Uma experiência multidisciplinar de leitura no curso de engenharia



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UMA EXPERIÊNCIA MULTIDISCIPLINAR DE LEITURA NO CURSO DE ENGENHARIA

Denise Telles Leme Palmiere (Universidade São Francisco)


Resumo
Este trabalho relata a experiência de um projeto multidisciplinar desenvolvido por professores do Ciclo Básico do primeiro semestre do curso noturno de Engenharia de uma universidade particular do estado de São Paulo. Partindo-se da premissa de que a leitura – ao lado de outras competências – é uma habilidade fundamental na formação de um engenheiro, e considerando a relevância de uma abordagem multidisciplinar, elegeu-se a leitura como ponto de partida para a elaboração de um projeto que permitisse ao aluno a) estabelecer relações significativas entre diferentes áreas do saber e b) configurar-se como leitor crítico e competente – da linguagem escrita, da realidade em que se insere e da sua própria formação profissional. Este trabalho tece algumas considerações sobre os resultados positivos desta experiência.
Introdução
Muitos autores têm apontado para o fato de que uma das metas primordiais do ensino é a formação de leitores maduros e competentes, o que implica, necessariamente, que a leitura deva ser a atividade central propiciada pela escola. Nessa perspectiva, todo professor – de qualquer área do conhecimento – constitui-se também como um professor de leitura. Assim, a prática da leitura não deve estar restrita às aulas e aos professores de língua portuguesa.

Se no ensino fundamental e médio essa visão nem sempre é compartilhada por todos os professores, o que muitas vezes inviabiliza um trabalho abrangente e eficiente com a leitura, isso torna-se ainda mais difícil quando se trata de um curso superior de graduação. Embora se espere que, ao atingir o nível superior, o aluno já se mostre um leitor maduro e competente, lamentavelmente não é essa a realidade que se observa.

Um recente levantamento das características e necessidades dos alunos ingressantes em uma universidade particular do interior do estado de São Paulo1, realizado no ano de 2001, apontou as seguintes dificuldades desses alunos, dentre outras:


  • Domínio da modalidade escrita da linguagem: o contato limitado com a escrita reflete-se nas dificuldades da leitura compreensiva dos textos introdutórios das disciplinas acadêmicas, na falta de domínio dos recursos expressivos característicos da escrita e em forte influência da oralidade na produção textual;




  • Domínio da norma culta da língua portuguesa: em certo sentido decorrente do item anterior, trata-se da falta de conhecimento e de domínio das normas que regem a variedade culta da língua;




  • Capacidade de argumentação: dificuldade para instaurar um ponto de vista próprio, selecionando e relacionando dados e fatos a fim de construir um viés analítico que fuja ao senso-comum presente nos veículos de comunicação de massa.

Em minha experiência como professora de leitura e produção de textos na referida instituição de ensino, esses aspectos têm-se mostrado bastante freqüentes nos alunos ingressantes de diferentes cursos em que tenho atuado (embora com variação em termos de intensidade): Letras, Pedagogia, Fonoaudiologia, Administração e Engenharia, entre outros.

A notável dificuldade dos alunos, especialmente os ingressantes, no que diz respeito particularmente à leitura e compreensão de textos necessita ser considerada com muita atenção, uma vez que, como salienta Severino (1993):
Os maiores obstáculos do estudo e da aprendizagem, em ciência e em filosofia, estão diretamente relacionados com a correspondente dificuldade que o estudante encontra na exata compreensão dos textos teóricos. Habituados à abordagem de textos literários, os estudantes, ao se defrontarem com textos científicos ou filosóficos, encontram dificuldades logo julgadas insuperáveis e que reforçam uma atitude de desânimo e desencanto, geralmente acompanhada de um juízo de valor depreciativo em relação ao pensamento teórico. (Severino, 1993:43,44)
As dificuldades mencionadas apresentam-se diretamente relacionadas ao desempenho geral do aluno ao longo da graduação, uma vez que deficiências relativas às capacidades de argumentação, leitura e produção de texto repercutirão em seu desempenho em todas as disciplinas cursadas, independentemente da área do conhecimento em que a disciplina esteja inserida. E, conseqüentemente, na qualidade da sua formação profissional e também como cidadão.

