Um retrato do rádio na época de Vargas Ana Baumworcel1 Resumo



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II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho

Florianópolis, de 15 a 17 de abril de 2004



GT História da Mídia Sonora


Coordenação: Prof. Ana Baum (UFF)

1954: um retrato do rádio na época de Vargas

Ana Baumworcel1

Resumo:

Este texto destaca a importância do rádio na divulgação do suicídio do presidente Getúlio Vargas em agosto de 1954 no Rio de Janeiro, então capital federal, a partir dos registros sonoros que foram encontrados. É um estudo que tem como objeto e como fonte principal o rádio. Ao analisar a sonoridade do veículo na época, mostra como a leitura ao microfone da carta-testamento deixada por Vargas foi determinante para a formação da opinião pública. A leitura ao microfone reforçou e ampliou a dramaticidade do documento. Traz também um depoimento de Heron Domingues, locutor exclusivo do Repórter Esso, comprovando que ele não foi “o primeiro a dar as últimas” no dia do suicídio do presidente da República.


Palavras-chave : Rádio, História, Getúlio Vargas, Carta-testamento, Sonoridade.
Muito se sabe sobre o “tiro que mudou a história”2, mas pouco se publicou especificamente sobre o papel da mídia que “modulou”, “amplificou” e deu “ressonância” às informações que vibraram pelos alto-falantes de todo o Brasil no dia 24 de agosto de 1954. Cinqüenta anos depois, o Grupo de Trabalho História da Mídia Sonora da Rede Alfredo de Carvalho para a Preservação da Memória da Imprensa procura recuperar os vestígios da cobertura radiofônica no segundo governo Vargas para traçar um perfil da atuação deste meio de comunicação durante a crise político-militar que levou o presidente ao suicídio. Os estudos de comunicação sobre o período se referem à mídia impressa.

As dificuldades são muitas: várias emissoras da época não existem mais 3, a maioria dos profissionais que atuavam naquele período já morreram e o material sonoro é pouco preservado4. Os resquícios sonoros disponíveis - no acervo da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, no Museu da Imagem e do Som, na Collector’s Editora Ltda, na Divisão de Música e Arquivo Sonoro da Biblioteca Nacional, no Arquivo Nacional, no CPDOC da Fundação Getúlio Vargas - também apresentam, as vezes, má qualidade, sendo necessário um trabalho de restauração do áudio para maior compreensão do que é dito.

E mesmo assim, este material só existe até hoje graças ao esforço de funcionários abnegados que, no anonimato, resgatam e preservam a memória do rádio e do país. Um pequeno trecho da carta-testamento lido por Heron Domingues na Rádio Nacional, por exemplo, foi “salvo” por Acely Fernandes Cruz5:
Encontrei o disco com a carta já um verdadeiro craquelê.6 Eu mesma passei para fita rolo, descascando o plástico, mas só consegui recuperar um trecho. O resto se perdeu.7
Muitos discos foram encontrados, já deteriorados, em banheiros da emissora em 1976. Em 1964, além da demissão de 36 funcionários por motivo político, parte do arquivo do Repórter Esso e de outros programas foram destruídos8. E se o suicídio de Getúlio contribuiu para adiar o golpe de 64 por dez anos, a ditadura militar fez de tudo para apagar a memória de Vargas e a da Rádio Nacional no imaginário popular. “Ficamos sem memória, o que impede que certos sentidos hoje possam fazer (outros) sentidos” (ORLANDI: 1999 : 66) .

Em meio a estas dificuldades, a história do rádio no Brasil vai sendo reconstituída a partir de fragmentos sonoros de época e de lembranças imprecisas de radialistas e ouvintes. São relíquias. Documentos que trazem palavras já ditas e esquecidas. É um processo de resgate com falhas, sujeito a equívocos, mas precioso por trazer informações que, ao serem checadas e analisadas, poderão contribuir para a reconstrução da trajetória do veículo no país.

Em 1954, três dias depois do suicídio do presidente Getúlio Vargas, o locutor exclusivo do Repórter Esso, Heron Domingues afirmaria:

Quisera fazer ver a todos que estão nas ruas, nas casas, nos quartéis, nos campos, no governo, a seriedade da missão do rádio hoje face à encruzilhada cívica ante a qual toda a nação parou.9
Estas palavras, ditas no auditório de 486 lugares, provavelmente lotado10, no 21º andar do edifício A Noite, na Praça Mauá11, no dia 27 de agosto de 1954 - quando Heron Domingues assumiu interinamente a direção geral da emissora em substituição a Victor Costa, demissionário em caráter irrevogável - traduzem a importância histórica do meio de comunicação hegemônico12 no país neste período.

Por transmitir informação em tempo real, o veículo possibilitou que a população acompanhasse os fatos conforme eles iam ocorrendo de forma a se tornar participante do episódio em si. Alguns autores destacam esta característica do meio. O rádio coloca o ouvinte dentro da história, no momento exato em que os acontecimentos estão passando e, assim, abre-lhe a alternativa de acompanhá-los (SAMPAIO:1971:37). O rádio envolve o ouvinte, fazendo-o participar por meio da criação de um “diálogo mental” com o emissor (ORTRIWANO: 1985:80). A compreensão da mensagem por parte do receptor se processa no mesmo ritmo e tempo em que vai sendo enunciada pelo emissor e a produção de representações imediatas se dá a partir da decodificação, identificação, interpretação e atribuição de sentido aos dados sonoros (MEDITSCH: 2003).

