Uma história com solidariedade



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Encontro27.07.2016
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Uma história com solidariedade
miranda.manel@gmail.com
A história que vou contar recebia de um amigo que vive lá longe, no Canadá. O senhor Oliveira mandou-me esta história e eu fiquei sem saber se o meu amigo Oliveira não está dentro desta história.

Correspondo-me com o Oliveira há alguns anos. Nunca nos encontramos. Conhecemo-nos pela internet e a nossa amizade resulta de andarmos num mesmo barco. Andamos no mesmo barco, temos, eu e o amigo Oliveira, filhos com deficiência. Esta história toca-nos e não sei se é um pedaço da vida do Oliveira.

E a história começa assim.

Era um pequeno grupo de amigos que trabalhavam no mesmo sítio. Nesse grupo, o Mauro divertia os colegas com seus ditos e partidas. Todos gostavam dele e puxavam por ele. Não havia dia que o Mauro não pregasse partidas.

O principal alvo das brincadeiras do Mauro era o Hernâni.

O Hernâni falava pouco, mesmo muito pouco. À hora das refeições, o Hernâni afastava-se do grupo. Comia da sua marmita debruçado num silêncio continuado. Comia devagarinho como se estivesse a poupar a comida que trazia, dava a impressão que estava com fastio. Nunca lhe viram na cara ares de saciado. O Hernâni acabava sua refeição compassado pelo comer dos seus colegas. Arrumava a marmita rápido como a querer dizer que não queria dar a conhecer o que comia.

O Mauro estava sempre a pregá-las ao Hernâni. E o Hernâni nunca deu ares de zangado, agastado, aborrecido ou de irritado com partidas do Mauro. Respondia com palavras simpáticas aos atrevimentos do Mauro. Sempre com um sorriso tolerante e amigo e com olhar doce. O comportamento tolerante do Hernâni atiçava mais o Mauro com ditos, partidas e brincadeiras que mais podiam agastar a paciência do Hernâni.

Os companheiros do grupo riam, achavam piada, acrescentavam alguma pimenta às palavras do Mauro. Mas o Hernâni a todos envolvia com um sorriso amigo e tolerante.

Ora um dia o Mauro programou uma partida com antecedência de dias.

A semana trazia um feriado e seguia-se uma ponte.

O Mauro publicitou no grupo que ia aproveitar aqueles dias para umas pequenas férias e que ia fazer pesca e caça, diversões preferidas. E se a pescaria fosse abundante, prometeu que trazia para os colegas uns quilos de pescado. A notícia ficou. Todos desejaram boa pescaria ao Mauro.

De regresso ao trabalho, Mauro apresentou-se carregado. Trazia sacos e arcas com peixe.

Com atitude cerimoniosa, começa a distribuição pelos colegas. Todos agradeciam e admiravam a abundância e a qualidade do pescado.

O saco mais volumoso e pesado ficou para o fim. Foi entregue ao Hernâni.

O Hernâni recebeu, agradeceu e começou a falar num tom de voz desconhecido.

E disse que ia levar tudo para casa, que em sua casa há muitos dias, há meses, há anos não entrava nada assim. E continuou em tom baixo e concentrado a relatar as dificuldades que iam lá por casa. Um filho com deficiência em idade adulta que dava muito trabalho pela incapacidade que tinha. Outros filhos crianças. A mulher doente, desgastada pelo trabalho de arrastar aquela vida de dedicação. Doente por muitas noites acordada para acudir ao filho deficiente. E disse que comia afastado do grupo e muito devagarinho para que os colegas não sentissem a fome que trazia naquela marmita vazia.

Os colegas ouviam em silêncio e sem aqueles risos que acompanhavam as partidas do Mauro.

E é naquele instante que o Mauro salta lá de trás, empurra os colegas para arrancar das mãos do Hernâni o saco, a prenda que lhe tinha distribuído.

No saco do Hernâni, aquele volume e peso era de escamas, cabeças, desperdícios de peixe que não se comem.

Já era tarde. O Hernâni já tinha visto a sua parte. Esboçou um sorriso triste, mas tolerante.

Os colegas, o Mauro, todos começaram a depositar ao lado do Hernâni tudo o que tinham.

E ali começou um movimento de solidariedade para dar dias de futuro à casa do Hernâni.

Na casa do Hernâni começou a entrar o sol. E para o filho com deficiência, o Mauro e os colegas que riam com as partidas solidarizaram-se numa solução para o filho do Hernâni e que fosse solução para outros meninos como o filho do Hernâni.

A história que o meu amigo Oliveira me mandou tocou-me. A vida do Hernâni são pedaços de vidas de muita gente que conheço.



Também eu gostava de dar um abraço ao Hernâni e dar-lhe solidariedade.


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