Se, de um lado, essa é a realidade de muitos alunos no período inicial do curso de graduação, por outro, ao contemplarmos o final desse percurso – o momento em que esse profissional adentra o mercado de trabalho - é notável a importância que diferentes setores atribuem à proficiência do profissional no que diz respeito ao domínio da linguagem.

Lajolo (2002), em recente consulta à seção de classificados de domingo de um jornal paulista, aponta que, ao longo de páginas e páginas de pequenos e grande anúncios, repetem-se como exigências para o profissional procurado: desempenho verbal, domínio da língua portuguesa, competência escrita e verbal, boa comunicação escrita e verbal, etc. Assim, a autora ressalta que o próprio mercado de trabalho já tem reconhecido o domínio da linguagem – salientando o papel fundamental da leitura nesse processo - como um aspecto essencial na formação profissional. E isso porque
Quem não lê, tem pouca chance de ser um usuário competente das informações que, via satélite, internet, computador e fibras óticas perguntam, como o poeta a seus leitores: ‘trouxeste a chave’?

A chave é a leitura.”
É a leitura que – mesmo fora da escola e ao longo de toda a vida – será determinante na capacidade de cada um em aprender continuamente e aprimorar-se intelectualmente. Assim, a autora nos alerta:
(...) quem não lê – mais do que isso: quem não lê bem – não só sabe menos, como tende a aprender menos dentro e fora da escola.

(...) É a leitura (...) que dá acesso a tudo o que os livros contêm: tabelas de Física e dicionários de História, compêndios de Química e tratados de Filosofia, volumes de Poesia e livros de Mecatrônica.”
É interessante notar que em algumas áreas – mesmo nas chamadas “Ciências Exatas” – tem sido crescente a preocupação com uma formação profissional mais abrangente. É o caso, por exemplo, dos cursos de Engenharia. Atualmente, reconhece-se que a formação básica de um engenheiro não pode restringir-se ao domínio de conhecimentos técnicos específicos de uma área, mas deve mostrar-se abrangente, desenvolvendo algumas habilidades básicas e capacitando o aluno a tornar-se um profissional com uma visão mais eclética e ampla. Entre outras habilidades requeridas de um engenheiro, espera-se que o mesmo se mostre um leitor crítico e competente, não apenas daquilo que lê como também da realidade que o cerca.

Geraldi (1996), tecendo algumas considerações sobre as funções da leitura na formação de técnicos2, ressalta:


“Na rapidez com que se desenvolve o mundo técnico, com suas máquinas cada vez mais sofisticadas, com seus programas rapidamente tornados obsoletos (...), é a própria formação técnica que demanda a formação de leitores sofisticados, exigentes, pacientes, capazes de diálogo.

No que tange à leitura, parece-me que uma sólida formação técnica parece estar demandando uma maior capacidade de leitura de diferentes tipos de textos, desde simples instruções até sofisticados textos artísticos (...).”

(Geraldi, 1996: 124)
Assim, de um lado, temos alunos ingressantes que ainda não se configuram como leitores competentes e freqüentes. De outro, temos o mercado de trabalho que cada vez mais demanda tais competências. Para além disso, reconhecemos que a capacidade de leitura é uma competência à qual todo o cidadão tem direito, até mesmo para poder exercer sua cidadania em toda a sua complexidade. Fica, então, a questão: o que tem sido feito pela universidade no sentido de desenvolver a capacidade de leitura dos alunos? Ou, ainda, o que pode ser feito neste sentido?

