 1.ª p., f. VI, v.

  3. Id., 1.ª p., f. L, v.

  4. Id., ibid.

  5. Ib., l.ª p., f. LI.

  6. Id., 1.ª p. XXXVIII, V.

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madres, apressurosamente mamando, com aquele gosto e sabor que quási parecia lhe quererem as longas ma­mas arrancar» ( l).

Vejamos um nebri perseguindo uma garça:

... humana e piadosamente (a garça) se queixava... e após ela o imigo sempre subindo e sujigando-a, asperamente a tornava a ferir: de tal maneira, aqui ligeiramente saindo e ali manhosamente acometendo, a ia com suas longas e agudas unhas contino acutilando; que muitas vezes os pedaços da vencida e cansada garça, vinham abaixo; e de suas pombinhas penas (ainda uma notação de cor) umas por aqueles claros e frescos ares andavam vagando; outras, sobre a ver­dura, aqui e ali, espalhando-se, desciam (3).

E como estes, muitos trechos, sobretudo da pastoral do primeiro diálogo.

Um exemplo de prosa cortada que faz lem­brar Vieira:

.. .Vi entrar em Yerusalaim aquela Águia romana nas mãos do fero Tito, desatando as azas, ensanguen­tando o bico, estragando bosques de humanas criatu­ras, inglutindo carnes, chupando sangues e espeda-çando membro a membro milhões de corpos de sacer­dotes... (3)

Já várias vezes falámos na influência de Sannazzaro sobre Usque, e é ocasião agora de o provarmos.

(1) Id., 1.ª p. f. IV.


  1. Id., 1.ª p. f. VII. Note-se também o ritmo imita-
    tivo da queda lenta das penas.

  2. Usque, ob. cit., l.a parte, f. XX.

REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS 63

Parece-nos, com efeito, que a pastoral da l.a parte depende quási unicamente do autor da «Arcadia». Já vimos o pôr de sol de Sannazzaro inspirar o de Usque. Basta o leitor comparar. (Veremos mais adeante um português Fernão Alvares do Oriente imitar menos honestamente o mesmo pôr de sol de Sannazzaro). Mas há mais passagens em que a influência do «Arca­dia» é tão evidente, que supomos que não ficarão dúvidas.

Comparemos.

Trata-se do regresso dos pastores.

Diz Usque:

... e reservando novos jogos de passo em passo, iam tirando com as fundas a algum alvo, e quem mais perto com o duro seixo lhe chegava, todolos outros com bater de palmas e alegre grita o levavam às costas té um signal» (l).

Agora Sannazzaro:

... tirammo ad un certo segno; ai qual e chi piu si avvicinava, era siccomme vincitore, per alquanto spa-zio portato in su le spalle da colui che perdea; a cui tutti coii lieti gridi andammo aplaudendo intorno... (2)

Outro exemplo: Em Usque:

E deixando êste jogo, ora saltando, ora tirando à barra e lutando, ao vencedor coroavam com capelas de



  1. Usque, id., l.a p. f. V.

  2. «Le Tre Arcadie», pág. 41.

64 REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS .

verde louro, tangendo-lhe com suas gaitas e rabecas


em sinal de vitória» (1).

Vejamos em Sannazzaro:

... ora provandone a saltare ora a dardeggiare con li pastorali bastoni, ed ora leggierissimi a correre per le spiegate campagne; ove qualunque per velocità primo la disegnata meta tocava era di frondi di pallidi ulivi onorevolmente a suon di sampogna coronado per guiderdone (2).

Em Samuel Usque:

«...Viam as ovelhinhas, umas em prado chão às verdes e miúdas ervas suavemente pascendo; outras, subindo em lugares ásperos, se dependuravam a roer algum novo arvorezinho que então tenro se levantava da terra; outra se empinava para alcançar um ramo de figueira; qual mordendo os tenros gomos .das parreiri-nhas bravas, qual tascando a penca do selvático car­do... muitas outras, já contentes do pasto, bebendo nos claros ribeiros, se alegravam verem-se no fundo como vivas...» (3)

Em Sannazzaro lê-se:

«...ma la pecore e le capre, che piú de pascere, che de riposare erano vaghe, cominciarono ad andarsi appicciando per luoghi inaccessibili ed ardui, del selvá­tico monte, quale pascendo un rubo, quale un arbos-cello che all’ora tenero spuntava della terra; alcuna si alzava per prendere un ramo di salce, altra andava rodendo le tenere cime di quercinole, e de cerreti; molti


  1. Usque, id., l.a pág. f. V.

  2. «Le Tre Arcadie», pág. 41.

