Uma geografia sentimental da freguesia de São José



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Encontro03.08.2016
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Uma geografia sentimental da freguesia de São José

Foi com surpresa que recebi a visita – inesperada – , o mês passado, do Senhor Presidente da nossa Junta de Freguesia, o inexcedível Senhor Mota – em minha casa, e foi com maior surpresa ainda que recebi o seu convite para estar, hoje, a falar-vos, sobre a freguesia de São José.


Não sou a pessoa mais indicada, porque o historiador Manuel Ferreira é autor de duas belíssimas monografias, uma, sobre Ponta Delgada e a outra, sobre a freguesia de Santa Clara. Seria ele, pois, a pessoa indicada para vos falar sobre a nossa freguesia. Mas também compreendo que pedir-lhe tal incumbência seria exigir-lhe três trabalhos – assistir à inauguração da nova sede, ser o palestrante e ser o homenageado. Não é que ele não tivesse energia suficiente para tal, mas, sendo eu a palestrante, era-lhe poupada uma tarefa!
Também o professor Rubens Pavão publicou um estudo sobre a Igreja de São José, pólo dinamizador da vida da nossa freguesia. Não teria sido mais indicado ter sido ele convidado para palestrante?
Deste modo, quero acreditar que apenas fui convidada pela minha qualidade de mulher, para preencher, assim, a quota de participação feminina na freguesia…
Enfim, apesar destes problemas de consciência, aceitei o simpático convite, porque para além de ter dificuldade em recusar convites para partilhar com os outros o que sei, (nunca deixei de considerar a transmissão do conhecimento como uma missão espiritual e um dever de cidadania), não podia deixar de estar presente nesta hora de tão grande significado para a nossa freguesia – a inauguração da sua sede. E, também, mostrar publicamente o meu apoio afectivo e político à Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, a nossa muito querida Dr.ª Berta Cabral. Também ela nascida na freguesia de São José, freguesia onde os pais sempre moraram. Aliás, o pai é das primeiras pessoas que encontro todos os dias – eu partindo para o trabalho – e ele já vindo do seu passeio matinal de «ronda» pela cidade da filha…
Após esta breve explicação inicial, quero dizer-vos que, partilhando do sentimento de Voltaire de que «a arte de aborrecer é contar tudo o que se sabe»…, vou procurar não vos maçar. Aliás, não terão motivo de preocupação porque foi minha intenção seguir o conselho do director da alfândega: não ser longa, nem chatear a assistência!

Resolvi, assim, traçar uma geografia sentimental da nossa freguesia, de forma a todos nós nos identifiquemos com os espaços e os tempos da sua história.

Nasci na freguesia de São José, em 1958. A minha mãe aqui nasceu, em 1930, tal como a minha avó Hirondina, que nasceu em 1903, e a minha bisavó Ascensão, que nasceu por volta dos anos oitenta do século XIX.

Para seguir a história da nossa freguesia vou seguir esta genealogia de mulheres. Mulheres que têm em comum o seu nascimento na nossa freguesia, mas que também têm em comum o facto de nunca terem abandonado os limites espaciais da mesma. Vestiram-se a rigor para acolher o Rei e a Rainha, o Marechal Carmona (Julho de 1941), o General Craveiro Lopes, o Almirante Américo Tomás (Julho de 1961), o General Ramalho Eanes… Preocuparam-se com a chegada dos militares continentais na Primeira e na Segunda Guerras mundiais e sobretudo temeram a aproximação dos submarinos alemães. Regozijaram-se com a ditadura militar – enfim, a paz social – assim como se regozijaram com a revolução de Abril – enfim, o fim da guerra colonial! Fizeram pagamentos com réis, com escudos e, nos nossos dias, com euros…

As mulheres da minha família não vieram de fora e não quiseram ir para fora. Todas, cá, dentro das fronteiras da freguesia de São José, já tínhamos achado o mundo!

Somos desta terra: vivemos na Primeira rua de Santa Clara (na casa onde hoje é a sede da CDU), nas Cancelas da Doca (na casa que pertenceu à família de Dionísio Leite), na Rua João do Rego de Cima (na casa que é dos pais do Vicente, o conhecido professor de Karaté), na Rua de Lisboa, a antiga Rua Formosa (onde mora a minha mãe) e na Rua de Santa Catarina (hoje José Bensaude), onde moro com os meus filhos. Eis o nosso território!

