Um problema paleogeográfico



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Um problema paleogeográfico


Um dos homens de sciência que com mais eloquente convicção tem nos últimos tempos admitido a verosimilhança dos textos de Platão sobre a Atlântida —Pierre Termier — assevera que "sob o ponto de vista geológico a narrativa platónica é altamente provável,;, e, invocando os numerosos dados de Louis Germain sôbre a fauna, conclui que o cata­clismo que fez desaparecer aquela "ilha maravilhosa,, (na sua própria expressão) é indubitável "faltando apenas provar... que ele foi posterior à aparição do homem na Europa oci­dental,,, condição necessária para que a sua recordação se perpetuasse. Mas, escreve, nem a geologia nem a zoologia poderão resolver o problema, e fica esperando da antropolo­gia, da etnografia e da oceanografia a solução (l)

Não se conforma com êste ponto de vista o eminente geólogo espanhol, D. Lucas Fernández Navarro, que com muita proficiência se tem ocupado do assunto em vários artigos: "Nem a Etnografia nem a Antropologia poderão jamais fornecer provas,, demonstrativas de que "dentro da era humana se deu um facto geológico que fez desaparecer terras bem conhecidas,,. Os dados geológicos são, no seu parecer, os únicos susceptíveis de resolver a questão. E estes, por emquanto, "deixam o ânimo em suspenso,,, se bem que "haja muitos indícios que tornam possível a hipótese,, (2).

Sem dúvida, como já foi notado, Termier vai excessiva­mente longe quando pretende atribuir à narrativa de Platão

(1) Pierre Termier — Atlantis — "Smithson. Report for 1915,,, Washington, 1916.

(2) D. Lucas Fernández Navarro — Nuevas consideraciones sobre el problema de la Atlantis—Ext. da "Revista de la Real Acad. de Ciências Exactas, Físicas y Naturales de Madrid,,, t. XV, n.º 9, Madrid, 1917, pp. 14 e 15.

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uma "exactidão quási scientífica,,. Também é evidente que a demonstração de um facto geológico deve assentar essencial­mente em argumentos geológicos. Mas a fixação cronoló­gica desse facto dentro da era humana dispensa inteiramente o concurso das sciências antropológicas? Com a devida vénia, permitimo-nos discordar da opinião de D. Lucas Na­varro neste ponto restrito, e julgamos mesmo que, se se tivesse efectivamente dado esse cataclismo geológico dentro da era humana, seria mais fácil fixar-lhe uma data aproxi­mada pelas indicações arqueológicas, antropológicas, etno­gráficas e até possivelmente históricas do que pelas indicações exclusivas da geologia, a qual por certo não pretende atingir nesse ponto a precisão dos documentos históricos e mesmo a da arqueologia.

Mais fundado parece pôr em dúvida o valor das indi­cações zoológicas ou botânicas para a fixação dessa data. Louis Gentil, que sobre dados geológicos e geomorfológicos afirmou a continuidade entre as dobras terciárias do Alto Atlas e as ilhas Canárias, faz notar este facto: Pitard, botâ­nico, data de tempos muito remotos do quaternário a última fase da submersão da Atlântida, e Germain, sôbre os ele­mentos zoológicos, diz que ela foi recente, colocando-a na visinhança do neolítico. E disso conclui Gentil: "Os estudos de zoologia ou botânica não resolverão nunca o problema da Atlântida,, (1).

Se bem que vários proclamem o limitado valor estrati-gráfico dos moluscos terrestres, nem por isso devemos/ en­tretanto, recusar inteiro valor às indicações biogeográficas na solução do problema da Atlântida. Alguns dos argu­mentos de Germain dão sem dúvida consistência à hipótese de ligações continentais entre as ilhas atlânticas e o Antigo e Novo Continentes, como a distribuição dos Oleacinidae, Clausilidade, de alguns hemípteros do género Brachysteles, etc. (2) Os dados de Proust e Pitard permitem, pelo menos, crer no carácter antigo e no aspecto continental da flora das Canárias (3). Wollaston, estudando os coleópteros dos

(1) Louis Gentil —Le Maroc Physique — Paris, 1912, pp. 123 e 124.

(2) Louis Germain—Le problème de l’Atlantide et la Zoologie. "Annales de Géographie,,, n.º 123, 1913.

(3) D. Lucas Fernández Navarro— L'état actuel du problème de l'Atlantide— l.ère partie— "Revue Générale des Sciences,, T. XXVII — Paris, 1916, p. 429.

