Uma leitura heideggeriana da linguagem em Hamlet



Baixar 51.58 Kb.
Encontro31.07.2016
Tamanho51.58 Kb.




Uma leitura heideggeriana da linguagem em Hamlet
Deize Fonseca

(Mestranda em Ciência da Literatura, Poética, UFRJ)



Resumo: Este trabalho objetiva estabelecer uma leitura da personagem-título do clássico Hamlet,de William Shakespeare (1564-1616) à luz dos conceitos sobre linguagem estabelecidos pelo filósofo alemão Martin Heidegger(1889-1976). Hamlet é a personagem mais loquaz de Shakespeare. Ele estabelece seus er-no-mundo através de sua linguagem. Seus solilóquios, que são verdadeiros discursos filosóficos, desenvolvem sempre o tema da condição humana. Martin Heidegger revolucionou o pensar filosófico ao deslocar o eixo da discussão para uma questão fundamental e definitiva: o que é ser? Segundo Heidegger, muitos entes existem, mas só o homem é. Proponho repensar o ser ou não ser hamletiano a partir dos conceitos de Heidegger, tendo como eixo principal a questão da linguagem.

A peça Hamlet, como toda a obra de William Shakespeare, vem sendo alvo de múltiplas interpretações mundo afora ao longo dos últimos quatro séculos. Diversos aspectos da obra são objeto de análise, em especial questões ligadas à personalidade do protagonista.

De fato, o príncipe da Dinamarca é um personagem controverso e fascinante. Muitos o consideram como a personificação da dúvida, da hesitação e da inação. Outros, um símbolo de vingança. Freud considerou-o um exemplo de suas teorias sobre o complexo de Édipo.

Provavelmente, a melhor análise que pode ser feita sobre o príncipe Hamlet é a sua identificação como homem da Renascença, aquele que após o longo período de certezas calcado na fé absoluta no transcendente da Idade Média, despertou em um mundo em ebulição e ousou perguntar-se: ser ou não ser?

A Renascença pode ser considerada como um período em que as dúvidas humanas ressurgem em todo seu esplendor.De fato, se considerarmos que é a dúvida que move o homem em seu caminho rumo ao progresso, podemos então compreender porque a Era Renascentista é considerada um período tão especial. Aliado ao progresso científico e econômico, o pensamento humano liberto dos grilhões da fé compulsória, pôde estabelecer um novo influxo de descobertas e reflexões, que é constantemente comparado à Antigüidade clássica.

No caso inglês, que é o que nos interessa aqui, já que estamos falando de Shakespeare, o que se deve ter em mente é que a Renascença corresponda à Era Elizabetana.

A Era Elizabetana representa o início da maturidade política, econômica e social da Inglaterra, que começou a construir para si uma nova identidade como nação, diversa da européia. O símbolo maior dessa independência foi a conquista dos mares, que terminou por consolidar o império britânico.

Com o aumento da importância política e econômica da Inglaterra, Londres desenvolveu-se como capital. Sua população crescente, embora nem sempre fosse alfabetizada, tinha o hábito de freqüentar o teatro, hábito este consolidado desde a Idade Média, pelo teatro itinerante de cunho religioso e suas morality plays. Portanto, o surgimento do primeiro teatro público em 1576, fez com que o palco se transformasse em local de debate, espetáculo, entretenimento e reflexão. Neste lugar, o escritor podia oferecer à sua eclética audiência, que ia da própria Rainha ao mais humilde dos súditos, suas idéias e sua visão do mundo. A discussão sobre a natureza humana e suas angústias, era, portanto, vivenciada dia-a-dia, criando um elo entre os atores, autores (que muitas vezes eram as mesmas pessoas), texto e público. Esta interação sócio-lingüística consolidou o papel do Inglês moderno como idioma nacional.

Shakespeare, portanto, viveu uma época inquieta, em que o humanismo era discutido em meio a uma sociedade em movimento. Seu teatro, privado de cenários e recursos cênicos, tem na força da palavra a sua melhor expressão.

Martin Heidegger nasceu na Alemanha em 1889. Talvez tenha sido o mais controverso filósofo de todo o século XX de nossa era. O caráter controverso do pensamento de Heidegger advém da quebra de paradigma que sua contribuição traz. A visão existencialista proposta por Heidegger sugere a necessidade urgente do pensar em livrar-se da metafísica. Isto significa que todas as perguntas filosóficas como “qual o sentido da existência” tornam-se ilógicas, pois antes de discutir-se para quê serviria o existir, dever-se-ia, sim, perguntar o que é existir. Ou melhor, o que é ser.