As mulheres da minha família souberam preservar a terra, mas não lhes foi permitido guardar o nome… Na transição da Monarquia para a República éramos Ferreira Pacheco. Na República, fomos Ferreira da Silva. No Estado Novo, começámos a ser Sequeira Dias e apenas a Democracia permitiu que eu preservasse o nome Sequeira Dias (nome de família do meu pai, um bom homem de Lamego).

No passado, ser mulher significava perder o nome de família para ganhar um marido e o seu nome! Tal destino reforçava a memória das mulheres e reforçou, sem dúvida, a memória das mulheres da minha família, que se recusaram esquecer o passado. Trouxemo-lo «roubado» na algibeira, até hoje!

Cresci num ambiente familiar onde a memória estava tão presente, que me habituei a amar tanto os familiares já desaparecidos (que nunca conhecera) como os familiares com quem privava. Cedo compreendi que a força da presença é tanto maior quanto mais prolongada - e até definitiva - é a ausência!

Habituei-me a interessar-me tanto pela vida que decorria ao meu lado como pela vida daqueles que há muito tinham deixado de viver… Tanto pelas histórias da família como as da vizinhança e até a de Portugal e a do Mundo… Não precisei de conhecer o pensamento de Morita para saber da importância do pensar global e do agir local!

A minha avó Hirondina era uma grande contadora das histórias e eu era a sua ouvinte mais atenta. Talvez, por isso, ao longo da vida tenho escutado muito mais do que falado, porque me encantam as histórias narradas pelos outros. Comove-me ser cúmplice das suas memórias.

A minha avó transitava, com a maior naturalidade, dos episódios da Historia de Portugal narrados por Pinheiro Chagas, para os eventos revolucionários da República… Para o seu namoro, às escondidas, com o militar continental que, pela sua integração no contingente militar para os Açores, se salvara de La Lys… Para as lições de história pátria, que aprendera nos bancos da Escola republicana que frequentara… Só na universidadecompreendi a importância do eu e a sua circunstância pela leitura de Ortega y Gassett.

Com a minha avó aprendi a gostar do Marquês de Pombal, porque tinha expulso os Jesuítas; de Napoleão, porque tinha acabado com os reis absolutos; de Sidónio, porque era um Grande Homem… Do que ela gostava, também eu gostava e, certamente, pelas mesmas razões! Estava tudo certo para ela. E também para mim.

Por isso, já adulta conservei a mesma ternura pelas figuras históricas de que ela gostava…Ignorei o episódio dos Távoras… Os excessos de Napoleão… A ditadura de Sidónio!

Ela punha um extraordinário sentimento na narrativa. Tanto lhe mereciam lágrimas e palavras acaloradas a história de Egas Moniz na defesa do seu pupilo, como a da vizinha que tivera a coragem de recusar, durante a cerimónia de casamento decidida pelos pais, o seu casamento.

Herdei dela este gosto pela grande história e pela pequena história.

Como herdei dela o gosto pelo drama e pelo sentimento, senti-me na obrigação de orientar os meus estudos académicos para a história económica para que os números me contivessem…

Entre as minhas memórias mais antigas conservo a que diz respeito a uma visita à casa da minha avó, na Rua João de Rego de Cima, para a ajudar a arrumar coisas… Que coisas? Não me lembro.

O meu avô Manuel Joaquim – aquele que era de Tomar e que se livrara de ir para La Lys – tinha morrido e a minha avó vinha morar connosco, para a Rua de Lisboa. Ao chegar a sua casa, fomos recebidos em alvoroço com ela repetindo:

- Que desgraça! Que desgraça! Mataram o Presidente Kennedy, na América.

Lembro-me de ter visto a fotografia do jovem JFK no «Diário dos Açores», o jornal que toda a vida ela assinou. Já tinha cinco anos mas ainda não sabia ler… Julgo que já falava! Sinceramente, não sei, porque comecei a falar muito tarde.