Este trabalho traz o relato de um experiência de leitura que emerge da necessidade de se buscar respostas possíveis a tal questão. Diante da constatação de dificuldades de leitura de alunos de graduação de um curso de noturno de Engenharia de uma universidade particular do interior do estado de São Paulo, e assumindo a relevância de um trabalho que vise a integração de conhecimentos - no sentido oposto à fragmentação, alguns professores do primeiro semestre do referido curso envolveram-se na elaboração de um projeto multidisciplinar de leitura. Neste trabalho, relatamos esta experiência, que se mostrou extremamente interessante e produtiva.


Um projeto multidisciplinar de leitura
No que diz respeito ao curso de Engenharia da universidade privada aqui em questão, embora o mesmo contemple alunos que, em geral, chegam ao curso superior um pouco mais bem preparados do que alunos de outros cursos, as mesmas dificuldades anteriormente apontadas relativas à argumentação, leitura e produção de textos também mostram-se presentes.

É importante ressaltar que a maior parte dos alunos desse curso é constituída por jovens de classe média e classe média baixa, que trabalham ao longo do dia e apresentam pouco tempo para as tarefas escolares e para leituras extras.

Em relação aos professores do curso, os mesmos apresentam larga experiência docente e uma boa formação acadêmica, encontrando-se um bom número de doutores, alguns atuando também em cursos de pós-graduação, além de alguns mestres. Vários dos professores, além da atividade docente, atuam também como engenheiros no mercado de trabalho.

Embora a idealização de um projeto de leitura tenha partido da professora da disciplina de Comunicação e Expressão, a realização do mesmo só foi possível graças ao pronto envolvimento de todos os professores que atuam nas turmas do primeiro semestre do curso, turmas-alvo deste projeto. Esses professores compartilham da mesma perspectiva de que a formação básica de um engenheiro não se limita simplesmente ao domínio de conhecimentos técnicos, mas deve também habilitá-lo a tornar-se um profissional com uma visão mais ampla, integrada e eclética. Nesse sentido, desenvolver a leitura como habilidade básica mostra-se fundamental, e é essa a visão compartilhada pelo grupo de professores.

É necessário ressaltar que tal visão nem sempre se mostra presente em um grupo de professores de diferentes áreas, especialmente no contexto das chamadas “Ciências Exatas”. O fato de termos um corpo docente que partia de uma mesma perspectiva quanto à importância da leitura na formação de um engenheiro foi fundamental para a própria concepção e também para a viabilização deste projeto, realizado ao longo do primeiro semestre de 2003.

Desde o início do semestre, todos os professores acreditaram na possibilidade da elaboração de um projeto de leitura que se configurasse, também, como mais um passo (dentre outros que têm sido instituídos) em direção a uma maior integração entre as disciplinas do curso de Engenharia, na busca pela desejada formação abrangente do aluno. Embora seja possível reconhecer que ainda se faz necessário um maior e mais específico engajamento dos professores no projeto de leitura, como será posteriormente ressaltado, é inegável que o envolvimento desses professores foi o ponto crucial para que o mesmo ocorresse.

O primeiro passo na elaboração desse projeto multidisciplinar3 de leitura foi a definição de um livro de leitura comum a todas as disciplinas, sendo que, para atender aos objetivos que se tinha em mente com o projeto, o mesmo não deveria ser um livro técnico na área de Engenharia.

O livro sugerido pela professora de Comunicação e Expressão e prontamente acolhido pelos demais professores foi Showrnalismo: a notícia como espetáculo4, do jornalista José Arbex Jr., resultado de sua tese de doutorado desenvolvida no Departamento de História da USP.

O foco central desse livro é o fato de que a mídia, no mundo contemporâneo, transforma tudo em espetáculo: eleições, catástrofes naturais, guerras, escândalos, histórias do cotidiano, crimes. Por exemplo, quando a televisão transmitiu a Guerra do Golfo em tempo real, transformou e apresentou o conflito “como uma espécie de telenovela sinistra que prometia renovadas emoções no próximo capítulo. A cobertura ‘ao vivo’ consagrou, definitivamente, a ‘espetacularização’ da notícia. E, exatamente por ser um espetáculo, a transmissão das imagens submeteu-se às mesmas regras que se aplicam a um show”, nas palavras do autor.