Partindo desta idéia, Heidegger desenvolve um pensamento filosófico original e único, em que a linguagem, atributo humano por excelência, assume papel fundamental. Discutir as possíveis implicações de uma leitura heideggeriana da linguagem em Hamlet é o que pretendo neste ensaio.

Hamlet é o texto mais longo de Shakespeare. São quase quatro mil linhas de texto, que desafiam diretores e atores ao longo dos séculos. De todo este longo texto, cerca de dois terços são falas do protagonista. Em toda a obra de Shakespeare, Hamlet é o personagem com o maior números de falas.

Mas porque Hamlet fala tanto? Tratando-se de uma peça de teatro, drama que remete à ação pela própria etimologia, deveríamos esperar mais ação do que palavras. É fácil, porém, deduzir porque isto não ocorre: é que Hamlet, ao contrário do que se espera, tem no seu falar a sua ação. Para usar os termos de Heidegger, ele se afirma como ente através de seu discurso. Nenhum outro personagem ratifica melhor a observação heideggeriana de que “a linguagem é a casa do ser, e em sua morada vive o homem”.

O enredo da peça é bastante conhecido: o velho rei Hamlet da Dinamarca morre, e seu irmão Claudius assume o seu lugar, além de casar-se com a viúva rainha Gertrude. Esse conjunto de fatores causa comoção no jovem príncipe Hamlet. Certa noite, após advertência de seus soldados, Hamlet tem um estranho encontro com o espectro de seu falecido pai, que revela ter sido assassinado por Claudius e obriga Hamlet a jurar vingar-se de tal infâmia. A partir deste encontro, Hamlet traça uma linha de ação baseada no raciocínio incessante, que culmina com um banho de sangue, que além de consumar a desejada vingança, sacrifica, além de outros, a mãe e a prometida de Hamlet, Ophelia.

Mas o que é, de fato, a peça? Uma tragédia de vingança, nos moldes tradicionais? Uma tragédia aristotélica, em que Hamlet desempenha o papel do herói trágico? Uma história de mistério que faz de Hamlet um dos primeiros, senão o primeiro detetive da história da literatura?

A fortuna crítica de Hamlet é talvez a maior de toda a literatura, e todos os aspectos acima citados já foram exaustivamente abordados. O que proponho aqui é analisar a personagem Hamlet a partir de sua fala, do seu discurso. É através dele que Hamlet demonstra tanto seu amor quanto seu ódio, inteligência, angústia e estratégia. Todos estes sentimentos de Hamlet chegam até nós não através de suas ações,mas através de suas palavras.

E o que representam estas palavras? Na verdade, o que proponho aqui é afirmar que Hamlet, o tempo todo, está empenhado na mesma eterna busca filosófica: o que é ser. O famoso “ser ou não ser”, pode e deve ser assim interpretado.

É nesse ponto que a filosofia de Heidegger vai ser útil, pela originalidade do pensar sobre a questão do ser que Heidegger propõe. Ao afirmar “ser ou não ser, eis a questão”. Hamlet percebe que tal indeterminação só pode ser vencida através da palavra, conforme vemos nas palavras de Heidegger:

(...) já não haveria simplesmente linguagem alguma. O ente já não se nos manifestaria, como tal, em palavras. Já não haveria nem quem nem o que se pudesse falar ou dizer.Pois dizer e evocar o ente, como tal, inclui em si compreender de antemão o ente, como ente, isto é, o seu ser.Suposto que simplesmente não compreendêssemos o Ser, suposto que a palavra, “ser”, não tivesse nem mesmo aquela significação flutuante, então já não haveria nenhuma palavra. Nós mesmos nunca poderíamos ser aqueles que falam. Já não poderíamos ser aquilo que somos. Pois ser homem significa ser um ente que fala. (apud. MICHELAZZO, 1999, 72).

Se ser homem é ser um ente que fala, então Hamlet, com suas quase duas mil linhas de texto, é o homem por excelência. E todo o tempo somos testemunha de seu esforço em honrar esta condição, uma vez que ele faz de nós seus maiores interlocutores.

