Uma análise do pentecostalismo no mundo capítulo um



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UMA ANÁLISE DO PENTECOSTALISMO NO MUNDO

CAPÍTULO UM

Introdução

Quando eu comecei a pesquisar o pentecostalismo há quase quarenta anos atrás eu não poderia imaginar que ao final de minha carreira acadêmica eu retornaria para esse mesmo tópico. Na verdade, minha esposa, que tem acompanhado minha peregrinação teológica paciente e criticamente—dou graças a Deus por uma esposa questionadora e crítica—perguntou-me: “Por quê você investe tanto trabalho nesse livro? Sua carreira acadêmica está encerrada.”

Se a esposa da gente faz tal pergunta, é bom a gente ter uma boa resposta. Minha resposta foi: A principal razão não é o tremendo crescimento do pentecostalismo/carismatismo/independentismo de zero para quase 500 milhões em menos de um século, um crescimento singular na história da igreja sem excluir os primeiros séculos da igreja. A principal razão é que o pentecostalismo “chegou a uma encruzilhada.”1 Surge de suas próprias fileiras o desafio por uma historiografia crítica, por análises social e política, por um tratamento mais diferenciado da obra do Espírito, por uma espiritualidade que não exclua pensamento crítico, por uma nova avaliação das culturas pré-cristãs presentes nas igrejas-irmãs do Terceiro Mundo e por uma abertura ecumênica e diálogo. Esta estória tem que ser contada, principalmente porque ela não é vista pelos pentecostais como uma concessão para o mundo ou para o movimento ecumênico mas como uma leitura mais completa de seu próprio passado. Os detalhes são aprofundados neste volume. É difícil prever qual o caminho que trilharão as principais igrejas pentecostais, o movimento de renovação carismática e as “igrejas indígenas não-brancas” (Barrett) pentecostais ou assemelhadas no Terceiro Mundo. É minha esperança e minha oração que este volume possa ajudar pentecostais e não-pentecostais a alcançarem uma compreensão mais genuína do que significa ser pentecostal.

Comparado com o volume anterior, The Pentecostals [Os Pentecostais], este é um livro totalmente teológico, mas expressa sua teologia na forma de histórias. Isto parece ser para mim uma forma de tratamento acadêmico mais adequado às espiritualidades contextuais do pentecostalismo do que as afirmações e discussões proposicionais, também chamadas universais, porque ele situa as práticas e convicções pentecostais em seus diferentes contextos culturais. Isto já fica evidente na análise complexa das cinco raízes históricas, que podem ser representadas graficamente da forma abaixo:

Eu não sou o único que tem descoberto a importância de nosso tópico para a religião, para a política e para o futuro de nosso mundo. Harvey Cox, famoso por sua obra The Secular City [A Cidade Secularizada], em contraste com a ignorância geral sobre o assunto na academia, escreve: “Um movimento religioso que já conta com quase meio bilhão de pessoas e está se multiplicando geometricamente não deve ser descartado tão facilmente.” Cox cita sociólogos eminentes projetando que “no início do século vinte e um os pentecostais, em todas as suas diferentes manifestações, superarão em número aos católicos e protestantes juntos.” Entretanto, “sua verdadeira área de crescimento não está na América, não está na televisão e também não está entre pessoas brancas”2 mas sim no Terceiro Mundo, porque representa uma certa “secularização cristã com os pés no chão, voltada para o terrestre.”3

É isto que torna o pentecostalismo atraente. Foi por isto que uma igreja presbiteriana prestigiosa de Nova Iorque, a Riverside Church, selecionou como pastor dentre vários candidatos um pentecostal negro, o professor James A. Forbes4 do Union Theological Seminary, sem solicitar-lhe que abandonasse sua afiliação pentecostal? Eu acho que vai demorar um pouco até que as universidades e catedrais européias busquem por auxílio junto aos pentecostais. Mas quem sabe?

“A espiritualidade pentecostal é o futuro,” diz Werner Hoerschelmann,5 um dos “Hauptpastoren” da Igreja Luterana em Hamburgo. Por muitos anos, Hans-Jürgen Becken, um especialista alemão das Igrejas Independentes Africanas, tem ressaltado não apenas o crescimento mas também a contribuição teológica e médica dessas igrejas. De um encontro com elas ele espera não apenas auxílio na “solução da visível crise de nossos serviços ocidentais de saúde mas também uma mudança de coração do indivíduo, seja ele o médico ou o paciente.”6 John A. Mackay, o grande ancião do presbiterianismo e do ecumenismo, ex-presidente do Princeton Theological Seminary, disse que “a verdadeira esperança do ecumenismo é a renovação carismática,”7 pois “vida com diferenças é melhor do que morte harmoniosa.”8 Parece claro para qualquer observador bem informado que o pentecostalismo e o ecumenismo devem encontrar uma forma de trabalhar juntos muito mais intensamente. Isto exigirá arrependimento de ambos os lados, e compromisso organizacional, financeiro e teológico. Afinal, o Conselho Mundial de Igrejas buscou ativamente a cooperação da igrejas ortodoxas (um segmento muito menor do cristianismo) e isto fez—corretamente, eu penso—com grande risco financeiro e político. Então por que não com os pentecostais?