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arquipélagos da Madeira, Canárias e Cabo Verde, verificou que, se entre as espécies ha muitas diferentes, entre os géne­ros ha muitos comuns e concluiu: "all combine to proclaim the islands to be outposts of a single gigantic province which has been rent asunder and is now principally sub-merged,, (l). O Barão de Castelo de Paiva, que foi profes­sor da Academia Politécnica do Porto, contestando a opinião de Mousinho de Albuquerque de que as Canárias, Açôres, Cabo Verde e Madeira seriam restos da Atlântida submersa, afirmava pelo contrário que a Madeira e outros arquipélagos teriam resultado da actividade vulcânica submarina, e fazia notar que quási todos os moluscos terrestres do arquipélago da Madeira não aparecem nos Açôres, Canárias, Cabo Verde, costas fronteiras de África e de Portugal, "e no litoral medi­terrâneo (2). No entanto a leitura da monografia não ra­dica esta asserção. D. Lucas Navarro refere-se aos dados de Bolívar, segundo os quais há mais diferença entre a fauna ibero-marroquina e a das ilhas atlânticas do que entre as faunas andaluza e marroquina, o que parece indicar que a separação daquelas ilhas se fez antes da abertura do estreito de Gibraltar. Tambêm sôbre os mesmos dados acentua que a fauna ortopterológica dos Açôres é uma fauna de impor­tação, correspondente à sua situação centro-atlântica, deven­do porisso os Açôres excluir-se da suposta Atlântida (3).

Um estudo moderno de Guppy sobre a flora dos Açores diz que as plantas indígenas são pouco numerosas e a flora açoriana tem um carácter, acentuadamente europeu, com poucas afinidades com a África e Canárias. Considera essa flora relativamente recente, podendo atribuír-se a actuais agentes de dispersão, o que contrasta com as floras das Canárias e Madeira, que datariam, pelo menos parcialmente, talvez do mioceno (4). Estas observações de Guppy consti­tuem, ao que me parece, uma brilhante confirmação da opi­nião de D. Lucas Navarro.

Como é possível, pois, pôrem-se de parte, como até

(1) T. Vernon Wollaston— Coleoptera Hesperidum — London, 1876, p. XXXVIII.

(2) Barão de Castelo de Paiva — Monographia Molluscorun Insu-larun Madeirensirun— Lisboa, 1867, p. V e segs, e XI.

(3) D. Lucas F. Navarro — Nuevas consideraciones, etc., op. cit., p. 6 e 7.

(4) Cf. "Nature", London-New York, vol. 94, 1915, p. 570.

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certo ponto indicariam as palavras de Gentil, os dados bio­lógicos, quando tão valiosos subsídios parecem fornecer?



Muito menos caberia excluir os dados arqueológicos e antropológicos. De resto, os próprios dados geológicos não são igualmente valorisados por todos os especialistas como fundamentos da hipótese da Atlântida. Aludindo aos estudos de Gentil sobre o Grande Atlas, Lapparent escreveu, de acôrdo com êle: "A voir la façon brusque dont la chaine se termine ao cap Ghir, et la régularité avec laquelle les îles volcaniques dês Canaries s'alignent sur son prolongement, on est porté à soupçonner qu'une ancienne terre, peut-être l’Atlântide de la tradition, existait au-devant du Maroc, et qu'en s'écroulant elle a ouvert des fissures par où 1'activité éruptive s'est fait jour (1)„. Mas ao passo que Gentil pensa que a ruptura do canal canário-marroquino se teria feito depois da do estreito de Gibraltar, D. Lucas Navarro, também geólogo, pensa o contrário, embora sôbre dados, biológicos, como já vimos. E há mesmo uma questão de facto em que o geólogo espanhol diverge de Pitard e Gentil: na pretendida existência de cretácico na ilha do Ferro (Ca­nárias) (2).

Se ninguêm fundadamente contesta tambêm que certas áreas do Atlântico, mais ou menos vulcânicas e mais ou menos sísmicas, são zonas de instabilidade, que traduzem fortes deslocamentos da crusta, se ninguêm contesta que a Península Ibérica se prolongasse outrora a Oeste, se nin­guém contesta, depois dos trabalhos de Suess e Bertrand, que uma massa continental muito antiga teria unido o norte da Europa à América septentrional, e outra a África à Amé­rica do Sul, o que é certo é que nem todos vêem nesses factos provas ou mesmo sequer argumentos em favor da Atlântida de Platão. Termier quiz do fragmento duma lava vítrea, tachylite, extraída do fundo do oceano, de 3100m de profundidade, a cêrca de 500 milhas ao norte dos Açôres, concluir que a zona dos Açôres teria sido recentemente sub­mergida, visto que essa lava, comparável a certos basaltos



  1. A. de Lapparent — Leçons de Géographie Physique –3.e édit. Paris, 1907; p. 535.

(2) L. Fernández Navarro — Sobre la no existência del cretácico en la isla de Hierro (Canarias) — Extr. do Bol. de la R. Soc. Españ. d'His-toria Natural,, Madrid, 1918. Vd. também nota à Acad. das Sciências de Paris, sessão de 3 de Dezembro de 1917.