Por que o Príncipe se questiona sobre o ser? É simples. Tudo o que Hamlet sabe sobre si mesmo é que ele sofre. Mas, na verdade, ele não sabe porque sofre: se pela perda do pai, pela perda do trono, pela falta de atenção da mãe, pela incapacidade de viver seu amor por Ophelia. Inclusive, essa dúvida se mostra manifesta na fala das outras personagens. Quando Hamlet finge-se de louco (isto é, mostra-se aos demais como louco, usando um ente que mascara o seu ser), todos se propõe a encontrar o “real motivo da loucura de Hamlet”, conforme vemos nessa fala de Polonius:

Madame, juro que não uso arte alguma.

Que Hamlet está louco é verdade. É verdade lamentável/

É lamentável ser verdade; uma louca retórica.

Mas adeus a essa arte,

Louco então: estejamos de acordo.

Falta achar a causa desse efeito,

Melhor dizer, causa desse defeito,

Pois mesmo um efeito defeituoso há de ter uma causa.

Sendo isso o que sobra , nada resta.

(SHAKESPEARE, 1988,44)

A “causa” que se procura, é, portanto, o ser da loucura de Hamlet, que somente ele próprio e Horácio, seu fiel interlocutor, sabem ser fingida. Mas, se Hamlet sabe que ele não é louco, tampouco ele sabe quem ele é. Daí, a sua necessidade de falar, de expressar-se através da linguagem efetuando a busca de seu ser.

A maneira peculiar que Shakespeare encontra para a expressão de Hamlet são os solilóquios. São sete momentos durante o texto em que a fala da personagem dirige-se não às outras personagens, buscando uma interação aparentemente indispensável em se tratando de um drama, mas sim a ele mesmo e a nós, espectadores.

Nestes solilóquios, Hamlet expõe suas maiores dúvidas e questionamentos, em relação a si mesmo, ao mundo que o cerca, e ao seu próprio ser-no-mundo.

O mais famoso dos solilóquios ocorre na primeira cena do terceiro ato, quando o Príncipe já definiu a estratégia da farsa teatral que usará para desmascarar seu tio:

Ser ou não ser - eis a questão.

Será mais nobre sofrer na alma

Pedradas e flechadas do destino feroz

Ou pegar em armas contra o mar de angústias ­

E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;

Só isso. E com o sono - dizem - extinguir

Dores do coração e as mil mazelas naturais

A que a carne é sujeita; eis uma consumação

Ardentemente desejável. Morrer - dormir­

Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!

Os sonhos que hão de vir no sono da morte

Quando tivermos escapado ao tumulto vital

Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão

Que dá à desventura uma vida tão longa.

Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo,

A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso,

As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei,

A prepotência do mando, e o achincalhe

Que o mérito paciente recebe dos inúteis,

Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso

Com um simples punhal? Quem agüentaria fardos,

Gemendo e suando numa vida servil,

Senão porque o terror de alguma coisa após a morte ­

O país não descoberto, de cujos confins

Jamais voltou nenhum viajante - nos confunde a vontade,

Nos faz preferir e suportar os males que já temos,

A fugirmos pra outros que desconhecemos?

E assim a reflexão faz todos nós covardes.

E assim o matiz natural da decisão

Se transformar pálido do pensamento.

E empreitadas de vigor e coragem,

Refletidas demais, saem de seu caminho,

Perdem o nome de ação.

(SHAKESPEARE,1988,63-64)

O que são estas palavras do Príncipe? São a busca do ser causada pela impossibilidade do não-ser. O “morrer-dormir, talvez sonhar, aí está o obstáculo” significa a necessidade de reflexão incessante, a tensão permanente que impossibilita a negação do ente. O nada é a negação do ente e não do ser. Daí, que mesmo que o ente tente anular-se, tente fugir da vida, aniquilando-se, ele não acaba com o ser. Pela sua própria indeterminação, o ser é inacabável e desconhecido. Por isso “a reflexão faz todos nós covardes”. Ao refletirmos, percebemos como a ação é inútil, se não conseguimos definir a nós mesmos.

Os solilóquios são o triunfo da palavra, isto é, da linguagem. Eles são a expressão da verdade de Hamlet, tal qual ele a percebe, tal como ele pensa. E pensar é tratar a linguagem com cuidado, já que a linguagem vem junto com o real, para que ela possa ganhar o estatuto do ser. Não existe o ser sem o verbo, sem a linguagem, pois é a linguagem que articula o ser.

Dessa forma, o que temos na personagem Hamlet não é , jamais, inação, mas sim a sua busca pelo ser por meio do pensamento e da linguagem.