Parece que aos poucos o Conselho Mundial de Igrejas vai se movendo nessa direção. Sobre a questão “Para onde vai o Conselho Mundial de Igrejas?” seu secretário geral, Konrad Raiser, tem isto a dizer: “O atual crescimento do cristianismo é quase inteiramente devido às igrejas evangélicas e pentecostais . . . Isto significa para o Conselho Mundial de Igrejas que ele tem que se abrir para essas novas manifestações de existência cristã, de igreja cristã e de testemunho cristão.”9

Do lado pentecostal o problema também tem sido reconhecido como será visto na seção V (pp. 334-88). Como diz o ecumênico pentecostal Cecil M. Robeck, Jr.: “No final, o século vinte será avaliado pelos historiadores da igreja como o século no qual o Espírito Santo gerou e nutriu dois grandes movimentos: um deles formalmente conhecido como o Movimento Ecumênico, o outro, dificilmente reconhecendo-se a si mesmo como ecumênico, o Movimento Carismático/Pentecostal. Esses dois movimentos têm tido muito em comum, mas raramente têm reconhecido a mão ou o Espírito de Deus estando presente no outro.” E Dale T. Irvin acrescenta que os pentecostais ainda não atuaram sobre a teologia ecumênica de seu fundador, William J. Seymour.10

A discussão crítica com não-pentecostais pode ser vista no crescente interesse de teólogos pentecostais na obra de Jürgen Moltmann. Eles debatem com ele por escrito e face a face. O Journal of Pentecostal Theology [Revista de Teologia Pentecostal] dedicou uma edição inteira ao The Spirit of Life [O Espírito de Vida] de Moltmann. Os teólogos pentecostais parecem estar bem informados sobre a totalidade da obra de Moltmann, pelo menos em relação àquilo que foi publicado em inglês. Alguns leram seus livros também em alemão. Eles acolheram com alegria sua superação do Filioque (capítulo 17, pp. 218-22), sua ênfase na pneumatologia, sua tentativa em incluir a experiência na reflexão teológica. Entretanto, eles lamentam que ele parece não estar consciente da crescente literatura acadêmica de carismáticos e pentecostais.11 Moltmann se defende contra essa reprovação. Ele se declara teólogo alemão, influenciado por Lutero, Melanchton, Kant, Hegel e Barth.12 Por estas razões questões específicas dos pentecostais não encontraram eco em sua obra. Isto obviamente é verdade. Porém, isto também mostra a estreiteza daquilo que chamamos teologia acadêmica. Moltmann diz contra a reprovação dos pentecostais que ele “infelizmente nunca foi o ‘teólogo do Conselho Mundial de Igrejas.’”13 Apesar disto ele tem estado sempre bastante alerta para o desenvolvimento ecumênico. Se um teólogo de tamanha proeminência confessa sua ignorância sobre assunto tão importante, como se sairão seus colegas? Isto é uma infelicidade e terá que mudar no futuro para que a teologia européia não seja a ideologia de algumas “tribos européias ocidentais.”

Uma das mais difíceis mas também das mais promissoras áreas de cooperação ecumênica é a oração—oração em público. Oração pública é muito difícil pois exige equilíbrio entre exibicionismo por um lado e trivialidades religiosas por outro. As diferenças psicológicas e culturais entre uma oração latino-americana e uma alemã, entre uma oração pentecostal e uma luterana, são enormes. Não obstante, acredito que existem formas de orar conjuntamente, não apenas a Oração do Senhor.

Por muitos anos tenho tentado formular orações nas quais possam participar pessoas religiosas e não-religiosas, pessoas da religião de alta voltagem dos pentecostais e da religião de baixa tensão das igrejas tradicionais. Eu inseri algumas destas neste volume.14
Querido Deus, Meu pai diz que eu sou muito pequeno. Minha mãe diz que eu sou vagaroso. Minha professora diz que eu sou um sonhador. Meu chefe diz que os outros são melhores.Meus colegas dizem que me falta solidariedade. Meu comandante diz que eu sou um covarde. Meu pastor diz que eu sou um pecador. Minha esposa diz que os outros ganham mais. Meus filhos dizem que eu sou quadrado. E tu, meu Deus, o que tu dizes? Tu dizes que tu me criaste segundo tua semelhança.
Este livro contém muitas citações. Elas são importantes, de qualquer forma mais importantes do que minha interpretação, pois pretendo documentar o estado do debate em um decisivo momento da história carismática/pentecostal. Estas citações são quase sem exceção passagens retiradas de artigos acadêmicos. Eu pude eliminar quase que totalmente propaganda, polêmicas e literatura devocional. Estou buscando leitores do tipo que descrevi na dedicatória: carismáticos/pentecostais e seus oponentes mas também aqueles que aspiram pela renovação da Igreja. Onde utilizo fórmulas que possam ferir algum leitor, peço por perdão logo em seguida. Minha intenção não é ferir, mas desafiar. Escrever um livro teológico sobre tal tema controverso somente pode ser realizado na esperança de misericórdia, tanto de Deus como dos leitores.

