Um teórico alemão na periferia do capitalismo: tempo presente, Walter Benjamin e os Estudos Culturais britânicos na América Latina



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Um teórico alemão na periferia do capitalismo: tempo presente, Walter Benjamin e os Estudos Culturais britânicos na América Latina.

Silvia Cáceresi


Resumo
O presente artigo visa esboçar um panorama de debates em torno das possibilidades para a escrita da história do tempo presente na América Latina, lugar de modernidade periférica cuja constelação de eventos recentes ilumina os dilemas de se narrar em sociedades pós-traumáticas fissuradas pelo trauma ditatorial. Tal panorama terá como fio condutor as reflexões de Walter Benjamin filtradas, repostas, transformadas pelos intelectuais vinculados aos Estudos Culturais britânicos (CEVASCO, 2003) em seu desenvolvimento latino-americano.

O desenvolvimento da tradição dos Estudos Culturais no Cone Sul enquanto rede ou campo intelectual é difuso, sobretudo se pensamos o caso brasileiro (ORTIZ, 2004). Seu caráter difuso como rede não dá conta, porém da abrangência que tal tradição alcançou notoriamente na Argentina e no Chile através de duas exponenciais intelectuais públicas: Beatriz Sarlo e Nelly Richard. Em nosso trabalho para futura tese de doutorado estamos mapeando essa rede à luz sobretudo de duas de suas principais iniciativas editoriais, as revistas Punto de Vista (Argentina, 1979-2008) e Revista de Crítica Cultural (Chile, 1990-2008).

Um desafio que o grupo de intelectuais envolvidos com o projeto editorial das revistas aborda é a questão da possibilidade de narração em sociedades pós-traumáticas. Uma tese forte presente em tal grupo é a de que nosso período pós-ditatorial coincide é parte do processo de constituição de nossa pós-modernidade cultural (AVELAR, 2003). Haveria portanto nas sociedades do Cone Sul latino-americano uma coincidência cultural entre pós-modernidade e pós-ditadura e tal coincidência portaria ao menos dois vetores de forças avessos ao trabalho de narração: o trauma ditatorial e o presentismo das sociedades de consumo midiático pós-modernas.

A tradição dos estudos culturais na América Latina tem amplamente se valido da análise benjaminiana para pensar as contradições do capitalismo periférico (MARTIN-BARBERO,SARLO, RICHARD). De fato, a noção intempestiva de Benjamin quanto à possibilidade de retecer os rumos históricos entra em potencial diálogo com a tradição dos Estudos Culturais, que se enxerga como um campo de reflexões com vocação política (BEVERLEY, 2008).

Gostaríamos portanto de dialogar com a provocação de Sarlo que nos convida a “esquecer Benjamin” (SARLO, 2005). Se é necessário esquecê-lo como voga, como moda acadêmica esvaziada de potencial intempestivo, certamente não deveríamos esquece-lo enquanto autor que pensou a modernidade em um momento de crise, crise que replica, se amplia, se potencializa em nossos tempos pós-traumáticos e que nos convoca a pensarmos nos limiares que podemos atravessar ou construir caso não queiramos sucumbir a seus aspectos negativos.
Palavras-chave: história do tempo presente, Walter Benjamin, Estudos Culturais britânicos, Beatriz Sarlo.

Esquecer Benjamin
Se o academicismo, no passado, podia ser identificado com a fidelidade filológica a um autor ou a um texto, um novo academicismo revela sua banalidade ao jurar lealdade aos temas academicamente corretos.

Beatriz Sarlo

A historiografia que aborda o tempo presente está atravessada por questões éticas que informam seu caráter altamente reflexivo e político. A temporalidade presente irrompe com suas questões latentes na cena pública. Seus sujeitos são representados, representam e se auto representam, inclusive de forma retrospectiva à luz das narrações intelectuais, acadêmicas, políticas, midiáticas. Escrever a história do tempo presente é postura arriscada, como tão bem o descreve Benjamin em suas teses sobre o conceito de história, ao dizer que “Articular historicamente o passado não significa conhece-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal qual ela relampeja no momento de um perigo” (BENJAMIN, 1994: 224).

Benjamin está sem sombra de dúvidas no centro das reflexões sobre o tempo presente na América Latina. Poderíamos aqui arrolar diversas razões para tal fenômeno, mas gostaríamos de mencionar uma em especial. Trata-se da maneira estética com que o texto de Benjamin forma o que o autor mesmo nomina “imagens do pensamento” povoadas de alegorias, – sobretudo nas tão requisitadas teses sobre o conceito de História – forma esta que conta ainda com o arranjo extremamente particular que Benjamin tece entre campos e autores aparentemente tão díspares como Brecht, Nietzsche, Kant e Marx.