Em seu solilóquio final, Hamlet diz que o homem cujo principal e melhor aproveitamento de seu tempo é comer e dormir, não é mais que um animal, não é mais que uma besta. A compreensão desta afirmativa é fundamental para entendermos o ponto de vista do Príncipe. Comer e dormir são ações usuais entre os homens, que por vezes as julgam fundamentais. Mas os animais também têm estas mesmas faculdades. O que distingue o homem, então? É justamente o uso da linguagem, que permite que o homem seja e não apenas exista. Hamlet, ao negar-se à ação inútil e preferir a reflexão, está nada mais nada menos, que afirmando o seu caráter humano, a sua opção pelo humanizar-se. Neste ponto, Shakespeare harmoniza sua personagem com todo o pensamento Renascentista em que o homem é a própria razão de ser do universo. Novamente nas palavras de Hamlet: “Que obra-prima é o homem! Como é nobre em sua razão! Que capacidade infinita, como é preciso e bem feito em forma e movimento! Um anjo na ação! Um deus no entendimento, paradigma dos animais maravilha do mundo”.(SHAKESPEARE,1988, 51).

No seu último solilóquio, Hamlet utiliza-se da linguagem para reafirmar a sua crença nas necessidades do pensamento e da reflexão, muito embora esteja prestes a partir para a ação, o que ocasionará o desfecho da peça:

Todos os acontecimentos parecem me acusar,

Me impelindo à vingança que retardo!

O que é um homem cujo principal uso e melhor

aproveitamento

Do seu tempo é comer e dormir? Apenas um animal.

É evidente que esse que nos criou com tanto entendimento

Capazes de olhar o passado e conceber o futuro, não nos deu

Essa capacidade e essa razão divina

Para mofar em nós, sem uso. Ora, a não ser por

esquecimento animal,

Ou por indecisão pusilânime,

Nascida de pensar com excessiva precisão nas

conseqüências ­

Uma meditação que, dividida em quatro,

Daria apenas uma parte de sabedoria

E três de covardia - eu não sei

Por que ainda repito: - "Isso deve ser feito",

Se tenho razão, e vontade, e força e meios

Pra fazê-Io. Exemplos grandes quanto a Terra me incitam;

Testemunha é este exército, tão numeroso e tão custoso,

Guiado por um príncipe sereno e dedicado,

Cujo espírito, inflado por divina ambição,

É indiferente ao acaso invisível,

E expõe o que é mortal e precário

A tudo que a Fortuna, a morte e o perigo engendram,

Só por uma casca de ovo. Se verdadeiramente grande

É não se agitar sem uma causa maior,

Mas encontrar'motivo de contenda numa palha

Quando a honra está em jogo. Como é que eu fico, então,

Eu que com um pai assassinado e uma mãe conspurcada,

Excitações do meu sangue e da minha razão,

Deixo tudo dormir? E, pra minha vergonha,

Vejo a morte iminente de vinte mil homens

Que, por um capricho, uma ilusão de glória,

Caminham para a cova como quem vai pro leito,

Combatendo por um terreno no qual não há espaço

Para lutarem todos; nem dá tumba suficiente

Para esconder os mortos? Oh, que de agora em diante

Meus pensamentos sejam só sangrentos; ou não sejam nada!

(SHAKESPEARE,1988,99-100)

“Meus pensamentos sejam só sangrentos; ou não nada”. Com que angústia o Príncipe diz isso! Transformar o pensamento em sangue vai contra tudo o que Hamlet lutou por toda a sua jornada. Seu pensamento que se transformou em linguagem porque se expressou fortemente através dos solilóquios, tem que abrir mão do caráter humano e transformar-se em ação, sangue e destruição. Hamlet sabe que este será o seu fim. Até então, ele vivia uma experiência com a linguagem e isso o manteve vivo. Foi graças à linguagem que ele conseguiu a manifestação de culpa de seu tio quando este assistiu à peça criada por Hamlet para desmascará-lo. Foi com a linguagem que ele tentou poupar Ophelia do sofrimento ao tentar afastá-la dele. Foi também com a linguagem que ele conseguiu livrar-se dos traidores Rosencrantz e Guildenstern, enviando-os ao cadafalso em seu lugar.