Este livro não é uma tradução do alemão. Tentei escrevê-lo em inglês. Sou grato a Joan Pearce, minha ex-secretária de Birmingham, por ajudar-me. Outras pessoas também me ajudaram generosamente. Professores Robeck e Spittler, ambos ministros das Assembléias de Deus e do Fuller Theological Seminary, Pasadena, graciosamente me forneceram informações e freqüentemente discutiram o conteúdo deste livro. William Faupel, professor no Asbury Theological Seminary, Wilmore, Kentucky, e um de meus ex-alunos de doutorado, forneceu-me regularmente notícias da Sociedade para Estudos Pentecostais. Outros pesquisadores pentecostais me enviaram artigos e livros e me mantiveram informados sobre importantes tendências. O crédito lhes é dado onde quer que tenha usado o material que forneceram. Finalmente, quero agradecer o editor por sua paciência e encorajamento.


Krattigen, Suíça 28 de setembro de 1997

Setenta e cinco anos após a morte do fundador negro do movimento carismático/pentecostal, William J. Seymour



CAPÍTULO DOIS

Santos em Birmingham

A seguinte estória procura cobrir todos os aspectos da espiritualidade carismática/pentecostal visando fornecer uma introdução à este tipo de religião. O principal personagem (Sr. Chips) é obviamente fictício15 mas os eventos ou estão documentados ou foram observados por mim. O “culto memorial” ao final da estória era—no tempo que escrevia—desejo que fosse verdade. Desde então foi feito muito progresso.16 A estória começou como uma conferência na consulta entre o Movimento Carismático e o Conselho Mundial de Igrejas em Bossey17 e desde então foi reimpressa várias vezes.

Quando o Sr. Chips se aproximava do centro da cidade o motorista do táxi apontou para a Rotunda, uma elegante torre de três andares edificada sobre o shopping center. O tráfego ficou congestionado e o táxi parou. Chips viu as luzes azuis dos carros de polícia e das ambulâncias e ouviu suas sirenes. Um alto-falante da polícia anunciou: “Isto é uma emergência. Todos os motoristas de táxi por favor venham para a Rotunda. Precisamos urgentemente de vocês.” O motorista de táxi disse, “Desculpe!” e inclinou-se para abrir a porta do táxi. Antes que Chips percebesse o que estava acontecendo viu-se parado no asfalto no frio. Por sorte ele tivera tempo o suficiente para agarrar sua mala.


Bombas em Birmingham
Ele ficou triste por nunca ter aprendido a xingar apropriadamente. Agora, ele pensava, poderia ter usado uns poucos palavrões—mas afinal ele era um homem bem educado e um professor de gramática na escola. Ele começou a andar em direção a Rua da Nova Estação, mas um cordão policial bloqueava o caminho. Um oficial da polícia ordenava que todos deixassem a área imediatamente pois uma bomba fora lançada em bar repleto de pessoas. Quando ele olhou ao redor, pode ver as vidraças estilhaçadas. Ele afastou-se mas não sabia para onde ir. Obviamente seria impossível encontrar um táxi uma vez que todos estavam sendo utilizados para auxiliar as ambulâncias no transporte dos muitos feridos para o hospital. Ele tentou telefonar para sua amiga Shirley Delattre, uma freira francesa, para informar sua situação. Ele encontrou uma cabina telefônica e procurou pelo número de Shirley, mas uma grande explosão balançou a cabina. Chips tapos seus ouvidos com ambas as mãos. Quando saltou para fora da cabina pode ver que outra bomba explodira do outro lado da rua. Ele podia ouvir os choros e gemidos dos feridos. Metade da rua estava coberta de escombros e Chips quase não acreditou em seus olhos quando viu braços e pernas esmagados e sangrando entre estilhaços de móveis, tijolos e vidros. Ele atravessou a rua correndo e ajudou uma mulher a sair dos escombros do edifício onde explodira a bomba.

