Um salto de qualidade



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UM SALTO DE QUALIDADE

Rio de Janeiro, 1º. de junho de 2006.

Essa foi a expressão que usou o P. Geral ao referir-se ao tema das vocações na alocução que dirigiu aos Superiores Maiores da América Latina e Caribe na 13ª. Assembléia da CPAL, concluída recentemente. Dizia: “seria um fruto magnífico deste ano de celebração dos aniversários de nossos primeiros companheiros se nossa oração e empenho significassem um salto qualitativo no número e qualidade das vocações à Companhia neste continente”. Para o P. Kolvenbach, “a diminuição de nossos efetivos e a mudança cultural do nosso contexto nos obrigam a nos perguntar como responder melhor ao potencial vocacional que ainda existe na América Latina”.

A intervenção do P. Geral motivou os Provinciais a solicitarem uma atenção particular a este tema aos coordenadores de pastoral vocacional do continente, reunidos em Andahuaylillas (Cusco, Peru). Depois de trabalhá-lo atentamente, estes escreveram a todos nós animando-nos a partilhar a experiência que nos motivou a seguir a Cristo com aqueles que consideremos aptos para a missão. Dizem-nos: “Encorajamos você a vencer o pudor de falar da sua própria vocação, sabendo que a nós cabe propor e convidar, para deixar Deus agir diretamente na sua criatura. Estamos seguros de que mais de um jovem se sentiria feliz se você visse nele qualidades para ser jesuíta, companheiro nosso, compartilhando a alegria da nossa vocação”. A carta e a oração ´pelos que serão chamados´, fruto da reflexão destes dias, aparecem no portal da CPAL.

Além do pudor, temos que repelir outros fantasmas: o ceticismo, que leva alguns a pensarem que Deus já não chama à vida religiosa; a falsa idéia de que propor uma experiência pessoal é impô-la a outro; a desculpa fácil de que este assunto cabe aos promotores ou, então, aos jovens jesuítas. São mecanismos que nos eximem da tarefa adulta de nos preocupar com o futuro do corpo apostólico e, mais importante ainda, inibem-nos de oferecer a outros jovens uma alternativa para o seu futuro. Se o Senhor e seu Reino nos preenchem a vida de sentido e de alegria, por que não a outros?

Todo jesuíta, em qualquer etapa de sua vida, pode comunicar a um jovem que este caminho poderia ser também o seu. Recordo-me dos relatos de jovens que sentiram o chamado de Deus no contato com nossos irmãos mais velhos na Enfermaria da Província. Bastou-lhes vê-los na vida cotidiana e partilhar suas histórias para experimentarem que neles continuava soprando a brisa fresca e jovem do Espírito que transcende gerações e fronteiras. Ao vê-los e escutá-los tomaram consciência de que também neles o coração começava a se abrasar. Pedir a admissão à Companhia foi só questão de tempo e de um bom acompanhamento.

A sociedade e a Igreja latino-americanas continuam a nos solicitar um ministério de qualidade. Pedem-nos para estarmos presentes, com uma contribuição lúcida e uma mente aberta, nas diversas fronteiras em que nos coloca nossa opção pela justiça, pelo diálogo inter-religioso ou a inculturação da fé. Continuamos sentindo como nossa a “dignidade” dos primeiros companheiros de ir aonde ninguém quer (ou não pode) ir. Os critérios inacianos (o bem universal, a maior necessidade) continuam sendo os nossos e exigem a melhor preparação possível e uma identidade religiosa e eclesiástica clara. Os jovens a procurar são aqueles com “subiecto”, que podem desenvolver na Companhia as aptidões e qualidades que, no “mundo”, os fariam destacar-se. “Da qualidade de nossas vocações dependerá a qualidade de nosso serviço apostólico”, repetiu-nos o P. Geral em Santiago.

Na verdade, nossa resposta não está ainda à altura nem sequer do potencial vocacional de nossas próprias obras e ministérios nos quais estamos em contato com os jovens. “Seria importante perguntar-se –diz o P. Kolvenbach- por que não vêm vocações de nossas obras”. A pergunta não vai dirigida aos promotores vocacionais, mas a todo o corpo apostólico. “De nada servem bons programas de promoção vocacional se os jesuítas não dermos um testemunho coerente de vida religiosa e apostólica”. De igual modo, tampouco sairão vocações de nossas obras (colégios, universidades, programas sociais) se estas tiverem decidido manter sua identidade eclesial e inaciana no silêncio. Testemunho coerente de vida e expressão clara de nossa identidade são condição indispensável da nossa missão e, por conseqüência, também da nossa atividade em favor das vocações. Poucos temas como este desafiam tanto a nossa credibilidade.

Os primeiros companheiros, cujo jubileu celebramos, podem ajudar-nos também neste ponto. Para eles era claro que Deus é quem “tem que conservar e levar adiante o que se dignou começar para seu serviço e louvor e ajuda das almas” (Const. 812). Ao mesmo tempo, Inácio sabe trabalhar o chamado de Deus em Xavier, apesar das suas resistências, e Fabro se nos afigura como um excelente acompanhante espiritual, o que melhor dava os Exercícios. Além do acompanhamento também faziam a promoção. E assim, quando concordaram chamar-se “Companhia do Jesus”, dispersaram-se por cidades universitárias italianas com a esperança de achar outros jovens que desejassem incorporar-se. Mais tarde, encontrariam nos colégios uma fonte importante de vocações. A convicção de que Deus abençoava a missão os impulsionava a serem particularmente ativos nesta tarefa. Seguindo seu exemplo, também hoje “nosso Senhor nos chama a sermos mais ativos e ‘agressivos’, a usar todos os meios e recursos necessários para colaborar com a graça no fomento das vocações, a exemplo de Santo Inácio e reassumindo a tradição da Companhia” (Kolvenbach, 1997).

Termino retomando o final da mensagem de Andahuaylillas a todos nós: ´Este Ano Jubilar deve ser uma excelente ocasião para renovar nossa vida no Espírito e que nos torna comunicadores da vocação que nos foi concedida como um dom. Inácio soube captar a chama escondida nos corações de seus companheiros, Xavier sentiu a urgência de partilhar com os universitários europeus uma vida cheia de sentido na missão, e Fabro foi o promotor vocacional por excelência´.



Nossa Senhora do Caminho, que inspirou a vocação de Inácio, Xavier e Fabro, nos acompanhe também hoje na tarefa de promover os novos membros que serão convocados como ´servidores da missão de Cristo´.

Ernesto Cavassa, S.J.


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