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dos vulcões das ilhas Hawai, só poderia solidificar no estado vítreo à pressão atmosférica (a maior, número de atmosferas, cristalizaria). Mas Schuchert, do outro lado do Atlântico, proclama que os Açores são ilhas vulcânicas e não restos dum continente, e que a tachylite mencionada se formou provavelmente onde foi encontrada. Sem que vá tão longe como Palacki, que considera a Atlântida "impossível,, (1), ou mesmo talvez como Th. H. Martin, Humboldt, Rialle, G. de Mortillet, Verneau e outros, que a consideravam uma fantasia que, segundo alguns, "deveria ser relegada para o domínio da fábula,,, (2) o que é certo é que, com a sua indiscutível autoridade, Schuchert afirma que "não há qualquer dado geológico que prove a existência da Atlântida de Platão nos tempos históricos,, (3).



Uma das particularidades em que ressalta a insuficiência dos dados geológicos sobre que se tem pretendido funda­mentar a tradição platónica, é a imprecisão dos contornos e da extensão dessa formação insular ou continental, imprecisão que encontra aliás desculpa na afirmativa de que a catástrofe de que fala Platão, não seria mais do que a última fase da submersão dum vasto território, de que não teriam ficado nas eras geológicas mais próximas da actual mais do que fra­gmentos relativamente muito reduzidos. Mas a verdade é que Termier inclue os Açôres, a Madeira e as Canárias na Atlân­tida, quando é certo que ele mesmo dá conta de sedimentos miocenos da ilha de Santa Maria (4), a ilha mais meridional dos Açôres, o que parece indicar que um mar mioceno sepa­raria parcial ou totalmente estas ilhas dos arquipélagos do sul.

Gentil confessa que lhe não é possível dizer se a Atlân­tida compreendia os Açôres, Cabo Verde e a Madeira; apenas lhe outorga as Canárias.


(1) Cf. G. Sergi — L'Uomo — Milano, Torino, Roma, 1911, p. 40.

(2) R. Verneau — Le Maroc et les Canaries — "Revue Générale des Sciences", Paris, 1899, t. x, p. 140.

(3) Anal. em "Nature", de C. Schuchert —Atlantis and the permanency of the North Atlantic Ocean bottom — "Proceedings, National Academy of Sciences", Washington, n.° 2, vol. 3.º, February, 1917.

(4) P. Termier - Op. cit., p. 230. Num artigo muito recente numa revista de vulgarização, Lectures pour tous (Junho, 1920), Alphonse Berget reedita as suposições de Termier sobre a Atlântida, mas, embora alu­dindo à descoberta da tachylite no fundo do mar o N. dos Açôres, evita mencionar estas ilhas entre os vestígios do hipotético território. Dado o carácter extremamente conjectural dêstes estudos, parece-nos prematura a sua vulgarização para o grande público.

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Para o sr. Pereira de Sousa (1), uma parte da Atlântida existira na depressão do Golfo de Cadiz, que chama "afundi-mento em oval lusitano-hispano-marroquino,, e que teria, sido o epicentro do megasismo de 1755 e de outras manifes­tações sísmicas. Depois de se referir aos embasamentos de rochas antigas sobre que os vulcões originaram os Açores, Cabo Verde e Canárias, detêm-se na classificação da idade dos fósseis terciários ou mais modernos de Porto Santo è Madeira, estudados por K. Mayer e Berkeley Cotter, e acta que a Madeira e Porto Santo se elevam na direcção do pro-longamento da Meseta marroquina) na qual se teem também encontrado depósitos terciários. A seu vêr, "embora os arqui­pélagos das Canárias e da Madeira estejam já na orla com, que limita o afundimento em oval lusitano, hispano-marro-quino, bem visível numa carta batimétrica, podem bem con­siderar-se os seus vulcões como consequências deste afundi­mento, e os outros terrenos como restos da região que se afundou,,. Talvez, diz, a deslocacão que na serra de Caldeirão fez aflorar no Culm um tracto importante de triásico, seja um vestígio da catástrofe que sepultaria essa região.



Se a imprecisão sobre os contornos da hipotética Atlân­tida é grande (não falaremos agora da descrição de Germâin que é fundada na zoologia), tão grande que nos fazem sorrir as cartas geográficas da Atlântida dadas por Bory de Saint--Vincent e por Donnelly- a verdade é que não ha rnenor im­precisão na fixação da data do cataclismo que a teria sub­mergido. Gentil diz, como vimos, que a ruptura do canal canário-africano dataria do quaternário, mas francamente afirma não saber de que fase do quaternário.

