Uma contribuição para a história da infância: festejos comemorativos da criança



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uma contribuição para a história da infância:

festejos comemorativos da criança

Cyntia Greive Veiga (UFMG)

Maria Cristina Soares de Gouvea
Entre o século XIX e início do século XX, diferentes saberes oriundos dos campos antropológico, médico, jurídico, pedagógico e psicológico voltaram-se a discussão da identidade do brasileiro. No esforço de compreender a nação, destacou-se a importância da infância como componente do ideal de civilização, ao mesmo tempo que, a partir dos diferentes campos científicos, buscou-se constituir também, uma identidade para a criança brasileira.

Esta comunicação pretende tratar dos processos múltiplos de formação desta identidade a partir de atividades que envolveram a comemoração da infância brasileira, particularmente em Belo Horizonte. Tal pesquisa tomou como fonte os jornais da capital mineira, analisando o período entre as décadas de 20 e 40 do século XX, quando tais comemorações se consolidam. Nos desdobramentos dos eventos comemorativos, houve o estabelecimento de lugares bem demarcados, onde infância e criança possuíram entre si relações diversificadas (PILLOTI, 1995:p. 25). O termo infância, aqui tomado como uma categoria que diferencia outras etapas da vida, assumiu também nos discursos científicos, uma ênfase de tratamento diverso do restante da população, constituindo-se como componente da dinâmica social. Os termos assistência, proteção e cuidado de infância, tão comuns na época, construíram para esta geração uma centralidade segundo a qual dela dependeria o futuro da raça e da nação brasileira. Já em relação à criança, o enfoque esteve mesmo na conformação de seu desenvolvimento físico-mental único, adquirindo uma multiplicidade de identidades - criança pobre, criança robusta, criança retardada, menor abandonado. A esses adjetivos que categorizavam o tipo de criança, associaram-se também diferentes condições de infância, condições essas que a ciência pretendeu normatizar e, por isso, comemorar.

Nos festejos da criança em Belo Horizonte, destacamos movimentos distintos, que nos propomos analisar. Um primeiro se refere à comemoração do dia da criança, instituída nacionalmente em 12 de outubro de 1924 e que esteve fortemente relacionada à escola, sendo dirigida basicamente aos(as) escolares. Outro, diz respeito à comemoração da criança pobre, particularmente nas festas de Natal, onde a filantropia esteve fortemente presente, mobilizando diferentes setores da sociedade. O terceiro movimento relacionou-se aos concursos de robustez infantil, iniciados em Belo Horizonte a partir de 1935, sendo este um certame que envolvia toda a cidade, na intenção de comemorar a infancia eugênica.

Temos que, mais do que comemorar a infância, buscou-se comemorar as ciências, sendo as crianças tomadas como objetos psico-médico-biológicos, passíveis de serem medidas, testadas e denominadas normais ou anormais. No objetivo de perseguir o ideal de uma nação civilizada, as representações de criança projetaram a concepção de infância, como utopia de um novo mundo adulto a ser estabelecido.



Dia da criança que estuda

O dia da criança no Brasil foi oficializado através do decreto federal n.4.867 (05/11/1924) para ser comemorado a cada 12 de outubro, havendo uma explícita associação com a comemoração da descoberta da América. Kuhlmann Jr. (1998) observa que a eleição deste dia ocorreu em 1922 no encerramento do 3o Congresso Americano da Criança, realizado juntamente com o 1o Congresso Brasileiro de Proteção à Infância no Rio de Janeiro.

Em Belo Horizonte, pudemos observar formas diferenciadas de festejar o dia da criança. Na década de 20, a festa foi predominantemente escolar, sendo que, na década seguinte, a comemoração se fez de forma mais extensiva, ao ser estabelecida a Semana da Criança,pelo Rotary Club, com eventos mais ampliados, bem como a Semana da Criança de Belo Horizonte, instituída pelo prefeito, mas a ser comemorada em julho, como veremos adiante.

A festa da criança, enquanto festa cívica escolar, possuiu uma notória peculiaridade, uma vez que dava visibilidade à escola, instituição normatizadora e disciplinadora da infância. Os eventos tiveram uma ampla divulgação pelos jornais da cidade demonstrando a necessidade de publicizar os acontecimentos, além de associarem-se a outras possibilidades de comemoração.

Em primeiro lugar, como dissemos, o dia da criança esteve vinculado ao dia do descobrimento da América. Em artigo de jornal, a relação é evidente.