Mas agora, não há mais espaço para a linguagem na vida de Hamlet: como conseqüência de seu único ato até então, o assassinato acidental de Polonius, ele terá que agir mais uma vez, sendo-lhe negado o uso da linguagem. E aí, temos o desenlace não só da peça mas também da vida do protagonista. Em seu texto, “A essência da linguagem”, Heidegger faz a seguinte assertiva:

Fazer uma experiência com algo, seja uma coisa, com um ser humano,com um deus,significa que esse algo nos atropela, nos vem ao encontro,chega até nós, nos avassala e transforma. "Fazer" não diz aqui de maneira alguma que nós mesmos produzimos e operacionalizamos a experiência. Fazer tem aqui o sentido de atravessar, sofrer, receber o que nos vem ao encontro, harmonizando-nos e sintonizando-nos com ele. É esse algo que se faz, que se envia, que se articula.

Fazer uma experiência com a linguagem significa portanto: deixarmo-nos tocar propriamente pela reivindicação da linguagem, a ela nos entregando e com ela nos harmonizando. Se é verdade que o homem, quer o saiba ou não, encontra na linguagem a morada própria de sua presença, então uma experiência que façamos com a linguagem haverá de nos tocar na articulação mais íntima de nossa presença. Nós, nós que falamos a linguagem, podemos nos transformar com essas experiências, da noite para o dia ou com o tempo. Mas talvez fazer uma experiência com a linguagem seja algo grande demais para nós, homens de hoje, mesmo quando essa experiência só chega ao ponto de nos tornar por uma primeira vez atentos para a nossa relação com a linguagem e partir daí permanecermos compenetrados nessa relação.(HEIDEGGER,2001,121)

Este é o processo atravessado por Hamlet. Ele sofre e harmoniza-se com a linguagem, até dissolver-se nela. Ao verbalizar-se (mas do que simplesmente atuar ou agir), Hamlet tenta desesperadamente aproximar-se da linguagem, sofrer esta experiência e encontrar-se. Não é por acaso que Shakespeare introduz seiscentas novas palavras na língua inglesa nesta única peça, a exemplo de Heidegger, que também recria o idioma alemão para expressar a sua filosofia sobre o ser.São necessárias muitas palavras, muita reflexão, e muita verbalização para investigar-se o ser. Como diz Heidegger “somente quando se encontra a palavra para a coisa, a coisa é coisa.” e “nenhuma coisa é onde falha a palavra”. (HEIDEGGER, 2001, 126-127)

Por isso Hamlet não pode permitir que suas palavras falhem. Esta é a condição essencial em sua busca pelo ser.

No quinto ato temos a cena do cemitério. Ali, num diálogo com Horácio e os coveiros, Hamlet penetra na essência da finitude humana. Ao especular sobre os ossos, a quem teriam pertencido e o atual estado de impossibilidade daqueles entes, Hamlet cria também, em nós a mesma angústia: “A que serventias vis podemos retornar, Horácio! Nada nos impede de seguir o caminho da nobre cinza de Alexandre,até achá-lo calafetando um furo de barrica”.(SHAKESPEARE, 1988,121).

Ao perder a linguagem junto com a vida, o homem perde a essência humana. Alexandre torna-se cinza e massa de calafate. É o fim da busca pelo ser, mas não a resposta definitiva. Esta mesma, talvez, nunca seja achada. Como diz o Príncipe em sua última fala, o resto é silêncio. E o silêncio é o calar da linguagem.

As buscas de Heidegger e Hamlet são semelhantes. Ambos são personas que ao abrirem mão do metafísico para buscar o ser, encontram um novo tipo de transcendência, que vai além do moral, do religioso,ou mesmo do filosófico.Em sua busca pelo ser, ambos buscam encontrar a essência daquilo que faz do homem o humano: a materialização do pensamento através da linguagem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BOUQUET,Guy.Teatro e Sociedade: Shakespeare.São Paulo: Perspectiva,1969

HEIDEGGER,Martin.”A essência da linguagem”.In _ _ _ A Caminho da Linguagem.Petrópolis:

Vozes, 2001,pp. 120-171



___________”O que quer dizer pensar?” In _ _ _ Ensaios e Conferências. Petrópolis:

Vozes,2002,pp.111-124



MICHELAZZO, José Carlos.Do um como princípio ao dois como unidade- Heidegger e a

reconstrução ontológica do real.São Paulo: FAPESP/Annablume.1999

SHAKESPEARE,William.Hamlet.Tradução de Millôr Fernandes.Porto Alegre: L&PM,1988


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal