Uma leitura do brasil: ferdinand denis



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UMA LEITURA DO BRASIL: FERDINAND DENIS

Katia Aily F. de Camargo1


A Europa fundamentou a grandeza do Novo Mundo,

e este será talvez, um dia, o seu mais belo título de glória..”

Ferdinand Denis2
Em meio a atmosfera romântica francesa, Ferdinand Denis publica, em 1831, na Revue des Deux Mondes, um artigo sobre as longínquas terras brasílicas, fonte de sonhos paradisíacos, luxuriantes, refúgio dos gênios, contribuindo, por um lado, com novos elementos de devaneio, e por outro, com importantes informações para os futuros conquistadores de mercado. Do lado de cá do Atlântico, a obra de Denis como um todo, colabora com o movimento de busca de uma identidade nacional.

Revue des Deux Mondes: recueil de la politique, de l’administration et des moeurs, era o título da Revue des Deux Mondes, quando surgiu, em 1829, na França, sob a direção de Prosper Mauroy e Ségur-Dupeyron. Nesse período, dedicava-se totalmente ao estudo comparado dos sistemas políticos e administrativos, e seus artigos eram escritos tendo por base documentos semi-oficiais. No entanto, apesar do interesse que poderia despertar nos leitores de então, a revista não conquistou grande público. Em 1830, tentando contornar sua má situação, busca atrair novos leitores variando a natureza de seus artigos; funde-se, então, ao Journal des Voyages e passa a ser designada Revue des Deux Mondes: journal des voyages, de l’administration, des moeurs, etc., chez les différens peuples du globe. Muda mais algumas vezes de nome e, em 1831, aparece, sob a direção de François Buloz, a Revue de Deux Mondes, designação que perdura ainda em nossos dias.

O êxito da Revue des Deux Mondes deve-se, em grande parte, à combinação da originalidade de revistas inglesas, como a Edinburgh Review e a Quartely Review, com o caráter crítico e exclusivamente contemporâneo dos jornais literários publicados na França. Seu objetivo era audacioso:


Inaugurer sous la despotique autorité d´un seul une exposition permanante de l´industrie littéraire, supprimer toutes les concurrences, centraliser, activer, garantir, être en un mot dans le régime de l´intelligence ce que la Banque de France est pour le commerce; mêler aux romans les voyages, les études d´économie politique et sociale aux portraits littéraires, à la critique d´art, varier les objectifs, multiplier les rubriques, appeler à soi toutes les forces vives et rendre impossible desormais la funèbre légende du talent méconnu – il y avait là certainement un programme conforme aux idées comme aux besoins du siècle3.
Sem doutrina e orientação definidas a priori, a Revue surge pela e para as elites de seu tempo. Suas crenças eram aquelas da burguesia, isto é, confiança no progresso, culto à liberdade individual e defesa da ordem social. A Revue nunca escondeu sua predileção pelos princípios orleanistas. Sob o Segundo Império Francês (1852-1870), passa para a oposição, reunindo em torno de si os adeptos da antiga monarquia. Oposição discreta esta, pois ao mesmo tempo em que guardava seus princípios liberais, não podia se contrapor totalmente ao poder, arriscando-se a desaparecer. Foi mais favorável ao Imperador Napoleão III que ao regime, mantendo, ainda assim, uma posição condescendente para com o Império, uma vez que este restabelecia a ordem e afastava o perigo republicano.

Os primeiros colaboradores da Revue des Deux Mondes eram os mesmos do Le Globe e os doctrinaires; mais tarde, passa a ser um órgão do sansimonismo, acolhendo autores da Revue Française e da Revue de Paris.

Apesar do caráter despótico de François Buloz e das modificações que fazia nas obras que lhe eram apresentadas, atraía para “sua” revista importantes nomes da política e das letras, não só da França, mas de todo o mundo beneficiado pela cultura francesa. A Revue tinha o poder de trazer a glória a um desconhecido, podendo-se dizer que fazia as vezes de antecâmara da Académie Française.

Para satisfazer seu público leitor, François Buloz proibia a publicação de textos de escritores cujo estilo era muito inovador, a expressão muito vivaz ou as idéias muito ousadas, pois corria o risco de perder seu leitor burguês. No entanto, os artigos publicados na Revue des Deux Mondes abrangiam os mais variados temas; nela a ciência e a imaginação tinham seu espaço, contemplando literatura, música, política, história, geografia, medicina, viagens etc.