Aliás, lembro-me de ter começado a falar. O dia estava bom e ficara decidido que as criadas levariam as meninas a lanchar à Mata da Doca. A mata da doca era um idílico recanto da cidade. A mata começara a a ser plantado com araucárias por decisão do Eng. Dinis Moreira da Mota, em 1902, para alindar o terreno despido das pedras que tinham sido transportadas para as «monumentais obras do porto artificial» da ilha, a partir de 1861. As famílias aí faziam pic nics, enquanto esperavam pelos seus homens ocupados na carreira de tiro. A construção da estação da POL Nato, porém, nos começos dos anos sessenta deu cabo desta bela mata. Poucos foram os que, então, criticaram o derrube das vetustas árvores. O gosto pela ecologia ainda não tinha chegado às ilhas!

No tempo, a mata da doca era um dos passeios mais agradáveis, porque dispensava qualquer transporte. Recorde-se que os transportes eram raros e caros e que o carro particular só se generalizou nas ilhas, nos anos setenta do século passado. A Câmara tinha adquirido o belo jardim botânico de António Borges, em 1957, mas não era muito aconselhável… As grutas proporcionavam esconderijos pouco dignos para a moral do tempo!

As criadas, vindas das freguesias rurais, gostavam de ir até à Mata da Doca, porque lhes lembrava o campo e porque encontravam alguma liberdade fora do olhar rígido das patroas. Outros tempos.

Tempos muito longínquos, pois, hoje, já não há criadas – pobres raparigas que a troco de salários miseráveis trabalhavam sem tréguas, sem quaisquer direitos e regalias. Mas também já não há patroas…

A profissionalização do trabalho feminino proporcionou trabalho remunerado fora de casa e a integração da mulher no mundo laboral. O trabalho doméstico deixou de ser a única saída para as jovens. Desde então, «fadas do lar» só por opção... Nunca mais por obrigação!

Face ao apontamento histórico, fico confusa sobre o sentido de orientação daquelas raparigas que gostavam de passear com os meninos e as meninas na Mata da Doca: iam elas à procura de alguma liberdade ou iam à procura dos rapazes das obras?

Os tempos mudaram tanto quanto às sensibilidades e às afectividades que tenho medo de cair no pecado maior dos historiadores – o anacronismo.

O certo é que, naquela tarde, no largo passeio, em frente às bem estruturadas casas do Bairro Económico, face à imponente fábrica do açúcar (inaugurada em 1906) comecei a falar. Cabe aqui uma palavra de apreço à dignidade do bairro popular que foi construído para os operários, nos anos sessenta. Observe-se os seus espaços verdes, no interior, e a nobreza da sua construção. Hoje é um empreendimento de qualidade, quase luxo.

Que diferença em relação aos «bairros sociais» da democracia… A mesma diferença que existe entre as escolas do Plano do Centenário e as escolas remendadas do nosso tempo! Sei que as dimensões, os desafios e os alcances são diferentes, na actualidade. Não há comparação com o ritmo de construção exigido nos nossos dias e com o número de beneficiários do Estado Social.

Ora voltando aquele tempo, o alvoroço foi tão grande por eu ter falado, que já não houve lanche para ninguém. Logo se quis anunciar a boa nova à família.

- A Fátinha, afinal, sabe falar. Ela fala! Ela fala!

Desde então, dizem com maldade, que nunca mais deixei de falar!

(Lamento não ser como todos os génios – e conhecemos vários aqui, nas ilhas!- que, sozinhos, aprenderam a ler aos 3 anos)…

Depois, lembro-me de ter ido para a escola aos 7 anos. Para a escola das meninas, que ficava num pobre edifício, sem casa de banho, (apenas com uma tábua, num dos cantos do exíguo pátio de recreio), situada na rua de Lisboa, hoje o Centro de Fisioterapia (o primeiro da cidade!).

Desse tempo, ficou-me o horror dos terríveis «problemas» da 4ª classe, com a água a pingar toda a noite, sabendo-se que correriam 25 litros e sabendo-se que havia baldes de 3 litros e de 2 litros, quantos baldes estariam cheios de madrugada, sabendo-se que, para complicar, o sol nascia todas as manhãs às 5 horas menos um quarto!

Odiava tais problemas. Ainda hoje tenho imensa dificuldade em resolvê-los. Fiquei de tal forma traumatizada que, nas conversões entre os euros e o nosso antigo escudo, quando é para multiplicar, divido, e acho tudo barato… Quando é para dividir, multiplico e acho tudo caríssimo!