  3. Usque, ob. cit., l.ª parte, f. IV.

REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS 65 -

bevendo per le chiare fontane, si rallegravano di ve-dersi dentro di quelle...» (l)

E para terminar, ainda em Usque e em Sannazzaro:

«...E acabando com grandíssimo deleite depois de muitos jogos sendo grande parte da noite passada... (como emborrachados) dormindo se caiam» (2).

«...ove dopo giuocare, essendo gran pezza della notte passata, quasi stanchi di piacere, concedemmo alle esercitate membri riposo» (3 ).

E o paralelo levava-se mais longe ainda. Não foi Bernardim Ribeiro com os seus jogos de pastores, etc., o inspirador de Samuel Usque, como recentemente se disse. Vemos que o foi Sannazzaro, no tom geral do estilo (da pastoral), no ritmo, na cor e até nas scenas pastoris.

Como temos em outro estudo de voltar a assunto idêntico, para ele reservamos mais ampla documentação deste ponto, que é funda­mental para certos problemas da literatura portuguesa.

Falamos nos seguidores de Usque. Que saibamos, apenas o Snr. José Benoliel notou uma possível influência de Usque em Camões, e è inegável que a aproximação de vários passos



  1. «Le Tre Arcadie», pág. 44.

  2. Usque, ob. cit., parte l.a, f. V, verso.

  1. «Le Tre Arcadie», pàg. 41-2.

                  1. 66 REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS

dos Lusíados com outros da «Consolaçam», é impressionante; mas influência mais evidente é quanto a nós, a que o ilustre Usque exerceu em

Fernão Alvares do Oriente.

O autor da «Lusitania Transformada» imi­tou a «Arcadia» por vezes abusivamente. A descrição do .ocaso, de Sannazzaro que aqui já transcrevemos, e que inspirou a de Usque, também aqui reproduzida, é imitada por Alva­res do Oriente nestes termos :

Estava já, por ser o Sol transposto, o Oriente todo esparzido de mil variedades de nuvens, umas roxas, outros sanguíneas e outras que entre amarelo e negro compunham uma côr desusada cá na terra: e todas juntas representavam o arco do Céu, e feridas do Sol pela reflexão dos raios, pareciam de ouro finíssimo bor­dadas (1).

Certas passagens da vida pastoril e estilo, tanto podem ter a sua origem em Sannazzaro como em Samuel Usque, mas o que, quanto a nós, marca a influência de Usque no conspecto da obra, é a forma como caracteriza a inqui­sição:

Diz Fernão Alvares:

Da parte da vossa Hespanha foi ter naquele tempo ao nosso Oriente um monstro fero, que a todos os que a idade viu no mundo fazia vantagem na crueldade e na bruteza... (2)

(1) Fernão Álvaro, do Oriente—«Lusitania Trans­formada, 1381, pág. 95.

(2) Fernão A., do Oriente, ob. cit,, pág. 210.

REVISTA DE ESTUDOS HISTÓRICOS 67

Ora também Usque, referindo-se à inqui­sição, a personifica num monstro horrível.

... fizeram vir de Roma um fero monstro de forma tão estranha e tão espantosa catadura que só de sua fama toda a Europa treme... (l)

Este dado e as semelhanças gerais de estilos,
permitem-nos considerar Sannazzaro e Usque
como os mais directos inspiradores da «Lusita-­
nia Transformada. . .

Para as fontes hebraicas de Samuel Usque, de mínima importância para a pastoral do

1.° diálogo, limitar-nos hemos a enviar o leitor às eruditas notas do ilustre editor da «Consola-çam às Tribulaçoens de Israel», Snr. Dr. Men­des dos Remédios. Tão somente quisemos neste perfunctório estudo mostrar que a iniciação do estilo pictural na literatura portuguesa se deve a Samuel Usque, que se inspirou directamente em Sannazzaro».

2/3/1925.



josé teixeira rego.

{l) Samuel Usque, ob. cit., III, p. f. XXVI.


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