Fundada justamente no período em que triunfava o Romantismo, a Revue compreende que a força motriz da literatura não estava mais no talento do escritor de tradição clássica. Em vão procurar-se-á por seus representantes nos exemplares da Revue. Desde o seu início é local de encontro para os escritores da “nova escola”. Folheando as páginas de sua Table générale, pode-se encontrar grandes nomes, tais como: Victor Hugo, Alfred de Musset, George Sand, Sainte-Beuve, Gérard de Nerval, Théophile Gautier, Prosper Mérimée, Auguste Barbier, Béranger, Jules Sandeau, Eugène Sue, Edgar Quinet, dentre outros.

A Revue de Deux Mondes pode ser considerada romântica sob um outro prisma. Ela despertava no leitor o gosto pelas longas viagens e pela descoberta do estrangeiro. Xavier Marmier, Jean-Jacques Ampère e Ferdinand Denis são alguns dos exploradores que deixaram seus registros nas páginas desse periódico. O folclore e a literatura, assim como a economia, os problemas sociais e militares dos países fronteiriços à França e também daqueles longínquos como a Índia, a China e a América, também a interessavam. Sua missão seria, então, disciplinar os transbordamentos da sensibilidade e os abusos do talento; corrigir, numa atmosfera de autocrítica, a decadência do Romantismo; manter o princípio do equilíbrio, mestre do talento e da elegância da expressão, que desde o século XVII são considerados as virtudes tradicionais do gênio francês.

Acompanhando esse viés romântico de abertura ao estrangeiro, de interesse pelas terras longínquas, a Revue publica cerca de quarenta artigos sobre o Brasil. De 1831 até o final de 1880 (idade de ouro da revista), o Brasil mereceu atenção especial por parte da Revue des Deux Mondes. Afinidades políticas podem nos ajudar a traçar uma explicação para esse interesse. Os colaboradores da Revue, como já foi mencionado anteriormente, eram adeptos dos princípios orleanistas e pregavam a monarquia constitucional. O Império de D. Pedro II seria um exemplo de ordem e de estabilidade, um chamariz, uma forma de se falar dos problemas internos da turbulenta França mirando-se no Outro, sem chamar a atenção dos censores que tolhiam qualquer manifestação contra o governo ou a religião.

Nesse conjunto de artigos sobre o Brasil, há três temáticas que prevalecem: as narrativas de viagens, gênero informativo por excelência; os balanços gerais da situação do Brasil em épocas precisas (1844, 1850, 1858, 1863 e 1873), abundantes em dados estatísticos, e aqueles propriamente jornalísticos, preocupados com as questões relativas ao tráfico negreiro e aos conflitos Brasil-Inglaterra e também com a Guerra do Paraguai4.

“Voyages dans l’intérieur du Brésil” – artigo publicado na seção Voyage da Revue, em 1831, por Ferdinand Denis, enquadra-se na primeira categoria estabelecida anteriormente. Apesar de ter conhecido o Brasil, Denis não descreve, nestas páginas, suas próprias viagens, mas a de outros “aventureiros” e desbravadores, sobretudo a viagem de M. Auguste de Saint-Hilaire.

Durante três anos (1816-1819) Ferdinand Denis (1798-1890) percorreu terras brasileiras, fixando-se na Bahia por algum tempo. Como a maioria dos viajantes que visitaram os trópicos, Denis ocupa um lugar de intermediário entre dois mundos, entre duas realidades, desempenhando assim duplo papel: quanto à confirmação ou à alteração das expectativas dos seus compatriotas a respeito do continente americano e quanto ao estabelecimento de expectativas, por parte dos habitantes desse Novo Mundo, a quem tais estrangeiros propunham valores e padrões.

Frustrando os planos de seu pai que o preparara para a carreira diplomática, o parisiense Ferdinand Denis embarcou para o Brasil, com destino às Índias Orientais, onde praticaria o comércio. Desembarcando no Rio de Janeiro, encantou-se com o aspecto da natureza e decidiu explorá-la melhor. Viajou primeiro para a Bahia, onde Plasson (cônsul francês) lhe oferecera um emprego de escrevente. Plasson deixa a chancelaria para dedicar-se ao comércio. Berthon, seu substituto, não pretende manter Denis em seu posto de escrevente, o que o leva a tentar a sorte no interior do Brasil; sai em busca das riquezas (Eldorado – Distrito dos Diamantes) que o litoral, muito civilizado, não lhe proporcionara.