O livro mostra como a atividade jornalística foi transformada em mero show, obedecendo hoje às mesmas regras que regem o espetáculo: seduzir e emocionar é mais importante do que informar e analisar. O noticiário, mesmo impresso, deve manter o ritmo do videoclipe: precisa ser rápido, ágil, de fácil entendimento, de preferência ilustrado e em cores, curto, sem exigir esforço de reflexão e disposto de forma esteticamente agradável e sedutora. O importante é causar impacto, prender as atenções, assegurar altos índices de audiência, vender.

O autor do livro ressalta que a mídia promove, assim, a diluição completa das fronteiras entre os gêneros informativo, de entretenimento e publicitário, e é nessa divisão que reside o grande perigo. Ao tratar a notícia como show e o show como notícia, a mídia atribui-se o poder de manipular as informações, estimular ódios e simpatias, gerar consensos. Ela não se limita a divulgar as notícias: ela também impõe, dentro de certos limites, a maneira pela qual as notícias devem ser lidas e percebidas.

A escolha do livro para este projeto de leitura foi, em grande parte, motivada pela iminência – naquele início do ano de 2003 - de uma “nova Guerra do Golfo” (o que, infelizmente, veio de fato a se concretizar com a invasão do Iraque pelas tropas anglo-americanas) e pela maneira como a mídia divulgava o rumo dos acontecimentos desde o ataque às Torres Gêmeas de Nova Iorque.

Outro aspecto relevante na seleção do livro foi o fato do mesmo, por ter sido elaborado a partir de uma tese de doutorado, propiciar ao aluno o contato com o texto acadêmico, gênero ao qual normalmente não está habituado - e que, em grande parte, revela-se como um dos grandes obstáculos do aluno em seu processo de aprendizagem ao longo da graduação.

Além disso, pelo fato do livro trazer uma reflexão crítica sobre a mídia espetacularizada e sobre o como o leitor é massacrado pela impossibilidade de fugir a esse cerco, a leitura deste livro possibilitava um dupla tarefa: contribuir para a formação do aluno-leitor do texto escrito e também do sujeito-leitor da realidade vivida.

Como o próprio Arbex ressalta,
Apenas e somente no processo de interlocução com o outro, no exercício cada vez mais difícil de saber identificar e escutar outras vozes, o crítico pode resgatar a memória dos fatos para além de sua representação estereotipada e manipulada, encontrando as perguntas certas que deverão orientar o seu trabalho de investigação e compreensão dos fatos.
Assim, vislumbramos desde o início que a leitura de um livro como esse – desde que instigássemos nos alunos as inquietações necessárias - possibilitaria aquilo que nos aponta Geraldi (op. cit.) como legítimo e significativo para um trabalho com leitura, especialmente em cursos de ‘formação técnica’: uma leitura
...de sujeitos que, querendo aprender, vão em busca de textos e, cheios de perguntas próprias, sobre eles se debruçam em buscas de respostas. (...) Uma oportunidade de encontro de sujeitos; (...) um meio de (...) produzir sentidos e, conseqüentemente, construir categorias de compreensão da realidade vivida a partir das informações e opiniões dadas pelo autor do texto lido. (Geraldi, 1996: 120)
É claro que, para que isto se concretizasse, fazia-se necessário ‘provocar’ de alguma forma essas perguntas em nossos alunos que, a princípio, não se mostravam nem um pouco motivados a ler um livro (“Pensei que este fosse um curso Engenharia...”- satirizavam alguns) e muito menos apresentavam inquietações próprias a esse respeito.