Os sentimentos de entusiasmo de que somos possuídos pelo heróico feito de Colombo, associam-se à inocente alegria que invade os nossos corações, ao festejarmos o Dia da Criança. Festejar a infância é cultivar a pátria, pois é lembrar da educação e do futuro destas pequeninas criaturas, cujas almas, em flor, prometem a explendida seara da geração vindoura1.

Em outros artigos estabeeceram-se comparações entre o que fora a América dos tempos de seu descobrimento, o continente criança, cheio de esperanças e promessas, com a imagem de uma infância na qual também se depositavam todas as esperanças do futuro.

Pelo discurso jornalístico, o dia da criança deveria inspirar a celebração de outros sujeitos, tais como a família e a professora, bem como os espaços, a própria pátria, o lar e a escola.

O dia de hoje, pois - dia da América e da criança - é o dia da escola; é o dia do lar, é sobretudo o dia dos patriotas, que tem muito a esperar da infância brasileira, em cujos coraçõeszinhos palpita, viva e forte a imagem de Pátria2

No ano de 1925, o Minas Gerais lembrava que, tendo a festa da criança como teatro a escola, abençoada pelas professoras, era portanto evidente que



Sendo o dia das crianças, o é também o dos que modesta e obscuramente se consagram na nobre missão de ensinar3

Observa-se nas festas toda uma performance da educação estético-cívica tão disseminada pelo movimento de escola nova, no claro intuito de combinar o despertar das sensibilidades através da educação dos sentidos, com o sentimento de solidariedade nacional (Veiga, 2000). Produzia-se para isso todo um ritual que ia da preparação à apresentação, tendo a festa neste contexto pedagógico, um significado de educação integral e permanente. Estes momentos estiveram contidos numa perspectiva energética de mobilização em torno da necessidade do convencimento de que as pessoas, no caso, as crianças, eram atores do novo espetáculo - a República.

Analisando as atividades das festas realizadas nos grupos escolares e na escola infantil, observou-se que elas possuíam uma forma que não variava muito de escola para escola. Sua estrutura básica compunha-se da formatura dos alunos, marcha, canto dos hinos nacional, saudação de alguma professora ou autoridade, poesias, cantos, bailados (inclusive o minueto), demonstração de jogos e ginástica, desfile de encerramento e distribuição de balas. Em 1929, registrou-se ainda, procissão, missa e primeira comunhão de 500 crianças do Grupo Escolar Francisco Sales.

A partir da década de 30, o Rotary Club instituiu, em 1935, a Semana da Criança4 Como dissemos, este evento, que não substituiu as festas escolares, teve um caráter mais abrangente, envolvendo outros setores da sociedade, e com fortes tendências eugênicas. Na sessão de anúncio do evento, o então presidente do Rotary informa que as atividades da semana estavam sendo elaboradas em parceria com a Associação Escoteira de Belo Horizonte. É impressionante o número e o tipo de pessoas envolvidas na organização desta semana, entre elas, o secretário da educação, médicos, juristas, diretores de grupos escolares e do Instituto João Pinheiro, jornalistas e o prefeito da cidade.

A programação era extensa, realizada através de conferências, com temas definidos para endereços diferenciados, contendo assuntos diversos, como o trabalho, a saúde e a pátria. Como exemplo, transcrevemos os temas das conferências de cada dia: Dia da Amizade e da Solidariedade (24/10), para crianças do Abrigo de Menores, da Escola de Regeneração Alfredo Pinto e Instituto Pestalozzi5; Dia do Trabalho (25/10), visita das crianças das instituições acima a estabelecimentos industriais, oficinas, etc...; Dia da Agricultura (26/10), para o Instituto João Pinheiro6; Dia de Belo Horizonte (27/10), exposição da máquina Mariquinhas, utilizada na construção da cidade, a ser vista por toda a população; Dia da Saúde (28/10), conferência para os alunos dos grupos escolares; Dia da Tradição e da Pátria (29/10), excursão dos alunos dos grupos escolares à cidade de Sabará; Dia da Paz (30/10), tema a ser abordado em todos os estabelecimentos de ensino.

Os temas e os sujeitos ouvintes definiam claramente uma múltipla identidade na representação da criança brasileira. Neste sentido, foi marcante a diferenciação de suas funções na sociedade, mesmo porque, desde já, enquanto algumas foram visitar fábricas, outras foram passear em Sabará, para o culto à tradição.

Ainda a título de exemplo, destacou-se para a Semana da Criança de 19387, recomendações não do Rotary, mas do Departamento Nacional de Saúde e Divisão de Amparo à Maternidade e à Infância. O objetivo das comemorações deste ano era despertar a atenção para o amparo à infância, com palestras proferidas por médicos (obstetras e pediatras) e educadores, e cujos temas eram dirigidos às mães de famílias e mulheres em geral: pré-natal, alimentação da gestante, amamentação natural, higiene do lar, entre outros.