Em relação à intermediação da mídia, Nora (apud ABREU:1994:25) afirma:

Imprensa, rádio, imagens não agem apenas como meios dos quais os acontecimentos seriam relativamente independentes, mas como a condição de sua própria existência. A publicidade dá forma à própria produção dos acontecimentos...É por isso que as afinidades entre um tipo de acontecimento e um meio de comunicação são muitas vezes tão intensas que eles nos parecem inseparáveis.

No dia 24 de agosto de 1954, o rádio divulgava a notícia do suicídio pela manhã, enquanto os jornais matutinos, já nas bancas, ainda traziam o pedido de licença de Vargas como resultado da reunião ministerial da madrugada. Na capital da República, a notícia do suicídio detonou a revolta da população (FERREIRA:1994:72).

Nossa hipótese, no entanto, é de que foi a repercussão da leitura ao microfone da carta-testamento que contribuiu para a modificação do quadro político. A carta recuperou, simbolicamente, a legitimidade perdida de Getúlio, e o rádio deu “vida” às palavras do presidente, já morto.

A campanha contra Vargas era intensa. Durante todos os 20 dias de acirramento da crise político-militar, por exemplo, uma nota foi publicada em nome dos oficiais da Aeronáutica na primeira página do jornal O Globo lembrando que o major Rubens Vaz foi “covardemente assassinado”( FLORIDO:2001:45). A opinião pública estava indignada com o governo:

E se Vargas, no Estado Novo, monopolizou a produção de bens simbólicos com fins de legitimação política, em seu segundo governo, seus adversários conseguiram propagar simbologias que paralisaram a capacidade do poder estatal de apresentar-se como legítimo. Com espaço na imprensa, a oposição difundia imagens que desqualificavam o governo (FERREIRA:1994:65).
Mas no dia 24 de agosto de 1954 a situação mudou.

...o que reforçou de maneira determinante o recuo dos golpistas foi a entrada no cenário político de uma multidão amargurada, revoltada e enfurecida que questionou, assustou e mesmo ameaçou o grupo oposicionista que se preparava para tomar o poder.(Ibidem: 63)


Foi o rádio que por meio da mensagem sonora fez “ver” a muitos o que se passava. Como já dizia Roquette-Pinto, que morreu no mesmo ano de Getúlio, no dia 18 de outubro:

Que meio para transformar um homem em poucos minutos, se o empregarmos com alma e coração!... O rádio representa o papel preponderante de guia diretor, grande fecundador de almas, porque espalha a cultura, as informações...(LOPES: 1970:34).
O discurso sonoro no rádio tem vida própria. Não é uma simples leitura da escrita ou um efeito de ondas eletromagnéticas. É a sonoridade que dá sentido à palavra. A sonoridade é, portanto, fundamental na constituição da própria linguagem radiofônica. Em função disso, pode ser considerada como um enunciado autônomo13.

O fato de ter sido a carta-testamento de Vargas escrita na primeira pessoa, possibilitou, no ato da escuta, a criação de uma identificação entre o locutor radiofônico e Getúlio. Ao ser lida ao microfone, estabeleceu-se um elo entre o que foi dito pelo locutor e o que foi escrito pelo autor14.

No imaginário social, seria como se os ouvintes sentissem a “alma sofrida” de Vargas através do que era narrado. A sonoridade radiofônica trouxe simbolicamente Getúlio de volta. Era como se a palavra ao ser dita “tomasse corpo”, se materializasse em imagens na mente do ouvinte. Era o “retrato (imaginário) do velho outra vez”, apesar dele já estar morto15. “Escolho este meio de estar sempre convosco, diz a carta-testamento. O jornal Correio da Manhã , do dia 31 de agosto de 1954, analisa a carta-testamento criticando Vargas por pretender que um “morto” pudesse “governar os vivos”(ABREU:1994:43). Mas o rádio é capaz de romper simbolicamente com o tempo histórico, presente, transportando o ouvinte ao tempo mítico ( NUNES: 1993:157).

O rádio chega ao ouvinte como uma impressão de experiência pessoal, proporcionando um envolvimento com seu discurso, que permite ao ouvinte criar imagens e gerar emoções (MEDITSHC: 1996: 68). O ouvido alcança o inconsciente. E a morte inesperada de Vargas foi vivenciada pela população como um verdadeiro trauma ao mesmo tempo político, social e simbólico... um trauma que implicou a desestruturação do mundo...mexeu com símbolos e imagens referentes à morte que povoam o inconsciente.(FERREIRA:1994:75)

A voz humana persuade por expressar a essência do ser, independentemente do conteúdo das palavras que são ditas. O ouvinte se entristece mais facilmente por uma entonação lastimosa do que por palavras (ARNHEIM:1980). A voz humana é um termômetro infalível das emoções. É a voz que dá imagem às palavras. E é ela que materializa a palavra no rádio. A voz no rádio é voz xamânica (NUNES:1993:162).