O sr. Pereira de Sousa também se não fixa na época ao afundimento, a que já aludimos, e que deveria relacionar-se com a do retalhamento do continente de que teriam feito parte "as ilhas do Atlântico ocidental e cujos fenómenos eru-ptivos, ainda recentes, testemunham as fracturas" que produ­ziram o seu desaparecimento.

O estudo dos depósitos do arquipélago da Madeira leva-o a crer que esta parte do afundimento se deu depois do Vin-doboniense, depois de fechado o estreito andaluz e aberta a comunicação do Mediterrâneo pelo estreito sud-rifenho. É

(1) Pereira de Sousa —Ideia geral dos efeitos do megasismo de 1755 em Portugal— Lisboa, 1914.

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possível, em virtude da idade quaternária de alguns fósseis das praias levantadas de Pôrto-Santo, que o homem já tenha assistido à catástrofe. O terramoto de Lisboa de 1755 seria, para o sr. Pereira de Sousa, ainda talvez o último arranco da Atlântida submersa.



. Não se arriscando em conjecturas sobre a cronologia do fenómeno—possível, embora não provado—a não ser as fun­dadas nas investigações de Bolívar, D. Lucas Navarro dis­tingue o continente atlântico dos geólogos (que teria desa­parecido no terciário), da Atlântida de Platão que, a ter existido, não poderia ter-se extinto antes da era humana. Ora, "a humanidade capaz .de conservar tradições não é anterior ao quaternário médio, entre o Mindeliense e o Rissiense,,, e a simples tradição oral não bastaria, devendo por isso tratar-se já duma época menos remota, coeva duma humanidade mais evolutida (1).

Há algum dado geológico que permita crer em que o fenómeno seja de data assim relativamente recente? Não nos parece que a geologia nos conduza senão à crença na sua possibilidade. Os sismos de epicentro ocidental, litoral ou sub­marino, da Península atestam movimentos tectónicos ou instabilidade; mas o que podem dizer-nos sobre a data da submersão da Atlântida? Quais os cronómetras puramente geológicos que podemos utilizar neste caso?

Não é lícito em suma confinar a solução do problema paleogeográfico da Atlântida dentro da geologia ou dentro da biologia. Para se provar que um facto geológico foi pre-senceado pela humanidade, e que uma expansão e uma cultura notável como as que Platão atribuí ao povo da Atlântida, foram sepultadas nesse cataclismo formidável, é preciso não excluir os dados fornecidos pela pre-história ou até pela história.

Isto não quer dizer que essas sciências tenham fornecido já a solução que as outras não deram. Nada disso. Sob o ponto de vista histórico, de quási nada vale que muitos escritores da antiguidade, como Plínio e outros, hajam reproduzido com

(1) D. Lucas Navarro, Op. cit., p. 2.

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mais ou menos fidelidade a explanação de Platão, que Teo-pompo haja apresentado uma sua variante, e que, segundo Marcelo, nas ilhas fronteiras à Mauritânia se tivesse conser­vado a tradição da Atlântida. Também nada se pôde concluir de positivo das lendas de druidas, de que fala Louis Gentil. A arqueologia e a antropologia também não dão resultados positivos, como vamos ver.



Naturalmente não pensamos em localizar uma possível Atlântida senão no leste do Atlântico em frente das Colunas de Hércules, abrangendo algumas das ilhas atlânticas,, e tendo ou não primitivas ligações geomorfológicas com a Península Ibérica ou com a Mauritânia. E esta a, única Atlântida a que se poderia referir o texto de Platão, bem preciso na sua loca­lização para que, como Rudbeck, a identificássemos com a Escandinávia, ou, como Bailly, com a Groenlândia, o Spitz-berg e a Nova Zembla, ou, como Latreille, com a Pérsia,- ou como Buache, com a linha de altos fundos do Cabo ao Brazil, ou, como De Baer, com Sodoma e Gomorra, ou até, como mais recentemente fizeram outros autores, com a ilha de Creta (Edwin Swift Balch), ou qualquer região do contorno do Me­diterrâneo—talvez a Sicília ou o sul do Adriático — (Mahou-deau), ou as proximidades do Golfo da Guiné (Leo Frobenius). A localização na América ou na região das Antilhas (Oviedo, MacCulloch, De Paw, etc.) poderia admitir-se se uma, tal distância fosse acessível aos antigos navegadores do oriente mediterrâneo e se mais perto, também a O. do estreito de Gibraltar, não houvesse regiões vulcânicas e instáveis, e outras ilhas atlânticas, às quais logicamente primeiro se devem, diri­gir os inquéritos mais especiais. O texto de Platão não autoriza a supor que se tratasse apenas duma pequena ilha litoral, formada pelos deltas do Ued-Sus e do Ued-Draa, como preten­dia Berlioux: a Atlântida era maior do que a Líbia e a Ásia reunidas, dizia Platão, e por imperfeito que fosse o conheci­mento que este tinha da extensão da Líbia e da Ásia, e por hiperbólica que fôsse a sua asserção, é lógico crêr que ele se não referisse nesses termos a uma "pequena,, ilha litoral.