“Exatamente como na guerra, exatamente como na guerra,” ele pensou. “E nós não aprendemos nada.” Embora a mulher estivesse apenas levemente ferida, sua face fora horrivelmente cortada por cacos de vidro e ele estava coberta de sangue. Chips deu-lhe seu lenço. Então os policiais e o pessoal das ambulâncias que estavam trabalhando na limpeza do bar onde ocorrera a primeira explosão chegaram correndo para procurar por mais vítimas. Um oficial da polícia disse polida mas firmemente para Chips, “Por favor saia daqui. Pode haver outra bomba guardada para nós.” Chips olhou para ele. “É claro. Se ao menos eu soubesse para onde ir.”

De alguma forma ele encontrou um táxi, e o motorista disse-lhe que ouvira na rádio local que mais de duzentas pessoas tinham sido feridas e vinte tinham morrido. “São sempre esses irlandeses sedentos de sangue,” ele acrescentou, e balançou sua cabeça.

“Bem na hora, bem na hora,” disse Shirley Delattre, quando Chips chegou em sua casa. “Esta noite você irá comigo a uma reunião de espiritualidade na casa do Sr. Hellberg, um famoso cirurgião ortopedista.” “Espere um minuto . . . ” Chips murmurou. “Não, não há tempo para esperar nada, você pode explicar tudo no caminho.” Antes que Chips se desse conta do que estava acontecendo ele estava no “patinho feio” francês de Shirley Delattre e assim eles partiram.

Ele limpou sua garganta e disse, “Vocês carismáticos celestiais, vocês não se preocupam com nada neste mundo. Uma vez que vocês têm seu grupo religioso, nada mais interessa. O mundo poderia se despedaçar ou morrer de fome . . . ”

“Ah, está certo,” sorriu a freira francesa. “Tudo bem, meu amigo, quando chegarmos na casa de Hellberg você verá por si mesmo que este é o momento para orar e que a oração é mais importante que prantear e reclamar.”

A senhora Hellberg os recebeu pessoalmente na porta da frente e apresentou-os aos outros convidados que já haviam chegado e que estavam sentados ou em pé na enorme sala de estar. Shirley Delattre falou sobre o Sr. Hellberg para Chips: Ele era altamente conceituado por sua habilidade profissional, embora fosse considerado um pouquinho esquisito. Por exemplo, dizia-se que ele se apresentara em um banquete oficial como carpinteiro. Ele era um carpinteiro, assim ele dissera, pois consertava ossos. Ele os colocava no lugar de novo, juntava-os novamente exatamente como um marceneiro consertaria um armário antigo precioso. Em sua residência o casal Hellberg possuía um gabinete médico francês bastante antigo, fabricado no tempo de Napoleão. Chips adoraria tê-lo visto, mas não teve coragem de pedir. Afinal, ele fora convidado para uma “reunião de espiritualidade.”
Quando Jesus vem . . .

No momento, porém, a atmosfera não lhe parecia espiritual. As pessoas estavam rindo e conversando, e o que é que ele viu lá—o gerente de um banco local tinha um copo de uísque na mão. Chips o cumprimentou com um aceno de cabeça. Sim, também o filho mais velho de Hellberg estava enchendo os copos de todo mundo. Havia vinho branco, vinho tinto, uísque, cerveja e suco de laranja. Subitamente uma moça sorriu para ele e disse-lhe com um sotaque notadamente irlandês, “Boa noite, Sr. Chips. Você não me reconhece?”

Chips não conseguia reconhecê-la, até que ele percebeu que ela era a moça que limpava sua sala de aula todas as noites. De calça comprida, gorro e avental, ela parecia muito diferente. Agora pela primeira vez ele podia ver o cabelo ruivo lustroso e os olhos brilhantes dela.

“Minha irmã está comigo,” ela disse, e sorriu galhofeiramente. “Ela nunca viu um professor de gramática escolar ao vivo. Moira, venha cá!” Moira atravessou a sala e cumprimentou o Sr. Chips. “Então é assim que se parece um professor de gramática escolar,” ela disse. Embaraçado, Chips sorriu desconfortavelmente e pensou, “E é assim que se parece uma verdadeira noiva revolucionária irlandesa.” Mas, sendo um inglês, ele escondeu seus pensamentos.

Em vez disso ele falou, “Prazer em te conhecer. O que você está de fato fazendo aqui?”

“Desde o ano passado temos vindo regularmente a estas reuniões de oração,” ela respondeu. “No início, quando chegamos aqui na Inglaterra, estávamos perdidas. O clima e as pessoas pareciam muito frios. Aquele gerente de banco ali—eu limpo seu banco todas as sextas—nos convidou para virmos aqui. Ele é anglicano, mas eu sou católica. Eu resolvi perguntar ao nosso padre se deveríamos vir, e ele decidiu vir conosco e ficou atônito quando descobriu que nossos anfitriões, o casal Hellberg, são católicos também. Católicos ingleses, é claro. E, mais ainda, também encontramos aqui um grande número de freiras e monges de diferentes ordens. Eu gosto daqui.”

Parecia que ninguém ouvira falar das bombas no centro da cidade. Todos estavam contentes—irlandeses e ingleses, católicos e protestantes.

A senhora Hellberg pegou seu violão que estava pendurado na parede e começou a cantar alguns cânticos simples e curtos que o Sr. Chips nunca ouvira antes. “Espírito do Deus vivo” era um deles; outro era a estória de um homem—

Que estava sentado sozinho mendigando na beira da estrada. Seus olhos estavam cegos, a luz ele não podia ver. Ele agarrava seus trapos e tiritava nas sombras. Então Jesus veio e ordenou que suas trevas desaparecessem. Quando Jesus vem o poder do tentador é destruído, Quando Jesus vem as lágrimas são enxugadas. Ele acaba com a tristeza e enche a vida com glória Pois tudo é modificado quando Jesus vem para ficar.18
Todos cantaram o refrão, “Quando Jesus vem . . . ” As duas jovens irlandesas haviam tirado seus violões das caixas e também estavam tocando, enquanto um jovem negro acompanhava o cântico produzindo um baixo obstinato original com seu trombone.

O Hippie de Atenas

Então a senhora Hellberg começou a recitar um tipo de litania. Pareceu muito católica aos ouvidos do Sr. Chips, e contudo não era católica da maneira que ele esperava que fosse. A invocação dos santos começou com o “noivo da pobreza, nosso irmão Francisco, seguidor de Jesus e amigo da criação.” Ela incluiu Gandhi, “apóstolo da não-violência, vergonha para as igrejas”; “bom papa João, amigo dos pobres, que almejou a unidade de todos os povos”; Atenágoras, “patriarca do amor” e Simão Kimbangu, “profeta e prisioneiro da esperança”; os “pacificadores,” Dag Hammerskjold e Albert Luthuli, Gautama Buda, “máscara de Cristo” e “fonte de compaixão”; João de Patmos, “visionário e apóstolo, que resistiu à Besta Mundial”; Dante, Bunyan e Isaac Watts, “visionários e poetas, peregrinos da luz interior; Maria Madalena, “prostituta fiel, primeira testemunha da nova vida”; Bach, Mozart e Beethoven, “que falam a linguagem da alma”; Darwin e Teilhard de Chardin, “estudantes da terra, viajantes no passado e no futuro”; Einstein, Marx e Freud, “filhos da sinagoga”; Menno Simmons e George Fox, “exploradores do evangelho, generais na guerra do Cordeiro,” e muitos outros que Chips não conhecia. Também foram inclusas as vítimas inocentes de Coventry, Dresden e Hiroshima e as mais recentes em Londonderry, Belfast e Birmingham. (“Então, eles tinham ouvido falar das bombas?” Chips perguntou a si mesmo.) Sócrates foi chamado “o hippie de Atenas,” o que deixou o Sr. Chips bastante espantado pois, afinal, ele era um homem instruído.19

A senhora Hellberg continuou, lembrando a “mãe solteira, bem-aventurada Maria, fonte de nossa libertação.” A litania culminou no louvor de “nosso herói e líder, Jesus, trabalhador manual, raiz de nossa dignidade, o profeta que resistiu às autoridades estabelecidas, o Libertador, o rei pois primeiro foi servo, o poeta que nos deu uma nova linguagem, Jesus, o Filho de Deus, a brilhante pedra de esquina de nossa unidade em um novo Espírito.”

Chips ficou profundamente surpreso com esta teologia intercultural. A reunião de oração prosseguiu. Sem embaraço eles oraram por problemas pessoais, por enfermidades, filhos, seus trabalhos, a escola (aqui Chips suspirou levemente), as igrejas, seus filhos no exército britânico e seus filhos no exército republicano irlandês. Oravam várias vezes ao Espírito Santo.

“Vem, Santo Espírito!” eles cantavam.

Um homem, que Chips não conhecia, orou em línguas. Chips virou sua cabeça para poder ouvir melhor, mas não pode entender uma palavra. Após a mensagem em línguas—silêncio. Uma das jovens irlandesas interpretou. “Como ela pode fazer isso?” Chips se perguntou. O inglês dela era simples e quase sem erros, coisa que Chips observou com satisfação. No mínimo essas reuniões de oração eram proveitosas para o cultivo da língua inglesa.

Chips manteve seus olhos abertos. Algo fez seu nariz coçar. O padre católico sentado no chão ao seu lado estava fumando um cachimbo vagarosamente. “Bem,” pensou Chips, “isto aqui é uma festa ou uma reunião de oração?”


Festa ou Reunião de Oração?
A senhora Hellberg passou a liderar a pequena comunidade em um coro e então perguntou: “Alguém quer ler uma passagem bíblica ou fazer alguma pergunta?”

Chips gostaria de ter feito sua questão, “festa ou reunião de oração?” mas então uma mulher, alguém que chegara atrasada e que ele até então não tinha notado, levantou-se. Ela tentava falar mas não conseguia pois suas palavras eram cortadas por crises de choro violento. Chips sentiu-se bastante desconfortável, mas claramente ele foi o único que se sentiu assim. Por fim a mulher começou a falar.

“Eu acabei de perder meu irmão e meu marido,” ela balbuciou. “Foram explodidos em pedaços por uma bomba irlandesa.” Silêncio. “Sou protestante e gostaria que um católico e um protestante orassem juntos para que a amargura que estou sentindo em meu coração não crie raízes. Por favor, ajudem-me a crer em Deus e a amar seus filhos.” Ela caiu de joelhos e se desmanchou em lágrimas.

O padre católico deu um passo adiante. “Qual dos protestantes irá orar comigo?” ele perguntou. Shirley Delattre cutucou Chips, mas ele não quis ser parte dessa cena de terapia em grupo pública. “Não,” ele cochichou. Felizmente o Sr. Thoroughgood, um professor que ele conhecia de nome, se voluntariou. O que eles oraram, Chips esqueceu imediatamente, pois não conseguia entender como é que um católico e um protestante poderiam nessa situação orarem juntos por paz e reconciliação.20 Eles devem estar sofrendo de algum tipo de maluquice religiosa, ele disse a si mesmo. Então eles cantaram juntos a Oração do Senhor e muitos dos convidados foram para casa. Chips quis se despedir do Sr. Hellberg e partir, mas não conseguiu encontrá-lo. A senhora Hellberg explicou que durante a reunião seu marido fora chamado por um paciente, mas agora ele estava na cozinha tomando café. Chips bateu na porta e entrou. O Sr. Hellberg estava sentado à mesa da cozinha, com a cabeça entre as mãos. O café de sua xícara estava frio. Chips fez menção de pedir desculpas e sair, mas o doutor disse, “Entre. Entre e sente-se. Meu café está frio. Vamos fazer um pouco de café fresco.”

Chips não disse nada e sentou-se.

“Tem algo muito errado com o Pedrinho,” o doutor prosseguiu, expressando seus pensamentos em voz alta. “Tem algo muito errado e eu falhei em algum lugar. É verdade que ‘quando Jesus vem o poder do tentador é destruído.’ Fiz meu trabalho e também orei. Mas a perna do Pedrinho não está bem. E, em primeiro lugar, por quê ela foi ferida? Pedrinho não é um político, é apenas um estudante. Por quê é que ele foi ferido? Agora ele nunca mais poderá andar normalmente de novo. Quem é que não trabalhou direito aqui, eu ou Jesus, ou nós dois?”

Chips sentiu-se bastante desconfortável. Ele nunca esperava ouvir o famoso doutor falar dessa maneira. A senhora Hellberg entrou e sentou-se junto deles à mesa em silêncio, pois nada havia para dizer. Sem jeito, Chips colocou sua mão no bolso e tirou um folheto que alguém havia lhe dado naquela noite. Ele leu:

Se você desprender sua fé hoje você poderá levar o céu para casa com você.

Se haverá cura para o corpo no céu, há cura aqui no mundo agora.21

Uma tolice, Chips pensou, e decidiu colocar o folheto de volta no bolso.

Então ele percebeu que o doutor continuava a olhar para ele esperando por uma resposta. “Não posso responder sua questão,” Chips disse abruptamente. “Mas uma coisa posso lhe dizer. O que você me falou esta noite é mais importante para mim do que toda a reunião de espiritualidade. Eu também tenho minhas dificuldades, mas que um famoso doutor como o senhor tenha suas dúvidas, isto foi para mim uma visitação do Espírito Santo.”

No seu caminho para casa o Sr. Chips cantarolou em silêncio para si mesmo, “Quando Jesus vem o poder do tentador é destruído.” Mas ele estava levemente irritado com o cântico. Este não era um pouco simples demais?

O Culto em Memória

No domingo seguinte foi realizado na catedral um grande culto em memória e lembrança patrocinado pelo conselho de igrejas de Birmingham. Para não ofender nem protestantes nem católicos, decidiu-se que John Adegoke, líder de uma igreja cristã negra, deveria presidir. No mínimo a metade da nave estava cheia de negros que tinham vindo para lamentar e orar com a congregação branca.

Uma longa procissão encheu a igreja: primeiro um grande coro negro, seguido pelo coro e pelos cônegos da catedral; depois o reitor da universidade; atrás dele o arcebispo católico e o bispo anglicano; atrás deles o chefe dos atendentes da British Leyland e o prefeito conservador da cidade; e finalmente John Adegoke, Apóstolo Sênior da Sociedade Serafim e Querubim.