A voz fora do campo (visual) exerce a função objetivadora de uma verdade “externa” e indiscutível, uma espécie de supereu sonoro, depurado de toda a imagem visível, e portanto com forte índice de autoridade e sacralidade (CANEVACCI apud VIDAL NUNES:2000:84).
Na manhã do dia 24 de agosto, segundo o então governador do Estado do Rio e genro de Getúlio, Ernani Amaral Peixoto, a carta-testamento foi lida para a Rádio Nacional diretamente do Palácio do Catete, pelo ministro Oswaldo Aranha:

Aí eu encontrei aquela carta. Era uma carta de despedida. O Oswaldo já tinha chegado , estava desesperado, chorando muito. E eu lhe dei a carta. Pelo telefone ele leu para a Rádio Nacional, que chegou a irradiar. O Víctor Costa gravou e irradiou umas duas ou três vezes, mas depois suspenderam. A Aeronáutica ocupou a Rádio Nacional. (LIMA: 1986:199)

Segundo Cristiano Menezes, atual diretor da Radio Nacional, existe uma outra versão sobre a leitura da carta, defendida também por Luiz Carlos Saroldi, de que Victor Costa teria copiado “a mão” o texto achado na mesinha ao lado da cama do presidente e que o teria lido ao microfone. No acervo da Rádio Nacional, só foi encontrado, um pequeno trecho gravado por Heron Domingues.

Independentemente das versões de como a carta-testamento chegou até a emissora, foi, sem dúvida, pelas ondas da Rádio Nacional que o documento foi divulgado. Depois as outras estações o reproduziram. Até hoje é comum as emissoras fazerem escuta sobre o que é veiculado nas concorrentes e muitas vezes repetirem as informações uma das outras. Leony Mesquita descreve como ficou a redação da Nacional no dia 24 de agosto de 1954:

A redação da Rádio Nacional transformou-se num centro de correspondentes estrangeiros e nacionais, porque nela foi mimeografada a carta do presidente, cedida para toda a imprensa nacional e internacional. Apesar da rádio estar ocupada pelas autoridades, não houve qualquer cerceamento à liberdade de informação. Pudemos dar tudo. O suicídio de Getúlio foi, nos 25 anos do Repórter Esso, uma das fases mais delicadas que passamos e que nos deu um trabalho muito maior, pois tínhamos o dever de não levar o pânico nem de propiciar situações que pudessem conduzir o país a um estado de calamidade (FELICE:1981:63).

O sociólogo e professor da Universidade de Brasília, Ronaldo Conde Aguiar16, lembra que cópias da carta-testamento foram distribuídas nas ruas17. Em sua despedida da Rádio Nacional no dia 27 de agosto de 1954 Victor Costa destacou:



Me acusam, dizem mesmo que eu devia ter sido preso, processado, porque fomos nós que demos divulgação à carta por ele deixada. Seria uma honra ser preso por isso.18
Segundo Carlos Lacerda, principal representante da oposição a Getúlio Vargas naquele período, a carta era lida de dez em dez minutos:
Um texto bastante agitador, em cima de um acontecimento que perturbou todo mundo. E aquilo era acompanhado com música de fundo, músicas tristes, marchas fúnebres, etc., e lido com a maior ênfase de dez em dez minutos(LACERDA:1978:147).
Na Divisão de Música e Arquivo Sonoro da Biblioteca Nacional, há uma gravação19 da carta-testamento sendo lida por Silvino Neto, que imita o jeito de falar de Getúlio. A música de fundo, colada ao texto da carta, contribui para reforçar o clima de tristeza e cria um cenário fúnebre. A locução teatral de Silvino Neto propaga sinais subliminares no ritmo, na acentuação e na ênfase que dá as palavras-chave. A informação é transmitida de forma a influir mais sobre a sensibilidade do que sobre o intelecto. O disco é uma doação da coleção Guerra Peixe e não há especificação de quando, nem onde foi veiculado. Compositor, cantor e radialista, Silvério Silvino Neto se destacou em programas humorísticos, como “Pensão da Pimpinela”(1940-1942), “Aventuras da Pimpinela” (1942-1944) e “Pimpinela, Anestésio e o Telefone”. Depois do Estado Novo, criou “Futebol Político”, programa em que imitava Getúlio Vargas, Ademar de Barros e outros políticos. Em 1950, foi eleito vereador pelo PTB participando da segunda legislatura (1951-1955) da Câmara do então Distrito Federal. Em 1953, retornou ao rádio, atuando na Rádio Mayrink Veiga, onde ficou até 1956. Faleceu em 1991.20

No disco, além da carta, há também músicas compostas por Silvino Neto com interpretação do coro Auri-verde e banda de Paulo Bombardino. Uma delas é “Presidente Imortal”:



Presidente imortal da pátria brasileira,

presidente imortal, o teu nome é a nossa bandeira,

presidente imortal... aos que pensam que te derrotaram,

responderemos com a tua vitória,

Getúlio Vargas, Getúlio Vargas...
Mas assim como o radialista do PTB conhecia o poder do rádio, o principal opositor de Getúlio também sabia do significado do veículo e o utilizou muito em sua campanha contra Vargas. Carlos Lacerda, da UDN, percebeu a importância da carta-testamento, a repercussão que estava causando e alertou para o “perigo”, sugerindo que ela fosse retirada do ar.