Tournefort e Bory de Saint Vincent aproximaram-se mais das suposições hoje predominantes, sobre a localização da Atlântida; mas são fantasiosas as razões que apresentam para explicar a sua submersão: para o primeiro teria sido a ru­ptura do Ponto Euxino e consequente aumento de volume das águas do Mediterrâneo; para o segundo a ruptura do lago Trytónide do interior da África para o Oceano...

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Mais infundadas são as identificações étnicas dos habi­tantes da. Atlântida com povos conhecidos: os bascos e os guanches, segundo Bory de Saint Vincent; indo-europeus, loiros e de pele branca, parentes próximos dos celtas e dos pelasgos, talvez os líbios ou lebús, segundo Berlioux. Este traça-lhes mesmo uma "história,, minuciosa das suas migra­ções e conquistas. Essa história tem para nós quási tanto valor como a ingénua suposição do nosso P.e António Cordeiro, da Companhia de Jesus (1717), de que a tradição da Atlântida (ou Atlanta, como ele escreve) de Platão —que diz fabulosa e inacreditável—teve a sua origem no nome do décimo-quinto-rei de Espanha, Atlante, vindo de Itália por mar (1) — um fan­tasmagórico rei dessa fantasmagórica série engendrada por fr. Bernardo de Brito e similares —e de que a formação das ilhas atlânticas tem a sua explicação no Génesis (2).



Quantos aos bascos, o seu idioma anárico, no seio de po­pulações falando línguas áricas, e alguns outros seus caractéres étnicos sugerem a identificação com populações muito anti­gas, de estirpe diversa da daquelas (3) — mas porque hão de ser sobreviventes da Atlântida? Contra a hipótese de Berlioux, os loiros do Aures, de origem tão controvertida (4), não repre­sentariam com mais razão do que os bascos, os povos daquela terra submersa, nem é lícito, como aquele autor pretendia, atribuir a estes hipotéticos povos os monumentos megalíticos, que estudos recentes teem mostrado bastante relacionados com a distribuição da braquicefalia nas costas europeias (5).

Também Mahoudeau tem razão em distinguir os habitan­tes da Atlântida dos Atlantes do monte Atlas, que Plínio, Pompónio Mela, etc. descrevem como atrazados, ao passo que os outros, segundo Platão, seriam relativamente civiliza-

(1) P.e António Cordeiro — História insulana das ilhas a Portugal sujeitas. — P. 18 e segs., vol. l da edição de 1866, Lisboa. .

(2) Id., p. 24 e segs.

(3) Merecem especial referência os recentes estudos do prof. Aranzadi sôbre os bascos: El tipo y raza de los vascos—Bilhão, 1919; Cráneos de Guipúzcoa, "Congreso do Madrid da As. Españ. para el Progr. de las Ciências,,, 1913; El triángulo facial de los cráneos vascos, "Memória de la Soc. Españ. de Historia Natural,,, tomo x, mem. 8.ª Madrid, 1917. Cf. também nosso livro Raça e Nacionalidade, Pôrto, 1919, pag. 105 e segs.

(4) Cf. Mendes Corrêa, Op. cit, p. 121 e 127.

(5) Giuffrida-Ruggeri -- Antropologia e archeologia in taluni ri-guardi della preistoria europea — Extr. "Archivio per 1'Antrop. e 1'Etnol.,,, t. XLVI, Firenze, 1917, p. 11 e segs.

dos. Só uma confusão pôde explicar, na opinião de Mahou-deau, que Diodoro Sículo houvesse dado os Atlantes do Atlas como de elevada cultura (1).

Dum rápido balanço do que se tem colhido na paletno-logia das ilhas atlânticas em questão e das regiões continen­tais fronteiras resultam elementos nulos ou quási nulos para o estabelecimento da realidade da Atlântida e para a fixação da data do seu desaparecimento.