De volta à França em 1820, apresenta uma atividade intelectual ininterrupta. A obra que deixou serviria, sobretudo, ao conhecimento do homem e à boa compreensão, pelo europeu, das sociedades tropicais.

Em sua obra sobre o Brasil estão presentes a teoria ambientalista, mais tarde universalizada por Hipólito Taine (1828-1893) e a paixão pelas culturas primitivas, que Humboldt, Spix e Martius e Saint-Hilaire, por exemplo, canalizaram para o estudo da natureza e do meio social brasileiro. Suas descrições permitem que a paisagem exterior vá se tornando, insensivelmente, um estado d’alma e o homem civilizado parece redescobrir-se, renascendo em contato com um mundo desconhecido5.

É interessante salientar, no entanto, que Denis teve uma importância efêmera na França, onde só os estudiosos pré-românticos o encontrarão de passagem:


Ferdinand Denis não se tinha dado conta de que a tal ampliação de benefícios do intercâmbio colonial até o campo da literatura não representava uma lacuna a ser preenchida, mas sim um “perigo a ser evitado” [Sainte-Beuve] [...] muita coisa havia mudado [...] até essa literatura, então ainda incipiente, do “Grande Século Romântico”. O resto do mundo só ia importar, agora, na medida em que pudesse servir de pano de fundo diante do qual deviam sobressair as imensas virtudes dessa Europa civilizada. E, acima de tudo, o nacionalismo era peça imprescindível no ideário básico de qualquer atividade do tempo, fazendo com que todo toque de exotismo se restringisse, necessariamente, à função de elemento de contraste. Em suma, Denis não havia percebido que, com Chateaubriand – como bem observou François Furet –, “o sonho americano [tinha ido] morrer na literatura.6.
Para compensar, procura escrever obras que atinjam o público leitor brasileiro: Scènes de la nature sous les tropiques, de 1824, na qual insere-se a narrativa Les Machakalis (considerada, por Antonio Candido, a “primeira tentativa de ficção indianista” entre nós7) e o Résumé de l’Histoire Littéraire du Portugal, suivi du Résumé de l’Histoire Littéraire du Brésil8, de 1826. Nesta última obra, Denis “funda” a teoria e a história da literatura brasileira. Pela primeira vez, separa-se a literatura do Brasil da de Portugal, pois, para o autor, um país com fisionomia geográfica, ética, social e histórica definida deveria, imprescindivelmente, ter sua literatura própria, pois esta mantém vínculos estreitos com a natureza e a sociedade de cada lugar9.

O Résumé servirá de base a Gonçalves de Magalhães para escrever seu artigo: “Ensaio sobre a História da Literatura Brasileira”, publicado, em 1836, no primeiro número da revista Nitheroy, considerada marco fundador do Romantismo no Brasil.

Num meio intelectual carente de guias, como o Brasil da época, a voz de Ferdinand Denis teve repercussão imediata, pois nos dava os mais oportunos conselhos – consciência de autonomia; verificação do passado literário; reconhecimento da posição central dos temas nativistas e a preocupação com a estética –, traçando, ao mesmo tempo, um verdadeiro programa literário que ia de encontro ao desejo de diferenciação com relação a antiga metrópole e de busca de uma identidade nacional brasileira.
Se essa parte da América adotou uma língua que a nossa velha Europa aperfeiçoara, deve rejeitar as idéias mitológicas devidas às fábulas da Grécia: usadas por nossa longa civilização, foram dirigidas a extremos onde as nações não as podiam bem compreender e onde deveriam ser sempre desconhecidas; não se harmonizam, não estão de acordo nem com o clima, nem com a natureza, nem com as tradições. A América, estuante de juventude, deve ter pensamentos novos e enérgicos como ela mesma; nossa glória literária não pode sempre iluminá-la com um foco que se enfraquece ao atravessar os mares, e destinado a apagar-se completamente diante das aspirações primitivas de uma nação cheia de energia10.
O destaque concedido a ele, em meio a tantos viajantes que por aqui passaram durante o século XIX, deve-se à conjugação de diversos fatores: “Além de ter sido [...] fonte obrigatória de consulta por ser autoridade inquestionável e grande divulgador de tudo o que dizia respeito a esse país, Denis fez um bom trabalho em termos do estabelecimento de parâmetros para a instituição de uma imagem da realidade brasileira”11, que foi utilizada na formação da auto-imagem do brasileiro quando de sua busca por uma identidade nacional.

