Uma Mulher Traída Barbara Delinsky



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Uma Mulher Traída



Barbara Delinsky
www.LivrosGratis.net
Dados da Edição: Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2002, 2ª Edição.

Título Original: A Woman Betrayed.

Género: romance.

Digitalização: Dores Cunha.

Correcção: Edith Suli.

Estado da obra: corrigida.

Numeração de Página: Cabeçalho.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destina-se unicamente à leitura de pessoas portadoras de deficiência visual. Por força da lei de direitos de autor,

este ficheiro não pode ser distribuído para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.


2ª EDIÇÃO

Tradução: A. B. Pinheiro de Lemos

BERTRAND BRASIL

Copyright O 1991, Barbara Delinsky

Título original: A Woman Betrayed

Capa: Leonardo Carvalho

2002

Impresso no Brasil Printed in Brazil



CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte

Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Rj

Delinsky, Barbara

2ª ed. Uma mulher traída / Barbara Delinsky; tradução de A. B. Pinheiro de Lemos - 2ª ed. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

518p.

Tradução de: A woman betrayed ISBN 85-286-0821-2



1. Romance americano. I. Lemos, A. B. Pinheiro de (Alfredo Barcelos Pinheiro de),1938- II. Título.

CDD - 813 O1-0725 CDU - 820(73)-3


Todos os direitos reservados pela:

EDITORA BERTRAND BRASIL LTDA. Rua Argentina,171-1ó andar - São Cristóvão 20921-380 - Rio de ]aneiro - RJ

Tel.: (OXX21) 2585-2070 Fax: (OXX21) 2585-2087
Não é permitida a reprodução total ou parcial desta obra, por quaisquer meios, sem a prévia autorização por escrito da Editora.

Atendemos pelo Reembolso Postal.

Como sempre, para Eric, Andrew, Jeremy e o pai deles.

I

O silêncio era ensurdecedor. Laura Frye estava num canto do sofá de couro no escritório, os braços em torno dos joelhos, ouvindo-o, minuto a minuto. O chiado do



calor passando pela saída do aquecimento não conseguia rompê-lo. Nem o barulho da chuva contra as janelas. Nem as batidas ritmadas do pequeno relógio de navio, na

prateleira por trás da escrivaninha.

Eram cinco horas da madrugada e seu marido ainda não voltara para casa. Não telefonara. Não mandara nenhum recado. Sua escova de dentes continuava no banheiro, junto com o aparelho de barbear e a loção, o pente e a escova de cabo de prata que Laura lhe dera como presente pelo vigésimo aniversário de casamento, no verão anterior. O conteúdo de seu armário continuava intacto, até a pequena bolsa que ele costumava levar para o clube toda segunda, quarta e sexta-feira. Se tivesse ido dormir em outro lugar, estaria totalmente despreparado, o que não era típico de Jeffrey, como Laura sabia muito bem. Era um homem meticuloso, uma criatura organizada. Nunca viajava, nem mesmo por uma única noite, sem levar uma cueca e uma camisa limpas e um sabonete desodorante.

Além disso, nunca se ausentava sem avisar. Era o que deixava Laura ainda mais assustada. Não tinha idéia do paradeiro do marido. Não podia saber o que acontecera.

Não que não tivesse imaginado. De um modo geral, Laura não era propensa a divagações. Mas dez horas de espera haviam cobrado

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seu tributo. Imaginara que ele sofrera um derrame, estava caído inconsciente por cima da mesa, no escritório deserto da Farro & Frye. Imaginara que sofrera um acidente ao voltar para casa, que o carro e tudo dentro haviam queimado, de tal forma que o reconhecimento era impossível. Ou, alternadamente, que batera com a cabeça no párabrisa, fora projetado para fora do carro, começara a vaguear pela chuva fria de dezembro, sem saber quem era, nem onde estava. Laura chegara ao ponto de imaginar que o marido parara num posto para pôr gasolina e se tornara refém de um viciado que acabara de assaltar uma loja próxima da 7-Eleven.



As explicações mais racionais para a ausência de Jeff haviam se desvanecido com o passar da noite. Não havia a menor possibilidade de imaginá-lo reunido com um cliente até cinco horas da madrugada. Talvez em abril, com um novo cliente, cujos registros fiscais eram um caos, pouco antes da apresentação da declaração do imposto de renda. Mas não na primeira semana de dezembro. E não sem avisá-la. Jeff sempre ligava se ia se atrasar. Sempre.

Na noite passada, eles eram esperados na abertura de uma exposição no museu. O Cherries fornecera o bufê. Embora uma das equipes de Laura tivesse cuidado de tudo no local, ela passara a tarde na cozinha do Cherries, recheando cogumelos, espetando peru defumado e cerejas, cortando costeletas de cordeiro. Queria que nào apenas a comida estivesse perfeita, mas também as mesas, as bandejas e o bar. Por isso, seguira o caminhão até o museu, a fim de supervisionar toda a arrumação.

E tudo ficara impecável. Ela voltara para casa, a fim de trocar de roupa e pegar Jeff. Mas Jeff não aparecera.

Laura apertou os joelhos com mais força ainda, numa tentativa de preencher o vazio interior. Olhou para o telefone. Tocara duas vezes durante a noite. A primeira ligação fora de Elise, que se encontrava no museu com o marido, e queria saber por que Laura e Jeff ainda não haviam aparecido. A segunda fora de Donny querendo falar com Debra, parte do ritual noturno dos dois. Namorados de dezesseis anos faziam isso, Laura sabia... e também sabia que maridos de quarenta e poucos anos que sempre telefonavam para suas esposas se iam

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se atrasar só não ligariam se houvesse alguma coisa muito errada. Por isso, ela fizera várias ligações de busca. Mas fora tudo em vão. A única coisa que ela descobrira



durante a noite fora que o telefone funcionava muito bem.

Fez um pensamento positivo para que ele tocasse naquele momento... e que fosse Jeff informando que tivera uma reunião até tarde com um cliente, quase pegara no sono

ao volante, quando voltava para casa; resolvera parar e dormir um pouco. É verdade que isso não explicaria por que a polícia não avistara o carro. Afinal, o condado

de Hampshire não era tão remoto para não ter patrulhas regulares. Ou tão insensível para não dar a menor importância a um Porsche novinho parado no acostamento,

ainda mais se pertencia a um proeminente casal de Northampton.

O nome Frye saía nos jornais com frequência; Jeff, por causa dos seminários fiscais que costumava realizar, e Laura, por causa do Cherries. A imprensa local era

exigente, parecia indiferente a qualquer coisa relacionada com os altos escalões da comunidade. O que indubitavelmente era o caso do restaurante. Mas Laura alimentava

tantos luminares, numa base regular, que ganhava referências frequentes.

O senador estadual DiMento e seus sussessores discutiam manneiras de promover cortes no orçanmento,

enquanto combinam saladas e legumes cozidos no vapor no Clierries,

esta semana, escrevia Duggan O'Neil, do Hampshire County Sun. Duggan O'Neil era capaz de arrasar

com qualquer pessoa, e já fizera isso com Laura; mas publicidade era publicidade, dizia Jeff. O reconhecimento do nome era sempre importante.

O policial com quem Laura falara pelo telefone sabia quem ela era. Até se lembrava do carro de Jeff, que já vira estacionado na frente do restaurante. Mas nada em seus registros indicava que alguém do departamento vira ou ouvira falar do Porsche preto naquela noite.

- Darei alguns telefonemas, Sra. Frye - dissera ele. - Ofereçame uma fatia de torta de cereja e até ligarei para a polícia estadual.

Mas todas as ligações deram em nada. Para consternação de Laura, o policial não permitira que ela fizesse um registro de pessoa desaparecida.

- Só podemos aceitar depois de vinte e quatro horas de ausência.

- Mas coisas terríveis podem acontecer em vinte e quatro horas!

- E coisas boas também... como um marido perdido voltar para

casa.

um marido perdido voltar para casa. As palavras provocaram um profundo ressentimento em Laura. Sugeriam que era uma inepta como esposa, uma inepta como mulher, que



Jeff se sentia entediado, saíra em busca de diversão e voltaria para casa quando a diversão acabasse. Talvez o policial vivesse assim, mas não era o caso de Jeff e Laura Frye. Viviam juntos há vinte anos. E se amavam.

Mas onde ele se metera? A pergunta a atormentava. Imaginara-o assassinado por um carona, cercado por satanistas, até mesmo

sequestrado, com Porsche e tudo, por

uma espaçonave alienígena. As possibilidades eram intermináveis, cada uma mais estranha do que a anterior. Coisas estranhas aconteciam, ela sabia, só que apenas

com as outras pessoas. Não com ela. E não com Jeff. Ele era o homem mais firme, mais previsível e mais incorruptível que Laura já conhecera. Era por isso que a ausência

dele não tinha explicação.

Laura esticou as pernas, levantou-se, atravessou descalça a sala de estar escura, foi até a janela da frente. Entreabriu as cortinas para olhar. O vento soprava,

balançando os galhos dos pinheiros, tangendo a chuva sobre o caminho de blocos de pedra, com um lampião aceso lá na frente.

Pelo menos não estava nevando. Ela se lembrou de ocasiões, no início do casamento, em que ficava em casa com as crianças durante tempestades, esperando que Jeff voltasse do trabalho. Ele era um Contador recém-formado na ocasião, lutando para obter sucesso na carreira. Moravam numa casa alugada de dois andares, dividida por duas familias. Laura costumava ficar de pé junto da janela, brincando com as crianças. Faziam desenhos no vidro, embaçado pela respiração. Com a maior regularidade, Jeff sempre chegava por entre a neve, mal dando tempo para que ela se preocupasse.

Jeff trabalhava agora num prédio novo no centro da cidade. Não moravam mais naquela primeira casa alugada. Nem na casa velha em estilo vitoriano que haviam comprado em seguida. Sua residência era agora em estilo Tudor, graciosa, de alvenaria, numa rua arborizada, a

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dez minutos, de carro, do escritório. Era um percurso rápido e tranquilo. Mas, por algum motivo, Jeff não o percorrera.



- Mamãe?

Laura virou-se para deparar com Debra parada sob a arcada da sala de estar. Tinha os olhos sonolentos, os cabelos escuros estavam desgrenhados. Usava uma camisola com as palavras UMASS COED

NAKED LACROSSE escritas ao longo dos seios, que se haviam tornado mais cheios durante o último ano.

Consciente do coração disparado, Laura fez um esforço para

sorrir.

- Oi, Deb.



Debra parecia irrikada.

- Ainda são cinco horas da madrugada, mamãe. Por que já está acordada?

Sem saber o que dizer, como já acontecera na noite passada, quando a filha chegara em casa e não encontrara o pai, Laura respondeu com uma pergunta:

- E por que você está acordada?

- Despertei pensando na noite passada e comecei a me preocupar. Papai nunca tinha se atrasado tanto. Tive um pesadelo de que alguma coisa horrível havia acontecido. la verificar na garagem se o Porsche... - Ela parou de falar abruptamente. Seus olhos examinaram Laura, na semi-escuridão. - O carro está na garagem, não é?

Laura sacudiu a cabeça.

- Onde papai está?

Laura deu de ombros.

- Tem certeza de que ele não ligou e disse alguma coisa, mas depois você esqueceu? Anda tão ocupada que às vezes esquece algumas coisas. Ou talvez ele tenha deixado um recado na secretária-eletrônica, mas foi apagado. Talvez ele tenha passado a noite na casa da vovó Lydia.

Laura considerara essa possibilidade. Fora por isso que passara pela casa da sogra quando saíra à procura de Jeff. Em teoria, Lydia podia estar passando mal e telefonara para o filho... embora fosse mais provável que ela chamasse Laura primeiro. Afinal, era Laura quem

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cuidava dela. A pessoa que abastecia a casa com comida levava-a ao médico, chamava a faxineira, o dedetizador e o bombeiro.



- Ele não está lá. Já verifiquei.

- E no escritório?

- Também estive lá.

Para consternação do vigia, que parecia mais sonolento do que Debra agora, Laura insistira em verificar a garagem à procura do Porsche. Mas a vaga de Jeff - e toda

a garagem subterrânea - estava vazia.

- Ele não está com David?

- Não. Já telefonei.

David Farro era o sócio de Jeff. Mas ele não sabia de nenhuma reunião que Jeff pudesse ter naquela noite. Nem a secretária de Jeff, que deixara o escritório às cinco horas da tarde, quando Jeff ainda se encontrava em sua sala.

- Ele não pode ter saído com um cliente?

- É possível.

- Mas vocês deveriam ter ido ao museu. Ele não teria telefonado se não pudesse ir?

- Acho que sim.

- Talvez houvese algum problema com o telefone.

- Não havia nenhum.

- Talvez ele tivesse problemas com o carro.

Neste caso, Jeff teria ligado, Laura sabia. Ou pediria que alguém ligasse. Ou a polícia o teria encontrado.

- Então onde ele se meteu? - gritou Debra.

Laura sentia-se apavorada com seu próprio desamparo.

- Não sei!

- Ele tem de estar em algum lugar! Ela passou os braços pela cintura.

- Tem alguma sugestão?

- Eu? - Debra quase gritou. - O que eu sei? Você é a adulta aqui. E a mulher dele. Quem deveria conhecê-lo por dentro e por fora. Você é quem pode saber onde papai está.

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Laura virou-se para a janela, abriu as cortinas, tornou a olhar



para a rua.

- Mamãe?


- Não sei onde ele está, meu bem.

- Essa é ótima. Sensacional.

- Não é, não - murmurou Laura, esquadrinhando a rua, muito nervosa. - Mas não há muita coisa que eu possa fazer neste momento. Seu pai vai aparecer e tenho certeza de que dará uma boa explicação sobre o motivo pelo qual não voltou para casa antes e não telefonou.

- Se eu algum dia passasse a noite inteira fora, sem telefonar,

você me mataria.

- Posso muito bem matar seu pai! - exclamou Laura, numa explosão de raiva.

Depois de tudo por que ela passara, a explicação de Jeff teria de ser inspirada, se ele quisesse ser poupado de sua fúria. Mas logo a raiva desapareceu e o medo voltou. As possibilidades afloraram de novo em sua mente, cada uma pior do que a outra.

- Ele voltará para casa - insistiu ela, tanto para si mesma quanto para Debra.

- Quando?

- Em breve.

- Como sabe?

- Apenas sei.

- E se ele estiver doente ou ferido, morrendo em algum lugar? E se papai estiver precisando de nossa ajuda? Vamos ficar aqui, conversando numa sala seca e aquecida, esperando que ele dê notícias? Perdemos todo esse tempo, quando deveríamos estar lá fora, à sua procura!

As indagações de Debra não eram novidade. Laura já fizera todas, mais de uma vez. Agora, ela argumentou:

- Procurei-o na noite passada. Circulei por metade da cidade e não avistei o Porsche. Liguei para a polícia. Também não viram nada. Se houvesse um acidente, a polícia me avisaria.

- Quer dizer que pretende continuar parada aqui, olhando pela janela? Não se sente transtornada?

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Debra era uma garota de dezesseis anos fazendo as perguntas de uma garota assustada de dezesseis anos. Laura era uma mulher de trinta e oito anos, sem respostas,



o que tornava sua frustração ainda maior. Ela virou-se para a filha e disse, procurando manter a voz tão firme quanto podia, embora estivesse tremendo por dentro:

- Claro que me sinto. E muito. Estou transtornada desde as sete horas da noite passada, quando seu pai já estava com uma hora de atraso.

- Ele nunca faz isso, mamãe. Não é mesmo.

- Sei que não, Debra. Fui até o escritório. Circulei pela cidade à procura do Porsche. Telefonei para seu sócio, para a secretária, para a polícia. Mas a polícia

não pode fazer nada, antes de vinte e quatro horas de ausência, e ainda não passou nem a metade desse tempo. O que mais você quer que eu faça? Que eu saia andando pelas ruas, debaixo da chuva, gritando o nome de seu pai?

Os olhos furiosos de Debra brilharam na semi-escuridão.

- Não precisa ser sarcástica.

Com um suspiro, Laura atravessou a sala e foi pegar a mão da filha.

- Não quero ser sarcástica. Mas estou preocupada demais, e sua crítica não ajuda nem um pouco.

- Não fiz nenhuma crítica.

- Fez, sim.

Debra dizia o que pensava. Sempre fora assim. A desaprovação partindo de uma criança pequena e atrevida não era tão terrível. Mas era diferente quando vinha de alguém que, assim como Laura, tinha um metro e sessenta e oito de altura e pesava

cinquenta e dois quilos, tomava emprestadas as roupas, maquilagens e perfumes da mãe,

podia guiar um carro, declarava que sabia dar beijo de língua e era fisicamente capaz de gerar uma criança.

- Acha que eu deveria estar fazendo mais - continuou Laura.

- Mas será que não percebe que estou impotente? Não sei se aconteceu algum problema. Pode haver uma razão lógica para a ausência de seu pai. Não quero fazer um escândalo antes de ter bons motivos.

- Não acha que doze horas de sumiço é um bom motivo?

Debra virou-se para ir embora, mas Laura segurou-a pelo braço.

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- Onze horas - disse ela, com um suave controle. - É claro que é um bom motivo, meu bem. Mas



não posso fazer mais nada neste momento, além de esperar.

O silêncio subsequente foi opressivo, com uma súplica tácita de compreensão.

Debra baixou a cabeça. Os cabelos caíram para a frente, ocultando-a do olhar de Laura.

- E eu, mamãe? O que devo fazer?

Laura afastou os cabelos do rosto da filha, ajeitou-os por trás de uma orelha. Por um instante, vislumbrou a preocupação da filha. Mas já havia desaparecido quando Debra ergueu a cabeça. Havia desafio em seu lugar. Laura disse, considerando que isso era uma parte essencial do que fazia com que a filha fosse especial:

- O que você deve fazer agora é voltar para a cama. Ainda é muito cedo para se levantar.

- Grande idéia... Como se eu fosse capaz de voltar a dormir. Debra lançou um olhar para a jeans e para a suéter da mãe.

- Parece até que você conseguiu dormir. - Ela virou um pouco a cabeça, farejou. - Esteve cozinhando, não é? Que cheiro é esse?

- Borscht.

- Essa não!

- Não ficou tão ruim.

Jeff adorava a sopa com creme por cima. Talvez, lá no fundo, Laura esperasse que o cheiro o atraísse de volta para casa.

- Não posso acreditar que você tenha cozinhado.

- Sempre cozinho.

- No trabalho. Não em casa. Na maioria das vezes você nos serve uma sopa de pacote, pizza congelada ou espaguete com almôndegas do microondas. Deve estar se sentindo culpada por papai ter desaparecido.

Laura ignorou a insinuação que poderia muito bem ter passado por sua própria mente analítica.

- Ele não desapareceu. Apenas está atrasado.

- E você passou a noite toda cozinhando.

- Não a noite toda. Apenas uma parte.

Além do borscht, ela fizera um coq au vin, que provavelmente

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congelaria, já que ninguém planejava jantar em casa nas duas próximas noites. Também preparara um bolo floresta-negra e duas bandejas de biscoitos, uma das quais mandaria



para Scott.

- Passou a noite toda acordada? - perguntou Debra.

- Dormi um pouco.

- Não se sente cansada?

- Não. Estou bem.

Laura estava ansiosa demais para dormir. Fora por isso que decidira cozinhar. Em circunstâncias normais, cozinhar sempre a relaxava. Não fora o que acontecera naquela noite, mas pelo menos mantivera as mãos ocupadas.

- Pois eu também estou bem - declarou Debra. - Vou tomar um banho de chuveiro e me vestir. Depois, ficarei sentada aqui com você.

Laura sabia o que viria em seguida. Debra era muito sociável. Quase não havia um fim de semana em que não saísse, se não com Donny, então com Jenna, Kim ou Whitney, ou todas as três e mais alguém. No entanto, por mais que se sentisse atraída pelas amigas, era alérgica aos estudos. Ao menor pretexto, queria passar o dia inteiro em casa.