Também me ficou o horror dos terríveis «bolos» com a régua tão pesada, que batia, sem piedade ou compaixão, nas nossas pequenas mãos estendidas para o castigo. Do meu tempo de escola, à excepção da Maria João, da Ana Paula e da Rory, tenho em crer que todas as outras meninas emigraram com as famílias, na grande debandada (na designada revolução silenciosa) dos anos sessenta para os anos setenta. Então, partiram ++++ apenas da ilha de São Miguel. Até a professora também emigrou!

A ida à catequese, ministrada geralmente por recatadas meninas solteironas, prendadas e envergonhadas, vestidas de escuro e com os olhos postos no chão, obrigava-me a passar dois terríveis obstáculos. O vão da porta do Coliseu Micaelense, onde se escondiam os rapazes da escola do Campo, e a longa avenida Roberto Ivens, onde não era raro eles aparecerem para atormentarem as raparigas. A larga avenida Roberto Ivens, que surgira da demolição da cerca do convento da Esperança (7 de Abril de 1886) albergava a famosa cervejaria anexa á fábrica de cervejas e refrigerantes João de Melo Abreu, que, desde a sua inauguração em 1891, até hoje se tornou um local de atracção.

Na catequese, apenas os carolos do Padre Dinis, apaziguavam a virilidade dos temíveis rapazes. Depois da catequese, nós, as meninas, entrávamos, em bando, no Hospital, ali ao lado, no edifício da Santa Casa da Misericórdia (antigo convento de São Francisco que, após a nacionalização dos bens da Igreja, acolheu a Misericórdia em finais de 1834). Gostávamos de ir visitar os doentes. Não por caridade, mas por curiosidade. Entrávamos e saímos sem que ninguém nos perguntasse ao que íamos…

Não sei porquê, mas gostava de visitar a secção dos queimados. Havia sempre tantas mulheres queimadas…

Era o tempo dos fogareiros e dos fogões de lenha. As botijas de gás ainda eram um luxo, apesar da crescente publicidade do gascidla. As cozinhas ainda não se tinham modernizado! Também os acidentes com as panelas de pressão eram numerosos. Jurei que nunca utilizaria uma panela de pressão! Até hoje não quebrei a minha promessa.

Depois, também entrávamos na Ermida de Nossa Senhora das Dores, quando estava aberta. Gostávamos de saber quem tinha morrido. Como tinha morrido. Quantos anos tinha…A morte, tal como a vida, fazia parte do nosso quotidiano, embora para nós, a morte dissesse respeito aos outros… (Anos depois, morreu o meu pai. Tinha 46 anos. Era um velho. Hoje tenho 50 anos e, tal como Óscar Wilde, não duvido de que quanto mais velho… mais novo!).

O Castelo de São Braz e o monumento do soldado desconhecido sempre me assustaram, mesmo antes de conhecer o trágico episódio da revolta dos calcetas (23 de Abril de 1835).

Mais tarde, comecei a ir com a Gaby, a minha amiga de sempre, às matinées no Coliseu, imponente sala de espectáculos que fora inaugurada em 1912, como símbolo de grande modernidade e como a realização do sonho de Pedro Lima Araújo. No Coliseu, víamos filmes, assistíamos ao tradicional Natal dos Gaiatos, com a imperdível família Leite a cantar e o Senhor Victor Cruz como animador privilegiado. Julgo que cheguei a ver um circo, vindo do México. Minha avó falava dos bailes de Carnaval… (eu já tinha 46 anos quando fui pela primeira vez a um baile do Coliseu…).

Nós, a Gaby e eu, ficávamos sempre na plateia. Os temidos rapazes ficavam na geral e o barulho era ensurdecedor, enquanto «o Santos Figueira» não fechava a luz… Dois filmes, na tarde de domingo, depois de ter ido às sessões de cinema no Sindicato, na rua Caetano Andrade, ao princípio do serão, com o meu pai, onde o Senhor Costa projectava filmes espanhóis da Sarita Montiel e das divas do cinema americano dos anos cinquenta.

Os filmes, a leitura da colecção Cinema revue, as histórias contadas pela minha avó e as noticias lidas em voz alta da secção dos crimes e da justiça no jornal «de Lisboa» pelo meu pai moldaram o meu mundo da infância e da adolescência (Até me atrevo a dizer que moldaram o meu imaginário até hoje!). Um mundo que sempre extravasou os limites da freguesia de São José. Daí que, enquanto aqui vivi, foi como se nunca cá estivesse, e, anos depois, quando parti para estudar na Bélgica, foi como se nunca de cá tivesse partido…

Como era a vida dos jovens na freguesia, no tempo em que não havia televisão, ou seja, antes de 1976?