O provocativo texto de Benjamin é eminentemente estético e plural. Ele é vanguardista no sentido de muitas vezes parecer experimental. Todos esses elementos o tornam um autor de textos sensuais, provocativos aos sentidos. E essa sensualidade torna-os potenciais objetos de desejo e consumo inclusive dentro de uma instituição que possuiu ao longo da modernidade um caráter sóbrio, clássico e por muitas vezes até conservador: a academia, os sistemas de produção de saberes letrados alocados em estruturas de ensino e pesquisa universitárias.

O momento acadêmico que se abre amplamente ao consumo de perspectivas teóricas é ímpar, corresponde a uma constelação de eventos e processos específicos que podemos agrupar baixo o nome de pós-modernidade (JAMESON, 1997). Seu roteiro já é amplamente conhecido em linhas gerais e descritivas embora permaneça desafiante no que diz respeito à intervenção crítica, à formação de agências transformadoras. O pós-moderno seria a forma cultural do capitalismo tardio, momento onde a forma mercadoria se expandiria a ponto de se alocar nas estruturas sensíveis, no imaginário, na cultura como cultura de consumo. Ainda dentro das linhas de descrição geral do momento pós-moderno, podemos falar que o mesmo se caracteriza por um embaralhamento dos signos que ganha impulso através da perda de grandes referentes que se desenvolveram à sombra da modernidade. Nesse embaralhamento de signos, à ação da moda sobre o passado se volatiza, tornando extremamente rápido o movimento de saque de signos e dejetos do passado em novos arranjos culturais.

Nesse cenário se abre o paradoxo denunciado por Beatriz Sarlo no artigo “Esquecer Benjamin” (SARLO, 2005). No referido artigo, Sarlo menciona formas de consumo cultural de Benjamin dentro da “academia internacional” que seria um circuito de formas de escrita e maneiras de produção acadêmica com impacto e reprodução em boa parte dos sistemas acadêmicos do mundo ocidental/ocidentalizado.

Sarlo é uma intelectual crítica às condições de produção e circulação do saber acadêmico contemporâneo. Tal crítica emana de sua leitura de que a figura do especialista embota, auxilia na derrocada dos intelectuais enquanto agentes públicos que se servem da crítica cultural para criar massa crítica em torno da construção da vida pública e privada. O especialista, diferente do intelectual, seria um produtor de conhecimentos limitado pela estrita observância de seu objeto e dos temas em voga. Nas ditas ciências humanas, o especialista seria convocado a cumprir o papel de assunção teórica/narrativa e legitimação de políticas emanadas, sobretudo das demandas estatais e empresariais.

Ainda no campo de imagens presentes na crítica de Sarlo poderíamos dizer que o especialista está para a produção de conhecimento como um cidadão está para o shopping center: seu passe a tal espaço não é garantido por sua pertença a uma comunidade imaginada que partilha uma mesma cidadania apriorística, mas sim se constitui através de sua potencialidade como consumidor dos bens ali dispostos. Nas gôndolas da academia internacional estariam dispostas as mais extravagantes mercadorias à disposição do especialista, que as tomaria à luz da conveniência, da composição de estilo, da adesão a certa moda.

“Esquecer Benjamin” é portanto tocado por uma leitura mais ampla e geral sobre o conhecimento letrado e sobre a construção da crítica cultural como espaço de formação das funções públicas dos intelectuais. É um apelo crítico lançado por uma das maiores divulgadoras contemporâneas de Benjamin que visa apontar que a citação deslocada tem sido a forma de uso das categorias e passagens benjaminianas, utilizadas a partir da fidelidade a temas em voga e não a tradições analíticas, a maneiras de questionar o mundo circundante.

Se tal forma de uso dos textos benjaminianos soa não apropriada para Sarlo, haveria então formas corretas de usar as potencialidades culturais advindas de leituras de Benjamin?

Como Sarlo menciona no referido artigo, “não há nenhuma ortodoxia benjaminiana a custodiar” (SARLO, idem: 105). Contudo, certamente há maneiras de potencializar a verve crítica contida em seus escritos. Nesse sentido, deveria aplicar-se ao autor o próprio apelo que o mesmo lança em suas teses sobre o conceito de história, arrancando-o do conformismo que o iguala como citação deslocada a qualquer outra citação desprovida de historicidade densaii, ou seja, desprovida de um lugar de ação dentro da tradição.