Um jovem negro abriu o culto com um cântico. Ele cantou acompanhado por uma bateria de tambores e o órgão da catedral.

“Quando o Espírito Santo enche o seu ser você pode sorrir Quando você sente como o batista . . . ” e aí ele interrompeu sua canção e comentou: “Vocês sabem, meus irmãos e minhas irmãs, João Batista, aquele que teve que comer gafanhotos e mel silvestre. Quando vocês sentem como o Batista . . . ” E a maioria da congregação—embora os dois bispos tenham ficado de fora—o acompanhou: “Você pode sorrir.”

“Quando o seu coração está cheio de pesar você pode sorrir.”

O coro negro, vestido com longas becas brilhantes, entoou o refrão. “Você pode sorrir.” Os tambores seguiram o ritmo, no início bem suavemente: “Você pode, você pode, sim, você pode sorrir.” O coro acompanhou com harmonia total e numa grande síncope. E os percussionistas fizeram suas baquetas dançarem sobre os tambores. “Vocês podem sorrir.” O solista cantou o próximo verso: “Quando eles atiram bombas em você” E aqui ele não foi capaz de entoar “Você pode sorrir.” Apenas os percussionistas mantiveram o ritmo e a congregação permaneceu em silêncio. “Quando eles miram você porque você é negro você pode sorrir.” “Aleluia, você pode sorrir.” O coro começou a se mover e, com passadas pequenas, rítmicas, as pessoas do coro dançaram desde a galeria até a nave da igreja. Muitos dentre a congregação se levantaram e cantaram repetidamente, “Sim, Senhor, você pode sorrir. “Quando a Frente Nacional atira pedras em você você pode sorrir. Quando as pessoas do Poder Negro chamam você de covarde você pode sorrir.” John Adegoke pôs-se de pé. “No nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo.” Os coros e a congregação responderam, “Amém.”

“Aqui na catedral de Birmingham nós todos nos reunimos como irmãos e irmãs, membros do corpo de Cristo. Nós saudamos o bispo anglicano, o arcebispo católico romano. Saudamos os cristãos católicos e protestantes.”

“E agora com os anjos e arcanjos e toda a gloriosa companhia dos céus, os santos do passado da Europa e da África, incluindo aqueles santos que morreram nesta semana, nós louvamos e magnificamos Teu nome.”

“Amém,” cantou os coros novamente. “Que eles descansem em paz,” disse o Apóstolo Sênior.

O coro negro cantou outro hino. Foi um daqueles espirituais famosos sobre a libertação final de todos os povos. Aparentemente era um hino sobre o céu. “Estou prestes a me livrar de meu fardo pesado.” Chips conhecia bem esse espiritual. Estava presente no oratório de Michael Tippett intitulado “Filho de Nossa Época”. Sua esposa tinha cantado este espiritual para ele muitas vezes.

“Do que, meus irmãos e irmãs, nós estamos prestes a nos livrar?” perguntou um dos cantores. E em completa harmonia o coro e a congregação respondeu, “estou prestes a me livrar de meu fardo pesado.”

Uma anciã negra cantou o próximo verso. Ela não cantou apenas com sua boca, a qual ela podia abrir de forma incrivelmente larga. Tudo nela cantava—os quadris bem reforçados, as pernas grossas, os braços fortes. Até os peitos grandes, balançando, cantavam de acordo com o ritmo do hino: “Sei que minhas vestes me servirão bem. Eu as provei nas portas do inferno.”

E novamente a congregação em uníssono: “Estou prestes a me livrar de meu fardo pesado.”

Chips nada podia fazer a não ser pensar na guerra civil que estava despedaçando seu país, guerra entre católicos e protestantes, entre irlandeses e ingleses, entre a esquerda e a direita. Espontaneamente ele orou: “Venha a nós o teu reino.”

Quando o hino terminou, John Adegoke saudou os poucos alemães luteranos que também estavam entre a congregação. “Vocês sabem, Martinho Lutero, o grande herói da fé, é o pai da igreja deles,” ele explicou, pois tinha aprendido algo sobre Lutero no curso de teologia que a Universidade de Birmingham iniciara para líderes das igrejas negras. Para grande espanto de Chips, a congregação—primeiro os negros e depois os brancos—irromperam no hino: “Nós venceremos . . . ”

Chips perguntou-se se eles não estavam confundindo Martinho Lutero com Martin Luther King. Talvez os dois fossem um e a mesma pessoa para eles. Parece que a dimensão temporal não existe para os cristãos negros. Proximidade para eles não é nem temporal nem espacial. O que os move é o que está perto.