Até 1974, as diferenças sociais eram profundíssimas.

Cada um tinha o seu lugar e, mais profundo, cada um sabia o seu lugar…

Comecei muito cedo a desafiar as regras estabelecidas, embora quase sempre de forma inconsciente… Quando entrei para a escola primária, 12 dias após o começo das aulas, tive autorização para convidar algumas colegas para o meu aniversário. As minhas novas amigas eram todas da Rua do Desterro! A minha mãe terá ficado surpreendida com as minhas amizades, mas, não disse nada. Ela sempre se recusou ter os «seus pobres». Caridade era para ela aceitar e confortar os outros, com naturalidade. A caridade ostensiva não tinha qualquer significado para ela.

Neste universo das crianças que estudavam, íamos á catequese, frequentávamos o conservatório ou as traumatizantes lições de piano da D.ª Cremilde Macedo (como não aprendi a tocar piano em apenas uma hora como era minha intenção, desisti…), fazíamos patinagem com a Manuela Torres e esperávamos, todos os verões, pela Judite Gomes, a grande patinadora nacional que vinha sempre acompanhada pela mãe, apesar de namorar o inolvidável Toni, jogador do Benfica. Presume-se que era um namoro casto, à boa maneira do passado. Pelo menos as aparências estavam salvaguardadas, como era de bom-tom no tempo.

Os solenes concertos no teatro micaelense atraíam a minha mãe, que gostava de me levar para educar o meu gosto e, sobretudo, o meu ouvido. Apenas o primeiro desejo foi cumprido! Nestas ocasiões, eu era, por vezes, convidada para levar o ramo de flores à pianista, no fim do concerto. Belos tempos de confiança inabalável em mim: nunca duvidei que as palmas da assistência eram para mim!

No verão, íamos aos banhos no Estradinho.

Lembro-me que os homens e as crianças nadavam. Raras eram as senhoras que se aventuravam ao mar. Era mal visto! Apenas uma ou outra enfermeira continental desafiava os recatados costumes locais. Foi com surpresa que vi uma mulher nua: uma enfermeira que se despia diante de nós, crianças, para vestir o seu fato de banho. Achei extraordinário. Desejei ser como ela, quando crescesse. Ainda por cima, ela tinha um dente de ouro e um sinal com pêlo, no queixo. Adorava tais adornos…

Depois, a partir de certa altura abandonámos o Estradinho e passámos a ir para o Clube Naval. O mar já não tinha o intenso cheiro a mar de outrora, mas os espaços de socialização eram bem mais dignos. Aí já me lembro de haver algumas senhoras a tomarem banho…

Deve ser desse tempo, que troquei o tradicional passeio, nas noites de verão, no Campo de São Francisco, como fizera a minha mãe e como já fizera a minha avó, pelos passeios na Marginal… O importante coreto que no passado albergara os músicos nos seus concertos (inaugurado em 1871, e posteriormente sempre restaurado e reconstruído) deixara de ser uma atracção.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades!

As obras para a nova marginal tinham começado em 1948, quando se demoliu o mercado do peixe (que fora inaugurado em 1877) e, inaugurada o primeiro troço da avenida, pelo Ministro da Defesa, o capitão Santos Costa, em 15 de Junho de 1952, logo se criaram novos ritmos de socialização na cidade.

Para nós, quando nos falavam da «varanda de Pilatos», da «ponte do Clemente», do aterro, das arcadas do Roberto, ou quando víamos o cais representado no quadro os Emigrantes de Domingos Rebelo, havia muita dificuldade em saber localizá-los. Faltavam as fotografias. Faltava a memória histórica. Ignorava-se a nossa história. Aliás, havia um grande preconceito em estudar a nossa história. Foi preciso vir a Autonomia, em 1976, para que, com a instalação da Universidade dos Açores e com a criação da RTP/A, se começasse a conhecer o arquipélago.