Para nós, latino-americanos, Benjamin é um autor valoroso. De forma paradoxal, Benjamin contribui imensamente com chaves de leitura para que se compreenda a dinâmica cultural na periferia do capitalismo. Como isso poderia ser, já que sabemos que Benjamin, como intelectual e como sujeito cultural e político fora sempre profundamente europeuiii?

Ao analisar as sociedades de capitalismo central na Europa Ocidental, ao analisar a Paris do século XIX, nosso autor está focalizado na formação de constelações culturais específicas que o mesmo analisa através de seus campos de extravase, suas ruínas e seus dejetos, que é onde tão bem o periférico, o subalterno se move. Como sabemos, as ruínas e fragmentos são trabalhados na obra benjaminiana como elementos que podem constituir alegorias dos processos sociais que os produziram. São imagens que portam em si a cisão traumática do descarte, do esquecimento. Alegorias são representações frágeis cujo caráter cindido e incompleto é parte de sua própria apresentação.

O recurso às alegorias não é somente uma opção estética de Benjamin, mas uma opção filosófica e ética que indica uma via possível de representação da catástrofe que é a história humana cindida pela luta de classes. É a história ela mesma um grande mosaico de dejetos e fragmentos que só ganham sentido simbólico à luz da narração dos vencedores. Para narrar a história dos vencidos, nos resta a tentativa de sermos fiéis aos fragmentos que a compõem. Assim como o alegórico anjo da históriaiv, o historiador que se fideliza a história dos vencidos anseia por reparar o monte de destroços que enxerga quando volta seu olhar ao passado. Embora tal vontade messiânica componha um horizonte ético, esse mesmo historiador deve saber que jamais o conseguirá restaurar o passado. Portanto é necessário tomar o caráter fragmentário desse passado de forma alegórica, abrindo margem para o arbítrio, para o movimento de cesura que reconecta intempestivamente passado e presente como forma de interromper a catástrofe.

Nosso lugar de anunciação, nossa modernidade periférica pode ganhar vigorosa consciência de si a partir de um potencial desdobramento da análise de Benjamin sobre a formação e dinâmica cultural das sociedades de capitalismo central. Nossa relação com as modernidades centrais sempre fora alegórica, e nossa luta identitária uma luta pelo poder de simbolização, poder esse dotado de transcendência. Nossa modernidade periférica nos tornou maus copistas das formas culturais das sociedades de modernidade central.

Desde nosso lugar periférico, subalterno, podemos portanto compreender o poder da simbolização cultural observando que esse processo implica em um largo processo de destruição daquilo que não se encaixa na construção dos símbolos de poder. Se a Paris do século XIX é um símbolo do desenvolvimento cultural da modernidade europeia com seus cafés, largos bulevares e galerias comerciais, é porque a Paris do século XIX é também uma alegoria do processo de destruição da antiga cidade medieval, labiríntica e povoada de personagens que causavam horror e medo à ordem burguesa. Na filosofia benjaminiana, o símbolo pactua com os projetos de poder e a alegoria pode – e somente pode – vir a servir ao projeto histórico dos oprimidos, caso os mesmos tomem os despojos alegóricos de forma intempestiva, ou seja, de forma a que tais despojos componham um processo de interrupção da ordem histórica em que se vive.

Para tentar se equiparar aos signos e símbolos europeus, a modernidade latino-americana foi e tem sido extremamente feroz com toda espécie de sujeito à margem: os povos indígenas, as populações negras, as populações rurais, as mulheres. Diante dos despojos dessa história de derrotas, podemos tomar Benjamin de maneira intempestiva, buscando reunir às ruínas do passado compreendendo que as mesmas compõem nosso ar histórico e que portanto, as mesmas ainda povoam às questões que devemos responder se não desejarmos abrir mão de nossos projetos de sociedade.

Não queremos dizer com isso que discordamos da crítica de Sarlo quando a mesma nos incita a esquecer Benjamin. Estamos sim replicando sua análise. Devemos esquecer certas formas de se tomar a Benjamin e relembrar outras. Devemos de fato, tentar responder à seguinte pergunta formulada por Sarlo: “Sobre que esquecimentos recordamos Benjamin?” e matizar a parte provocativa que vem na sequência “E, se esses esquecimentos são tantos [...], por que não esquecer Benjamin de uma vez?” (SARLO, idem: 104).



Relembrar Benjamin

É necessário então relembrar Benjamin de forma intempestiva, buscando no autor a carga messiânica que possa potencializar mudanças no rumo de nossa (pós) modernidade. Afinal, a incorporação de Benjamin na América Latina tem criado tanto a superpopulação de flaneurs em textos de análise cultural quanto tem também se somado à tradição crítica na América Latina compondo leituras sobre nossa modernidade, processo analítico essencial para aqueles que creem ser necessário inferir em seus rumos.

Em nosso projeto de doutorado estamos analisando a composição de uma rede de intelectuais que toma e reelabora a tradição dos Estudos culturais britânicos no Cone Sul. Nessa rede ocorre uma intercessão entre a tradição dos Estudos Culturais e os textos de Walter Benjamin. Os autores de tal rede têm formulado análises centrais sobre a cultura na América Latina. Tal rede de intelectuais obviamente não é unívoca e suas análises não são exatamente coincidentes embora formem uma massa crítica em torno dos dilemas culturais de nossas sociedades. Apresentaremos os três debates de maneira rápida, somente como forma de demonstrar suas articulações com o pensamento benjaminiano e sua valia para se pensar o tempo presente.

Mencionaremos aqui alguns poucos conceitos e seus propulsores, ou contribuintes: a análise sobre memória elaborada por Sarlo em Tempo Passado (SARLO, 1999), e o conceito de pós-ditadura para a análise do caráter cultural das atuais sociedades nacionais no Cone Sul tal qual trabalhado por Idelber Avelar (AVELAR, 2003).

Em Tempo Passado, Beatriz Sarlo elabora uma análise crítica acerca dos usos do passado na sociedade Argentina contemporânea. A inflação da memória sobre o período ditatorial na Argentina estaria, na opinião da autora, gerando a impossibilidade de articular o tempo presente já que os sujeitos estariam reportando sua ação a um passado sacralizado porque traumático. Seria então necessário por de lado essa discursividade saturada de fantasmas do passado para fazer com que a memória rompa com o eterno retorno típico do trauma e avance rumo à possibilidade de uma arena pública menos saturada de interditos impostos pelo trauma ditatorial. A análise de Sarlo está, como sempre, cheia de referentes à obra benjaminiana. Em Tempo Passado é cara a noção de fantasmagoria (inspirada em Benjamin) que atravessa todo o argumento da autora.

A posição intelectual de Sarlo em Tempo Passado é interessante pois, desde uma postura à esquerda no espetro político público, a intelectual em questão sinaliza a embolia que a memória de eventos traumáticos pode ocasionar no espaço público contemporâneo. Para o cenário em questão tal posição não deixa de ser notória politicamente, uma vez que a esquerda política tem tido nas políticas de memória em torno das últimas ditaduras um forte bastião de sua posição pública (SALAZAR, 2001).

Cremos que a crítica de Sarlo a inflação de memória e sua consequente congestão no espaço público argentino é uma contribuição importante para se pensar a forma como a memória tem sido trabalhada nas sociedades contemporâneas. Contudo, cremos que falta na crítica da autora mediações. Teríamos de ficar presos ao dualismo inflação/ descarte da memória? Dentro do próprio campo de autores que trabalham com a análise benjaminiana, uma alternativa a tal dualidade encontra-se na obra de Gagnebin, quando a mesma trabalha o conceito de memória à luz do conceito de terceiro. Na concepção de terceiro reside a ideia de que é necessário trabalhar a formação de um sujeito que escapa à dinâmica algoz-vítima. O terceiro seria o sujeito que escuta a narração memorialística e é capaz de, sem esquecer seu relato, transpassar seus termos, superar sua dinâmica traumática (GAGNEBIN, 2006: 57).

Quanto ao debate sobre sociedades pós-ditatoriais. Pós-ditadura, na concepção elaborada por Idelber Avelar é um termo derivado da idéia de pós-catástrofe presente em Seligmann-Silva, Gagnebin entre outros autores que dialogam com a obra de Walter Benjamin. O sufixo pós indica aqui, não um estar além, mas um estar aquém: aquém das possibilidades de efetivamente operar uma passagem temporal e inaugurar simbolicamente novos tempos e assim nomeá-lo. Aquém da possibilidade de significar o presente que se instaura então como um eterno retorno do passado traumático.

Na concepção de Idelber Avelar, a pós-ditadura nas sociedades latino-americanas do Cone Sul coincidiria e alimentaria a instauração da vivência pós-moderna nessas mesmas sociedades, vivência essa marcada pelos signos da imediticidade e do presentismo constituintes da cultura de consumo. A vivência temporal pós-moderna seria mais um canal a alimentar a incapacidade crítica e narrativa, o que torna a escrita da história – seja essa escrita um esforço acadêmico ou um esforço cidadão tomado por qualquer sujeito - uma tarefa de risco, já que se somam duas tendências culturais que difundem a incapacidade narrativa: o trauma pós-ditadorial e o presentismo pós-moderno.

Assumindo o risco implicado na escrita, o conjunto autoral relacionado aos Estudos Culturais no Cone Sul e, alagando a abrangência do comentário, no restante da América Latina, têm aportado análises ricas, que usualmente fogem aos binômios usualmente imputados a análise da cultura e, desde seu lugar de enunciação específico (seu particular) arriscam um discurso que aspira à reconstrução de uma totalidade (que remete a universais) mesmo que fragmentada. Risco a que esse campo se imputa sem abrir mão da lucidez autocrítica quanto às dificuldades impostas à tentativa de se pôr no lugar do outro, sobretudo em tempos de cultura pós-moderna, dominada pelo movimento de constituição de identidade(s) individual(s) como lugar de validade anunciativa quase exclusiva.

Os escritos de Benjamin compõem o espirito intelectual para a análise/intervenção no tempo presente desenvolvido nessa rede, cuja contribuição intelectual pública não deveria ser ignorada por aqueles interessados no rumo de nossa modernidade.
Transpassar Benjamin
Nosso esforço de cartografia da incorporação de Benjamin pelo campo dos Estudos Culturais no Cone Sul tem sido até aqui quase que somente descritivo. Gostaríamos, contudo, como forma de finalizar nosso argumento, propor algumas chaves de leitura acerca dessa trajetória de diálogos e apontar possíveis desdobramentos para a mesma, lembrando ao leitor que estamos em uma fase inicial de pesquisa, e que por consequente nossas hipóteses e formulações certamente ainda atravessarão um percurso de enriquecimento e transformações.

Quando nos detivemos centralmente nos argumentos de Sarlo em “Esquecer Benjamin” estávamos tentando identificar em simetria com a autora, que há um desgaste cultural da forma como temos entrado em diálogo com um conjunto autoral que, se a sua época de produção permaneceu à margem da academia, hoje irrompem como peças cobiçadas dos discursos acadêmicos orientados por toda sorte de fundo cultural e político.

Diante desse cenário, cremos que a rede de intelectuais que estudamos estão entrando numa fase de proposital processo de desistitucionalização que se dá, sobretudo através do desmonte de dois dos seus principais espaços de articulação e intervenção públicas, as já mencionadas revistas Punto de Vista e Revista de Crítica Cultural.

Essa postura intelectual de desmonte, embora radical, parece coerente com as proposições de Sarlo. Afinal, é extremamente difícil fugir a voragem das formas acadêmicas hegemônicas. Talvez ambas as revistas tenham elas mesmas entrado em um ponto de saturação de seus debates. É o que aponta Nelly Richard em um processo de balanço do fechamento da Revista de Crítica Cultural:

Una Revista como la Revista de Crítica Cultural, en tanto revista independiente (que no obedece a ningún encargo y que, por lo mismo, sólo responde a la voluntad y energía de quienes se sienten autoconvocados por su proyecto), depende fuertemente de lo que Beatriz Sarlo llama “el deseo de revista”. Y cuando ese deseo deja de hacerse sentir, es la señal de que la revista ya no es necesaria.(RICHARD, 2008: 7)

Por que o desejo de revista teria se encerrado para esse grupo de intelectuais? A saturação dos usos de seus debates e de seus autores de referência podem em parte explicar o fim de tal desejo e o movimento rumo a novas proposições políticas e culturais.

Esse redirecionamento do desejo não aponta obviamente para o descarte da tradição em que tais autores se inserem, mas para sua reelaboração dentro de um cenário onde os mesmos começam a ser eles mesmos devorados pela forma mercantilizante com que a academia internacional trata os autores. É necessário lembrar que a tradição dos Estudos Culturais britânicos, nas palavras de Stuart Hall, um de seus fundadores, possui uma “vocação política”. Segundo John Beverley:
Desde el principio, la escuela, que nació en unas de las universidades periféricas creadas después de la Segunda Guerra Mundial por El gobierno laborista precisamente para democratizar El sistema universitário, tuvo, o mejor dicho quiso tener, una relación orgánica con la clase obrera inglesa. Por un lado quería hacer una práctica académica institucional que representara, en el doble sentido de hablar por y hablar de, el protagonismo de esa clase; de allí la vinculación con los historiadores asociados al marxismo ingles, como Thompson; por otro lado se relacionaba también con el “out culture” del proletariado nuevo en formación, y con los nuevos movimientos sociales que empezaban a surgir en los setenta: el feminismo, los movimientos de los gays, de la población inmigrante caribeña y asiática. (BEVERLEY, 2008).
Portanto é possível identificar que a tradição dos Estudos Culturais nasce da confluência dos seguintes debates: por um lado temos a tradição do marxismo e seu grande conceito chave (classe) e de outro os chamados novos movimentos sociais que em parte seriam responsáveis pelo impulso da pauta pós-moderna e sua crítica contundente a toda “grande narrativa” tal qual a ideia de totalidade social operada pelo marxismo para o trabalho com o conceito de classe.

O lugar de anunciação do intelectual dos Estudos Culturais é desta forma bastante polêmico, por tentar orquestrar um trânsito entre espectros do pensamento contemporâneo que talvez tenham mais conflitado do que convergido em suas análises. Os Estudos Culturais no Cone Sul refletiram/refletem acerca da pertinência dessas matrizes de pensamento, bem como sobre a possibilidade de sua convergência dentro de um cenário pós-moderno, cenário este que tende à dissolução/carnavalização das tradições teórico analíticas, privilegiando mais o trabalho de colagem do que o de síntese (sendo este último tão caro à tradição marxista).

Assim, a detenção sobre o tema dos intelectuais, sobretudo na passagem ditadura – pós-ditadura, deveria servir para relembrar a função pública dos intelectuais, e servir também para não perecer diante do catastrofismo da análise de que todo o passado do intelectual engajado fora um erro absoluto. Relembrar para não perecer, e relembrar para deixar perecer certas posturas que de fato podem ter sido equivocadas. Relembrar para deixar perecer os binarismos contemporâneos que recaem sobre a memória da intelectualidade atuante no cenário do pós-guerra. Esta defesa organizada por Sarlo parece ser um programa central à rede intelectual que propomos estudar. A Revista de Crítica Cultural parece ter sido um espaço de intervenção de perfil acadêmico voltado à arena pública com o fim de defender e projetar esse projeto intelectual/político.

Caso o projeto intelectual que deu forma a Revista de Crítica Cultural e a Punto de Vista consiga prosseguir por outras vias que não as revistas, certamente as concepções benjaminianas que tal grupo portam devem junto a isso encontrar novos canais para ser transpassadas, para serem tomadas em seu possível caráter intempestivo.





i Doutoranda no PPGHIS/UFRJ. Contato: silviacaceres@ufrj.br

ii

iiiii Sobre a Europa como horizonte de ação e reflexão de Benjamin vide a biografia elaborada por Hanna Arendt em Homens em Tempos Sombrios.

iviii O anjo da história é uma alegoria presente na tese de número nove do texto “Sobre o conceito de história” de Walter Benjamin. (BENJAMIN, 1994: 226).

Referências Bibliográficas

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CEVASCO, M. E. Dez Lições sobre Estudos Culturais. São Paulo, Boitempo Editorial, 2008.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar, Escrever, Esquecer. São Paulo, Editora 34, 2006.

JAMESON, Frederic. Espaço e Imagem: teorias do pós-moderno e outros ensaios. Rio de Janeiro, UFRJ, 2006.

RICHARD, Nelly. (editora). Debates Críticos en América Latina: 36 números de la Revista de Crítica Cultural (1990-2008). II volumes. Santiago de Chile, Editorial ARCIS/Editorial Cuarto Propio/ Revista de Crítica Cultural, 2008.

SALAZAR, Gabriel. Historiografia Chilena Siglo XXI: transformación, responsabilidad, proyección. In: MUSSY, Luis (org.). Balance Historiográfico Chileno: El orden Del discurso y El giro crítico atual. Santiago de Chile, Ediciones Universidad Finis Terrae, 2007.

SARLO, Beatriz. Paisagens Imaginárias: Intelectuais, Arte e Meios de Comunicação. São Paulo, EDUSP, 1997.

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SELIGMANN-SILVA, Marcio (org). História, Memória, Literatura: o testemunho na era das catástrofes. Campinas, Editora Unicamp, 2003.




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