Segundo o testemunho dos cronistas, os arquipélagos dos Açôres e da Madeira foram encontrados desabitados. Os contemporâneos de Cristóvão Colombo referem-se a cadáveres de homens duma raça desconhecida achados nas praias da ilha das Flores. Tratar-se-ia mais presumivelmente de supostos indícios das populações que as viagens de Co­lombo trouxeram ao conhecimento da Europa do que de problemáticos restos de antigas populações atlânticas. Tam­bém em Portugal se falou muito duma estátua de pedra dum homem a cavalo, com o braço direito e o indicador esten­didos apontando o poente ou o noroeste, que teria sido vista na ilha do Corvo e que, segundo os contemporâneos de jesuíta Gaspar Fructuoso, apontaria uma ilha ainda enco­berta, chamada Garsa. Para Fructuoso seria uma "antigualha muito notável,,; para o P.e Cordeiro seria "obra da Divina Inteligência,,, (2). Supostos monumentos arqueológicos da ilha de S. Miguel, de que não ha qualquer vestígio positivo,

(1) P. G. Mahoudeau — Les Atlantes d'après les auteurs de l'antiquité - "Revue Anthropologique", Paris, 1913. Cf. tambem sôbre a Atlântida: Do mesmo autor, Les traditions relatives à 1'Atlantide et á Ia Grèce prèhistorique transmises par Platon. — "Revue Anthr.,,, Paris, 1913. — Segundo Mahoudeau, a tradição que serviu de base ao texto platónico, foi remodelada com o fim de lisongear os Atenienses: tratar-se-ia dum cata­clismo muito mitigo sob o ponto de vista histórico e muito recente sob o ponto de vista geológico, e que teria ocorrido, como já foi dito, em qualquer região do contorno do Mediterrâneo. Nove mil anos antes de Solon (a data fixada para o fenómeno no têxto de Platão) ainda os navegadores do oriente mediterrâneo não ousavam ir tão longe além das colunas de Hércules, o sem documentos figurados não seria possível conservar em povos atrazados, por muitas gerações, a tradição dum facto tão antigo.

(2) P.e António Cordeiro — Op. cit., p. 316 do vol. II.

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têem assim um valor documental análogo ao da fantástica


estátua, concebida provavelmente pela fácil imaginação de
alguns perante qualquer bloco de forma devida a forças
naturais. As moedas fenícias e cirenaicas que se disse terem
sido descobertas em 1749 na ilha do Corvo poderiam, quando
muito, provar a visita da ilha por povos antigos do Mediterrâneo, o que não é de admirar (1).

Só as ilhas Canárias têem fornecido dados arqueológicos e antropológicos dignos de atenção. Os seus habitantes à data da conquista europeia, os guanches, foram por Verneau identificados com o Cro-Magnon, que teria extendido as suas migrações da Dordogne ao SE. espanhol e às Caná­rias. Segundo Verneau, seriam altos e loiros, mas a verdade é que nada se pode dizer da cor do Cro-Magnon sôbre os esqueletos... O jesuíta Cordeiro (2) no princípio do século XVIII atribui aos naturais das Canárias (já mestiçados com os europeus) cores meio morenas, em que "participam alguma coisa de Africanos,,, e ordinariamente estatura alta, pouco ou nada se aproveitando do que ele diz sobre a sua filiação étnica: "Dos primeiros povoadores das Canárias não se sabe quem fosse ao certo; o_ certo é que nem Gentios, nem Mahometanos, nem Mouros, ou Turcos forão; porque os que as habitavão, quando forão conquistadas por Catholicos, não adoravão mais que a um só Deus, e por isso receberão com facilidade a Fé Catholica; e por só alguns outros usos bárbaros se costuma dizer que eram Gentios. Que nunca fossem Mahometanos, e menos Mouros, ou Turcos, consta de terem sido povoadas estas Ilhas muitos séculos antes de haver no mundo Turcos, ou Mouros, ou ainda Mahometanos; e de sempre as Canárias terem guerra com a mais vizinha África, e só de alguma d'ellas, e em algum tempo antigo muitas pessoas em África casavão, e ficarão participando do sangue Africano: mas os mais só de entre si se propagavão, e depois de conquistados se aparentarão mais com os Ca-

(1) Humboldt fez a crítica de alguns destes supostos documentos. Sôbre o assunto escreveu Ernesto do Canto no "Archivo dos Açôres,,, Ponta Delgada, vol. III, 1881, p. 102 e segs.

(2) O P. e Cordeiro fundou-se, ao que parece, para escrever o seu livro que tem reduzido valor, nos manuscritos de Gaspar Frutuoso (1522-1591), jesuíta como êle. Nunca vimos os manuscritos de Frutuoso, mas o nosso ilustre colega, Prof. Urbano Soares, deles fez uma valiosa transcrição exac­tamente sôbre os guanches, a qual constituirá um seu trabalho.

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tholicos conquistadores, e tanto, que já- hoje nem ha d’aquel-les antigos a que chamavão Gentios...,, (l) Como se vê, a preocupação da fé religiosa domina a narrativa, de que nada mais de concreto se apura sôbre a etnologia dus Guanches.