O Café Filho assumiu imediatamente, mas largou as rádios de lado....Eu me lembro que telefonei, se não me engano, para o Odilo Costa Filho, que assumiu a direção da Rádio Nacional na ocasião21, e disse: “Isso é uma loucura o que vocês estão fazendo! Vocês estão jogando o povo contra o governo Café Filho e daqui a pouco vai haver motins na rua. Vocês estão pondo o povo num estado de exasperação nervosa, e não há povo que agüente isso....Um povo emotivo e vocês deixam de dez em dez minutos isso ser irradiado acompanhado de música de fundo”. (LACERDA: 1978:147)
Na noite de 28 de agosto de 1954, Lacerda retornou ao microfone da Rádio Globo e voltou a falar da carta:

Constituía-se num evangelho maldito, de intriga, que visava desunir os brasileiros, lançando uns contra os outros (DULLES:1992:192).

Na Cinelândia, onde se localizava a sede do PTB, uma multidão ouviu a leitura da carta-testamento, no dia 24 de agosto, por alto-falantes e foi até à rua do Lavradio, onde até hoje funciona o jornal Tribuna da Imprensa, gritando “morra Lacerda”. Havia todo um temor em relação à repercussão da carta-testamento. O jornal Correio da Manhã, por exemplo, no editorial do dia 29 de agosto de 1954 chegou a considerá-la como uma bomba, um convite à revolução, um manifesto à sedição, e estaria pronto para explodir (ABREU:1994:42). Havia um clima de guerra civil estampado nos periódicos: guarnições da Vila Militar de prontidão, o Palácio do Catete cercado por tropas do Exército, navios de guerra...(Ibidem:41)

Divulgada na imprensa, a palavra-chave de articulação de um consenso a respeito da inviabilidade política do governo Vargas era renúncia, enquanto a oposição mais radical queria a deposição e os que defendiam Vargas, a resistência (Ibidem:46). Palavras inseridas num cenário de conflito que o rádio refletia. Era época da Guerra Fria e este clima se verifica no discurso dos profissionais do meio. Lacerda, por exemplo, usava “bordões”, segundo o jornalista José Augusto Ribeiro22, do tipo “o jornal Última Hora é o Pravda do Brasil”23 numa referência ao jornal do partido comunista soviético.

Para outros, o clima de guerra se refletia numa dedicação exacerbada à pátria e ao presidente. Victor Costa, por exemplo, havia posto seu trabalho à disposição de Vargas24 e até seu sangue se fosse preciso 25. O diretor geral da Rádio Nacional passou os últimos 20 dias do governo Vargas no Palácio do Catete acompanhando de perto a crise político-militar e privando da intimidade da família.



Do outro lado da trincheira, Carlos Lacerda também viveu noites sem dormir e, depois do suicídio de Getúlio, ficou com calo nas cordas vocais de tanto que falou ao microfone nos últimos dias do governo Vargas.

Estava num estado físico deplorável, suspeitava até de câncer na garganta, porque eu falava dois minutos e ficava rouco. Não foi brincadeira o que tive de falar naquele tempo... Tive uma espécie de calo nas cordas vocais. Isso era o mínimo, diante do estado de nervos em que eu estava 26 (LACERDA: 1978:148).
Para alguns profissionais, trabalhar no rádio, na época, era cumprir uma “missão cívica”. Era um trabalho de sacrifícios, sem descanso. Em sua despedida, Victor Costa afirma que nos 16 anos em que esteve na Nacional, sua ficha funcional não registrou período de férias. Heron Domingues, que morreu no dia 10 de agosto de 1974, costumava defender:

O rádio não se dirige por relógio com hora para entrar e sair. No rádio, seus diretores devem ter em mente que o relógio existe apenas para as poucas horas que se tenha que dormir, quando é possível. 27
Naquela manhã de 24 de agosto de 1954, atores e cantores, apreensivos, foram para a Rádio Nacional em busca de informação. Gerdal Santos, que ingressou na emissora em 1953 e lá trabalha até hoje, é um deles. Como rádio-ator, participou de “Cavalheiro da Noite”, “O Anjo”, “Jerônimo, o herói do sertão”, “Teatro de Mistérios”, “A Felicidade bate a sua porta”, entre outros. Gerdal recorda:

Ficamos sem saber o que ia acontecer conosco e o radioteatro da Nacional tinha 100 atores...Getúlio foi também o pai dos artistas, ele fez muito pelo teatro...O Floriano Faissal, nosso diretor no radioteatro era getulista doente e o Almirante não permitia palavras estrangeiras em seus programas. Em vez de script, por exemplo, ele botava escrito. O Almirante tinha aquela frase famosa: o rádio é diversão para quem o ouve, para quem o faz é um serviço como outro qualquer 28.
Desde o Estado Novo, que Vargas pregava: A riqueza de cada um, a saúde, a cultura, a alegria não são apenas bens pessoais, representam reservas de vitalidade social que devem ser aproveitadas para fortalecer a ação do Estado 29. Este pensamento norteou todo o investimento que Getúlio fez na Rádio Nacional desde o final da década de 1930. Heron, por sua vez, previa que 1954 também entraria para a história como o ano que encerrava uma era do próprio rádio brasileiro. A “era de ouro”, iniciada nos anos 40, entrava em decadência:

Uma era de construção intensa, de conquista, de pioneirismo, uma era que talvez jamais poderá ser igualada nos lances de sacrifício pessoal, nos rasgos de heroísmo profissional, de audácia humana, de desprendimento... Lucrou-se e divertiu-se bastante até hoje ao ponto de termos de pensar agora também na grande missão apostólica de ajudar o povo brasileiro a sair dessas dificuldades...O rádio agora está pronto para entregar-se numa campanha. A campanha de levar a todas as casas mais do que a verdade, a condenação da mentira, mais do que a orientação, o estímulo para saber orientar-se por si próprio... e a Rádio Nacional não pode acabar para o bem do Brasil... 30

Os que haviam aprendido a fazer rádio durante a Segunda Guerra Mundial jamais esqueceriam. As instruções31 gravadas por Heron Domingues, divulgadas internamente e distribuídas entre as emissoras que entravam em cadeia com a Rádio Nacional ensinavam que o texto deveria ser dito como se o jornalista estivesse num campo de batalha. O tom impostado de um noticiário feito para impressionar, reproduzindo o impacto da guerra ainda predominava no Brasil nove anos depois da vitória dos Aliados.

Era o estilo copiado do padrão norte-americano de fazer rádio, reconstruído pela Nacional e adotado pela maioria das estações do país. O manual sonoro pregava que o narrador devia se sentir numa barricada e produzir um som forte com entonação inflamada e guerreira.

Em 1954, Victor Costa continuava a considerar seus colegas como heróis:



Sem qualquer solicitação da parte do governo, nossa missão era informar. Informar honestamente baseado em fontes oficiais. Temos o testemunho da equipe dos jornais falados, que foram verdadeiros heróis, que nesses 20 dias, aqui, permaneceram dia e noite só irradiando aquilo o que vinha de fontes oficiais. Fomos criticados. Mas a nossa missão era aquela, informar honestamente. Depois fui envolvido no inquérito militar e solicitado a comparecer ao Galeão para prestar meu depoimento. Este já é do conhecimento de todos. O que fizemos nestes últimos 20 dias é indescritível.32
O governo não interferiu no noticiário que, como confirmou Victor, priorizava a informação oficial. Diretor demissionário da Rádio Nacional desde o dia 25 de agosto, ele esclarece que durante os 3 anos e 7 meses de sua gestão não recebeu orientação política de Vargas.

Durante a gestão, procuramos levar a Rádio Nacional fora de qualquer política de governo... Só recentemente, talvez nem um ano, por iniciativa própria, convidei o senhor Martins para fazer um comentário político irradiado às nove horas... A orientação deste comentário não pode ser criticada pela oposição. Foram comentários cheios de brio, cheios de honestidade. Os poucos, os mínimos ataques que foram feitos a uma oposição intransigente foram pílulas douradas, gotas d’água nesse mar de calúnia que se aprofundou no Brasil ultimamente. Minha consciência está tranqüila. Não emprestei o microfone da Rádio Nacional para fazer política do governo. Não recebi jamais qualquer insinuação, qualquer ordem do governo, especialmente do nosso presidente Vargas.33
Victor Costa alega que não recebeu também repreensão, nem censura, por parte de Getúlio, quando a Rádio Nacional fez críticas ao governo.

Em alguns momentos a atuação da Rádio Nacional foi enérgica, criticando mesmo o governo.... Jamais recebi qualquer 34... palavra que pudesse recriminar a nossa atuação. Haja visto a campanha desferida pelo seu adversário mais ferrenho através do microfone das nossas emissoras. Haja visto o atentado que este jornalista sofreu. Pois bem, qual foi a atitude da Rádio Nacional? Procuramos tanto quanto possível ser imparcial. Na noite do atentado, se não reproduzimos a gravação feita pela Rádio Mayrink Veiga...naquela noite estávamos fora do ar...o fizemos no dia seguinte. Fizemos uma completa reportagem, inclusive, com o seu Carlos Lacerda ocupando o nosso microfone, a quem faço justiça neste momento, de forma elevada, sem comprometer a nossa emissora. Pois bem. Nunca, jamais, tivemos qualquer palavra de censura por isto ou aquilo...35
E, se por um lado, os profissionais passavam dia e noite nas emissoras, por outro, a população também fazia sua “vigília radiofônica” em busca de mais informações sobre a crise político-militar pela qual o país passava. O jornalista carioca José Augusto Ribeiro, que tinha 16 anos e morava em Curitiba, acompanhava por ondas curtas, durante a noite, os acontecimentos.36 O sociólogo Ronaldo Conde Aguiar, com 12 anos, viu seu pai chorar pela segunda vez na vida, ao ouvir a notícia no rádio 37.

Exatamente como fez em 194538, Heron Domingues também instalou uma cama em plena Rádio Nacional em 1954, só que desta vez em seu gabinete de diretor dos jornais falados. E assim como anunciou com atraso o fim da Segunda Guerra Mundial39, no dia 24 de agosto também divulgou o suicídio de Vargas depois das emissoras concorrentes. Foi o segundo momento histórico decisivo na vida política do país em que o Repórter Esso não foi “o primeiro a dar as últimas”, como pregava seu slogan.

O próprio Heron admitiu que demorou a dar a notícia40. No Repórter Esso das 8 horas do dia 24 de agosto, o locutor repetiu a notícia dada às 5 horas da manhã sobre o pedido de licença do presidente. Às 8h20m, telefonou para Victor Costa, no Palácio e foi informado que estava tudo calmo. Dez minutos depois passou o comando da cobertura para Leony Mesquita41. Antes de deitar-se, o telefone direto do Palácio tocou a seu lado:
Heron! Aconteceu uma tragédia!” Silêncio. “Diz, Victor, o que houve?”- gritei. “Uma tragédia, uma tragédia! O presidente matou-se! Neste minuto!” Eu disse ainda: “Você tem certeza? Você viu? Posso irradiar? Isso é uma catástrofe.” Nessa altura, os olhos esbugalhados, a redação expectante estava voltada para mim, toda ela, interrogativa...“Transmita! Agora, transmita para que o Brasil saiba!” – continuou Victor. Ainda pedi um esclarecimento. “Mas matou-se como?” “Com um tiro no peito. Benjamin desceu as escadas gritando: Getúlio morreu, Getúlio matou-se!”
Mas Heron deu a notícia primeiro para seus colegas de trabalho:
Pulei sobre a mesa e, esquecido de que deveria primeiro dar a notícia ao país, corri, alucinadamente, pelo corredor extenso, até a sala onde estavam reunidos meus companheiros de diretoria da Rádio Nacional. Abri a porta e gritei: “Ouçam a tragédia!” Não sei se chorava. Tinha nas mãos a maior notícia de minha vida profissional. Nem o fim da Segunda Guerra Mundial me emocionara tanto. Liguei os dispositivos automáticos de interrupção da programação e comecei, num cantochão esbaforido e entrecortado: “Atenção, Atenção Brasil”... E repeti várias vezes.42
Dois locutores, ainda vivos, reivindicam o “furo” de reportagem: Leo Batista, com 22 anos na época, estava na Rádio Globo e Paulo Caringi, com 30 anos, trabalhava na Emissora Continental.43

Leo conta:



...O pessoal da Aeronáutica trazia documentos para o Lacerda que sacudia na frente do microfone: “está aqui, está ouvindo o farfalhar dessas páginas”...o Lacerda estava, a noite toda, falando cobras e lagartos e denunciando e gritando... Eu tinha acabado de fazer O Globo no Ar...de repente o nosso repórter do Palácio do Catete começou a gritar: “Tira o homem do ar...Tira o Lacerda do ar, o homem se suicidou...” Aí eu corri também, eu falei: “Quem que se suicidou?” “O Getúlio rapaz....deu um tiro no peito”. Eu falei: “Meu Deus! Então vamos dar uma edição extra...” Então cortamos o Lacerda...Ele nem tava sabendo de nada...tava xingando, o homem já tava morto...Aí entrou o prefixo...Eu dizia, eu me lembro até agora, foi assim lacônico. “E atenção, atenção senhores ouvintes. Atenção para essa edição extraordinária... Acaba de se suicidar no Palácio do Catete o presidente Getúlio Vargas. Repito...” Então, a primeira notícia realmente eu dei pela Rádio Globo, só que a Rádio Globo naquela época não era essa poderosa cadeia de rádio e televisão que é hoje.44
Leo Batista ficou “prisioneiro” na Rádio Globo por 3 dias, pois a população descontente ameaçava invadir a emissora. Segundo ele foi difícil tomar banho e comer nestes dias. Mas se Heron e Leo estavam no dia 24 de agosto de 1954 nos estúdios onde trabalhavam, Paulo Caringi fazia a cobertura da rua. Ele era credenciado para acompanhar o presidente pela Agência Nacional e pela Emissora Continental. Depois da reunião ministerial no Palácio do Catete foi para o Ministério da Guerra, no Centro, onde o General Zenóbio da Costa se encontrou, pela manhã, com oficiais para relatar o que havia sido decidido na madrugada. Caringi afirma:

Alguém soprou para o Ministro que Getúlio se suicidara...Eu estava escondido na cabine 45, em contato com a rádio e passei a informação. Foi um furo completo, não obstante eu logo em seguida ter entrado em depressão profunda...
A Emissora Continental46 pertencia a Rubens Berardo que era filiado ao PTB. Segundo Paulo Caringi enquanto Lacerda falava pela Rádio Globo e pela Mayrink Veiga contra Getúlio, Eloi Dutra47 ocupava o microfone da Continental para “levantar a moral” do presidente. Já o jornalista José Augusto Ribeiro destaca:
Se estabeleceu um paradigma radiofônico na vida política do Brasil naquela época e tudo passou a girar em torno da repercussão do que tinha no rádio. Muitos acontecimentos se estendiam pela madrugada e os jornais ficavam defasados em relação ao rádio que só saía do ar à meia noite. As emissoras gravavam ou transmitiam as reuniões da CPI que investigava o caso do financiamento do Banco do Brasil para a Última Hora e quando houve o atentado contra o Lacerda, ele já falava, na Rádio Globo, toda noite, sem limite de tempo, atacando Getúlio. Enquanto que a Rádio Nacional não tomou uma posição de combate. Quem mais defendeu o governo foi o Eloi Dutra, que eu acho que nem era jornalista...48
A Rádio Nacional, portanto, não se transformou numa tribuna em defesa do governo. A emissora estatal vivia o paradoxo de ter a multinacional Standard Oil financiando seu noticiário, o Repórter Esso. A mesma Standard Oil que teve seu prédio, no Rio de Janeiro, atacado pelos “órfãos” de Getúlio que foram para a rua protestar contra os “decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais...”, como dizia a carta-testamento.

A líder de audiência do “rádio espetáculo” que fez o país chorar com o drama de Albertinho Limonta49, rir com as Piadas do Manduca50, torcer por Emilinha ou Marlene não mobilizou os “trabaaalhadores do Brasil”, como costumava falar Vargas, em defesa do “pai dos pobres” durante a crise político-militar de 1954. No entanto, depois de Getúlio morto, divulgou amplamente e instantaneamente a carta-testamento reforçando a comoção popular.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ABREU, Alzira Alves e LATTMAN-WELTMAN, Fernando. Fechando o cerco: a imprensa e a crise de agosto de 1954. In: GOMES, Angela de Castro(org.) Vargas e a crise dos anos 50. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.


ARNHEIM, Rudolf. Estetica radiofonica. Barcelona: Gustavo Gilli, 1980.
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1 Professora de Radiojornalismo da Universidade Federal Fluminense. Mestre em Comunicação, Imagem e Informação (UFF). Coordenadora do Grupo de Trabalho História da Mídia Sonora da Rede Alfredo de Carvalho.

2 Peça de teatro sobre o suicídio de Vargas apresentada no Museu da República, no início da década de 1990, dirigida por Aderbal Freire-Filho. “Um tiro no coração” é o livro de Hélio Silva sobre o assunto.

3 No Rio de Janeiro, já não estão mais no dial a Rádio Mayrink Veiga, a Rádio Clube do Brasil (Samuel Wainer perdeu a concessão da emissora durante a CPI da Última Hora em função da acusação de não ser brasileiro), a Rádio Tamoio, a Rádio Jornal do Brasil-AM e a Emissora Continental.

4 As Rádios Tupi e Globo não têm material sonoro de 1954 preservado em seus arquivos, segundo informação de seus atuais diretores de jornalismo.

5 Bibliotecária aposentada, formou-se na UFF e trabalhou no acervo da emissora de 1979 a 1997. Hoje o material é preservado pelos funcionários Luiz Alberto da Silva Santos e Ana Cristina Santos Ramos.

6 Rachadura do esmalte da porcelana, ou do verniz, ou da pintura a óleo por contração e dilatação do suporte, formando um entrelaçamento irregular de fendas muito finas.

7 Depoimento à autora, 2004.

8 Informação do diretor geral da Rádio Nacional, na década de 1990, Fernando Câmara, a um grupo de professores da UFF que visitavam a emissora.

9 Acervo da Rádio Nacional

10 O som das palmas nos faz crer que muitos funcionários compareceram à cerimônia. Apesar de ter sido gravada em 4 discos de 78 rpm, com 15 minutos cada um, aparentemente, esta solenidade não foi transmitida aos ouvintes. Um dos pouquíssimos funcionários da Rádio Nacional desta época, ainda vivo, Gerdal dos Santos não se recorda deste evento, como afirmou em entrevista à autora. A versão aqui apresentada baseia-se, então, nas pistas deixadas no próprio material gravado.

11 A Rádio Nacional do Rio de Janeiro ainda funciona no mesmo edifício e, em 2004, seu auditório está sendo reconstruído.

12 Hegemonia em termos de audiência, atingia também os analfabetos e a TV ainda era um aparelho caro. E de abrangência geográfica, pois através das ondas curtas as mensagens se espalhavam pelo país.

13 Na pesquisa sobre a RJB:AM demonstramos como o discurso sonoro construído pela emissora em 1968 possibilitou “ver” e “sentir” a “imagem” do país num momento de “trevas”. Baumworcel: 1999.