No artigo de sua autoria publicado na Revue des Deux Mondes, o autor procura, grosso modo, dentro dos propósitos da Revue, descrever a primeira parte da viagem do botânico Auguste de Saint-Hilaire (uma de suas fontes prediletas, aliás, do mesmo modo que a obra de Prince de Neuwied) que veio ao Brasil em 1816, como adido da embaixada francesa, permanecendo nestas terras por seis anos, estudando-as e explorando-as.


O texto inicia-se com a seguinte afirmação: “Peu de personnes savent maintenant que la baie de Rio de Janeiro, avec ses fertiles campagnes, ses rochers à pie, ses collines verdoyantes, a porté le non de France Antartique [...]12”. Baseado nos conhecimentos do leitor sobre o Brasil, Denis faz um balanço “historiográfico” da produção européia a esse respeito e da qualidade de tais escritos. Inicia sua listagem com dois franceses que participaram da primeira tentativa francesa de colonização do Brasil, Jean de Léry e André Thevét, a quem, segundo Denis, devemos as primeiras noções mais completas sobre o Brasil e sobre suas nações guerreiras, pois, antes deles, o que se conhecia eram relatos de homens grosseiros, pouco confiáveis. Seria com Léry que se teria aprendido a julgar as nações até então desconhecidas. Em seguida, o autor comenta a contribuição “romanesca” de Hans Staden e parte para uma enumeração de cronistas, a despeito dos quais, nenhuma obra importante teria sido publicada sobre o Brasil até o século XIX; seu interior permanecia totalmente desconhecido para os europeus; apesar das entradas e bandeiras paulistas e o aspecto físico das regiões visitadas era insuficientemente descrito.
L´ignorance était si complete dans tout ce qui avait rapport à cette immense partie du Nouveau-Monde, que les géographes oubliaient quelquefois de parler de la province du Mato-Grosso, et le Mato-Grosso est plus vaste que la Germanie tout entière13.
Segundo Denis, um grande acontecimento político teria causado profundas modificações no estado dos conhecimentos sobre o Brasil. Tudo começou com a vinda da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro (1808), seguida da abertura dos portos às nações amigas e da inesperada Independência. O medo de disseminação das “idéias malditas” pelos estrangeiros, principalmente pelos franceses, não tinha mais razão de ser, então, podia-se circular mais livremente pelas províncias interioranas.

De acordo com Maria Helena Rouanet14, uma comparação entre as descrições do Novo Mundo feitas por seus descobridores e primeiros visitantes e aquelas dos europeus do século XIX vai revelar uma linha de continuidade flagrante e exemplar15. O paraíso de riquezas, de bom clima e de belas paisagens permaneceu praticamente intacto até os dias de hoje. O próprio Denis, quando vem para o Brasil, também compartilha deste imaginário. Ao escrever a narrativa Os Maxacalis, as aventuras do herói Kumuraí leva-o, com a tribo dos maxacalis, a vastas distâncias: “Não que ela fale de lugares que não poderiam figurar no mapa do Brasil, mas porque a escolha do itinerário [vale do Jequitinhonha], assim como a composição da intriga, remetem, para além da imaginação fabuladora do autor, a um longo trabalho de imaginação do homem: do jovem Denis que, na França sonhava com terras douradas e, no próprio Brasil, continuava a fazê-lo, mais fascinado que cético, a partir de uma das grandes fábulas propostas aos homens pela América setentrional, a do Eldorado”16.

Escritos de Saint-Hilaire já eram de conhecimento de Ferdinand Denis quando este escreve sua narrativa exótica/indianista. Sua leitura da obra do naturalista está totalmente direcionada aos propósitos e preocupações de um “brasilianista” preocupado em divulgar certa imagem do Brasil na França, e, também, por que não, no Brasil, uma vez que os brasileiros eram os leitores mais vorazes da Revue des Deux Mondes fora de seu país de origem17 e a importância de Denis na afirmação de uma identidade nacional e da literatura brasileira já estar selada.

Com o intuito de divulgar com minúcia a primeira parte da obra do botânico e de reforçar suas próprias impressões, Denis abusa das citações, enriquece sua resenha com informações de outros cronistas e procura aumentar sua fidedignidade incluindo a própria experiência e chegando mesmo ao emprego de palavras e expressões em português.



Dentre os tópicos por ele tratados, alguns, mais recorrentes, a temática indígena, o espaço físico/paisagem brasileira, a religião e as riquezas naturais/minerais, deixam transparecer com maior clareza certas imagens romantizadas do Brasil. Como, por exemplo, quando cheio de pesar, relata a aparência de um indígena
A Passanha, au milieu d´un pays à peine cultivé, M. de Saint-Hilaire fait sur les Indiens des observations qui attachent vivement. Il y rencontra un Copoxo et un Panhame, auxquels il ne trouva aucun des traits de la race indienne. Malheureusement, comme il le dit lui-même, ce dernier individu, qui ressemblait à un paysan français, était isolé, et ne pouvait servir à constituer une exception extrêmement remarquable.

Nous avons des raisons pour croire que, trompés par quelques traits généraux souvent dus au climat, les premiers voyageurs se sont trop hàtés de trouver une ressamblance absolue entre tous les indigènes de l´Amérique [...] Nous pensons avec M. de Saint-Hilaire que la teinte cuivrée qu´on leur a attribuée n´est point naturelle à toutes les tribus. [...]18
Ou então, quando, partilhando da idéia de progresso civilizatório, cara aos românticos, escreve sobre a destruição das populações indígenas, afirmando que não é necessário destruí-las, uma vez que podem vir a ser uma população útil.
L´auteur s´élève avec véhémence contre l´usage épouvantable de la part des nations civilisées de faire la guerre à ces misérables indigènes, qui se laissent souvent tuer sur la place où ils combattent, et qu´on pourrait à coup sûr faire passer graduellement dans la population utile19.
As riquezas minerais e vegetais e a precariedade da agricultura brasileira são outros temas presentes na relação do botânico, tendo também chamado a atenção de Denis, pois, para este, um dos “benefícios” da civilização – progresso – seria a introdução do cultivo sistemático da terra, assegurando assim a subsistência da comunidade.
Continuant sa route, qui devient de plus en plus interessante, l´auteur traverse une foule de contrées où l´extration de l´or fait négliger encore l´agriculture. Il signale les causes principales de son faible accroissement, et quelques mots suffiront pour faire comprendre les déplorables résultats que doivent forcément amener les procédés agricoles suivi jusqu´à présent. “Si j´en excepte la province de Rio-Grande-do-Sul, celle des Missions, et la Province Cisplatine, on ne fait usage, dans le Brésil meridional, ni de la charrue, ni des engrais. Tout le système de l´agriculture brésilienne est fondé sur la destruction des forêts; où il n´y a point de bois, il n´y a point de culture...” [...] Notre voyageur, qui ne manque jamais de signaler aux habitans des contrées qu´il a parcourues les moyens d´améliorer leur sort, indique un procédé à employer pour récolter encore du maïs au milieu de ces champes désolés20.
A resenha de Denis aborda ainda outros temas, no entanto, não os apresentaremos aqui por não serem tão recorrentes, apesar de significativos. Gostaríamos de salientar, finalmente, que uma crítica ao sistema colonial é perceptível no transcorrer do texto, seja por meio da pontuação dos maus tratos aos indígenas, seja pela exploração sem limites das riquezas naturais e minerais, seja pela falta de consciência com relação ao progresso. E «c´est là que s´arrête la première partie de sa relation, et si l´on se rappelle le peu de renseignemens qu´on a sur ce pays à la fois si riche et si curieux, on comprendra sans peine l´intérêt qui doit s´attacher à la suite de cet important ouvrage »21.

O balanço historiográfico realizado por Ferdinand Denis em seu artigo evidencia a progressão geral do discurso europeu/francês sobre o Brasil até 1830, ano de publicação de Voyages dans l´Intérieur du Brésil, de Auguste de Saint-Hilaire : de um interesse mais centrado no homem-índio, em suas crenças religiosas, em sua catequização, e limitado à costa brasileira, nos séculos XVI-XVII e XVIII; os relatos posteriores, relativos ao século XIX, não relegaram o homem a um segundo plano, mas enfatizaram as descrições físicas: riquezas do solo, questões administrativas etc., que vinham ao encontro das novas necessidades de seu tempo: busca de mercado e consumidores para os produtos manufaturados e as novas idéias que surgiam. Isto, no entanto, não anula as imagens anteriormente formuladas com relação ao Novo Mundo.

Graças a Ferdinand Denis, portanto, o exótico vai poder identificar-se plenamente ao nacional e, desta forma, combinava-se com a vontade do brasileiro de mostrar sua singularidade, internalizando a opinião européia sobre o nosso justo proceder22. É a auto-imagem do brasileiro sendo formada a partir de hetero-imagens francesas sobre o Brasil.
Bibliografia
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CASTELLO, José Aderaldo. A Literatura Brasileira. Origens e Unidade. São Paulo, Edusp, vol I, 1999.

CÉSAR, Guilhermino (seleção e apresentação). Historiadores e Críticos do Romantismo. 1. A Contribuição européia: Crítica e História Literária. Rio de Janeiro/São Paulo, Livros Técnicos e Científicos/Edusp, 1978.

DANTAS, Luiz. “A Presença e a Imagem do Brasil na Revue des Deux Mondes no Século XIX”. Em COLÓQUIO ORGANIZADO NO QUADRO DO PROJETO FRANÇA-BRASIL, Paris, Atas... Paris, IHEAL, 1991. pp. 109-146

DENIS, Ferdinand. Os Maxacalis. Tradução Maria Cecília de Moraes Pinto, Introdução, notas e apêndice de Jean-Paul Bruyas. São Paulo, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1979.

_______________. «Voyage dans l´Intérieur du Brésil». Revue des Deux Mondes. Paris, Tome Seconde, pp. 149-181, 1831.

HAZARD, Paul. «As Origens do Romantismo». Revista da Academia Brasileira de Letras. vol. XXV, 1927, pp. 24-45.

OLIVEIRA PINTO, Olivério Mário. “Explorações Científicas”. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de (dir.). História Geral da Civilização Brasileira. 3ª ed., São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1973. Tomo I, Vol. II, p. 161-174.

Revue des Deux Mondes. Table générale 1831-1874. Paris, Bureau de la Revue des Deux Mondes, 1875.

ROUANET, Maria Helena. Eternamente em Berço Esplêndido – A Fundação de uma Literatura Nacional. Prefácio Luíz Costa Lima. São Paulo, Siciliano, 1991.

SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro, Mauad, 1999.

SÜSSEKIND, Flora. O Brasil não é Longe Daqui. São Paulo, Companhia das Letras, , 1990.



1 Pós-graduanda do Departamento de Letras Modernas da Universidade de São Paulo; bolsista CAPES.

2 DENIS Apud CÉSAR, Guilhermino. Historiadores e Críticos do Romantismo: 1 – A Contribuição européia: Crítica e História Literária. São Paulo, Edusp, 1978, p. 38.

3 Bury, Henri Blaze de. Mes souvenirs de la Revue des Deux Mondes. Revue Internationale, XVII, 12, 1888.

4 DANTAS, Luiz. “A Presença e a Imagem do Brasil na Revue des Deux Mondes no Século XIX”. Em COLÓQUIO ORGANIZADO NO QUADRO DO PROJETO FRANÇA-BRASIL, Paris, Atas... Paris, IHEAL, 1991, pp. 109-146.

5 ANTONIO CANDIDO. Formação da Literatura Brasileira – Momentos Decisivos. 8 ed. Belo Horizonte/Rio de Janeiro, Editora Itatiaia Limitada, 1997, p. 264.

6 ROUANET, Maria Helena. Eternamente em Berço Esplêndido. A Fundação da Literatura Nacional. Prefácio de Luiz Costa Lima. São Paulo, Siciliano, 1991, p. 217.

7 “ ‘Os Machacalis’, primeira tentativa de ficção indianista, devida a um escritor franco-brasileiro de decisiva importância entre nós, que podemos assim classificar na periferia da nossa literatura.[...]” Cf. ANTONIO CANDIDO. op. cit., p. 264.

8 A parte referente ao Brasil encontra-se traduzida na íntegra na obra já citada de Guilhermino César. Para um resumo da mesma, Cf. CASTELLO, José Aderaldo. A Literatura Brasileira: Origens e Unidade (1500-1960). São Paulo, Edusp, vol. I, 1999, pp. 171-174.

O Résumé d’Histoire du Brésil foi traduzido para o português, em 1831, sendo adotado pelas escolas primárias brasileiras por ordem do governo imperial. Cf. ROUANET, Maria Helena. op. cit. p. 159.



9 ANTONIO CANDIDO. O Romantismo no Brasil. São Paulo, Humanitas/FFLCH/SP, 2002, pp. 20-23.

10 CÉSAR, Guilhermino. op. cit., p. 36.

11 Cf. ROUANET, Maria Helena. op. cit., p. 172.

12 Idem., p. 149.

13 DENIS, Ferdinand. “Voyages dans l’intérieur du Brésil”. Revue des Deux Mondes. Vols. I-II, 1831, p.155. No Résumé, Denis faz uma referência muito parecida: “...Sr. Manuel Aires de Casal [...] foi ele o primeiro a descrever, de modo menos incerto, as duas imensas províncias do Brasil conhecidas sob o nome de Pará e de Mato Grosso. Esta última Capitania era talvez menos conhecida do que a vasta região banhada pelo Rio Amazonas, e, contudo, iguala em extensão a Germânia inteira...” apud CÉSAR, Guilhermino, op. cit., p. 80.

14 Essa continuidade de uma determinada hetero-imagem pode também ser verificada em: SOUSA, Celeste H. M. Ribeiro. Retratos do Brasil. Hetero-imagens Literárias Alemãs. São Paulo, Arte & Cultura, 1996.

15 Para um apanhado geral sobre as imagens que circulavam pela Europa no início do Século XIX Cf. CAMPOS, Pedro Moacyr. “Imagens do Brasil no Velho Mundo”. In: HOLANDA, Sérgio Buarque. História Geral da Civilização Brasileira. 2ª ed. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1965. Tomo II, Vol. I, p. 40-63.

16 DENIS, Ferdinand. Os Maxacalis. Tradução Maria Cecília de Moraes Pinto; Introdução e notas Jean-Paul Bruyas. São Paulo, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1979, p. XXXVII.

17 Cf. SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. 4ª ed. Rio de Janeira, Mauad, 1999, p.197. “Era de bom tom, nas rodas políticas, provar prendas literárias. A Revue des Deux Mondes tornara-se leitura habitual do imperador e ‘principal alimento espiritual dos estadistas brasileiros’. Tinha no Brasil o maior número de seus assinantes fora da França. Propalava-se que era a única leitura do conselheiro Saraiva; D. Pedro, sabendo disso, afirmou, categórico: ‘é quanto basta’.”

18 DENIS, Ferdinand. “Voyage dans l’intérieur du Brésil”, op. cit., pp. 172-173. Grifo nosso.

Flora Süssekind, citando um trecho do Diário de uma Viagem ao Brasil, de Maria Graham, salienta o impacto do elemento europeu na “quebra de harmonia” da imagem brasileira, que deveria ser composta exclusivamente por caracteres originalmente brasileiros. Cf. SÜSSEKIND, Flora. O Brasil não é Longe Daqui. São Paulo, Companhia das Letras, 1990. p. 25.



19 Idem, p. 173.

20 DENIS, Ferdinand. “Voyage dans l’intérieur du Brésil”, op. cit., 1831, pp. 169-170.

21 Idem, p. 181.

22 “No caso brasileiro, impunha-se, portanto, segundo os cânones do momento, considerar o meio e a raça. Quanto a este, tudo se resumiu em tiradas [...] sobre a diferença e a grandeza da natureza tropical, originando forçosamente sentimentos diferentes. Daí um persistente exotismo, que eivou a nossa visão de nós mesmos até hoje, levando-nos a nos encarar como faziam os estrangeiros, propiciando, nas letras, a exploração do pitoresco no sentido europeu, como se estivéssemos condenados a exportar produtos tropicais também no terreno da cultura espiritual. Homens como Denis se encontram na origem de tal processo”. Cf. ANTONIO CANDIDO. Formação..., vol. II, 1997, p. 289.


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