Ironicamente, a invasão do Iraque pelas tropas anglo-americanas, ocorrida no momento em que iniciávamos o projeto de leitura do livro, e a cobertura da guerra feita pela mídia escrita e televisiva foi, em grande parte, o elemento motivador para que tais inquietações surgissem. Qual a diferença – no que diz respeito ao nosso conhecimento sobre a Guerra do Iraque – entre a) presenciarmos a guerra “com nossos próprios olhos”? b) tomarmos conhecimento dela por meio da leitura de jornais? c) acompanharmos a guerra pela tela da televisão? O quanto testemunharmos diretamente a guerra garantiria que estaríamos vendo, de fato, “a” realidade empírica, “a” verdade dos fatos? Existe o observador neutro? A leitura do livro responde, em muito, a tais indagações, e num primeiro momento, ressaltar em sala de aula este tipo de questão foi o caminho encontrado para provocar nos alunos a motivação para ir ao livro em busca de respostas, instigando-os à leitura e procurando desfazer a falta de interesse inicial5.



Nosso percurso no desenvolvimento do projeto de leitura deste livro pode ser assim resumido:


  1. Num primeiro momento, todos os professores realizaram a leitura do livro, procurando construir pontes entre a temática do livro e suas próprias disciplinas. Foi bastante interessante perceber as diferentes leituras que advinham de leitores de diferentes áreas do conhecimento. Assim, professores de Cálculo, Vetores e Álgebra, Química, Introdução à Engenharia e Comunicação e Expressão debruçaram-se sobre o livro, buscando nele conversas com suas próprias disciplinas, o que, sem dúvida, resultou em múltiplos olhares.




  1. A professora de Comunicação e Expressão apresentou o projeto aos alunos, ressaltando seus principais objetivos e o cronograma das atividades que seriam realizadas a partir do livro. Iniciava-se, assim, nosso processo de procurar instigar nos alunos a vontade da leitura, como já anteriormente ressaltado. Alguns professores de outras disciplinas também participaram ativamente neste momento, embora reconheçamos, aqui, uma das lacunas do processo: a participação de todos os professores nesse momento inicial de “encantamento” dos alunos frente à leitura do livro poderia ter sido maior e mais específica, o que certamente, teria em muito contribuído para um maior envolvimento por parte dos alunos.




  1. Após alguns acertos de ordem estrutural, como a encomenda do livro junto à editora (o que barateou o custo), o livro chegou às mãos do aluno. Nesse processo, houve um pequeno atraso na entrega do livro, e foi interessante perceber como isso acabou gerando nos alunos uma certa expectativa, contribuindo, assim, para a nossa “campanha de motivação” para a leitura. Com o livro em mãos, os alunos foram procedendo a leitura individualmente, extra-classe.




  1. Paralelamente à leitura individual realizada pelos alunos, nas aulas da disciplina de Comunicação e Expressão a professora adotou como procedimentos didáticos:




  • Leitura dirigida, em sala de aula, de alguns trechos específicos do livro, ressaltando junto aos alunos: i) as características do discurso acadêmico, com seus mecanismos enunciativos; ii) o conteúdo temático do livro; iii) o contexto de produção e sua influência na construção textual;

  • Discussões sobre as possíveis relações entre o conteúdo temático do livro e os acontecimentos relativos à Guerra do Iraque, contemporânea ao momento de leitura, procurando provocar a reflexão, a argumentação, as diferentes leituras do livro e da realidade – por parte dos alunos e, conseqüentemente, da própria professora;

  • Discussões sobre as possíveis relações entre o conteúdo temático do livro e a formação do aluno, seja como acadêmico, como engenheiro ou como cidadão;

  • Leitura de outros textos relacionados ao conteúdo temático do livro e também à Guerra do Iraque. Esses textos foram disponibilizados para os alunos em ambiente de internet, via ferramenta de Educação à Distância (TelEduc) e posteriormente discutidos em classe;

  • Adoção do livro como texto-base gerador do trabalho com resumo e texto argumentativo, gêneros textuais normalmente trabalhados na disciplina;

  • Elaboração de uma prova de leitura, realizada ao final do semestre, em sala de aula e com consulta ao livro, com questões que objetivavam o trabalho com o sentido global de cada capítulo do livro, bem como do livro como um todo.