- Você irá à escola quando chegar a hora - insistiu Laura.Como faz todos os dias.

- Não posso ir à escola hoje. Quero ficar em casa.

- Não há nada para você fazer aqui. Quando seu pai chegar, ele vai querer dormir.

- Presumindo que ele não tenha dormido.

Laura sentiu um ímpeto de indignação.

- Onde ele poderia ter dormido?

Debra arregalou os olhos com uma expressão de inocência.

- Não sei. O que vocrcê acha?

- Não tenho a menor idéia! Se eu soubesse, não estaríamos paradas aqui a esta hora discutindo o assunto!

Ao ouvir a estridência em sua voz, Laura compreendeu como estava irritada... e como isso era inesperado. Com um esforço para se acalmar, ela acrescentou:

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- Estamos andando em círculos. Eu não sei de nada, você não sabe de nada. Tudo o que podemos fazer, por enquanto, é esperar que seu pai telefone. Se não houver qualquer



notícia até oito ou nove horas, posso começar a telefonar. - Ela emoldurou o rosto da filha com as mãos. - Não vamos brigar agora. Detesto brigar. E você sabe disso.

Debra parecia querer dizer alguma coisa, mas depois se controlou e mudou de idéia. Com um aceno de cabeça compassivo, virou-se e deixou a sala. Laura ouviu seus

passos na escada, o rangido ocasional de um degrau, o barulho da porta do banheiro sendo fechada. Só quando ouviu o som do chuveiro aberto é que voltou ao escritório.

- Mas que droga, Jeff! - murmurou ela. - Onde você se meteu?

Uma coisa era fazê-la passar por um inferno durante toda a noite, outra era envolver as crianças. Scott estava na universidade, dormindo, na ignorância bem-aventurada,

em seu dormitório na Penn. Mas Debra se encontrava em casa, acordada agora, sabendo que o pai desaparecera.

Laura não podia acreditar que Jeff passara a noite inteira fora, deliberadamente. Era um pai e marido devotado. Só

podia haver alguma coisa muito errada.

Ela parou na porta do escritório. Era a sala de Jeff, seu refúgio. Praticamente, era uma biblioteca, porque havia livros por toda parte. Os livros continuavam ali,

mas agora havia também um aparelho de TV e um videocassete para diversão. Ele também trabalhava ali, o que era o motivo para a mesa de mogno. Antes, havia ali blocos

de papel, livros encadernados em couro, lápis, canetas e outros materiais de escritório. Agora, havia um computador, ligado com a firma, e um Rolodex, com os nomes

e endereços de todas as pessoas com quem Jeff mantinha relações profissionais.

Se tivesse de fazer uma busca, Laura não saberia para que nomes deveria ligar primeiro. Jeff não falava com ela sobre seus clientes, a menos que encontrassem algum

em uma festa. Ele atribuía um alto valor ao aspecto confidencial de seu trabalho, o que Laura sempre respeitara. Jeff era um homem íntegro.

Atraída a entrar na sala pelo cheiro de mofo da coleção de livros

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antigos do marido, ela deixou que o clima atenuasse sua tensão. Com uma iluminação suave, como estivera durante toda a noite, o lampião verde na mesa, aceso, irradiava



na sala uma sensação de história. Com bons motivos. Havia naquelas prateleiras um sortimento de livros, fotos e

mementos que documentavam a vida em comum do casal.

Arrumados de forma impecável, como era o estilo de Jeff, havia livros dos tempos da universidade, das matérias que ele estudara, como Relatório Financeiro, Tributação

Federal Avançada, Auditoria, e das matérias de Laura, Literatura Americana, Antropologia para Principiantes e Francês. As prateleiras de Jeff também continham livros

sobre questões avançadas de contabilidade, que ele lera em cursos de pós-graduação, além das coleções sempre crescentes do Journal of Accoiintnncy e da Mnssnchi?setts

CPA Review. Já as prateleiras de Laura, refletindo o fato de que largara os estudos depois de um ano de curso superior, exibiam livros de fotografia, anos da National

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