14 Não importa que a carta tenha sido escrita pelo jornalista José Maciel Filho. O fundamental para essa análise é que o documento tenha sido divulgado para a população como o testamento do presidente morto. A exposição permanente sobre Getúlio, no Museu da República, só apresenta os bilhetes, fragmentos dos manuscritos originais. O coordenador do programa de Cultura Republicana e Brasilidade do Museu, Mario Chagas, em depoimento à autora, esclareceu que nunca viu a carta-testamento original inteira. Porém, os visitantes da exposição, ao entrarem no quarto de Getúlio, no terceiro andar do antigo Palácio do Catete, vão ouvir a íntegra do documento sendo dita por Afonso Drumond.

15 No Estado Novo, o DIP recomendava a colocação do retrato do presidente nas repartições públicas. Quando Vargas saiu em 1945, tiraram os retratos. Em 1951, Haroldo Lobo e Marino Pinto fizeram a marcha “ Retrato do velho” que simbolizava a volta de Vargas ao poder com a reinstalação dos retratos. Foi a composição de maior sucesso entre as alusivas ao ciclo Vargas. Segundo Jairo Severiano, Getúlio foi o brasileiro que inspirou o maior número de composições. In: encarte do Disco O ciclo Vargas: uma versão através da música popular, SESC São Paulo e Fundação Roberto Marinho:1983.

16 Ele está escrevendo um livro sobre Getúlio a ser lançado em 2004.

17 Depoimento à autora, 2004.

18 Acervo da Rádio Nacional.

19 Disco A Carta- testamento de Getúlio Vargas, Silvino Neto.

20 Busca em www.cifrantiga.hpg.ig.com.br e www.dicionariompb.com.br e www.collectors.com.br

21 Há aqui um lapso da memória por parte de Lacerda, pois Odylo Costa Filho só assumiu a direção geral da Rádio Nacional em 1955. Depois de Victor Costa, de 1954 a 1955, Marcial Dias Pequeno é quem esteve a frente da emissora. Na ocasião, o jornalista Odylo Costa Filho era secretário de imprensa do presidente Café Filho.

22 Autor de uma trilogia sobre Vargas.

23 Entrevista à autora.

24 Foi Getúlio quem convidou diretamente Victor Costa para a direção da emissora entre os 25 candidatos ao cargo, por influência de Alzira, que conhecia o trabalho anterior do radialista em defesa da Nacional.

25 Acervo da Rádio Nacional.

26Lacerda chegou a fazer um curso de colocação de voz com a atriz Ester Leão, sua vizinha, para aprender a respirar e a usar a voz sem cansar as cordas vocais.

27 Acervo Rádio Nacional.

28 Entrevista à autora, 2004.

29 Discurso de Vargas no Estado Novo In: Filme-documentário “Getúlio Vargas” direção de Ana Carolina com roteiro dela e do historiador Manuel Maurício Albuquerque.

30 Acervo Rádio Nacional.

31 A Collector’s tem CD com as lições do manual sonoro do Repórter Esso e o Museu da Imagem do Som também dispõe do material.

32Acervo da Rádio Nacional.

33 Idem.

34 Há uma pausa de 15 segundos, aqui, que denúncia sua emoção. Em outro trecho da gravação, Heron fala das lágrimas dos companheiros presentes.

35Acervo da Rádio Nacional.

36 Entrevista à autora2004.

37 Depoimento à autora,2004.

38 Solteiro, Heron instalou uma cama de campanha debaixo de uma escada, no 20º andar da Rádio Nacional e dormia na emissora à espera de notícias sobre o fim da guerra (Felice, 1981: 60).

39 Carlos Frias teria dado a notícia do fim da guerra, na Rádio Tupi, antes de Heron (Ibidem: 61). Outra versão aponta Jorge Cúri como o locutor da Nacional que teria dado a informação em primeira mão (Ibidem: :67).

40 Revista Fatos e Fotos: 1969:34. A reportagem é de Hedyl Valle Júnior, Jorge Pinheiro, Norma Marzola, Elcy Nunes e Marcos Rocha.

41 Leony defende que o Esso foi o primeiro a dar a morte de Vargas (Felice:1981:63).

42 Revista Fatos e Fotos: 1969:34..

43 Os dois gravaram depoimento para Nilma Nery de Melo para o documentário sonoro “ Rádio e História: o suicídio de Getúlio Vargas”, apresentado como projeto experimental de conclusão do Curso de Jornalismo da Universidade Federal Fluminense, sob minha orientação, em 2004. A Revista Imprensa, 1997: 64, a Revista de Comunicação, 1994: 23 e Ferraretto, 2001: 128 também trazem informações sobre o assunto.

44 Entrevista à Nilma Nery de Melo.

45 Era comum as repartições públicas terem cabines com telefone direto para o palácio. A Rádio Nacional conserva a sua cabine de telefone até hoje. Era de lá que Victor Costa falava com Getúlio.

46 A Continental se destacou por introduzir a reportagem externa no radiojornalismo.

47 Foi deputado e vice-governador da Guanabara pelo PTB na década de 60.

48 Entrevista à autora, 2004.

49 Personagem principal da novela “O direito de nascer” transmitida na Nacional de 1951 a 1952.

50 Programa humorístico, de Renato Murce, veiculado na Nacional.


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