Segundo os dados de Sergi e Hooton, Giuffrida-Ruggeri exclui a hipótese da filiação dos Guanches no Cro-Magnon, extranhando que Osborn tivesse dado importância aos dese­nhos geométricos das grutas de Tenerife, como se êles se pudessem comparar ás pinturas deixadas pelos Cro-Magno-nianos nas cavernas espanholas e francesas. (2) O Cro-Ma-gnon era alto, dolicocéfalo, com desarmonia crânio-facial (isto é, dolicocéfalo com face curta e larga). Ora em 350 crânios antigos de Tenerife, Hooton encontrou poucos des-armónicos, e êsses baixos, e a seu turno Sergi também encontrou poucos braquiprósopos nas Canárias. Quanto á estatura, Hooton sobre 63 fémures e 71 tíbias duma ca­verna de Tenerife calculou as médias de lm,62 para o sexo masculino e 1m,52 para o feminino, o que está longe, muito longe mesmo, dos valores muito altos do tipo de Cro-Magnon.

Entre os trabalhos mais importantes sôbre a pre-história a etnogenia das Canárias figura o de John Àbercromby (3); segundo êste autor os primeiros habitantes das Canárias datam da segunda fase, ou fase berbere, do neolítico e fa­lavam um dialecto berbere. Admite na etnogenia canária a interferência do ramo dólico ou mesocéfalo do tipo hamítico, o tipo de Cro-Magnon, que, como o anterior, seria de origem africana, e uni braquioide de origem provavelmente europeia, que teria chegado quási ao mesmo tempo que os outros.

Nada de paleolítico nas Canárias — eis uma conclusão que permite pôr de parte a suposição de que, pertencendo as Canárias a uma Atlântida povoada pelo homem, esta se tivesse afundado no pleistoceno: a não ser que exactamente

(1) P.e Cordeiro-— Op. cit., vol. I, p. 82.

(2) Giuffrida-Ruggeri — La successione e la provenienza delle razze europee preneolitiche e i pretesi Cro-Magnon delle Canarie – Extr. da "Ri-vista Italiana di Paleontologia,,, ano XXII, Parma, 1916, p. 10 e segs.

(3) J. Abercromby- The prehistorie pottery of the Canary Islands and its makers – “Jour. Of Royl Anthropol. Instit.,, London, 1914. (Anal. Em “Nature,,)

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os restos emersos dêsse território jamais tivessem sido habi­tados ou percorridos pelos Atlantes, o que não deixaria de ser singular.

Sobre Cabo Verde nada conseguimos averiguar de con­creto que interesse ao ponto de vista que aqui debatemos.

A paletnologia da Ibéria e da Mauritânia, enriquecida aliás com numerosíssimas aquisições, nada esclarece por emquanto o problema, pois nem às culturas, que se sucede­ram, nem aos tipos humanos, que nessas regiões se tem es­tabelecido, é possível por enquanto atribuir uma origem atlântica. Os roteiros das várias civilizações do paleolítico na Península estão mais ou menos determinados: o chelense, o acheuleuse, o musteriense e o aurignacense (excepto o médio), seriam, como o capsiense (que tira o seu nome até duma estação dos arredores de Tunis, Gafsa), de origem meridional: teriam passado do norte da África à Ibéria. Pelo contrário o solutrense e o madalenense teriam origem euro­peia (1).

De todas as culturas do paleolítico a que se manifestou nas artísticas decorações parietais das cavernas francesas e espanholas, seria sem dúvida aquela que indiciaria mais acen­tuado sentimento estético, senão mais elevada mentali­dade. A supôr-se paleolítica ou epipaleolítica a população da suposta Atlântida, o elogio que Platão fez à sua cultura, conduziria naturalmente a inquirir se estas manifestações da arte parietal seriam influências suas. Mas a arte naturalista que se desenvolve do aurignacense ao madalenense, não constitui o apanágio duma só civilisação ou dum só povo, e o madalenense correspondente à mais notável fase artística da idade da rena é de origem nórdica (2). À arte realista madalenense sobrevem em Espanha a arte esquemática dos capsienses do SÓ., e mais tarde a arte, ainda menos inte­ressante, dos neolíticos (3).

(1) Cf. Hugo Obermaier — El hombre fósil - Madrid, 1916, pp. 202 e segs.

(2) H. Breuil — Les subdivisions du paléolithique supérieur et leur signification — "Compte rendu de la XIV.me session du Congrès Int. d'Anthr. et Archéol. Préhistoriques,,, Genève, 1912, p. 202 e segs.

(") Id. — L'age des cavernes et roches ornées de France et d'EspagneExtr. de la "Revue Archéologique,,, t. XIX, Paris, 1012, p. 40 e segs. E digno de nota que as principais manifestações artísticas do paleolítico superior ibérico predominam na região cantábrica, ao passo que o ocidente português tem uma arte rupestre quasi nula ou rudimentar.

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O capsiense, que se pôde considerar, em grande parte, epipaleolítico e como que um prolongamento do aurigna-cense, abrande uma área extremamente vasta em torno do Mediterrâneo e mesmo mais longe, tornando-se difícil atri­buir-lhe uma origem atlântica. Às míseras populações dos "kiekkenmeddinger,, tardenoisienses do Vale do Tejo, con­sideradas já por um autor português como um Homo atlân­ticus sobrevivente da afundada Atlântida, (1) seriam de pro­vável origem meridional, nada indicando, porém, uma sua origem no território desaparecido. A indústria microlítica tardenoisiense tem uma vasta área de expansão desde a Pe­nínsula Ibérica, norte da África, Sicília, à India, Austrália, etc.

Mas a ausência do paleolítico, do epipaleolítico, dopro-toneolítico e da primeira fase do neolítico nas Canárias (já não falamos nos resultados negativos de inquéritos pale-tnológicos nos Açôres e Madeira) conduzem-nos á suposição de que, se a Atlântida existiu, a catástrofe a que Platão se referia, não dataria de qualquer desses períodos ; não poderia remontar mais longe do que ao neolítico menos antigo, ou mesmo já á idade dos metais e tempos, protoistóricos.

Ora, em geral, as mais importantes correntes civil civiliza­doras dessas épocas tiveram uma origem mais oriental do que ocidental, embora se possa reconhecer uma certa indi­vidualidade de cultura nos restos arqueológicos de algumas populações, como as ibéricas. Na idade do bronze, os lígures, povo do ocidente, teem uma fase de expansão, mas nada autorisa a identificá-los com os supostos Atlantes.

Para explicar a aparição duma civilização premáleo--nigrítica no Congo e, na Guiné, Georges Montandon, num importante estudo sobre as armas de Africa, renova a con­cepção da "ecúmena,, de Ratzel: "Encontrando-se aquela civilização a oeste do continente africano, não poderia ter vindo da Oceânia pela América do Sul e pelo Atlântico?,, Nao-responde Montandon. E’ que a dispersão dos povos e das culturas se fez a partir dum ou mais centros na "ecú­mena,,, que seria representada por uma superfície corres­pondente não a uma esfera mas á concepção da terra segundo os antigos, e essa dispersão ter-se-ia efectuado dentro de limites que nunca se encontraram em qualquer ponto. "O

(1) Antonio Sardinha— O valor da raça, Lisboa, l915, p. 71 e segs.

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Atlântico teria sido o fosso nunca transposto,, (l). Este papel negativo do Atlântico na difusão dos povos e das civiliza­ções é fundamentado na ausência de profundas e numerosas afinidades étnicas e culturais entre os indígenas das res­pectivas costas oriental e ocidental. Não falando no homem esquimoide de Chancelade, de origem aliás controvertida, as afinidades que têem sido proclamadas entre essas popu­lações, são em geral meramente superficiais.


Em suma, a arqueologia não demonstra que qualquer população e qualquer cultura conhecida tenham vindo para. o Antigo Continente ou influído nele, partindo da Atlântida. As suas indicações parecem mesmo mais opostas do que favo­ráveis a tal hipótese, a não ser que se reduza a proporções bastante modestas a alusão de Platão ao poderio e expansão dos Atlantes.

Por outro lado, se a atribuição do cataclismo de que fala Platão, a uma data muito remota — ao pleistoceno, aos s primeiros alvores da era humana — tem contra si a inverosi-milhança de se ter podido transmitir atra vez de tantas gerações urna tradição que para muitas dessas gerações teria sido apenas oral, a atribuição a uma data mais recente, aos pri­mórdios da história, é combatida a seu turno pelo facto de se não ler conservado dum tão extraordinário acontecimento, duma tal civilização e dum tal povo uma documentação mais positiva e numerosa.

Em qualquer caso, os dados arqueológicos e etnológicos tanto nas ilhas atlânticas como no sudoeste europeu e no noroeste africano, são até agora nulos como elementos para a demonstração da existência da Atlântida. Nem porisso nos parece que a geologia deva dispensar em absoluto o concurso, daqueles ramos sciêntificos para a solução dum problema que ela continua também deixando em suspenso.

A. A. mendes corrêa.



(1) Georges Montandon — Des tendances actuelles de l’ethnologie à propôs des armes de 1'Afrique — "Archives Suisses d'Anthr. Générale,,, I, Génève, 1914-1915, p. 114.


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