  1. Alguns professores de outras disciplinas também abordaram o livro em sala de aula, embora de forma um pouco acanhada e não muito sistemática. Reconhecemos que este é um aspecto que, em projetos futuros, deverá estar mais bem estruturado, uma vez que a valorização da leitura por parte do aluno será mais facilmente atingida se todo o professor, independentemente da sua área de atuação, demonstrar que ele próprio valoriza, a leitura, tornando-a parte central de sua prática. Entendemos que uma participação mais efetiva dos demais professores na seleção do livro, bem como a viabilização de encontros específicos6 dos professores para a discussão e encaminhamento do projeto de leitura são fundamentais neste processo.




  1. Ao final do semestre, todos os professores envolvidos elaboraram uma avaliação multidisciplinar tomando como base o conteúdo temático do livro. Este instrumento multidisciplinar de avaliação já tem sido parte da prática acadêmica da universidade em questão, objetivando-se uma maior integração entre diferentes disciplinas dos cursos, bem como configurando-se como um instrumento de levantamento de deficiências no processo de ensino-aprendizagem. A prova constituiu-se de dez questões discursivas, sendo que a cada uma das disciplinas cursadas pelo aluno correspondiam duas questões, elaboradas e avaliadas pelos respectivos professores. As questões caracterizavam-se por explorar diferentes aspectos do tema abordado pelo livro, pelo viés dos conteúdos específicos a cada disciplina. Dessa forma, o aluno tinha em mãos um conjunto de questões que: a) evidenciavam diferentes perspectivas de um mesmo objeto de estudo – o livro em questão, o que possibilitava a ampliação de sua própria construção do sentido do texto lido; b) permitiam ao aluno perceber a aplicabilidade direta de muitos dos conceitos vistos ao longo do semestre nas diferentes áreas; c) permitiam ao aluno perceber que as disciplinas do curso, embora tão distintas em certos aspectos, não deixam de estar fortemente relacionadas entre si.

Assim, o trabalho culminou com a elaboração dessa avaliação multidisciplinar. Tomar a leitura do livro como ponto de partida para a elaboração deste tipo de avaliação, configurando-se este como um projeto rumo à interdiscipinaridade, centrado no desenvolvimento de leitores, foi um experiência bastante rica. Pudemos verificar, de perto, o que apontam Kleiman e Moraes (1999) com relação a projetos interdisciplinares: “O conceito que nos permite entender por que a leitura desfaz as divisões entre as diferentes áreas do saber é o conceito de intertextualidade, considerada uma propriedade constitutiva do texto.” (Kleiman e Moraes, 1999: 61,62)

Os múltiplos olhares dos diferentes professores para o mesmo livro, constituídos, em grande parte, pela multiplicidade das leituras de outros textos e pela intersecção destes com o texto em questão, fez emergir a construção de um novo significado para o livro, fazendo expandir-se a leitura inicial, quer dos alunos, quer dos próprios professores envolvidos.

Para além disso, esta atividade constitui-se como uma possibilidade de integração dos diferentes saberes, em sentido oposto ao saber fragmentado, atendendo aos objetivos de formação de um profissional com uma visão mais ampla e abrangente. Dessa forma, concordamos com Kleiman e Moraes (op. cit.) quando afirmam que “A leitura poderia ser caracterizada como uma atividade de integração de conhecimentos, contra a fragmentação. Devido à abertura que o texto proporciona ao leitor para relacionar o assunto que está lendo a outros assuntos que já conhece, ela favorece, no plano individual, a articulação de diversos saberes.” (Kleiman e Moraes, 1999: 30)

Contrariamente à resistência inicial por parte dos futuros engenheiros em dedicar-se à leitura de um livro não técnico logo no primeiro semestre de seu curso de graduação, o depoimento dos alunos ao final do processo, por ocasião da avaliação multidisciplinar, foi bastante recompensador. A seguir, listam-se alguns desses depoimentos:

Em princípio, assim como a maioria de meus colegas, achei absurda a idéia de ter um livro como tema de prova, mas, fazer o quê? A contragosto, comecei a leitura do mesmo. O título já não me inspirava confiança, mas já no prefácio passei a ver com bons olhos aquele tema. Prefácio este escrito por um líder rural sem-terra - estranho, não? O que isso tem a ver com meu curso de engenharia? Mas, fui em frente...



Peguei prazer pela leitura e já não o lia com a finalidade de acabá-lo logo (sic), mas sim, relia diversas vezes certos parágrafos nos quais percebia algum paralelo com minha própria vida, coisas que eu nunca tinha imaginado anteriormente que pudessem ocorrer da maneira como ocorrem.

As diversidades encontradas, constantes mudanças e obrigatórias adaptações relatadas pelo autor demonstram claramente os problemas e situações que me esperam em minha futura profissão. Os jogos de interesses, o valor da opinião dos poderosos, a paciência para as mudanças, como citados no livro, correspondentes respectivamente, entre outros, aos jornalistas nas guerras dos Bálcãs, à indústria do conformismo norte-americano, ao novo socialismo capitalista de Gorbachev, todas essas narrações exemplificam situações cotidianas nossas.

Sem dúvida alguma esse livro será uma fonte de consulta por um longo tempo e será referenciado a várias pessoas. Pessoas essas interessadas em um esclarecimento maior e conhecimento mais profundo do que acontece no dia-a-dia. Indicado aos engenheiros que não pensam que ser engenheiro é simplesmente desenvolver um produto; aos médicos que sabem que não basta assinar uma receita e indicar um remédio; aos arquitetos que não se contentam em desenhar uma casa; enfim, às pessoas que não se conformam em simplesmente sentar na platéia e aplaudir o espetáculo no qual outras protagonizam.”

(J. P. S., Turma C)
Considero de grande relevância o pensamento de os engenheiros da atualidade não dever apenas (sic) ficar presos a cálculos e números. Expandir a visão e ter conhecimento de outras áreas pode nos ajudar a encontrar e solucionar os problemas facilmente, ajudando a conhecer a sociedade e como ela funciona. No começo, é extremamente difícil realizar a leitura em matéria de outras áreas, neste caso, de jornalismo. Mas isto fez com que pudéssemos aprender sobre o que se passa por trás das transmissões de informação, o que está em jogo e o que pode ser alterado.

Este tipo de prova nos ajuda a concretizar uma dúvida que muitos têm em engenharia: onde podemos aplicar nossos conhecimentos e o que nos é ensinado?

Através de provas deste tipo, temos uma noção de como nos podemos utilizar de cálculos e funções, por exemplo.”

(M. A. R., Turma B)
Após uma leitura do livro Shornalismo e, posteriormente, a realização desta prova pluridisciplinar, pude compreender como é importante, principalmente para a formação do engenheiro, estar informado como um todo, pois tudo se relaciona. Foi ótimo ter uma noção bem mais ampla do que ocorre por trás da mídia pois nos dá uma visão mais crítica mesmo dos assuntos comprovados por ela, não somente dos fatos atuais, mas dos principais acontecimentos ocorridos e registrados.

A partir das questões expostas aos alunos ingressantes no curso de engenharia, pude perceber que mesmo um livro tratando da Guerra do Iraque faz correlação com todas as matérias até aqui estudadas.”
(I B. C., Turma A)
A leitura de livros como Showrnalismo, um livro que não é voltado para os cursos de engenharia, se torna um novo desafio para os estudantes de engenharia, devido o fato (sic) de que a formação de um bom engenheiro não está totalmente ligada ao ato de se saber calcular. É necessário enchergar (sic) e resolver os problemas da ‘sociedade comum’.

Por isto, a leitura de livros e a inclusão de matérias de outras áreas se tornará um fato indispensável para a formação de um bom engenheiro. No caso do livro Showrnalismo, os estudantes de engenharia poderiam ter uma boa base de como os meios de comunicação (emissoras de TV, jornais, internet) manipulam as informações de uma maneira tendenciosa, devido a questões políticas e econômicas.”

(G. B. P., Turma D)
Finalizando, gostaríamos de ressaltar, neste projeto, o papel fundamental do professor como promotor de uma adequada postura do aluno diante da leitura. Pudemos perceber, ao longo do processo, o quanto as intervenções feitas em sala de aula foram muitas vezes determinantes da mudança de reação do aluno não apenas diante da necessidade de ler, como também na construção do sentido do que já fora lido. Isso pôde ser verificado nas atividades de leituras dirigidas, nas discussões provocadas, nas reflexões instigadas sobre as relações possíveis entre o que se lê e o que se vive, entre o texto lido e a realidade vivida por um engenheiro.

Como salienta Kleiman (1989: 39,40),


No contexto escolar, o professor, um dos fatores da ação do contexto imediato no leitor, é também constitutivo do processo. Ele determina, em grande medida, os objetivos de leitura. (...) A ação do professor não pode ser diluída, e passa a ser constitutiva, portanto, da relação entre autor e leitor. (...) O papel do professor pode ser (...) o de fornecedor de condições para que se estabeleça a interlocução.”

Nesse sentido, concordamos integralmente com as colocações de Lajolo (op. cit.), que, embora focalizem especialmente a leitura do texto literário, muito nos dizem sobre o nosso papel como professores de leitura – qualquer que seja a nossa área de conhecimento:


Uma aula de literatura” (de leitura, diríamos) “– para ser uma boa aula – é a hora da verdade do professor. O diálogo que ele vai estabelecer com seus alunos sobre a obra em questão precisa ser antecedido de um diálogo do professor com esta obra, diálogo pessoal e solitário, no qual é preciso encontrar lugar para sua história pessoal de leitura.

Este professor, sujeito de suas leituras, e a partir de sua história capaz de contagiar sua classe, com certeza é mestre insubstituível no difícil e fascinante ingresso do aluno no mundo da leitura, ingresso essencial para a viagem por muitos outros mundos, inclusive este nosso do aqui e agora.




Referências bibliográficas

ARBEX Jr, José. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amarela, 2001.

GERALDI, J. W. Linguagem e ensino: exercícios de militância e divulgação. Campinas, SP: Mercado de Letras, 1996.

KLEIMAN, A. B. Leitura: ensino e pesquisa. Campinas, SP: Pontes, 1989.

KLEIMAN, A. B. e MORAES, S. E. Leitura e interdisciplinaridade: tecendo redes nos projetos da escola. Campinas, SP: Mercado de Letras, 1999.

LAJOLO, M. Leitura e literatura na escola e na vida. Disponível em URL em: http://www.proler.bn.br/texto7.htm. Acesso em: 12 de dez. de 2002.



SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. São Paulo: Cortez, 1993.


1 Tal levantamento foi feito por uma equipe de professores envolvidos em um projeto de capacitação discente, a partir de sua experiência tanto em sala de aula quanto no atendimento aos alunos, bem como na correção de redações do concurso vestibular dessa instituição.


2 Embora o autor considere especificamente o contexto do ensino das chamadas escolas técnicas do ensino médio, acreditamos serem suas considerações pertinentes também para os cursos de graduação do ensino superior.

3 Optamos, no momento, por evitar o termo interdisciplinar, reconhecendo que ainda há um longo percurso a percorrer para a realização de um trabalho que de fato se coloque no âmbito da interdisciplinaridade.

4 ARBEX Jr, José. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amarela, 2001.

5 Além disso, ressalte-se que, em grande parte, estamos mesmo diante de questões inerentes à própria investigação científica – tão fundamental na formação do engenheiro.


6 Na maior parte das vezes, as discussões ocorreram em contextos informais nos curtos intervalos entre as aulas.



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