Na tematização da comemoração do dia da criança que estudava ou que estava inserida em algum espaço de escolarização, observamos uma nítida institucionalização da infância e das famílias. O Estado, amparado pelos saberes científicos e através das elites intelectuais e políticas, advogava para si o poder pedagógico sobre a educação/formação da população, tornando os sujeitos sociais meros coadjuvantes deste processo.

A pedagogização da infância e das famílias, presente nos ritos de comemoração da criança e em outras manifestações relacionadas aos processos escolarizados, contribuíram para a constituição de paradigmas de atitudes que marcaram a sociedade brasileira desta época. Na produção de uma identidade marcada pelo ideal de criança civilizada com hábitos e valores homogeneizados, revelou para muitas crianças a sensação de fracasso social e cultural, por não pertencerem ao conjunto das crianças para a qual se comemorava o dia.

A comemoração do dia da criança pobre


De acordo com Geremek8, os sentimentos inspirados pela pobreza dos indivíduos, variaram ao longo da história entre repulsa e compaixão, interferindo também nos tipos de atitudes das elites em relação aos pobres.

No caso específico da criança pobre brasileira, podemos perceber diferentes olhares sobre ela. Pode ter sido a enjeitada da roda, a abandonada, a infratora9. Já em pesquisa sobre meninos recolhidos em instituições para menores em Minas Gerais (Veiga e Faria Filho, 2000), pode-se observar uma predominância quase total de crianças pobres e, em média, dependendo da instituição, sem famílias. Entretanto, todas elas estavam nas instituições pelo fato das famílias, no caso de tê-las, não possuírem condições de cuidar de suas crianças. Curiosamente, na legislação e no discurso científico estas não são designadas como crianças pobres, pois possuíam outros adjetivos, delinquentes, menores, abandonadas.

Portanto, de quais crianças pobres estamos falando e em que momento ela é rememorada, comemorada? Em análise do Jornal Minas Gerais dos anos 1914 a 194010, detectamos esta criança como aquela proveniente de lares humildes.Destacamos que o momento de sua comemoração, o Natal, é marcadamente diferenciado das festas do dia da criança, pois o apelo é o do assistencialismo, onde a filantropia leiga e as instituições de caridade constroem sua visibilidade e marcam seu lugar social na cidade de Belo Horizonte. Por outro lado, também eram bastante diferenciadas das comemorações de Natal destinadas às crianças abastadas e filhas de trabalhadores qualificados, cujos eventos eram de outra natureza.

Dessa maneira, o que nos autoriza dizer do ato comemorativo da criança pobre por época do Natal, está na maneira diferenciada como é conduzida. Era um movimento da cidade e dos representantes da mais nobre sociedade, mas evidentemente não era destinado a crianças da boa família, como no caso dos concursos de robustez infantil a serem analisados. Por outro lado, não eram ações dirigidas aos escolares e com iniciativa do Estado (embora pudesse haver a sua participação), como no caso do dia da criança. O Natal, era o dia da mais alta significação para o assistencialismo, era também o dia clímax de se celebrar a filantropia e as ações de caridade.

As festas de Natal para crianças pobres, de acordo com os registros, tiveram seu início na cidade de Belo Horizonte a partir de 1913, sugerido pelo Jornal A Capital. Observa-se nos jornais dos meses de dezembro colunas específicas com esta titulação, descrevendo as atividades e os sujeitos nelas envolvidos. Para análise deste tema destacaremos alguns pontos, como a disseminação das práticas filantrópicas, a necessidade de dar-lhes visibilidade e a forte presença dos escoteiros na organização das festas, fundamentalmente na década de 30.

Geremek observa que, tanto o discurso filantrópico, presente desde o século XIX, quanto a doutrina cristã, encaravam o problema da pobreza como algo degradante da existência humana, o que ensejou atitudes de piedade e caridade. No caso dos movimentos filantrópicos, uma das suas características era a de não analisar os motivos geradores da condição de vida das populações pobres, mas apenas o fato de estarem em desvantagem com relação a outros grupos sociais, vivendo em circunstâncias piores dos que as reconhecidas socialmente. Ainda segundo o autor, a filantropia fundamentou-se na beneficiência individual e na idéia de que a ajuda aos pobres deveria vir da iniciativa dos particulares. É uma atividade que se pretendia estar inspirada por motivações mais elevadas do que as que movem a assistência público estatal. Tratava-se da laicização do mandamento do amor ao próximo, ao mesmo tempo em que se buscou o estabelecimento de uma coexistência entre particulares e Estado no controle da felicidade social, por isso atuando como ação meramente paliativa.

Em Belo Horizonte, as iniciativas dos filantropos no socorro à criança pobre desencadearam as mais diferentes ações. Participaram delas senhoras e senhoritas da sociedade, o Estado, empresas particulares, os escoteiros, provocando ainda uma ação mais enérgica das instituições religiosas. Na busca de dar visibilidade às ações de beneficiência todos eram concorrentes, principalmente no especial momento de Natal. De acordo com matéria do jornal, a data era em todo mundo civilizado, a comemoração do dia supremo de igualdade, altruísmo e amor11.

Na década de 10 até início da de 30, ocorreram atividades diferenciadas como matinés infantis grátis para crianças pobres da capital, oferecidas pela Empresa Gomes Nogueira, nos diferentes cinemas da cidade. Houveram também festas e distribuição de balas e brinquedos promovidas pela Associação de Damas de Assistência à Infância, Loja Maçônica, Instituto de Proteção e Assistência à Infância, Hospital São Vicente de Paula e Orfanato Santo Antônio, num interessante esquema de distribuição de senhas, onde aos portadores era garantido o direito à festa e às prendas.

A partir de 1932, os escoteiros roubaram a cena, sendo eles os organizadores do Natal das crianças pobres:



(...) embebidos nos mais puros sentimentos de filantropia, num movimento que define bem, pela sua finalidade, a bela formação moral dos pequenos soldados de Baden Powell. Irão preparar um Natal festivo para as crianças pobres, que a fortuna largou à margem, contemplando, tristemente admirados, a alegria despreocupada dos meninos ricos.12

Ocupando no jornal muitas páginas em vários dias, o movimento foi noticiado dando informes sobre uma organização detalhada para arrecadação de donativos nos estabelecimentos comerciais da cidade, e junto às pessoas individualmente. Dentro dos limites filantrópicos de soluções remendativas, a ação foi anunciada como de alcance humanitário, no objetivo de levar às crianças esquecidas da sorte o conforto moral e material que lhes faltou durante todo o ano.13

Já bastante reconhecidas na cidade, as atividades escoteiras tinham o apreço da população, o que foi ainda mais ratificado na organização dos natais das crianças pobres. Segundo os jornais, este gesto era o cumprimento do terceiro artigo da Lei escoteira, a ajuda ao próximo, neste caso um próximo especial – a criança.

(...) nada mais profundamente doloroso do que sentir a mão injusta do destino na partilha de felicidade na infância.14

Para comemorar o feliz Natal da criança pobre de Belo Horizonte, foram publicadas no jornal várias listas de donativos, dinheiro e nomes de pessoas participantes e colaboradoras, sendo que de ano para ano, as listas eram mais extensas, observando-se também estruturas organizativas mais complexas. No ano de 1933, o Minas Gerais registrava a expectativa das crianças, a sorrir pelo menos naquele dia, esperando os presentes.



Cada pessoa que apresentava um cartão fornecido dias atrás, recebia um embrulho onde havia prendas úteis para a família e um brinquedo para cada criança da mesma família, além de balas postas dentro de artísticos saquinhos. Este embrulho era feito num grande lenço de chita.15

Apesar de sabermos da longa permanência da imagem negativa em relação à pobreza, a criança pobre, em época de Natal, tinha em sua existência, um aspecto positivo, pois possibilitaria aos outros expor os seus sentimentos de compaixão. Ainda segundo Geremek,



(...) a atividade filantrópica, traduzindo o desejo humanitário de socorrer outrem, permite que o benfeitor mostre a sua riqueza e afirme publicamente o seu prestígio social16.

Chamou-nos a atenção a relação de donativos e nela a possibilidade de se pensar a própria representação por parte das pessoas de posses do significado de carência material ou, ainda, do que os pobres deveriam ser merecedores. Ocorreu-nos a possibilidade de se problematizar se as arrecadações feitas na cidade para o Natal das crianças pobres eram doações de vulto ou estavam mais para esmolas. Como exemplo, na lista de donativos de 1932, em termos de quantias em dinheiro, a maior era de 20$000, doada pela empresa The Rio de Janeiro Flour Mills and Granaries Limited, havendo um grande número de doações que ficavam na faixa de 1$000 a 5$000, tanto de empresas como de particulares. No jornal de 23/12/1933, pudemos averiguar alguns preços de alimentos no Mercado Municipal. Por exemplo, canjica, quilo $500; galinha, dúzia de 30$000 a 35$000; goiabada, quilo de 1$800 a 2$000; lingüiça, quilo de 3$000 a 3$500; feijão mulatinho, saca de 23$000 a 26$000, etc... Embora não seja o lugar de aprofundarmos na questão do consumo alimentar da população, mesmo sabendo que o salário de uma professora, por exemplo, era de 83$333 mensais, pareceu-nos quantias muito baixas de doação.

Em relação aos donativos em espécie, dado o porte das lojas e firmas, também impressionou-nos os tipos e as quantidades arrecadadas, por exemplo, 1 lata de doce e 1 de sardinha,1 sabão, 1 lata de pessegada,1 bola, 1sabonete, 2 queijos, 1 chapéu de palha, 1 brinquedo, etc...17

Estes tipos de doações contrastavam muito com as premiações dos concursos de robustez infantil, como analisaremos adiante. Por exemplo, em julho de 1937, o jornal Estado de Minas do dia 24, registra prêmios como medalhas de ouro, copos de prata, bilhete de 200 contos, corte de casemira, riquíssimo terno drapeado de seda, finíssimo par de sapatos, riquíssimo vestido, chá para crianças participantes do evento, produtos Nestlé, freqüência à piscina do Clube América por um ano, além de várias lojas oferecerem brinquedos.Nossa impressão de que as doações para crianças pobres estavam mais para esmolas, e era dessa forma que deveriam se configurar, por vezes se confirmam.

A comemoração do dia da criança pobre revelava nas diferentes ações os lugares diversificados dos sujeitos da sociedade. Dessa forma, o momento do Natal, na celebração da pobreza, reafirmava os destinos e as identidades diferenciadas das crianças, num contexto aparentemente natural da hierarquia social.

A infância desprotegida vai ter, assim, graças ao movimento em boa hora iniciado pelos escoteiros e apoiado pela nossa população, um Natal em que, recebendo roupas, mantimentos e brinquedos, esquecerá, por momentos, a adversidade da sorte e ter a ilusão de que a vida é boa para todos.18

Festa do corpo- espetáculo da raça:

Uma outra ação voltada para comemorar a infância nas primeiras décadas do período republicano em Belo Horizonte, foi a promoção do concurso de robustez e beleza, evento que já ocorria no Brasil desde o início do século. Para analisar tal comemoração na capital mineira tomaremos como foco a instituição da Semana da Criança belohorizontina, oficializada pelo prefeito Otacílio Negrão de Lima, através do decreto 34 de 22 de julho de 1935. Este decreto estabeleceu a data do último dmingo de julho para realização dos festejos, embora não sustituisse o dia nacional da criança, em 12 de outubro. Interessante observar que a comemoração da criança belohorizontina se fez em torno dos concursos de robustez infantil. Dessa maneira, esses tiveram início em 1935, e foram progressivamente ganhando maior força e adesão da população, caracterizando-se cada vez mais como um evento da cidade. O concurso envolvia os mais diversos segmentos sociais e tomava uma dimensão espetacular, dirigido à população como um todo, festejando, mais que a criança, a raça .

Compreender a lógica de realização de tais concursos só é possível no interior de uma rede de práticas discursivas que lhe conferiam significação. Este evento dá-se no bojo da divulgação do ideário eugenista, fortemente presente no pensamento cientificista característico do período. A promoção da infância sadia constituía estratégia privilegiada de divulgação da eugenia pois, ao festejar a infância bela e robusta, criavam-se condições de disseminação e irradiação do ideal de aprimoramento racial.

Por outro, tal evento teve como cenário a cidade, não a cidade provinciana, mas a metrópole moderna, a exigir e exibir novos sujeitos e corpos. Estes eram identificados com um código de beleza e vigor, a serem contemplados e festejados em eventos públicos de grande participação popular, num ritual de congraçamento da raça.

No cenário dominado pelo ideal eugênico, o aprimoramento racial tornou-se matriz discursiva privilegiada. Esta pretendeu ser capaz de explicar o estado de atraso da nação brasileira, caracteristicamente miscigenada e, ao mesmo tempo propor soluções para sua superação, através do desenvolvimento de uma política racial eugenista.

A criança será definida no discurso eugênico como corpo biológico, exemplar da espécie. Tal como o adulto, a criança é remetida a uma unidade maior- a raça, que lhe dá significação e a qual deve servir. No primeiro congresso eugênico, realizado em 1929, um dos discursos proclamava: “ cada um deve considerar-se ocupante de um posto no seio da coletividade, ao qual cumpre honrar19. Tal coletividade não é somente a pátria, mas também a raça, sendo a infância chamada a ocupar seu papel numa sociedade eugênica. Ela deveria espelhar, em seu corpo belo e robusto, uma raça saudável, aprimorada pela prática constante de exercícios físicos.

O corpo infantil deixa de pertencer à criança e passa a ser patrimônio da espécime. Se tal corpo é identificado como exemplar, modelo de aprimoramento racial, deve então ser exibido e premiado. Se, ao contrário, traduz em sua conduta desajustada as imperfeições de sua ascendência, deve ser então submetido às instituições corretivas. O concurso de robustez e beleza toma significado neste referencial, como exibição de um tipo ideal da raça. Seu contraponto é a institucionalização de espaços de encaminhamento e readaptação dos incapazes e desajustados de toda ordem20.

Sabemos que o movimento eugenista teve na Educação um dos seus pilares básicos. Além de ser incluído no ensino escolar, multiplicaram-se palestras, cursos, encontros, voltados para sua difusão. É nesse quadro que os concursos de robustez e beleza foram instituídos, apropriando dos movimentos de afirmação de cuidados à criança, agora espécie e futuro da raça.

Nas notícias sobre o primeiro concurso realizado na capital mineira em 1935, ficou clara a preocupação com o envolvimento da população e o caráter educativo do evento.:

A cidade está em festa para comemorar o dia da criança. A beleza e a graça, a força, a saúde e robustez física de nossos pequenos serão passados em revista, num concurso interessante e de elevado alcance patriótico. A população que em grande e franco entusiasmo vai apreciar e aplaudir os dotes físicos de maior valia em cada concorrente há de concentrar-se para meditar na significação dessa exibição de força eugenica promissora e auspiciosa e alviçareira para o futuro da raça. E assim concentrada e enquanto meditar, há de ter presente na consciência o sentido dos deveres para com a infância”21

A adesão popular foi constantemente referida nas notícias da imprensa. Com isso, o evento passa a exigir um espaço apropriado à um espetáculo de massa. Em 1935, o concurso foi realizado em praça pública. As notícias da imprensa demonstraram o espanto e entusiasmo ante o afluxo da população, que com tanta força aderiu ao evento. O espaço de realização deslocou-se para um estádio de futebol, locus ideal de realização de eventos de massa, onde os participantes poderiam envolver-se no espetáculo, ver os candidatos e admirar seus atributos físico-raciais. A praça, espaço de circulação e distração não se prestava a um evento em que todos deveriam ter seus olhos e mentes voltados para apreciação dos corpos infantis, dos mais belos exemplares da raça ali presentes. Por outro, a concentração popular possibilitava o condensamento e a potencialização da emoção em torno da exibição da infância bela e robusta: “ Era a infância bonita e forte que desfilava causando o deslumbramento de milhares de pessoas”22

O certame comemora a infância belo horizontina. Era a criança dos novos tempos, numa cidade que se construiu como símbolo da modernidade e da nova ordem. Era uma festa da cidade, que buscava educar a familia centralmente, difundindo o ideário eugênico. Nas notícias referentes a sua realização assim se comentava:

A exemplo do que se faz nas grandes cidades, procura-se por esse meio desenvolver o interesse dos pais belo horizontinos pelos cuidados e pelo melhor conhecimento da eugenia, preparando assim para o futuro, uma geração forte, bela e capaz” 23

Desde a primeira vez que se realizou o concurso infantil em Belo Horizonte, fez-se presente a preocupação em fundar a avaliação em critérios técnicos, a cargo de especialistas capazes de analisar os candidatos, de acordo com referenciais antropométricos. Assim é que a comissão de avaliação era composta de uma parte constituída de representantes de membros da sociedade e outra técnica (o corpo médico). A parte social buscava conferir representatividade ao certame e era composta por educadores, esposas das autoridades públicas, representantes das classes laborais e patronais. Ou seja, buscava-se demonstrar o caráter de identificação da população com o certame, independente de seu pertencimento social.

Já a parte médica encarregava-se da avaliação antropométrica. Progressivamente, ao longo dos anos em que o concurso foi realizado, os critérios técnicos vão ganhando maior centralidade. Em 1940, a Secretaria de Saúde e Educação Pública autoriza a utilização da Escola de Aperfeiçoamento para exames médicos das crianças, prévios a realização do certame propriamente dito. Diferenciaram-se também os critérios, sendo premiados os classificados em robustez e beleza, distintamente24.

O certame adquire cada vez mais um caráter oficial. Se nos três primeiros anos era iniciativa de um dos principais jornais da capital, juntamente com a Publicidade Lux, passa a ser promovido, em 1940 pela Sociedade Pestalozzi, ligada a Secretaria de Saúde e Educação, pelo Lactário Mário Campos e Publicidade Lux. Desde o primeiro concurso, no entanto, as autoridades públicas imprimem um caráter oficial ao evento, fazendo-se presentes e instituindo a data como feriado municipal. Assim é expressa a institucionalização do Dia da Crianca de Belo Horizonte em 1935: “ o prefeito julgou cumprir um das imposições do seu cargo que consiste em estimular o aperfeiçoamento da raça”.25 Ou seja, comemora-se não a crianca, mas a infância eugênica, mesmo porque permanece a comemoracao no dia 12 de outubro, como parte do calendário nacional.

Progressivamente, pela análise das notícias veiculadas na imprensa, a criança vai ocupando a cena de maneira diferenciada. Proclamada como unidade biológica da raça, embora fosse uma comemoração do Dia da Criança, o evento inicialmente muito pouco contemplava o público infantil. Assim é que o ritual estendia-se das 8 as 14 horas, período durante o qual as crianças deveriam desfilar perante o juri, serem avaliadas pelo corpo técnico. Nas notícias de jornal assegurava-se apenas a oferta de água filtrada e assistência médica às crianças participantes26. Premiava-se as selecionadas com um rádio e conjunto de cadeiras e mesa laqueada. Observa-se que os prêmios distribuídos dirigiam-se aos pais, selecionados pela excelência de sua linhagem e capacidade de desenvolver uma educação fundada em preceitos eugênicos, de maneira a produzir uma criança robusta e bela. Desta forma premiava-se também a ascendência, pela adesão a práticas de cuidado e proteção à infância.

Ao longo dos anos, a crianca foi adquirindo maior centralidade no Concurso. Em 1937 foram distribuídas 2 medalhas de ouro, duas apólices, bilhete de 200 contos, corte de casemira, riquíssimo terno de drapeado de seda, finíssimo par de sapato, riquíssimo vestido27. Já em 1940 foram ofertados para os selecionados:1 roupinha de fina confecção, 1 medalhão e 1 quadro Anjo da Guarda, 1 lâmpada de cabeceira, 1 bracelete de ouro com chapinha, 1 lindo estojo escolar, 1 estojo de talher de prata, 1 mobiliazinha para brinquedo, 1 lindo porta jóias, 1 retrato a pastel, 2 livros para crianças, 1 máquina fotográfica28. De mobília laqueada a mobiliazinha de brinquedo, de finíssimo corte de casemira a roupinha, a utilização de diminutivos demonstra que a criança iria ocupar a cena neste cenário, inscrevendo suas marcas, oque pode ser também observado nas atividades do evento. Assim é que em 1935, as crianças inscritas poderiam assistir a uma matinê gratuita do Gordo e o Magro, ao mesmo tempo que proclamava-se a exibição do Infernal Jazz29. durante a parada de robustez infantil Já em 1940, “antes e depois da solenidade foram distribuidos às senhorinhas presentes e as crianças caramelos e amostras de produtos Nestlé e massas Aimoré. Antes da proclamação do resultado do concurso foi facultado às crianças inscritas a entrada na Parque de Diversões da feira de Amostra, onde as mesmas tiveram liberdade de se utilizar dos aparelhos e divertimentos infantis ali instalados. 30



Ou seja, buscava-se envolver tambem a criança no espetáculo, não apenas como exemplar da raça a ser exposta ao público, mas como espectadora e participante do evento, com necessidades e interesses diferenciados do adulto.

É importante analisar que se a realizacão de tais concursos na cidade eram amalgamados ao movimento eugenista, à medida em que este perde força, ao longo dos anos, o certame se diferencia. Sua longevidade demonstra que este foi ressignificado ao longo das próximas décadas. Mas terão se alterado os critérios estéticos de sua concepção?

Ou seja, cabe analisar a permanência de alguns traços culturais na longevidade de tais concursos de celebração de uma estética racial e os deslocamentos que estes assumem no diálogo com as práticas culturais mais amplas. Se o discurso clamente eugenista foi perdendo forças, o ideal racial deixa ainda suas marcas na cena social brasileira, informando novas práticas de celebração e de introjeção de uma estética corporal claramente europeizada, desqualificadora da identidade racial brasileira.

Conclusão


A análise dos múltiplos festejos, ordenados em torno da comemoração da infância

demonstra que esta categoria, tomada no singular bem pouco revelava da diversidade dos lugares sociais das crianças da cidade. Entretanto tais lugares definiam olhares e práticas sociais diferenciados, endereçados a estes sujeitos nas primeiras décadas da República.

Não é a infancia que ocupa a cena, mas as criancas pobres, desvalidas, enjeitadas, robustas, belas, educadas, estudiosas. As diferentes adjetivações as quais as criancas eram associadas nos vários eventos que as comemoravam, são reveladoras de um movimento de estabelecimento de práticas sociais distintas dirigidas à crianca brasileira.Tais práticas eram definidas pelo seu pertencimento social, racial e de gênero.

Comemorar a infância ao longo deste período histórico significou articulá-la com um projeto de consolidação da nação republicana e de formação de um cidadão identificado com o ideário de uma pátria unida, embora marcada por profundas clivagens sócio raciais.

Aqueles que tinham sua identidade definida a partir da identificação com o modelo de infância que se celebrava era dada a tarefa de construir o futuro da nação, espelhando em seu corpo e suas ações a responsabilidade de seu lugar social.

Ao mesmo tempo, aqueles que por sua conformação racial e inserção social foram impossibilitados da realização de tal ideal, tinham reconhecido pelo Estado e pela população sua especificidade, a ser contemplada através de práticas filantrópicas de auxílio e consolo.

Se alguns traços de realização destes eventos tiveram seu sentido definido pelo contexto histórico, muitos outros permenecem, assumindo hoje feição diferenciada, mas revelando a permanência de um ideário.


Fontes

Estado de Minas Gerais. Regulamento de assistência e proteção a menores abandonados e delinquentes. Belo Horizonte: Imprensa Oficial do Estado, 1928 (Coleção de Leis e Decretos, vol.1).

Jornal Diário de Minas, 14/10/1927.

Jornal Estado de Minas, 30-07-1937

_______, 24/07/1937.

Jornal Imprensa de Minas, 02/12/1914.

Jornal Minas Gerais, 09,12 e 13/10/1925.

_______, 12 e 16/10/1927.

________, 21 e 23/12/1932.

_______, 20, 23, 26 e 27/12/1933.

_______, 04/12/1934.

_______, 02/04/1935

_______, 27, 28/07/ 1935

_______, 6, 11, 13, 26, 27, 28/08/1935

________, 28/ 07/1936

_______, 22/12/1936.

_______, 08 e 14/10/1938.

_______, 01/03/1940

_______, 12/03/1940

_______, 27, 29 / 03/1940

_______, 03, 05, 10, 13, 23/04/1940

________, 5, 07/05/1940

Prefeitura de Belo Horizonte. Relatório apresentado ao S. Ex. Sr. Governador Benedito Valadares Ribeiro pelo prefeito Otacílio Negrão de Lima relativo ao período

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_________ e FARIA FILHO, Luciano M. Infância no sótão. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.




1 Minas Gerias 13-10-1928

2 Minas Gerais 12-1-1927

3 Minas Gerais, 12, 13/10/ 1925

4 Minas Gerais, 11/10/1935

5 Criado em 1934, com objetivo, entre outros, de atender crianças ditas anormais.

6 Destaca-se que este Instituto, criado em 1909, teve como objetivo básico a educação agrícola

7 Minas Gerais, 8/10/1938

8 Não há data da tradução portuguesa de A piedade e a força, história da miséria e da caridade na Europa, apenas no original (1986) da tradução italiana( 1986) e da francesa (1987)

9 Não necessariamente esta é de origem pobre, mesmo porque não há dados empíricos a nível mais geral no Brasil, que nos levem a esta estreita associaçào

10 Todos os materiais citados para análise deste item são fontes do Jornal Minas Gerais, a imprensa oficial do Estado. Para as citações a seguir referiremos apenas a jornal ou artigo, evitando repetições.

11 Minas Gerais, 25/12/1914.

12 Minas Gerais, 21/12/1932.

13 Idem,ibidem

14 Minas Gerais, 20/12/1933.

15 Minas Gerais, 27/12/1933.

16 Geremek, s.d., p.290.

17 Minas Gerais, 24/12/1932.

18 Minas Gerais, 23/12/1932.

19 1 Congresso Brasileiro de Eugenia, 1929

20 Vide Faria Filho & Greive . A infância no sotão. Belo Horizonte: Autêntica, 1999

21 Oscar Guimarães in Minas Gerais, 28/07/1935

22 Minas Gerais, 28/07/1935

23 Minas Gerais, 16/07/1937

24 Minas Gerais, 13/03/1940

25 Minas Gerais, 28/07/1935

26 Minas Gerais, 27/07/1935

27 Minas Gerais, 23/07/1937

28 Minas Gerais, 12/03/1940

29 Minas Gerais, 27/07/1935

30 Minas Gerais, 07/05/1940



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