Antes de fazer 11 anos, aventurei-me em conhecer outras ruas para além das tradicionalmente seguidas para ir até à catequese, na igreja de São José (construída entre 1709 e 1714, sob invocação de São Francisco), que era a rua de Lisboa, ou para fugir aos rapazes, que era a rua Teófilo Braga. Só anos mais tarde, procurei conhecer a razão dos nomes das ruas e procurei saber os percursos dos homens celebrados nos seus nomes.

Mas, dizia eu, aventurei-me a ir mais longe, quando fui tirar, pela primeira vez, o meu Bilhete de Identidade. O novo edifício do Tribunal era lindo. Não me atrevi a olhar para a escandalosa estátua do Adão, recentemente inaugurada…

Recordava-me muito bem de terem sido demolidos os edifícios ao longo da estreita rua para dar lugar ao Tribunal. Recordo particularmente da Eva Moda, um linda loja de tecidos com uma elegante escada em madeira para o primeiro andar. Não devia ser loja para mim, porquanto os brinquedos que eu apreciava estavam na loja da Preta e na papelaria Lusitana. Diziam-me que por ali tinha havido uma loja do judeu Katzan … Mais abaixo, também o meu bisavô tinha tido um armazém com muito negócio (onde hoje são as Galerias Lima 5), mas o fim da navegação a carvão tinha dado cabo do negócio…

Aos 11 anos, então, ingressei na Escola Roberto Ivens, para fazer o Ciclo Preparatório, já sob a nova reforma inaugurada por Veiga Simão. Achava todas as disciplinas difíceis, mas diziam-me que tudo, agora, era fácil. Antes, é que era difícil! Mais tarde, ouvi os mesmos comentários, na Universidade. No tempo da outra senhora é que era difícil… Ainda hoje, continuo a ouvir os mesmos comentários: Antigamente, um professor da universidade é que era bom…

Na minha nova escola, fiz duas amigas, a Emanuel e a Ana. A Emanuel vivia com a avó e eu adorava os lanches que ela nos preparava. A Ana era filha de um comandante da SATA. A tia dela, psiquiatra, tinha-se refugiado na embaixada do Brasil em Lisboa, em manifestação política contra o regime. A casa da Ana era completamente diferente das nossas casas. Em vez de quadros, tinha posters contra a guerra do Viet-nam e em vez de sofás tinha almofadas pelo chão. A mãe dela usava umas túnicas indianas… e fumava. Ouvíamos o Zeca Afonso e outras músicas proibidas… Adorava aquele ambiente e, por isso, nunca comentei em casa tal ambiente. Não por velhacaria, mas por egoísmo. Queria manter o privilégio daquele convívio só para mim.

Nesse tempo, dois factos impressionaram-me para sempre. Também ligados à nossa freguesia: a inauguração do aeroporto da Nordela, em 1969, e um embarque de homens para a guerra, no porto. No aeroporto era a festa. Aliás, muitos foram os que saltaram as barreiras de protecção e correram atrás do avião quando ele estava em preparação para o take off. No porto, pelo contrário, era o desespero, a dor, a consternação. Os familiares já estavam vestidos de preto. Já celebravam o luto antes da morte… A guerra colonial começara em 1961. Quem terei ido despedir?


Freguesia rica em património: o convento de nossa Senhora da Conceição (iniciado em 1664), sede do governo civil e depois do governo regional, a igreja de nossa senhora da esperança, primeiro convento de Freiras aberto em Ponta Delgada (23 de Abril de 1540), a procissão do Senhor Santo Cristo (realizada pela primeira vez em 11 de Abril de 1700).
Em 1921, o Liceu passou do antigo convento da Graça (onde os frades gracianos se tinha estabelecido em 1618) para o Paço, no Largo Mártires da Pátria. O imponente palácio do Barão de Fonte Bela, cuja construção se prolongara entre 1830 e 1839 passava a albergar rapazes e raparigas a partir de então ( o liceu nacional de Ponta Delgada fora inaugurado em 1 de Outubro de 1853).++++

Tabacaria do João Luís, Tabacaria açoriana, o Gil, Largo 2 de Março, a farmácia Garcia, cidade elevada a cidade, em 1546.



A freguesia acolhia as fábricas de tabaco Micaelense e (14 de Abril de 1866) e da Estrela (27 de Janeiro de 1883) … A freguesia mais industrializada da ilha. Matadouro de Santa Clara (11 de Abril de 1886)

Misericórdia e o Asilo de Mendicidade (24 de Junho de 1876)


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