“Sim, minha boa gente,” o arcebispo católico retomou o tema, “devemos nos admirar, admirar e maravilhar, quando vencermos, quando todos triunfarmos sobre nosso próprio egoísmo, quando todos os santos entrarem marchando na cidade de ruas de ouro . . . ” Ele tinha acabado de terminar quando o trombone começou a tocar—era o mesmo trombonista que Chips vira na residência do casal Hellberg. O trombone tocava: “Oh, quando os santos . . . ” A música agora vinha de todos os lados em um grande número de variações. “Oh, quando os santos, oh, quando os santos, oh, quando os santos chegarem marchando.” E o coro e alguns membros da congregação se levantaram e dançaram e marcharam pela igreja.

Então o arcebispo católico disse em voz alta. “Amém” e todos ficaram quietos novamente.

“Amigos,” agora foi a vez do bispo anglicano pregar. “Amigos,” ele disse, “quando os santos entrarem marchando na nova Jerusalém, vocês pensam que haverá santos católicos, santos luteranos, santos anglicanos, santos pentecostais?”

“Não, não,” gritaram os cristãos negros e os cristãos brancos olharam ao redor. O bispo anglicano estava bastante surpreso—os bispos sempre ficam bastante surpresos quando o povo de Deus responde suas questões retóricas—mas ele prosseguiu. “Haverá santos negros e santos brancos, santos irlandeses e santos ingleses?”

E a congregação gritou novamente “Não, não,” e desta vez vários ingleses e irlandeses também gritaram.

“Não,” o pregador prosseguiu. “Não, haverá apenas santos. Santos que dedicaram suas vidas a Cristo. Mas alguns de nós se admirarão. No céu nos admiraremos mais ainda do que aqui. Vocês sabem, no céu ficará claro, na verdade muito claro, o que nós adoramos. Se adoramos Jesus, o trabalhador manual, Jesus nosso salvador, ou se adoramos nossos próprios temores e nossos próprios preconceitos. Sim, ficará claro se adoramos nossa própria raça, nosso dinheiro, nossa igreja, nossa cultura e nossa tradição, ou se adoramos Jesus. Eu não ficarei nem um pouco surpreso se, no dia do juízo, todas as pessoas brancas forem confrontadas por um Jesus negro . . . ” O pregador fez uma pausa. Houve um silêncio mortal na igreja.

O bispo continuou. “Sim, eu não ficarei nem um pouco surpreso se todas as pessoas brancas forem confrontadas por um Jesus negro, e todas as pessoas negras por um Jesus branco. Amém.”

John Adegoke agradeceu aos dois pregadores e acrescentou, “Eu não ficarei nem um pouco surpreso se, no dia do juízo final, todos os irlandeses forem confrontados por um Jesus inglês, e todos os ingleses por um Jesus irlandês. Vamos orar.”

A oração foi em silêncio. Ninguém disse uma palavra. Foram ouvidos apenas alguns poucos suspiros e algum choro. Após a oração o coro da catedral entoou um de seus lindos hinos tradicionais.

“Vamos confessar nossos pecados,” disse John Adegoke. O prefeito, o chefe dos atendentes da British Leyland e uma mulher negra vieram a frente. Eles oraram um por vez, e nos intervalos o coro entoou “Senhor tem misericórdia.” “Nós buscamos primeiro vencer as eleições e não o bem das pessoas.” “Senhor tem misericórdia” “Nós buscamos primeiro coagir as pessoas em sindicatos e não buscamos o bem delas” “Senhor tem misericórdia” “Pensamos que nossa gente queria dinheiro em primeiro lugar e não percebemos que o que eles queriam era honestidade.” “Senhor tem misericórdia” “Nos comportamos como as igrejas. Acreditamos que nós, os vigários dos sindicatos,acreditamos que nós, os eruditos dos partidos, sabíamos melhor o que era bom para o povo.” “Senhor tem misericórdia” “E agora que nosso país está em ruínas nossos jovens riem de nós nossos vizinhos meneiam suas cabeças nos achegamos a Ti humildemente, Ó Senhor, e suplicamos a Ti, ajuda-nos a nos tornarmos humanos, humanos em nossas negociações industriais, humanos em nossas táticas políticas.”
“Senhor tem misericórdia.”

Após um longo silêncio, o reitor da universidade proferiu os anúncios finais. Ele disse, “Deixem me fazer uma pergunta que me espanta. Embora eu seja cristão, não compreendo por que é que nós conseguimos prantear juntos mas não conseguimos agir juntos. Por quê é que conseguimos cantar juntos mas não conseguimos celebrar a eucaristia juntos? Vocês me prometem que pensarão nisto? É uma questão simples de um leigo.”

Com esta “bênção” a congregação foi liberada e Chips refletiu: Uma questão simples de um leigo, certamente, mas uma questão muito importante.

Este foi o início de um profundo processo de reavaliação por parte dos cristãos em Birmingham. Eles somaram seus recursos espirituais e intelectuais—e ocasionalmente até mesmo seus recursos financeiros—e demonstraram que os cristãos são diferentes.

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